União Lapa: Nossa peleja, nossa revolução

 

União Lapa Foot Ball Club

Nossa peleja, nossa revolução
Texto-relato escrito pelas mulheres da equipe de futebol (mista) de várzea

Jogadoras do União Lapa concentradas na partida. Lapa-SP, 2018.

Perguntas ecoam no ar dos campos de futebol país afora:
– Seria papel da mulher jogar futebol?
– Essa mulher poderia jogar na várzea e ainda junto com caras?

CDC Bicudão, Lapa-SP, 2018.

Só de entrar em campo com manas, o time vira “time de mina” e isso aparece como um adjetivo depreciativo vindo de uma sociedade conservadora, sexista e machista. Após algum tempo de jogo, eles percebem que não estamos de brincadeira e que vamos jogar com força e garra, de igual para igual e isto parece que afeta a masculinidade.
Muitos perdem o compasso, “Vixi, perder de time de mina não dá.”
“Nossa, a mina tá deitando nos caras.”
– dito aos risos, se torna questão de honra pro cara tirar a bola da mana a qualquer custo ou amaciar o jogo para dizer que está deixando-a passar porque é mulher e aí não dá pra entrar forte. Sem contar as frases:
“A gatinha, pode deixar que eu marco.”

Essa zaga é tipo uma muralha que não passa um, 2018.

“Mina feia, joga que nem homem.”

Camisa 8, só tapa. 2016.

– Mas não conseguimos entender o que tem a ver padrão de beleza tosco com jogar futebol.
– Será que todo mundo pode realmente jogar futebol?

União Lapa X PSU Athletic

O futebol para as mulheres sempre é uma ferramenta de resistência. Carregamos a bola como nossa arma e a várzea como um espaço de luta.

Peleja na Lapa

A revolução só acontece com mulheres no front. Em campo com a bola no pé, num drible monstro, num carrinho lindo, num domínio com classe ou numa dividida de bola.

União Lapa Foot Ball Club. CDC Bicudão, Lapa-SP, 2018.

Seja na defesa ou no ataque, resistimos.

PRETO

O espetáculo PRETO faz temporada em Curitiba, de 02 a 12 de agosto, de quinta a domingo, no Teatro José Maria Santos. Com direção de Marcio Abreu, PRETO traz no elenco: Cássia Damasceno, Felipe Soares, Grace Passô, Nadja Naira, Renata Sorrah (em sua terceira peça com a companhia) e Rodrigo Bolzan / Rafael Lucas Bacelar.

COLONIZAÇÃO VERSUS DESCOLONIZAÇÃO: um breve resgate histórico do modelo de ocupação e o contraponto das resistências e lutas sociais no território Amazônico Paraense.

Kátia Maria dos Santos Melo

 

Este artigo é parte integrante da tese de doutorado “Lutas sociais e resistência na área de influência da Usina Hidrelétrica de Belo Monte: a Amazônia no cenário da mundialização do capital”. A tese foi aprovada em agosto de 2016 e escolhida pelo Programa de Pós-Graduação em Política Social do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília, para concorrer ao Prêmio Capes de Tese/2016.

O estudo examina a formação social e econômica da Amazônia, considerando os processos contraditórios da colonização e o contraponto dos processos da descolonização, protagonizados pelos sujeitos amazônicos, muitos na condição de trabalhadores formais, informais, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, colonos, garimpeiros artesanais, agricultores, pescadores, pesquisadores (brasileiros e estrangeiros) que a partir de seu lugar, exprimem posições que demarcam as resistências e lutas sociais.

Sabe-se que o processo de descolonização exige um combate permanente e que tais lutas devem assumir frentes mais amplas e irmanadas considerando a imensa territorialidade em que consiste a América Latina e a Amazônia. Tem plena razão Galeano (2013, p. 367) quando enfatiza “[…] á muita podridão para lançar ao mar no caminho da reconstrução da América Latina. Os despojados, os humilhados, os amaldiçoados, eles sim têm em suas mãos a tarefa. […] Abrem-se tempos de rebelião e de mudança. Há quem acredite que o destino descansa nos joelhos dos deuses, mas a verdade é que trabalha, como um desafio cadente, sobre as consciências dos homens.

Deste modo, o processo de descolonização parte das contradições, dos processos de conscientização, das violações de direitos, das heterogeneidades que formam a totalidade das lutas, cuja unidade se situa no bojo do Continente Latino Americano e perpassa os níveis de colonizações que impõem aos seus povos uma condição de subalternidade e de assimetria de poder. O contraponto materializa-se por meio das forças renitentes que não se intimidam diante das ofensivas dos algozes colonizadores e seguem como a correnteza de um rio.

Destarte, faz-se necessário realizar um resgate histórico daquilo que demarca econômica, política e socialmente a apropriação do território a partir de suas conexões com a particularidade, singularidade e totalidade tendo em vista o contraponto dos sujeitos que vivem, estudam e constroem essa realidade organicamente. Para tal, a busca das raízes dessa trajetória exigiu percorrer algumas interpretações seminais.

Assim, o conceito de colonização requer a priori, a desconstrução do discurso ideológico de que o modelo colonizador se impõe sobre um território atrasado do ponto de vista das relações de produção, um lugar pouco integrado à trama do mercado, com “vazios” demográficos, culturais e sociais, de sujeitos bárbaros, primitivos, e, que, somente a racionalidade capitalista representada pelos modelos eurocêntricos de conhecimento e poder podem promover a modernidade, crescimento e, consequentemente, seu “preenchimento” e “desenvolvimento” tendo em vista o credenciamento daquele lugar ao mundo globalizado do mercado.

O processo de colonização tem sido tema frequente quando se envereda por uma análise crítica da formação social, política e econômica latino-americana. Observa-se que há uma prevalência da visão eurocêntrica que se estabelece imperiosa e superior, tanto do ponto de vista cultural, racial como do ponto de vista da ciência e da produção do conhecimento. A perspectiva ideológica da colonização eurocêntrica estabelece um padrão universal a partir de suas referências consideradas “modernas” e, a partir destas, constroem-se teorias, teses, e políticas, cujas bases conceituais permitem chegar ao grau de superioridade e desenvolvimento frente aos países da América Latina.

Tal visão não acolhe a realidade cultural, política e econômica sul-americana, ao contrário, à subestima, desqualifica e à reduz a um patamar inferior, atrasado e pouco civilizado, justificando por sua vez, a razão da intervenção colonizadora. Como bem explicita Lander (2005, p. 13-14, grifo do autor): “esta é uma construção eurocêntrica, que pensa e organiza a totalidade do tempo e do espaço para toda a humanidade do ponto de vista de sua própria experiência, colocando sua especificidade histórico-cultural como padrão de referência superior e universal. […] As outras formas de ser, as outras formas de organização da sociedade, as outras formas de conhecimento, são transformadas não só em diferentes, mas em carentes, arcaicas, primitivas, tradicionais, pré-modernas. […]. Existindo uma forma natural do ser da sociedade e do ser humano, as outras expressões culturais diferentes são vistas como essencial ou ontologicamente inferiores e, por isso, impossibilitadas de se superarem e de chegarem a ser modernas (devido principalmente à inferioridade racial). Os mais otimistas vêem-nas demandando a ação civilizatória ou modernizadora por parte daqueles que são portadores de uma cultura superior para saírem de seu primitivismo ou atraso. Aniquilação ou civilização imposta definem, destarte, os únicos destinos possíveis para os outros.

Sobre esse ponto de vista hegemônico na Amazônia Loureiro (2009, p.31) afirma que “[…] os primeiros conquistadores e colonizadores não se conformaram em ver uma terra que lhes parecia ser o paraíso terrestre ocupada por povos que julgavam inferiores, bárbaros, primitivos, rudes, preguiçosos e, para muitos, possivelmente desprovidos de alma. Dos primeiros séculos da colonização aos governantes, políticos e planejadores dos dias atuais, a história da Amazônia tem sido o penoso registro de um esforço gigantesco e ‘civilizador’ para modificá-la, transformando a situação original. A sua história é a de uma saga secular empreendida pelo Estado e pelas elites na tentativa de domesticar o habitante e a natureza da região, moldando-os à visão e à expectativa de exploração do homem de fora, […]. Mas é, também, a história da resistência de sua gente às diversas formas de dominação.”

De acordo com a autora, não obstante o discurso de domesticar os sujeitos e promover a ocupação forçada do território, o contraponto consiste no posicionamento das lutas sociais e resistências que se materializam no processo de descolonização da Amazônia frente às estratégias de dominação. Pensar estratégias frente à ofensiva neoliberal patrimonialista exige a clareza do que representa e no que se constitui a PanAmazônia que, do ponto de vista de sua geografia política, é um território que contempla diversas territorialidades, pois é composta pelos seguintes países da América do Sul: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Suriname, Peru, Venezuela, Guiana e Guiana Francesa.

A ocupação do território Amazônico pelos seus povos tradicionais remonta uma história que não está descrita nas literaturas ocidentais. É tanto que a historiografia oficial do Brasil inicia em 1.500 Depois de Cristo (DC). Todavia, examinam-se os processos históricos, culturais e econômicos a partir da referência de seus sujeitos, cuja ocupação e vivência reificam suas territorialidades e trazem o sentido para o lugar (HARVEY, 2005). E deste modo, é preciso inverter a perspectiva da visão ideológica dominante e, necessariamente, reconhecer que a PanAmazônia contempla países prenhes de culturas, práticas sociais, econômicas e políticas protagonizadas por seus povos que portam alternativas societárias, para além do modo de produção capitalista. Talvez esse aspecto traga ameaças à racionalidade hegemônica. Conforme adverte Martins “Essas populações têm vivido e sofrido o impacto do estranho, que não só invade territórios tribais e terras camponesas, confinando ou expulsando, mas também quebra linhagens de família, destrói relações sociais, clandestiniza concepções culturais, valores, regras – vitais para a sobrevivência de tribos indígenas e comunidades rurais.

No mínimo, repositórios de concepções alternativas do humano, que nossa sociedade, em seu conjunto, belicosa e violenta, vem perdendo ou já perdeu. Assim como a devastação da floresta destrói definitivamente espécies vegetais úteis, a devastação ou a mutilação de grupos sociais diferentes do nosso suprime modos de viver e de pensar, bem como destrói saberes que representam um germe de alternativa para a desumanização acelerada que estamos vivendo (MARTINS, 1993, p. 12, grifo nosso).

Certamente, as ações avassaladoras do “estranho” sobre povos originários e territórios se dão por meio desse modelo predatório, de aprofundamento da acumulação, consumo; esgotamento da natureza e da superexploração do trabalho e do homem. Por outro lado, infere-se, que a organização social desses povos, representa verdadeiras ameaças, na medida em que seus modelos civilizatórios estabelecem relações sociais e econômicas diferenciadas baseadas no convívio com a natureza, processo produtivo de subsistência, de partilha, na troca de aprendizados e culturas em detrimento do consumo massificado, individualista e de instabilidade socioambiental.

Este estudo considera a perspectiva da descolonização a qual  reconhece a soberania dos povos latino-americanos, sua ontologia explicitadas historicamente pelos sujeitos organicamente envolvidos com essa realidade, e da particularidade Amazônica a partir de seus lugares de luta e resistência, configurados por meio dos movimentos populares, movimentos sociais; pesquisadores nacionais e estrangeiros; entidades de defesa de direitos; instituições governamentais e não governamentais; coletivos independentes; associações de moradores; comunidades originarias; sindicatos; frentes populares, escritores, músicos, poetas e outros – que por meio de sua práxis, questionam, enfrentam e resistem ao modo produtivo capitalista e seus algozes colonizadores.

Na verdade, quando se trava um debate sobre o processo de descolonização da América Latina observa-se a farsa em que se constitui o modelo hegemônico de colonização, que imprime um discurso de desenvolvimento a qualquer preço. Exemplo disso é a ofensiva à PanAmazônia, cujos territórios apresentam abundâncias de riquezas mineral, vegetal e animal, como também a força de trabalho necessária para a engrenagem vital capitalista, sabendo-se que tais recursos escassos e exauridos em outros territórios apontam a Amazônia como a última fronteira agrícola do capital, cuja ofensiva sobre o território não deixa dúvidas que se trata de um projeto de acumulação avalizado pelo Estado burguês em suas várias unidades de poder, conforme assevera Teixeira (2008, p. 141) “O capitalismo completou, nas últimas décadas, o seu processo antes embrionário de mundialização. Ao fazê-lo, avançou para a última fronteira – a maior reserva de recursos naturais e culturais do planeta – a Amazônia. Consolidou com isso, num plano extensivo, a polaridade capital x trabalho, estendendo para a região a relação pobreza x riqueza e todas as suas determinações: escassez (onde antes havia fartura), poluição das águas (rios, igarapés, lagos, praias), devastação da floresta (último reduto da maior biodiversidade ainda existente).”

É deste modo, que o processo de acumulação representado pelos avanços das “grandes” obras e empreendimentos na Amazônia colidem diretamente com as formas produtivas locais e forjam a reconfiguração da divisão internacional do trabalho. Concorda-se com Galeano quando problematiza que tal divisão aprofunda a assimetria entre países na medida em que um para se destacar subsume o outro, e, que, portanto, a riqueza de um país e/ou continente representa, contraditoriamente, a pobreza e a miséria do outro. “[…] a divisão internacional do trabalho significa que alguns países se especializam em ganhar e outros em perder. […]. Mas a região continua trabalhando como serviçal, continua existindo para satisfazer as necessidades alheias, como fonte e reserva de petróleo e ferro, de cobre e carne, frutas e café, matérias-primas e alimentos, destinados aos países ricos que, consumindo-os, ganham muito mais do que ganha a América Latina ao produzi-los” (GALEANO, 2013, p. 17).

As reconfigurações da divisão internacional do trabalho formatam uma lógica de planejamento para o território, visto que consideram as necessidades dos empreendedores em detrimento das demandas concretas dos povos da região. Daí se afirmar que o Estado é onipresente para o capital e negligente para as demandas socioambientais, mediante essa racionalidade desenvolvimentista que vai alargando as fronteiras socioespaciais para o capital internacional (SANTOS; SILVEIRA, 2013, p. 48).

Assim sendo, o diálogo de estudiosos sobre a formação econômica e política da PanAmazônia tem sido tema recorrente de estudos e pesquisas; e fazer a opção por autores e obras exigem critérios de seleção que privilegiem o potencial de criticidade, atualidade e organicidade dos estudos capazes de analisar a Amazônia em suas múltiplas dimensões, considerando a relação dos seus povos na interação com as especificidades do território a diversidade que a representa, suas experiências e autonomia.

Assim, a perspectiva do processo de descolonização considera o contexto do território relativo ao espaço geográfico amazônico (solo, recurso hídricos, fauna e flora) e da territorialidade correspondente às pluralidades socioculturais (os patrimônios materiais e imateriais dos povos originários), econômicas e políticas, as quais contemplam os elementos tempo/espaço; o sentimento de pertencimento e o compromisso com o lugar, suas miríades culturais, sociais, econômicas e ambientais.

Trata-se na realidade, de reconhecer a geografia do lugar (HARVEY, 2005) a partir dos sujeitos sociais orgânicos e sua relação com os aspectos internos e externos compreendendo sua totalidade. Tal imersão permitirá interpretar a Amazônia, a partir dos seus conflitos e contradições, das forças existentes; da relação polarizada entre capital e trabalho postos nesse tempo/espaço e que configuram historicamente tal territorialidade.

Prosseguindo na mesma linha, partimos de Leal (2010) para realizar um resgate histórico de como se deu o processo de colonização da Amazônia. O autor problematiza que a lógica de ocupação da Amazônia passa por quatro períodos distintos e politicamente demarcados, sendo o primeiro período exploratório, nos meados do século XVI, quando da invasão dos holandeses e ingleses. Contudo há registros de que antes desse período houve expedições sobre a região, mas não de forma sistemática, conforme esclarece o autor: “[…] ainda no século XV – mais precisamente em 1499 – Pizón toca a foz do Amazonas […] cuidou de apresar consigo trinta e seis índios, que levou para vender como escravos na Europa, o que inaugura, no primeiro contato com a Região, o primeiro saque sobre ela. Daí por diante e durante mais de um século, a Amazônia ou seria alvo de expedições que foram derrotadas pelo rio e pela floresta, ou, simplesmente, foi deixada em segundo plano pelos objetivos portugueses e espanhóis de consolidar domínio sobre os extensos territórios dos continentes em que assentavam império. (LEAL, 2010, p. 2).”

O segundo período, colonial português, ocorreu ainda no século XVI e se deu pela pressão dos ingleses e holandeses sobre o território, uma vez que eram consideradas grandes forças mercantis emergentes tendo em vista seus sistemas de navegação avançado, o que propiciou, em meados do século XVII, que as forças ibéricas se consolidassem, período emblemático, demarcado pela fundação de Belém que ocorreu em janeiro de 1616 pelos lusitanos.

Cabe destacar neste ponto, que a disputa travada pela dominação da Amazônia entre ingleses, holandeses e portugueses, não obstante os primeiros estabelecerem relações menos danosas, implementando técnicas de plantação, uma vez que neste período ainda não havia se descoberto ouro na região – esses exploradores não se propunham a uma colonização do território de forma pacífica e integradora; muito pelo contrário, quando da tomada do território pelos portugueses, o processo foi demarcado por usurpação, espoliação e rapina, marcado pelo etnocídio dos povos originários sem nenhum constrangimento. Como retrata Leal (2010, p.3) “Essa retomada territorial já foi acompanhada de um brutal etnocídio sobre os nativos; os portugueses traziam com eles dois aspectos típicos do estilo colonial que iriam passar a reproduzir aqui: o aliciamento dos índios (que vinham trazendo do Nordeste junto com o extermínio das tribos que lhes resistiam ao assalto), e a blandícia feroz da catequese. Os padres, que sempre acompanhavam todas as ações militares dos ibéricos como tropa de persuasão e amansamento do gentio, procuravam imediatamente explorar as diferenças tribais, transformando-as em ódio, e promoviam a divisão fratricida entre os filhos (e donos) da terra, para poder submetê-los.”

Notadamente, esse caráter exploratório balizou a forma bárbara de afirmação do poder e soberania lusitana, o que se desdobrou historicamente em um processo “oficial” de exploração das riquezas. O período colonial lusitano influenciou o formato de ocupação da Amazônia cuja forma de colonização brutalizada vai refletir e impactar diretamente na organização política e econômica do território.

Na mesma direção analítica, assevera-se o extrativismo sem precedente, um processo de exploração intensiva sem que houvesse a perspectiva de um sistema de troca e/ou orientação na área da agricultura e do trato com a floresta, de cuja consequência dessa relação de poder e terror decorreu o genocídio sistemático “[…] a introdução do estilo colonial português associou necessariamente o extrativismo e o extermínio genocida do índio, onde, mais uma vez, a ação missionária foi de uma eficiência ímpar. A história da Amazônia nesse período representa o próprio marco histórico inicial do genocídio sistemático do nativo (LEAL, 2010, p. 4).”

Esta ordem genocida segue nos séculos XVII e XVIII e, considerando a dinâmica da sociedade e sua dialeticidade dos processos históricos, o terceiro período vincula a Amazônia ao capitalismo, que paulatinamente foi se ampliando a partir do século XVIII impulsionado pelo advento da Revolução Industrial. Observa-se uma relação de subordinação do Brasil à Inglaterra, cuja Amazônia nesse contexto conecta-se ao ciclo do capital internacional por meio da exportação da borracha “A borracha, como recurso da natureza, dava uma extraordinária contribuição ao desenvolvimento e ao avanço das forças produtivas” (LEAL, 2010, p. 21) – elemento fundamental na engrenagem da fase industrial capitalista. Demarca-se a funcionalidade da Amazônia na divisão internacional do trabalho, na medida em que “[…] inaugura-se, de fato, para a Amazônia, a passagem da condição de mero empório de produtos de consumo, para a de empório de matérias primas. Isto é, ela deixa de ser mero espaço de suprimento para a subsistência suntuária da metrópole, e passa a se integrar, diretamente, ao circuito internacional da Acumulação” (LEAL, 2010, p. 22).

Loureiro (2009, p. 40-41) aborda também que os dois ciclos da borracha na Amazônia ativaram uma migração forçada de trabalhadores do Nordeste do país “ao longo do século XX vários momentos foram marcantes na consolidação do processo de integração da região ao país e, simultaneamente, desse formato econômico. O primeiro deles ocorreu durante o ‘boom’ mundial da borracha amazônica, no fim do século XIX e princípios do século XX, após a invenção do processo de vulcanização. Naquela fase, milhares de migrantes nordestinos pobres – as estimativas apontam para duzentos ou trezentos mil – acataram as propostas dos governos e dos empresários da borracha e migraram para a região. A Amazônia tornou-se, de súbito, uma das regiões mais rentáveis do mundo. Mas a renda da borracha esteve sempre canalizadas para bancos financiadores, casas exportadoras, empresas de transporte e no segmento da oligarquia regional, que empregava e explorava os nordestinos no interior das matas […] Durante a Segunda Guerra mundial, mais uma vez a União lembrou-se da Amazônia como fonte de recursos e dos nordestinos como mão de obra barata. Eles foram convocados para um monumental esforço em produzir borracha para as tropas dos aliados, num episódio que ficou conhecido como ‘a batalha da borracha’, e raramente mencionado nos textos publicado sobre essa guerra.”

E, por fim, o quarto período que se relaciona aos séculos XX e XXI, sobre o qual Leal (2010) argumenta que há uma redefinição da Amazônia na divisão internacional do trabalho. Essa acepção é assim resumida por ele “[…] a Amazônia, hoje, é um espaço onde ou se gera uma produção supérflua, ou onde se produz um saque modernizado e eficiente dos recursos naturais necessários à acumulação, controlado pelas grandes corporações capitalistas. Madeira, minérios, hidroenergia, são alguns desses recursos empacotados em massa e exportados a preços aviltados, e cuja receita, por maior que seja, é inexpressiva ante a magnitude da descapitalização ecológica […]. Mais uma vez, a grande maior parte da sociedade regional está à margem dos benefícios que esse processo gera. Quem os apropria regionalmente é uma reduzidíssima minoria de privilegiados, que controla subsidiariamente a exploração dos recursos naturais e a exploração da força de trabalho da Região. São os representantes, dirigentes e defensores das corporações internacionais, grandes fazendeiros, empresários, latifundiários, profissionais liberais e funcionários públicos integrados aos esquemas de corrupção e favorecimento que esse sistema incorpora.” (LEAL, 2010, p. 40).

A trajetória problematizada por Leal (2010), Loureiro (2009) e Galeano (2013), expõe a séria denúncia de um histórico de colonização espúria, e nada civilizatório, desde o seu aparecimento para o mundo ocidental europeu. Valores, povos, culturas foram simplesmente dizimados incorrendo em etnocídios, genocídios e ecocídios. A visão do outro, do “estranho”, no dizer de Martins (1993) sobre a Amazônia, é sempre na perspectiva de subsunção, da exploração, seja no regime feudal, representado pelos primeiros e segundo períodos; seja no modo produtivo capitalista, representados nos terceiro e quarto períodos.

Entretanto, essa forma de apropriação do território, representada pelos quatro ciclos trabalhados por Leal, não reconhece todo o potencial e riquezas que os povos amazônicos construíram historicamente. Destaca-se a resistência e as lutas sociais, como a experiência da Cabanagem, ocorrida no período de 1835 a 1840 no Estado do Pará, que representou o levante armado e resultou na tomada do poder, em 1835, contra a opressão que o império imputava aos segmentos populares. De acordo com Loureiro “[…] a Cabanagem foi um grande movimento popular de cunho nativista e emancipatório, o maior do período imperial, que varreu a província do Grão-Pará (que na época abarcava a Amazônia geográfica brasileira e mais o Maranhão), entre os anos de 1835 e 1840. O movimento foi encabeçado e formado por pessoas pobres, que viviam em cabanas, daí o nome do movimento. Os cabanos pretendiam um governo caboclo e voltado para as suas necessidades. Ocuparam Belém, assumiram o governo durante um curto período, sendo expulsos em 1836 por uma esquadria inglesa contratada pelo governo imperial brasileiro. Ainda assim, continuaram com as suas ações rumo ao oeste, alcançando vilas e povoados às proximidades de Manaus. De uma população total estimada á época em 100.000 pessoas, calcula-se que cerca de 30.000 tenham perecido.” (LOUREIRO, 2009, p. 33, grifo da autora).

Sem dúvida a cabanagem foi um movimento de luta e resistência em prol da autonomia e soberania popular, muito embora a historiografia problematize que a ausência de um projeto político enfraqueceu o momento. Certamente, a maior barreira encontrada incorreu na ação delegada pelo império brasileiro ao acionar a força bélica inglesa que redundou em sangrentos combates, que promoveram um verdadeiro genocídio. Concorda-se com Leal que tal luta representou “[…] o marco da passagem da Amazônia a uma outra etapa da sua história, quando o poder secular do colonizador foi questionado – e esmigalhado – pela força do colonizado. Não significou a libertação dos segmentos amazônidas explorados […] mas marcou claramente a falência do domínio dos portugueses sobre a Região, junto com uma indelével lição histórica para as gerações futuras […] A vitória da Cabanagem – e a sua derrota – são o testemunho mais sólido da força e do poder popular na Amazônia, bem como da importância da consciência política para a libertação popular.” (LEAL, 2010, p. 20). Assim sendo, a Cabanagem é o testemunho contundente das unidades das forças populares, consideradas colonizadas, que tomam e demarcam posição frente ao algoz colonizador e colocam em cheque o poder do opressor colonial.

Com relação ao último período trabalhado, correspondente aos séculos XX e XXI, destaca-se a redefinição da Amazônia no quadro mundial da divisão do trabalho qual esteve plenamente conectada ao episódio fatídico da Segunda Guerra Mundial que perdurou de 1939 a 1945, somando-se a segunda metade do século XX no tocante a truculenta ditadura civil-militar ocorrida no Brasil, a qual se prestou ao aprofundamento e legitimação do capitalismo no território brasileiro.

A ditadura civil-militar serviu, grosso modo, para colocar em curso os grandes projetos do capital na Amazônia e realinhar o território aos interesses da internacionalização do capital, chancelado pelo Estado. Conforme assinala Picoli (2006, p. 46), “a ditadura de 1964 planejou a expansão do capital nacional e internacional na Amazônia, tornando a última fronteira muito mais integrada ao mercado mundial e pouco ao mercado interno”. E muito embora, esses períodos apontados por Leal (2010) sejam distintos e historicamente determinados, reiteram o processo de saque expresso pelas atividades produtivas extrativistas para fins de acúmulo de riquezas; uma forte marca da exploração da natureza e da força de trabalho e, consequentemente, a pauperização dos povos presentes na territorialidade Amazônica.

Em síntese, os modelos de ocupação, muito demarcados pela perspectiva colonizadora, aguçam nessa realidade contraditória, as forças sociais capazes de fazer o contraponto e, consequentemente, somar-se ao horizonte do processo de descolonização protagonizado pelos sujeitos amazônicos e outros que historicamente vem demarcando o lugar da resistência. Tais forças congregam ações que se complementam, se fortalecem, como também estabelecem disputas e contradições internas, dada à diversidade política, ideológica, cultural de suas bases que correspondem a uma pluralidade de forças sociais que, de certo, compõem o processo de resistência e descolonização na Amazônia.

Referências

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre, L&PM, 2013.

HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. 2. ed. São Paulo: Annablume, 2005.

LEAL, Aluízio. Uma sinopse histórica da Amazônia. Revista de Estudos Paraenses. Belém, IDESP, 2010. Edição especial.

LOUREIRO, Violeta Refkalefsky. A Amazônia no século XXI:  novas formas de desenvolvimento. São Paulo: Empório do Livro, 2009.

LOUREIRO, Violeta Refkalefsky. Amazônia: estado, homem, natureza. 2. ed. Belém: Cejup, 2004.

MARTINS, José de Souza. A chegada do estranho. São Paulo: Hucitec,1993.

Melo, Kátia Maria dos Santos. Lutas sociais e resistências na área de influência da Usina Hidrelétrica de Belo Monte: a Amazônia no cenário da mundialização do capital. Tese Doutorado em Política Social. Universidade de Brasília, 2016. 267 p.

PICOLI, Fiorelo. O capital e a devastação da Amazônia. São Paulo: Expressão Popular, 2006.

SANTOS, Milton; SILVEIRA, Mariá Laura. O Brasil: território e sociedade no inicio do século XX. 17. ed. Rio de Janeiro: Record, 2013.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais: perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO, set. 2005. p. 117-142.

TEIXEIRA, Joaquina Barata. Meio Ambiente, Amazônia e Serviço Social. Revista Em Pauta, Rio de Janeiro, n. 21, p. 141-152, 2008.

 

 

 

Palavras e Momentos

Geovanni Cabral/ Unifesspa

É um Tempo de Guerra. É um tempo sem Sol… (Edu Lobo)

Fotografia da placa do Acampamento Hugo Chaves. Fonte: Acervo do autor.

A primeira vez que escutei o nome Marabá foi na aula do professor Jorge Siqueira, na disciplina “Seminário de Tese”, quando um amigo do doutorado, o professor Airton Pereira, ao expor sua pesquisa nos relatou os embates da luta pela terra no sul e sudeste do Pará. Lembro que projetou um mapa da região Norte, focando o estado do Pará, precisamente o município de Marabá, com vários círculos de tonalidade vermelha, representando os locais de conflitos, marcados por extrema violência, violação aos direitos humanos e assassinatos de trabalhadores rurais. A princípio, tecemos comentários, elogiamos seu percurso metodológico, as fontes documentais e a relevância da pesquisa em curso. Não tinha a ideia da dimensão do que tudo isso representava para a região Norte do País. Mesmo trabalhando com turmas do Ensino Fundamental e Médio, em disciplinas de História ou Geografia, os livros didáticos silenciam esses conflitos. Muitos põem uma pequena nota de forma superficial. Passaram-se alguns anos. Em dezembro de 2016, aporto na cidade de Marabá para poder participar da seleção no curso de História da Unifesspa. Estava na cidade dos “círculos” vermelhos, aquela de que, anos atrás, ouvi falar, permeada de histórias violentas e marcada pelos conflitos no campo.

Meses depois, estou tomando posse na universidade e migrando para a região. Olhos fitos e atentos aos sinais, estava diante do novo, de uma outra temporalidade. Ao mesmo tempo, um estrangeiro, como bem descreve Caetano Veloso em uma de suas letras. Perdido em suas folhas. Estava na Folha 31? Não. Na folha 28? Não sei. Uma cartografia que não conhecia e uma Transamazônica para desbravar. Era um retrato de uma Brasil que não conhecia. Foi nesse contexto que comecei a entender um pouco essas dinâmicas territoriais na Amazônia Oriental brasileira, percorrendo suas ruas, alguns municípios, aldeias indígenas e assentamentos. Assim como o cheiro da fumaça provenientes das queimadas, em pleno verão amazônico, o calor escaldante que nos impele às margens dos rios Tocantins e Itacaiúnas. Mas, também da luta dos trabalhadores rurais, das inúmeras famílias que sonham com um pedaço de terra para poder viver, plantar, morar e criar seus filhos.

Comecei a perceber o poder voraz e dilacerante das motosserras, ceifando as árvores para dar lugar ao agronegócio. Das injustiças cometidas por latifundiários, fazendeiros e pistoleiros se apossando de terras públicas, marginalizando e retirando à força famílias, crianças e idosos, destruindo suas casas e plantações. Em uma dessas minhas andanças, escutei grupos de jovens cantando com sorrisos e determinação a letra Eu vivo num tempo de Guerra. O espaço era um acampamento da juventude do MST, na curva do “S”, lugar de memória, lágrimas e dor. Relembravam o massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996. Aquilo foi como a passagem de um cometa em meus neurônios; lembrava de minha coleção.  Uma canção forte, precisa, letra de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri , cantada por Maria Bethânia no seu show  Opinião de estreia no Rio de Janeiro, em 1965, e gravado em vinil, em 1967. O Brasil vivia um Tempo de Guerra, os militares ditavam as regras, a ordem e a desordem.

E esse Tempo sem sol, esse tempo de guerra permanece vivo, presente e atuante, nos gritos das famílias que são expulsas de suas casas, nos choros das crianças que seguram as mãos de seus pais e percorrem os caminhos escuros dentro do mato, dos idosos que nem sempre conseguem alcançar seus filhos. São sombras do fogo que consomem suas memórias e suas histórias, que queimam a vida e o alimento, aos olhos da negligência dos poderes públicos. Esse Tempo de Guerra não passou; a letra volta em outros contextos, em outros “regimes de historicidades”, utilizando a expressão de François Hartog.

Antes de ser sem-terra, eu sou gente, sou um ser humano (Poliana Barbosa, novembro 2017, assentamento Hugo Chaves) 

Foi assim na madrugada de sábado, dia 28 de julho de 2018. O Tempo de Guerra mostrou sua face outra vez. Famílias do assentamento Hugo Chaves retornaram à Fazenda Santa Tereza e foram surpreendidos por “pistoleiros” e policiais militares armados que, furiosamente, saíram tacando fogo nas casas, destruindo plantações e expulsando mais de 450 famílias da localidade, conforme relatam alguns sites de notícias, como o G1 – Pará e o Rede Brasil Atual. “Sem lenço e sem documento” essas famílias estão acampadas no Assentamento 26 de Março, sobrevivendo da solidariedade de doações e de grupos que estão se mobilizando para ajudar.  A violência se fez presente no ímpeto de homens armados que não pouparam objetos, casas, móveis, documentos e, muito menos, crianças; defendendo os interesses do latifundiário Rafael Saldanha, que em dezembro de 2017 teve o direito reconhecido pela justiça local de reintegrar as terras de sua fazenda.

Fotografia do MST. Casas e objetos queimados.

O conflito, nesse espaço geográfico, estende-se desde o dia em que famílias sem terras, vindas de várias localidades, como Marabá, São Domingos, São João e Itupiranga chegaram às terras da Fazenda Santa Tereza e as ocuparam. Era 8 de junho de 2014. Segundo o MST, essas terras foram griladas e deveria entrar na lista da Reforma Agrária um gargalo que se perpetua no sul e sudeste do Pará, desde a década de 1970, tornando a região uma das mais violentas do País em termos de conflitos agrários.

De 2014 a 2017, essas famílias vêm sendo perseguidas e ameaçadas, e tiveram casas e roças incendiadas, mas sempre resistindo e buscando, junto às autoridades locais e nacionais, meios legais de permanecerem na localidade tomando conta da terra. Na entrevista de Polliane Soares, em 12 de novembro de 2017, publicada no canal Youtube, essa se mostrava preocupada com a ordem de despejo para dezembro do mesmo ano e relatava que o assentamento dispõe de escola municipal, inclusive mantida com recursos municipais, área de produção de farinha, arroz, abóbora, lavouras de subsistência, importantes para o sustento das famílias — produtos e frutos da terra, que eram negociados na Vila Sororó e na cidade de Marabá. Apreensiva com o despejo anunciado, indagava como deixar tantas crianças sem escola, idosos ao relento, lavouras e plantações para trás? Para onde ir? O que dizer para sua filha?

Polliane relata na entrevista que “[…] as pessoas perguntam porque estão no acampamento? Estamos no acampamento porque não temos condições de morar na cidade, porque não temos condições de comprar um pedaço de terra.” E continua: […] a gente está no acampamento porque a gente sabe do caso de Santa Tereza, nós sabemos que a Santa Tereza é uma terra pública e foi grilada pela família Saldanha e nós não  estamos aqui reivindicando área particular, estamos aqui reivindicando área pública, área do estado, área que deveria ter sido destinado para a Reforma Agrária, para assentar  essas famílias que não têm condições de comprar essa terra, nós estamos aqui porque nós somos despossuídos, não estamos aqui porque não temos condições de criar nossos filhos na cidade. (Entrevista publicada por Luana Almeida no Yuotube).

As palavras de Polliane têm várias implicações e desdobramentos. Sinaliza o porquê dessa migração em busca de um pedaço de terra, dos enfrentamentos políticos, do sonho pela terra e por uma moradia digna para seus filhos e para a comunidade Hugo Chaves. O que se configura nesse campo de batalha não é apenas o uso e ocupação da terra. Não podemos esquecer as inúmeras famílias que lutam por seus direitos e por dignidade frente aos poderes, mandos e desmandos, de latifundiários, fazendeiros ou pistoleiros.

Poucos dias após a entrevista, a família Saldanha conseguiu na justiça o direito de reintegração de posse de suas terras. Famílias, sem teto, sem casa, em pleno mês de dezembro de 2017 foram obrigadas a pegar seus pertences, deslocar-se e montar o Acampamento no 26 de Março. O lamentável de tudo isso é ver os órgãos como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a Delegacia de Conflitos Agrários (Deca), a Polícia Militar e o Judiciário compartilharem o silêncio diante do despejo e de suas consequências. Daí a frase que abre essa sessão “Antes de ser sem-terra, eu sou gente, sou um ser humano”, trecho da última parte da entrevista de Polliane Soares, chorando e emocionada diante do descaso governamental, da marginalização, da negligência dos poderes locais. Durante o despejo que se concretizou, eles deixaram para trás, casas, sonhos, memórias de alegrias eafetividades.

Sendo obrigados a saírem por ordem judicial, seguiram em retirada para o Assentamento 26 de Março. Diante da falta de resposta para essas famílias por parte dos poderes públicos, eles retornaram na última quinta-feira, dia 26 de julho. Não tardou para a violência bater à porta outra vez e mostrar sua cara. Obrigados a saírem da fazenda Santa Tereza, na madrugada do dia 28, homens armados proporcionaram medo e revolta. Foi um cenário de Tempo de Guerra, de fato sem sol — era noite de lua cheia. A professora Idelma Santiago da Unifesspa foi até o Assentamento 26 de Março no sábado à tarde e saiu revoltada com os relatos da barbárie cometida.

Em suas palavras, descreve o horror relatado pelos moradores : […] pessoas de todas as idades. Muitos rostos gastos pelo tempo e pelo sol. Muitas crianças! Todas contavam. Os tiros, o fogo queimando tudo – os barracos, os documentos pessoais, os carros, as motos, os celulares e, os cachorros, atirados vivos para queimar no fogo na frente de todos/as indiscriminadamente. O que não foi queimado foi roubado (celular, dinheiro, dentre outros objetos). Um estudante da Unifesspa teve sua mochila queimada, com o livro que estava de empréstimo da biblioteca da Universidade. Depois, vêm os relatos da fuga para salvar a vida, incluindo o cuidado com aqueles que estão na mira da bala. A madrugada de famílias, crianças separadas, perdidas, salvas pelo         instinto e a coragem, onde os/as filhos/as são de todos. (Texto publicado em sua página do Facebook).

Para a professora, “[…] foi um ato criminoso de atentado contra a vida de pessoas indefesas, incluindo crianças, num conluio de agentes que na minha memória remonta à década de 1980, ainda na ditadura militar.” Lendo o relato da professora Idelma Santiago e sua indignação frente à retirada dessas famílias, perguntamo-nos até quando vamos presenciar tamanha violência nessas terras do estado do Pará? Quantas pessoas perderam suas vidas e outras continuam ameaçadas diante da ação de latifundiários, do agronegócio exportador que dilacera direitos e dignidade? Pessoas pobres, sem-terra, trabalhadores rurais não tem vida, dignidade, não merecem respeito em seus direitos enquanto cidadãos? Lamentável que o Tempo de guerra, o tempo sem sol volte percorrendo veias, sangrando, derramando lágrimas e aniquilando vidas.

Fotografia do MST. Carros queimados, casas destruídas. Violência no campo.

O acontecimento descrito nesse texto possibilita pensar nesse tempo histórico que, como um trem deslizando sobre os trilhos, carrega em seus vagões mudanças e permanências. Essas últimas pautadas na violência agrária que persiste nessas terras da Amazônia e em suas fronteiras. Um tempo que registra a “guerra” do agronegócio, das queimadas, das plantações de soja e milho, dos castanhais que cederam lugares para o gado bovino. Nesses vagões, segue a luta pela reforma agrária, a luta por dignidade e respeito em terras “sem lei”. Até quando vamos viver esse “tempo de guerra, esse tempo sem sol?

Referências

 

G1- Pará. Disponível em:  <https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2018/07/28/policia-investiga-suposto-ataque-em-fazenda-reocupada-por-trabalhadores-rurais-em-maraba.ghtml>. Acesso em: 29 jul. 2018.

Rede Brasil Atual. Disponível em: <https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2018/07/familias-de-acampamento-em-maraba-sao-ameacadas-e-atacadas-por-pistoleiros>. Acesso em: 29 jul. 2018.

SOARES, Polliane. Acampamento Hugo Chaves. 2017. (3:46 mim). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Sjws4AfY2VM>. Acesso em: 29 jul. 2018.

SILVA, Idelma Santiago de. O lado certo da História: solidariedade às famílias acampadas do Hugo Chaves. Disponível na página do Facebook. Acesso em: 30 jul. 2018.

 

Agradeço a leitura carinhosa e atenta de Erinaldo Cavalcanti e Idelma Santiago da Silva.