O fim do silêncio

por Larissa Germano

Quero falar sobre bullying. É um  assunto que me toca especialmente. Você pode pensar: por que? Afinal, sou branca, estudei em boas escolas, meus pais sempre foram presentes, em casa e na escola. Olhando do alto dos meus 41 anos não parece haver, em mim, um motivo que seja para ter sofrido bullying.

Mas não é assim que funciona,

Não sou uma estudiosa do assunto, apenas alguém que se atreve a desenvolver suas percepções pessoais e suas próprias experiências, então, peço vênia aos especialistas para desenrolar meus pensamentos sem compromisso acadêmico.

A questão é que o bullying não tem uma lógica racional. Não se dirige ao mais pobre ou ao mais feio, necessariamente.

Fico pensando o que detona o bullying, se há características próprias, coincidentes, nas vítimas.

Nos agressores não parece ter , porque quando se trata de bullying, se você não é a vítima, é quase pressuposto que seja um agressor. Isso mesmo.! Há um mecanismo que faz com que a maioria maciça do círculo de convívio da vítima de bullying adira ao massacre contra aquele escolhido para ‘lixeira’ da turma.

No meu caso, a timidez era o pronto principal.

Eu pensava ser o cabelo, muito enrolado. A altura… O fato de ser uma aluna dedicada (vulgo “cdf”, nos primeiros anos da escola) .

Mas, pensando bem, não era nada disso. Só o fato de ser quieta. De não falar. De aceitar as culpas. Inclusive a culpa de ser como eu era, naturalmente “fora”.

Acho que o bullying é consequência pr’aquele que já sofre com  outros distúrbios sociais como o isolamento, a quietude. Pois é isso que dá azo a que brincadeiras acerca de qualquer outro aspecto da pessoa ganhe dimensões danosas.

Para driblar a prática eu penso ser necessário, antes de tudo, um engajamento de todos num esforço verdadeiro em impedir, em dizimar o problema. Essa verdadeira praga, que assola o convívio escolar e faz repensar a conveniência do instituto ‘escola’ nos dias de hoje, em que se dispõe de eficientes e múltiplas opções EAD.

E mais: em antever! Sim, porque o bullying num grupo de pessoas é quase pressuposto. Ele irá acontecer! É totalmente previsível que ele recairá sobre alguém. É isso mesmo! O escape da galera, onde acaba sendo canalizado o lado negro que não nos livra – ganha nome de pessoa.

Não dá pra alegar surpresa!

E também por isso ão se deve esperar que o assédio ocorra para só depois lidar com o problema! É preciso estar preparado, estar “esperto”.

Saíram algumas reportagens sobre o Kiva, um programa finlandês de combate ao bullying, que tem colaborado para a melhora do convívio escolar e eliminação da prática. Parece que uma de suas principais ferramentas é colaborar com a vítima na expressão do problema e assim erradicar o silêncio, que parece ser o verdadeiro meio condutor dessa violência.

Doutrinar educadores, dirigentes e pais também a receber a denúncia de forma séria, sem desvalorizar o depoimento de quem relata, sem questionar o ‘merecimento’ da vítima.

Sim, deixar de culpabilizar a vítima pela violência sofrida é desafio para mais áreas do convívio humano – não só para as mulheres (cuja luta é imprescindível e justa, e serve de exemplo).

Vivemos num tempo que não se admite mais lavar as mãos e justificar horrores com ditados cretinos como ‘briga de marido e mulher não se mete a colher’ e ‘isso é coisa de criança‘. Em prol da dignidade humana, não se admite mais fazer vista grossa para crueldades, esteja ela onde estiver.

Ouça esta música e entenda com o coração o que não está dito.

 

 

 

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