MULHERES QUE ESCREVEM POESIA

por Izabel Liviski

Para saber um pouco mais sobre essa nova obra coletiva e sobre o evento de lançamento do livro, entrevistamos a organizadora da coletânea, Wanda Camargo.

INcontros- Qual a importância desta coletânea para o público em geral?

WC- Ler a produção literária feminina é sempre importante para aqueles que efetivamente querem entender o mundo atual. Sonhos, devaneios, cuidados consigo mesmas, com filhos, revoltas, amores, raivas incontidas e toda uma gama de preocupações que passam pelas mulheres nos auxilia e muito na leitura dos acontecimentos. Entender o Brasil é, sem sombra de dúvida, impossível sem compreender sua população, e mulheres representam não apenas uma parcela significativa em termos numéricos, mas também em expressividade cultural.

INcontros– Por que a escolha de autoras femininas, somente?

WC- Mulheres escrevem poesia. No país de Cora Coralina, Cecília Meireles, Adélia Prado, Alice Ruiz, Helena Kolody e tantas outras isso não deveria ser novidade. Mas às vezes parece que é, com o pouco destaque que se dá às poetas, principalmente quanto à publicação. Indo ao extremo, é muito raro encontrar em bares uma poeta perguntando “você gosta de poesia” e tentando divulgar sua obra; precisamos mudar isso, precisamos ir aonde o leitor está. Até pouco tempo atrás grande parte das mulheres já escreviam, mas guardavam em baús empoeirados suas poesias, suas crônicas do dia-a-dia. Trazer à luz estas reflexões é essencial num tempo em que tanto se fala do empoderamento das mulheres.

Lançamento do livro no UniBrasil.

 

INcontros-  Como surgiu a ideia desta coleção?

WC-  A curitibana Editora Memória é parte deste processo: dedicada principalmente às áreas literária e artística, de direitos humanos e democracia, tem estimulado o aparecimento de novos valores no cenário paranaense e mesmo brasileiro. Organizei como coordenadora de projetos culturais do UniBrasil, pois, desde seis anos atrás estamos promovendo um Concurso de Contos, e este é limitado a jovens escritoras entre 18 e 35 anos.

O limite deve-se ao objetivo de revelar novos talentos, mulheres que poucas chances tem de demonstrar seus domínios de escrita. No entanto, embora compreendendo o intuito, aquelas mais experientes e fora desta faixa etária pediam muito por uma oportunidade de também publicarem seus contos e poesias. Por isso, para abranger mais escritoras, ano passado publicamos um livro, Palavra de Mulher: Contos, que foi um enorme sucesso, sem limite máximo de idade; e este ano o Palavra de Mulher: Poesias.

INcontros– Como foi feita a seleção das autoras que foram publicadas neste ano?

WC- Este lançamento foi uma iniciativa moderna e muito utilizada atualmente, uma obra em coworking, ou seja, em que o financiamento da edição é compartilhado pelas participantes, através de chamada pública. Dezenas de mulheres de todo o país mandaram suas poesias, e vinte e sete foram selecionadas para publicação. As que puderam comparecer ao evento vieram acompanhadas de familiares e amigos, num clima de alegria e realização por terem seus trabalhos impressos em livro, algumas pela primeira vez.

A festa teve momentos comoventes, como quando uma poeta que foi trazida para participar de Santa Catarina pelos filhos, já maduros, leu com emotividade o seu poema; uma jovem do Rio de Janeiro ficou sensibilizada e com voz embargada durante a leitura. Outra apontou a alegria de poder ler sua criação num ambiente universitário, primeira vez com este público, e como ela outras e outras, cada uma delas mostrando seu brilho e provando que mulheres escrevem poesia, sim.

Algumas autoras com organizadores da coletânea.

INcontros- Quais os livros já publicados e a perspectiva para o próximo ano?

WC- Esta obra é segunda neste tipo de iniciativa, pois ano passado foi lançado Palavra de Mulher: contos, pela mesma editora, em homenagem à professora e soroptimista Dirce Doroti Merlin Clève, grande defensora de jovens em situação de risco e mulheres submetidas à violência.

Este ano, com Palavra de Mulher: poesia, demos continuidade ao projeto de destacar a produção feminina, e homenageou a professora Viviane de Séllos Knoerr, coordenadora de cursos de mestrado e doutorado em Direito, expoente da área jurídica e também excelente poeta.

As homenagens são um justo reconhecimento a algumas mulheres que tem se destacado na atuação em prol da equidade e inclusão, que orgulham os paranaenses e tornam relevante a participação feminina no mundo do trabalho e das artes.

A ideia de ambos foi mostrar a produção feminina em diversas áreas do conhecimento, valorizando autoras nas mais diferentes faixas etárias. Para 2020, além de mais uma edição do Concurso de Contos, a Banca Examinadora está pensando em selecionar crônicas. Talvez tenhamos uma nova edição do Livro de Poesias, a imaginação é o limite…

Wanda Camargo e Janete Azevedo, uma das poetas.

 

Alguns trechos de poemas contidos no livro, para degustação:

“VERGONHA DA NUDEZ”

(…)
Resistem, resistem, a todo custo
até a acidez das cinzas nos olhos,
a vergonha encapsulada é guardada para dentro
com força de ofuscar o belo, os valores,
para aniquilação da vida no mundo.

O Brasil desnudado, pasmado,
sem rumo de Nação
morre com o corpo nu,
o cobertor se transformou em vergonha,
ainda mostra a direção do abismo,
o fim é o começo da guerra, ou
o restauro da paz.

Autoria de Janete Azevedo (Pág.104)

***

“DIALÉTICA”

Que a rosa
mais perfeita,
feminina e refinada
nasce da roseira
brava,
arbusto selvagem
cheio de dentes afiados –
espinhos.

Autoria de Jussara Regina Branco (Pág. 116)

***

Fui poetizada
Doutrinada pelos versos
As palavras,
que até então, não diziam nada
agora, gritam mais do que eu espero.

Fui politizada
pelo respeito
e consciência
antes, eu só era amor
agora também sou resistência!

Autoria de Elisiane Domainski (Pág. 69)

***

“E DEUS CRIOU A MULHER”

(…)
Esse dia, cada dia de todos os dias, cristaliza o feminino,
faz-se buquê, estrelas, cantares, esperanças,
revelando, em cada forma silhuetada em harmonia,
o complacente sorriso do Deus
que esmero pôs em Sua obra,
criando a doçura na força,
a suavidade na resiliência,
a multiplicidade no uno da doação,
a sedução da imperfeita humanidade,
recortada, na magia de ser, apenas,
simplesmente, MULHER!

Autoria de Rosa Maria Soares Bugarin (Pág. 179)

***

Wanda Camargo é Engenheira Civil e Licenciada em Física. Especialista em Metodologia de Ensino e Mestre em Ciências Geodésicas. Lecionou Análise Numérica em cursos de graduação e pós-graduação na Universidade Federal do Paraná, onde exerceu também vários cargos de gestão universitária. Voltadas ao estudo da melhoria do processo educacional, suas pesquisas estiveram relacionadas às diversas teorias da Aprendizagem. É autora de obras técnicas em Análise Numérica e Educação, publica regularmente artigos voltados à área educacional em jornais e periódicos.
Atualmente é assessora da Mantenedora do UniBrasil Centro Universitário, e também coordenadora de projetos culturais.

 

Posts Relacionados

Deixar comentário