O Homo Faber e o Homo Loquens: uma descoberta contemporânea

por Márcia Carneiro

Antônio Marcos Muniz Carneiro

Possui, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, doutorado e mestrado em Comunicação e Cultura, especialização em Educação e Desenvolvimento de Recursos Humanos, especialização, bacharelado e licenciatura em Letras. Tem experiência em pesquisa, ensino e extensão em comunicação, linguagem e cultura técnica dos setores produtivos em diversos áreas de conhecimento do Programa de Engenharia de Produção da COPPE/UFRJ, com enfoque nos seguintes temas: comunicação e linguagem de sistemas de produção, metodologia do texto científico, epistemologia do trabalho, gestão do conhecimento, ergonomia cognitiva, metodologias participativas de projetos, educação tecnológica, gerenciamento socioambiental costeiro e gestão da pesca de pequena escala ou artesanal. Atualmente, dedica-se às seguintes áreas e temas vinculados à engenharia da sustentabilidade: gestão sustentável de ecossistemas aquáticos; etnociência e sociocognição para a conservação sustentável; conhecimentos ecológicos tradicionais dos pescadores artesanais; plano de manejo participativo de reservas extrativistas marinha; extensão pesqueira participativa. Pós-Doutorando do Programa de Planejamento Energético COPPE/UFRJ

O Homo Faber e o Homo Loquens: uma Descoberta Contemporânea

Antônio Marcos Muniz Carneiro

Introdução

A descoberta contemporânea ressaltada por este artigo refere-se a relações intrínsecas entre a linguagem e a tecnologia que remontam as rupturas na história das técnicas, desde a revolução do neolítico, a techné da Grécia Antiga até a revolução das novas tecnologias de base microeletrônica ocorrida a partir da segunda metade do século XX ante a mudanças paradigmáticas no campo científico-tecnológico, decorrentes da crise do pensamento cartesiano-newtoniano e a emergência da complexidade (Santos, 1995; Morin, 2000; Prigogine, 2001; Genelot, 2001; Carneiro, 2019.). As novas tecnologias estariam cada vez mais flexíveis e adaptáveis aos seus contextos de uso em uma realidade complexa cujas partes agem reciprocamente ou em interação, alternativas aos movimentos lineares e repetitivos como no padrão industrial taylorista-fordista e a interatividade do diálogo, em um desempenho axial semelhante ao efeito da escrita na passagem das sociedades nômades para as sedentárias na demarcação dos seus territórios. Enfim, a partir das novas tecnologias, pôde-se inferir a existência de uma homologia ou relação intrínseca entre a linguagem e a tecnologia.

Essas relações intrínsecas – ou homológicas – entre a linguagem e a tecnologia serão focalizadas em um breve estudo sobre as origens da escrita como uma poderosa ferramenta cujos impactos contribuíram para revoluções tecnológicas, identificáveis na história das técnicas. Tal estudo ressalta uma ruptura radical promovida com o advento da escrita, a exclusão do enunciador do ato da enunciação ou do ato de fala único do narrador, substituído pela crença de um dizer perene, impessoal, inscrito em um artefato exterior à memória natural das narrativas, dando lugar ao papel social do intérprete. E, para a apreensão dessa mudança de “tecnologia de linguagem ou cognitiva”, reunimos alguns conceitos de um quadro teórico composto por contribuições de disciplinas das ciências da linguagem (semiótica, análise do discurso, pragmática) e da epistemologia da tecnologia.

Epistemologia, Homologia e Pragmática

As relações intrínsecas entre linguagem e tecnologia

“A Linguagem como Trabalho e como Mercado”, do semioticista italiano Ferruccio Rossi-Landi (1985) é precursora da noção de uma homologia entre a linguagem e os utensílios materiais para a discussão do papel ideológico dos sistemas semióticos no planejamento social. Ele propusera um esquema homológico entre a linguagem e o trabalho. Segundo este autor, esse relacionamento intrínseco pode ser compreendido em razão do “artefato” ser concebido como um objeto que resulta sempre de uma intervenção humana. Nesse sentido, Fernando Flores (1987) postulou depois que toda a tecnologia é um projeto – ou design – de práticas e possibilidades que são realizadas através de artefatos, ao contrário da referência em geral que se faz, apenas, a constructos técnicos ou a artefatos – utensílios e instrumentos. Pode-se compreender com Zarifian (1996) que, no domínio da linguagem, uma experiência real não está fora, mas dentro da linguagem. Para este autor,

o trabalho – por exemplo – existe na linguagem como um conjunto de enunciados de natureza discursiva. Por ser uma experiência humana em si mesma, a linguagem se desenvolve com o seu próprio grau de realidade.

Portanto, falar – ou dizer qualquer coisa – não consiste em “trazer” o objeto do discurso para dentro da linguagem. Segundo Lévy (1994), não haveria bem nenhuma distinção real entre a técnica e as ordens cultural, simbólica, ontológica e axiológica cuja toda maquinaria se constituiria de um transcendental histórico que organizaria a experiência de uma coletividade. Em uma abordagem epistemológica do conhecimento tecnológico, Thiollent (1994), destaca as propriedades cognitivas (formas de raciocínio de tipo “projetação” ou “resolução de problemas”) e normativas (adequação dos projetos a normas ou valores econômicos, sociais, estéticos, ambientais etc.). Distinguindo do estatuto da ciência pura, que tem por objetivo a compreensão ou a explicação do mundo, a tecnologia consiste na concepção de objetos técnicos dotados de propriedades naturais e sociais, capazes de alcançar determinados objetivos com a interferência de normas de conteúdo social, econômico ou cultural.

A importância da linguagem adquirida no contexto da complexidade deve ser compreendida em seus pressupostos pragmáticos e/ou enunciativos. Isso se deve à viragem das atuais tecnologias que se distinguirem tanto das técnicas quanto das tecnologias anteriores por elas serem agora “dispositivos”, não sendo mais, apenas, utensílios de produção nem instrumentos para tornar a nossa percepção de mundo mais fiável. Os dispositivos técnicos dessas novas tecnologias incidem diretamente sobre a linguagem, tendo com estas relações intrínsecas, por explorarem suas estruturas lógicas, configurando-se técnicas logísticas e, por isso, tendendo à realização de projetos que, até então, competia ao imaginário mítico do discurso. De certo modo, as novas tecnologias tendem a reduzir o intervalo entre o “fazer” e o “dizer”, atualizando a função pragmática das narrativas míticas como discursos fundadores de novas culturas.

Segundo Rodrigues (1994), as novas tecnologias são dispositivos de linguagem, pelo fato delas explorarem as estruturas lógicas da linguagem ou por serem técnicas logísticas. Fairclough (2001), porém, adverte sobre os riscos de apropriação da linguagem (ou discurso) para ações estratégicas e instrumentais, como descritas por Habermas em termos de colonização do “mundo da vida”. Ele designa esse processo de “tecnologização discursiva”, que constrói essas relações intrínsecas entre a linguagem a tecnologia nas sociedades capitalistas contemporâneas. Entretanto, para esse linguista inglês, diferentes práticas discursivas (pesquisa social, ensino, publicidade, trabalho em grupo etc.) podem impulsionar uma tecnologização emancipatória, proporcionando mudanças debaixo para cima (bottom-up).

Tipos de Sujeitos e Principais Concepções de Linguagem

Com base em uma abordagem fenomenológica do sujeito (Rodrigues, 1994), foram extraídas três posições de sujeito que podem ser assumidas no espaço do discurso: sujeito cartesiano, sujeito inconsciente e sujeito-ator. A primeira, correspondente à linguagem como representação (“espelho”) do pensamento e do mundo, trata-se de uma atividade “senhorial”, capaz de construir, isoladamente, uma representação mental e de imprimi-la na mente do interlocutor. A segunda refere-se a um “assujeitamento” do sujeito, determinado pelo sistema, correspondendo à língua como estrutura. Ao contrário da psicologização do sujeito cartesiano, quem fala é um sujeito anônimo, “porta-voz” do lugar ou instância por ele ocupado na sociedade e inserido numa ideologia. O que ele diz

pertence a um discurso anterior, a-histórico. Por último, chega-se à noção sociocognitiva de sujeito ativo, que equilibra subjetividade e objetividade, correspondendo à concepção de linguagem como “lugar de interação “ou como “jogos de linguagem”. Trata-se de um sujeito situado histórico e socialmente, cuja identidade é construída interativamente com o outro. Essa correspondência entre a tipologia de sujeito e as principais concepções da linguagem distintas anteriormente apoia-se em teoria pragmáticas da linguagem, que emergiram a partir da chamada “reviravolta linguística” no século passado.

A linguística estrutural negligenciara o locutor e o receptor e a linguística pragmática passou a incluí-los no estudo da linguagem e, principalmente, a relação entre eles, beneficiando-se do desenvolvimento da filosofia analítica de Oxford sobre os atos de fala da nova retórica belga e da linguística pragmática alemã (Mattelart, 1999). A obra do filósofo inglês John Austin – “How to do things with words” (1962) – passou a definir a linguagem não somente como descritiva de mundo ou informativa dos acontecimentos, mas também performativa, voltada para a realização de coisas. A partir dessa concepção não representacionista da linguagem, esta passa a ser compreendida como sendo essencialmente interativa, por implicar ações intersubjetivas, não constituindo apenas mediações das interações sociais, mas a constituinte delas mesmas.

A Escrita e suas Rupturas na História das Técnicas

A tecnologia sempre foi entendida como a utilização das técnicas e dos instrumentos, aplicação do conhecimento para fins práticos. Na história das técnicas, verifica-se que uma primeira ruptura ocorreu com o pensamento mágico, dando lugar a técnicas artesanais, fundadas numa racionalidade que se baseara na mestria humana da natureza. Depois, deu-se lugar à instauração de mecanismos automáticos que são dependentes da exploração das diferentes formas de energia, durante a implementação da era industrial. Ou seja, as técnicas e tecnologias sempre significaram utensílios de produção e instrumentos destinados a tornar a percepção humana do mundo exterior mais fácil, mais fiável e mais clara. Com as novas tecnologias, deu-se uma nova ruptura: o que competia, somente, à linguagem anunciar e projetar o mundo imaginário, agora, tornou possível a capacidade de realizá-lo com as tecnologias de informação, por comportarem ilimitadas virtualidades performativas. Essa mudança resulta de um longo processo, originário da antiga Grécia entre os séculos VI e IV antes da era cristã, quando a viragem se constituíra na fixação gráfica (escrita) das arcaicas narrativas míticas. Tal duplicidade entre a técnica e a linguagem é uma descoberta contemporânea: o homo faber e o homo loquens constituem duas faces da mesma moeda, não duas realidades separadas. Esta realidade, aliás, já fora percebida por Aristóteles ao definir o homem como zoon echon – um animal dotado de linguagem ou de razão. Essa relação se deve ao fato da interação do homem – mundo pressupor uma mediação simbólica da linguagem, diferindo-o dos outros seres, que se relacionam diretamente com o mundo. Segundo Rodrigues, esse fenômeno cultural da relação intrínseca entre a técnica e a linguagem teria origem nos discursos míticos:

“As mais arcaicas manifestações de discursos míticos que chegaram até nós são formas discursivas de legitimação da revolução técnica do neolítico, da descoberta da domesticação dos animais, da pastorícia, da agricultura, do fogo, do ferro, inventos intimamente associados ao aparecimento das primeiras formas sedentárias de organização da vida social.” (Rodrigues, 1994: 205).

Ao tratarem da escrita como tecnologia, Lévy (1995) e Dias (2000) contribuem, também, na elucidação desse relacionamento intrínseco entre a linguagem e a tecnologia. No capítulo “A Escrita e a História”, Lévy narra o aparecimento da escrita em concomitância

com o do Estado, buscando explicitar as implicações recíprocas entre eles. O declínio do tempo nômade manifestara-se nas inscrições feitas pelos senhores dos primeiros Estados para demarcar o poder da autoridade no solo – ou a territorialidade. Para isso, foram erigidos os muros das cidades e dos templos, como forma de fixarem no espaço a durabilidade de seus poderes, anunciando, pois, o fim de um devir sem marcas. A escrita se prestava, então, para perenizar sobre o granito dos monumentos as palavras dos sacerdotes e reis, auferindo-lhes como autores um total domínio sobre os seus textos enunciados e restringindo a atuação do leitor por lhe vedarem qualquer possibilidade de mudança textual. Essa fixação tornara a fala inalterável para sempre, por retomar as palavras inscritas textualmente, simulando a perenidade de seu autor, como se este fosse seu único enunciador ou continuasse lá presente em pessoa para sempre. Em suas reflexões sobre as relações entre a escrita e a tecnologia, Dias observa que, com o advento da imprensa, a transformação das ideias em monumentos e fixações provocara a perda do papel do leitor na formação do texto, por meio de uma progressão linear das páginas do livro. A escrita, como uma poderosa ferramenta, transformara-se em uma autoridade imponente e incontestável, conforme explica Lévy:

“Através da escrita, o poder estatal comanda tanto os signos quanto os homens, fixando-os em uma função, designando-os para um território, ordenando-os sobre uma superfície unificada. Através dos anais, arquivos administrativos, leis, regulamentos e contas, o Estado tenta de todas as maneiras congelar, programar, represar ou estocar seu futuro e seu passado. E é perseguindo o mesmo objetivo que manda construir monumentos, depósitos e muralhas nas cidades, e que mantém, a um alto custo, os silos, os canais de irrigação e as estradas.” (Lévy, 1995:88)

A escrita se prestara para a gestão dos grandes domínios agrícolas (organização da corvéia e dos impostos). Como uma tecnologia da inteligência, a escrita não se contenta em servir ao Estado, seja para o planejamento agrícola, seja para o planejamento das cidades. Ela, ao traduzir o espaço-tempo instaurado pela revolução neolítica e as primeiras civilizações para a ordem dos signos, propiciou, pela primeira vez, a separação entre o discurso e as circunstâncias particulares de sua produção. Com a escrita, pôde-se eliminar a mediação humana no contexto da interação para a adaptação ou a tradução das mensagens oriundas de outro tempo e lugar. Ao contrário, o narrador das sociedades orais primárias podia adaptar a sua narrativa ao contexto de sua enunciação, tornando a transmissão sempre um ato de adaptação e traição. Cabia a ele formular o pensamento de seu emissor de acordo com a receptividade de seu destinatário. Já a descontextualização das mensagens através da escrita fez com que a atribuição de sentido ocupasse um lugar central na comunicação. Do ponto de vista semiótico, o papel da hermenêutica, cuja importância se constituíra desde o terceiro milênio antes de Cristo no Egito e na Mesopotâmia, abrangia – além de expressões hieroglíficas e cuneiformes em papéis e tabuinhas – sintomas, signos e presságios no cosmo (estrelas celestes, peles, entranhas dos animais etc.). A partir de então, o mundo passaria a ser visto como um grande texto – ou uma esfinge – para a sua decifração, demandando um trabalho de interpretação para reduzir a distância entre o autor e o leitor, que passara a crescer de geração em geração, e com isso obter a diminuição da tensão semântica. Entretanto, a leitura revela o paradoxo implicado nessa tecnologia, com a qual se desejava eliminar as diferenças. A interpretação gera diferenças, conflitos, ao inscrever a exegese no papel, construindo uma irreversibilidade ao se escrever uma leitura.

O surgimento da escrita trouxe consigo sentimentos de ameaça inicialmente, a formação do saber teórico e a sistematização de conhecimentos. Em Diálogos, Platão atribui de modo irônico a Sócrates argumentos contrários à escrita, refletindo uma visão unilateral em relação a ela, por não lhe considerar a ambiguidade que caracteriza toda inovação tecnológica – a ser discutida no item seguinte. Em um dos diálogos descritos pelo filósofo

grego, Sócrates narra para o seu discípulo Fedro a rejeição do faraó Thamus à escrita, uma das invenções de Theuth, o deus das invenções. Para o rei egípcio, a escrita provocaria em seus usuários um processo de esquecimento, por eles terem que, necessariamente, substituir os recursos internos da memória por sinais externos a esta, sendo o invento, portanto, uma receita útil à recordação, não à memória. Também, no romance de Victor Hugo, “O Corcunda de Notre Dame”, um sacerdote medieval identifica a escrita como uma ameaça. Esse temor se justifica na época medieval, quando o acesso aos manuscritos cabia somente a uma elite alfabetizada do clero, deixando para as massas a transmissão, através das imagens contidas nas catedrais, das histórias bíblicas, dos princípios morais, fatos históricos e noções elementares de Geografia e Ciências Naturais. Diferentemente da tradição hermenêutica, a escrita propiciou o surgimento das teorias, por ela ter suscitado a pretensão de alguns autores cujos saberes deveriam ser apresentados, independentemente, das situações singulares em que foram gerados. Isso resultara da ambição teórica de universalidade, ao transformar em restrições fecundas os obstáculos à interação entre emissor e receptor na comunicação escrita. Esse programa da teoria, seja na ciência como na filosofia, implica a sua autonomia em relação à tradição, que se fundava na co-presença do orador e do ouvinte para a transmissão do saber sobre uma base de conhecimentos compartilhados. A ascensão do gênero teórico, proporcionada pela notação escrita, reflete o declínio do modo narrativo como o suporte para a socialização do conhecimento, fazendo surgir um pensamento categórico ou lógico, deslocado de um pensamento situacional:

“Contrariamente ao sinal mnésico, o vestígio escrito é literal. Não sofre as deformações provocadas pelas elaborações. Não há risco que os esquemas da grande rede semântica da memória de longo prazo venham a dissolver suas singularidades. Por suas características, a escrita e o armazenamento em geral se aproximam bastante da memória de curto prazo. É um pouco como se a tabuinha de argila, o papiro, pergaminho ou a fita magnética repetissem incansavelmente, mecanicamente, aquilo que confiamos a eles, sem tentar compreendê-los, sem conectá-los a outros elementos de informação, sem interpretá-los. A escrita é uma forma de estender indefinidamente a memória de trabalho biológica. As tecnologias intelectuais ocupam o lugar de auxiliares cognitivos dos processos controlados, aqueles que envolvem a atenção consciente e dispõem de tão poucos recursos no sistema cognitivo humano. Desta forma, as tecnologias intelectuais servem como paliativo para certas fraquezas dos processos automáticos como as heurísticas de raciocínio e os mecanismos esquematizantes da memória de longo prazo. “(Lévy, 1995:91-92).

Pôde-se inferir que, com a escrita, o conhecimento não é autônomo nem se estabiliza em relação a seus suportes. Essa passagem da cultura oral à cultura escrita como tecnologia proporcionou o surgimento de novas racionalidades, novas formas de compreender e intervir no mundo. Favorecido pela objetivação e impessoalização da memória, o saber passou a ser estocável, consultável e comparável por especialistas do saber cuja acuidade peculiar é o tratamento de uma verdade independente dos sujeitos que se interagem ou comunicam. Essa objetivação da memória torna-se suscetível de exame e análise, obtida por um efeito de necrose parcial da memória social dentro de uma rede de signos constituída pela escrita, segundo Lévy. Essa rede semântica tecida pela escrita transformara-se profundamente, a partir da criação da prensa por Gutenberg, passando pelos meios de reprodução automáticos e de transmissão de sons e imagens a longas distâncias, até a informática hoje. O triunfo da impressão passou a oferecer novas possibilidades de novas combinações e de associações de uma rede de textos acumulativa e disponível para um leitor isolado e que lê silenciosamente, sem a intervenção de um mestre com suas interpretações. Através da técnica de exposição escrita, que se apresenta como autossuficiente, pôde-se pleitear o método de exposição

analítica do matemático Ramus, oposto ao estilo escolástico, que introduziu a espacialização da matéria projetada sobre tabelas, mapas e frações, como também a sua distribuição em função de um plano geral no livro. E as interfaces da impressão permitiram a generalização das apresentações sistemáticas da matéria, organizando-se em paginação regular, sumário, cabeçalhos, índice, tabelas, esquemas, diagramas. Sem querer deduzir uma determinação pela prensa o pensamento científico moderno ou das obras de racionalistas como Descartes e Leibniz – diretor de uma biblioteca na Alemanha e teórico da catalogação, ressalta-se, apenas, as condições favorecidas por essa tecnologia para o desenvolvimento de novas formas de apreensão e atuação do homem no mundo. Foi a partir do abandono da discussão verbal, característica dos hábitos intelectuais da Idade Média, que a inspeção silenciosa de representações visuais (mapas, gráficos, textos despojados de comentários e digressões, dicionários) tornara-se o centro das atividades científica e profissional da modernidade industrial.

Considerações Finais

As teorias da reviravolta linguística juntamente com a epistemologia tecnológica no contexto das mudanças paradigmáticas juntamente com a eclosão posterior das novas tecnologias transformadas em dispositivos, não mais instrumentos ou utensílios, contribuíram para a descoberta recente das relações intrínsecas entre linguagem e tecnologia. Tal descoberta nos proporciona ressignificar as narrativas míticas em seus sentidos de “religare” o Homem com a natureza, não opondo o homo faber ao homo loquens

Referências Bibliográficas

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LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência. Rio de Janeiro: 34 Literatura S/C Ltda, 1993.

MATTELEART, Armand e Michèle. História das Teorias da Comunicação. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

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ROSSI-LANDI, Ferruccio. A Linguagem como Trabalho e como Mercado – uma teoria da produção e da alienação linguísticas. São Paulo: DIFEL, 1985.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Um Discurso sobre as Ciências. Porto: Edições Afrontamento, 1995.

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ZARIFIAN, Philippe. Travail et Communication – essai sociologique sur le travail dans la grande entreprise industrielle. Paris, PUF (Presses Univitaires de France), 1996.

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1 comentário

Maria Clara 10/01/2021 - 8:47 PM

Engraçado que a gente discute coisas parecidas, mas a partir de caminhos bibliográficos diferentes: eu parto de A farmácia de Platão do Derrida, e a história da escrita da Anne-Marie Christin (http://www.casaruibarbosa.gov.br/escritos/numero02/FCRB_Escritos_2_15_Anne-Marie_Christin.pdf)
Com Christin, a gente sabe que a escrita começa bem antes dos gregos, pois ao compreender a escrita como imagem, envolve outros tipos de inscrição que a humanidade faz no mundo, a partir do fundamento do “pensamento de tela”.

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