OS LIVROS, AS LETRAS

por Lucca Tartaglia
Ensaios, crítica, crônicas e resenhas.

Comecei a gostar dos livros de fora para dentro – primeiro, pela capa, cor e tipografia; depois, pela textura, coloração e gramatura do papel: pelo vento aromado de cada folha quando, recém impressa ou já envelhecida, sopra – numa lufada suave – a fragrância do conjunto, o cheiro da tinta rasgando, na superfície da página, as voltas e o desenho das letras. Certa vez, caminhando pela calçada, uma grande amiga me disse: “cada pessoa tem sua própria viração”. Suspeito que para os livros seja também assim.

Desde o início, um químico de formação e uma exímia costureira (dentre outras tantas coisas) influenciaram muito na construção do hábito e do “gosto” – o que despertou, é provável, uma tendência a cerzir as coisas, a remendá-las, buscando, na distância e no estreitamento, os elementos catalisadores, as reações possíveis, os reagentes, a espessura e composição de uma determinada linha, a técnica empregada em um dado ponto, as medidas e provas, as casualidades e os pormenores de cada ondulação.

De qualquer forma – ignorando a tentativa de sempre criar relações harmônicas e consequentes na própria história – fato é que, a lentos goles, cheguei ao interior do objeto, entrei, em 2010, para o curso de Letras e sigo um tanto obcecado por Livros – não só pelo recheio, mas também pela casca, pelos processos que o circundam, pelas instituições que o regulam e que regulam seu movimento, pela sua história como suporte, pelos tipos e formas de leitura, etc.

Em 2014, enquanto terminava a graduação, organizamos – a partir da ideia de um grande amigo, Diego Cardoso Perez – o I CILIBAM (Colóquio Internacional de Literatura Ibero-americana), na Universidade Federal de Viçosa, quebrando o modelo de evento realizado até então e convidando, para além de acadêmicos ligados, de forma geral, à recepção crítica e à teoria literária, escritores e editores, com o intuito de reunir, no corpo do evento, o que – à época – chamamos de “as dinâmicas do livro”.

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Há cerca de dois anos atrás, quando entrei para o doutorado, na UFRJ, descobri que aquele “modelo” traçado por nós era estranho a uma “tradição acadêmica” específica, mas isso é conversa para outra hora.

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Pouco tempo depois – alguns meses depois – me disseram que alguns pontos levantados durante o colóquio – em especial, aqueles que fugiam ao padrão – não eram relevantes – ou, pelo menos, não tinha relevância suficiente – para os graduandos (ainda que, durante as palestras e comunicações, a reação dos participantes tenha sido a melhor possível). Não era “expressiva a colaboração dessas outras áreas” – argumentava o colega – “porque um aluno de Letras não tem de saber essas coisas”. Talvez, ele tivesse razão. Talvez, os alunos não tenham de saber “essas coisas” – nem por alto, nem por aproximação. Talvez, eles possam ignorar totalmente os processos que envolvem o seu principal objeto de trabalho, mesmo que conhecê-los, ainda que de maneira breve, seja extremamente importante para pensarmos a formação de novos leitores, a formação continuada de leitores principiantes, a difusão do conhecimento em território nacional, o seguimento da popularização de bibliotecas públicas, o interesse no aprendizado a longo prazo, o preço do livro enquanto mercadoria, etc. Que era “só capricho dos organizadores” – disse o colega – “membros que eram”, segundo ele, “de uma tradição do novo”.

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Em A rebelião das massas, José Ortega y Gasset, ao falar sobre “A barbárie do especialismo”, aponta que o processo de especialização, a partir do século XIX, foi um passo quase inevitável no desenvolvimento e otimização da técnica, ou seja, “para progredir, a ciência necessitava que os homens de ciência se especializassem”.

Assim, o pesquisador foi, progressivamente, “encerrado num campo de ocupação intelectual cada vez mais estreito”, reduzindo sua “órbita de trabalho” e perdendo contato “com as demais partes da ciência”. Bem como Ortega, no caso da Física, aponta Galileu e o séc. XVI como uma espécie de gênese; nas Letras, me parece, a “segregação” também principia por volta daquela centúria, com o aparecimento das Universidades, a abertura das bibliotecas, o crescimento da procura pelo livro e a invenção de Gutenberg. Para o filósofo espanhol, o especialista

Chega a proclamar como uma virtude o não tomar conhecimento de quanto fique fora da estreita paisagem que especialmente cultiva, e denomina diletantismo a curiosidade pelo conjunto do saber.

O caso é que, fechado na estreiteza de seu campo visual, consegue, com efeito, descobrir novos fatos e fazer avançar sua ciência, que ele apenas conhece, e com ela a enciclopédia do pensamento, que conscienciosamente desconhece.

Dessa maneira, é verdade que, para “os efeitos de inúmeras investigações, é possível dividir a ciência em pequenos segmentos, encerrar-se em um e desinteressar-se dos demais”, propelindo o processo geral de uma dada ciência – portanto, de certa forma, da Ciência como um todo – encerrado em um nicho qualquer, “como uma abelha no seu alvéolo”, sabendo muito bem – ou aparentemente bem – “seu mínimo rincão de universo”, mas ignorando “basicamente todo o resto”. Nessa perspectiva, o especialista – segundo Ortega – é um “sábio ignorante”, pois compreende as particularidades da sua área – e, por isso, o sábio – mas desconsidera aspectos simples de “quase todas as esferas da vida” – por isso, o ignorante.

Não sou contra a especialização – eu mesmo, desde o fim da graduação, como deixei entrever, tenho me especializado. O que me parece inútil – e até danoso – é um “especialismo” que, pretensiosamente, vê na sua lasca – na sua fatia – um quê de totalidade, julgando, de forma quase metonímica, a parte pelo todo e crendo que a sua visão restrita é, na realidade, uma verdade universal. O que me parece nocivo é não oferecer os elementos necessários para que o estudante, no início de sua formação, conheça a largura e as possibilidades do campo sobre o qual caminhará, “a fisiologia interna da ciência” que, caso opte pela especialização, irá cultivar.

Em Os intelectuais e a sociedade, Thomas Sowell, um economista e filósofo político norte-americano, afirma que os especialistas são “exemplos clássicos de pessoas cujo alto conhecimento está concentrado dentro de uma margem estreita, a partir de um vasto espectro de preocupações humanas”. Segundo o autor,

a interação inevitável entre inúmeros fatores do mundo real significa que, mesmo dentro dessa margem estreita, fatores que chegam de fora da margem podem interferir nos resultados de uma forma significativa, transformando um especialista, cuja especialização não abrange esses outros fatores, num amador.

O que defendo, portanto, não é uma utópica formação enciclopédica e polímata – onde o letrólogo deveria fabricar o papel, costurar as folhas, editar as obras, imprimi-las, publicá-las, vende-las, criticá-las, arquivá-las com métodos variados, etc – mas um preparo maior no que se refere aos caminhos do livro.

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Um pequeno intervalo para esclarecermos sobre o termo “letrólogo”. Não é uma palavra dicionarizada, mas seu uso tem se tornado cada vez mais frequente e a sua aplicação, me parece, é útil – nitidamente – para encapsular a gama de possibilidade oferecidas, pelo menos em teoria, a um profissional de Letras. A Universidade de Salamanca, na lista de “Profesiones reguladas para las que capacita” o “Grado en Estudios Portugueses y Brasileños” realizado na “Facultad de Filología”, indica, dentre vários, os seguintes campos possíveis: instituições públicas e privadas de ensino de língua; Bibliotecas e arquivos; carreira diplomática; editor e livreiro; programação e gestão cultural; investigação avançada (mestrado, doutora); tradução/ intérprete; redator e revisor; crítica literária; redação em periódicos e revistas de múltiplas especialidades; profissionais independentes da indústria cultural; assessor de publicidade e marketing; ministérios; embaixadas; integração em quadro de corpo diplomático; indústria do turismo; relações públicas e internacionais; assessoria em pequenas, médias e grandes empresas;  organizações e entidades que necessitem de profissionais que dominem idiomas estrangeiros; institutos bancários, etc. Ainda que a legislação brasileira – para os bibliotecários, por exemplo – seja ligeiramente diferentes, os campos de atuação, quando não coincidem, esbarram-se.

Claro, para seguir essas carreiras, o estudante terá de se especializar, obter por uma determinada habilitação e fazer cursos de formação continuada, mas, para que chegue a isso, terá de saber, primeiro, que essas possibilidades existem.

Volto a dizer, não sou contra a especialização – lutar para que o “afunilamento” fosse extinto é, igualmente, fantasioso, irreal e negativo – mas contra o “especialismo”, um modo reducionista e pernicioso de conduzir a educação de futuros especializados, encerrando-os miudeza de uma única linha sem – ao menos – dar as condições para que reconheça, nesse fio, a parte de uma complexa urdidura.

Ainda sobre o vocábulo – “letrólogo” – sua composição (do latim lĭttĕra, “letra”, e do grego lógos, “palavra, estudo, tratado”), tendo em vista o nome do curso no Brasil, serve bem ao propósito de designar o profissional formado na área de Letras, independente da “frente” em que atua, apontando para a importância de um conhecimento – ainda que mínimo – sobre os derredores da letra, e, portanto, do livro e demais suportes, para a formação desses professores, tradutores, editores, etc.

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Retomando a opinião do colega sobre o evento e, com ela, o próprio CILIBAM, não me parece – como não me parecia na época – que o esforço tenha sido por nada. Em 2015, como resultado do colóquio, publicamos o livro Escrever, editar, publicar e ler/ Escribir, editar, publicar y ler, reunindo, além das comunicações, textos dos editores e escritores convidados. Dentre as muitas contribuições relevantes, cito: a dos editores Rogério Barbosa da Silva, “Sobre a Editora Scriptum: a difícil conciliação entre o negócio e os prazeres dos livros”, e Livia Deorsola, “Palestra de fechamento no I Colóquio Internacional de Literatura Ibero-Americana”; a dos escritores (inéditos no Brasil) Ramiro Sanchiz, “Asalto al vagón del oro”, e Juan Manuel Candal, “Muerte de un editor” e “¿Sueñan los actores con féretros más cómodos?”. Destaco, ainda, o artigo “Escribir, editar y publicar ficción fuera de lo mainstream en Uruguay e Hispanoamérica hoy” (Escrever, editar e publicar ficção fora do mainstream no Uruguai e na Hispanoamérica hoje), do professor Juan Pablo Chiappara, que traz valorosas contribuições para pensarmos as dinâmicas de circulação e publicação dos livros em país vizinhos, mas – tantas vezes e de tantas formas – desconhecidos.

Estamos à beira de 2018 e, possivelmente, o II CILIBAM acontecerá no ano que vem. A pertinência do evento, desde 2014, continua a mesma e a necessidade de considerarmos, em nossas discussões, os variados espectros, os vultos que circundam o livro, mantem-se ativa e presente. Além disso, seguimos desconhecendo, em grande parte, a produção literária contemporânea da Hispanoamérica, seus mecanismos de legitimação, suas dificuldades de circulação, os caminhos que fazem com que algumas obras cheguem ao Brasil e a estradas que contornam o país, os autores brasileiros que são traduzidos e lidos da Argentina, Uruguai, Bolívia, Chile, Colômbia, Paraguai, etc.

Com a série “Introdução ao lado” – em publicação aqui, na Caderno de notas – a intensão é, também, de verificar os passos em volta do livro, porque – primeiro, pela capa, cor e tipografia; depois, pela textura, coloração e gramatura do papel – comecei a gostar dos livros de fora para dentro, até que eles começaram a me abrir de dentro para fora.

Se cada um tem a sua própria viração, eu quero ver, no passar do vento, para onde a seta aponta e o galo torce. Eu quero ler, na dinâmica das folhas que caem, a assinatura de um movimento, as forças que – à primeira vista – nos escapam, as coisas todas em giro e as margens ao redor.

Quanto ao colega, sim, o melhor – talvez – fosse não meter o nariz em nada disso.

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