Identidades trans como protagonista social

Esta nova coluna: “Praxis, Poiesis e Theoria” propõe a publicação de artigos de graduandos de História, Ciências Sociais e outros cursos que compõem o Campus da Universidade Federal Fluminense, no município de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. Distante 300 km. da Sede da UFF em Niterói, o Instituto de Ciências da Sociedade foi fundado há 56 anos, com o Curso de Serviço Social. Com a expansão e reestruturação pelo REUNI, foram criados cinco novos cursos: Ciências Econômicas, Geografia, Ciências Sociais, Psicologia e História.

A proposta é que as experiências pessoais e acadêmicas sejam aqui relatadas. Ocasionalmente, outros temas poderão ser abordados. Inauguramos este espaço com o depoimento crítico da Hísis Rangel que, lutando suas batalhas cotidianas, como ela mesmo diz, se tornou a  “primeira mulher transgenêro graduanda em licenciatura de Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense de Campos dos Goytacazes”. Suas conquistas, como a do reconhecimento oficial do nome social é exemplo para a luta por outras necessárias conquistas para todos.

Hísis Rangel – Primeira mulher transgenêro graduanda em licenciatura de Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense de Campos dos Goytacazes, militante do coletivo LGBTQI+ Gaytacazes, fundadora do Coletivo Trans Goytacá e também militante do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade).

 

Identidades trans como protagonista social

 

Uma identidade trans se constrói quando um sujeito não atua de acordo com seu desempenho de gênero destinado à sua genitália determinada pela sociedade. Dessa maneira, abrimos margens para uma exclusão social em massa de pessoas, por sua conduta social, que é relacionado ao meio em que elas vivem, assim como na comunidade, na família e na vida.
Conduzidos à marginalidade e à inadmissão como cidadãos, pessoas que se identificam como transexuais/transgenêros são impossibilitadas de ter uma vida comum como os sujeitos que se reconhecem como  cisgêneros (aquela identidade onde o sujeito se constrói com o desempenho de gênero destinado a sua genitália). O sujeito que se identifica como trans, é excluído e expulso das redes de relações sociais que se encontram nas instituições básicas do convívio social: a família, a escola, a igreja e o Estado, como definidas pelo sociólogo alemão Nobert Elias, em sua obra “Introdução à Sociologia”.

A primeira é a família, que rejeita seus filhos, pois ainda vive em um modelo patriarcal em que qualquer aparência de promiscuidade acarreta inúmeras consequências.
Logo depois, o ensino que ainda propaga modelos ensinados pela família patriarcal, prejudicando o indivíduo em suas formações escolares por causa de perseguições, agressões verbais ou físicas, intencionais ou não, mas que também acarreta inúmeras consequências, tais como medo de ir à escola, aceitação das agressões acreditando estar errado, abandono dos estudos ou até suicídio.
Após essas duas instituições citadas vem a Igreja. Até hoje, católicos e protestantes, que são a maioria religiosa identificada pelo censo (IBGE, 2010) continuam perpetuando um modelo de conduta opressor, mantendo qualquer sexualidade que foge do padrão cisgênero como gesto proibido condenado ao pecado, e as expressões de gênero ditas únicas, de Adão e Eva.
Após a Igreja, vem a última instituição, que é o Estado, que ainda é conservador, e se mostra através de um modelo cristão e patriarcal proibindo pessoas trans ao reconhecimento enquanto cidadãs, negando direitos básicos como reconhecimento ao nome social desejado pelo individuo.
Esses indivíduos, que tem todo o seu protagonismo social marcado pela ignorância e falta de compreensão das pessoas ao seu redor, vivem uma vida reprimida e atordoada, que faz com muitas vezes tirem a própria vida por acharem que não são dignas à existência. Crescem ouvindo piadas sobre sua performance como conduta de desvio do normal, também muitas vezes sofrendo agressões de indivíduos que se dão ao direito de julgar a conduta do outro, seja amigo, conhecido ou até um próprio familiar.
No cenário atual brasileiro, esses indivíduos através da mídia aparecem sempre em casos de vulnerabilidade social como o alto índice de morte, desemprego, baixa renda, sem casas e etc. Porém, têm conquistado espaços nunca imaginados pela população em geral, como o caso da Tifanny Abreu, que é a primeira transexual a entrar na superliga feminina de vôlei, ou como o caso da Leia T que é uma modelo e estilista trans brasileira conhecida internacionalmente, ou como o Thammy Miranda, que também se identifica como trans é ator, cantor e ex-modelo brasileiro, entre outros exemplos.
Embora não haja muitas estatísticas sobre (des) emprego entre esse público alguns dados localizados são significativos. Segundo a Associação das Travestis e Transexuais do Triângulo Mineiro (Triângulo Trans), apenas 5% das travestis e transexuais de Uberlândia estão no mercado de trabalho dito formal. As demais, 95%, estão na prostituição. Também apresentado pela ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais, segundo a qual 90% das travestis e transexuais estão se prostituindo no Brasil. Mesmo querendo estar em um emprego formal com horário de trabalho, rotina e carteira assinada o preconceito e a ignorância ficam evidentes quando se candidatam a uma vaga. Nesse contexto de vulnerabilidade, a militante feminista e ativista trans brasileira Daniela Andrade, que também é analista de sistemas, junto com mais dois companheiros criou o primeiro portal de empregabilidade trans no Brasil: o site Transempregos (http://www.transempregos.com.br/) com a finalidade de aproximar a população trans do mercado de trabalho formal.

Em 2013, preocupados com a realidade desses cidadãos e cidadãs no Brasil, Daniela Andrade, junto com seus dois companheiros, motivados pela crescente demanda de inciativas da sociedade civil e da responsabilidade social, criaram um projeto sem fins lucrativos. Sem ser uma agência de empregos, mas uma ponte entre empregadores e colaboradores (as) que acontece ali de forma espontânea. Assim nasceu o Transempregos, que hoje conta com resultados, apoiadores e parcerias que buscam a cada dia oportunizar a equidade dessa parcela da população que ainda é tão marginalizada.
Também com a intenção de socializar esses indivíduos nasceu em a Casa Nem que se localiza no bairro da Lapa no Rio de Janeiro, que tem como intenção de ser um local que abriga transexuais, travestis e homossexuais em situação de risco social. A Casa Nem também conta com o projeto Prepara Nem que é um curso preparatório para o Enem voltado para o público trans. Lá também há outros cursos como costura ou cabeleireiro para aqueles (as) que não querem ingressar em uma universidade. Tanto a Casa Nem como o Projeto Nem foram fundados pela ativista Indianare Siqueira, que é prostituta e vereadora suplente do município do estado do Rio de Janeiro pelo partido PSOL.
Sendo assim, abrindo margens para uma inclusão desses indivíduos que se descobriram como corpos com identidades trans, grupos de ativistas vêm lutando incansavelmente para a ressocialização e incorporação desses indivíduos na sociedade. Hoje há um avanço claro na luta contra o conservadorismo. Ativistas em prol de pessoas trans seguem fazendo barulho e chamando atenção por onde passam, nessa lua pela cidadania plena.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ELIAS, Norbert. Introdução à Sociologia. Braga: Editora Pax Limitada, 1980.

 

 

 

TAUÁ – ARTE INDÍGENA NAS ESCOLAS

“A habilidade das mãos e a ocupação com o artesanato preparam no homem a vontade de se dedicar ao seu intelecto. Aquele que desenvolve habilidades nas mãos também
desenvolve ideias e pensamentos flexíveis.” (Rudolf Steiner)

 

No mês em que se comemora o Dia do Índio, alunos do Ensino Fundamental (1ª a 4ª série), de cerca de 10 escolas municipais de Curitiba, serão beneficiados com uma atividade pouco convencional: oficinas de cerâmica indígena. O projeto chama-se Tauá – A Arte Indígena da Cerâmica e irá atingir com 60 oficinas mais de 2 mil crianças até julho deste ano. Tauá significa argila em Tupi Guarani e a iniciativa, além de promover o exercício e a valorização do trabalho artesanal, visa também à preservação da cultura ancestral indígena.

O entusiasta desta ideia e criador do projeto é o artesão, arte educador e músico Fabio Mazzon, que desde 2004 produz peças de cerâmica a partir de pesquisas de técnicas ancestrais de modelagem e decoração utilizadas por povos originais e indígenas brasileiros. “O objetivo é oferecer uma vivência criativa, educativa e produtiva. O contato com a argila, com os trabalhos manuais, artesanais, trazem inúmeros benefícios ao desenvolvimento humano e em especial às crianças”, explica.

Fabio também ressalta que o projeto cria oportunidade para que as crianças tornem-se criadores de seus próprios meios de expressão. “Estamos em uma época em que o fazer está distante da realidade das crianças, hoje elas encontram tudo pronto, basta consumir. A possibilidade de confeccionar algo com as próprias mãos é extremamente saudável e fundamental para seu desenvolvimento humano”, pontua.

Além de Mazzon, outro ministrante da oficina é o artesão e pedagogo Pietro Rosa que há anos desenvolve trabalhos com crianças, inclusive com necessidades especiais. Na opinião de Rosa: “Esse tipo de atividade não só estimula a valorização das artes manuais, mas também a criatividade, a socialização, além do desenvolvimento do conhecimento cognitivo e da psicomotricidade”, declara.  As oficinas acontecerão nas escolas, a técnica utilizada será o acordelado e a peça produzida será levada para casa pelo próprio aluno.

O formato da oficina será sempre o mesmo em todas as escolas: primeiro os alunos serão recepcionados ao som de tambores de cerâmica e de outros instrumentos artesanais de referências ancestrais, feitos de madeira, semente e de fibra natural. Após, serão introduzidos ao tema a partir de histórias e mitos sobre o barro e a argila. Na sequência está programado um bate papo sobre a utilização da cerâmica em nossas vidas desde tempos remotos até hoje. A ação inclui também uma exposição de peças de cerâmica indígenas. Cada oficina terá a duração de 1 hora e 40 minutos.

Os educadores também serão beneficiados com duas oficinas onde terão atividades práticas de manipulação da argila a fim de desenvolver sensibilidade, concentração, paciência, imaginação, criatividade e psicomotricidade e atividades teóricas focadas no conhecimento histórico e cultural do trabalho artesanal, bem como a utilização e importância da argila.

A Cerâmica no Brasil

No Brasil, a cerâmica tem seus primórdios registrados na Ilha de Marajó, no Pará. A cerâmica marajoara tem sua origem na avançada cultura indígena que floresceu na Ilha. Estudos arqueológicos, contudo, indicam a presença de uma cerâmica mais simples, que ocorreu ainda na região amazônica por volta de 5.000 anos atrás.

A confecção de artefatos em argila é um aspecto presente na maioria das comunidades indígenas brasileiras. Em algumas comunidades a cerâmica é lisa, exclusivamente utilitária, em outras, além de utilitárias, encontram-se peças decorativas nas quais sobressaltam a beleza e variedade das formas, grafismos e pinturas, como é o caso das cerâmicas Marajoara, Tapajônica, Kadiwéu e Asurini. Onde for, a cerâmica mostra-se imbuída de cultura e extremo valor, acompanhando a história e o desenvolvimento da raça humana.

Este projeto foi viabilizado por meio da LEI MUNICIPAL DE INCENTIVO À CULTURA e FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA e conta com o incentivo do Shopping Muller.

FOTOS: Guilherme Pupo e Vinícius Mazzon.

CONTATOS:

Produção
Vinícius Mazzon
41 99622 2829
viniciusmazzon@gmail.com

Assessoria de Imprensa
Glaucia Domingos
41 99909 7837
glauciadomingos@hotmail.com

 

 

OS EFEITOS DA PARTICIPAÇÃO ATIVA DA FAMÍLIA NA EDUCAÇÃO

Antonia Ivaneide Mourão

Vanisse Simone Alves Corrêa

 

INTRODUÇÃO

 

O tema estudado trata dos efeitos da participação ativa da família na educação. A aprendizagem resulta da estimulação do ambiente, envolve o uso e o desenvolvimento de todos os poderes, capacidades e potencialidades do homem, tanto físicas quanto mentais e afetivas. Com isso a aprendizagem não pode ser considerada como um processo de memorização, conjunto de funções mentais ou unicamente os elementos físicos ou emocionais, todos os itens mencionado são necessários.

O reconhecimento da própria habilidade determina o encaminhamento da vida escolar, pois a autoconfiança do aluno o ajudará a avançar, expor ideias, hipóteses, representações e teorias. O professor com a família são peças-chave para ajudar os estudantes a se reconhecem como sujeitos e intelectualmente ativos.

A presente pesquisa se justifica por percebermos as dificuldades da parceria entre escola e família, é percebido no decorrer do trabalho realizado dentro e fora da sala de aula. Assim é necessário refletirmos como elaborar projetos e conseguirmos a parceria. A parceria entre família e escola, se seguirem juntas, com os mesmos princípios e critérios, os objetivos planejados serão atingidos. Cada membro empenhado com o propósito de fazer sua parte, para que no fim da jornada possam conduzir as crianças e jovens a um futuro melhor.

 

Para OLIVEIRA (2010):

A família sempre foi e contínua a ser a instituição chave onde se estreia a socialização: é nela que a criança se inicia como indivíduo social desde o seu nascimento. Depois, surge a escola, em parceria com a comunidade, onde o indivíduo se insere, num processo de socialização que se desenrola ao longo da vida. Portanto, a família, nunca pode abdicar da sua função socializadora, embora, na escola, a interação social se amplifique, ganha uma nova dimensão, diversificada e plural e se transforme num processo dinâmico que funciona ou deve funcionar, sempre, numa convergência de esforços com a família (OLIVEIRA, 2010, pág. 7).

 

Aspira-se que a família e a escola tracem as mesmas metas de forma simultânea, para que possam proporcionar ao aluno uma aprendizagem de qualidade e que venha fomentar cidadãos críticos e capazes de enfrentar as complexidades que surgirão na sociedade.

A metodologia deste trabalho pauta-se em revisão bibliográfica de autores que estudam a temática da relação família/escola.

Os conhecimentos adquiridos durante a história da educação, nos leva a perguntar que modelo de educação temos e o que queremos, que participação nossos pais tem a respeito da educação de seus filhos, e nós como pais, o que o que temos feito para sermos ativos na escola onde nossos filhos pertencem, daí a importância de refletirmos e por onde devemos começar, para que a educação de qualidade torne-se uma realidade. Como os pais percebem a escola? Que tipo de ambiente a família classifica a escola? Que tipo de relação a família tem com a escola?  Com que frequência vão à escola? Que tipo de participação a família tem com a escola? Qual a relação entre família-escola?

O presente trabalho tem como objetivo verificar e aprofundar a importância da participação da família no que se refere a aprendizagem dos alunos no seu processo de ensino aprendizagem, bem como identificar seus efeitos a fim de solucionar as dificuldades de aprendizagem no vida escolar dos mesmos. A realização desse trabalho visa verificar a importância da colaboração dos pais no processo de aprendizagem e desenvolvimento do aluno.

Ao analisarmos e vivenciarmos as dificuldades de aprendizagem escolar, percebemos que muitas de nossas crianças apresentam dificuldades em sua aprendizagem, seja por fator cognitivo, psicológico, afetivo. Sempre nos deparamos com essas barreiras e pensando nisso estudaremos os efeitos da participação dos pais no processo de ensino-aprendizagem de nossos crianças. Perante estudo, leituras e vivência, entende-se que família/escola são consideradas protagonistas no processo de progredir a ação humana. É necessário que haja na relação construída entre crianças/pais/escola, pois, para que possa alcançar sucesso, a criança precisa sentir-se segura e amparada, tanto no ambiente familiar, quanto no ambiente escolar. É de obrigação da família/escola juntas elaborar estratégias que assegure a melhoria das condições de estudos, para o melhor desenvolvimento da criança/adolescente.

Esta união deve estar pautada na cultura democrática e a gestão democrática está pautada no trabalho coletivo, onde seus membros realizam juntos a tomada de decisão, pela qual estão em prol do mesmo objetivo, que é a educação de qualidade, onde toda a comunidade  buscar caminhos para torná-la cada vez mais competente e capaz de cumprir seu papel, que é de acolher as diversidades presentes na sala de aula, com a finalidade de oferecer uma educação de qualidade para todos os alunos, explorando suas potencialidades para que possa facilitar e promover mudanças em toda organização escolar.

 

De acordo com Marcondes (2012):

Assim, tanto a pessoa que está em desenvolvimento se modifica ao entrar em contato com um meio que lhe ofereça possibilidades, como também este ambiente é modificado por meio por meio da interação com a pessoa, ou seja, é um processo bidirecional (MARCONDES, 2012, p. 92).

Nesse sentido, a escola para desenvolver a parceria com a família, precisa ser democrática. Portanto é necessário que se instaure e fortaleça a gestão democrática na escola.

Analisaremos nesse estudo algumas possibilidades de maior abrangência na relação complexa entre família/escola com o objetivo de verificar as possibilidades dessa interação, cuja união possibilita o progresso de uma educação continuada, que tem mais chances de dar certo com a influência da família. Ao estabelecer o elo de comunicação entre família/escola, é possível desenvolver junto com os mesmos um trabalho de grande expressividade, onde os sujeitos são capazes de colaborar para o melhor rendimento dos educandos. Para que os pais possam colaborar é necessário que a escola ouça o que eles tem a dizer, que os mesmos sejam instruídos como auxiliar os alunos no procedimento das atividades escolares, pois nem sempre os pais conseguem organizar um roteiro de estudos com os filhos, para que essa parceria possa dar certo e a aprendizagem dos educandos possa fluir.

 

 

Imagem extraída de:   http://www.webquestfacil.com.br/webquest.php?wq=19523

 

 

  1. A FORMAÇÃO FAMÍLIAR QUE TEMOS HOJE

A formação familiar está diversificada. As vêm se transformando. Isso não quer dizer que as crianças/adolescentes que fazem parte dos diferentes tipos de família devem ser tratadas de maneira diferenciada em relação ao processo de ensino-aprendizagem. Todos têm direito a educação e a família é um referencial importante.

Segundo VELOSO (2014),

É no sistema familiar que são expressas as inquietações, as conquistas, os medos e as metas pessoais. Para tanto, é necessário preservar a individualidade dos seus membros e ao mesmo tempo preservar o sentimento coletivo (VELOSO, 2014, pág. 13).

Diante da diversidade da formação familiar que nos deparamos no dia-a-dia da sala de aula, há diversidade na maneira como os pais atuam. Percebemos que muitos pais deixam de ser autoritário e mais liberais, deixam os filhos mandarem em se mesmo, como frequentar a escola quando estiverem dispostos e realizar as atividades quando desejam. Mas vale ressaltar que os pais devem estabelecer vínculo afetivo, sem deixar seus filhos à mercê de suas próprias vontades. Deve haver limites, que poderão influenciar no processo de aprendizagem. A educação traz consigo hábitos, costumes e valores, que influenciará de maneira satisfatória na aprendizagem. Com o apoio da família todo o processo de desenvolvimento escolar, agregará pontos positivos ao longo da vida escolar. Segundo algumas pesquisas, foi constatado que fatores socioeconômicos e familiares podem interferir no desenvolvimento escolar, mas se a família tem uma relação de proximidade com a escola, esses efeitos se reduzem de forma substancial pois os pais se comprometem e acompanham a vida escolar seja presente na escola ou com as atividades extraclasse. Por mais difícil que seja contar com a ajuda dos pais, o corpo diretivo, Direção, Coordenação Pedagógica e Conselho Escolar precisam encontrar meios para atrair os pais à escola e torna-los parceiros no processo da aprendizagem dos educandos.

 

Segundo ESTEVÃO (2012)

É preciso trazer o mais rápido possível a família para dentro da escola e que ela possa colaborar de forma mais precisa com o processo de educar, portanto compartilhar responsabilidades e não transfere-las para outros (ESTEVÃO, 2012, pág. 2).

 

Neste sentido, percebemos diariamente, que tanto por parte dos pais, quanto das escolas, ambos passam o bastão da responsabilidade da educação dos filhos/alunos um para o outro. Na verdade, ambos têm que tomar ciência todos somos responsáveis, que temos muito a contribuir para que a qualidade da educação seja real, que os números das avaliações externas e internas não se resumam em apenas números, mas devem traduzir aprendizagem real. É primordial que família/escola determinem metas que sejam realizadas ao mesmo tempo, que possam oferecer aos alunos meios para que tenham segurança na aprendizagem, para que se tornem cidadãos capazes de enfrentar as dificuldades que possam surgir em agremiações, associações ou qualquer outro grupo que participem. Família/escola, quando entrarem em harmonia serão engrenagens fundamentais para o desenvolvimento da criança/adolescente, tornando-se suportes indispensáveis no rendimento escolar.

 

Segundo ESTEVÃO (2012):

E dentro dessa conjuntura está a família e a escola, a família deve se esforçar em estar presente em todos os momentos da vida de seus filhos, presença que implica envolvimento, comprometimento e colaboração, deve atentar para as dificuldades, não só cognitivas, mas também comportamentais (ESTEVÃO, 2012, pág. 4).

 

Todos os envolvidos, seja família/escola, devem criar e manter vínculos para que possa manter as funções que lhes são incumbidas. No dia-a-dia percebemos que tais vínculos perderam-se com o tempo, com o avanço da tecnologia, onde cada um cria seu mundo e isola-se do que é essencial e do outro que está ao seu lado, que espera um pouco de atenção, afeto ou até mesmo que o cative diariamente para que possa superar as dificuldades encontradas no ambiente escolar.

De acordo com LIMA (2009):

É importante destacar que a participação da família é algo inerente ao processo ensino-aprendizagem e não o único. Necessitamos aproximarmos do estudo da família sem prejuízos morais, sem determinismo, com uma atitude aberta que permita entender em que medida as experiências de seus membros favorecem o desenvolvimento (LIMA, 2009, pág. 7).

A família tem papel fundamental na vivência escolar dos alunos. Família/escola são parceiros primordiais na relação e construção da afetividade. A família por si só constrói vínculos no convívio diário através de conversas que possam conduzir as crianças/adolescentes por caminhos que os levem à socialização dos conhecimentos e às relações, interpessoais. A escola com o papel de unir o conhecimento e a vinculação com o meio deverá propiciar espaços educativos convenientes para o melhor desenvolvimento da aprendizagem, onde os alunos poderão levantar hipóteses, considerar, refletir e expor seus pensamentos e ideias. A escola deve se configurar como um espaço de troca de experiências, junto com o coletivo.

Imagem extraída de: http://mundodapsi.com/familia-configuracao-de-suas-composicoes/

De acordo com LIMA (2009)

O que organiza as relações são os limites, as fronteiras relacionais que estabelecemos com as pessoas. Fronteiras nítidas desenvolverão relações adequadas e respeitosa (LIMA, 2009, pág. 9).

Família/escola mesmo com pensamentos diferentes sobre educação, deverá unir-se para socializarem na construção do conhecimento e na busca de melhor convivência com as diferenças do outro, já que a escola tem um papel de grande importância na socialização da criança-adolescente, na promoção do conhecimento, das suas capacidades cognitivas.

 

  1. RELAÇÃO FAMÍLIA/ESCOLA. COMO APROXIMÁ-LOS?

Ao pensar no desenvolvimento social e cognitivo do aluno, com relação a participação da família nesse processo de aprendizagem entende-se que a família tem um papel primordial para construir uma educação de qualidade, mas a escola precisa da família. Juntas poderão procurar os melhores métodos, para melhorar, aperfeiçoar e maximizar o aprendizado das crianças.

Na ideia central de Polonia e Dessen(2005):

A escola deve reconhecer a importância da colaboração dos pais na história e no projeto escolar dos alunos e auxiliar as famílias a exercer o seu papel na educação, na evolução e no sucesso profissional dos filhos e, concomitantemente, na transformação da sociedade (Polonia e Dessen, 2005, pág. 304).

 

Imagem extraída de:http://www.faxinal.sc.gov.br/noticias/index/ver/codMapaItem/13655/codNoticia/417159

 

Quando escola e família se relacionam bem trazem muitos benefícios, especialmente para a consolidação do Projeto Político Pedagógico, onde é possível flexibilizar ações que antes não deram certo e com isto, reformular para que se possa complementar o que foi falho. Com as ações conjuntas entre ambas é possível perceber transformações, onde a família transfere valores e crenças e a escola amplia o conhecimento científico. Esse momento pode influenciar a aprendizagem e o desenvolvimento da criança e adolescente.

Neste contexto, escola/família, sem dúvida, são parceiros indispensáveis na construção do saber. Com participação ativa dos pais na escola e com o entendimento da responsabilidade de todos, é possível desenvolver capacidades e despertar para o trabalho coletivo e necessário, buscando a parceria entre família e escola.

Apesar de diversos autores defenderem a parceria família/escola, ainda encontramos resistência por parte da equipe diretiva, com relação a maior participação da família nas decisões da escola, seja no setor pedagógico ou financeiro. Muitos não desejam sair de sua zona de conforto para proporcionar às famílias momentos de visita, a não ser para falar sobre o bom ou mau desempenho dos alunos. Por outro lado, percebemos a falta de interesse dos pais com relação à aprendizagem das crianças/adolescentes, a maioria dos pais não têm tempo para os filhos, para irem na escola para saber como estão. A convivência familiar está cada dia mais distante do que é para ser, em que os pais precisam decidir se trabalham ou ficam com os filhos e optam por trabalhar e não ter convivência com os filhos, até por uma necessidade financeira. Infelizmente nosso sistema educacional está enraizado numa cultura que os pais são convidados à escola, somente para ouvir que seu(a) filho(a) não vai bem e isso os desmotiva até de abrir exceção de um dia de trabalho para ir à escola. Em contrapartida a escola não lhes proporciona momentos de lazer e descontração, nem como a participação ativa na construção do Projeto Pedagógico.

 

Segundo Polonia e Dessen, 2005:

Mas, tais limitações também podem estar diretamente ligadas ao corpo docente, com o receio dos professores de serem fiscalizados pelos pais, a percepção de que os pais não têm capacidade ou condições de auxiliar os filhos e a ausência de um programa ou projeto que integre pais e professores (Polonia e Dessem, 2005, pág. 306).

 

No espaço escolar é possível lidar e superar as diferenças, pois essas similaridades não devem ser obstáculo para o envolvimento e a construção da relação entre ambas, para que haja evolução no processo de ensino-aprendizagem, através desta relação é possível perceber mudanças na qualidade da educação, ao se envolverem e se sentirem parte da educação os pais serão capazes de proporcionar um melhor acompanhamento dos estudos de seus filhos.

 

Imagem extraída de:
https://gestaoescolar.org.br/conteudo/751/a-escola-da-familia

 

  1. A RELAÇÃO DA FAMÍLIA NA GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA

 

Uma escola democrática caracteriza-se como emancipadora dos sujeitos, para que os mesmos possam ser capazes de ultrapassarem suas realidades materiais e pessoais. Na Constituição Federal de 2008, no artigo 205(Brasil, 1988) diz:

 

Art. 205: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (C.F Artigo 205, pág. 121).

A educação é um direito reconhecido, mas ao mesmo tempo necessita urgentemente que seja garantido, principalmente no interior das escolas. Cabe ao gestor escolar assumir essa liderança para que os direitos sejam efetivados na realidade dos alunos. Todo direito deve ser declarado e assegurado (Cury, 2007). De fato na ideia central de Cury (2007),

[…] declarar e assegurar é mais do que uma proclamação solene. Declarar é retirar do esquecimento e proclamar ao que não sabem ou se esquecem que somos portadores de um direito importante. Declarar e assegurar, sob esse enfoque, resultam na necessária cobrança de quem de direito (dever) e na indispensável assunção de responsabilidade por quem de dever (direito) em especial quando ele não é respeitado (Cury, 2007, pág. 485).

A qualidade do ensino necessita que enfrentemos um longo processo de mudança que deve começar a partir do Projeto Político Pedagógico, onde os membros da escola democrática, envolvam-se neste processo para proporcionar um ensino de qualidade.

Para que esse processo ocorra é necessário que as políticas públicas tomem consciência de seu papel e dos demais. Para que a educação de qualidade torne-se realidade com a participação dos pais neste processo é preciso que todos sintam-se envolvidos e responsáveis, onde todos tenham igualdade de condições e de educação. Para que a escola democrática possa ter qualidade, necessita de mudanças, ao começar pela presença dos pais na escola e no processo de construção do Projeto Pedagógico.

Também deve ser lavada em consideração a flexibilidade do plano do professor, que procurará recuperar os alunos que não foram bem sucedidos, isto é, com baixo rendimento procurará estratégias que subsidiarão esse processo e consequentemente o sucesso escolar.

 

Imagem extraída de:https://blogdocape.wordpress.com/2017/05/12/familia-e-escola-uma-aproximacao-nece

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A aprendizagem resulta do estímulo da família tanto afetivo como emocional. Isso ajudará o educando a ser um agente ativo e participativo no seu processo de aprendizagem. Foi possível constar a partir das leituras realizadas que os alunos cuja a família tem participação ativa na sua vida escolar, se sobressaem nos estudos, como também na vida profissional e sentem-se motivados e confiantes para realizarem suas atividades, ir à escola todos os dias. Para que isso ocorra é necessário que a gestão democrática viva está democracia, pois ao se pautar na democracia a escola proporcionará meios que possa atrair os pais a terem uma participação ativa, com isso sentirão responsáveis pelas decisões da escola, e favorecer um melhor encaminhamento para uma educação de qualidade.

De acordo com Estevão, 2012, assim quando a participação da família é ativa esse aluno melhora no rendimento na escola, de ruim passa para ser bom tornando-o mais participativo e motivado.

Lima, 2009, organizou diversas atividades com a participação dos pais. A primeira foi um café matinal para o dia das mães, foi trabalhado alguns aspectos referentes às funções que elas desempenham na educação de seus filhos, juntamente com a escola. O segundo encontro foi apresentado um texto do jornal de Londrina com o título “Aula da dada, Aula Estudada”; os pais concluíram que precisam auxiliar a organização de estudos em casa e dar um monitoramento, mesmo que seja depois do horário de trabalho, isto é, depois que chegarem em casa. O terceiro encontro, como acompanhar os filhos na aprendizagem escolar, priorizou que a família deve dar apoio, criar hábitos de estudos, estabelecendo rotinas, dando suporte material e emocional, para que o filho/aluno aprenda a pensar e a resolver problemas. O quarto encontro foi Bullying Escolar que pode ter origem em casa. Após os relatos os pais se posicionaram, refletindo sobre o assunto tratado e alguns não tinham noção da gravidade da palavra BULLYING. O quinto encontro teve como tema: “Por que os filhos precisam dos pais”, e nele foi feita uma reflexão sobre o saber, já que a família é o berço da educação, pois nesta “célula” família que a criança aprende os primeiros conceitos na vivencia com seus familiares. Concluiu-se que as crianças precisam encontrar na família segurança para seu desenvolvimento, precisam estar cercadas de amor e estabelecer no convívio com o adulto, os limites necessários para uma vida em sociedade.

Essas experiências demonstram o quanto aproximar a família da escola pode agregar na construção de uma educação de qualidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COUTO, M. P. O fracasso escolar e a família: O que a clínica ensina? Belo Horizonte – maio de 2011. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141385572003000200007&ng=pt&nrm=iso. Acesso em 27 de nov. 2015.

CURY, C. R. J. A gesto democrática na escola e o direto à educação. Disponível em:http://scholar.google.com.br/scholar?q=A+rela%C3%A7%C3%A3o+da+fam%C3%ADlia+na+gest%C3%A3o+democr%C3%A1tica+da+escola&btnG=&hl=pt-BR&as_sdt=0%2C5. Acesso em 09 de jul. 2016.

ESTEVÃO, E. A. dos S. A importância da participação familiar no rendimento escolar da criança. 2012. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141385572003000200007&ng=pt&nrm=iso. Acesso em de 27 nov. 2015.

LIMA, L. C. Interação Família-Escola: Papel da família no processo ensino-aprendizagem. 2009. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141385572003000200007&ng=pt&nrm=iso. Acesso em 27 de nov. 2015.

MARCONDES, K. H. B.; SIGOLO, Silvia R. R. L. Comunicação e Envolvimento: Possibilidades de Interconexões entre Família-escola? Araraquara – SP – 2011. Disponível em http://www.scielo.br/cgibin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=article%5Edlibrary&index=KW&fmt=iso.pft&lang=p. Acesso em 06 de nov. 2015.

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  • Este artigo foi inicialmente apresentado como requisito  à obtenção do grau de Especialista no Curso de Especialização em Coordenação Pedagógica, Setor de Educação, Universidade Federal do Paraná e foi orientado pela Profª Dra. Vanisse Simone Alves Corrêa.
  • Imagens retiradas da Internet, sem fins lucrativos .

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obsessão

Qualquer coisa entre o “poema piada” (ou poema-cocteil), de Mário de Andrade e Sérgio Milliet, e os microcontos de João Anzanello Carrascoza, Marcelino Freire, Millôr Fernandes e companhia. “Obsessão”, em composições muito próximas das exploradas por Chico Alvim em alguns momentos do polêmico Elefante, de 2000, é um exercício “flumineiro” que ganhou corpo no verso de tudo e, depois, dormiu.

Histórias acessíveis: direitos humanos e ensino de História

José Inaldo Chaves Jr.

FAHIST/UNIFESSPA

 

Após alguns anos acompanhando e participando da construção da Faculdade de História na UNIFESSPA e do seu jovem curso de licenciatura, posso, com alguma segurança, considerar que o último dia nove de abril foi histórico para todos/as nós.

A Aula Magna do ano letivo de 2018, proferida pela professora Dra. Lucélia Cardoso Rabelo – grande especialista na temática da educação especial e inclusiva – marcou um daqueles “pontos de viragem” que vez por outra acometem indivíduos e coletividades. Para nós da Faculdade de História, assinalou um momento de consideração perante as ações desenvolvidas desde 2014, quando iniciamos nossas atividades, mas também de esperança e otimismo perante os imensos desafios que marcam a defesa da educação como direito humano fundamental em uma região de fronteira afligida pela violência e exclusão extremas de amplos setores sociais, em particular as populações indígenas e quilombolas, camponeses e as (in)visíveis pessoas com deficiência (SANTIAGO DA SILVA, 2010; PEREIRA, 2015).

Com o título “Pessoas com Deficiência e seu Direito à Educação: histórico, políticas e práticas no cenário brasileiro”, a aula da professora Lucélia Rabelo, da Faculdade de Educação da UNIFESSPA, tratou do histórico das lutas e conquistas dos movimentos de pessoas com deficiência no Brasil. O auditório lotadíssimo, na Unidade I do campus de Marabá, ouviu e interagiu diante da lúcida reflexão acerca da história dos movimentos políticos das pessoas com deficiência que, nas últimas décadas, têm revigorado as causas sociais e defendido a criação e pleno acesso às políticas públicas de saúde, educação, acessibilidade tecnológica (tecnologias assistivas) e mobilidade urbana e arquitetônica.

Aquele momento com a professora Lucélia tocou-me em particular. Fui instigado em cada minuto a rever posturas em sala de aula e a corrigir caminhos pedagógicos. Do ponto de vista da pesquisa em História, recordo que as pessoas com deficiência continuam transitando ao largo das produções historiográficas, invisibilizadas mesmo perante seu protagonismo político crescente no cenário dos movimentos sociais do país. Suas reivindicações por educação de qualidade também têm tido pouco eco no ensino da História escolar e nos debates sobre a formação docente na área.

Mesmo assim, pessoas com deficiência ocupam postos da maior relevância na Administração Pública em todos os níveis, são medalhistas nas mais variadas modalidades do esporte nacional, estão na política e no mundo do trabalho. Estão na ciência e na historiografia. Um de meus melhores exemplos é o colega de profissão e parceiro no ofício de Clio Valter Lenine Fernandes, primeiro surdo a defender um Doutorado em História Econômica na USP e tomar posse, após aprovação em concurso público, como professor da secretaria municipal de Educação de São Paulo. A busca por igualdade de oportunidades, sem com isso deslegitimar as diferenças, tem dirigido a luta por direitos políticos, civis, sociais e econômicos desse segmento social que já alcança os 24% da população brasileira, segundo dados recentes do IBGE.

Terezinha Guilhermina, atleta paraolímpica.

Tal como os movimentos indígenas e “caminhando no silêncio”, segundo o sugestivo título do livro de Emílio Figueira (2008), a construção de uma agenda positiva para as pessoas com deficiência coincidiu com a redemocratização na década de 1980, quando, de acordo com Mario Cleber Lanna Júnior (2010), emergiu um sentimento de pertencimento na medida em que as dificuldades diárias enfrentadas por cadeirantes, cegos ou de baixa visão, surdos e mudos, deixaram de ser vistas como meras “limitações” de seus “portadores/as”. Se antes eram as pessoas com deficiência que deveriam se adequar aos ditames da “normalidade social e estética” ou rumarem ao isolamento e à depressão, a partir da emergência dessa significativa coletividade política, o Estado e a sociedade foram vistos como os verdadeiros deficientes por negarem a inclusão e acessibilidade em condições de igualdade na diferença.

Nesse sentido, Izabel Maior e Fábio Meirelles (2014) destacam ainda que a luta contra a discriminação e a desigualdade, antes travada solitariamente, passando a ser coletiva, mirou fundamentalmente a cobrança por políticas públicas que entendessem a inclusão das pessoas com deficiência como uma obrigação do Estado brasileiro, com plena garantia constitucional (como apontam artigos 7º, 23º, 24º, 37º, 203º, 208º e 227º da Constituição Federal de 1988) e amplíssimo respaldo em diferentes tratados internacionais de direitos humanos, como a mais recente Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, da ONU, em 2006, da qual o Brasil foi signatário.

Tais disputas tiveram resultados muitos prolíficos, expostos numa extensa legislação infraconstitucional que garante acesso à educação especial e inclusiva, ao mercado de trabalho e às cotas, às tecnologias assistivas, à saúde, à acessibilidade e mobilidade nos espaços públicos. Um dos documentos legais mais completos e que revela o longo percurso realizado pelos movimentos sociais é a importantíssima lei 13.146/2015, conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência.

Nada obstante os avanços no campo legal, os obstáculos à efetivação desses direitos têm sido hercúleos e vão desde a brutalidade arquitetônica de nossas cidades e equipamentos públicos, à precária assistência às famílias e a inacessibilidade dos serviços de saúde até ao negado direito à educação de qualidade como condição para a emancipação humana e chegada e permanência no mercado de trabalho. Na educação, os principais gargalos parecem ser a precária infraestrutura das escolas e universidades e a baixíssima qualificação do professorado, que, via de regra, desconhece os princípios básicos da educação especial como campo do conhecimento e as exigências específicas da escolarização dos alunos com deficiência. Porém, talvez o pior de todos os males seja mesmo a ignorância e a falta de conhecimento, responsáveis pela discriminação hodierna.

Todavia, mesmo diante de tantos desafios, as histórias de enfrentamento, resistência e árduas conquistas das pessoas com deficiência se repetem e estimulam outras a seguirem o caminho da luta. A Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, apesar dos muitos problemas de sua inserção regional num momento de aguda crise política, perda de direitos e contingenciamento dos investimentos na educação pública por parte do Governo Federal, vem recebendo um público discente cada vez mais diverso composto por, dentre outros seguimentos, pessoas com deficiência. Uma vez inseridos no espaço universitário, discentes como nosso aluno Ademar Santos, do curso de História, um campeão na vida e no esporte, cobram e instigam a Administração Pública Federal a desenvolver ações no sentido de garantir o pleno direito à educação superior.

Ademar Santos, atleta e discente do curso de História da UNIFESSPA, em Marabá.

É para responder a essas demandas inadiáveis que o Núcleo de Acessibilidade e Inclusão Acadêmica (NAIA) da UNIFESSPA, sob a coordenação da Dra. Lucélia Rabelo e com a colaboração de técnicos da instituição e discentes bolsistas de diferentes cursos, tem trabalhado incansavelmente para instrumentalizar as condições de aprendizagem aos discentes com algum tipo de deficiência. A parceria com as faculdades e institutos tem sido muito produtiva e os resultados são muito animadores. Certamente, a primeiríssima obra do NAIA e dos nossos discentes com deficiência é chamar a atenção da comunidade acadêmica para a pauta da dignidade humana e da visibilidade de segmentos da sociedade historicamente excluídos.

Foi nesse contexto que, no âmbito do Núcleo Docente Estruturante da Faculdade de História da UNIFESSPA, em Marabá, surgiu a proposição da temática da aula inaugural e o convite à doutora Lucélia Cardoso Rabelo. O grupo de professoras e professores que integram o NDE discutia exaustivamente os desafios pedagógicos colocados diante do ingresso crescente à Universidade de grupos sociais que sempre estiveram “de fora” dela. Felizmente, os tempos em que a academia se conformava ao papel de “torre de marfim”, destinada a poucos iluminados e privilegiados, parecem estar ficando para trás, ao passo que se faz urgente que o debate sobre a acessibilidade também desemboque na busca por estratégias de permanência no Ensino Superior nas mais diversas áreas do conhecimento científico. Na História não seria diferente e, dessa feita, conceitos como interculturalidade, diversidade, decolonialidade e ecologia dos saberes, manejados recentemente por epistemologias mais libertas dos tradicionais modelos científicos eurocêntricos, surgem como “ponta de lança” dessa reflexão tão atual quanto inadiável (SANTOS, 2004, 2006; SILVA, 2000; WALSH, 2009; LANDER, 2005).

Profa. Dra. Lucélia Rabelo em aula inaugural da FAHIST, em 9/4/2018 – Auditório da Unidade I – campus de Marabá – UNIFESSPA.

No campo do ensino de História e em tempos em que o humanismo recebe ataques frontais, ameaçando inclusive conquistas civilizatórias que pensávamos estarem consolidadas, a perspectiva que compreende o acesso à educação histórica como direito não deve descuidar em contar as histórias invisíveis e, como princípio investigativo, interessar-se pela diferença não enquanto sintoma de anormalidade, antes como reflexo da interculturalidade e da riqueza da experiência humana que cotidianamente confronta nossas certezas mais arraigadas.

Além da referência conhecidíssima à obra de Jorn Rusen sobre os processos de aprendizagem em História (RUSEN, 2007), penso que o recurso à “diferença” e ao “divergente”, na chave metodológica proposta Michel de Certeau, deve ser como um farol aos que lidam com a pesquisa e o ensino de História que, no atual contexto, não podem descuidar em considerar a Didática da História a partir da multiplicidade étnico-cultural, físico-regional e socioeconômica que habita nossas salas de aula (CERTEAU, 2008). Entretanto, considerar a diversidade também representa uma profunda transformação interior.

Sendo assim, a agenda política das pessoas com deficiência provoca positivamente os profissionais da História, que passam a problematizar seus próprios métodos e técnicas de ensino e pesquisa de modo a garantir a oportunidade da plena cognição histórica a todos e todas.  Esse tem sido o fundamento a dirigir os debates e encaminhamentos na Faculdade de História e, em particular, no seu NDE, no tocante a elaboração de ações que garantam qualificação de excelência no campo da docência em História aos nossos/as discentes, inclusive os indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência, considerando suas diferenças, seus lugares sociais e, sobretudo, seu direito à educação de qualidade, como assegura a Constituição Federal.

Naturalmente, uma queixa e preocupação comuns tem estado em nós professores. Ela diz respeito à formação precária ou inexistente para enfrentar salas de aulas com público cada vez mais plural. Reclamamos, com alguma frequência, que não dispomos dos instrumentos teóricos e práticos, sem falar nas tecnologias necessárias à adequação e acessibilidade de nossas aulas e conteúdos às pessoas com deficiência. Também alegamos não estarmos preparados para dialogar com os saberes e culturas fortemente orais das comunidades tradicionais. De fato, a universidade enquanto “torre de marfim” e as algemas de uma epistemologia forjada para a dominação impediram e estancaram durante séculos as possibilidades de um diálogo franco com a alteridade e com o divergente. É hora de mudarmos; é hora de repensarmos nossas práticas docentes e de produção de conhecimento.

Ao brindar-nos com sua magnífica palestra no último dia nove de abril de 2018, a professora Lucélia Rabelo ajudou-nos nesse árduo caminho de construção de uma sociedade mais inclusiva e solidária. E esse percurso desejamos trilhar ao lado de outros muitos parceiros, como o discente do curso de História na UNIFESSPA e atleta Ademar Santos, em Marabá, e o historiador Valter Lenine Fernandes, em São Paulo, além de tantos outros/as que, como nós, não desistem de acreditar na educação como chave da emancipação humana e da justiça social.

 

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CERTEAU, Michel de. A escrita da HistóriaTrad. Maria de Lourdes Menezes. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latinoamericanas. Colección Sur Sur, CLACSO, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, Argentina. setembro 2005.

FIGUEIRA, Emilio. Caminhando em Silêncio: Uma introdução à trajetória da pessoa com deficiência na história do Brasil. São Paulo: Giz Editorial, 2008.

LANNA JUNIOR, Mário Cléber Martins (Comp.). História do Movimento Político das Pessoas com Deficiência no Brasil. Brasília: Secretaria de Direitos Humanos. Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com
Deficiência, 2010.

MAIOR, Izabel de Loureiro; MEIRELLES, Fábio. A Inclusão das Pessoas com Deficiência é uma Obrigação do Estado Brasileiro. In: LICHT, Flavia Boni; SILVEIRA, Nubia (orgs.). Celebrando a Diversidade: o direito à inclusão. Ebook,
Planeta Educação, São Paulo, 2010.

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RUSEN, Jorn. História viva: teoria da história: formas e funções do conhecimento histórico. Trad. Estevão Rezende Martins. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2007.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A Universidade no século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da universidade. São Paulo: Corttez Editora, 2004.

______, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez Editora, 2006.

SILVA, Idelma Santiago da. Fronteira cultural: a alteridade maranhense no sudeste do Pará (1970-2008). Tese (Doutorado em História), Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2010.

SILVA, T.T. Teoria cultural e educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

WALSH, C. Interculturalidad y (de)colonialidad: perspectivas críticas y políticas. In: CONGRESO DA ASSOCIATION POUR LA RECHERCHE INTERCULTURELLE, 12., 2009, Florianópolis. Anais… Florianópolis: UFSC, 2009.