UM POEMA DE BLAKE

por Afonso Guerra-Baião

Temo o homem que só conhece um livro”, disse Tomás de Aquino, o grande teólogo medieval. O homem de um livro só é aquele cuja visão de mundo é esquemática e seu esquema é a antítese. Para ele, a existência se reduziria a um dualismo radical entre pólos irreconciliáveis: luz contra trevas, bem versus mal, alma em oposição a corpo, fiel contra infiel, hetero versus homo, etc. Essa visão de mundo tem um nome antigo: maniqueísmo.

Sistematizado no século III pelo religioso Maniqueu, que dizia ter recebido uma revelação dos anjos, o pensamento maniqueísta é o objeto do temor de Tomás de Aquino. Como pode o homem de um só livro fazer a leitura do complexo texto da existência? Esse desafio requer um leitor enciclopédico, capaz de substituir a imobilidade da antítese pela dinâmica do paradoxo: neste, os opostos não estão fatalmente separados, mas interagem na constituição do ser que, movido por suas contradições, está sempre em devir.

Fragmento de livro maniqueista de origem Uygur (VIII – IX d. C.). Fonte: Wikimedia.

Mas para que os anjos não levem a culpa pelo maniqueísmo, precisamos nos lembrar de William Blake (Inglaterra, século XVIII), homem de múltiplas leituras, artista eclético e que também dizia ter visões angelicais. Para esse místico, as injustiças sociais e a pobreza não eram obras do demônio, mas eram consequências do sistema econômico e das decisões dos governantes; para o poeta cabe ao homem superar as próprias contradições, através de novas sínteses.

Antecipando-se a Bachelard, Blake compreendeu que o real é ambíguo e que, por isso, não é irreconciliável com o sonho. No poema “The clod and the pebble”, a figura do Amor lembra menos Cupido que Janus, o deus de duas faces – metáfora do real em diferentes versões: a visão otimista do frágil torrão, o olhar pessimista da dura pedra. Ao apresentar essas versões, sem juízo de valor, o poeta supera o impasse através da arte: a síntese que recria o real em dimensão estética. Compartilho aqui a tradução que fiz desse poema.

O TORRÃO E A PEDRA

“Amor não busca o próprio gozo,
E nem se cuida com esmero,
Mas dá a outros seu conforto
E cria céus dentro do inferno.”


Assim algum torrão de terra
Cantava, sob pés, na estrada;
Mas, beira-rio, uma pedra
Responde-lhe com essa quadra:


“Amor só busca o próprio gosto
E torna o outro escravo seu,
Goza no alheio desconforto,
E faz um inferno no céu.”

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6 comentários

FRANCISCO CEZAR DE LUCA PUCCI 17/06/2021 - 7:40 PM

Interessante, principalmente, pela abordagem dialética da realidade. O texto deixa ver que Blake já apontava para as bases econômicas dos problemas sociais muito antes de Marx. Nunca havia lido isso. Os artistas se antecipam aos filósofos na percepção das coisas.

Pucci
COP21: “Não defendemos a natureza. Somos natureza que defende a si mesma”.

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Afonso Guerra-Baião 17/06/2021 - 9:31 PM

Obrigado, Francisco Cezar! Pois é… Se não me engano foi Lacan quem disse que “Os poetas são os que menos sabem, mas são os primeiros a saber”.

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Rodolpho Luiz de Lorenzi 18/06/2021 - 10:53 AM

Caiu como uma luva, tão atual e o que temos vivido, essa polarização, dualidade me fez pensar como estamos engessados no conceito cartesiano e estruturalista de se conceber a ideia das coisas

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Afonso Guerra-Baião 20/06/2021 - 3:46 PM

Obrigado pela leitura e pela resposta, Rodolpho!

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luca barbabianca 20/06/2021 - 11:39 AM

Afonso, sua ‘tradução’ (ou seria recriação) do poema de Blake está magnífica. Parabéns!

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Afonso Guerra-Baião 20/06/2021 - 3:45 PM

Obrigado, meu caro Luca! A avaliação de um poeta como você muito me incentiva!

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