QUEM É O CULPADO PELO HOLOCAUSTO?

Por Renata SIUDA-AMBROZIAK*

Durante a II Guerra Mundial, a minha terra tornou-se o palco da maior carnificina que se pode imaginar. Em cada esquina morreram dezenas, centenas, ou milhares de pessoas. Essa situação de praticamente cada um de nós, poloneses, ter perdido os familiares tem a ver muito com a memória da Guerra e do Holocausto na Polônia e com as controvérsias recentes ligadas às mudanças na narrativa e no discurso internacional sobre a II Guerra Mundial em geral e o Holocausto em particular.

Parece que por razões ideológicas, econômicas e políticas, as interpretações do crime contra a humanidade que aconteceu nos tempos da guerra estão começando a ser desenvolvidas de maneiras novas, surpreendentes e, ao mesmo tempo, bem perturbadoras. Especialmente quando aparecem as tentativas para explicar o Holocausto pela “coautoria” dos poloneses e aparece no discurso diplomático a expressão “campos de concentração poloneses”.

Vejamos simplesmente os fatos – o Holocausto foi planejado e preparado pela Alemanha nazista, mas executado na Polônia ocupada. Antes da guerra a Polônia gozava da maior concentração de judeus na Europa e da segunda maior do mundo, depois dos Estados Unidos. Foi decerto precisamente por causa da numerosa população judaica na Polônia que os locais de extermínio foram estabelecidos pelos nazistas no território polonês. Mas o Holocausto foi institucionalmente organizado e sistematicamente levado a cabo pelos alemães nazistas.

A II Guerra Mundial eclodiu com a agressão da Alemanha nazista na Polônia, em 1 de setembro de 1939. Em 17 de setembro de 1939, segundo o Tratado de Ribbentrop-Molotov, também as tropas soviéticas invadiram a Polônia, colaborando perfeitamente na destruição do país com os nazistas. Nas terras polonesas sob ocupação soviética, os judeus, junto com os poloneses, foram enviados aos campos de trabalho penais ou brutalmente executados com tiros covardes na cabeça dos prisoneiros desarmados (Katyn, Miednoye).

Ainda em 1939 os nazistas começaram a criar no território polonês ocupado as grandes concentrações de judeus nos guetos urbanos (o maior – de Varsóvia com 400 mil pessoas) e a estabelecer os primeiros campos de concentração (primeiro Stutthof, e em 1940 Auschwitz – uma verdadeira fábrica de morte com câmaras de gás e crematórios, onde se matavam até 20 mil pessoas diariamente, usando Zyklon-B e monóxido de carbono).

Naquele tempo os poloneses já tentaram fazer o alarme sobre o que estava acontecendo, passando informações precisas sobre o Holocausto para os aliados. Infelizmente, sem resultados. Havia voluntários poloneses que entravam nos campos de concentração nazistas para descrever a realidade, mas naquele tempo ninguém ouvia. Mais até − alguns governos europeus colaboravam tranquilamente com o III Reich do Hitler…

Ilustração de Jacek Yerka (Toruń – Polônia)

 

Em 1941 foi emitido pelos nazistas um decreto sobre a aplicação da pena de morte aos poloneses que ajudavam aos judeus a sobreviver, por exemplo escondendo-os nas suas casas − em nenhum outro país ocupado pelos alemães estava em vigor uma lei tão rigorosa como na Polônia. Logo depois, em 1942, apareceu o plano para a “solução final da questão judaica na Europa” − o extermínio em massa da população judaica nos campos de concentração na Polônia.

Ao mesmo tempo o Dr. Josef Mengele começou os seus experimentos médicos criminosos no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, e os alemães nazistas começaram a liquidar os guetos e a deportar os seus habitantes aos campos de concentração. Em 19 de abril de 1943, começou a revolta armada dos judeus no gueto de Varsóvia − um gesto de desespero contra a sua liquidação. O levante durou até 8 de maio de 1943. Depois de sufocar brutalmente a revolta, os nazistas proclamaram oficialmente o Terceiro Reich “limpo de judeus”.

No dia 24 de julho de 1944, no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, num só dia foram mortos cerca de 40.000 seres humanos. Foi um recorde na história da indústria nazista de morte. Em 1 de agosto de 1944 o exército subterrâneo polonês promoveu um levante em Varsóvia. Intensos combates com a Alemanha duraram até 2 de outubro de 1944, resultando na matança de quase 200 mil varsovienses. A cidade ficou quase completamente destruída.

Em 25 de novembro de 1944, Himmler ordenou explodir as câmaras de gás e os crematórios de Auschwitz-Birkenau e apagar os vestígios do assassinato em massa. Em 18 de janeiro de 1945 as tropas SS alemãs começaram a evacuar o campo − 66 mil prisioneiros foram levados para o Ocidente na “marcha da morte”, que matou mais de 15 mil seres humanos. Em 26 de janeiro de 1945 − tropas soviéticas, agora aliadas, libertaram o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, onde ainda havia 7.000 esqueletos-prisioneiros. Em 30 de abril de 1945 − Adolf Hitler cometeu suicídio no bunker em Berlim.

A guerra resultou na morte de mais de 6 milhões de cidadãos poloneses, dos quais 3 milhões eram judeus poloneses. Muitos deles sobreviveram graças à ajuda dos poloneses. Atualmente, o título de “Justo entre as Nações do Mundo”, outorgado àqueles que arriscaram conscientemente as suas vidas para salvar aos judeus, foi dado a mais de 6 mil cidadãos poloneses – o maior número entre todas as nações do mundo.

No entanto, o agressor que invadiu a Polônia em setembro de 1939, organizando o Holocausto de uma maneira fria, bem pensada e sistêmica, depois de 1945 teve uma chance do desenvolvimento democrático e econômico sem precedentes graças à situação da Guerra Fria. A Polônia ficou atrás da Cortina de Ferro, destruída, saqueada pelos alemães e soviéticos e traída pelos aliados, que a deixaram, depois de se ter aproveitado dos cientistas poloneses quebrando o famoso código de Enigma e dos milhares dos soldados poloneses lutando no Ocidente.

Entre eles os famosíssimos pilotos poloneses que defenderam Londres dos bombardeios dos nazistas, à  mercê de Stalin e da “democracia popular” proclamada pela União Soviética, vista pela maioria esmagadora da população como uma outra ocupação. As tropas polonesas, incluídas no exército aliado, nem foram convidadas para comemorar o final da II Guerra Mundial…

Mais ainda − a divisão entre “perpetradores e agressores” e “vítimas”, tão claramente visível durante e logo depois da guerra, cedeu agora lugar às discussões já não tão unilaterais. Por isso os poloneses reagem muitas vezes emocionalmente. No nosso olhar, a maneira como a II Guerra Mundial e o discurso do Holocausto estão sendo ultimamente apresentados parece absurda, concentrando-se nos poucos casos de colaboradores poloneses e omitindo a generalizada fraternidade dos poloneses e judeus na luta e a ajuda dos poloneses aos judeus durante o Holocausto, confirmada por pesquisas detalhadas.

As narrativas históricas comprovadas estão dolorosamente colidindo com os pontos de vista dos que frequentemente nem passaram pela ocupação alemã, mas acham que possuem o direito de colocar a culpa naqueles que em razão dela passaram pelo maior sofrimento…

Em tal situação torna-se cada vez mais difícil manter indiscutível a verdade sobre a Guerra e o Holocausto. Parece que agora a cada dia aumenta a tensão, provocando terremotos nas relações internacionais pela atitude estranha da “divisão da culpa pelo Holocausto” entre os agressores e as vítimas.

A Polônia perdeu na guerra quase 40% dos seus cidadãos, entre eles judeus. O destino dos judeus poloneses durante o Holocausto não foi algo único ou separável do destino da etnia polonesa em geral.  Mas agora fala-se antes de tudo sobre o antissemitismo na Polônia durante a guerra ou a indiferença dos poloneses em relação aos judeus fechados nos guetos ou nos campos de  concentração. Infelizmente, não mostrando os fatos acima expostos, por exemplo as punições com a morte aplicadas àqueles que aparentemente não sabiam mostrar essa indiferença, assim como a todos os membros das suas famílias… Ou a indiferença cruel dos aliados frente aos relatórios sobre o Holocausto providenciados pelos poloneses nos primeiros anos da Guerra.

Sim, com certeza houve aqueles poloneses que foram pagos pelos judeus pela ajuda. Houve outros que chantageavam e ameaçavam denunciá-los. Pessoas sem honra e sem vergonha. E os historiadores têm que se deparar com isso. E se deparam. Assim deveria ser. Porque em cada grupo há pessoas diferentes, decentes e indecentes. Nunca somos todos santos. Mas é difícil dizer, preservando a verdade histórica, que foram, na sua maioria, os poloneses que ajudaram no Holocausto ou que os campos de concentração eram “campos poloneses”, como se ouve hoje pelo mundo.

Os poloneses, na sua esmagadora maioria, nunca se renderam durante a guerra, nunca colaboraram com os nazis, contruindo o maior movimento de resistência aos ocupantes, jamais visto no mundo na forma de todo o Estado Polonês Subterrâneo e arriscando a vida dos seus familiares para salvar as vidas dos judeus, apesar de conhecerem bem demais as consequências das suas ações − são eles os mais numerosos entre os “Justos do Mundo”.

Por isso, as perguntas e as dúvidas estranhas que se ouvem agora sobre os poloneses, que, estando numa situação quase que igualmente precária, deveriam ter-se arriscado ainda mais para ajudar os judeus, mostram uma lógica bem perversa – em frases como “os nazistas não teriam aniquilado tantos judeus se os poloneses se tivessem oposto mais àquela matança”, uma vítima judia torna-se mais inocente e mais importante do que as outras, polonesas…. Mas somente aos olhos de Hitler os judeus constituíam uma categoria especial, e pensar desse modo equivale a aceitar a lógica dos assassinos nazistas.

A vida humana tem sempre o mesmo valor, independentemente da nacionalidade, religião, gênero, raça, nível de educação… Dizer que alguns valem mais e outros menos, que é preciso sacrificar uns para salvar os outros é mais uma barbaridade. “Não matarás!”. E ponto final. Assim nunca precisarás te justificar. E procurar “bodes expiatórios”.

Mas as tensões continuam voltando e reaparecendo, causando uma grande indignação na Polônia com a política histórica consciente, que quer livrar da responsabilidade pelo Holocausto os seus autores, criando uma imagem antissemita dos poloneses e repercutindo no mundo dos meios de comunicação de massa, com o aparecimento de expressões como “campos de concentração poloneses”. A ignorância histórica prejudica tanto a verdade como a sagrada memória das vítimas, tanto judeus como poloneses, conduzindo à relativização do crime hediondo da guerra e do Holocausto, inextricavalmente entrelaçados.

Por isso é um grande desafio para nós − não deixar esquecer as recordações e memórias, não deixar manipular os fatos históricos, não permitir que a verdade histórica se torne uma “verdade aplicada”, na qual foram os poloneses antissemitas que começaram a II Guerra Mundial, atacando a Alemanha, construíram sozinhos os campos de concentração para se aniquilarem a si mesmos, mataram-se a si mesmos nos levantes e tiroteios nas ruas.

Ainda mais, exterminaram a maioria da sua própria população de origem judia, que precisamente na Polônia, por muitos séculos, encontrou a paz, a estabilidade e as possibilidades de se desenvolver econômica e culturalmente, sem as perseguições ocorridas no resto da Europa. Não parece isso um absurdo total? Infelizmente, é assim a nossa “politicamente correta”, a nova “verdade histórica” sobre a Guerra e o Holocausto…

*Renata Siuda-Ambroziak, PhD
Vice-Diretora do Instituto das Américas e Europa na Universidade de Varsóvia
Professora de Estudos Latino-Americanos no Centro de Estudos Americanos, Grupo de Pesquisa sobre América Latina e Caribe
Editora-chefe da Revista del CESLA – Revista Internacional de Estudos Latino-Americanos (www.revistadelcesla.com)
Editora da Revista Brasileira de História das Religiões (http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/RbhrAnpuh/index)
Professora Visitante e Pesquisadora Sênior da CAPES / Brasil, na
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

https://uw.academia.edu/RenataSiudaAmbroziak
https://www.researchgate.net/profile/Renata_Siuda-Ambroziak

O INUSITADO MUSEU DO NEON EM VARSÓVIA

Durante minha visita à Polônia em uma viagem de estudos, conhecí inúmeros museus, todos dotados de tecnologia de ponta e alta interatividade, mas teve um que particularmente chamou minha atenção, o Museu do Neon ou Neon Muzeum localizado em um centro criativo e ‘descolado’ de Varsóvia, o Soho Factory no bairro de Praga. O espaço já foi uma fábrica de munição e também de motocicletas durante a Guerra Fria. O Museu é um grande galpão com centenas de sinais produzidos em néon e que contam um pouco da  história da Polônia. Além desse incrível museu, pode-se encontrar galerias, escritórios de arte e design, pequenos estúdios de cinema, bares e restaurantes, esse local atualmente tornou-se uma usina de criatividade e inovação.

Os sinais em néon foram produzidos na década de 50 e 60 do século passado,  um período conturbado na história do país, época em que a União Soviética dominava a Polônia e outros países do leste europeu. Os soviéticos achavam que o néon era um material publicitário que vinha de encontro aos princípios socialistas, como uma forma de consumo ordenada e padronizada, delegando a designers e arquitetos a tarefa de criarem luminosos que foram colocados em estabelecimentos de todo o país.

As placas indicam de forma minimalista o tipo de estabelecimento ou de produto comercializado. Em alguns, o design e as cores  traduzem a ideologia do Partido Comunista, como um dos néons que indica um restaurante chinês, para que os poloneses se acostumassem com a culinária da pátria do ‘camarada’ Mao Tsé-Tung.

O Neon Muzeum foi fundado em 2005, e é totalmente dedicado à documentação e à preservação desses luminosos originais que a partir da queda da União Soviética, estavam fadados a desaparecer. Segundo seus fundadores, David Hill e Ilona Karwinska: “Nossa instituição tem se empenhado apaixonadamente na enorme tarefa de pesquisar e restaurar os últimos remanescentes sobreviventes da campanha de “grande neonização” em todo o antigo Bloco do Leste. Nossos esforços contínuos foram creditados com o início de um novo renascimento do néon em toda a Polônia; um movimento que culminou na abertura do primeiro e único museu desse tipo na Europa.”

“Trata-se de uma coleção permanente que contém centenas de sinais de néon deslumbrantes e outros artefatos eletrográficos, muitos dos quais foram desenhados pelos grandes artistas da época – que eram responsáveis ​​pela mundialmente famosa escola de cartazes polonesa. Quando você visita o nosso museu, você será atingido pela pura inventividade e características únicas de uma forma de arte até então desconhecida – que nasceu da revolução, serviu como propaganda estatal e floresceu durante o período pós-guerra da Polônia”, continuam David e Ilona.

“Com base em mais de uma década de esforços de preservação e pesquisa, iniciamos uma campanha para proteger os últimos sinais de néon importantes dentro de seu cenário urbano original. Nós chamamos esta campanha de sucesso e de ação bem sucedida, como ‘Ação de Renovação!’ E já restabelecemos alguns dos sinais mais emblemáticos de Varsóvia,  como a sereia Syrenka na Ul. Grójecka, e o incomparável ‘Mydła Farby’ (Soap & Paint) na Ul. Nowolipki, além de recriar o icônico sinal de néon  ‘Jaś i Małgosia’ para uma nova cafeteria com o mesmo nome na Al. Solidarności”, comentam seus idealizadores. 

Acrescentando ainda que “nossa equipe de voluntários experientes e entusiasmados está à disposição para ajudar os visitantes e grupos maiores e manter o Neon Muzeum aberto cinco dias por semana – além de hospedar outros eventos especiais, exibições de filmes, visitas guiadas e passeios especiais. O Neon Muzeum é uma instituição totalmente privada e não busca nem recebe financiamento público. São os visitantes e apoiadores que financiam diretamente esse grande acervo que tem a missão de preservar e restaurar artefatos únicos de néon para as gerações futuras”.

A entrada custa cerca de 10 Złotys, um pouco menos de dez reais, e o museu fica em um bairro de fácil acesso. É um local muito especial para quem é interessado em cultura vintage, luminosos, publicidade, em tipografia de larga escala e principalmente na história da Polônia durante a Guerra Fria. Assim recomendo a todos para conhecerem o fascinante Polish Neon, que faz parte de um iluminado mas também sombrio passado da Polônia. 

Texto e Fotos: Izabel Liviski.

Mais informações:  

http://www.neonmuzeum.org/pages/contact.html Endereço: Soho Factory, Mińska 25, Praga District, 03-808 Warsaw, Polônia. Horário:  12:00hs–17:00hs. Telefone: +48 665 711 635

 

 

 

 

MEMÓRIAS DA GUERRA E DO HOLOCAUSTO NA POLÔNIA…

“Sim, é verdade, que na cidade de Varsóvia a cada dia pisamos na terra banhada em sangue – em cada esquina da capital – morreram dezenas, centenas, ou até milhares de pessoas.” (R.S.A.)

No dia 1º de Agosto, comemorou-se os setenta e três anos do Levante de Varsóvia, também denominado A Revolta ou Insurreição de Varsóvia (em polonês Powstanie Warszawskie), uma luta armada durante a Segunda Guerra Mundial na qual o Armia Krajowa (Exército Clandestino Polaco) tentou libertar Varsóvia do controle da Alemanha Nazista. A Coluna Polonaises também presta sua homenagem à data, trazendo o texto da profa. Renata Siuda-Ambroziak* e algumas fotos feitas em junho do ano passado, quando viajamos à Polônia e tivemos a oportunidade de visitar o Museu do Levante de Varsóvia**:

“As lutas foram travadas também no campus da Universidade de Varsóvia, a minha Alma Mater, aonde o grupo militar “Krybar” defendia, com a participação dos professores, estudantes e escoteiros, cada um dos edifícios universitários. Pensando das memórias, é sempre bom começar com os fatos – a II Guerra Mundial eclodiu com a agressão da Alemanha nazista na Polônia (1.09.1939). Ainda em setembro, segundo o Tratado de Ribbentrop-Mołotow, também as tropas soviéticas invadiram a Polônia, colaborando na destruição do país com os nazistas.

Durante a guerra o Holocausto foi planejado, institucionalmente organizado, preparado e sistemáticamente levado a cabo pela Alemanha nazista, antes de tudo na Polônia, que possuía a maior concentração de judeus na Europa e a segunda maior do mundo, depois dos Estados Unidos. Ainda em 1939 os nazistas começaram a criar no território polonês ocupado as grandes concentrações de judeus nos guetos urbanos (o maior em Varsóvia) e, logo depois, estabeleceram os primeiros campos nazistas de concentração (em 1940 uma verdadeira “fábrica” da morte de Auschwitz).

Em 1941 foi emitido um decreto sobre a aplicação da pena de morte àqueles que ajudavam aos judeus sobreviver, por exemplo escondendo-os nas suas casas – em nenhum outro país ocupado pelos nazistas estava em vigor uma lei tão rigorosa como na Polônia. Logo depois, em 1942, apareceu o plano para a “solução final da questão judaica” – extermínio em massa dos judeus de toda a Europa nos campos da concentração.

Os alemães nazistas começaram a liquidar os guetos e deportar os seus habitantes aos campos de concentração. A revolta armada no gueto de Varsóvia em abril de 1943 foi um gesto de desespero contra a sua liquidação – depois de apagá-la brutalmente, os nazistas proclamaram oficialmente o Terceiro Reich “limpo de judeus”.

Mas os judeus não foram as únicas vítimas da guerra e da barbárie nazista, especialmente no território polonês. Em 1º de agosto de 1944 o exército subterrâneo lançou um levante em Varsóvia. Intensos combates duraram dois meses, resultando na matança de mais que 200 mil habitantes. A capital ficou quase completamente aniquilada. Cada ano, no dia 1º de agosto, a cidade literalmente pára na Hora Zero – às 17 hrs. Para preservar a memória das vítimas, de todas as vítimas.

Depois de 1945 a Polônia ficou atrás da “cortina de ferro”, traída pelos aliados, que a deixaram à mercê de Stalin e a proclamada “democracia popular” pela União Soviética, vista pela maioria esmagadora da população como uma outra ocupação.

Assim, o debate público sobre a guerra e o Holocausto recomeçou a partir de 1989, na Polônia independente e os últimos anos os poloneses estão vivendo o “tempo de retorno”, um boom da memória, com as suas manifestações incluindo criação de novos museus nacionais que descrevem a história da guerra, os levantes heróicos, a experiência da ocupação (por exemplo o Museu do Levante de Varsóvia). Outra manifestação é o florescimento da pesquisa histórica e popularidade das reconstruções dos acontecimentos históricos, também aqueles mais dolorosos.

O peso da história é evidente no espaço público, onde foi erguida uma série de novos monumentos comemorativos das vítimas da Segunda Guerra Mundial, os heróis não reconhecidos depois da guerra pelo regime comunista e das vítimas do Holocausto. São renovados os bairros e cemitérios judeus e a história judaica é muitas vezes apresentada em locais expostos, como por exemplo, o novo Museu dos Judeus Poloneses em Varsóvia.

As manifestações da cultura judaica incluem festivais, a popularidade da música e uma variedade de produções artísticas. As universidades também lidam com essa demanda, abrindo programas dedicados aos centros de pesquisa sobre a história dos judeus na Polônia.

Assim, deixo em aberto a pergunta se vale a pena fazer divisões entre os poloneses e os judeus, as vítimas da II Guerra Mundial – a guerra resultou na morte de milhões de cidadãos poloneses, dos quais muitos eram judeus. Somente aos olhos de Hitler, os judeus constituíam uma “categoria especial” de vítimas e pensar deste modo equivaleria a aceitar a lógica dos assassinos nazistas.

A vida humana tem sempre o mesmo valor, independentemente da nacionalidade, religião, gênero, raça, nível de educação… Nenhuma vítima do nazismo, sendo judeu, polonês, russo, homossexual, deficiente, doente mental, mereceu morrer naquela carnificina e nunca se pode jogar na memória coletiva um papel secundário.

Podemos, sim, colocar perguntas difíceis. O debate sobre a II Guerra Mundial e o Holocausto é, e sempre será doloroso. Mas o maior desafio para o mundo é não deixar esquecer as memórias, deixando uma mensagem clara e unívoca – nem a guerra, nem o Holocausto podem se repetir mais. Tudo isso fica ainda mais claro depois de visitar a Polônia – por isso convido-os para virem, para sentirem sozinhos o peso dessa história, ao mesmo tempo terrível e heróica. Porque em poucos lugares do mundo a memória da Guerra e do Holocausto fica ainda tão visível, tão viva e tão comovente…”

*A Dra. Renata SIUDA-AMBROZIAK  é  Professora do CESLA,  Centro dos Estudos Latino-Americanos, Instituto das Américas e Europa na Universidade de Varsóvia, e atualmente vice-diretora do Instituto. Doutora em Ciências Humanas em Filosofia Social, com Estudos Pós-Doutorais em Direito da Propriedade Intelectual e em Administração Universitária.

Abaixo, fotos do Museu do Levante de Varsóvia:

** A experiência em visitar o Museu do Levante de Varsóvia (Muzeum Powstania Waeszawskiego) é realmente extraordinária e imperdível para quem visita a cidade. Ele não é um museu comum, logo na entrada em uma das paredes pode-se ouvir sons ritmados, é como se alí estivessem ainda batendo os corações daqueles que viveram e lutaram durante este período terrível da história da Polônia. Sua concepção é interativa, e um muito bem montado memorial retraça a história, os momentos-chave e os personagens – famosos e desconhecidos – do ato final da resistência polonesa à ocupação nazista.

A ideia é a de trazer o visitante para dentro daquela realidade, e é impossível não se emocionar. Inclusive de sentir uma certa claustrofobia ao atravessar uma reprodução dos “esgotos”, forma de locomoção pela cidade que os revolucionários utilizaram na época do levante. 

As exposições permanentes trazem inteligentes soluções multimídia, relatos emocionantes, armas, meios de transporte, muitas fotografias, uniformes e também uma área dedicada às crianças e jovens que colaboraram nas linhas de combate. Na parte exterior do edifício está uma longa parede-memorial, com o nome daqueles que combateram pela liberdade na Polônia.

Tivemos o privilégio de conhecer o Sr. Henryk Wasilewski, nascido em 1924 e que permanece no museu trabalhando em máquinas impressoras da época. Ele fazia parte de um escritório de impressão subterrânea (na rua Żelazna) durante a ocupação alemã. Foi preso pelos alemães e permaneceu na prisão Pawiak em Varsóvia, sendo interrogado por agentes da Gestapo, que segundo ele, falavam o polonês perfeitamente. Através da intervenção de um oficial, conhecido de seu pai, o Sr. Wasilewski encontrou a liberdade. Uma entrevista atualizada com ele, em polonês, encontra-se no link abaixo: 

http://www.1944.pl/archiwum-historii-mowionej/henryk-wasilewski,2290.html

Site Oficial do Museu: http://www.1944.pl/

Texto principal: Profa. Dra. Renata Siuda-Ambroziak.

Fotos e texto adicional: Izabel Liviski.

Fonte secundária: http://viagemeturismo.abril.com.br/atracao/museu-do-levante-de-varsovia/

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Consulado da República da Polônia em Curitiba, que possibilitou nossa viagem de estudos à Polônia em junho de 2016, ao Cônsul Geral Sr. Marek Makowski e Vice-Cônsules Dorota Ortynska e Dorota Bogutyn. À Aleksandra Duda por sua gentileza e preciosas informações como guia através do Museu do Levante de Varsóvia, e posteriores correspondências.