A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

por Vanisse Simone

 Luana dos Santos Torres

Vanisse Simone Alves Corrêa

 

RESUMO

O presente trabalho visa apresentar a importância do brincar na educação infantil. Foi realizada uma revisão de literatura com vários autores, entre eles Àries (1991), Kishimoto (2014) e Vygotsky (1997). O objetivo geral do trabalho é demonstrar a relevância do brincar para o desenvolvimento das crianças, especialmente na educação infantil. Para tanto demonstra a importância do brincar, apresenta um breve histórico das atividades lúdicas e destaca a importância das brincadeiras para o amadurecimento das crianças.

 

PALAVRAS-CHAVE: Brincadeiras,  Atividades Lúdicas.

INTRODUÇÃO

O presente artigo tem por objetivo abordar a importância que o brincar possui na Educação infantil. O brincar e explorar para a criança é necessário pois é por meio dessas ações que a criança se expressa, interage, se desenvolve.

Atualmente, o brincar livremente vem sendo pouco utilizado nas escolas que possuem educação infantil e dando lugar ao que já é pronto, seja por falta de interesse ou de o que deixa o uso do brincar ou das brincadeiras de lado, e até mesmo no esquecimento. Para a criança, o brincar dá a ela o poder da imaginação, de tomar decisões, expressar sentimentos e valores, conhecer a si, aos outros e o mundo, de repetir ações prazerosas, de partilhar, expressar sua individualidade e identidade por meio de diferentes linguagens, de usar o corpo, os sentidos, os movimentos, de solucionar problemas e criar. Ao fazer isso, a criança experimenta o poder de explorar o mundo dos objetos, das pessoas, da natureza e da cultura, para compreendê-lo e expressá-lo por meio de variadas linguagens.

É importante entender do que se fala quando se fala em brincar fala-se da relevância de um tempo no cotidiano das crianças destinado a brincadeiras de qualidade, em um espaço adequado, com materiais interessantes para as crianças e que estimulem a criatividade. A mediação de um adulto, de outras crianças, ou dos próprios objetos que se encontram a disposição da criança faz a diferença nas brincadeiras. Não basta deixar brincar, aos adultos é preciso olhar um pouquinho mais para as crianças, perceber suas necessidades e assim tentar entender e estimular a brincadeira.

Os pequenos são capazes de “imitar uma variedade de ações que vão além dos limites de suas próprias capacidades.” (VIGOTSKY, 2008, p.101). Mas é no plano da imaginação que o brincar se destaca pela mobilização dos significados. O jogo de “faz de conta”, como destaca Madalena Freire (1994) em seu livro “A paixão de conhecer o mundo”, é a partir de ações como, brincar, desenhar, jogar que a criança desenvolve a capacidade de representar, de simbolizar, e assim vai se apropriando da realidade e assimilando a realidade externa (adulta) à sua realidade interna. “A brincadeira da criança não é uma simples recordação do que vivenciou, mas uma reelaboração criativa de impressões vivenciadas” (VIGOTSKY, 2010, p.17). Ou seja, a criança traz às suas ações aquilo que vivenciou anteriormente, mas não age da mesma maneira como viu tal ação, ela se apropria e reelabora construindo a partir de elementos, combinando o velho com novas maneiras de fazer, é nisso que se constitui a base da criação.  Enfim, sua importância se relaciona com a cultura da infância, que coloca a brincadeira como ferramenta para a criança se expressar, aprender e se desenvolver.

Brincar é preciso, é por meio dele que as crianças descobrem o mundo, se comunicam e se inserem em um contexto social. A brincadeira, segundo Brougère (2001, p. 45):

“[…] supõe contexto social e cultural, sendo um processo de relações interindividuais, de cultura. Mediante o ato de brincar, a criança explora o mundo e suas possibilidades, e se insere nele, de maneira espontânea e divertida, desenvolvendo assim suas capacidades cognitivas, motoras e afetivas” (Brougère, 2001, p. 45).

As crianças brincam, não se importando com o local ou as condições onde moram, das pessoas com quem convivem ou da cultura em que está inserida. Brincar faz parte do rol de necessidades básicas de qualquer criança, em conjunto com uma boa alimentação e sono. Brougére (2007, p. 97-98), comenta que:

A criança está inserida, desde o seu nascimento, num contexto social e seus comportamentos estão impregnados por esta imersão inevitável. Não existe na criança uma brincadeira natural. A brincadeira é um processo de relações interindividuais, por tanto de cultura […]. É preciso partir dos elementos que ela vai encontrar em seu ambiente, para se adaptar a suas capacidades. As brincadeiras pressupõem uma aprendizagem social. (Brougére, 2007, p. 97-98).

 

A atividade de brincar é de suma importância para o desenvolvimento da criança, e é possível verificar isso apenas olhando uma criança brincando: está aprendendo, conhecendo, desenvolvendo-se, explorando o mundo sem intervenção nenhuma. Enquanto brinca, recria situações cotidianas, experimentam situações de felicidade, medo, surpresa, aprende a lidar com o mundo exterior e forma sua personalidade.  Vygotsky (1998, p. 104), ensina que a brincadeira requer uma reflexão a respeito do mundo interior e da imaginação, por um lado, e do mundo exterior, da realidade, por outro. Serve para explorar o pensamento e a emoção.

A interferência e as consequências do brincar no desenvolvimento infantil são amplamente discutidas em pesquisas e estudos da área da educação ao longo dos anos, e, na maioria das concepções teóricas as brincadeiras são consideradas essenciais para construção de conhecimentos e desenvolvimento integral da criança. De acordo com Souza (2000, p. 7), compreender o desempenho da criança é de fundamental importância, pois o aproveitamento correto de sua capacidade é fator primordial para manutenção de sua saúde mental.

 

  1. A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR

 

Brincar é uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento da identidade e da autonomia, se apresenta como a linguagem própria da criança, através da qual lhe será possível o acesso à cultura e sua assimilação. É essencial ao desenvolvimento cognitivo e motor da criança a socialização.

Para Vygotsky (1998, p. 201), “é no brinquedo que a criança aprende a agir numa esfera cognitiva que depende de motivações internas”. Os argumentos a favor do desenvolvimento da criança na primeira infância são tão variados quanto numerosos: desde o econômico do aumento da produtividade ao ético do direito de viver e aproveitar ao máximo as possibilidades de cada pessoa, passando pelo argumento de maior igualdade entre classes e sexos e o científico de mais inteligência e um comportamento social mais equilibrado, até mesmo o argumento político de maior participação na sociedade e na transmissão de valores para as gerações seguintes; apesar da enorme variedade de ideias e abordagens, todos esses argumentos concordam que um dos primeiros elementos que facilita o desenvolvimento do conhecimento do ser humano, e tem sido assim ao longo de sua existência como espécie, são as brincadeiras.

 

O “brincar” não é simplesmente um meio de gastar energia ou passar o tempo, pois, “para além dos limites de ocupação puramente biológica ou física, é uma função significativa. No processo humano de brincar, relacionamentos são criados com objetos, situações e pessoas, o desenvolvimento cognitivo é aprimorado, especialmente para resolver problemas e criar novos conhecimentos (SANTIAGO, 2000, p. 12).

 

Piaget (1998, p. 47) deixa claro que os jogos não são apenas uma forma de desafogo ou entretenimento para gastar energia das crianças, mas meios que contribuem e enriquecem o desenvolvimento intelectual. Ainda nessa perspectiva, o autor explica que o jogo pode ser estruturado por meio de exercício, simbólico na construção e regra e, neste sentido as brincadeiras evoluem conforme a faixa etária. Piaget (1998) segue ensinando que conversar com a boneca, brincar de médico, imitar bichos, se fantasiar, são brincadeiras de grande intensidade afetiva. Assim que as brincadeiras vão se aproximando mais do real, o símbolo começa a representar a realidade, imitando-a: a criança cria histórias nas quais há grande preocupação em seguir a sequência que ela conhece na sua realidade.

Steiner (1992, p. 109) completa o pensamento, ao asseverar que histórias, músicas, desenhos, jogos, são recursos especialmente atraentes no período de 4 a 6 anos; já que contribuem para ampliar a capacidade da criança de pensar, e ao, mesmo tempo, ampliam o vocabulário. A autora diz ainda que por volta dos 4 a 5 anos, a criança já tem noções de tempo – manhã, tarde e noite; ontem, hoje e amanhã – relacionando esses conceitos com sua vida cotidiana. Já aos 6 anos é despertada a curiosidade por aprender os “porquês” e “para que” do mundo físico, agora percebido com maior lógica e coerência.

Vygotsky (1998), destaca o faz de conta, já Piaget (1998), ensina sobre jogos simbólicos e ainda assim os dois autores correspondem-se. As maiores aquisições de uma criança são conseguidas no ato de brincar, aquisições que no futuro instituirão seu nível básico de ação real e moralidade. A atividade lúdica é o início obrigatório das atividades intelectuais da criança, sendo, por isso, indispensável à prática educativa.

 

1.2 HISTÓRICO DO BRINCAR

Já na antiguidade os seres humanos jogavam e brincavam sozinhos e em grupos, e essas atividades acompanharam a evolução histórica, estando presente em todas as civilizações. Segundo Áries (1991, p.51), “na sociedade antiga, o trabalho não ocupava tanto o dia, não tinha o mesmo valor que lhe é atribuído hoje. Os jogos e divertimentos se estendiam por longos momentos”.

 

Crianças Brincando de Esconde-esconde, de Josefina Holmlund Kurrogomma (1827-1905)

In: https://pt.wikipedia.org/wiki/Esconde-esconde.

 

Ao longo do tempo as brincadeiras vão modificando-se, adquirindo novas características, já que resultam das interações que os indivíduos fazem durante suas práticas. Áries (1991) explica que aos poucos esses jogos, brincadeiras e divertimentos passaram a ser visto como atitude moral pelos moralistas e pela Igreja, que os associava aos prazeres carnais, ao vício e ao azar. Além disso,

Com o tempo a brincadeira se libertou de seu simbolismo religioso e perdeu seu caráter comunitário, tornando-se ao mesmo tempo individual. Nesse processo ela foi cada vez mais reservada às crianças, cujo repertório de brincadeiras surge então como repertório de manifestações coletivas abandonadas pela sociedade dos adultos (ÁRIES, 1991, p.47).

 

Inclusive, Áries (1991) comenta que em meados de 1600, as crianças maiores de quatro anos de idade participavam das brincadeiras semelhantes às dos adultos e, muitas vezes, de maneira conjunta. Não existia uma separação tão rigorosa como hoje entre as brincadeiras e os jogos reservados às crianças e as brincadeiras e jogos reservados aos adultos. Ambos jogavam os mesmos jogos.

Desse modo, os humanistas do Renascimento notaram que haviam possibilidades educativas dos jogos e passaram a considera-lás de modo a preservar a moralidade das crianças. Portanto, proibiam os jogos considerados “maus” e incentivavam os considerados “bons”.

As brincadeiras infantis com utilização de materiais pedagógicos foram inseridas no final do século XIX, a partir da revolução industrial houve as primeiras pedagogias científicas e o estudo mais aprofundado do desenvolvimento infantil, o que modificou ainda mais o sentido das brincadeiras na educação. As décadas de 1920 a 1940 caracterizam-se pelo período de estudos da interação entre pares e, na década de 1960, Jean Piaget fez vários apontamenos sobre o brinquedo que são referência até hoje.

Foi o professor alemão Friedrich Froebel, criador do Jardim da infância, o responsável por introduzir as brincadeiras no contexto infantil. Para o autor, brincar favorece o desenvolvimento humano por significar a representação das necessidades e impulsos internos. Já Kishimoto (2014), destaca que o brincar da criança é fonte libertadora de prazer e autodeterminação.

Kishimoto (2014, p. 41) afirma que as brincadeiras infantis das crianças brasileiras foram influenciadas pelos portugueses, índios e negros. Por exemplo os jogos de botão e o pião foram trazidos pelos portugueses e as brincadeiras que envolvem a natureza partiram da cultura indígena.

Em decorrência do contato que existiu entre esses diferentes povos quando se encontraram em nosso país, surgiu uma grande quantidade de jogos, brinquedos e brincadeiras que participam da cultura infantil popular brasileira fazendo parte  do contexto social de outros povos.

Antigamente as crianças podiam brincar, tinham mais tempo e espaço nas ruas e praças. Atualmente há várias maneiras de brincar, que são introduzidas pelas crianças e adultos do lugar conforme seus aprendizados com as outras gerações do grupo e dos interesses do momento.

Portanto, o ato de brincar vem sendo alterado nas últimas décadas, inclusive o avanço tecnológico provocou modificações nos hábitos da sociedade, trazendo novas formas de lazer. As crianças brincam menos na rua, passando a brincar mais em seus pequenos quintais e em apartamentos, onde falta de espaço e com a insegurança trazida pelos assaltos, sequestros, mortalidade, os jogos e brincadeiras na vida das crianças tem se limitado ao espaço da escola. Conforme Friedmann, 2004:

 

Vivemos em uma cultura de muitos brinquedos e menos brincadeiras; muita impessoalidade e pouco respeito à individualidade; mais competitividade do que cooperativa; uma cultura lúdica violenta, impassível, indiferente, com medo. E inúmeras dúvidas a respeito de como restituir ou recriar uma ludicidade mais saudável (Friedmann, 2004, p.16).

 

Além de em algumas residências a criança sofrer influência da mídia e dos brinquedos eletrônicos, ainda existe a questão da falta de tempo da criança. Os pais, preocupados em dar uma boa educação para os seus filhos, preenchem seu tempo com atividades paralelas, como aulas de inglês, esportes, entre outras. Essas atividades consomem o tempo da criança, que, completando com as obrigações escolares, não tem tempo suficiente para despertar suas fantasias, ou seja, não sobra tempo para as brincadeiras. Isso impede que a criança desperte sua criatividade e suas descobertas, além de impedir que elas se tornem independentes.

Quando a criança brinca ela está representando diferentes papéis e neles ela aumenta sua expressividade. A partir das brincadeiras a criança constrói conhecimentos diversos sobre o mundo e amplia seu vocabulário, e desenvolve habilidades. Além disso, é através das brincadeiras que ocorre o ajustamento afetivo emocional.

A urbanização descontrolada e o aumento da violência nas grandes cidades, transformaram a realidade das crianças, que antigamente brincavam nas ruas, nas portas de suas casas. Essa mudança no contexto social influi diretamente na forma de brincar das crianças. Entusiasmados pelos novos jogos e influenciados pela mídia, as crianças desejam possuir diversos brinquedos, pois as novidades surgem dia após dia e os brinquedos rapidamente vão perdendo seu valor, já que existe no mercado algo mais atualizado. O marketing leva as crianças a desejar sempre novidades do mercado. Para Kishimoto (2001), a urbanização, a industrialização e os novos modos de vida fizeram com que a criança fosse esquecida e que a infância se encerrasse, transformando a criança em um precoce aprendiz.

As brincadeiras e os jogos desenvolvem a linguagem, despertam engenhosidade, desenvolvem o espírito de observação, afirmam a vontade e perfeiçoam a paciência. Elas também favorecem as habilidades, aliviam a noção de tempo e de espaço. A aplicação proveitosa dos jogos favorece o desenvolvimento biológico, psicológico, social e espiritual da criança. É no jogo que elas encontram formas para representar o contexto em que está inserida.

Além disso, o ato de brincar permite desde os primeiros momentos a capacidade de imaginar, fantasiar através de jogo e, em seguida, progressivamente permite que o indivíduo compreenda o mundo do símbolo, da metáfora o que possibilita a entrada no mundo da poesia, de poder brincar com as palavras e com a linguagem, também possibilita, através da imagem, o brincar com a arte em suas múltiplas facetas.

Almeida (2004), ressalta que o brincar desenvolve a criatividade, a competência intelectual, a força e a estabilidade emoções e sentimentos de alegria e prazer, enfim de ser feliz.

O aumento da variedade de brinquedos industrializados disponíveis no mercado, proporcionou às crianças, de diferentes níveis sociais, o contato com brinquedos eletrônicos. Com o avanço das tecnologias das ultimas décadas, surgiram diferentes tipos de brinquedos, cada vez mais computadorizados. Apesar de possuírem os valores mais elevados, alguns brinquedos eletrônicos estão se tornando populares e acessíveis às crianças de todos os níveis sociais, como por exemplo os videogames. No entanto, em geral, esses brinquedos são de acesso restrito às crianças que possuem nível social mais elevado. Essas crianças estão passando a brincar cada vez mais sozinhas, já que esses brinquedos não exigem a companhia de outra criança.

Uma outra realidade é o uso dos computadores e celulares para jogos eletrônicos. Esses aparelhos têm entrado cada vez mais cedo nas vidas das crianças. Além de transmitir informações, esses aparelhos podem ser influentes nas relações sociais da criança. Porém, ainda que seja um grande atrativo, brincar com aparelhos eletrônicos precisa despertar o interesse da criança, pois se a criança não tiver prazer nele, este não terá valor algum.

Existem, ainda, aquelas crianças que se vêem obrigadas a brincar sozinhas, ou pela localização de onde moram, ou por não dispõem de espaço suficiente, já que moram em pequenos apartamentos. Nesse contexto a televisão é uma grande influenciadora no desenvolvimento das crianças. A partir dos desenhos animados a criança libera suas fantasias, porém, esses mesmos desenhos podem influenciar no modo de agir dessas crianças.

É inegável que a tecnologia tem proporcionado conforto e praticidade para a população, entretanto, essa mesma tecnologia é responsável pelo desenvolvimento de várias doenças oriundas do sedentarismo e estilo de vida das pessoas. As crianças, com os jogos eletrônicos que não exigem queimar calorias, estão crescendo cada vez mais obesas e indispostas a praticar esportes ou exercícios físicos. Além disso, essa tecnologia que já traz as respostas prontas, não estimulam o pensamento, o raciocínio lógico e atrasam o desenvolvimento intelectual da criança.

 

1.3 AS BRINCADEIRAS NO DESENVOLVIMENTO INFANTIL

 

O ato de brincar é importante, é terapêutico, é prazeroso, e o prazer é o ponto fundamental da essência do equilíbrio humano. No ser humano desenvolve-se uma atitude lúdica que tem seu início em tenra idade, na barriga materna quando se diverte com o cordão umbilical que o une a sua mãe e suga seu dedo quando ele está entediado, então quando nasce a conhecer e compreender seu ambiente, para o qual a “atitude lúdica” é fundamental (DUARTE, 1996). Logo, pode-se dizer que a ludicidade é uma necessidade interior, tanto da criança quanto do adulto. Por conseguinte, a necessidade de brincar é fundamental ao desenvolvimento. Para Lopes (2006):

 

Brincar é uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento da identidade e da autonomia. O fato de a criança, desde muito cedo poder se comunicar por gestos, sons e mais tarde, representar determinado papel na brincadeira, faz com que ela desenvolva sua imaginação. Nas brincadeiras, as crianças podem desenvolver algumas capacidades importantes, tais como a atenção, a imitação, a memória, a imaginação. Amadurecem também algumas capacidades de socialização, por meio da interação, da utilização e da experimentação de regras e papeis sociais (Lopes, 2006, p. 118).

 

 

Por meio da brincadeira, a criança tem um comportamento de referência maior do que é na realidade, realiza simbolicamente o que mais tarde poderá realizar na vida real. Vygotsky (1998), destaca que:

 

O brinquedo cria uma zona de desenvolvimento proximal da criança. No brinquedo, a criança sempre se comporta além do comportamento habitual da sua idade, além do seu comportamento diário; no brinquedo é como se ela fosse maior do que é na realidade (Vygotsky,1998, p. 122).

 

Ainda segundo Vygotsky (1998), a criança procura suprir seus desejos por meio do ato de brincar. Mas esses desejos não podem ser satisfeitos de imediato, o que leva a criança a buscar situações imaginárias como solução.

No inicio da idade pré-escolar, quando surgem os desejos que não podem ser imediatamente satisfeitos ou esquecidos, e permanece ainda a característica do estágio precedente de uma tendência a satisfação imediata desses desejos, o comportamento da criança muda. Para resolver essa tensão, a criança em idade pré-escolar envolve-se num mundo ilusório e imaginário onde os desejos não realizáveis podem ser realizáveis e esse mundo é o que chamamos de brinquedo Vygotsky (1998, p. 108).

 

A atitude lúdica leva ao pensamento divergente, levando à busca pela resolução de situações em que o diferente tem um lugar no ambiente lúdico de possibilidades. Além de sua qualidade de ocorrer no assunto e a partir dele, permite o uso pedagógico e a interação com o conhecimento cotidiano que gera idiossincrasia e costumes e, finalmente, a riqueza cultural das comunidades, o que permite encorajamento, as atitudes amigáveis e festivas, que é desejável em nos tempos atuais e ainda mais no Brasil (MELO; VALLE, 2005).

A criança brinca para representar um papel, um lugar específico na sociedade, e não somente porque o ato de brincar traz uma fantasia desejada. Por exemplo: quando a criança faz de um cabo de vassoura, um cavalo, ela está tentando se inserir na sociedade, isso parte de sua natureza. É a forma que ela utiliza para representar o contexto na qual se insere.

O jogo nasce com as impossibilidades da criança de poder satisfazer seus desejos, então a brincadeira pode ocorrer para os seres humanos como uma forma de interagir com o mundo, compreendê-lo e tornar possível os seus desejos de forma equilibrada e com a possibilidade de dissipar a incerteza e escapar da frustração.

É com as brincadeiras que a criança supera os limites da manipulação dos objetos que a cercam e se fixa num mundo mais extenso. Segundo Leontiev (1998), o brinquedo é a atividade principal da criança. É nele que a criança estabelece uma conexão com a realidade e assim é capaz de se desenvolver psiquicamente, preparando o caminho de transição entre o mundo infantil e o mundo adulto que a espera.

Oliveira (2002, p. 99) diz que o jogo simbólico ou faz-de-conta, é ferramenta para a criação da fantasia, necessária à leitura não convencional do mundo. Abre caminho para a autonomia, a criatividade, a exploração de significados e sentidos. Esse jogo simbólico atua também sobre a capacidade da criança de imaginar e de representar, articulada com outras formas de expressão. Os jogos são instrumentos para aprendizagem de regras sociais, contribuem para que a criança compreenda o uso das regras o que irá beneficiá-la mais tarde na vida adulta.

Zanluchi (2005, p. 67) reafirma que ao brincar, a criança se prepara para enfrentar os problemas reais da vida, pois é através da brincadeira que ela desenvolve habilidades que usará no contato social adulto.

Para Vygostsky (1998, p. 114), a aprendizagem implica em uma natureza de ordem social específica e num processo mediante o qual as crianças se elevam à vida intelectual daqueles que a rodeiam.

Vygotsky (1997), a noção de brincadeira desempenha um papel importante em várias teorias, sejam elas psicológicas, antropológica, filosófica, pedagógica e até econômica e política, relacionando o brincar e a cultura como dispositivos de controle ético para ordenar o corpo social, porque em todas as culturas o jogo tem desempenhado um papel duplo: um fator socializador e como fundamento seguidor, que evidencia o instinto gregário do ser humano.

Os professores, particularmente aqueles que trabalham na educação infantil e especial, necessitam de conhecimentos e habilidades lúdico-pedagógicas para reinterpretar, analisar, discutir e debater os principais fenômenos que afetam o sucesso escolar.

O jogo promove a aquisição do conceito de regra (em seus aspectos cognitivos e afetivo), que tem muito a ver com o nascimento do julgamento ético e autonomia na criança, já que através do jogo ela começa a entender como as coisas funcionam, o que se pode ou não fazer, descobrindo que existem regras de causalidade, probabilidade e conduta que devem ser obedecidas (VYGOTSKY, 1997).

O jogo é uma atividade essencial para o desenvolvimento cognitivo, afetivo e da criança e é necessário para um desenvolvimento integral, pois permite o desenvolvimento das funções básicas de maturação psíquica, sendo a atividade lúdica – uma função simbólica, cujo objetivo é a manifestação criativa da representação comum (PIAGET, 1998).

Assim, os jogos e as brincadeiras são para o ser humano importantes ferramentas culturais, porque nos primeiros anos ele é desenvolvido na companhia de um adulto, estabelecendo uma relação que leva a formação de vínculos afetivos, adquirindo assim um significado social.

O jogo tem um grande poder de socialização, porque ajuda a criança a sair de si mesma; entender, aceitar, respeitar e, às vezes, até transformar as regras que possibilitam a convivência harmoniosa e pacífica.

A brincadeira é um exercício real de preparação para a vida e é importante, porque ensina a alegria quando é praticada e para aqueles que a praticam; pois parte da passividade e coloca a pessoa em uma situação de compartilhar com os outros, por isso é importante respeitar as brincadeiras; o mundo da criança é mutante está em constantes mudanças, e é brincando que elas poderão diferenciar a fantasia da realidade, e estarem preparadas para a vida.

A partir das brincadeiras pode-se desenvolver também o vínculo afetivo, com que a aprendizagem, viabilizando a motivação e a disciplina como ‘meio’ para conseguir o autocontrole da criança e seu bem-estar. Estas não deixam de ser conquistas significativas, no processo de ensino-aprendizagem.

Neste sentido de acordo com Kaercher (2001):

As crianças aprendem desde seus primeiros momentos neste mundo. […] é essencial que as crianças pequenas recebam estímulos que desenvolvam seus sentidos e posteriormente sua intelectualidade  (Kaercher , 2001, p.109).

De acordo com Huizinga (1990):

O brincar da criança é a manifestação mais profunda do impulso que conduz ao fazer, sendo que neste fazer, o homem tem a sua verdadeira essência humana. Não seria possível imaginar uma criança que não desejasse ser ativa, como o é quando brinca, pois o brincar representa a liberação de uma atividade que deseja se libertar do cerne do ser humano (Huizinga, 1990, p. 95).

 

A criança por si só, é um ser curioso. Convivendo, diariamente com crianças, percebemos que não há como impedir a observação espontânea, a curiosidade natural, as descobertas, o interesse em ler, escrever, calcular, cantar, correr, pular e desenvolver uma infinidade de atividades.

Conforme Weiss (2007, p. 95):

“[…] o uso de situações lúdicas é mais uma possibilidade de se compreender, basicamente o funcionamento dos processos cognitivos e afetivo-sociais em suas interferências mútuas, nos moldes de aprendizagem das crianças. ”

Brincar é importante para o ser humano. De acordo com Kaercher (2001):

Brincar é uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento da identidade e da autonomia. O fato de a criança, desde muito cedo poder se comunicar por meio de gestos, sons e mais tarde, representar determinado papel na brincadeira, faz com que ela desenvolva sua imaginação. Nas brincadeiras as crianças podem desenvolver algumas capacidades importantes, tais como a atenção, a imitação, a memória, a imaginação. Amadurecem também algumas capacidades de socialização, por meio da interação, da utilização e da experimentação de regras e papéis sociais. (Kaercher, 2001, p.116)

 

De acordo com Negrine em seus estudos sobre aprendizagem e desenvolvimento infantil. “Quando a criança chega à escola, traz consigo toda uma pré-história, construída a partir de suas vivências, grande parte delas através da atividade lúdica”. (Negrine, 1995, p. 67).

O professor, por sua excelência, é o profissional que sabe ensinar e tem domínio sobre as situações que envolvem o contexto escolar. Apesar de aparentemente óbvios esses conceitos, às vezes isso não acontece no dia-a-dia.

Neste sentido, de acordo com Silva (2005, p.57): “[…] uma tematização das práticas pedagógicas no âmbito das escolas exige, necessariamente, considerações a respeito dos fundamentos, conhecimentos e rumos que orientam o trabalho docente”.

Com base nas afirmações de Chalita (2003, p. 85) constata-se que os educadores devem adquirir a consciência de seu papel fundamental de amparar, reerguer, reavivar os sentimentos, valores e atitudes que tendem a renovar a confiança em dias melhores e que precisam exercer suas funções com amor, sabedoria e respeito.

Tais conceitos estão também relacionados ao desenvolvimento da afetividade da criança. Neste sentido, é importante reafirmar a reflexão de Wallon (1968) quanto ao desenvolvimento da afetividade. Segundo o autor, ela se manifesta, primitivamente, nos gestos expressivos da criança.

Ressaltando ainda que brincar é um direito de toda criança no mundo inteiro, cada uma deve estar em condições de aproveitar as oportunidades educativas voltadas para satisfazer suas necessidades básicas de aprendizagem, (NEGRINE, 1995, p. 68).

Os conteúdos podem ser trabalhados com o uso de atividades lúdicas, pois estas tendem a contribuir muito para que o trabalho do professor seja bem-sucedido. Mas, é preciso reconhecer e vale ressaltar que os jogos e as brincadeiras, são algumas das estratégias a serem utilizadas, para a garantia de um bom desenvolvimento na educação das crianças e não as únicas.

Neste sentindo, segundo Mahoney (1993):

A criança, ao se desenvolver psicologicamente, vai se nutrir principalmente das emoções e dos sentimentos disponíveis nos relacionamentos que vivencia. São esses relacionamentos que vão definir as possibilidades de a criança buscar no seu ambiente e nas alternativas que a cultura lhe oferece, a concretização de suas potencialidades, isto é, a possibilidade de estar sempre se projetando na busca daquilo que ela pode vir a ser. (Mahoney, 1993, p.68).

 

Portanto, a qualidade das interações que ocorrem em sala de aula, incluindo todas as decisões de ensino assumidas, refere-se a relações intensas entre professores e alunos, proporcionando diversificadas experiências de aprendizagem, a fim de promover o desenvolvimento dos mesmos. (OLIVEIRA, 1992, p. 79)

Como destaca Oliveira (1992, p.80):

 

[…] o processo pelo qual as crianças vão se apropriando dos objetos culturais ocorre a partir das experiências vividas entre as pessoas à sua volta; essa “passagem do nível interpsicológico, entre as pessoas, para o nível intrapsicológico (no interior do próprio sujeito) envolve, assim, relações interpessoais densas, mediadas simbolicamente, e não trocas mecânicas limitadas a um patamar meramente intelectual  (Huizinga, 1990, p. 79).

 

O ato de ensinar e o de aprender envolvem certa cumplicidade do professor a partir do planejamento das suas ações e condutas dentro da escola. É preciso reconhecer que ao brincar, as crianças não aprendem somente informações escolares e sim a conviver e compartilhar.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

        Ensinar atualmente exige a convicção de que a mudança de paradigmas é necessária e adotar novas posturas diante das práticas pedagógicas habituais é fundamental.

A graduação deverá fornecer aos educadores base teórica que norteará a prática docente, porém não garantirá que sejam sensíveis e capazes de favorecer mudanças comportamentais e estruturais, significativas, nas rotinas das instituições de ensino e que efetivamente possam cumprir seu papel, como educadores.

Cabe aos educadores contemporâneos adquirir a consciência de que a educação não pode limitar-se a repassar informações para os alunos, mas sim ajudar os alunos a tomarem consciência de si mesmos e do outro. Por meio da intervenção pedagógica, cabe aos professores proporcionar atividades significativas que conduzam a uma aprendizagem fecunda. Refletir sobre sua prática pedagógica, percebendo o aluno mais que um mero executor de tarefas, é fundamental ao educador.

É preciso atuar a partir de uma prática reflexiva, que possibilite os ajustes necessários para favorecer o lúdico no trabalho pedagógico. É preciso entender que os alunos têm prazer em aprender, se a aprendizagem se der de forma lúdica.

Quando brinca, a criança toma certa distância da vida cotidiana, entra em seu mundo imaginário e ilusório, despreocupando-se com a aquisição de conhecimento ou desenvolvimento de qualquer habilidade mental ou física. O que importa, neste caso, é o processo em si de brincar, algo que flui naturalmente, pois a única finalidade é o prazer, a alegria, a livre exploração do brinquedo. Brincar é fundamental ao processo de aprendizagem, crescimento e amadurecimento, especialmente na educação infantil.

 

 

REFERÊNCIAS

ÁRIES, P. História social da criança da família. Trad. Dora Flaksman. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.

BROUGÉRE, G. Brinquedo e cultura. São Paulo: Cortez, 1997.

____. Jogo e educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

FELDMANN, Juliane. A importância do psicopedagogo dentro da instituição escolar. Disponível na Internet em http://www.psicopedagogia.com.br. Acesso em 05 de novembro de 2019.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Editora  Paz e Terra,1996.

FRIEDMANN, A. O papel do brincar na cultura contemporânea. Pátio: Educação Infantil. Porto Alegre. Ano l, n.3, p.14-16, mar., 2004.

KAERCHER, Gládis E. & CRAIDY Carmem. Educação Infantil: pra que te quero?. Porto Alegre: Artmed Editora: 2001.

KISHIMOTO, T.M. O brincar e suas teorias. São Paulo: Pioneira, 2014.

KISHIMOTO, T.M. Salas de aulas nas escolas infantis e o uso de brinquedos e materiais pedagógicos. Trabalho apresentado na 23ª reunião da ANPEd, Caxambu, 2000. Disponível em: http/www.anped.org.br/reuniões/23/textos/0722t.PDF.  Acesso em 01 de novembro de 2019.

____. A criança e a cultura lúdica. In: KISHIMOTO, T. M. O Brincar e suas teorias. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002.

       . Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1997.

        . O jogo e a educação infantil. São Paulo: Pioneira, 1994.

LEONTIEV, A.N. Uma contribuição à teoria do desenvolvimento da psique infantil. In: VYGOTSKY, L.S. et al. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone, 1998.

LIRA. Natali Alves Barros, RUBIO. Juliana de Alcântara Silveira, A importância do brincar no desenvolvimento infantil. Disponível em https://docplayer.com.br/4641651-A-importancia-do-brincar-na-educacao-infantil.html. Acesso em 09 de ago. de 2019.

LOPES, V. G. Linguagem do Corpo e Movimento. Curitiba, PR: FAEL, 2006.

MELO, L, L; VALLE, M. O Brinquedo e o brincar no desenvolvimento infantil. Psicologia Argumento. USP, São Paulo, 2005.

NEGRINE, Airton da Silva. Aprendizagem e desenvolvimento infantil. Porto Alegre: Prodil, 1995.

OLIVEIRA, M. K. O problema da afetividade em Vygotsky, em La Taille, Y., Dantas, H., Oliveira, M. K. Piaget, Vygotsky e Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus Editorial Ltda, 1992.

OLIVEIRA, Vera Barros de (org). O brincar e a criança do nascimento aos seis anos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

PIAGET, J. A psicologia da criança. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

SANTIAGO, M. P. O lúdico na formação do educador. São Paulo, Manole, 2000.

SOUZA, C.M. de M. A cultura da criança: por um uso lúdico da Pedagogia. 2000. Disponível em: <http://www.psicopedagogia.com.br/artigos/artigo.asp?entrID=14>. Acesso em: 18 jun. 2019.

STEINER, Déborah. Compreendendo seu filho de 6 anos. Rio de Janeiro, Imago,1992.

VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

ZANLUCHI, Fernando Barroco. O brincar e o criar. Londrina: O autor, 2005.

WEISS, Maria Lucia Lemme. Psicopedagogia Clínica – Uma visão Diagnóstica dos problemas de aprendizagem escolar. Rio de Janeiro: Lamparina, 2007.

 

Artigo extraído/produzido  a partir do Trabalho de Conclusão de Curso de Luana dos Santos Torres, orientado pela Prof.ª Vanisse S. A. Corrêa.

Luana dos Santos Torres é graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual do Paraná – UNESPAR campus Paranaguá.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Posts Relacionados

Deixar comentário