NARRATIVAS

por Wanda Camargo

Quando um fato se torna memória costuma sofrer algumas mutações, até involuntárias; há inevitavelmente diferenças grandes ou pequenas entre o que aconteceu e como é recordado. Mesmo as descrições mais racionais não são totalmente fiéis, o que o narrador conta é a sua visão particular do evento, sempre sujeita à sua opinião e particularidades cognitivas. Quem testemunha um acidente ou um crime geralmente não está prevenido para isto, e sua visão é comprometida pela surpresa, pelo susto ou pelo medo; relato posterior, mesmo em juízo, pode ser honesto e fidedigno até certo ponto, o suficiente para esclarecer a investigação, mas não trará a verdade absoluta, e nem a isso se destinam os processos investigativos.

Um grupo de amigos de longa data que se reúne a recordar os “velhos tempos” está na verdade narrando lembranças particulares com os vieses do que mais marcou cada um deles nos acontecimentos lembrados. E podem se surpreender com a constatação de que viveram vidas diferentes na mesma época e lugar, valorizando ou não outras festas, viagens, namoros, venturas e desventuras.

Pode-se dizer que todas as pessoas vivem várias histórias, vão contando o vivido ao longo da existência, e elas mudam ou vão se transformando na dependência de um modelo interpretativo dos acontecimentos. Alguns pesquisadores chegam a dizer que o passado não é imutável, ou seja, na medida em que avançamos em maturidade ou compreensão de certos fatos, ao contar nós os mudamos um pouco, e o velho ditado de “quem conta um conto acrescenta um ponto” termina por ser verdadeiro inclusive nos relatos de nossa vida.

Pierre-Auguste Renoir

Assim é que algo entendido como uma grande injustiça na extrema juventude pode ir se tornando mais palatável ao longo dos anos, quando toda a cadeia de eventos podem ser relacionadas, e as razões de outros mais perceptíveis a nós.

Isso acontece por ser toda narrativa constituída a partir de três componentes: uma determinada história, abrangendo personagens envolvidos em certos acontecimentos, num específico espaço e tempo que fornecem a primeira interpretação do que é contado; um discurso, que é a forma particular como qualquer história é apresentada; e por fim um significado, uma interpretação posterior que o receptor desta história vai estruturar internamente, colocando seus próprios pontos de vista no relacionamento entre história e discurso entendidos.

É sempre importante distinguir entre narrativa e história, pois fatos constituem a história, enquanto o método que investiga e descreve o fenômeno só pode concretizar-se por meio das narrativas, que terminam na verdade sendo a forma como explicamos o mundo. Numa guerra, por exemplo, relatos de vencedores e vencidos diferem frontalmente, e é bastante compreensível que assim seja; cada um de nós percebe a realidade de forma distinta, e o sentido atribuído a determinadas situações é alterado pelas nossas crenças, religiosidade e cultura de nossa comunidade. Representações nos permitem decodificar e interpretar as situações vividas, dando a elas significados. Em todo esse processo a linguagem é essencial, pois não somente criamos com ela histórias, pessoais ou comunitárias, mas também organizamos a experiência diária como a de nossa civilização.

Por meio de nossa relação entre o cotidiano e sua expressão cultural é que manifestamos a riqueza de nossa vivência, em toda sua diversidade e complexidade. Consequentemente, é preciso desconstruir a tendência dominante, tanto nos discursos da direita como da esquerda, de minimizar o cotidiano, como se nele não transcorrêssemos grande parte de nossa experiência, burilássemos nossa ideologia e praticássemos o diálogo entre as incongruências e teorias opostas dos modos de pensar dominantes na sociedade contemporânea, que tem se intensificado nos últimos meses.

Posts Relacionados

1 comentário

Francisco Pucci 26/09/2020 - 12:06 AM

Uma reflexão oportuna nos tempos em que vivemos. Discutimos nossas relatividades como se fossem certezas com a desenvoltura dos sábios. Adorei o artigo.

Responder

Leave a Reply to Francisco Pucci Cancelar resposta