O “pé no coco” nasceu aqui!

por Márcia Carneiro

FELIPE ROCHA CORVINO

Nascido em Niterói, criado em Araruama na região dos lagos e versado nas gramaticas das ruas e dos bares – da Tijuca ao Morrinho, em Campos dos Goytacazes. Historiador vascaino e mambembe que vive de samba, ama cerveja, apaixonado por futebol e craque na arte de flanar.

 

O “pé no coco” nasceu aqui!

Outro dia li um artigo sobre Araribóia, o temiminó que fica imóvel em Niterói e olha com cara de enfezado para o outro lado da baía de Guanabara, como se estivesse encarando o horizonte. Um indiozão com aquele corpanzil todo intimida mesmo paradão na dele. No mesmo dia, por um acaso do destino, encontrei meu amigo Alexandre, um historiador mambembe como este que vos escreve, e comentei do texto supracitado.

De imediato, ele abriu um sorriso de orelha a orelha e me indicou ler um livro do Jean de Léry, chamado “Viagem a terra do Brasil”, que conta detalhadamente sua aventureira estadia por quase um ano entre os tupinambás, depois que Villegagnon foi enxotado daqui e a sua tentativa de estabelecer a França Antártica pelas bandas de cá em meados dos anos 1550 foi para as cúcuias.

Para não criar um fuzuê, vamos dar nomes aos “bois” antes de retomarmos a anedota. Nicolas Villegagnon foi um capitão enviado para o nosso litoral por Henrique II e Catarina de Médici, com o intuito de estabelecer uma colônia e controlar o comércio, passando a perna nos portugas que haviam chegado por aqui tempos antes. Os temiminós eram índios grandalhões, fortões, bons caçadores, bons agricultores e inimigos dos tupinambás desde tempos imemoriais e eram sediados na atual Ilha do Governador. Uma outra parte de sua tribo se encontrava no litoral sul do atual estado do Espírito Santo, perto de Campos dos Goytacazes, que por sua vez, era onde habitavam os índios Goitacá que, segundo boatos, nadavam melhor que o Michael Phelps e o Cézar Cielo juntos e caçavam tubarões  na praia de Atafona na base do sopapo, desciam o sarrafo nos peixões e nocauteavam os bichos sem dó. Coisa pra deixar o Hulk verde… de medo! Os tupinambás, índios não tão maiores que a estatura média dos europeus, fortes pra caramba, habilidosos para caça e cuidados da terra, chegados numa pancadaria e pinguços de primeiríssima categoria – sim, eles entortavam a caveira de pinga feita da fermentação de frutas tropicais como caju, abacaxi ou milho, e a gringalhada ainda acha que inventou o uísque (inocentes)- e se encontravam no centro do Rio, entre a Carioca e o Flamengo.

Reza a lenda que, antes de patrocinarem a ida de Villegagnon ao Rio, rolou uma apresentação aos reis de França com tudo que teve direito-  araras, bichos exóticos, um monte de plantas e flores nativas e uma indiarada danada pra interpretar um combate entre os tupinambás e uma tribo inimiga. Esses, depois que venceram a batalha balançavam seus portentosos cacetes pornográficos – de dar inveja ao Kid Bengala e vergonha a nós, pobres mortais desprivilegiados. A boca miúda, diz-se que Catarina ficou impressionadíssima e depois desse forrobodó todo, não deixou os índios irem embora de jeito nenhum. Ela gostou tanto da coisa que começou a usar cocar e fazer “glú glú” em tudo quanto era canto do palácio.

Depois desse breve panorama dos nossos atores, retornemos a nossa história e aos devaneios desse maltrapilho escriba que não dispensa uma gelada. Como foi anteriormente dito, diferentemente dos índios alegóricos de hoje em dia que ficam com aquele papo de cachimbo da paz e o escambau, na raíz da coisa o pau cantava e a porrada estancava, principalmente entre os temiminós e os tupinambás. Os temiminós foram expulsos da Ilha do Governador pelos tupinambás que se “aliaram” a francesada que, por sua vez, encontraram “apoio” nos portugas e lhes foi prometido terras do outro lado da baía (atual Niterói) para se reagruparem e tomarem conta de invasões por aqueles cantos.

Entretanto, ao invés de resolverem esse quiproquó todo na mão, por intervenção divina ou pelo diabo que o parta, um coco verde caiu no chão e ambos os lados tiveram uma ideia brilhantemente maluca: disputarem o território num jogo. Como assim? Pois é senhores, um jogo. Mas que tipo de jogo? Por quantas pessoas? Com quais regras? Vamos para as respostas desse delírio que tive depois de secar umas garrafas de vinho. O jogo se assemelha muito ao nosso esporte preferido, o futebol. Mas obviamente não se chamava “football” e sim “pé no coco”. O campo de jogo era o dobro do tamanho (o que não faltava era mato e tinta pra fazer as marcações e madeira para fazer as traves) e o números de jogadores era o dobro em cada equipe, vinte e dois de cada lado. Não tinha goleiro, só podia fazer gol se entrasse com bola e tudo, só rolava substituição quando alguém saía lesionado por conta de alguma entrada escandalosamente forte, que deixaria o Arnaldo de cabelo em pé. O juiz do jogo era escolhido da seguinte forma: o chefe da tribo escolhia alguém da outra tribo pra apitar uma parte e assim era feito pelo adversário na segunda metade da partida, não tinha impedimento, e a porfia duraria do raiar do sol até o seu desaparecimento para dar lugar a lua, com intervalo ao meio dia para recuperar as forças e tomar um cauim (esse era o nome da birita que os tupinambás faziam das frutas tropicais).

Agora imaginemos aquela “indiarada” toda peladona, com cara de enfezada numa peleja que definiria quem seria, de fato, o dono do pedaço. Tenho a impressão que ali se deu início o primeiro Vasco e Flamengo. De um lado os temiminós e os portugueses (Vasco) e do outro os tupinambás e franceses (Flamengo). E nas “tribunas de honra” um lusitano pra lá de barrigudo, baforando uns charutões, fazendo um fumacê danado, com cara de poucos amigos e de conchavo com o cacique da tribo aliada e do outro um francesinho metido a besta cheio de não me toques e ar de superioridade. Pois foi assim mesmo que aconteceu. O certame foi narrado pelo Galvão Bueno da época com direito a inúmeros: “isso é teste pra cardíaco” e “haja coração, amigo”. Torcidas em êxtase, com os nervos à flor da pele, quase saindo no sopapo e deixando o jogo em segundo plano. Felizmente isso tudo foi contornado e a pelada dos peladões teve o “apito inicial”

Jogo tenso, nervoso e com muita gente saindo contundida e tendo que dar lugar ao companheiro, afinal, valia muito e ninguém queria dormir de cabeça inchada. Rolam boatos que haviam alguns cracaços envolvidos, relatos denotam que do lado dos temiminós e portugas haviam gente do calibre de Eusébio, Mário Coluna, Figo, Cristiano Ronaldo, Rui Costa, Romário, Ricardo Gomes, Juninho Pernambucano (que estava na dúvida entre qual lado escolheria, mas na hora o coração falou mais alto e ficou do lado lusitano) e Denner. O outro lado não deixava por menos e dizem que muito lembravam Zidane, Platini, um que era um fio desencapado danado era igualzinho ao Cantona, Zico, Aldair e um que gostava tanto de um goró que já naquela época ficou conhecido como “Adriano imperador do cauim”.

Só sei que o jogo foi quente pra chuchu e levou a rapaziada ao delírio. Por fim, a vitória dos lusos e temiminós aconteceu por um apertado 10 a 8, a francesada foi enxotada pra fora da França Antártica e Mem de Sá fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no ano de 1565. Por muito pouco a gente não tem que falar fazendo biquinho. Só que uma coisa ainda me deixa com a pulga atrás da orelha: assim como os estadunidenses acham que inventaram o “uísque” ou “bourbon” (aquele feito com xis por cento de álcool de milho) a gente viu que por aqui isso já rolava fazia tempo. Quem me garante que o escoceses que faziam a guarda de Villegagnon não ficaram encantados com o jogo praticado por aqui, voltaram pra sua ilha britânica, deram uns retoques nas regras e por fim, na mão grande, falaram que inventaram o “football”? Sei não…sempre achei estranho esse negócio da rapaziada da Grã-Bretanha ter inventado um esporte que só é o que é pelo nosso improviso, gingado, malemolência e malandragem. Vou até ficar caiunado (bêbado) de novo pra não perder o costume.

LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. São paulo: Primavera, 1998

ABREU, Maurício de Almeida. Geografia histórica do Rio de Janeiro (1502 – 1700) parte 1. Rio de Janeiro: Andréia Jakobsson Estúdio editorial e Prefeitura do Estado do Rio de Janeiro, 2010.

 

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