JACAREZINHO 2021

por Afonso Guerra-Baião

Sangue nas veias corre como raiva,
a raiva que se lança pelas bocas,
bocas de fogo vomitando balas,
balas que embalam morte à queima-roupa;

sangue nos olhos cegos pela fúria,
a fúria que dispara a metralha,
a dor, a morte no atacado, pura,
a pura ira a granel, granada

nas mãos que dão banho de sangue, bomba
em grãos de raiva estilhaçada. Tromba
d´água salgada em nossos olhos, pranto,

pranto que lava agora nosso chão,
o nosso chão que era de estrelas, quando
luar é que invadia o barracão.

Karl Bryullov – “The last day of Pompeii” (1830-33) – detail

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17 comentários

Wanda Camargo 19/05/2021 - 2:17 PM

Muito bom!

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Afonso Guerra-Baião 19/05/2021 - 8:07 PM

Gratidão, Wanda! Meu abraço!

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Maria Auxiliadora de Paula Ribeiro 20/05/2021 - 8:25 PM

E… O chão do barraco outrora de estrelas se tinge de sangue.
Eis o resultado de um massacre cruel, ocasião em que, vilipendiando direitos, policiais invadem moradias e matam cidadãos em nome da lei.
Parabéns, Afonso, por expressar através do lirismo de seu poema o sentimento do mundo, diante de uma barbárie que mais uma vez enoda a polícia militar, enquanto deixa a sociedade civil pasma de espanto.

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FRANCISCO CEZAR DE LUCA PUCCI 19/05/2021 - 6:26 PM

A poesia tem a virtude de falar à alma. A notícia fala ao cérebro. A fotografia fala aos sentidos e todos esses meios aos sentimentos. Apenas a poesia e a fotografia possuem a arte, portanto o inefável ou o horroroso. A notícia apenas o rigor da linguagem e a intenção da mensagem. Isso se vê claramente neste poema. Uma tragédia posta na linguagem da alma, mudando nosso olhar “da coisa” para “as coisas”. Belíssimo.

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Afonso Guerra-Baião 19/05/2021 - 8:11 PM

Pois é, Francisco Cezar, seu comentário me fez lembrar a frase de um personagem de Hilary Mantel: “Um estatuto é feito com o objetivo de aprisionar o sentido; um poema, com o de libertá-lo”. Como vc disse, o poema vai da coisa para as coisas: para o sentido plural do mundo, Obrigado, meu caro, grande abraço!

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Marha das Graças C Bregunci 19/05/2021 - 9:44 PM

Linda e refinada construção intertextual, impactante em todos os sentidos tocados! Obrigada, Afonso, por ‘traduzir’ tão bem até o indizível, para muito além de nosso torpor!

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Afonso Guerra-Baião 20/05/2021 - 2:50 PM

Gracias, Graça, pela sensibilidade de sua leitura e de seu comentário!

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Marlene 20/05/2021 - 8:24 AM

Parabéns pelo poema, Afonso!

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Afonso Guerra-Baião 20/05/2021 - 8:56 AM

Obrigado, Marlene!

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Clara Baião 19/05/2021 - 8:15 PM

Parabéns, Afonso, pelo expressivo poema, que nos alerta para os momentos vividos hoje.

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Afonso Guerra-Baião 20/05/2021 - 8:57 AM

Grato, Clara!

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André Luiz Baião Campos 20/05/2021 - 10:32 AM

O poema nos traz aos olhos a vertigem dos nossos dias. Parabéns.

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Afonso Guerra-Baião 20/05/2021 - 2:52 PM

Obrigado, André!

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Maria Auxiliadora de Paula Ribeiro 20/05/2021 - 11:28 PM

E… O chão do barraco outrora de estrelas se tinge de sangue.
Eis o resultado de um massacre cruel, ocasião em que, vilipendiando direitos, policiais invadem moradias e matam cidadãos em nome da lei.
Parabéns, Afonso, por expressar através do lirismo de seu poema o sentimento do mundo, diante de uma barbárie que mais uma vez enoda a polícia militar, enquanto deixa a sociedade civil pasma de espanto.

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Afonso Guerra-Baião 24/05/2021 - 5:05 PM

Pois é, Auxiliadora! É a poesia sustentando o sentimento do mundo, nesse trágico momento que vivemos. Grande abraço!

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André Luiz Reis Mattos 17/06/2021 - 3:28 PM

Que força nas palavras Afonso… pena ainda precisarmos de falas como a sua para confrontar realidades tão crueis.

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Afonso Guerra-Baião 17/06/2021 - 4:30 PM

Obrigado, André Luiz! Pois é… Vamos somando forças nessa luta!

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