O Direito a Autocompaixão frente ao Home Office

por Rodrigo Luis Souza Silva

Independente da nossa situação atual- enquanto passamos por uma pandemia- tem sido cada vez mais difícil se sentir em harmonia com os próprios desejos, ambientes, conquistas e sonhos. Neff (2017) nos provoca a fazer uma análise sobre o quão severos, por muitas vezes, somos com a nossa própria história, com os nossos avanços e com o que produzimos no nosso cotidiano. Em sua obra “ Autocompaixão: pare de se torturar e deixe a insegurança para trás”, a autora chama a atenção para a cobrança intrapessoal excessiva que nos leva, por algumas ocasiões – ou muitas- a não nos sentirmos dignos de alcançar nossas metas, já que para isso é necessário notar-se como uma pessoa acima da normalidade, com grandes façanhas. Tudo o que não não for grande – da percepção que o sujeito tem de grandeza- é um tremendo insucesso. Algum leitor se identificou? Se sim, esse texto pode ser de grande valia para sua saúde mental!

É importante frisar que a obra supracitada nada tem relação com livros de autoajuda: ela é professora no departamento de psicologia educacional de Austin, nos Estados Unidos e criou escalas de autocompaixão que, para nossa prática enquanto psicólogos, nos auxiliam no tratamento de diversas distorções cognitivas que levam a um sofrimento muito grande e por consequência, à disfuncionalidades.

A autora faz uma importante comparação para entendermos o alto custo que pagamos quando temos que sempre nos autoavaliar de forma positiva: é como se alimentar demasiadamente de doces. O resultado, muitos conhecem: uma sensação intensa e gostosa seguida de um queda ríspida de humor que nos leva a um desespero. Não é possível que alimentemos nosso ego frequentemente, é humanamente irreal. Isso se dá pelo fato de que seria impensável estar acima da média o tempo inteiro. A qualquer falha aparente significa que não chegamos onde tínhamos o interesse de chegar e claro, nos vemos abaixo dessa linha imaginária que estipulamos. Até quando conseguimos algum feito, logo em seguida nos obrigamos a atingir algo ainda maior e a sensação é a mesma: tudo parece fora do alcance. Isso explica a busca cada vez maior de tratamento para ansiedade, depressão e insegurança, como exemplos. (NEFF, 2017)

Para compreender minimamente o conceito de autocompaixão, é imprescindível abordamos a conceituação da compaixão: diz respeito a constatação nítida do sofrimento que não nos pertence. A primeira vista, pode parecer simples, mas não é. Inúmeras vezes julgamos as pessoas a ponto de minimizarmos as suas dores, porque implica na constatação de falhas e nossa cultura ocidental não as permite. Ter compaixão significa também admitir nossa fragilidade e imperfeição, pois só assim seremos capazes de olhar para o erro de outrem com cuidado e empatia. (NEEF, 2017)

Não é muito distinta a definição da autocompaixão, pois para que possamos ser mais gentis conosco, o primeiro passo de acordo Neff (2017) é legitimar nosso próprio martírio. Nossa cultura reforça a produção constante sem pausas para olhar o que se passa por dentro e acaba que normalizamos as sensações desagradáveis ou sentimentos dolorosos e como efeito, não percebemos o quão difícil e humano é passar pelas situações adversas. Quando estamos nos sentindo mal, nos autoavaliamos como fracos, temos raiva de nós mesmos, como se fosse algo que representasse o completo fracasso. Ora, se nossa condição humana nos faz errar, por que temos que ser tão severos com nossas fraquezas? Se conseguimos olhar para o outro com bondade, muito mais facilmente do que olharíamos para nós, por que então não somos dignos disso? Por vezes, há uma compreensão equivocada de que autocompaixão é ter uma autoestima inflada, ou que o que se passa em nossa vida é mais importante que todas as outras, quando, na realidade, trata-se de um compromisso que nos leva ao dinamismo , assertividade e claro, bem estar!

Compreendendo a relevância desse comportamento, torna-se possível contemplar uma satisfação que não será efêmera, como a do doce citada anteriormente, já que expectativas ilusórias sobre o nosso desempenho não serão consideradas coerentes (NEFF, 2017). Sugiro a leitura do livro na íntegra que está logo abaixo nas referências.

De acordo com as pesquisadora de Harvard Laura Giurge e Vanessa Bohns [1] a pressão que o próprio trabalhador se coloca diante do home office pode ser causa da evolução de uma síndrome já citada nesta coluna: a síndrome de burnout. O estresse também é abordado como resultado dessa autocobrança. As pesquisadoras dão dicas não necessariamente ligadas a autocompaixão, mas que, como profissional detentor desse saber, é impossível não fazer relações com o tema!

Muitos dos senhores estarão nessa situação de trabalho remoto e provavelmente já se perceberam como insuficientes, desajustados, incapazes, incompetentes, dentre outros adjetivos bem rigorosos. Faço alguns questionamentos: qual seria a relação desses pensamentos com a forma que aprendemos a nos depreciar? Será que esses pensamentos condizem com a realidade ou dizem respeito a critérios estabelecidos ao longo da sua história? Como esses pensamentos ajudarão a resolver os diversos problemas que estão pairando sua realidade? Será que só o (a) senhor (a) está sobrecarregado, sentindo-se cobrado, sendo insuficiente, e falhando? A falha não é característica da nossa espécie?

Você pode se dar essa chance? Eu espero e desejo que sim!

Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar. “ Nelson Mandela

E quando o assunto é odiarmos a nós mesmos, será que se aplica?

Referências

NEFF, Kristin. Autocompaixão: Pare de se torturar e deixe a insegurança para trás. Tradução de Beatriz Marcante Flores. Teresópolis,RJ. Lúcida Letra, 2017

[1]https://epocanegocios.globo.com/Carreira/noticia/2020/04/como-evitar-o-burnout-durante-o-trabalho-em-casa.html

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