Despedida e discurso de encerramento do Curso de Educação em Direitos Humanos

No último sábado (09/06), o Curso de Educação em Direitos Humanos – UFABC realizou o último encontro presencial desta edição do curso, além das bancas de avaliação dos Trabalhos de Conclusão de Curso da pós-graduação lato sensu em Educação em Direitos Humanos, turmas de Especialização e Aperfeiçoamento.

Após as palavras iniciais dos membros da mesa de abertura, os oradores convidados se juntaram à Profa. Dra. Ana Maria Dietrich e proferiram suas considerações sobre esta jornada a seus colegas e ouvintes.

Este foi um grande momento, já que os próprios cursistas puderam dizer o que o curso representou para eles ao longo destes meses. Confira aqui a íntegra do relato do cursista Rodrigo Martins, da turma de Aperfeiçoamento – Polo Diadema.

Além do belo discurso, Rodrigo Martins também enviou um agradecimento especial à sua tutora ao longo do curso, Cecília Prado, que é possível conferir abaixo:

“Adorei a experiência propiciada pelo curso e sou muito grato por seu inestimável apoio ao longo de toda a caminhada. 

Aliás, em minha trajetória escolar e acadêmica, jamais tive um professor tão dedicado na correção dos trabalhos. O seu detalhado feedback, com o perdão do estrangeirismo, ajudou-me muito na compreensão dos temas trabalhados na bibliografia. E sua agradável companhia animou as manhãs dos encontros presenciais em Diadema. Sentirei saudades. 

Peço a gentileza de você estender os meus cumprimentos à professora Ana Maria, à Nathália, e aos demais professores e tutores. 

Um forte abraço,

Rodrigo Martins”

Modernidade, revolução e liberdade na obra de Alexis de Tocqueville: uma breve nota biográfica para o ensino de História

José Inaldo Chaves Jr.

FAHIST/UNIFESSPA

 

Para meus alunos.

 

“A coisa é nova; é necessário então defini-la, pois não posso nomeá-la”.

Alexis de Tocqueville (1835).

 

“Na França, todos os partidos (os partidos procuram armas por toda parte) julgaram reconhecer no autor um dos seus. É, diz-se à direita, onde causava pavor o impulso democrático, a obra de um aristocrata; não denunciava ele, com inigualável vigor, os males da democracia? Oh não, diz-se à esquerda, é a obra de um democrata; com que total convicção reconhecia ele o irresistível poder da democracia, predizendo-lhe o pleno triunfo no porvir!” (CHEVALLIER, 1973, p. 245).

 

Um “coração naturalmente inquieto”. Alexis-Charles-Henri Clérel, visconde de Tocqueville, ou simplesmente Alexis de Tocqueville (1805-1859), foi assim definido por Jean-Jacques Chevallier (1973, p. 244). Filho do Conde de Tocqueville, ele era descendente, pelo lado paterno, da antiga nobreza normanda. Ingressando na magistratura ainda jovem, em 1827, ocupou o cargo de juiz auditor no tribunal de Versalhes. Poucos anos depois, estourara na França a Revolução de 1830, rescaldos clarividentes dos quarenta anos de tormentas sociais que ainda abalavam toda a Europa desde 1789. As agitações somente fizeram “aumentar a intensidade de sua precoce meditação sobre o destino das sociedades europeias”, levando Tocqueville a buscar novos campos de observação e testes para suas hipóteses acerca do chamado estado social democrático.

O grande desafio reflexivo de Tocqueville se encontrava profundamente interligado aos debates que moviam as principais mentes francesas naqueles anos. O problema das relações entre liberdade e igualdade era, assim, a razão precípua que fez o jovem pensador observar com afinco a então recente experiência democrática anglo-americana, estabelecendo, por seu turno, conexões pertinentes entre o contexto histórico europeu e a construção de governos democráticos no Velho Mundo. Em meio à tamanha ebulição política que sacudia a França naqueles anos, Tocqueville licenciou-se do cargo que ocupava por motivo de uma viagem à Nova Inglaterra. Queria ver in locum a experiência das antigas treze colônias, independentes desde 1776 e tão comentadas na Europa, e, quiçá, trazer aprendizados para o Velho Mundo que, em sua opinião, pouco avançara, depois de 1789, na solução do dilema liberdade-igualdade, assolador daquela que, segundo ele, era a marcha inelutável e providencial em direção ao estado democrático.

 

“Por toda parte se têm visto os diversos incidentes da vida dos povos resultando em proveito da democracia; todos os homens a auxiliam com seus esforços: aqueles que visavam concorrer para o seu triunfo, e aqueles que absolutamente não pensavam em servi-la, aqueles que por ela combateram e aqueles mesmos que se declararam seus inimigos; todos foram impelidos de tropel no mesmo caminho e todos trabalharam em comum, uns a seu pesar, outros sem o perceberem, cegos instrumentos nas mãos de Deus” (TOCQUEVILLE apud CHEVALLIER, 1973, p. 248-9).

 

Entre 1832 e 1834, esteve Alexis de Tocqueville entregue à tarefa de compor a primeira parte de A Democracia na América, obra-prima publicada em dois volumes no ano de 1835. A repercussão foi meteórica, sendo o livro logo traduzido para vários idiomas. Na França, o pensamento de Tocqueville ganhou destaque pela sofisticação, rigor e espírito imparcial. Esquerda e direita afirmaram suas filiações ao lado do pensador, ao passo que ele, desde logo, foi convidado a assentar-se nos principais postos da intelectualidade da época, especialmente entre seus pares aristocratas liberais (CHEVALLIER, 1973, p. 345).

Em 1840, fora publicada a segunda parte do livro, que custou mais cinco anos de trabalho árduo ao autor. Não obteve, contudo, o mesmo impacto de originalidade que a primeira parte de 1835. Esta segunda parte era mais abstrata; trazia aos olhos menos treinados poucas aplicações práticas e muitas ideias gerais, o que desagradou o público. Em 1840, ficara claro que o grande interesse de Alexis de Tocqueville não eram os Estados Unidos, mas sim a democracia. A experiência anglo-americana era apenas a moldura de uma tela muito mais complexa. Era o governo dos povos que interessava ao autor compreender seus códigos (CHEVALLIER, 1973, p. 247).

Tocqueville foi um observador atento do contexto histórico no qual viveu e, embora um aristocrata, sabia que o mundo estamental e juridicamente hierarquizado de outrora, aquele ao qual pertencia sua nobre linhagem e que presenciara apenas os últimos suspiros, estava definitivamente sepultado. Por isso mesmo, seria um simplismo horrendo considerá-lo um fidalgo nostálgico. Entretanto, não se agradava daquilo que fora posto em lugar do antigo estado social aristocrático. Perturbava-se na reflexão acerca das novas formas de governar e de exercer a jovem experiência cidadã, verdadeiras novidades emergidas da crítica à “razão de Estado” no Antigo Regime, mas obstruídas na democracia por uma igualdade feita a expensas da liberdade (KOSELLECK, 1990; RIBEIRO in WEFFORT, 2011).

 

Eugene de la Croix, A liberdade guiando o povo, 1830.

Aliás, a despeito de reconhecer o “desenvolvimento gradual da igualdade das condições” como “um fato providencial” de caráter universal e duradouro, considerava, por outro lado, que esse valor primaz da democracia havia sido erigido tendo por fundamento o assalto ao exercício da liberdade dos indivíduos. Citando Tocqueville, Jean-Jacques Chevallier afirma que a crítica tenaz do pensador francês apontava que:

 

“A realidade é que a democracia foi abandonada a seus instintos selvagens, crescendo como essas crianças órfãs, “que se educam por si mesmas nas ruas de nossas cidades e que, da sociedade, só conhecem os vícios e as misérias”. Medida alguma se adotou para lhe corrigir os vícios, para remediar os males que acarreta, para ressaltar as suas vantagens naturais, dela obtendo todo o gênero de bem que pode produzir. Por toda parte se vê estranha confusão, tanto intelectual e moral quanto material” (CHEVALLIER, 1973, p. 250).

 

Liberal heterodoxo e sofisticado, Alexis de Tocqueville reconhecia que o curso da história havia mudado radicalmente naqueles últimos tempos, e muito mais estava por acontecer. Identificava neste cenário uma realidade providencial. Desígnio divino, porém, jamais um determinismo cego, ao qual, inclusive, combatera peremptoriamente em suas críticas à historiografia democrática, que, segundo ele, reservara pouco lugar à livre ação do indivíduo, inebriada que estava pelo espetáculo das massas (JASMIN, s/d, p. 27ss). Religioso, Tocqueville via a efetiva vontade de Deus na marcha histórica que faria os homens iguais entre si, porém, apegava-se à ideia de que o livre arbítrio, igualmente um princípio divino, poderia conduzir a humanidade tanto por caminhos inesperados quanto por escolhas planejadas. Se, por um lado, Tocqueville parece admitir o providencialismo na história, “guarda-se, contudo, de cair em uma concepção fatalista ou teleológica”, reconhecendo que “o campo do possível é bem mais vasto do que imaginam os homens […]” (FLORENZANO, 1991, p. 128, 131).

Embora ressaltasse o valor das épocas aristocráticas, sobretudo no tocante à preservação da liberdade[1] e ao combate ao individualismo, mau político e social caro ao estado democrático, Tocqueville reconhecia a inevitabilidade da substituição das sociedades hierárquicas pelas de cunho igualitário. No entanto, lamentava que a sociedade democrática possuísse como grande marca o individualismo, fenômeno típico da modernidade e que decorreria das condições objetivas da existência social democrática, cuja principal consequência era a corrosão de uma experiência cívica coletiva. Analisando o pensamento tocquevilleano, Marcelo Jasmin foi preciso ao avaliar esse impasse entre o criado e o sepultado na experiência política do século XVIII:

 

“Uma vez destruídos a hierarquia e seus lugares estamentais, a unidade do corpo social se fragmenta numa pluralidade de indivíduos independentes entre si e que, em última instância, só contam consigo mesmos em todos os aspectos de sua vida […]. O abandono da ‘grande sociedade’ implica o progressivo afastamento dos homens em relações aos negócios comuns, fazendo-os voltar-se exclusivamente para seus negócios privados […]. o resultado da fragmentação social decorrente do individualismo é a privatização das relações e a progressiva indiferença cívica” (JASMIN, s/d, p. 5)

 

A respeito da emergência dos liberalismos como consequência do desencantamento geral perante as velhas concepções do Antigo Regime, é Roger Chartier quem dá-nos interessante depoimento de um coevo, Jacques-Louis Ménétra, vidraceiro de profissão mas também editor de revista à época do rejeitado Luís XV. Ménétre, que não era propriamente um antimonarquista, revelou um incômodo corrente entre seus contemporâneos: “Jamais gostei de sofrer qualquer tipo de impedimento, muito menos de perder a minha liberdade” (CHARTIER, 2009, p. 188). Era um tempo em que a ação política individual, governada pela defesa dos próprios interesses, ganhava terreno sobre as tradicionais formas de associação baseadas nos compromissos e impedimentos feudais e no espírito comunal. Ainda que olhando para o passado aristocrático e reconhecendo nele até a presença de uma experiência cidadã e mais assertiva que àquela dos grandes centros urbanos convulsionados da passagem para o Oitocentos, a concepção de história presente em Tocqueville é absolutamente moderna. Sua preocupação é encontrar uma síntese que consiga superar os vícios de uma democracia largada ao seu estado selvagem e ao individualismo, equalizando o dilema liberdade-igualdade.

 

Neste sentido, há no pensamento de Tocqueville uma ideia-força e uma convicção ética. Sua ideia-força é a noção de que a história caminha irresistivelmente para a igualdade de condições, em direitura da democracia. Por sua vez, ele expressa uma convicção ético-moral, igualmente relevante na compreensão de seu pensamento, qual seja: o entendimento de que os homens são dotados de livre-arbítrio. Essas duas chaves-explicativas da concepção tocquevilleana da história foram aplicadas quando o autor avaliou a Revolução de 1848, em Souvenirs (c.1850), indicando que seu processo teve um sentido com causas gerais, inscrevendo-se na esfera da necessidade e da inevitabilidade, mas, simultaneamente, foi marcado pelo acaso e pela imprevisão, o que revelaria a preservação da ação e liberdade humanas no curso da história (FLORENZANO, 1991, p. 130).

Observador atento e participante dos eventos grandiosos que se desenrolavam em sua época, Tocqueville deixou clara a superação de uma filosofia da história cíclica e sobrenatural. O seu horizonte temporal é moderno, progressivo e baseado na imprevisibilidade do tempo vindouro. A ação humana é o seu material de trabalho, ainda que não abandone de vez uma ideia de providência deverás laicizada. Ao lançar seu olhar para a Revolução de 1789, lembrou que, “[…] De início, eles [os soberanos] a consideram tão somente como uma dessas doenças periódicas às quais a constituição de todos os povos está sujeita […]”. Sendo assim, os príncipes e monarcas “preparam-se para quase tudo, exceto para o que vai ocorrer” (TOCQUEVILLE, [1856], 2009, p. 3-4). Endossa sua constatação dizendo,

 

“[…] O que para os príncipes da Europa e os estadistas inicialmente parecera um acidente comum da vida dos povos parece um fato tão novo e mesmo tão contrário a tudo o que acontecera anteriormente no mundo, e no entanto tão geral, tão gigantesco, tão incompreensível que ao vê-lo o espírito humano fica como que desnorteado” (TOCQUEVILLE, [1856], 2009, p. 5-6).

 

No instante em que Tocqueville escrevia essas palavras, o próprio conceito de revolução sofria mudanças dramáticas, acompanhando a emergência de um novo horizonte de expectativas, pois, como notou brilhantemente Reinhart Koselleck (2006, p. 69), “A revolução, com certeza, não mais conduz de volta a situações anteriores; a partir de 1789, ela conduz a um futuro a tal ponto desconhecido, que conhecê-lo e dominá-lo tornou-se uma contínua tarefa da política”.  A experiência histórica de 1750-1850 proporcionou a migração semântica do conceito “revolução” de seu sentido inicial, que indicava o movimento de retrocesso e/ou retorno (o movimento de “revolução” dos astros, p.e.), para outro, completamente distinto, sinalizando a mudança, o novo, a evolução (KOSELLECK, 2006, p. 64). A princípio, tratava-se de uma expressão associada à natureza, seus ritmos circulares, não obstante, o século XVIII inaugurou um sentido político para o conceito de revolução, a ser aplicado, “por meio de um processo metafórico consciente, a acontecimentos a longo prazo ou a eventos políticos especialmente repentinos, comoções” (Koselleck, 2006, p. 66).

Ainda que admitisse a constante vontade divina no decorrer dos acontecimentos de seu século, Tocqueville sabia que aquela era uma obra dos homens que perseguiam a igualdade como que a uma “paixão ardente, insaciável, eterna, invencível” (TOCQUEVILLE apud CHEVALLIER, 1973: 255). Sua decepção era que, buscada a qualquer preço, sua época desejava a igualdade na liberdade, mas, se não pudessem obtê-la, ainda a queriam na escravidão. A emergência da modernidade e a consequente desagregação do Ancié Règime foram retratadas na pena de Alexis de Tocqueville com precisão cirúrgica. Muitos dos dilemas de seu tempo, em especial a dupla igualdade-liberdade, continuam insolúveis. Ademais, em tempos de crise e de ameaça geral ao valor da liberdade, conquistado à duríssimas penas, reler clássicos como Tocqueville torna-se um exercício urgente.

 

[1] “Atribuem-me paixões e tenho somente opiniões; ou melhor, tenho uma paixão apenas, o amor da liberdade, e da dignidade humana. A meus olhos, todas as formas governamentais são exclusivamente meios, mais ou menos perfeitos, de satisfazer a esta santa e legítima paixão do homem” (TOCQUEVILLE apud CHEVALLIER, 1973: 254).

 

Bibliografia

CHARTIER, Roger. As origens culturais da Revolução Francesa. Trad. George Schlesinger. São Paulo: Editora da Unesp, 2009.

CHEVALLIER, Jean-Jacques. As grandes obras políticas: de Maquiavel a nossos dias. Tradução de Lydia Christina. 3ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1973.

FLORENZANO, Modesto. “Liberdade e Necessidade na Concepção de História de Tocqueville”. In.: BRESCIANI, Maria Stella; SAMARA, Eni de Mesquita & LEWKOWICZ, Ida (orgs.). Jogos da Política: imagens, representações e práticas. São Paulo: ANPUH/São Paulo, Marco Zero, FAPESP, 1991.

KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Trad. Luciana Villas-Boas Castelo Branco. Rio de Janeiro: EDUERJ, Contraponto, 1999.

_________, Reinhart. Futuro-passado: contribuição à semântica dos tempos modernos. Trad. Wilma Patrícia Maas e Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, Contraponto, 2006.

JASMIN, Marcelo Gantus. Despotismo e História na obra de Alexis de Tocqueville. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, s/d. Texto disponível em www.iea.usp.br/artigos

RIBEIRO, Renato Janine. Hobbes: o medo e a esperança. IN.: WEFFORT, Francisco C. Os clássicos da política. 14ª ed. São Paulo: Ática, 2011.

TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América (Fragmentos). Disponível em www.clubedolivroliberal.com.br

______________, Alexis de. Souvenirs. Paris: Gallimard, 1964.

______________, Alexis de. O Antigo Regime e a Revolução. Organizado por J. P. Mayer. Tradução Rosemay Costhek Abílio. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2007.

 

INTERNACIONALIZE-CE 2018 NO CENTRO EUROPEU: EMPREENDEDORISMO SOCIAL, UMA VIAGEM À ÁFRICA

“Muito se fala sobre empreendedorismo social e voluntariado, mas pouco sobre os meios para realmente fazer acontecer, utilizando nossos verdadeiros talentos e propósitos de vida. Vamos debater sobre essas práticas e conhecer como elas podem ser aplicadas em trabalhos humanitários em lugares como o Quênia, na África.”

É sobre essa questão importante entre outras, que José Lucas Seleme, um curitibano de 22 anos de idade, vai falar nesta sexta-feira dia 15, no projeto que o Centro Europeu vem desenvolvendo, o InternacionalizeCE 2018. Zé Seleme, como é conhecido, tem o sonho de ajudar a transformar a vida de uma pequena comunidade no norte do Quênia, na África Oriental, e para isso organizou uma ONG em 2011 para arrecadar dinheiro e investir na educação das crianças da comunidade de Buuri, no norte daquele país.

Bandeira do país.

 

E a ideia se tornou um propósito de vida. Segundo Seleme, o que o motivou a querer ajudar o povo daquele país foi a hospitalidade com que foi recebido na primeira vez que visitou o Quênia. “O carisma do povo, como eles são acolhedores, como mesmo eles não tendo nada, ainda fazem questão de te dar alguma coisa, de te acolher. Então, isso foi fazendo cada vez mais eu me sentir em casa”.

Nesse país, mais da metade da população vive com menos de US$ 1 por dia. O Quênia oferece educação gratuita às crianças apenas até os treze anos de idade, enquanto no Brasil, por exemplo, é possível ir desde a pré-escola até o pós-doutorado em instituições públicas, sem custo algum.

Estudantes no Quênia.

Por falta de condições, a maioria das crianças quenianas para de estudar assim que completa a idade máxima do ensino gratuito. Com a ONG, Seleme acredita que possa tentar mudar a realidade local, oferecendo ajuda financeira às famílias carentes. Zé Seleme co-fundador e presidente da Ong Endeleza, explica que essa palavra significa “prosperidade” na língua local, e que adquire doações que são repassadas às famílias atendidas pelo grupo formado não só por ele, mas também por amigos. As doações podem ser feitas pela internet, com cartão de crédito, e os interessados ajudam para que o grupo possa desenvolver os projetos na África.

Uma das ideias que a entidade colocou em prática, é a de usar a agricultura para também financiar o projeto, e esta surgiu da necessidade de quebrar o vínculo de dependência entre as comunidades locais e as doações, que caíram desde o início da crise financeira. “O nosso objetivo sempre foi a autossuficiência, queríamos encontrar uma fonte própria de geração de recursos no Quênia. A queda nas doações só aceleraram esse processo”, explica Seleme. Ao todo, 250 crianças e 70 famílias são assistidas pela ONG neste projeto.

Letícia Usanovich e Zé Seleme com as cebolas plantadas através do projeto.

Letícia Usanovich, a diretora de projetos da ONG Endeleza conta que vários fatores pesaram na escolha da cebola. “Nós precisávamos de um produto de ciclo rápido e de alta durabilidade. A cebola rende três safras por ano. E se bem armazenadas, duram até 90 dias. Metade da cebola usada no Quênia é importada da Tanzânia, o que demonstrou uma deficiência na produção local”, afirma. Segundo Usanovich, a ONG contou com o apoio de técnicos e consultores, que ajudaram nos estudos de mercado e análises de clima e solo.

Plantio de cebolas no projeto da ONG Endeleza.

No Quênia, o sistema de ensino apesar de público, não é gratuito. A população é encarregada de custear as despesas que os filhos têm na escola, como merenda, material didático e uniforme, além do salário dos professores. No entanto, são poucas as famílias que conseguem arcar com os custos da educação. De acordo com dados de 2014 da UNESCO, o Quênia é um dos países com maior número de crianças fora da escola, contabilizando mais de 1 milhão. Apesar da expectativa de que uma criança tenha vida escolar de no mínimo 11 anos, lá a média nacional cai para 6 anos. Esses dados demonstram a importância de projetos como esse da ONG Endeleza, na África.

SERVIÇO:

No dia 15 junho, sexta-feira, às 19h30, Empreendedorismo Social,no Auditório Livraria da Vila (Shopping Pátio Batel).

Endereço: Av. Batel, 1868 – Curitiba/PR.

Para informações: Centro Europeu (41) 3233-6669

www.centroeuropeu.com.br

 

 

Fonte: Gazeta do Povo (www.gazetadopovo.com.br)

 

POESIA NA RUA: O CANTO FÚNEBRE POR MARIELLE FRANCO.

Tudo que está morto como fato, continua vivo como ensino.

Victor Hugo

Foto gentilmente concedido por Cristiano Valério

Sou um apaixonado pela Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. A Parada é o meu Natal. Ver in locus tanta diversidade movimentando uma celebração da vida, do amor, dos corpos, dos afetos me deixa em puro êxtase. Esta é a razão porque amo tanto a Parada. Mas a deste ano foi especial para mim. Cheguei e logo vi um camelô vendendo uma bandeira do arco-íris com uma estampa de Marielle Franco. Quem conhece a dinâmica dos camelôs sabe muito bem que eles procuram produtos com saída rápida. Ver, não um, mas vários camelôs vendendo a imagem da Marielle estampada na bandeira LGBT mostrou qual era a tônica dessa grande manifestação. Na abertura, a drag queen Tchaka​ contou a trajetória de Marielle e apresentou sua esposa viúva que, logo em seguida, fez uma fala emocionante. E a cada grito de MARIELLE, a multidão respondia PRESENTE. A homenagem iniciou-se na caminhada lésbica realizada no dia anterior e estendeu-se à Parada.

É raro ver uma multidão cultuar tão fortemente a memória de alguém de forma tão apaixonada. Lembrei-me inevitavelmente de Victor Hugo, o grande poeta e escritor francês do século XIX, autor de “Os Miseráveis”, que morreu em 22 de maio de 1885. Seus restos mortais foram expostos sob o Arco do Triunfo, em Paris, e, após trinta dias, levados ao Panthéon por um cortejo de dois milhões de pessoas. Esta honraria não se deveu apenas a sua produção literária, mas ao fato de ter feito da poesia uma vida e da vida uma poesia. Participou ativamente contra o Golpe de Estado perpetrado por Luís Napoleão em 1851, defende a anistia dos “communards” da Comuna de Paris, lutou contra a pena de morte, pelo direito político das mulheres e fez da sua vida e da sua arte um meio de esperança e transformação.

Tal qual a morte de Victor Hugo, Marielle foi cortejada por quase 4 milhões de pessoas na Avenida Paulista. Assim como a grande multidão de franceses viu naquele homem a expressão máxima de suas vozes em momento de crise e grandes mudanças no cenário político francês do século XIX e pós Revolução, nós, a multidão de LGBT em São Paulo, mostramos que aquela mulher negra da favela da Maré foi morta por ser uma de nós. E se morremos com ela no fatídico 14 de março deste ano, três meses depois, na maior festa LGBT do mundo, fizemo-la viver em nós: eis a poesia na rua. Morremos a sua morte para torna-la símbolo do que acreditamos e daquilo que queremos.

Foi o funeral mais lindo que assisti em toda a minha vida. O mais lindo funeral, porque festivo e, dessa festa, carnavalizamos com os nossos corpos e nossas vozes o significado histórico do símbolo: não um homem branco heterossexual da principal cidade do continente europeu no século XIX, mas uma mulher negra lésbica da favela da Maré em um país na América Latina que foi elevada à posição de símbolo na maior festa política do século XXI. Foi o funeral mais lindo porque traduziu em festa a luta de Marielle, potencializando-a na esperança e na crença de que um mundo com maior igualdade e justiça, sobretudo para mulheres, LGBT, negras, favelas, este mundo que tanto defendeu Marielle continua valendo a pena lutar. Por fim, o mais lindo funeral, porque a Parada é colorida pelas contradições, tais quais vemos e vivenciamos nas favelas e nas periferias do Brasil – pessoas de diferentes cores religiosas, ideológicas, de preferências estéticas e culturais juntaram-se para fazer deste domingo o grande funeral de Marielle Franco, mas não para chorar a sua morte, mais que isso, torna-la símbolo do que acreditamos e daquilo que defendemos. Tudo isso feito por meio de uma junção caótica das contradições individuais: o berço privilegiado da poesia.

A grandeza de Marielle tomou conta da Avenida Paulista de tal forma que me fez lembrar também o poema de Brecht que coloco aqui adaptado:

“Há mulheres que lutam um dia e são boas, há outras que lutam um ano e são melhores, há as que lutam muitos anos e são muito boas. Mas há as que lutam toda a vida e estas são imprescindíveis.”

 

MARIELLE PRESENTE, PORQUE IMPRESCINDÍVEL!!!!!

 

A FORMAÇÃO DA COMPANHIA DE JESUS E A TRAJETÓRIA DE INÁCIO DE LOYOLA: ANÁLISE DA BIBLIOGRAFIA INSTITUCIONAL

Os estudos que abordam a trajetória do padre espanhol Inácio de Loyola possuem uma característica memorialista e foram recuperadas a partir de fontes disponíveis nos arquivos eclesiásticos. A Autobiografia de Inácio de Loyola resume o importante legado, destacando, propositadamente, seu desempenho como um dos principais articuladores da Companhia de Jesus, em 27 de setembro de 1540[1]. O Papa Paulo III, por sua vez, também considerou através da bula Regimini Militantis Ecclesiae, a importância da organização jesuítica como plataforma estratégica que projetaria a catequização em escala global num contexto de reação do catolicismo diante da Reforma Luterana[2].