História, Memória, Esquecimento: Pandemias.

por André Luiz Reis Mattos

Ecléa Bosi referindo-se a um movimento nas ciências humanas, ocorrido e ainda presente, nas décadas finais do século passado, quanto da recuperação da memória, indaga: “será moda acadêmica ou tem origem mais profunda como a necessidade de enraizamento? Do vínculo com o passado se extrai a força para a formação de identidade”. (meu destaque) (BOSI)

O homem sempre sentiu necessidade de olhar e conhecer o passado, mesmo quando suas articulações em sociedade convergiam estudos e pesquisas para as ações no presente e a construção de um futuro próximo. Mas existem momentos de maior fragilidade deste vínculo, quando ocorre a perda da relação do homem com suas memórias.

Para Benjamin, o principal período da história humana de distanciamento das tradições culturais e históricas é o da modernidade capitalista…

Tanto uns como os outros [operários e passantes na multidão], vítimas da civilização urbana e industrial, não conhecem mais a experiência autêntica (Erfahrung), baseada na memória de uma tradição cultural e histórica, mas somente a vivência imediata (Erlebnis) e, particularmente, o Chockerlebnis [experiência de choque] que neles provoca um comportamento reativo de autômatos “que liquidaram completamente sua memória.” (BENJAMIN)

Esta condição de uma “vivência imediata” vem provocando um distanciamento das expressões sociais e culturais formadas nas relações históricas dos diversos grupos humanos, impregnando a sociedade de um desvalor dos espaços físicos, das construções e das práticas de relação, dos sentimentos de nostalgia, das tradições, da memória e das experiências que representam o “velho”, devendo estes ser substituídos e esquecidos em nome da própria modernidade. Esquece-se o que se viveu, vive-se sem reminiscências.

A memória, a narrativa e a história, são analisadas por alguns autores como representações de coletividades sociais em determinados tempos e espaços históricos, instituídos pelas ações dos sujeitos inseridos nestes grupos.

Para Rossi…

Na tradição filosófica, e também no modo de pensar comum, a memória parece referir-se a uma persistência, a uma realidade de alguma forma intacta e contínua; a reminiscência (ou anamnese ou reevocação), pelo contrário, remete à capacidade de recuperar algo que se possuía antes e que foi esquecido. (ROSSI)

Memória, lembranças e esquecimentos, são níveis intermediários entre o tempo e a narrativa histórica; “em que a experiência temporal e a operação narrativa se enfrentam diretamente, ao preço de um impasse sobre a memória e, pior ainda, sobre o esquecimento.” (RICCEUR)

Diante desta perspectiva entende-se a definição de História indicada por Ricceur:

Seria assim existenciáriamente justificado o duplo emprego da palavra “história”: como conjunto dos acontecimentos (dos fatos) decorridos, presentes e futuros, e como conjunto dos discursos sobre esses acontecimentos (esses fatos) no testemunho, na narrativa, na explicação e, finalmente, na representação historiadora do passado. (RICCEUR)

Apesar de todos os “testemunhos” (imagens, artes, textos, tradições, entre outros) vivemos tempos de esquecimento (modernidade) e com isso, de perda (ou esquecimento) dos rastros que indicavam que os mesmos caminhos já foram percorridos.

Imagem 1: Indumentária médica durante a Peste Negra na Europa. “A primeira a notar o aparecimento de uma nova doença que fazia sucumbir a população, com grande número de mortos, foi Messina, na Sicília, no final de 1347. A seguir, outras cidades conheceram a crueldade daquela doença. Sicília, Gênova e Veneza foram as portas de entrada da peste bubônica na Europa. Uma a uma, as cidades eram tomadas pela nuvem negra da mortandade que se disseminava pela Europa; nos primeiros seis meses, no inverno, alcançou o norte da França e o leste na Península Ibérica, e, em dois anos, havia atingido todo o continente. As cidades viam os habitantes sucumbirem à doença em proporções nunca imaginadas. As mortes variaram de um oitavo a dois terços da população das cidades. Ao todo, a Europa perdeu um terço de seus habitantes. Estima-se que a peste bubônica tenha matado vinte milhões de pessoas.” (UJIVARI)

Ao longo da história a relação da espécie humana com os micro-organismos é assinalada por episódios que se concebem entre os mais dramáticos, pois de forma avassaladora, as epidemias eliminaram em milhares ou milhões de vidas, mais do que as guerras, sem que, na maioria dos casos, as vítimas compreendessem a causa.

Ujivari, em sua obra A História e suas Epidemias, a convivência do homem com os micro-organismos, descreve algumas destas ocasiões quando estes seres intervieram nas atitudes dos homens, conduzindo seu viver e suas experiências sociais, como nas batalhas que foram vencidas por surtos nos acampamentos militares, comprometendo o rumo história humana.

Revela também, que muitas das mudanças sociais, políticas e econômicas ocorreram por causa de epidemias devastadoras. A história da humanidade, afirma o autor, pode ser narrada em paralelo à história das doenças infecciosas.

Imagem 2: Cholera quarantine in Italy. Travellers from Switzerland en route for Italy being kept in quarantine at Bardonnechia, Italy, for five days. Illustration published London, 16 August 1884. (Photo by Ann Ronan Pictures/Print Collector/Getty Images).

O termo “globalização”, de largo uso hoje, designa um fenômeno ocasionado pelo homem nas últimas décadas, e claramente abrange também uma “globalização” dos agentes infecciosos, (…) Por fim, depois que a ciência descobriu esses micróbios e avançou no conhecimento da prevenção e tratamento das doenças que causam, todos se animaram no sentido de dominá-los — seres inferiores que afinal são (…) como até o abuso dessa ciência influenciou no surgimento de novas doenças infecciosas e epidemias, [pois] quando a ciência não é disponibilizada para todos e quando a desigualdade socioeconômica prevalece em âmbito mundial, é difícil, ou mesmo impossível, controlar esses micróbios, favorecendo-se assim a ocorrência de novas epidemias. (UJIVARI)

Vivemos um momento, como afirma Rossi, em que o “apagar” (da memória e das lembranças) “não tem a ver só com a possibilidade de rever a transitoriedade, (…) Apagar também tem a ver com esconder, ocultar, despistar, confundir os vestígios, afastar da verdade, destruir a verdade.” (ROSSI)

Ao analisar semioticamente o quadro de Paul Klee, Angelus Novus, Benjamin afirma que este…

Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso. (BENJAMIN)

Imagem 3: Capa do jornal ‘Gazeta de Notícias’ expõe o caos no Rio de Janeiro dominado pela gripe espanhola (imagem: Biblioteca Nacional) BIBLIOTECA NACIONAL DIGITAL / BIBLIOTECA NACIONAL DIGITA. A Gripe Espanhola, gerada por uma primeira geração do vírus H1N1, infectou, em 1918, pelo menos 500 milhões de pessoas, metade da população. Pesquisas indicam que entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas morreram em consequência da doença. No Brasil, em setembro de 1918, uma violenta mutação do vírus da gripe veio a bordo do navio Demerara, originado da Europa. O transatlântico desembarcou passageiros infectados no Recife, em Salvador e no Rio de Janeiro.

Existem incontáveis “ruína sobre ruína” que clamam serem reviradas e reerguidas, ou revistas em parte, para que o historiador atente apropriar no presente às reminiscências das ações dos sujeitos históricos de outros tempos. Estas desaparecem ou são esquecidas por perda de valor, são vestígios daquilo ou daqueles que não mais existem, do que não está presente; deseja-se como o Anjo de Benjamin, “acordar” os mortos e conhecer suas vidas; mortos que percorreram os caminhos das pandemias, e “ruínas” que indicam que continuaremos a percorrer, com toda a complexa possibilidade de intervenção no ambiente cultural e social das relações humanas.

Imagem 4: Trabalhadores carregam corpos de vítimas de coronavírus em Bergamo, Itália. Fonte: Fotogramma / EFE-EPA – 18.3.2020.

Mas o que o Anjo encara fixamente, parecendo querer se apartar (por ser talvez impossível um encontro?) com seus “olhos escancarados, sua boca dilatada e suas asas abertas”? (BENJAMIN) O que estaria relacionado com o passado, com as ruínas, os fragmentos, o tempo e com os mortos, mas que permanece sempre presente?

Ele afronta a Memória. Seja individual ou coletiva, preservada no esquecimento (par dialético da lembrança) e na lembrança, “momento objetal da memória” (RICCEUR), e de alguma maneira sempre presente em espaços e ações do homem, enquanto ser social e histórico. Citado por Ecléa Bosi, P. Nora afirma: “A memória se enraíza no concreto, no espaço, gesto, imagem e objeto”. (BOSI)

Imagem 5: O quadro Angelus Novus de Paul Klee , e seu autor.

Michael Löwy escreve que esta é a tese mais conhecida de Benjamin, que se oferece como comentário de um quadro de Paul Klee; o que foi escrito tem pouca afinidade com o quadro, “trata-se fundamentalmente da projeção de seus próprios sentimentos e ideias sobre a imagem sutil e despojada do artista alemão.” (LÖWY, 2007, p. 88) “Cultivada” após a sua publicação em variados contextos e estudos, esta tese é uma alegoria, considerando que seus elementos não possuem além do texto, o sentido que de propósito lhes é atribuído pelo autor; e que neste artigo é aplicada na acepção de que a memória e a história na relação com o tempo permite-nos, se assim desejarmos, aprender as experiências do passado, para um existir melhor no presente.

 

Referencias:

BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito da História, in Walter Benjamin – Obras Escolhidas Vol. I – Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo/SP: Brasiliense. 11ª Reimpressão, 2008.

BOSI, Ecléa. O Tempo Vivo da Memória. Ensaios de Psicologia Social. Ateliê Editorial. São Paulo/SP, 2ª Edição, 2004.

LÖWY, Michel. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo/SP: BOITEMPO. 1ª reimpressão, 2007.

RICCEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas/SP: Editora UNICAMP, 2ª reimpressão, 2010.

UJVARI, Stefan Cunha. A História e suas Epidemias, a convivência do homem com os micro-organismos. Editora Senac Rio e Editora Senac São Paulo, 2ª Edição.

ROSSI, Paolo. O passado, a memória, o esquecimento. Seis ensaios da história das idéias. Fundação Editora da UNESP, São Paulo/SP, 2007.

 

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2 comentários

Jorge Dias 02/04/2020 - 11:32 PM

Sempre pertinente.
Forte Abc amigo!

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André Luiz Reis Mattos 03/04/2020 - 2:15 PM

Obrigado professor…

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