A ABORDAGEM REGGIO EMILIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL

por Vanisse Simone

 

CELIA MARIA RAMOS

CINTIA YAMANOUCHI

VANISSE SIMONE ALVES CORRÊA

RESUMO

O presente trabalho tem como tema a abordagem Reggio Emília na Educação Infantil. Tal temática surgiu devido ao fato de que a educação infantil é essencial para a criança e seu desenvolvimento. A metodologia de trabalho utilizada na educação infantil é um fator importante, uma vez que pode facilitar ou atrapalhar o desenvolvimento infantil. Nesse sentido, pesquisar outras metodologias é de suma importância. O problema da pesquisa é o fato de que muitos profissionais da área desconhecem a metodologia Reggio Emília. Esta pesquisa tem como objetivo geral fazer com que a metodologia Reggio Emília torne-se conhecida por seus extensos e ótimos resultados, podendo assim auxiliar aos profissionais em seu cotidiano, contribuindo significativamente, ultrapassando seus limites e desenvolvendo novas expectativas em torno do processo educacional. Está estruturada teoricamente em vários autores, entre eles, Malaguzzi (1999), Gandini (2002), Rinaldi (2018) e Vecchi (2017).

Palavras-chave: Educação Infantil. Reggio Emília. Aprendizagem.

 

1 INTRODUÇÃO

O cenário educacional vem passando por várias mudanças. Desta forma temos novas crianças e novas estruturas familiares que nos desafiam a buscar inovações. A era tecnológica vem acelerando a mente das crianças, impondo-lhes mais atenção e concentração em todos os processos. Nesse contexto, os métodos devem ser inovados, necessita-se de um olhar diferente sobre o processo de ensino aprendizagem, de como ele pode mais efetivo para nossas crianças, que possuem habilidades e competências múltiplas e distintas.

Goldemberg (1993), fala sobre o repensar da educação no Brasil, aliado à observação do cotidiano escolar. Através de um olhar atento, percebe-se que cada criança tem seu método natural de aprendizagem.

Os profissionais que atuam nas escolas, embora haja muita discussão sobre como se deve agir em relação a estes novos modelos, na maioria das vezes, sentem-se perdidos em como agir para fixar o conteúdo e atender as propostas do currículo. Sendo assim, passam a ter uma abordagem apenas conteudista, deixando de lado outras práticas, essenciais para o bom desenvolvimento da criança.

A metodologia Reggio Emília, questão norteadora deste trabalho,  pretende aprofundar a discussão e a prática conteudista, tão comum nas escolas, que torna o processo de aprendizagem mecânico e repetitivo.

A presente pesquisa tem como problema a pouca utilização e/ou conhecimento sobre importância da metodologia da Reggio Emília na Educação infantil.

O profissional da educação deve estar em busca constante e incansável para ensinar e aprender, e acima de tudo pelo compromisso eminente do ato de ensinar, de causar gosto, de fazer com que o outro sinta a necessidade de aprender, que queira mais, sempre mais.

Os objetivos deste trabalho são:

Apresentar uma metodologia que possibilite desenvolver o hábito da aprendizagem de forma prazerosa;

Contextualizar historicamente a Reggio Emília;

Demonstrar a importância deste método para a educação infantil.

Aprofundar as questões teóricas referentes ao método Reggio Emília.

A proposta de Reggio Emília possui uma metodologia inovadora em termos de educação e coloca o aluno como um protagonista, que aprende e ensina ao mesmo tempo. Destaca Rinaldi (2018):

A experiência pedagógica de Reggio Emília é uma história que vem perpassando mais de quarenta anos e que pode ser descrita como um experimento pedagógico em toda uma comunidade. Como tal, ela é única; até onde temos conhecimento, jamais houve algo assim antes (RINALDI, 2018, p.23).

Há assim o desejo de colocar estas experiências em prática, fazendo com que estas ideias possam ser expandidas. Se em Reggio Emília foi algo único e trouxe resultados relevantes, por que não se pode engajar em tal prática, almejando os mesmos resultados ou senão similares em nossas escolas?

A metodologia Reggio Emília, contribui para o processo de ensino-aprendizagem na Educação Infantil, assim como possibilita aos envolvidos nesse processo uma reflexão acerca de sua prática para que se sintam capazes de inovar sempre que necessário.

Rinaldi (2018), a pedagoga e gestora que vivenciou a metodologia Reggio Emília afirma:

Uma das razões do vigor e da longevidade de Reggio tem sido a disposição para ultrapassar limites, decorrente de uma curiosidade infinita e do desejo de criar novas perspectivas. Os educadores de Reggio reuniram teorias e conceitos de diversos campos diferentes, não apenas da educação, mas também da filosofia, da arquitetura, da ciência, da literatura e da comunidade visual. Eles relacionaram seu trabalho a uma análise do mundo mais amplo e de seus contínuos processos de mudança (RINALDI, 2018, p. 24).

 

As experiências de Reggio Emília, esse seu contexto histórico e social ao longo das últimas décadas o estabeleceu um novo marco para a educação infantil sob uma nova filosofia acerca da criança e da infância, a qual vê na criança o protagonista de todo o processo, como agente mediador e potencializador de suas habilidades e competências. Esta forma de enxergar a criança demonstra a sua particularidade no processo, em que não se trata de um ser passivo, mas sim ativo, em que são respeitadas todas suas potencialidades, explorando-as através das mais diversas linguagens, as quais incluem aspectos expressivos, cognitivos, comunicativos; sua imaginação, sua simbologia, cultura, metáforas, tudo o que interfere direta e/ou indiretamente em seu processo de formação. Neste processo, o diálogo e a interação são essenciais, uma vez que envolvem os elementos que trazem informações as quais serão processadas, adaptadas e transformadas conforme o necessário.

Esta pesquisa foi fundamentada teoricamente em autores como Loris Malaguzzi (1999), Gandini (2002), Rinaldi (2018), Vecchi (2017), entre outros. Foi feita uma revisão histórica acerca do processo pedagógico da Educação Infantil, os métodos utilizados. Foi também explanada sobre a vida de Loris Malaguzzi, sua metodologia; e sobre o que é o protagonismo Infantil. Também foram utilizadas análises e avaliações de livros e artigos, a fim de dar subsídios acerca do tema proposto.

A Lei nº 12.796, de quatro de abril de 2013, que altera a LDB n. 9394/96, deixa clara a importância do ingresso da criança na Instituição de Ensino, na creche ou na Educação Infantil. A partir dos quatro anos é visto como obrigatório, e possui carga horária específica. Esta lei abrange aspectos considerados importantes que incluem a rotina, o bom desenvolvimento da autoestima, quanto ao ambiente adequado ao bom desempenho de atividades, dando-lhes conforto e condições necessárias. Nessa fase educacional a criança precisa de um olhar criterioso. Os teóricos com suas pesquisas auxiliam os educadores no decorrer de sua prática, mediando situações e construindo outras que poderão dar suas contribuições para a educação infantil.

 

Na metodologia Reggio Emília a família passa a ter um papel essencial, a educação não fica apenas a encargo da escola, mas sim existe uma parceria em que os detalhes são apresentados e essenciais para o bom desenvolvimento da criança. E a documentação serve como registro, a fim de que se possa buscar a memória vivenciada em relatos que poderão embasar outras vivências. Segundo Rinaldi (2018):

 

Em síntese, de acordo com essa abordagem conceitual e com essa prática didática, os documentos (e as reflexões e interpretações que eles extraem dos educadores e alunos) não intervêm durante a trajetória do aprendizado nem do processo de aprendizagem de modo a dar sentido e direção a esse processo. Eis a diferença substancial. Em Reggio Emília, onde exploramos essa metodologia durante anos, damos ênfase à documentação como parte integrante dos procedimentos que almejamos para fomentar o aprendizado e modificar o relacionamento entre ensino e aprendizagem (RINALDI, 2018, p. 121).

 

Vivenciar as memórias em registros possibilita ver onde se precisa mudar, melhorando e até mesmo acrescentando ou tirando itens que compõe o processo, percebendo também aqueles que são essenciais em toda a trajetória. Tão fundamental quanto o papel do professor na educação das crianças é o papel da família, não importa qual seja a composição atual, afinal os primeiros vínculos de aprendizagem são estabelecidos por eles, dentro do lar que é o lugar mais confortável para o aluno. Desta forma, é essencial que haja a consciência por meio dos responsáveis e que eles saibam discernir qual é o dever que faz parte da escola e o que compete a eles, e o que lhes é comum e essencial.

Entretanto, percebe-se certa inversão de papéis, em que atualmente as famílias delegam às escolas a educação de seus filhos, algumas vezes atribuindo-lhes autoridade, outras vezes tirando totalmente. Para Vasconcellos (1995):

 

Percebemos muitas famílias desestruturadas, desorientadas, com hierarquia de valores invertida em relação à escola, transferindo responsabilidades suas para a escola […], a família não está cumprindo sua tarefa de fazer a iniciação civilizatória: estabelecer limites, desenvolver hábitos básicos (VASCONCELLOS, 1995, p. 22).

 

É essencial que a família perceba a necessidade de uma parceria com a escola, que a compreenda em sua essencialidade. Fortalecer a parceria é também um dos papéis do educador de acordo com a abordagem de Reggio Emília.

A abordagem educacional de Reggio Emília destaca-se por sua inovação, é o que ressalta Sá (2017). O contexto vivenciado pela Reggio Emília foi o pós-guerra, e a escola foi construída com poucas condições econômicas e sociais. O que existia era o desejo de contribuir para uma melhor qualidade de vida tanto das crianças quanto das famílias. Para tanto

era necessário haver a soma de forças entre todos os envolvidos no processo.

Tal proposta teve que quebrar certos paradigmas tradicionais de educação, uma vez que desvinculou o saber apenas ao educador. Vecchi (2017), explica essa abordagem:

 

É importante para a sociedade que as escolas e nós, como professores, tenhamos clara consciência de quanto espaço deixamos para as crianças terem um pensamento original, sem levá-las a restringi-lo a esquemas predeterminados, que definem o que é correto segundo a cultura escolar. O quanto apoiamos as crianças que têm ideias diferentes das ideias dos outros e como as habituamos a argumentar e as discuti-las com os colegas de classe? Estou bem convencida de que uma maior atenção para os processos, em vez de unicamente para o produto final, nos ajudaria a ter maior respeito pelo pensamento independente e pelas estratégias de crianças e jovens (VECCHI, 2017, p. 11).

 

Na abordagem educacional da Reggio Emília, o professor ensina e aprende, criando um método de aprendizagem em relação à criança, por meio da escuta, aí se obtém a parte fundamental do trabalho pedagógico. Esta proposta trabalha com a participação constante de todos, tendo um só método e inúmeras vertentes.

 

  1. HISTÓRICO DA METODOLOGIA REGGIO EMÍLIA: A IMPORTÂNCIA DE LORIS MALAGUZZI

 

Segundo Bujes (2008), Loris Malaguzzi nasceu em Correggio, 23 de fevereiro de 1920. Ele se formou em Pedagogia na Universidade de Urbino. No ano de 1940 começou a ensinar nas escolas primárias: De 1941 a 1943 em Sologno, uma cidade perto de Reggio Emília, no município de Villa Minozzo. Conforme Rinaldi (2018), Loris Malaguzzi em 1963 inspirou a pedagogia da primeira escola municipal em Reggio Emília, o qual guiou esta experiência por quase trinta anos seguintes, vindo a falecer no ano de 1994, deixando profunda tristeza a todos com os quais convivia, e a superação diante de tal fato, só ocorreu, graças à profunda convicção de que o conhecimento, o aprendizado junto naqueles anos era uma herança viva. Sendo assim, os primeiros verdadeiros autores da continuidade do trabalho de Malaguzzi foram os educadores que haviam sido os primeiros e fundamentais autores e inspiradores.

Malaguzzi (1999) acreditava com toda certeza que as crianças podiam aprender de outras maneiras, não apenas de uma forma mecância. Acreditava que as crianças possuiam enorme potencial e que a aprendizagem podia acontecer de uma maneira mais dinâmica e criativa.nA escola é como se fosse a um verdadeiro laboratório, há a análise constante das crianças e de suas potencialidades, compara-se a uma obra que está em processo de elaboração. Ao norte da Itália está Emília Romana, sua capital é Bolonha e das províncias que a constituem está Reggio Emília. Trata-se de uma cidade pequena que está em fase de desenvolvimento.

Após a Segunda Guerra Mundial no Vilarejo de Vila Cella, toda a comunidade se uniu e juntou objetos bélicos deixados pelos alemães, os quais foram vendidos.  A verba obtida foi utilizada para iniciar a construção de seu projeto, as famílias construiriam a própria escola dos seus filhos. Malaguzi (1999) explica:

 

Esta ideia pareceu-me incrível! Corri até lá em minha bicicleta e descobri que tudo aquilo era verdade. Encontrei mulheres empenhadas em recolher e lavar pedaços de tijolos. As pessoas haviam-se reunido e decidido que o dinheiro para começar a construção viria da venda de um tanque abandonado de guerra, uns poucos caminhões e alguns cavalos deixados para trás pelos alemães em retirada (MALAGUZZI, 1999, p.59).

 

Para Rinaldi (2018), no meio desse processo havia também o anseio de ressurgir para a vida, atribuindo uma melhor qualidade de vida para todos que ali viviam, em especial as crianças que seriam o futuro da sociedade local. Era um período de recomeço, em que a vontade de todos era iniciar uma nova vida.

A curiosidade, aliada a necessidade e abertura de ultrapassar limites colocaram Reggio a frente de seu tempo. Utilizaram teorias e filosofias sobre educação que apenas hoje vem sendo amplamente discutidas e utilizadas.

Segundo Malaguzzi (1999, p.62), o que se desejava era:

 

Reconhecer o direito da criança de ser protagonista e a necessidade de manter a curiosidade espontânea de cada uma delas em um nível máximo. Tínhamos de preservar nossa decisão de aprender com as crianças, com os eventos e com as famílias, até o máximo de nossos limites profissionais, e manter uma prontidão para mudar pontos de vistas, de modo a jamais termos certezas demasiada (MALAGUZZI, 1999, P.62).

 

Com o intuito de orientar, guiar e cultivar o desenvolvimento pleno das crianças surgiu a metodologia Reggio Emilia. Além de estar baseada na crença das potencialidades das crianças, delega à família um papel essencial neste processo de ensino. Passa a considerar a escola como um local importante para a aprendizagem da criança, entretanto não é o único, fato este que impõe às famílias os valores culturais que são capazes de enriquecer a cultura que engloba a própria escola.

A base da Reggio Emília é direcionada a cada criança em conjunto com outras, aos professores, aos pais, familiares e comunidade. Muitos aspectos foram enfocados para que este método obtivesse eficácia. A criança é a protagonista, entretanto em um olhar geral, a organização, a comunidade, o ambiente, os profissionais, todos atuam para que a pedagogia da escuta de Loris Malaguzzi seja considerada um verdadeiro sucesso.

Segundo Vecchi (2017), Reggio Emília privilegiava a organização e os métodos. A democracia, a experimentação e a ética permearam toda a proposta educacional por eles abordada. Em 1963 Malaguzzi inspirou a primeira escola municipal em Reggio e a guiou por longos anos. Com o sucesso garantido, vieram novas escolas que passaram a abordar o mesmo método.

Sá (2017), fala sobre o percurso das escolas em Reggio Emília, demonstrando detalhes essenciais para a compreensão desta proposta inovadora, que privilegiava a construção da aprendizagem e não a detenção do conhecimento. Através da pedagogia da escuta, as crianças eram ouvidas e analisadas pelo professor para, a partir de então o professor estabelecer o seu método de ensino. Desta forma, o educador estabelecia um elo com a criança, aprendendo com esta a ministrar suas aulas. O professor se esforçava em compreender a criança para pensar em um método eficiente de estabelecer o ensino-aprendizagem.

A primeira escola Municipal surgiu pelo fato de que as mulheres necessitavam de um espaço para deixar seus filhos. Nesse período, pós-guerra e que pedia renovação, as famílias começaram a enxergar as possibilidades múltiplas para a educação. Houve muitos elogios e muitas críticas, as quais vinham em especial daqueles que não concordavam com o método estabelecido. Para tanto, os alunos foram levados a espaços abertos, e todos podiam ver o quão feliz estes estavam, a fim de que pudessem então aceitar este novo método.

Em 1967, as escolas passaram a ser administradas pelo município de Reggio Emília e não mais pelos pais dos alunos. Com esta conquista foram estabelecidos fundos públicos, que eram destinados ao direito para a educação de crianças de 3 a 6 anos. Assim, o número de atendimento a grupos de crianças foi crescendo aumentando paulatinamente, ano a ano.

 

 

3  PRINCÍPIOS E ASPECTOS DA ABORDAGEM PEDAGÓGICA

            Quando se fala em escola sem muro, se fala naquela escola em que a comunidade é capaz de interagir e participar ativamente da escola em questão. Reggio Emília enfoca em sua abordagem pedagógica a importância da escola sem muros, reconhecendo a forte influência da comunidade para a construção do processo de ensino aprendizagem, em que as potencialidades das crianças nesta construção sempre eram exaltadas. Princípios como respeito, participação da comunidade e responsabilidade norteavam todo o trabalho desta escola. Um método que buscava a exploração e a descoberta privilegiava o desenvolvimento criativo da criança; isto é, a criança como base para construir o conhecimento. A criança era ouvida, em todas as suas múltiplas linguagens, que vinham de suas palavras às suas ações. Neste processo, a sensibilidade era fator fundamental, uma vez que trazia a tona palavras que não foram ditas, mas que foram expressas pelo coração.

A representação simbólica é valorizada pela abordagem de Reggio Emília e neste interim surgiram os Ateliês, que privilegiavam a ludicidade através de um ambiente educativo artístico, em que as diversas atividades , como pintura, pesquisa, música, histórias, entre outras, faziam da brincadeira uma importante aliada para a construção da aprendizagem significativa. De acordo com Vecchi (2017, p.24):

 

A minha intenção é a de fazer surgir, com alguns traços distintivos, uma cultura do ateliê capaz de produzir, com as crianças, os professores, os pedagogistas, as famílias, a cidade, aquele confronto entre abordagens e pensamentos diferentes, que até agora se revelou, para a didática e a educação de Reggio, borbulhante de possibilidades e de avanços (VECCHI, 2017, p. 24).

 

             O ateliê era um espaço privilegiado, nele professores e alunos construíam a aprendizagem através da exploração de projetos e pesquisas, em que não apenas constavam ideias, mas sim objetos e instrumentos que pudessem nortear o mundo das ideias e pensamentos, fazendo com que a imaginação fosse fator importante também neste processo. Como a criança era a verdadeira protagonista de seu conhecimento, este espaço devia ser pensado de uma forma que propiciasse a esta o exercício de sua imaginação e espontaneidade. Como uma pedra bruta a ser lapidada criativamente nas mãos de um artista. Para Malaguzzi (1999), todas as atividades deviam ser norteadas através de projetos, isto porque, os objetivos, métodos, seriam pensados minuciosamente, focando nas metas a serem atingidas. Os ateliês eram ambientes hospitaleiros, aconchegante, buscando a total interação e familiaridade da criança com o meio em que vive. Os móveis, a arquitetura, a beleza, tudo deveria ser harmônico, as cores das paredes, portas e janelas, o tamanho das janelas para que tornasse o ambiente arejado, plantas, enfim, tudo que transmitisse beleza, familiarização e aconchego. Vecchi (2017) assim descreve os ateliês:

 

De modo compatível com o espaço à disposição, o ateliê é um ambiente suficientemente grande para acomodar várias crianças e permitir diversas atividades, e está em relação, também visual, com o resto da escola. É equipado com instrumentos: mesas; recipientes para materiais; computador; impressora; maquinas fotográficas digitais; há muitos tradicionais: tintas para pintura e para desenho de diversos tipos, consistências e tonalidades; argila preta, branca, vermelha, óxidos de diversas cores, tintas para a cerâmica; arames de diversas espessuras; chapas metálicas; material reciclado e muitos outros materiais (VECCHI, 2017, p. 26).

 

No ateliê percebe-se a riqueza de detalhes e materiais, sendo um espaço construído por todos e para todos. Há também o lugar para exposição dos trabalhos de cada criança, enriquecendo ainda mais o ambiente e o tornando acolhedor. A criança aprende nestes detalhes, tornando o ambiente também um educador, o qual é atualizado constantemente.

A abordagem Reggio Emília via na infância uma fase essencial para a construção do cidadão, desta forma tudo o que pudesse aguçar e desenvolver as habilidades neste momento de vida da criança era essencial. Deixá-las à vontade, mas com olhar pedagógico aguçado fazia parte desta proposta, pensando nas minucias e na forma em que estas poderiam transformar o indivíduo. Para Reggio Emília não apenas os professores interferiam no processo educacional, mas o ambiente surgia também como um educador capaz de ensinar a todos que o cercam.

 

3.1  O ateliê: o espaço educacional interativo e sensibilizado

 

Por meio dos ateliês, Lóris Malaguzzi, pretendia criar uma verdadeira revolução no espaço educacional. E, diga-se de passagem, conseguiu. As escolas de Reggio Emília que atendiam a educação infantil enfocaram em suas estruturas a construção de um ateliê, fugindo assim dos métodos tradicionais que eram baseados em fórmulas medíocres. Isto porque, tratava-se de um ambiente planejado, moldado pelas próprias crianças exigindo a exploração individual e buscando a sensibilização de cada um em todo o processo. A expressão e a comunicação eram um forte aliado, permitindo a exploração da criatividade da criança, onde elas podiam explorar o seu conhecimento e interagir com os demais. Sobre o ambiente, ressalta Vecchi (2017):

 

Em relação ao ambiente escolar, não posso deixar de me perguntar o quanto de respeito existe pelas crianças que o habitam e quanto o cuidado com o ambiente no qual se formam pode incidir na educação delas em geral. Por sorte, a importância do ambiente como agente educativo foi percebida por muitíssimas pessoas que visitaram nossas creches e escolas da infância, de modo que foram apreciados o constante cuidado e a pesquisa, por parte do pessoal e da Direção sobre mobiliário, materiais e contextos interessantes (VECCHI, 2017, p.135).

 

               Tal relato enfatiza a importância do ambiente para a construção da aprendizagem. É no ateliê que o artista explora a sua criatividade e desenvolve a sua melhor obra; é no ateliê que as crianças são vistas como pedras preciosas; é no ateliê que a expressividade através da sensibilização encontra o momento da interação entre o objeto e o conhecimento, priorizando o que deve ficar para a vida.

É importante ressaltar a presença do atelierista, enfocada por Malaguzzi para eles e para os professores como “Os profissionais do maravilhamento”; isto porque, eram eles que faziam com que a maravilha do processo de ensino-aprendizagem fosse desenvolvida de forma plena e eficaz. Vecchi (2017) ressalta:

 

Creio que em Reggio tenha sido concretamente realizado o difícil processo de aprendizagem por meio do outro, em uma contínua relação entre ateliê e classes, entre atelierista, professores e pedagogistas. Talvez nem sempre esse processo tenha sido realizado nas suas formas melhores e mais completas, mas muitos dos nossos desejos, a organização do trabalho e o nosso imaginário estavam, e estão centrados nesse objetivo (VECCHI, 2017, p. 171).

 

O fato é que a partir da criação do ateliê e do atelierista, houve a mudança do modelo de escola até então utilizado. A mudança não veio apenas nos termos, e sim em uma nova construção de ambiente e concepção. Pouco a pouco, estes termos foram encontrando respeito de acordo com sua definição e objetivo; a medida que os esforços eram somados e os resultados surgiam de forma concreta, não havia como dissociar a importância e essencialidade dos mesmos. Muitos educadores enfatizaram há muito tempo a importância do lúdico e do concreto no processo de ensino aprendizagem, a importância do visual, da interação com o meio; tudo isto se encontrava nesta nova estrutura.

 

Figura 1  O Atelier detalhes

Fonte: https://www.criandocomapego.com.br

 

 

Figura 2 Atelier: Palavras e Figuras

Fonte: https://reggiokids.blogspot.com/

 

Figura 3 Atelier: Objetos

Fonte: https://reggiokids.blogspot.com/

Figura 4 Atelier de frutas

Fonte: https://reggiokids.blogspot.com/

 

3.2 O professor em Reggio Emília

Quanto ao professor, o que se esperava dele na Reggio Emília, era que ele promovesse a aprendizagem em todos os seus aspectos: cognitivo, afetivo, social, interacional. A criança era vista como protagonista em que o diálogo e a interação com o outro, auxiliaria na sua promoção do desenvolvimento. O professor auxiliará nas descobertas vivenciadas por estas crianças e observará a construção das mesmas, e diante delas construirá as estratégias necessárias para a sua promoção.

Para o melhor desenvolvimento da ação, os professores devem trabalhar em pares em Reggio Emília, isto é, um coopera com o outro em todos os aspectos; portanto deve haver entre eles além de interação e sintonia, um objetivo comum a ser alcançado. Eles devem evocar possibilidades para as crianças, as quais sobre elas devem desenvolver o seu crescimento individual e social. Destaca-se a fala de Vecchi para completar tal ideia:

 

Ao mesmo tempo, perceber de quantas e de quais maneiras uma pessoa pode explorar, acariciar ou agredir o papel, o grande pincel imerso na tinta, a gana que as crianças têm ao estratificar as tintas que se transformam, enquanto se sujam entre elas. O material/ a cor que facilmente para as crianças de três anos, transfere da folha para as mãos, pode ser ou tornar-se, durante a pintura, uma presença perturbadora, não desejada. Por esse motivo, muitas crianças precisam da certeza de que a cor pode desaparecer e as mãos podem voltar a ficar limpas (VECCHI, 2017, p. 174).

 

              Não é fácil para o professor adentrar tal possibilidade, entretanto é preciso destacar o fato de que quando a criança está gostando do que faz, tende a desenvolver com mais habilidade cada detalhe chegando ao objetivo desejado. O objetivo não é tornar fácil ou mesmo leve, mas sim estimular a propensão à reflexão, fornecendo-lhes os estímulos necessários.

 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

             Quando se pensa na primeira infância como um momento de extrema criatividade e aprendizagem intensa, percebe-se o quanto é importante acompanhar este processo de forma intensa e eficaz, aproveitando cada detalhe que a criança fornece.

Ter um olhar atencioso sobre a criança envolve muito diálogo e observação e isso fará com que se busquem metodologias criteriosas que possam direcionar a criança para a aprendizagem significativa e o desenvolvimento de sua autonomia.

Após as pesquisas sobre a abordagem de Reggio Emília, pudemos compreender o quanto é importante a busca de diferentes experiências pedagógicas, uma vez que estas nos trazem resultados, permitindo-nos saber o que devemos ou não utilizar em nossa prática. É a experiência da prática pedagógica em uma fase que fará muita diferença para a criança no futuro.

A metodologia usada em Reggio Emília, nos permite compreender que as crianças em seu processo de aprendizagem fazem experimentos, levantam hipóteses, discutem e conversam sobre assuntos, trazendo seus conhecimentos de mundo para a sala de aula, a fim de serem lapidados e que possam desenvolver sua autonomia com segurança. Há um envolvimento, que possibilita tanto para as crianças quanto aos professores, um progresso constante de acordo com as ideias debatidas e exploradas.

Esta pesquisa nos possibilitou uma reflexão sobre o quanto a criança possui um potencial e o quanto devemos respeitá-lo. Assim como muitas vezes são ignorados, perdendo os detalhes que contribuem para o desenvolvimento de sua autonomia.   A partir desta pesquisa, passamos a compreender a criança como protagonista da situação, exercendo seus direitos, cumprindo com seus deveres e desenvolvendo sua aprendizagem de forma plena, e isto depende tão somente do estímulo que lhe é fornecido. Esse estímulo que a criança precisa, reforça o compromisso educacional o qual a escola e todos os que estão envolvidos em sua aprendizagem devem ter.

Na metodologia Reggio Emília não apenas são revelados os potenciais das crianças, mas também como nos direcionam, com sugestões para que a nossa prática pedagógica possa ser renovada, isso faz com que possamos repensar inúmeros métodos, mudando a direção sempre que necessário, uma vez que o foco é a criança.

O professor Loris Malaguzzi alcança seu objetivo quando nos faz repensar, no momento em que mudamos a direção, em que podemos traçar novos caminhos, é possível ver que sua abordagem pedagógica fez a diferença em termos de educação infantil. Sem dúvidas, Reggio Emília foi uma inovação para nossas crianças. Ao percebermos isso, sentimo-nos impelidas ao desafio de lutar pela Educação Infantil, uma vez que ali reside a maioria das potencialidades que servirão de alavanca para um futuro promissor. O desenvolvimento intelectual da criança é colocado em pauta nesta metodologia através de um foco sistematizado sobre a representação simbólica. E isto nos faz descobrir, uma prática diferenciada nesta fase de desenvolvimento da criança. Prática esta, que traz consigo, a exploração e o encorajamento, e que faz com que o seu ambiente torne-se rico em possibilidades, onde a forma de expressão deva ser percebida em suas múltiplas linguagens.

A metodologia Reggio Emília em sua pedagogia possibilita ao professor o exercício da escuta e o reconhecimento das múltiplas potencialidades que cada criança traz em si, e melhor ainda, nos mostra que quem é capaz de escutar as crianças passa a rever sua forma de pensar sobre elas.

O que chama a atenção é o fato de que quase somente  escolas particulares trabalham com a metodologia Reggio Emília. Entretanto isso não impede de se trabalhar alguns princípios importantes da Reggio Emília nas escolas públicas, caso o pedagogo queira e conheça. Nesse sentido cabe ao pedagogo aprofundar seus conhecimentos e incentivar e orientar a equipe de professores.

 

 

REFERÊNCIAS

BRASIL, Lei de Diretrizes e B. Lei nº 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996. BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental.

BUJES, Maria Isabel EdelweissArtes de governar a infância: linguagem e naturalização da criança na abordagem de educação infantil da Reggio Emília. Educ. rev. [online]. 2008, n.48, pp.101-123. ISSN 0102-4698.  http://dx.doi.org/10.1590/S0102-46982008000200006

FERREIRA, N.S.C. Gestão democrática da educação: ressignificando conceitos e possibilidades. In: FERREIRA, N.S.C.; AGUIAR, M.A. Gestão da educação: impasses, perspectivas e compromissos. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2004

FERRETTI, C.; ZIBAS, D. M. L.; TARTUCE, G. L. B. P. Protagonismo Juvenil na Literatura Especializada e na Reforma do Ensino Médio. São Paulo: Fundação Carlos Chagas. Cadernos de Pesquisa, v. 34, n. 122, p. 411-423, maio/ago. 2004.

GANDINI, L; GOLDHABER, J. Duas reflexões sobre a documentação. In: GANDINI, L.; EDWARDS, C. (orgs.). Bambini: a abordagem italiana à educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2002.

GANDINI, Lella; EDWARDS, Carolyn; trad. Daniel Etcheverry Burguño. Bambini: a abordagem italiana à educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2002.

GOLDENBERG, JOSÉ. O repensar da educação no Brasil. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141993000200004. Acesso em: 15/06/2019

MALAGUZZI, Loris. História, idéias e filosofias básicas. In: EDWARDS, Carolyn; GANDINI, Lella; FORMAN, George. As Cem Linguagens da Criança; a. abordagem de Reggio Emilia na educação da primeira infância. Porto Alegre; Artmed, 1999. P. 59-104.

NEVES, Gisele. Educação Infantil: Reggio Emillia – Um novo olhar para a educação. Disponível em: https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/educacao/educacao-infantil-reggio-emilia-um-novo-olhar-para-educacao.htm – acesso em 15/06/2019

RINALDI, C. Diálogos com Reggio Emilia: escutar, investigar e aprender. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

SÁ, A. L. de. Um olhar sobre a abordagem educacional de Reggio Emilia. Disponível em:  file:///C:/Users/ESCOLA/Downloads/1281-1943-1-SM%20(1).pdf – acesso em 15/06/2019

UNESCO. Gerenciando a escola eficaz: conceitos e instrumentos. São Paulo: Cortez; Brasília: MEC/UNESCO, 2004.

VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula e na escola. São Paulo: Libertad, 1995.

VECCHI, Vea. Arte e criatividade em Reggio Emilia: explorando o papel e a potencialidade do ateliê na educação da primeira infância; tradução Thais Helena Bonini; revisão técnica Tais Romero Gonçalves – 1ª ed. – São Paulo: Phorte, 2017.

 

*Artigo produzido a partir do Trabalho de Conclusão de Curso de Pedagogia da UNESPAR, de Celia Maria Ramos e Cintia Yamanouchi, orientado pela Prof.ª Vanisse S. A. Corrêa.

*Imagens extraídas da Internet sem fins comerciais.

 

 

 

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2 comentários

Alexandre 20/05/2020 - 2:54 PM

Post muito bacana, parabens!

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FRANCISCO CEZAR DE LUCA PUCCI 21/05/2020 - 11:43 AM

Parabéns pelo excelente artigo. Realmente uma visão inovadora e promissora. Penso que deva suscitar muita resistência, pois a “disciplina” facilita o “controle”, e no controle situa-se a “segurança” da maioria dos professores. No aparente caos da proposta, o professor tem que ser criativo, participativo, interativo e caminhar “junto”, deixando de ser o “condutor do grupo”, posição confortável e falsamente segura. Também as famílias provavelmente oponham alguma resistência, pois terão que sair da zona de conforto, que é deixar ao encargo da escola o cuidado de seus filhos. Um desafio aos mestres e aos pais.

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