OS MELHORES POEMAS – 2020 – ANTOLOGIA

por Lucca Tartaglia
Organizadora: Isabel Furini
Capa e diagramação:
Carlos Zemek

Sem duvidar da arte, entregue-se e sonhe!

Está a poesia preparada para o prólogo? Este que se propõe como tempo anterior ao contato que levará leitoras e leitores a fruir pela arte poética apresentada nesta obra e que, mesmo com a melhor das intenções, nunca chegará a antecipar a emoção máxima da leitura deste livro. A poesia dispensa qualquer tipo de apresentação. É ela a representação e criação sublime do mundo em forma de linguagem pela qual escolhe seus meios e porquês. Prefiro pensar este momento como o proêmio poético que regará em dose sutil e precisa o caminho em que despontam poetas em seu florescimento e que se reúnem para compor o jardim em forma de livro, Melhores Poemas. Eis um título feliz para nomear esta obra, que vem em hora oportuna em que o mundo necessita cada dia mais do poético, deste estado de encantamento que, neste caso, chega pelo verbo. Pelo poder dócil e feliz de uma consciência do mundo que se materializa em poema.

Lembrando Clarice Lispector, “esta história não admite brincadeiras”! Ela convida ao balançar das folhas como letras em pautas de céus azulados. Ilumina como sol de outono as nuances das cores retratadas em vivos versos. Expõe ranhuras nas paredes dos sentimentos. Dá a pausa longuíssima do respirar em dia de descanso. Aqui cumpre-se o que a poesia sempre espera, o não entendimento, a saída do lugar-comum, a entrega de corpo e alma ao solfejo encantador da menina sonhadora em seu balanço de palavras.

Ao estar agora a rolar esta tela que suporta o belo, já não mais há a possibilidade de escapar do presente que invade aos “sons de asas ao vento” traçando a ideia e o caminho que alinhava artistas. Partimos nessas asas pela origem, finitude e tempo que permeia a poesia de Sonia Andrea Mazza. E ao notar que terá a condução do fio dessas linhas pelos poemas de Maria da Glória Colucci, Maria Teresa Freire e Daniel Mauricio, quem sabe irá sem pestanejar “dar razão ao prego” de Mailson Furtado Viana. E no fluxo inevitável do poético o mergulho nas águas profundas de Carla Ramos ao se perceber fênix liberta nas asas da borboleta que lhe oferece alma, adentrarmos na delicadeza do olhar de Jean Narciso Bispo Moura que abre galáxias pincelando sentimentos riscados em um Clic poema de Carlos Eduardo Muniz.

Ah, são tantos os caminhos da poesia que veremos pelos olhos de Maria Antonieta Gonzaga Teixeira gota por gota florescer os Ipês em aquarela e no misturar das cores o vasto silêncio que nos permite mágico encontro com Sheina Leoni e com as letras de Gustavo Henao Chica, Solange Rosenmann, Sonia Maria Cardoso, Valeria Borges da Silveira e Vanice Zimerman. O desenho das realidades propostas por diversas vozes como em Marilis de Assis que enaltece a força feminina, Elciana Goedert que pela luminosidade da palavra move mundo e Adam Mattos tirando lascas da gente, “tadinho de mim”.

Sim, o vento corre e é solto para seu além e dele encontramos a poesia de Rita Delamari e somos soprados a visitar Manoel de Barros com o mineiro Afonso Guerra-Baião em que o tempo do amor chega em colheitas de terra fértil e pousamos nas mãos precisas do artesão poeta Amaury Nogueira e sem perguntas caminhamos ao lado de Decio Romano e Pessoa sob os arvoredos de Lisboa.

Mundos e paisagens oferecidas por Izabel Liviski, que tece poemas como quem fotografa os dias e num susto percebemo-nos aquele grãozinho de areia delicadamente exposta pelas mãos da poeta Jessica Iancoski e brincamos, mais uma vez, com o vento pelos poemas de Katia Sentinaro e no enredo dessa linda e fantástica colcha de retalhos que se forma e cobre as páginas deste livro, vamos enumerando poemas e canções para decorar as horas com Marli Voigt até chegar aos cafés culturais e o Largo da Ordem para nos embebedarmos das palavras de Marli Terezinha Andrucho Boldori.

Pessoa não sairá incólume após provar tanta beleza! Confiar na poesia e no poder do poético é estar disponível a percorrer paisagens e sentimentos novos. Este é o convite que oferece o livro Melhores Poemas. E eu também afirmo: sem duvidar da arte, entregue-se e sonhe! Pois é isto que o poeta lhe oferece primordialmente ao olhar caos e verso pela ideia que agora é real através das mãos de Isabel Furini. Boa leitura!

(Flavia Quintanilha – Outubro de 2020 – Londrina/PR)

Esclarecimento:

O que significa o melhor? O que é superior, algo que contém o máximo de atributos desejáveis e, em uma obra de arte como é o poema, a procura do excelso não é incomum.

Neste e-book “Melhores poemas – 2020”, não visamos reunir os melhores poemas do mundo, nem do continente americano, nem de um país, nem de uma cidade. Nosso objetivo é reunir os melhores poemas de cada autor, aqueles que o poeta gostaria que fossem divulgados, declamados, elogiados.

Do jardim da poesia, cada poeta convidado escolheu seus mais amados poemas. Aqueles que ele cultivou com carinho, ou aquele que surgiu quase que espontaneamente criando a dúvida: será que fui eu mesmo quem escreveu?

Esta obra reúne as melhores manifestações do trabalho de cada poeta, que não precisa se esforçar em escrever melhor que o outro. Seu trabalho, diariamente, é aperfeiçoar sua própria escrita. A poesia não é um caminho de competição, é um caminho de autoaprimoramento.

Sim, esses são nossos melhores poemas. Essa é a nossa colheita. Esperemos que sejam como uvas agradáveis ao paladar, doces para a alma. (Isabel Furini)

Isabel Furini, mora em Curitiba/PR, nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1949. É poeta, escritora, educadora e palestrante. Foi colunista do Suplemento Viver Bem da Gazeta do Povo. É coeditora da revista Carlos Zemek. Ministrou a oficina de Criação Literária no Solar do Rosário. Seus poemas foram premiados no Brasil, Portugal e Espanha. Realizou Recitais de Poesia na 36a. Semana do SESC & XV Feira do livro de UFPR, Curitiba/PR, (em português e espanhol), e na Burlingame Public Library, na Califórnia, USA.

Pequena mostra do  e-book  “Melhores poemas” :

 Fim de tarde

                Isabel Furini

Insignificante a vida humana…

sentimo-nos tão importantes

e somos gotas de água

(delirantes)

no imenso mar da eternidade.

*

Poema sem título

                        Mailson Furtado Viana

as sandálias ao canto

guardam teus passos

e não sabem pra diante

o horizonte

guardam caminhos

guardam distâncias

guardam a próxima esquina

guardam o fim do mundo

que nelas começa

*

Fragmento do poema Infância

                                          Adam Mattos

A água fria cai sobre meus cabelos

Trazendo a lembrança de uma infância perdida

Outrora quando tempos singelos

Que ficaram para trás sem despedida

O rancor amarga minhas entranhas

Que com requintes de artimanhas

Me fez o homem que sou

Ou será que apenas estou?

*

LEITURA DE RUMI

                        Afonso Guerra-Baião

Deixa o silêncio falar.

Escuta.

Guarda tua boca

para provar a Doçura.

O EU

        Amaury Nogueira

Ontem eu era só

Hoje estou

Amanhã caminharei

somente eu em busca de mim!

*

COMO UMA ONDA NO MAR…

                                     Carla Ramos

Em Mar Aberto do Ser

Após arrebentações do Ego

O Nosso caminho de Ser…

É apenas um permitir fluir

Simplesmente e totalmente: Ser…

É o equilíbrio dinâmico: Tempo e Espaço

Ser dois em um só, sem gênero ou grau

Ao Ser continente: O mar, no masculino

E ser conteúdo: Amar, assim, bem no feminino

Ao se entregar em outro Mar Aberto do Ser..

*

Rotina do poeta

                    Carlos Muniz

Pés no chão.

Coração na mão.

Cabeça no ar…

Assim caminha o poeta

em busca de seu par.

*

Poética 3

            Daniel Mauricio

Ao pé da letra

Sussurro poesia

Se a pele arrepia

É sinal que alma ouviu.

*

Haicai

                Decio Romano

O pássaro espia.

O ramo seco em que pousa

Balança de frio.

*

CONFIANTE

                Elciana Goedert (Ciça)

De olhos fechados

e mente aberta,

mergulho…

arrisco….

dou uma incerta.

Ouço um barulho…

Fico alerta.

Venço o orgulho…

Espanto o medo…

Se preciso, espero…

Dispenso a regra.

Não sou deste aprisco…

Ovelha negra,

sei o que quero.

*

INFÂNCIA

                Izabel Liviski (Bel)

Só no sótão,

só…tão sozinha.

Era tão bom!

Seleções do Reader’s Digest,

todo dia.

*

 Com Tudo

                Jéssica Iancoski

Eu faço tudo com tudo.

Quando eu vim foi com tudo.

O tempo que, ainda, permaneço é com tudo

E quando conseguir partir, sim, será com tudo.

Contudo, já você:

Não é com tudo,

E sim,

Contundente.

*

BEM ME QUER OU MAL ME QUER?

                                             Katia Sentinaro

Bem ou mal sinto no dedos,

Desfolhando margaridas,

Ao desvendarem segredos,

sem ficarem constrangidas.

Bem me quer ou mal me quer?

Sempre dúbias e feridas,

Numa quer, noutra desquer.

Devem ser todas fingidas.

*

Quem sou

                Marli Terezinha Andrucho Boldori

Sou um santuário, mas

No meu âmago a ruína cresce

Escondo dos olhos

Para que não saibam

Quem vive dentro de mim.

*

Poema sem título

                    Marli Voigt

Olhe para o céu, ele diz:

És lindo! És Linda!

Na beleza de ser.

A gratidão de viver

*

Montanhas

                Maria Antonieta Gonzaga Teixeira

Pregos, cordas, martelos, artefatos

comuns e importantes para montanhistas corajosos.

Mochilas à costas, mãos calejadas não importam.

Chegar ao cume das montanhas é desafiador

– é o triunfo do alpinista sonhador.

*

CURITIBA

                Maria da Glória Colucci

Chuva,  chuveiro, chuvarada…

Chove de noite,

chove de madrugada…

Chove na rua,

chove na tua,

chove em nossa calçada…

*

BUSCA

        Maria Teresa Marins Freire

Caminhos sonhei

Caminhos percorri

Onde está

Minha alma

Que se perde a cada volta?

Onde está minha vida

Que se espalha

A cada passo?

*

Bodas

        Marílis de Assis

Casei-me

Em uma igreja de diamantes

Anjos cantavam Ave Maria

Vestida de puríssimo branco

Foi o mais lindo baile de máscara

*

SOFREGUIDÃO

                Rita Delamari

Ouço a voz do silêncio,

a paz que acalenta a noite,

a força do vento

que parece um açoite…

Mas, não, é a magia

da minha feliz solidão,

como um sussurro 

no infinito, na imensidão

de uma saga que, juro,

não é angústia… 

É vida, é sofreguidão!

*

EU VOCÊ

        Solange Chemin Rosenmann

Eu Você

Delineando os trajetos do corpo

Percebendo um arrepio na alma

Sinto, saudades grandes,

De braços que não me alcançam

De abraços que nunca dei

*

Abraço

        Sonia Maria Cardoso

Se você sentir um nó

Na garganta, grite

E te dou um abraço

E se for dor

No braço, também

Te abraço, se o coração

Apertar, te abraço e

O nó desfaço.

*

NEM A LUA…

               Valeria Borges da Silveira

O amor não resistiu…

Despencou… Caiu…

A noite esfriou.

O dia partiu…

Acabou… Sumiu… Fugiu!

O mar secou…

Nem a lua brilhou…

A dor gritou…

A vida gemeu…

A paixão simplesmente morreu…

*

Pêndulo ígneo

                Vanice Zimerman

Pausa

O pêndulo,

Ponteando

Pensamentos –

Promessas…

Ponta de fecha

Pele em ígneo

Pontilhismo

*

Relógio

        Jean Narciso Bispo Moura

o tempo corre menos do que o relógio

não olhe a vida pelo ponteiro da basílica

o homem quer em dúzias tudo aquilo

que o tempo dá em unidade

*

INTIMIDAD

               Gustavo Henao Chica

Ella iba sonriendo, caminaba lenta

Como disfrutando sus pasos

O sus pensamientos,

Sonreía por algo que solo ella sabia

Solo ella.

*

Porque te amor (fragmento)

                                    Leoni Lee

Por tus caricias de oro,

perfectas en sentimientos,

junto a ese afecto que añoro,

apenas te siento lejos…

*

EL ESPEJO DE LA SALA

                               Sonia Andrea Mazza

De pie en la penumbra de la tarde

Soberbio devolviendo algún destello.

Mística luna falsa, de cotidiana esencia

Donde se reverencian vanidades,

Testigo cruel de nuestra decadencia.

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