CURSO CINEMA E PSICANÁLISE: HISTÓRIAS REAIS

por Izabel Liviski

O Curso Cinema e Psicanálise: Histórias Reais, que terá início no próximo dia 9 de junho, será ofertado pelo ambiente virtual da UEPG / NUTEAD¹.

Toda história de vida renderia um bom filme. Algumas delas foram retratadas pelo cinema. Com elas podemos exercer a leitura psicanalítica dos enredos criados pelo inconsciente, pela vida, pelos encontros e desencontros de outras histórias. Este curso vai analisar 8 filmes baseados em acontecimentos. Amor, Liberdade, Crime, Castração, Narcisismo, Morte, Desejo, Loucura, Neurose, Psicose, Perversão, Gozo, Poder e Criatividade serão alguns dos grandes temas que vamos trabalhar.  Veja mais detalhes, no cartaz abaixo.

Neste link você pode fazer sua inscrição: https://ead.uepg.br/site/curso/244/436

Boas vindas!
Célio Pinheiro

¹ UEPG- Universidade Estadual de Ponta Grossa (Paraná)/ NUTEAD – Núcleo de Tecnologia e Educação Aberta e a Distância.

Informações:

O que as histórias ditas reais retratadas no cinema podem nos ensinar? O que de fato podemos entender como real em uma história contada através do cinema? A construção de uma biografia através do filme é um exercício árduo. Não é possível remontar minuto a minuto a vida de uma pessoa. Contar sua história implica trazer à tona e à tela momentos marcantes, acontecimentos decisivos, decisões impactantes, dramas vividos, acidentes ocorridos e o encontro com outras pessoas cujos relacionamentos alteram os cursos de vida, tanto em aspectos positivos (como as histórias de amor e as histórias edificantes) quanto em aspectos trágicos (nos casos de violência, morte, etc.). Construir um caso na Psicanálise seria da mesma ordem da apresentação de uma história real? Pierre Bourdieu em seu clássico artigo A Ilusão Biográfica, crítica categoricamente a ideia de que a vida seja uma trajetória marcada por começo, meio e fim, e com um sentido implícito ou mesmo explícito. Escreveu ele: Produzir uma história de vida, tratar a vida como uma história, isto é, como o relato coerente de uma seqüência de acontecimentos com significado e direção, talvez seja conformar-se com uma ilusão retórica, uma representação comum da existência que toda uma tradição literária não deixou e não deixa de reforçar. (1996, p. 185). De fato, as formas organizadas de publicação das trajetórias de vida de pessoas que se tornaram conhecidas (artistas, políticos, descobridores, assassinos, militantes…), parecem nos indicar que elas seguiram um fio condutor em suas vidas, um percurso, um trajeto, um script. Em geral o tempo e as sequencias de tempos são esses fios condutores que nos contam as peripécias ocorridas nestes intervalos. Mas e o próprio sujeito retratado sente e conta sua história dessa mesma forma? Entende ele sua vida como uma sucessão temporal de acontecimentos? O contraponto a essa visão é dado pelo próprio Bourdieu no mesmo artigo, destacou: Como diz Allain Robbe-Grillet, “o advento do romance moderno está ligado precisamente a esta descoberta: o real é descontínuo, formado de elementos justapostos sem razão, todos eles únicos e tanto mais difíceis de serem apreendidos porque surgem de modo incessantemente imprevisto, fora de propósito, aleatório. (1996, p. 185). O grifo revela sua importância para articulações com conceitos da Psicanálise. Neste mesmo sentido, Guimarães Rosa (2001, p. 80) escreveu: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”. E se quiséssemos continuar com Guimarães Rosa, diríamos que o que conta mesmo é a ‘travessia”, o “entre’ e não o sentido geral da história. Retomando a pergunta inicial, o que nos interessam nas histórias contadas pelo cinema não é o todo das biografias, pois elas passam pelo crivo da criação de sentido dado tanto pelo biógrafo, quanto pelo escritor, pelo roteirista e pelo diretor. Mas sim, nos interessam os pontos de injunção do Real na história, aqueles que possivelmente provocaram as viradas, que traumatizaram, que alteraram os rumos, as palavras que utilizaram para expressar o real que experimentam. Aqui o cinema é pródigo em nos remeter a essas vivências de forma emotiva, visual, colorida, cheia de sons, uma recriação do instante vivido por aquela figura retratada. Com essa história que nos é transmitida podemos fazer muitas coisas: sermos despertados para emoções escondidas, podermos identificar em nós características em comum e, no limite, podemos fazer teoria, ou seja, transformar em conceitos elaborados aquilo que para os personagens são pura vivência. De grande valia então, a transposição dessas histórias para as telas. E quantas transformações importantes ocorreram após o cinema ter tornado conhecidas essas histórias de vidas! Com esse pensamento é que esse curso busca trazer a análise de filmes cujas seqüências narrativas nos possibilitem conhecer mais sobre as potencialidades humanas, nos permitam conhecer e estudar as complexidades da subjetividade, nos ensinem a melhor manejar a vida e a relativizar as formas de lidar com os dilemas. O cinema e as tentativas de transposição das vidas e de acontecimentos reais podem ter um caráter preventivo por atuar como modo de estudar e prever acontecimentos terríveis e possíveis encontros desastrosos. Freud escreveu a palavra ‘fragmento’ para referir-se a acontecimentos dentro de um tempo e de dados biográficos consistentes afim de tornar conhecido um caso clínico. Pode-se afirmar que o cinema faz algo parecido. E são com esses fragmentos que construímos algo maior. Iremos além dos dados biográficos cuidadosamente escolhidos para aparecer na tela, vamos buscar outras fontes para cruzar informações, distorções e especialmente arriscar interpretações que levem em conta outras variáveis que não apenas a linearidade de uma biografia montada. Articulado a isso, encontramos em Bourdieu (1996, p. 189): Tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de acontecimentos sucessivos, sem outro vínculo que não a associação a um “sujeito” cuja constância certamente não é senão aquela de um nome próprio, é quase tão absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto no metrô sem levar em conta a estrutura da rede, isto é, a matriz das relações objetivas entre as diferentes estações. Também, André Borges de Mattos (2006, p.4) em seu artigo (Re)Pensando o uso da autobiografia como fonte para a pesquisa antropológica: uma análise das “Confissões” de Darcy Ribeiro, afirma que “somente na narrativa os acontecimentos dispersos de uma vida adquirem coerência”. Esta proposta irá oportunizar momentos de interação entre o profissional da área da Saúde Mental e o público-alvo, a comunidade interna/externa à Universidade Estadual de Ponta Grossa, no formato de “Conversa com o Psicanalista”. O evento prevê momentos de estudo orientado, bem como a abertura de um espaço para exposição de demandas relativas aos temas propostos. Os textos e demais conteúdos propostos para estudo auxiliam na compreensão dos fenômenos. Este evento vinculado ao projeto de extensão “Techné: socialização da EaD como formação e política pública”, cujo objetivo é promover ações extensionistas de cunho formativo e informativo para atender demandas da sociedade, ofertando cursos, serviços e eventos disponibilizados no âmbito da Educação a Distância, da Educação Aberta e da Educação Tecnológica. Em síntese, o projeto “Techné”, ao qual se integra “Cinema E Psicanálise – Histórias Reais” compreende ações extensionistas próprias do Nutead, abrindo-se, ainda, a parcerias que envolvam a promoção de extensão na EaD.

Fonte: https://ead.uepg.br/site/curso/244/436

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2 comentários

Afonso Guerra-Baião 31/05/2021 - 10:21 AM

Quando lemos, quando assistimos a um filme ou a uma peça teatral, nós nos debruçamos sobre versões de nossa própria vida “mise en abyme”.

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Izabel Liviski 01/06/2021 - 12:02 PM

Vdd! Afonso, esse curso vai ser ótimo, um mergulho na alma humana, em todos
seus aspectos, sombra e luz.

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