Cartas do menino antigo #2

por Lucca Tartaglia
Ensaios, crítica, crônicas e resenhas.

Neudimar,

Comecei a escrever uma crônica sobre os professores que mais me influenciaram e roubei o título da Zélia Gattai, “Anarquistas, Graças a Deus”. Terminei, li, gostei e joguei fora, porque, qualquer coisa me­nor que o silêncio é dizer pouco, é quase uma ofensa. Não foram as aulas que me afetaram, não foram elas que, num gesto sutil e de­cisivo, me fizeram atentar para certos pontos de fuga, mas o carinho despropositado, a dedicação, a proximidade, a Elis Regina no microsystem – a gaguejar, às vezes, por conta de uma avaria –, a Maria Bethânia, o meu aniversário de quinze anos. Ouvi, certa vez, uma frase e anotei nas costas de um recibo: “o professor não ensina aquilo que sabe, transmite aquilo que é – ninguém pode dar o que não tem”. Ao lado da nota, escrevi o seu nome, com uma letra ca­prichada, e completei com um epíteto – como quem destaca, numa linha dinástica, o rei primevo – “careca”. Ainda hoje, escrever essa pala­vra que te reúne, “Neudimar”, sem a minha caligrafia, pesa. As letras parecem órfãs, desalojadas, fora do lugar. Hoje, vai nascendo em mim, ano após ano, uma coroa parecida e, por amizade ou gentileza, os mais próximos dizem: “não demora e a calvície chega”. Mal sa­bem eles que “careca”, no meu vocabulário íntimo, é sinônimo de nobreza, de luta, de empenho, de sonho. Mal sabem eles – poucos sabem, realmente – que publiquei um poema chamado “Título”, que se cha­mava antes “Nau de mar”, numa antologia internacional, num livro que nunca tive dinheiro para comprar. O verdadeiro fardo de todo mestre é ser aquilo que os discípulos se tornam. Agora, somos nós, todos nós, a pintar o seu contorno, a contornar a sua imagem, a rein­ventar o seu traço. Só um artista poderia lidar tão bem com aquele grupo de arteiros. Com você, eu não aprendi gramática, mas a dra­mática que não cabe na língua, que escapa à palavra, que foge da expressão. Eu não poderia aprender, com você, sobre sintaxe, acentuação e ortografia, eu não poderia aprender qualquer uma dessas coisas que giram e montam cerco em torno da fala, porque nada disso me importava, nada disso tinha lugar na minha irritação, na minha curiosidade, no meu desassossego. Aprendi as regras muito depois, quando já dobrava o cabo da rebeldia, da revolta inocente – porque a noite, feito semente, entra na terra e aguarda, silenciosa e grave, até a próxima estação.

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