IDENTIDADES MUTANTES…

Embora nem todas as pessoas tenham um mesmo grau de acesso aos recursos tecnológicos, e estes possam até aumentar a desigualdade social, é evidente que sofremos alterações na forma de vida e atitudes em função da tecnologia.

A estratificação resultante das novas mídias, ou seja, as desigualdades resultantes do seu uso nas diversas classes sociais de cada região – algumas praticamente alijadas delas – produz aquilo que denominamos hoje de “lacunas de conhecimento”, pois países mais ricos, e principalmente suas classes sociais mais altas, tem acesso facilitado às modalidades mais sofisticadas de trabalho e aos novos empreendimentos.

Pessoas conectadas em rede tem mais facilidade não apenas às informações, mas a tudo que decorre destas: mais oportunidades de emprego, mais segurança, saúde, lazer, entre outros itens que trazem conforto e inovação na rotina diária.

No entanto, tudo isso se altera também na dependência da estrutura das personalidades envolvidas, e percebe-se hoje que as identidades pessoais têm sofrido alterações profundas se estamos off-line ou online: jovens e crianças estão desenvolvendo duas formas de identidade, inéditas em nossa cultura até o momento.

Seres humanos sempre apresentaram diferenças sensíveis entre seu comportamento privado e público, pois a sós temos um certo padrão de comportamento que nem sempre se repete quando acompanhados, já que as normas sociais interferem significativamente neste último caso. Comunidades e até povos podem ser mais expansivos ou introvertidos em comparação com outros, é o caso, por exemplo, da emotividade brasileira versus a contenção associada a europeus ou orientais.

Se o meio “permite” mais contato físico, como abraços ou demonstrações explícitas de afetividade, mesmo pessoas mais tímidas – no plano pessoal – tendem a soltar-se um pouco mais, socialmente falando. E é interessante verificar que muitos estrangeiros, sisudos em seus países de origem, se “contaminam” com a alegria brasileira.

Ilustração de Tomek Sętowski

Isso sempre existiu, mas vemos hoje o desabrochar de um controle bem mais difícil sobre nossas identidades sociais, já que nossas características pessoais podem ser extremamente passíveis de serem alteradas quando estamos online, e o tipo de vida que vivemos pode ser classificado como digitalmente mediada.

Claro que alterar nossos avatares pode modificar a forma como somos percebidos pelos demais, e isso certamente provoca confusão intima entre impulsos autênticos ou cultivados, até o ponto em que sejamos incapazes de discernir entre um e outro; e isso justifica inclusive o uso da internet para divulgar dados extremamente pessoais, que possivelmente trarão dissabores ou mesmo complicações judiciais.

Nestes casos estão aqueles que enviam nudes, declarações racistas, detalhes de renda ou atividades de lazer, xingamentos, machismos, homofobias, agressões de vários tipos, como se estivessem falando apenas entre amigos de estrita confiança.

Tais comportamentos, mais visíveis quanto mais jovens são os usuários das redes sociais, infelizmente é visto também entre adultos, numa época em que ninguém quer “crescer”, ou seja, amadurecer; e assim subestima-se o risco corrido em tempos de violência extremada, que muitas vezes extrapola o verbal e é explicitada no plano físico.

Observando crianças e jovens no ambiente escolar, é fácil verificar que as relações custo-benefício de alguns de seus procedimentos não estão nos universos emocionais, e que o desejo de aprovação social é preponderante a qualquer outra perspectiva em seus atos. Colocar-se com intimidade, oferecer o prazer do compartilhamento, concordar com o outro em suas mais estapafúrdias declarações, sentir-se membro daquele grupo parece cegar a autocrítica.

A instabilidade da identidade pessoal produzida pela enorme insegurança de quem pode ou não ter acesso às postagens – já que amigos compartilham com outros amigos – tem criado hoje identidades sociais assentadas em premissas falsas, e as agressões crescem.

 

CHEGAMOS AO LIMITE?

Numa visão simplista, a escravidão no Brasil foi apenas aquela monstruosidade que se cometeu por séculos contra índios e negros, e que teria sido “abolida” em 1888; isso é uma face dolorosa e vergonhosa de parte da verdade, mas está longe de ser toda a verdade. A pessoa escravizada não é somente aquela privada de liberdade e submetida a trabalhos forçados, é todo ser humano de quem se rouba a dignidade e os direitos fundamentais.

Adultos analfabetos, crianças fora do sistema escolar, moradores de rua, violência, ausência de saneamento e inúmeras outras mazelas, aderidas ao horror diário que chega de Brasília, com negociações imundas para a manutenção da imunidade/impunidade de figurões abaixo de qualquer suspeita, deveriam ter nos habituado aos absurdos que se pode cometer no exercício do poder.

Benesses, afagos, cargos, indulgências tributárias e plenárias, fatos antigos, embora tenham chegado a um paroxismo sem qualquer pudor, não nos levariam à suposição de que se fosse ao ponto de tentar restaurar formalmente a escravidão.

Foto1: Sebastião Salgado

No entanto o Ministério do Trabalho e Emprego baixou portaria que “flexibiliza” o conceito de trabalho escravo em nosso país, segundo a qual o trabalho em condição degradante, as jornadas exageradas e o trabalho forçado podem ser tolerados em uma sociedade civilizada desde que a vítima (o trabalhador) tenha concordado com isso.

Certo que grandes áreas do Brasil não são exatamente civilizadas, e pensemos no imenso poder de pressão que empresários mal-intencionados têm frente a trabalhadores pouco esclarecidos, até mesmo analfabetos, em situação de penúria – que labutarão anos a fio apenas para pagar sua própria comida e abrigo, embora estes estejam muito abaixo do que se concederia aos animais, e que mesmo neste caso caracterizariam desumanidade contra aqueles mais vulneráveis.

Agora, aquelas condições análogas à escravidão apenas se caracterizam dessa forma se os trabalhadores forem mantidos presos no local de trabalho; como se a impossibilidade de sair dele ou procurar outro emprego, sem ressarcir passagens e alimentação a preços extorsivos, já não fossem prisão não declarada. Simplificando: não havendo senzala não é escravidão, os grilhões econômicos, financeiros e o uso da brutalidade passam a não ter a mínima importância.

Outro dado absurdo: a lista das empresas envolvidas com trabalho escravo, que deveria ser levada a público no mínimo duas vezes ao ano e por determinação da área técnica do Ministério, passará a depender da “determinação expressa do ministro”. É desafiador imaginar como o ministro conseguirá tempo e competência, dentre as suas inúmeras atribuições (supomos), para filtrar as informações incômodas e determinar “expressamente” a publicação das restantes, o que provavelmente ocorrerá apenas em anos bissextos.

Foto2: Sebastião Salgado

Num país onde proliferam favorecimentos aos amigos, onde se compram votos a peso de ouro – com verbas públicas, evidentemente -, em que flagrantes explícitos de malversação do erário são apenas perseguições da mídia golpista, é fácil ver onde usamos o nariz vermelho do palhaço. Sem ofensas ao palhaço, trabalhador honesto e dedicado.

O setor agropecuário é essencial para o país, além de produzir alimentos gera divisas importantes com a exportação, e é um dos segmentos da economia que mais cria e mantém empregos formais distantes da degradação do trabalho escravo. É lamentável que alguns de seus representantes, talvez espúrios, valham-se da fragilidade de um governo pouco legítimo e em situação de pânico para tentar impor condições de trabalho indefensáveis para brasileiros.

Em meio a tanta infâmia é um consolo que possamos nos orgulhar do Ministério Público do Trabalho, dos auditores responsáveis pela área, por muitos representantes da sociedade civil e até pela Organização Internacional do Trabalho, que não dobraram a espinha e fazem o possível para evitar uma catástrofe humanitária e legal. Tudo tem limites.

UMA RENCA DE INSENSATOS

Renca (expressão popular): bando, grupo.
RENCA: Reserva Natural do Cobre e Associados.

Quando é necessário, ou conveniente, fazer algo ruim para conseguir um suposto bem maior é comum a justificativa de que não se faz omelete sem quebrar os ovos ou, mais tecnicamente, que é preciso avaliar cuidadosamente custos e benefícios, e se estes superarem aqueles, agir de acordo.

É prudente a análise de custo-benefício como suporte à maior parte das decisões que se precisa tomar na vida, mas aplica-se mais comumente a questões financeiras. No entanto, seu escopo é muito mais amplo, começa no aspecto econômico: se um país investir pesadamente em educação e saúde, em poucos anos não terá retorno financeiro ao capital investido que justifique o investimento, mas o retorno de longo prazo será imensurável, governantes sérios sabem perfeitamente disso, o horizonte dos governantes menos sérios é a próxima eleição.

Vista do parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, no Amapá. ACERVO/ICMBIO – https://ep01.epimg.net/brasil/imagenes/2017/08/30/politica/1504105777_233176_1504106556_noticia_normal.jpg

Não vivemos em um mundo de fantasia, sabemos que algumas omeletes devem ser feitas e justificam a quebra de alguns ovos. É preciso produzir alimentos para uma população em crescimento e para exportação, embora não sejamos o “celeiro do mundo” temos participação importante na mesa do mundo, extraímos minérios e petróleo, ampliamos e modernizamos nosso comércio, setor de serviços e indústrias.

Somos mais de duzentos milhões de pessoas demandando comida, empregos e bem-estar, e isso não se fará apenas com ideais. A ampliação da fronteira agrícola implica em desmatamento, mineração é atividade danosa ao meio ambiente, plataformas marítimas de petróleo são instáveis, toda atividade econômica traz risco, perigo e, num mundo ideal seria proibida, mas neste mundo as pessoas plantariam o que comem e morariam em cavernas. Alguém se habilita?

A questão fundamental é que toda atividade econômica deve ser normalizada, e o cumprimento das normas fiscalizado com todo rigor.

À frente do custo-benefício financeiro deve estar sempre o custo-benefício social e ambiental. E embora este mundo não seja o ideal, nosso país está longe demais do mínimo indispensável para ser sério.

A Reserva Natural do Cobre e Associados, de mais de quatro milhões de hectares na divisa do Amapá com o Pará, inclui nove áreas protegidas, indígenas, quilombolas ou de interesse ambiental. É rica, além de cobre, em ouro, ferro, manganês e outros minérios, e a estatal Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais foi a única autorizada a explorar a área desde sua criação em 1984.

Recentemente, numa decisão antecipada meses atrás para empresas mineradoras canadenses, o governo decretou a extinção da Renca; após a grande reação negativa, e no vai e vem ridículo que parece ter se tornado regra em Brasília, cancelou a extinção e a reafirmou em outro decreto, com supostas salvaguardas aos indígenas e áreas de preservação.

Reserva Nacional do Cobre e Associados (RENCA) –  http://www.olivre.com.br/geral/governo-vai-revogar-decreto-e-editar-nova-medida-descrevendo-extincao-da-renca/6982

 

O cumprimento das salvaguardas estará a cargo de um tal Comitê de Acompanhamento das Áreas Ambientais da Extinta Renca, subordinado à Casa Civil da Presidencia da República, a Reserva ser considerada “Extinta” no próprio nome do Comitê deve dar uma ideia da pressa.

A privatização tem alguns méritos, e na algumas vezes é benéfica ao país, quando os órgãos do Estado responsáveis pela fiscalização de suas atividades funcionam de acordo com suas atribuições, defendendo os interesses da população e não das próprias empresas privatizadas.

Um Comitê subordinado à Casa Civil certamente terá cargos saborosos para aliados, a única maneira de tentar torna-lo operacional de fato seria preencher dois terços de suas vagas com pessoas sem qualquer vinculação político-partidária indicadas por entidades ambientalistas e universidades.

‘Para a Amazônia não virar deserto’: Ativistas protestam na Câmara contra a extinção da Renca – https://cdnbr2.img.sputniknews.com/images/923/87/9238703.jpg

Nossa Economia precisa de incremento, o país precisa crescer e produzir riquezas, mas é duvidoso que isso deva ser feito destruindo áreas de proteção ambiental e canibalizando a alma de povos indígenas em troca de caminhonetes de luxo e bugigangas do tipo, como se faz habitualmente.

Trata-se de mais uma negociação tenebrosa, numa hipótese caridosa, com o objetivo de permanência em cargos púbicos por mais alguns meses. Para quê, mesmo? No momento, a constitucionalidade da emissão do(s) decreto(s) está em análise no STF.

Aguardamos.

A RESPONSABILIDADE SOCIAL E SEUS IMPACTOS….

A palavra filantropia tem entre seus significados o de profundo amor pela humanidade; e desde a Idade Média a igreja praticava a caridade como forma de “pacificar” os menos favorecidos, seguida no século XVIII por algumas ações caridosas realizadas pelos burgueses e pelo Estado, pois as consequências da extrema pobreza mostravam-se perigosas para a manutenção da lei e da ordem, e apontavam a necessidade de providências.

De certa forma, constituiam formas de governar a miséria, minorando a situação de poucos através de atividades pontuais e personais, mais que tentativa concreta de resolução de problemas sociais; não correspondendo exatamente a uma devoção pelos demais seres humanos, e sim a um certo senso prático.

Um fato ocorrido nos Estados Unidos logo no início do século XX ilustra significativamente este fato, e foi protagonizado por Henry Ford, industrial que se tornou o emblema e até nomeou um certo capitalismo selvagem, o fordismo, e que realmente carecia de alguns atributos que hoje enaltecemos como caracteristicos das pessoas mais solidárias e de elevados valores morais.

No entanto, foi dele a primeira iniciativa registrada de que um presidente – e acionista majoritário – de empresa, não distribuisse entre os sócios uma parte dos dividendos mas os revertesse para a realização de objetivos sociais, como aumento de salários e aplicação em um fundo de reserva, destinado a suprir possíveis carencias quando os preços dos carros fossem reduzidos.

Sua ideia clara era de diminuir o preço dos veículos para que até seus funcionários pudessem comprá-los, o que aumentaria a qualidade de vida dos trabalhadores, seu poder de compra e, um pouco depois, o lucro da organização. No entanto, com isso Ford contrariava o interesse imediatista de um grupo de acionistas, como Horace Dodge, que entrou na justiça contra ele, justificando que a corporação existe para o benefício dos acionistas, não tendo diretores corporativos livre arbítrio quanto aos meios de utilizar lucros para outras finalidades; e a Suprema Corte de Michigan também entendeu desta maneira, dando ganho de causa a Dodge.

Assim, durante muito tempo a prática de ações sociais foi desestimulada no meio empresarial, sendo desenvolvidos apenas assistencialismo, caridade ou doações para a criação de fundações, como a da própria Ford em 1936, a Rockfeller e a Guggenheim.

(https://www.emailmanager.com/files/upload/blog/imagensblog/filantropia.jpg)

 

Após a Grande Depressão, como é conhecida a crise de 1929, e que terminou apenas com o Segunda Guerra Mundial, considerada o pior – e um dos mais longos – período de recessão econômica, a noção de que uma corporação existe apenas para benefício de seus acionistas foi abalada, e a questão da responsabilidade empresarial se impôs na agenda política.

Pensadores como o economista britânico John Maynard Keynes passaram a apresentar novas ideias e conceitos, mudando as políticas economicas instituídas pelos governos e gerando condições para investimentos em tecnologia, acumulo de capital e consolidação do modelo de produção em massa, provocando mudanças nos valores sociais.

Os horrores da guerra, somados ao medo da ascenção de regimes socialistas pela via eleitoral, trouxeram também nova consciencia do papel e da responsabilidade das empresas e dos empresários no bem-estar da sociedade, com medidas efetivas visando a melhoria de relações com trabalhadores e com a comunidade.

Embora necessárias e meritórias, estas iniciativas padecem em muitos casos da ausencia de real compromisso com a responsabilidade social, estando mais voltadas a cumprimento de legislação, ações de marketing ou obtenção de vantagens tributárias; e mesmo assim, sua ocorrencia é positiva. Quando escolas tentam colocar a questão em seus currículos, tais contradições se manifestam amplamente.

ESCARPA DEVONIANA E A SOBREVIVÊNCIA FUTURA…

 

Sobreviver em ambiente hostil requer imediatismo, não é prudente parar para meditação quando nossa vida está ameaçada, a melhor atitude é a defesa possível ou a fuga para evitar o pior. Esta é a realidade de quase todos os seres vivos, e foi a nossa por muitos milênios, até que algumas comunidades conseguiram superar riscos naturais como ataques de feras, carência de alimentos, desastres ambientais, e finalmente pelo estabelecimento de alguma organização e pactos sociais, reduzindo os riscos que o próprio ser humano representa para seus semelhantes.

O que não significa, em absoluto, que vivamos uma realidade edulcorada sem guerras e agressões, como qualquer noticiário ou circulação pelas cidades nos mostram, mas possibilitou o surgimento de um grande contingente em situação do que podemos chamar “privilégio relativo”, não fazendo parte da aristocracia e nem do proletariado, essas pessoas não têm ou tiveram os vícios decorrentes de viver exclusivamente do trabalho de outras e tampouco sofreram as consequências terríveis da carência de alimentos, agasalho, liberdade e talvez principalmente de educação.

Trata-se da classe média, a tão vilipendiada e incompreendida “burguesia” dos manuais de revolução; trata-se na verdade de quem nós somos, nós que provavelmente nunca passamos fome, nós que tivemos acesso à educação e recursos médicos, nós que, se não estamos realmente na situação material que gostaríamos ou mereceríamos, preservamos a capacidade e o direito de pensar.

Os horrores das guerras mundiais, acrescidos do risco de destruição nuclear que se tinha como praticamente inevitável nos anos iniciais da guerra fria, levaram-nos a um suposto despojamento de preocupações com o futuro, como se poupar saúde ou vida fosse renúncia ao direito de “viver como se não houvesse amanhã”, num mundo em que talvez não houvesse mesmo.

Porém, neste momento está em discussão na Assembleia Legislativa do Paraná o futuro de uma APA (área de preservação ambiental) das mais importantes para nosso estado, a Escarpa Devoniana. É uma área de quase quatrocentos mil hectares, distribuídos em treze municípios da faixa dos Campos Gerais, um dos ecossistemas mais ameaçados do país, com capões de araucária, afloramentos de rocha, variadas espécies de mamíferos, aves, répteis e peixes.

(http://s2.glbimg.com/0ZuCCinl5Dvj513SAY23bo-yxec=/1200×630/filters:max_age(3600)/s03.video.glbimg.com/deo/vi/02/77/5697702)

Além de grande importância histórica, cultural e arqueológica, por ter sido parte da Rota dos Tropeiros e abrigado muitos povos indígenas. O Projeto em curso propõe reduzir esta área em dois terços ou, eufemisticamente, relativizar a proteção ambiental da APA.

Segundo professores da Universidade Estadual de Ponta Grossa, a prática tradicional da pecuária extensiva permitiu que a paisagem do Segundo Planalto paranaense não fosse muito comprometida durante largo período de tempo; entretanto nas últimas décadas a paisagem típica da região cedeu espaço para extensas plantações de soja e florestamentos de pinus, gerando uma mudança generalizada no uso da terra, e, ainda segundo os pesquisadores, o interesse de reduzir a área protegida em dois terços seria de grupos que pretendem explorar mineração e energia eólica e hidráulica.

(http://www.oeco.org.br/wp-content/uploads/2017/01/Coluna-1-1024×683.jpg)

É preciso salientar que ambientalistas opõem-se fortemente à redução da área, e que mineração propicia riscos imensos a qualquer local, rios, animais e comunidades próximas, como lamentavelmente vimos num caso extremo recentemente.

Em termos mais amplos, sociais e ambientais, a despreocupação compulsiva com o futuro compromete de modo talvez irremediável o que deixaremos para nossos descendentes, eximir-se de questões sérias, que são responsabilidade de todos nós, não prenuncia bom futuro aos nossos filhos e netos. Indispensável o zelo e a participação nesta discussão.

                                                                         ***

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil, assina a Coluna Educação & Cotidiano.

Contato: <wandacamargo4@gmail.com>

 

TRADUZINDO O MUNDO…

O sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, um dos mais considerados pensadores da área educacional nos dias de hoje, disse em recente entrevista que “todo conhecimento é uma tradução, que é seguido de uma reconstrução, e ambos os processos oferecem o risco do erro”.

Todo aquele que já tentou realizar uma tradução de texto, por mais simples que seja, entende bem a cada idioma tem suas peculiaridades, manter-se fiel ao espírito desejado pelo autor do documento, poesia, ensaio, escrito literário, não é simples, envolve escolhas delicadas, a palavra exata, e muitas vezes é possível alterar bastante o conteúdo imaginado inicialmente. Um adágio popular proclama que todo tradutor é um traidor; isso acontece porque nós, seres humanos, somos simultaneamente análogos e distinguíveis, parecidos e diferentes, e tudo aquilo que nos une pode também nos separar.

Reconstruir tem a mesma característica, o novo nem sempre guarda do anterior algumas características que apreciávamos, não por coincidência várias campanhas políticas têm sido vencedoras com uma espécie de apelo ao passado, àquilo que era antes, algo que perdemos no avanço para o futuro.

Todo estudante quando tem suas primeiras aulas de Física é apresentado formalmente aos conceitos de tempo e de espaço, embora tenha convivido praticamente toda a sua vida com essas grandezas e suas consequências, é geralmente neste momento que elas parecem começar a existir racionalmente. Espaço é mais fácil de compreender, pois associável a valores materiais e mensuráveis: metro, quilômetro, milímetro… já o Tempo, embora também mensurável, é imaterial e, na verdade, apenas existe como referência.

(http://nsrainha.com.br/content/uploads/Artigo-Espa%C3%A7o-de-tempo-11072016.jpg)

 

Quando se fala de qualquer momento, está se falando do momento que já passou (mesmo que há um milissegundo) ou da expectativa do momento que há de vir. A captura do exato momento presente é um desafio que resiste aos milhões de “selfies” feitos na tentativa de congelá-lo.

É como se a nostalgia constituísse um sentimento dominante na ordem mundial, o passado cada vez mais desejável e representativo do que é bom, o presente trazendo dor, revolta, ressentimento e uma absoluta falta de perspectiva em relação ao futuro. Como se só nos restasse o já transcorrido, que na lente da memória se torna cada vez mais rosado.

Assim, pensar em conhecer algo como uma necessária tradução seguida de reconstrução pode assustar bastante, pois poucos espaços de convivência humanos trabalham tão fortemente com o conhecimento de forma tão fragmentada quanto as escolas, em qualquer nível. Se a isso somarmos o fato de que aprender não é apenas um processo racional, dado que muito da emoção está associada à aprendizagem, a complexidade deste ambiente é surpreendente.

Entender e operar bem dentro deste enredamento, com as mudanças profundas ocorridas no processo educativo nestas últimas décadas, tanto provocadas pelo avanço tecnológico, pelas alterações políticas e econômicas, quanto pela maior compreensão da dialética razão-sentimentos, leva à necessidade de compreendermos melhor o mundo em que vivemos, seus problemas e possíveis soluções, ao mesmo tempo em que necessitamos aperfeiçoar a solidariedade e empatia, pois soluções globais exigem empenho e dedicação de todos.

Quem somos, sem ilusões sobre nosso possível caráter angelical, como convivemos dentro da identidade de cada nação sobre o planeta, o quanto podemos confiar na ciência e tecnologia que desenvolvemos, até que ponto inclusão não é apenas um discurso repleto de boas intenções e sem respaldo na realidade de nossas ações, são quesitos que ainda merecem reflexão.

Traduzir o mundo, ensinando aos jovens como sobreviver sem destruir o meio ambiente, conhecendo melhor a si mesmo e aos demais, tornando-se um bom profissional e cultivando a linguagem da paz, ainda é missão perseguida pelos professores, embora nenhum de nós domine o idioma da verdadeira fraternidade.