Transições entre palavras e imagens

por Marcos Camargo

Vilém Flusser (1920-1991), filósofo checo, naturalizado brasileiro, foi um dos mais importantes pensadores preocupados com o lugar e o papel da imagem no conhecimento humano, como podemos entender de seu livro “Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia” (1983). Em outra obra, “Towards a theory of techno-imagination” (1980), ele comenta que “a invenção da fotografia constitui uma ruptura na história que só pode ser entendida em relação a essa outra ruptura histórica que é a escrita”.

Flusser é um dos poucos pensadores que em seu tempo (transição para a pós-modernidade) já percebe os efeitos da presença da imagem técnica na transformação cultural, que vai colocar um termo da mentalidade modernista, que até então vigorava no ocidente. Sua aguda percepção lhe permitiu em alguns momentos profetizar transformações culturais que apenas recentemente se esboçam para a realidade. Em seu mais recente livro, lançado postumamente, “Pós-história: vinte instantâneos e um modo de usar” (2019), que resultou da compilação de várias aulas e palestras ministradas por Flusser, ao longo de sua carreira, existe um breve ensaio denominado: “Nossas imagens”, que tem início à página 103, do citado livro. Aqui, Flusser dá vazão a sua imensa capacidade de prever o futuro: afirma, como veremos a seguir, o advento de uma nova era da imagem, que retorna ao centro do conhecimento humano, depois de quase dois mil anos ofuscada pela força da palavra.

Neste ensaio, Flusser nos informa:

 

A maioria das mensagens que nos informam a respeito do mundo e da nossa situação nele é atualmente irradiada pelas superfícies que nos cercam. São superfícies, e não mais as linhas textuais (palavras), que codificam preferencialmente nosso mundo. (…) São as imagens, e não mais os textos (verbais), que são os media dominantes. (…) As imagens que nos programam são pós-alfabéticas, não pré-alfabéticas, como são as imagens do passado. (FLUSSER, 2019, p. 103)

 

Segundo Flusser, a escrita linear surgiu como um recurso para superar a polissemia das imagens, de vez que se pode perceber, por exemplo, nos murais mesopotâmicos e egípcios, a utilização de imagens dos reis, de batalhas, cerimônias, acompanhadas de textos verbais, no sentido de explicar as imagens e garantir que a história que elas contam sejam entendidas do modo como os governantes determinaram.

Ao descreverem as imagens, os textos verbais alinham os símbolos, ordenando-os em série temporal, de modo a garantir seu sentido histórico. Desde aquele tempo as imagens eram explicadas, porque sendo uma representação do mundo para o homem, a mediação realizada pela imagem por vezes se interpõe entre o homem e o mundo.

Enquanto as imagens representam o mundo elas são como os mapas, isto é, instrumentos para a orientação no mundo. Porém, quando as imagens se colocam entre o homem e o mundo, tal como um biombo que encobre a realidade, ela conduz à ilusão. A escrita foi inventada quando a função alienante (biombo) da imagem sobrepôs-se à sua função informativa.

Flusser comenta que os primeiros escribas era iconoclastas. Por meio da escrita, eles quebravam as imagens opacas para que se tornassem transparentes para o mundo. Foi preciso combater o seu caráter idólatra (eidolon = imagem), tarefa muito bem descrita em Platão. Enquanto isso, por muito tempo, a civilização ocidental foi dividida entre servos, que viviam imageticamente como iletrados, e os sacerdotes letrados, que viviam historicamente com as palavras. Mas havia feedback entre esses níveis, de vez que as imagens ilustravam os textos e os textos descreviam imagens.

 

A invenção da impressão e a alfabetização geral pela escola obrigatória modificaram tal dialética dramaticamente. Textos (verbais) se tornaram baratos e acessíveis, primeiro à burguesia, depois ao proletariado. A consciência histórica tornou-se acessível à sociedade ocidental toda, e sobrepõe-se à consciência mágica. As imagens foram expulsas da vida cotidiana para o ghetto das “belas artes”. As mensagens históricas, sobretudo as científicas, iam se tornando inimagináveis. Os textos (verbais) passavam a ser “puramente conceptuais”. (FLUSSER, 2019, p. 106)

 

A partir daí, na história ocidental, a palavra deixava de explicar e desmistificar as imagens, para obedecer a outra dinâmica, que é a da linearidade do discurso. A palavra, que havia sido inventada para revelar as imagens, passa a re-velar o mundo, ao invés de desvelá-lo para o homem. Ao contrário de tornar as coisas transparentes, agora é a palavra que se interpõe entre o homem e o real, tornando o mundo opaco para nós. Ao interpor-se entre nós e o mundo, a palavra deseja que olhemos somente para ela, que deixa de ser interprete para ser a senhora do pensamento. Eis que o século XIX se torna, então, o palco da crise da historicidade, inaugurando a descrença das narrativas.

 

Foi quando foram inventadas as fotografias, e seu vario desenvolvimento como filmes, vídeos, hologramas, em suma: as tecnoimagens. São elas instrumentos para tornar imaginável a mensagem dos textos (verbais). Os textos (verbais) se dirigiam, originalmente, contra as imagens, a fim de torná-las transparentes para a vivência concreta, a fim de libertar a humanidade da loucura alucinatória. Função comparável é a das tecnoimagens: dirigem-se contra os textos (verbais), a fim de torná-los transparentes para a vivência concreta, a fim de libertar a humanidade da loucura conceptual. (FLUSSER, 2019, p. 107)

 

Diferentemente das imagens tradicionais, as tecnoimagens alcançam o nível da consciência pós-histórica – um nível ainda experimental e sujeito a desvios. Ainda somos, em relação às tecnoimagens, como os analfabetos são em relação aos textos verbais. Enquanto as imagens tradicionais são produzidas por pessoas, as tecnoimagens são produzidas por máquinas, aparelhos. Enquanto o pintor maneja símbolos em uma superfície, as máquinas absorvem sintomas de cenas e os transcodificam em imagens.

A diferença entre o símbolo e o sintoma se processa no fato de que o símbolo significa algo para quem conhece o código de tal significação. Enquanto que o sintoma, eventualmente, foi produzido sem a intensão de significar algo, já que sua vinculação com o significado seria apenas casual. Por exemplo: a palavra “cachorro” simboliza a ideia que fazemos daquele animal, enquanto que a imagem de sua pegada no chão é o sintoma de sua existência.

A força das tecnoimagens, em relação às imagens tradicionais (desenho, pintura, escultura etc.), está no fato de que ao ser produzida por aparelhos tecnológicos, elas não seriam manipuladas intencionalmente, dando a nítida impressão de que são objetivas, isto é, isentas de interesses humanos, o que lhes dotaria de veracidade. Basta a simples experiência de observarmos que em uma fotografia produzida com a intensão de registrar uma cena, encontram-se sintomas da realidade que não foram antecipadamente previstos, geralmente descobrem-se na fotografia coisas que foram registradas sem a intenção do fotógrafo. Esses fenômenos comuns tornam-se provas de que o aparelho tecnológico não está totalmente sob a vontade do seu operador humano, diferentemente de um desenho, pintura ou escultura, em que tudo, cada detalhe, tem de ser realizado intencionalmente pelo artista.

Pode-se dizer, então, que as tecnoimagens tendem a registrar o real com mais isenção do que as imagens tradicionais, implicando em sua maior proximidade com a realidade material do mundo, do que as ideias subjetivas e abstratas significadas nas imagens tradicionais. Em consequência, as tecnoimagens seriam mais dotadas de cientificidade, tornando-se testemunhas mais confiáveis dos fatos, do que as imagens tradicionais, assim como também as palavras, que agora devem ser acompanhadas de uma tecnoimagem que testemunhe sua veracidade. O discurso verbal, que para os platônicos e idealistas detinha o poder epistêmico (de dizer a verdade), agora precisa ser verificado por uma tecnoimagem que sustente sua interpretação.

No entanto, já sabemos que as tecnoimagens podem ser tão manipuladas quanto as imagens tradicionais, que obedecem integralmente a vontade e a intenção de seus produtores. Não apenas pelo fato de se poder apontar a câmera para onde se deseja, no ângulo mais conveniente, enquadrando a imagem segundo certa intenção, como também pelo fato de se poder alterar as tecnoimagens, a partir de um laboratório, isso tornou nosso tempo bem mais complexo e de difícil verificação, exigindo competência interpretativa dos leitores de tecnoimagens.

Como o conhecimento humano, a partir da proliferação das tecnoimagens, não está mais baseado apenas no texto verbal, se faz necessário dotar a escola de disciplinas que ofereçam competência interpretativa aos alunos e à sociedade, de modo que as tecnoimagens não inaugurem um novo cenário de ilusões e fantasias, como o discurso verbal vinha reproduzindo ao final da modernidade. O poder de verificação das tecnoimagens precisa ser mantido sempre com o objetivo de deter a tendência do texto verbal em criar utopias e idealismos descolados da realidade.

Estas são algumas ideias que Vilém Flusser nos oferece em alguns de seus livros, acerca da relação contemporânea entre a palavra e a imagem. Mesmo tendo falecido em 1991, antes que o fenômeno da internet modificasse o mundo, suas reflexões continuam pertinentes e podem servir de preâmbulo à discussão sobre a introdução do estudo da imagem nas escolas.

 

Livro: FLUSSER, Vilém. Pós-história: vinte instantâneos e um modo de usar. São Paulo: É Realizações, 2019.

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