Segurança nas Escolas e Comunidades

É lamentável que certas escolas de ensino fundamental ou médio, instaladas em áreas distantes e de entorno com população carente, sofram muitas vezes sérias consequências da insegurança de toda a região. São instituições fechadas por grades e cadeados, em que não apenas os alunos, mas também professores e funcionários estão submetidos a um eterno receio de assaltos e violências, tornando o período escolar desagradável para uma comunidade que, como todas as outras e talvez um pouco mais que algumas, precisa do sistema educativo como chance de melhorar suas próprias condições econômicas e sociais.

Políticas com o objetivo de prevenção da violência criminal não costumam ser políticas estruturais, de longo prazo, que atuam sobre as macroestruturas socioeconômicas do país, e desmerecemos aquelas tópicas, que combatem a inercia: “enquanto não eliminarmos as grandes mazelas fundamentais da sociedade brasileira, nada se pode fazer para melhorar a segurança”, assumido por aqueles cuja crença é de que ou se faz tudo, ou nada é possível fazer; ou erradicamos as causas todas do crime, ou estaríamos condenados a enxugar gelo.

Negando a viabilidade de soluções a curto prazo, conduzimos a população à descrença e frustração, fatores de risco para que prosperem propostas descabidas e autoritárias de combater violência com mais violência, armando a população, cercando favelas, erguendo mais muros, trocando a segurança pública pela privada, incentivando a brutalidade, a pena de morte, o justiçamento.
Pesquisas bem realizadas mostram, no entanto, que estabelecer ações públicas de natureza preventiva com resultados rápidos, é eficiente mesmo não atuando sobre causas estruturais do problema.

Ou seja, agir de modo eficiente, rapidamente e mobilizando poucos recursos, sobre o fato a ser modificado pode representar um alento àqueles que necessitam soluções; incluindo aí a prevenção. Mesmo que políticas preventivas não promovam mudanças estruturais e não impeçam o retorno do problema, podem salvar vidas, reduzir danos e sofrimentos, equilibrando as pessoas e instaurando melhores padrões de comportamento.

Isso tem consequência a médio prazo, pois práticas de crimes afastam comércio, serviços e empresas da região em que se tornam frequentes, e este fator contribui para o aumento do desemprego, que por sua vez amplia as condições para o crescimento de certas formas de criminalidade, beneficiadas pela sensação de impunidade, fechando um ciclo perverso em torno deste eixo. Até porque o contrário é absolutamente verdadeiro, quando reduzimos a criminalidade atraímos mais pequenos negócios cujos donos, sentindo-se seguros, oferecem mais empregos.

Agir correta e rapidamente sobre a propagação de crimes reduz o número de vítimas, o risco, a sensação de insegurança, mesmo que não atue sobre cerne exato do problema; aumentar fiscalização, adequar áreas de lazer para a comunidade, oferecer equipamentos esportivos e palestras em centros comunitários – que podem ser feitas por instituições de ensino superior como parte de suas atividades extensionistas – versando sobre saúde, empregabilidade, empreendedorismo, segurança, Lei Maria da Penha, qualidade de vida e muitas outras, podem ser valiosos auxílios.

É preciso evitar a todo custo que o crime se torne causa do crime, e isso pode ser auxiliado pela melhoria financeira e maior preparo para as diversas esferas da vida social. Isso prepara o caminho para a perda de relevância sobre a distinção entre políticas preventivas estruturais e localizadas, pois ambas são importantes, não se justificando sacrificar uma em detrimento de outra, o que apenas contribui para o imobilismo.

 

Ainda e sempre a fome

Entre os muitos cientistas e intelectuais brasileiros que nos orgulham, dois em especial merecem ser lembrados: Milton Santos: geógrafo, graduado em Direito, doutorado feito em universidade francesa, foi um dos grandes nomes da renovação da geografia e globalização, tendo ganho o prêmio Vautrin Lud, considerado o “o Nobel da geografia”. Poucos pensadores foram tão clarividentes quanto ele, seus escritos e estudos sobre a pobreza já apontavam para a realidade visível atualmente, de manifestações populares articuladas por redes sociais digitais. Com considerações sobre o ser humano deixar de ser o centro do mundo, lugar cada vez mais ocupado pelo dinheiro, ele previa ações políticas em que milhares de pessoas ocupariam ruas das maiores cidades na procura de justiça e cidadania.
Outro excepcional brasileiro foi Josué de Castro, médico voltado à nutrologia, professor, que trabalhou como cientista social, envolveu-se na política e escreveu obras do quilate de Geografia da fome, Geopolítica da fome, Sete palmos de terra e um caixão e Homens e caranguejos. Por sinal, foi também Embaixador brasileiro junto à Organização das Nações Unidas (ONU); e trouxe para debate os temas da fome e do subdesenvolvimento. Ele assegurava que apenas o desenvolvimento seria forma de superar as desigualdades sociais, conduzindo a uma “ascensão humana” por meio de mudanças sociais sucessivas e profundas. Entre seus prêmios, os da Academia de Ciências Políticas dos Estados Unidos, Prêmio Franklin D. Roosevelt. O Conselho Mundial da Paz concedeu a ele o Prêmio Internacional da Paz e o governo francês o condecorou como Oficial da Legião de Honra. Foi muitas vezes indicado ao Nobel da Paz.
Ambos falavam da fome, que além da física – real e presente até hoje em território brasileiro – sempre foi também a de equidade e inclusão. Hoje, se olharmos as manifestações ocorridas no Brasil e no mundo, ao lado daquelas caracterizadas por palavras de ordem, pedindo mais investimentos em educação, segurança, saúde e outros temas relevantes para a vida comunitária, vemos outras não tão significativas para a vida social, mas sim interessantes para a vida pessoal, como se a individualidade se sobrepusesse ao coletivo.

Fome, por exemplo, é pauta há milhares de anos no mundo, e boa parte do sofrimento da população de mais baixa renda está associada com questões alimentares e nutricionais, e isso se dá tanto pela ausência do alimento, quanto pela má qualidade da alimentação. Josué de Castro já falava da “fome oculta”, e isso se dá na desnutrição ou subnutrição em função de inadequação quantitativa (energia) ou qualitativa (nutrientes) da alimentação ingerida diariamente nas camadas populacionais com menos acesso ao sistema educativo. Assim, a obesidade é uma das características que se soma à precariedade na alimentação brasileira, junto com a desnutrição infantil crônica (baixa altura para a idade) e, em menor grau, a desnutrição aguda (peso inadequado para a altura). São mazelas para as quais não dispomos de dados regulares e atualizados, e alguns professores do ensino fundamental assistem, horrorizados, aos desvios de dinheiro das merendas, ou as oferecidas com baixa qualidade nas escolas de periferia, onde muitas vezes esta é a única refeição diária.
É preciso ser negligente e apartado do mundo real para desconhecer o problema da insegurança alimentar no país.

A ditadura no Chile a transição para a democracia

As instituições militares no Chile caracterizaram-se, historicamente, por uma rigidez institucional e pela segregação com as questões políticas dos civis. Tais fatores, a partir de 1920 com a mudança de cunho ideológico na sociedade chilena, levaram, entre outros movimentos, ao golpe militar de 1973 contra o então presidente Salvador Allende, articulado pelo general Augusto Pinochet, que se instalou no poder por dezessete anos (LOPES e CHEHAB, 2015).

Educação em Direitos Humanos e História da Biologia: Um diálogo através da eugenia brasileira

Ao se avaliar nosso quadro contemporâneo, agravado pela atual crise econômica nacional e internacional, podemos enumerar uma série de aspectos inquietantes no que se refere às violações dos Direitos Humanos (DH), tanto no campo dos direitos civis e políticos, quanto na esfera dos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais. Analogamente ao que ocorreu mundialmente na década de 1930, períodos de turbulência social e econômica, como o que vivemos hoje, estão associados ao uso público de discursos que desrespeitam os DH, como o racismo (STEPAN, 1991, p.157).