O amor é a nossa arma no meio da travessia!

Nínive Pinto Caetano da Silva

                                                            

No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover contra a dominação, contra a opressão. No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover em direção à liberdade, a agir de formas que libertam a nós e aos outros.

(HOOKS, 2006 p. 250)

 

Há uma citação de Guimarães Rosa que diz que o real não se dispõe na saída e tampouco na chegada. Ele se estabelece para a gente é no meio da travessia. Brava gente, não tem sido uma travessia fácil não é mesmo? Esse poder político, que invadiu os lares dos cidadãos e cidadãs brasileiros, com a promessa de armar a população com arma de fogo e pôr em prática políticas de eugenia, amordaçou os nossos sonhos. Confesso-vos que ingressei esse ano de 2019 em luto. E acredito que você também. E sabe quem me carregou no colo? Essa constelação de educadoras e educadores da nossa rede de Educação em Direitos Humanos, e do Africanidades, Literatura Infantil e Circularidade.

Figura 1: Esse coração cercado de lutadoras e lutadores, recheado de tambores sagrados, e coberto pela flecha de Oxóssi serviu para selar o nosso compromisso de amar e transbordar esse amor para além dos muros da Universidade e da escola.

Vocês têm tornado essa travessia nesse mar turbulento algo mais leve. Até aqui, podemos dizer que o amor nos uniu, nos acalentou, nos fez sorrir, e também chorar porque as lágrimas são necessárias para o desabafo da alma. Abro o meu coração para dizer que para mim é um privilégio realizar essa travessia ao lado de vocês, que decidiram fazer do amor a única arma de transformação desse mundo. Podemos dizer que o nosso amor pela educação em direitos humanos, uniu as nossas diferenças e nos permite tocar a mais bela das sinfonias. É pelo amor que lutamos para nos libertar desse sistema opressor que nos dilacera, e, também para libertar aquelas e aqueles que esse sistema dilacerou ou simplesmente enlouqueceu. É por meio do amor que alimentamos os nossos sonhos e também os sonhos de tantos outros que sonham conosco.

Figura 2: Segunda oficina de arte-educadoes. Ofertamos 20 vagas, e recebermos mais de 150 inscritos.

Figura 3: Essa foto foi retirada no segundo dia da oficina. Me sinto emocionada por pertencer a um grupo tão coeso e potente.

Concordo com a célebre citação de Guimarães Rosa. O real, não foi a vitória do fascismo esquizofrênico nas eleições brasileiras de 2018, e tampouco será a nossa alforria dessa loucura, quando esse desgoverno chegar ao fim. Real mesmo é o meio dessa travessia, em que encontramos os direitos da pessoa deficiente serem pisoteados, o aumento da pobreza, o racismo inescrupuloso, gays sendo espancados e espancadas, pessoas trans sendo desumanizadas, terreiros sendo deflorados. Somos esbofeteados por essas infrações aos direitos humanos e também por muitas outras, e se é pelo amor que lutamos, então que o amor nos faça de mãos dadas lutar para que sejamos restaurados e restauradas. Que possamos sonhar e que esse sonho também agregue o sonho de outras pessoas.

Sem uma ética do amor moldando a direção de nossa visão política e nossas aspirações radicais, muitas vezes somos seduzidas/os, de uma maneira ou de outra, para dentro de sistemas de dominação — imperialismo, sexismo, racismo, classismo. Sempre me intrigou que mulheres e homens que passam uma vida trabalhando para resistir e se opor a uma forma de dominação possam apoiar sistematicamente outras. Fiquei intrigada com poderosos líderes negros visionários que podem falar e agir apaixonadamente em resistência à dominação racial e aceitar e abraçar a dominação sexista das mulheres; com feministas brancas que trabalham diariamente para erradicar o sexismo, mas que têm grandes pontos cegos quando se trata de reconhecer e resistir ao racismo e à dominação por parte da supremacia branca do planeta. Examinando criticamente esses pontos cegos, concluo que muitas/os de nós estão motivadas/os a mover-se contra a dominação unicamente quando sentimos nossos interesses próprios diretamente ameaçados.

(HOOKS, 2006 p. 243).

Faço uso dessa estupenda declaração para dizer que, sem o amor, não há revolução! Portanto, ama-te a ti mesmo e faça esse amor transbordar. E ao fazer isso, que possamos perceber que maiores são os que estão conosco do que os que estão contra nós!

Figura 4: Agradeço a essas duas grandes personalidades por me ocasionarem uma metamorfose e me possibilitou chegar até aqui: professora doutora Ana Dietrich e meu orientador professor doutor Guilherme Brockington.

Figura 5: Essa foto foi tirada na oficina intitulada: o pensamento matemático na cultura africana. Ao meu lado direito está a professora de artes e também escritora Alcidea Miguel, grande parceira.

Figura 6: Maiores são os que estão sonhando conosco do que os que estão pelejando contra nós!

 

Referências bibliográficas

HOOKS, Bell. Love as the practice of freedom. In: Outlaw Culture. Resisting Representations. Nova Iorque: Routledge, 2006, p. 243–250. Tradução para uso didático por wanderson flor do nascimento.

 

 

 

Ninive Pinto Caetano da Silva

Possui bacharelado interdisciplinar em Ciência e Tecnologia e Licenciatura em Física, ambos cursados na Universidade Federal do ABC. Atualmente, está matriculada no curso de graduação de Neurociências e de mestrado em Ensino e História das Ciências e suas Interfaces com a Educação na instituição supracitada. É Pesquisadora no Projeto Africanidades Literatura Infantil e Circularidade na UFABC. É Afro-Brasileira, filha de angolano pertencente ao grupo étnico mbunda e de uma brasileira. Sua pesquisa é voltada para a Cosmologia Bantu no Ensino de Ciências. Realiza palestras e oficinas voltadas para a História da África em escolas particulares e públicas.

 

História, Memória, Esquecimento: Pandemias.

Ecléa Bosi referindo-se a um movimento nas ciências humanas, ocorrido e ainda presente, nas décadas finais do século passado, quanto da recuperação da memória, indaga: “será moda acadêmica ou tem origem mais profunda como a necessidade de enraizamento? Do vínculo com o passado se extrai a força para a formação de identidade”. (meu destaque) (BOSI)

O homem sempre sentiu necessidade de olhar e conhecer o passado, mesmo quando suas articulações em sociedade convergiam estudos e pesquisas para as ações no presente e a construção de um futuro próximo. Mas existem momentos de maior fragilidade deste vínculo, quando ocorre a perda da relação do homem com suas memórias.

Para Benjamin, o principal período da história humana de distanciamento das tradições culturais e históricas é o da modernidade capitalista…

Tanto uns como os outros [operários e passantes na multidão], vítimas da civilização urbana e industrial, não conhecem mais a experiência autêntica (Erfahrung), baseada na memória de uma tradição cultural e histórica, mas somente a vivência imediata (Erlebnis) e, particularmente, o Chockerlebnis [experiência de choque] que neles provoca um comportamento reativo de autômatos “que liquidaram completamente sua memória.” (BENJAMIN)

Esta condição de uma “vivência imediata” vem provocando um distanciamento das expressões sociais e culturais formadas nas relações históricas dos diversos grupos humanos, impregnando a sociedade de um desvalor dos espaços físicos, das construções e das práticas de relação, dos sentimentos de nostalgia, das tradições, da memória e das experiências que representam o “velho”, devendo estes ser substituídos e esquecidos em nome da própria modernidade. Esquece-se o que se viveu, vive-se sem reminiscências.

A memória, a narrativa e a história, são analisadas por alguns autores como representações de coletividades sociais em determinados tempos e espaços históricos, instituídos pelas ações dos sujeitos inseridos nestes grupos.

Para Rossi…

Na tradição filosófica, e também no modo de pensar comum, a memória parece referir-se a uma persistência, a uma realidade de alguma forma intacta e contínua; a reminiscência (ou anamnese ou reevocação), pelo contrário, remete à capacidade de recuperar algo que se possuía antes e que foi esquecido. (ROSSI)

Memória, lembranças e esquecimentos, são níveis intermediários entre o tempo e a narrativa histórica; “em que a experiência temporal e a operação narrativa se enfrentam diretamente, ao preço de um impasse sobre a memória e, pior ainda, sobre o esquecimento.” (RICCEUR)

Diante desta perspectiva entende-se a definição de História indicada por Ricceur:

Seria assim existenciáriamente justificado o duplo emprego da palavra “história”: como conjunto dos acontecimentos (dos fatos) decorridos, presentes e futuros, e como conjunto dos discursos sobre esses acontecimentos (esses fatos) no testemunho, na narrativa, na explicação e, finalmente, na representação historiadora do passado. (RICCEUR)

Apesar de todos os “testemunhos” (imagens, artes, textos, tradições, entre outros) vivemos tempos de esquecimento (modernidade) e com isso, de perda (ou esquecimento) dos rastros que indicavam que os mesmos caminhos já foram percorridos.

Imagem 1: Indumentária médica durante a Peste Negra na Europa. “A primeira a notar o aparecimento de uma nova doença que fazia sucumbir a população, com grande número de mortos, foi Messina, na Sicília, no final de 1347. A seguir, outras cidades conheceram a crueldade daquela doença. Sicília, Gênova e Veneza foram as portas de entrada da peste bubônica na Europa. Uma a uma, as cidades eram tomadas pela nuvem negra da mortandade que se disseminava pela Europa; nos primeiros seis meses, no inverno, alcançou o norte da França e o leste na Península Ibérica, e, em dois anos, havia atingido todo o continente. As cidades viam os habitantes sucumbirem à doença em proporções nunca imaginadas. As mortes variaram de um oitavo a dois terços da população das cidades. Ao todo, a Europa perdeu um terço de seus habitantes. Estima-se que a peste bubônica tenha matado vinte milhões de pessoas.” (UJIVARI)

Ao longo da história a relação da espécie humana com os micro-organismos é assinalada por episódios que se concebem entre os mais dramáticos, pois de forma avassaladora, as epidemias eliminaram em milhares ou milhões de vidas, mais do que as guerras, sem que, na maioria dos casos, as vítimas compreendessem a causa.

Ujivari, em sua obra A História e suas Epidemias, a convivência do homem com os micro-organismos, descreve algumas destas ocasiões quando estes seres intervieram nas atitudes dos homens, conduzindo seu viver e suas experiências sociais, como nas batalhas que foram vencidas por surtos nos acampamentos militares, comprometendo o rumo história humana.

Revela também, que muitas das mudanças sociais, políticas e econômicas ocorreram por causa de epidemias devastadoras. A história da humanidade, afirma o autor, pode ser narrada em paralelo à história das doenças infecciosas.

Imagem 2: Cholera quarantine in Italy. Travellers from Switzerland en route for Italy being kept in quarantine at Bardonnechia, Italy, for five days. Illustration published London, 16 August 1884. (Photo by Ann Ronan Pictures/Print Collector/Getty Images).

O termo “globalização”, de largo uso hoje, designa um fenômeno ocasionado pelo homem nas últimas décadas, e claramente abrange também uma “globalização” dos agentes infecciosos, (…) Por fim, depois que a ciência descobriu esses micróbios e avançou no conhecimento da prevenção e tratamento das doenças que causam, todos se animaram no sentido de dominá-los — seres inferiores que afinal são (…) como até o abuso dessa ciência influenciou no surgimento de novas doenças infecciosas e epidemias, [pois] quando a ciência não é disponibilizada para todos e quando a desigualdade socioeconômica prevalece em âmbito mundial, é difícil, ou mesmo impossível, controlar esses micróbios, favorecendo-se assim a ocorrência de novas epidemias. (UJIVARI)

Vivemos um momento, como afirma Rossi, em que o “apagar” (da memória e das lembranças) “não tem a ver só com a possibilidade de rever a transitoriedade, (…) Apagar também tem a ver com esconder, ocultar, despistar, confundir os vestígios, afastar da verdade, destruir a verdade.” (ROSSI)

Ao analisar semioticamente o quadro de Paul Klee, Angelus Novus, Benjamin afirma que este…

Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso. (BENJAMIN)

Imagem 3: Capa do jornal ‘Gazeta de Notícias’ expõe o caos no Rio de Janeiro dominado pela gripe espanhola (imagem: Biblioteca Nacional) BIBLIOTECA NACIONAL DIGITAL / BIBLIOTECA NACIONAL DIGITA. A Gripe Espanhola, gerada por uma primeira geração do vírus H1N1, infectou, em 1918, pelo menos 500 milhões de pessoas, metade da população. Pesquisas indicam que entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas morreram em consequência da doença. No Brasil, em setembro de 1918, uma violenta mutação do vírus da gripe veio a bordo do navio Demerara, originado da Europa. O transatlântico desembarcou passageiros infectados no Recife, em Salvador e no Rio de Janeiro.

Existem incontáveis “ruína sobre ruína” que clamam serem reviradas e reerguidas, ou revistas em parte, para que o historiador atente apropriar no presente às reminiscências das ações dos sujeitos históricos de outros tempos. Estas desaparecem ou são esquecidas por perda de valor, são vestígios daquilo ou daqueles que não mais existem, do que não está presente; deseja-se como o Anjo de Benjamin, “acordar” os mortos e conhecer suas vidas; mortos que percorreram os caminhos das pandemias, e “ruínas” que indicam que continuaremos a percorrer, com toda a complexa possibilidade de intervenção no ambiente cultural e social das relações humanas.

Imagem 4: Trabalhadores carregam corpos de vítimas de coronavírus em Bergamo, Itália. Fonte: Fotogramma / EFE-EPA – 18.3.2020.

Mas o que o Anjo encara fixamente, parecendo querer se apartar (por ser talvez impossível um encontro?) com seus “olhos escancarados, sua boca dilatada e suas asas abertas”? (BENJAMIN) O que estaria relacionado com o passado, com as ruínas, os fragmentos, o tempo e com os mortos, mas que permanece sempre presente?

Ele afronta a Memória. Seja individual ou coletiva, preservada no esquecimento (par dialético da lembrança) e na lembrança, “momento objetal da memória” (RICCEUR), e de alguma maneira sempre presente em espaços e ações do homem, enquanto ser social e histórico. Citado por Ecléa Bosi, P. Nora afirma: “A memória se enraíza no concreto, no espaço, gesto, imagem e objeto”. (BOSI)

Imagem 5: O quadro Angelus Novus de Paul Klee , e seu autor.

Michael Löwy escreve que esta é a tese mais conhecida de Benjamin, que se oferece como comentário de um quadro de Paul Klee; o que foi escrito tem pouca afinidade com o quadro, “trata-se fundamentalmente da projeção de seus próprios sentimentos e ideias sobre a imagem sutil e despojada do artista alemão.” (LÖWY, 2007, p. 88) “Cultivada” após a sua publicação em variados contextos e estudos, esta tese é uma alegoria, considerando que seus elementos não possuem além do texto, o sentido que de propósito lhes é atribuído pelo autor; e que neste artigo é aplicada na acepção de que a memória e a história na relação com o tempo permite-nos, se assim desejarmos, aprender as experiências do passado, para um existir melhor no presente.

 

Referencias:

BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito da História, in Walter Benjamin – Obras Escolhidas Vol. I – Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo/SP: Brasiliense. 11ª Reimpressão, 2008.

BOSI, Ecléa. O Tempo Vivo da Memória. Ensaios de Psicologia Social. Ateliê Editorial. São Paulo/SP, 2ª Edição, 2004.

LÖWY, Michel. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo/SP: BOITEMPO. 1ª reimpressão, 2007.

RICCEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas/SP: Editora UNICAMP, 2ª reimpressão, 2010.

UJVARI, Stefan Cunha. A História e suas Epidemias, a convivência do homem com os micro-organismos. Editora Senac Rio e Editora Senac São Paulo, 2ª Edição.

ROSSI, Paolo. O passado, a memória, o esquecimento. Seis ensaios da história das idéias. Fundação Editora da UNESP, São Paulo/SP, 2007.

 

Aprendizagem fora da escola

“Decamerão”, Giovanni Boccaccio; “A Peste”, Albert Camus; “A Morte em Veneza”, Thomas Mann; “O Mez da Grippe”, Valêncio Xavier; “A Máscara da Morte Rubra”, Edgard Allan Poe; “Ensaio sobre a Cegueira”, José Saramago; “O Amor nos tempos do Cólera”, Gabriel García Márquez.

São grandes obras de grandes escritores, e têm em comum epidemias como tema ou pano de fundo. Surtos epidêmicos ocorrem quase regularmente, alguns de muita seriedade, e estes nos dão noção da fatuidade da vida, das vaidades, das fragilidades e das maravilhas que constituem tudo o que é humano. São ocasiões em que bazófias infantis e levianas convivem com exemplos de absoluta responsabilidade e desprendimento; vemos, da mesma forma e ao mesmo tempo, especuladores açambarcando mercadorias necessárias a todos e profissionais de saúde, de segurança e de informação dando seu tempo e até arriscando a própria vida para cumprir seu dever.

A atual gripe Covid-19 é altamente contagiosa, mas como aparentemente é proporcionalmente menos letal que outras pestes, como SARS e H1N1, há a tentação de negar a seriedade do que acontece; frente à necessidade de mudar comportamentos para preservar a si mesmos e aos demais de contágio, muitos agem como se fossem naturalmente imunes e como se nada fosse com eles. Mas é sim, é com todos nós.

A expectativa mais otimista é que em cerca de três meses o número de contágios se estabilize e passe a diminuir, que desenvolvamos naturalmente anticorpos, e que o vírus tenha mutação como já aconteceu com outros e sua letalidade diminua; e há inúmeros centros de pesquisa no mundo todo procurando desenvolver vacinas ou formas eficazes de tratamento. De todo modo, as recomendações de evitar aglomerações e contato físico, de desinfetar e lavar as mãos constantemente, sair o mínimo possível de casa, são pertinentes e devem ser seguidas.

Escolas estão fechadas, o que é grave, mas todos os esforços de contenção da pandemia devem ser efetuados, embora haja extrema necessidade de continuidade do processo educativo, pois pais e responsáveis devem assumir este encargo indispensável.
É possível ler bastante com as crianças, excelentes escritores fizeram obras infantis ou juvenis, controlar o tempo de estudo dos adolescentes, ensinar a cozinhar doces e salgados – hoje uma profissão em alta – costurar um pouco, pelo menos o suficiente para pregar seus botões e fazer uma barra, independentemente de ser um rapaz ou uma garota.

Cuidar da casa sendo responsável pelo seu próprio lixo, prestar atenção nas plantas e necessidades dos animais domésticos, escrever pequenas cartas e bilhetes para treinar habilidades na escrita, fazer cursos on-line, visitar digitalmente alguns dos maiores museus do mundo, ouvir música, principalmente as preferidas em outros idiomas com tradução na tela, aprendendo a cantar sabendo o significado das letras que muitas vezes são pura poesia, e muitos, muitos outros exemplos de aprendizagem que complementem e auxiliem o trabalho dos professores no retorno às aulas.

Tempo para melhorar a qualidade do contato interpessoal, ainda que com pouco contato físico, reaprender a divertir-se como unidade familiar, estabelecendo laços afetivos mais duradouros e fortes.

Assim como cabe a cada família o cuidado com seus idosos, protegendo-os ao impedir suas saídas sem necessidade, efetuando compras de mantimentos ou remédios para eles, conversando para mitigar a solidão ao telefone ou pelas redes sociais, assim também com crianças ou jovens a atenção deve ser diferenciada e de maior qualidade.
Com certeza sairemos desta crise um pouco mais solidários, e podemos também, ao término, apresentar um acréscimo de nossa cultura geral, ou específica em alguns temas de nossas preferências. Ajudar as escolas é auxiliar o desenvolvimento de nosso país.

Relato Pré-Fórum de Educação e Direitos Humanos de Guarulhos na UFABC – Mesa Educação Ambiental

Profª. Drª. Graciela de Souza Oliver

Profª. Drª. Roberta Assis Maia

Francisco Guilherme Leon Oliveira

Mestranda Dione Marta de Mesquita Costa

 

Lá vem a temporada de flores
Trazendo begônias aflitas
Petúnias cansadas
Rosas malditas
Prímulas despetaladas
Margaridas sem miolo
Sempre-vivas quase mortas
E cravinas tortas
Odoratas com defeitos
E homens perfeitos


Lá vem a temporada de pássaros
Trazendo águias rasteiras
Graúnas malvadas
Pombas guerreiras
Canários pelados
Andorinhas de rapina
Sanhaços morgados
E pardais viciados
Curiós desafinados
E homens imaculados


Lá vem a temporada de peixes
Trazendo garoupas suadas
Piranhas dormentes
Sardinhas inchadas
Trutas desiludidas
Tainhas abrutalhadas
Baleias entupidas
E lagostas afogadas
Barracudas deprimentes
E homens inteligentes

(Panorama Ecológico – Erasmo Carlos)

No dia vinte e quatro de outubro de dois mil e dezenove estivemos presentes na UFABC no evento realizado pelo Curso de Educação em Direitos Humanos da UFABC, para desenvolver a temática de Educação Ambiental. Foram convidados para essa ocasião as seguintes instituições e ONGS: Movimento em Defesa da Vida do ABC; OSCIP ECOLMEIA, Instituto de Botânica/ Paranapiacaba, Fundação Florestal de São Paulo, ONG Amigos do Parque Central, Docentes do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da UFABC e a Profa. Dra. Marta Marcondes da Universidade de São Caetano do Sul.

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Mudanças

Fomos surpreendidos por uma transformação radical em nossa realidade: quando tudo parecia encaminhar-se para uma determinada senda, e apesar, claro, de projeções futuras nunca serem exatas, nada parecia indicar uma incerteza tão grande nos próximos meses ou anos, a depender da questão econômica.

Pensar o futuro é desafiador, complexo e, não raro, frustrante. Avaliar o “porvir” a partir dos dados de análise disponíveis no presente afigura-se algo prudente, e é mesmo, mas apenas nos assuntos em que as ações de hoje talvez possam influir no que ocorrerá amanhã. Sempre que tentamos fazer projeções futuras, é bom ter em mente que esta é uma área arriscada, muitos eventos podem alterar as perspectivas atuais sobre como será o próximo ano ou década. Epidemias, catástrofes, grandes inventos, colheitas excepcionais, muitos acontecimentos podem alterar nossas predições, modificando algumas tendências que estavam visíveis no cenário anterior a esta pandemia.

Quais os prenúncios sobre o período que agora iniciamos é uma grande interrogação; precisaremos de calma, bom senso, resiliência e solidariedade, qualidades e atitudes difíceis de assumir quando tudo parece desabar sobre nós e nossas certezas, mas indispensáveis para superar as dificuldades inevitáveis e, até mesmo, para nossa sobrevivência e dos demais.

As redes sociais, com todas as imprecisões e defeitos que possam ter, são o atual espelho da sociedade, e o que refletem nos diz muito sobre quem somos. Há mensagens de otimismo e esperança, a maioria bem intencionada e bem vinda, algumas poucas expondo apenas um narcisismo descabido. Não faltam os alarmismos, as falsas notícias de catástrofes; pode ser uma derivação para o terror real que seu autor imagina, pode ser uma tentativa de brincadeira, criminosa e de péssimo gosto. O momento é sério, o mais sério que a imensa maioria de nós já viveu, e deve ser visto com toda sensatez, mas é natural que não percamos totalmente o senso de humor; algumas brincadeiras trocadas entre amigos e parentes contribuem para desanuviar a mente, desde que feitas com moderação e responsabilidade.

Tendemos a aceitar liminarmente qualquer notícia, de qualquer procedência, que possa gerar algum otimismo, como se os filtros com que as tratamos habitualmente estivessem desligados; assim, têm credibilidade informações de que em determinado lugar os infectados estão se recuperando com o uso de algum remédio existente, que já existe a vacina, que o elevado número de mortes na Itália e na Espanha deve-se a fatores próprios apenas destes países. Queremos acreditar, precisamos acreditar, mas a crença indiscriminada sem base concreta é perigosa, já resultou em desabastecimento de medicamentos para doentes que efetivamente dele precisariam, e dos quais não há evidencia comprovada que curariam a atual epidemia, pode gerar descuidos com as medidas mais draconianas de contenção vistas erroneamente como desnecessárias face à imaginada possibilidade de cura próxima da doença.

Com escolas fechadas, é importante lembrar que os centros de pesquisas, ligados ou não a universidades, neste momento são parte de nossas maiores esperanças. Em todas as profissões, a redução extremada de empregos que exigem menor capacitação tecnológica é iminente, e a nossa educação em ciências, principalmente aquelas chamadas de “núcleo duro”, embora viesse caminhando a passos muito lentos, com certo desprezo social pelo conhecimento e pela conservação do meio ambiente, estarão sendo revalorizadas. A área de saúde estará em evidencia para os jovens, mas também outras que pareciam em declínio, como a literatura e as artes em geral, tão indispensáveis durante os confinamentos.

Preparar-se para as mudanças, adquirir maior flexibilidade, é cada vez mais essencial. Que nossas escolas, nossas cidades e nossas vidas possam voltar rapidamente ao normal.