A Resiliência no Contexto Pandêmico

por Rodrigo Luis Souza Silva

Tratando-se da nossa realidade pandêmica, não há como se prever suas consequências em relação a nossa saúde biopsicossocial. Parece que toda nossa segurança está ameaçada nesse momento, quem sabe, mais do que nunca!? Vou inferir que qualquer pessoa que estiver lendo esse texto está passando- ou já passou- por(s) momento(s) de ansiedade intensa, variando claro, de pessoa para pessoa e ocasiões. Na última produção publicada aqui na coluna, referia-me a autocompaixão como uma atitude de suma importância para que pudéssemos ser mais gentis conosco e consequentemente, mais satisfeitos com nossas produções- de qualquer ordem.

Hoje o assunto, também, é uma tentativa de acalento frente a realidade dura que passamos. Meu objetivo, assim como na publicação anterior, é que você tenha a oportunidade de refletir de forma atenta sobre o que paira nas nossas e na sua vida em particular.

Constantemente o termo “resiliência” vem sendo bastante citado em diversos canais de comunicação, por vezes até na pele das pessoas em uma tatuagem. O termo eclodiu – não sei dizer ao certo quando- num momento em que o nosso mundo passa por grandes crises, injustiças, dificuldades e faz muito mais sentido quando passamos por uma situação adversa em nossas vidas. O vocábulo até pode ser recente na linguagem das Ciências Humanas e Sociais, entretanto, nunca houve ninguém ileso aos contratempos.

Resiliência não é simplesmente ser forte! Até porque definir o que se é força, é mais fácil nas ciências naturais. Não é atoa que a palavra seja de origem da engenharia e física. Basicamente, nesse contexto, resiliência seria quando um objeto sofre uma pressão máxima, causando um alto grau de deformação, todavia sem causar alterações permanentes. Daí que surge a analogia perfeita para classificar a capacidade que as pessoas possuem para precaver, atenuar ou triunfar as consequências dos percalços, proporcionando, dessa forma, fortalecimentos e transformações que geram um enfrentamento adequado e consequentemente a superação, tão necessários para o nosso amadurecimento. (ANGST, 2009)

Mas como iríamos prever o que está nos acontecendo? Como poderíamos diminuir o impacto de algo que ainda não se encerrou? Como saberíamos as conquistas se ainda estamos na batalha?

Angst (2009) esclarece que não há ninguém que é resiliente. Não é uma característica permanente de alguém, pois as pessoas podem ESTAR resilientes. O que não significa que esses indivíduos não sofrerão com os impactos sofridos na tormenta. Significa então, da mesma forma com o tema do mês anterior, que é um processo adaptativo. Requer uma análise mais consciente da situação para que haja tomadas de decisões mais prudentes e com resultados mais satisfatórios.

Para haver essa habilidade, o indivíduo precisa alinhar diversas qualidades que podem trazer benefícios, como : “autoestima positiva, habilidades de dar e receber em relações humanas, disciplina, responsabilidade, receptividade, interesse, tolerância ao sofrimento e muitas outras” (BARREIRA, NAKAMURA, 2006 apud ANGST, 2009 p. 255)

Muita coisa a se modificar… certo? Sim. Reconheço que o momento não é para traçar inúmeras metas, inclusive, incomoda-me a imposição de uma produtividade massiva em tempos de recolhimento, medo, insegurança, incerteza, etc. Não há imposição alguma de como ser resiliente, ou ser feliz, ou estar calmo, porque cada sujeito caminha por estradas diferentes, com calçados distintos, com preparo físico particular em climas agradáveis ou não. Costumo propor uma reflexão aos meus alunos e pacientes, de uma frase que sempre escutei de um familiar “ A vida é dura para quem é mole”. Discordo dessa frase em um ponto muito particular: a dureza, nesse sentido, pode também ser problemática, porque estamos falando de uma polaridade: Tudo ou nada

Diante disso, acredito que a palavra de ordem é a MALEABILIDADE. Gosto de dar o exemplo da ponte Rio/Niterói que se mantém erguida mesmo sendo robusta, de concreto e sólida, porém, essa solidez não a impede de ser flexível a ponto de balançar com o vento. É justamente essa maleabilidade que permite que ela exista… em pé.

Permita-se ser mole as vezes, permita-se envergar! Porque, quem sabe, isso permitirá permanecer de pé e superar os ventos da tormenta.

REFERÊNCIA

AGNST, R. Psicologia e resiliência: uma revisão de literatura. Psicol. Argum., Curitiba, v. 27, n. 58, p. 253-260, jul./set. 2009

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