DO INTERIOR

por Lucca Tartaglia
Ensaios, crítica, crônicas e resenhas.

ADRO

devo conter o animal
de não arrebanhar o cercado

porque
de certo
há de vir o deserto e a sede

há de vir

 

CRISÁLIDA

1.
cultivo
em um canteiro de húmus
o fogo que nenhuma torrente
saberá encontrar

atento à cavidade
e ao arranjo das pedras em torno
guardando a fagulha nova
contra o vento

habitando o intestino da embarcação

2.
feito presa que soubesse
a natureza da fome no íntimo da caçada

que fugisse em disparada
com lágrimas a verter dos olhos

zelando a culpa de não voltar e partindo

 

*

serenar o peito escavado
apaziguando os ramos
e adiando a floração no coração das coisas intranquilas

um gesto lento e um movimento leve
cerzindo a porta e a varanda
a porta e as janelas
a porta o terreiro o pomar

até minguar a cerração

 

*

para fora da ciranda
um deus anda discreto

e no íntimo das mulheres
um feto brota
miúdo

mudo
como a semente
a rebentar no solo

antes de deitar quente
sobre o colo da terra
um ramo novo
e acordado

 

*

o inimigo está à volta
jerónimo – está à volta
e não para o giro

todos os nomes o chamam
jerónimo – e eu me retiro

o inimigo está à volta
jerónimo – está à volta
e não vai parar

todos os nomes o chamam
e ele não para de girar

 

LÍQUEN

na parede do segredo
desde cedo a sede queima

teima a fome do seu nome sem par

do lugar sem lugar e sem meio
do lugar com nada no centro

e cada um dos lados abertos

por fora por baixo
por dentro

 

*

coser o cenho
alinhavando a escuta
e – na luta – abrandar
a língua e a fala

cuidando os lábios
de não achar a morte

polindo a voz
de não rachar

 

*

ao lado
livro-me

como são as aves
no regaço dos poemas

feito sol
dando a sítio
a fronte descoberta
dos animais de corte

 

*

à beira
deito a pedra do sono
e acendo a noite inteira
como um oceano    estreito

como um aceno
                          uma ascese

e espero a palavra
que há de lavar a sebe
das paredes e do chão

 

ACERO

1.
aprendo a lento esse jeito de amar feito
quem deixa

2.
procuro uma forma de residir fora da casa
um furo

3.
a maneira exata do animal quando cresce a mata

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