ABRIL É O MAIS CRUEL DOS MESES

por Wanda Camargo

“Abril é o mais cruel dos meses…”

O verso do poema “A Terra Desolada” de T.S. Eliot seria um paradoxo num mundo mais singelo: abril no Hemisfério Norte é o primeiro mês pleno da primavera, quando a natureza parece renascer após o inverno gelado. Supostamente é tudo menos um mês cruel, mas no tempo poético está expressa a angústia de quem sofre no Paraíso. [“mistura memória e desejo, aviva agônicas raízes…”]
Este nosso abril de outono de 2020 também está sendo de absoluta crueldade, é o primeiro mês pleno da peste, da praga, da Covid-19 no país.

Nos dias que seriam maravilhosos de céu azul e de sol, o que na verdade agrava a seca que compromete o próprio abastecimento de água, parecemos nos dividir em grupos: os que podem seguir a orientação sensata de ficar em casa, os que não podem ficar em casa por que precisam manter as atividades que garantem sua sobrevivência, os que sequer tem casa para ficar, os que não podem abandonar hospitais, os que garantem a segurança, a entrega de comida, a venda de remédios, a informação, a limpeza das cidades, os irresponsáveis que se acreditam imunes a um vírus que já infecta milhões, os oportunistas quase criminosos que berram estridentes que a economia e a manutenção de seus lucros financeiros e/ou políticos é mais importante do que a preservação de vidas.

“Campo de Trigo com Corvos” de Vincent van Gogh, 1890.

 

Os privilegiados que estamos em quarentena começamos a manifestar os sinais desta condição, não é da natureza humana este isolamento, este contato pessoal com apenas uma ou duas pessoas. Temos o sentimento de pânico, de que alguma coisa terrível está acontecendo e que podemos fazer muito pouco, que tudo nos ameaça e aos nossos entes queridos. Infelizmente é verdade para muitos, mulheres presas com companheiros violentos e frustrados, crianças confinadas com molestadores, pessoas em relacionamentos tóxicos que ficam um pouco mais envenenados em situações de isolamento social.

Se, por um lado, podemos fazer muito por nós mesmos primeiramente, evitando ao máximo contatos em que possamos nos contaminar ou mesmo contaminar os demais, e ajudando como pudermos os mais vulneráveis que não podem sequer sair de casa para comprar alimentos ou remédios, mantendo na medida do possível os pagamentos aos que nos prestam serviços e estão impedidos de fazê-lo, participando ou organizando campanhas de coleta e distribuição de cestas básicas, roupas, kits de proteção, até brinquedos e doces para crianças; por outro é importante estendermos uma rede de prevenção aos conflitos domésticos, às desavenças de gênero ou homofobias, fazendo funcionar os telefones disponibilizados à comunidade, como o 180 ou 190.

Mantemos contato com parentes e amigos através de lives, muitos de nós continuamos trabalhando em home Office e vídeo conferências. Apesar disso, sobra a consciência de que ainda não estamos, e talvez nunca estejamos, preparados para abstrair as pessoas reais de nossas vidas, somos sociais e precisamos uns dos outros para nosso próprio equilíbrio emocional. Nos anos que antecederam esta crise comentou-se muito acerca do distanciamento das relações, quando pessoas sentavam juntas ao redor de uma mesa e não conversavam umas com as outras, preferindo enviar mensagens e fotografar os pratos, o ambiente e os circunstantes.

Porém efetivamente precisamos uns dos outros, ver e falar ao vivo, tocar, abraçar, conversar com todos os complementos de um contato real e não virtual: cores, perfumes, trejeitos, tempo para respirar entre uma frase e outra sem a urgência de um encontro pela internet.

Tempo para não descuidarmos de nossos vizinhos de todo o planeta, que talvez mais do que nunca estejam precisando de nós.
“Não há mal que sempre dure” diziam nossos avós, e tinham razão; da mesma forma que passaram outras guerras, ditaduras, epidemias, esta também vai passar. Evitando um otimismo panglossiano, passará com um alto preço em vidas e deixará economias arrasadas, mas vai passar, devemos estar preparados para iniciar a reconstrução e ter consciência de que não será o último desafio que enfrentaremos.

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