Pequenos episódios

por Larissa Germano

Atenção aos pequenos episódios. Eles podem mudar tudo! Seja na sua vida, seja na ordem mundial.

Repare que as revoluções iniciam-se a partir de uma resolução que, ao primeiro olhar, pode parecer inofensiva e sem importância.

Havendo uma atenção minimalista, o que é corriqueiro deixa de ser. Todo detalhe importa.

São com pequenos gestos que a transformação ocorre.

O que é o hábito senão pequenas práticas agregadas ao dia-a-dia? E quão grandes coisas ele faz!

Sabe, amigos, não concordo com essa cultura de que o Brasil só pega no tranco depois do Carnaval. Esta coluna inicia coincidentemente depois dele, mas lancei um livro em janeiro, a despeito do risco, por não concordar com essas “regras” de conduta que só nos atrasam.

Por que nos rendemos ao senso comum sem agir para o transformar? Ainda que seja com um pequeno gesto, com um pouco de coragem, como em lançar um livro antes do carnaval?

Mas falemos do formato 2018, já que “A rosa e o sorvete” inaugura hoje. Esta coluna (eu tenho esta preocupação) não fala sobre os temas em alta. Não me envolvo em polêmicas de pomarola. Pelo menos, não aqui.

É uma pequena iniciativa de ser diferente, de dirigir o olhar pra outras coisas, às quais o mundo nos diz, com petulância, não haver tempo a perder.

Mas quem dita as regras do que importa?

Eu desejo que este ano, (que é claro, já começou há dois meses e uns bocados), você possa dizer a si mesmo o que importa.

E que nessa lista tenha espaço para encarar sentimentos sufocados, “coragem” para “suportar” e talvez até apreciar poesia, tempo para estar consigo mesmo e com quem se ama.

Das poesias, vou atrás.

Porque elas podem dizer mais. Podem fazer contato com o que foi renegado, nos engrandecer, nos recontactar (o elo perdido).

Esta não é só uma esperança minha, mas uma certeza.

Espero que possamos ir juntos! E aí vai a primeira:

 

“Deus me abandonou

no meio da orgia

entre uma baiana e uma egípcia.

Estou perdido.

Sem olhos, sem boca

sem dimensões.

As fitas, as cores, os barulhos

passam por mim de raspão.

Pobre poesia.

 

O pandeiro bate

é dentro do peito

mas ninguém percebe.

Estou lívido,

gago.

Eternas namoradas

riem para mim

demonstrando os corpos,

os dentes.

Impossível perdoá-las,

sequer esquecê-las.

 

Deus me abandonou

no meio do rio.

Estou me afogando

peixes sulfúreos

ondas de éter

curvas curvas curvas

bandeiras de préstitos

pneus silenciosos

grandes abraços largos espaços

eternamente.”

 

(Um homem e seu carnaval. Carlos Drummond de Andrade. Brejo das Almas, fl. 27)

 

 

Ouça esta canção, e entenda com o coração o que não está dito.
(Homenagem a Niltinho Tristeza, compositor da Imperatriz Lepoldinense, que nos deixou no último sábado de carnaval.)

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