Uma candeia debaixo do alqueire

por Lucca Tartaglia
Ensaios, crítica, crônicas e resenhas.

arei a terra branca
e com o animal
– aguilhado –
o sulco a vala

a força o guia
os nomes de antes

*

sem porta ou janela
sem viela de acesso

com os passos em volta
entrei
no silêncio e no silêncio
encontrei a sua morada

na entrada não havia entrada
na varanda a varanda
não tinha

era só a casa
sozinha

sozinha
com ninguém do lado

era só a casa vazia
que de tão profunda era rasa
e nada lá dentro existia

nem os móveis nem a volta
nem a casa

*

trago sempre
um fio

um elo
entre os lados

trago sempre uma espada

se no repente da luta
a mão perde o pavio
um golpe macio breve

a figura decepada no chão
ainda quente

um animal ausente
o corpo

um homem
e a cabeça não

*

imitar com infantilidade
a voz de um deus menino
e – na primeira palavra –
arrebentar o peito contra o mar

feito ícaro submerso
no sol impraticável
de penas artificiais
quando a cera postiça
desfaz a altura instrumental
e arquiteta o tombo dos que
– vencendo o labirinto –
deixam-se iludir pela fulgor
das coisas de fora

*

a palavra chama

como fogo vasto
em pasto seco

como um eco no escuro
um beco um furo

queimando

*

lavrando o campo

a semente
em cada bosque
– no verso –
busca
uma árvore
por existir

um fruto
por amanhecer

*

chama
e ninguém dirá
que a fome devora
e também o fastio

se o arrepio é tarde
no vazio do vazio
– já estamos à beira
e basta um passo

ninguém dirá

*

NOME

anterior à palavra casulo
colocaram ainda recente
a trabalhar de dentro
um corpo em maturação

*

PROMETEU

1.
que vinha trazer o fogo
que logo vinha
– disse –
trazer a chama

a mecânica sutil dos luminares
a maneira correta de incendiar
a escuridão sem lado

2.
que vinha com a noite inteira
depois da primeira hora
deitar o motor da fome
sobre o fado

o caminho feito
sobre o leito da escuridão e da espera

3.
que vinha espantar o negrume e o perfume
do medo

ateando
no vazio sem nome
um cuidado um ruído
um desvio

um segredo

que vinha

*

O ÚLTIMO DESEJO DE NICANOR PARRA

como antes virgílio ao pé do fim
peço generoso leitor

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