Cartas do menino antigo

por Lucca Tartaglia
Ensaios, crítica, crônicas e resenhas.

Códia,

Ainda guardo, dentro de um livro, um pedacinho de papel com o endereço da casa no Água Limpa, na Queiroz. Um dos muitos papeizinhos que a minha mãe me dava para caso eu me perdesse. Pela vida afora, sempre que a mão dela me faltava, que eu rodava a vista e não encontrava ninguém, voltava no papelzinho, voltava para aquela casa, para aquele menino antigo que morava à beira do hotel, comendo chocolates e visitando o centro com o pai aos fins de semana. Lá, está a minha mãe – o meu pai não está, mas sei que, depois da hora,

ele estaria trabalhando e, quando voltasse, brincaria comigo,

e te encontro, Códia, naquele lugar imenso, na varanda, na copa, na sala. Você, ali, comigo no colo – eu ainda, com as minhas coisas, muito menino – e o porquinho da índia no quintal, a grama verde, o muro, a tartaruga da vizinha, a canaleta atrás da casa, os carrinhos de minério passando no alto, a escada que vai até a rua, a rua, o telefone na esquina, a garagem, os pezinhos de quebra-pedra, a rua de baixo, os meus amigos. Quando eu me perco, sempre volto para casa, para aquele lugar fora do tempo, aquele lugar erguido nas terras de Deus, no quintal da eternidade, onde os dias e os anos não chegam, onde o que é velho não alcança.

A minha escola, o bar do Geraldo, a mercearia do Grilo, o Rafinha, e, lá embaixo, a linha do trem, o rio das velhas, a rodoviária. Naquela sala, naquela televisão – presa por um suporte, a TV Manchete nunca saiu do ar.

Eu brincava com o meu fusquinha verde no espaço entre a grama e o passeio do quintal. A minha máscara de Changeman, aquele brinquedo que tocava uma música engraçada quando a cordinha era puxada, o meu robô com uma TV na barriga. O meu irmão era só uma encomenda, uma promessa, uma vontade. A minha irmã, uma festa surpresa. A Dulcineia, a Mônica, a Dileusa, a Gláucia,

Aquele menininho me pega pela mão. Eu tenho hoje quase a mesma idade do pai dele. Tenho agora, talvez, quase o mesmo peso que o pai dele tinha naquela época. Às vezes, vejo o pai dele de manhã, quando, logo depois de acordar, com a vista embaçada, passo na frente do espelho.

São mais de vinte anos desde aquela quarta-feira, no dia 27 de março de 1996. São todos os dedos das mãos e dos pés. É mais tempo do que cabe no corpo, do que se pode contar com alguma naturalidade. A falta virou saudade, a saudade virou lembrança e a lembrança é você sempre perto, Códia, é você sempre aqui, com o carinho e o afeto de costume, com as mesmas coisas de antes.

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