Woodstock 50 anos

Os anos 1960 foram marcados por acontecimentos dramáticos e dolorosos, assassinatos, golpes de estado, ditaduras, terrorismo, a escalada da guerra no sudeste asiático, e outros, muitos outros. E também em 1969 a nave Apollo 11 “alunissou” em nosso satélite natural; uma conquista comparável às navegações portuguesas de quinhentos anos antes.

Nesta década houve uma explosão cultural, a chamada contracultura era a sedimentação de muitas vertentes do pós-guerra, os beatniks com seu niilismo e desgosto com a “sociedade materialista” antecederam os hippies, poetas e escritores levaram o experimentalismo nos temas e na linguagem ao extremo. Mas foi na música que o movimento atingiu ares de revolução, dignos filhos do jazz, do blues e do folk, o rock e suas variações tomaram o mundo; em nosso país tivemos a “Jovem Guarda” e o Tropicalismo.

Os jovens ocupavam espaços. Na França teriam derrubado o governo De Gaulle se não tivessem sido abandonados pelos comunistas, seus aliados que se assustaram com tanta rebeldia. Nos Estados Unidos, pela primeira vez praticamente uma geração inteira se recusava a ir à guerra, os filhos dos veteranos da Normandia, de Iwo Jima e da Coreia, não viam sentido no Vietnã; e muitos se refugiavam em paraísos lisérgicos e em empreitadas “espirituais” como tentar levitar o Pentágono através da meditação coletiva.

No Brasil uma ditadura se agravava à medida que a década chegava ao fim, estudantes protestavam como podiam e muitos aderiram à luta armada, sendo dizimados pela repressão. Os adolescentes se reuniam, o instinto gregário que sempre caracterizou a juventude se manifestava onde quer que houvesse um violão, uma música, uma ideia. Então, num misto de idealismo cultural e senso de oportunidade empresarial, quatro jovens americanos decidiram promover um festival de música e arte.

Foi há cinquenta anos, entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969, e ocorreria em Woodstock no estado de Nova York, donde o nome que foi imortalizado “Festival de Woodstock”. No entanto, por excesso de público, foi transferido para uma fazenda próxima na cidade de Bethel, também em NY.

O zeitgeist, o espírito do tempo era favorável: nunca antes, desde a “conquista” do Oeste e a corrida do ouro, a América tinha convivido com tantos “nômades”, aqueles que em gerações anteriores estariam comodamente instalados em casa ou em dormitórios universitários agora “pegavam a estrada”, uma peregrinação em busca de paz e amor, e de um sentido para a vida que parecia ter se perdido.

Os organizadores venderam quase 190 mil ingressos, mas algo como meio milhão de pessoas compareceu, pressionando a entrada e derrubando barreiras, tornando o evento em grande parte gratuito. A música executada foi quase toda ela de excelente qualidade, com artistas como Janis Joplin, Jimi Hendrix, The Who, Creedence Clearwater Revival, Grateful Dead, Joan Baez, Joe Cocker e outros, dando o tom para o que se faria nas décadas seguintes.

Ali se aprendeu a comer granola, mistura de cereais e sementes que os fazendeiros das imediações forneciam gratuitamente aos jovens esfomeados e que não dispunham de meios e de estrutura para obter alimentos. Exemplo de solidariedade, ditada em parte pela prudência, mas que ficou.

O que também marcou o festival foi a plateia, parte drogada, cabeluda, colorida; toda ela contra a guerra do Vietnã, a música catalisou a expressão política e muito pouca violência foi registrada. Paz e Amor foi mais do que discurso.
O evento foi transcendido pela própria importância simbólica, definindo tempo e sociedades em mutação, mesmo onde pouco se ouvia falar em rock e “músicas de protesto” eram brutalmente censuradas, a notícia se espalhou. Os grandes festivais que vieram a seguir, em toda parte e de todas as vertentes, são tributários de algum modo a Woodstock.

Foi há cinquenta anos, e os ecos são ouvidos até hoje.

A escritura do conhecimento

A invenção da escrita – reza a lenda que ao concluir a escultura de Moisés, Miguelângelo contempla a perfeição de seu trabalho por alguns instantes e golpeia o joelho da estátua irrompendo num grito: “Fala, Moisés!”
Certamente, a escultura permaneceu imóvel e muda, porque esta é a natureza da pedra. Também considerada algo mudo e imóvel, a escrita foi recebida com muita desconfiança, porque a palavra viva só pode ser evocada e utilizada pelos viventes; a letra depositada num pergaminho, numa placa de argila, numa parede, é morta; está mumificada sobre uma superfície inerte e não responde quando indagada.
Em seus primórdios, a civilização grega era um reflexo do poder da palavra falada. Relatam-nos Peter BURKE e Asa BRIGGS que os discursos na ágora de Atenas, assim como as peças teatrais recitadas nos anfiteatros, era parte fundamental da cultura grega, ali as canções e histórias fluíam pelas bocas e corpos de poetas e rapsodos, numa criação coletiva que adaptava temas e frases de quem quer que fosse. (2004).
Para Platão, um dos adversários da escrita, ela nem mesmo servia como cópia ou fantasma (imagem) do discurso proferido; para este filósofo grego, a escrita desvia o espírito da verdade, porque não se repousa no homem e assim não tem dono ou responsabilidade e a sua essência (da escrita) é não ter essência, comenta Jacques DERRIDA (1991).
Por muito tempo a escrita foi considerada um signo de segunda mão. Por que representava uma palavra falada que, por sua vez, é representante dos objetos que designa. Como um signo secundário, no princípio a escrita não gozou de atenção ou prestígio entre os pensadores e artistas. Ela vinha para causar discórdias; colocava em perspectiva aquilo que fora dito no teatro e a versão escrita da peça, que geralmente não coincidiam.
Pelo entendimento de Platão e seus contemporâneos, a palavra falada carregava consigo a autoridade do orador, que se responsabilizava pelo que foi dito e emprestava um caráter de verdade ao discurso. Enquanto que o texto escrito, transformado em coisa mundana, está lá inerte, morto, não responde quem o chama, não refuta quem o nega, interrompe o diálogo e torna os escritores alienados da experiência do diálogo. Segundo Platão, se a essência da palavra era sua humanidade, a escrita assemelha-se a uma coisa despida de vitalidade, cujas ideias aprisionadas nos traços de tinta não podem argumentar sem garganta, sem voz.
Os termos verba, verbal, referem-se à palavra pronunciada no ato da enunciação. Devemos ter em mente que o poder da palavra na cultura oral está vinculado ao seu “pronunciamento”. Os discursos orais existem em um contexto de toma-lá-dá-cá entre indivíduos reais. Fora disso, a escrita é apática, descontextualizada, além de criar um mundo perigosamente artificial. Por isso a escrita é contumaz, cruel e insensível.
Um dos mais notáveis paradoxos inerentes à escrita é sua associação íntima com a morte. Esse vínculo é insinuado na acusação de Platão, como lembra Walter ONG, ao sugerir que a escrita é inumana, coisificada, além de destruir a memória, que é a principal característica de humanidade. (1998) É notável, por exemplo, a referência à característica tanatológica da escrita encontrada em 2º Coríntios, 3:6 – “A letra mata, mas o espírito dá vida”.
Na cultura oral, o conhecimento, uma vez adquirido, devia ser constantemente repetido ou se perdia: padrões de anedotas fixas, sentenças formulares, aforismos e poemas sintéticos eram necessários à sabedoria e à administração dos grupos humanos. Mas, pela época de Platão, uma mudança se iniciara: os gregos finalmente haviam absorvido a escrita – algo que levou muitos séculos após o desenvolvimento do alfabeto grego, por volta de 720-700 a.C.
A nova maneira de armazenar conhecimento não estava mais em fórmulas mnemônicas, mas no texto escrito. Segundo Walter ONG, a escrita libertou a mente para um pensamento mais original, tendo em vista que a sabedoria coletiva já podia ser registrada em dispositivos externos ao cérebro. (1998) Hoje, da mesma forma, são os computadores que libertam a nossa mente de operações repetitivas e exaustivas, para deixar ao ser humano o que ele sabe fazer melhor, experimentar o mundo para criar conceitos.
Entretanto, o emprego da escrita não foi generalizado, mas assimetricamente desenvolvido por várias sociedades. A frase clássica Scripta manent, verba volant, que veio a significar, em nossa época, a ideia de que a escrita permanece, enquanto as palavras voam, costumava designar um conceito exatamente inverso: foi cunhada como um elogio à palavra dita em voz alta, que pode voar pelos ares, em comparação com a palavra silenciosa na página, que está parada, morta. Diante de um texto escrito, o leitor tinha o dever de emprestar voz às letras silenciosas, à scripta, para permitir que elas se tornem, na versão bíblica, verba, palavras faladas – espírito. As línguas primordiais da Bíblia – aramaico e hebreu – não fazem diferença entre o ato de ler e o ato de falar; dão a ambos o mesmo nome, lembra Alberto MANGUEL (1997).
Mesmo após dominar a técnica da escrita, muitas sociedades ainda desconfiavam de sua capacidade de registrar o conhecimento. Havia os que pensavam ser a escrita um embuste; que ela não seria nem mesmo capaz de armazenar pensamentos fora da mente humana. Pensadores e artistas ainda preferiam ensinar e aprender por intermédio do diálogo direito com seus professores e, estes, desconfiavam da concorrência que a escrita poderia lhes fazer, já que tudo indicava que eles perderiam o monopólio do saber.
Mas, aos poucos, a escrita vai provocando as mudanças nas visões de mundo e modificando o pensamento das culturas em letramento. Embora as sociedades orais produzissem realizações verbais impressionantes e belas, de alto valor artístico e humano, sem a escrita a consciência humana não teria realizado suas potencialidades, não seria capaz de outras criações belas e impressionantes. Lembra-nos Walter ONG, que a cultura escrita se tornou imprescindível para o surgimento da filosofia, da história e da ciência. (1998)
Por meio de vários estratagemas técnicos, a escrita ganhou impulso e prestígio social desde o registro em rolos de pergaminho dos ensinamentos dos profetas judaicos e, posteriormente, dos cristãos e muçulmanos. Em grande parte, essas três religiões conhecidas como as “religiões do Livro”, foram responsáveis pela institucionalização e universalização da escrita.
Relata Alberto MANGUEL, que entre os textos hebraicos preservados, o mais antigo dentre os que apresentam um pensamento sistemático e especulativo, encontra-se o Sefer Yezirah, escrito em algum momento do século VI. Este livro afirma que Deus criou o mundo mediante 32 caminhos secretos de sabedoria, sendo 10 Sefirot (números) e 22 letras. Dos Sefirot foram criadas todas as coisas abstratas. Mas, das 22 letras foram criados todos os seres reais e as três camadas do cosmo (o mundo, o tempo e o homem). Por isso, a tradição judaico-cristã concebe o mundo tal como se fosse uma forma de livro escrito com letras e números. A chave para compreender o mundo, portanto, estaria na capacidade de ler adequadamente suas combinações e dominar sua “gramática” para dar vida a alguma parte desse texto colossal que seria a criação divina (1997).
Por outro lado, também é preciso considerar os efeitos colaterais da adoção da escrita; o primeiro desses efeitos colaterais é o surgimento do que tem sido chamado de discurso “livre do contexto” ou “discurso autônomo”, alerta Walter ONG. O discurso escrito não pode ser diretamente questionado ou contestado, porque foi separado de seu autor (1998). De fato, além de ser uma tecnologia apropriada para descrever, registrar e armazenar pensamentos, ideias, conceitos e sentimentos, a escrita já foi criticada pelo que inadvertidamente provoca: além da coisificação da palavra humana, descontextualiza o diálogo entre o emissor do texto e seu receptor. Ou seja, entre o escritor e o leitor pode haver milhares de quilômetros, como milhares de anos. A escrita inaugurou uma espécie de comunicação esquizofrênica, em que o escritor só se comunica com o texto, enquanto o leitor lê apenas o texto, que passa a ser um intermediário inerte e mecânico, dirigindo-se apenas do escritor para o leitor, sem capacidade de gerar uma resposta do leitor para o escritor.
Como um oráculo ou um profeta, a escrita enuncia no lugar do enunciador, aquele que realmente “disse” ou escreveu o texto. O autor só pode ser questionado quando se tem acesso pessoal a ele. Não existe um meio de questionar diretamente um texto. Depois de uma refutação absolutamente total e devastadora, ele continua dizendo exatamente a mesma coisa que antes, lamenta Walter ONG (1998). A solução encontrada é escrever outro texto; mas aí, o problema não só permanece, como aumenta em mais uma escritura.
Contudo, a possibilidade do registro de um discurso verbal permitiu sua dissecação em partes e unidades mínimas observáveis, de modo que se pudesse corrigir, alterar, ampliar, cortar e introduzir melhoramentos em cópias subsequentes. Ao contrário do discurso oral, que desaparece no ar após sua enunciação, o discurso escrito permanece à disposição para consultas e para réplicas mais refinadas. De modo que a escrita trouxe um imenso aprimoramento do raciocínio lógico-dedutivo e linguístico, influenciando positivamente todos os demais campos do saber.
Assim, as vantagens da escrita superaram em muito, suas desvantagens. Além do que, as técnicas da escrita foram evoluindo com o tempo para dar conta da tarefa de evocar o significado de um texto. Técnicas morfológicas, gramaticais, sintáticas, foram aperfeiçoadas ao longo dos séculos para garantir a preservação do sentido original da mensagem escrita. Aos poucos a ideia de escritura foi sendo incorporada à tradição cultural, tornando-se parte constituinte da memória dos povos. Na sociedade judaica medieval era conhecido o ritual com o qual se aprendia a ler. Na festa do Shavout, que comemora a ocasião em que Moisés recebeu a Torá das mãos de Deus, o menino a ser iniciado era envolvido num xale de orações e levado pelo pai ao professor. Sentado ao colo do mestre lhe era apresentada uma lousa onde se via escrito em alfabeto hebraico um trecho das Escrituras e as palavras “possa a torá ser sua ocupação”. Em voz alta, o professor lia cada palavra que era imediatamente repetida pelo menino. Em seguida, a lousa era recoberta com mel e a criança a lambia, assimilando corporalmente as palavras sagradas. MANGUEL (1997) relata que também era costume escrever versos bíblicos em ovos cozidos e tortas de mel, que as crianças comiam depois de lê-los em voz alta para o mestre.
Por outro lado, a assimilação da escrita foi lenta e cheia de percalços. Não foi fácil a aceitação e durou muito tempo a assimilação da escrita como instrumento de registro do conhecimento humano. Até recentemente, muitos de seus estudiosos (linguistas, semióticos, gramáticos, hermeneutas) a consideravam mera representação da palavra falada. Restrita em seu uso, a escrita esteve vinculada desde a Antiguidade clássica tão somente ao exercício do poder pelo Estado e era de domínio tanto dos escribas da corte, como de monges, filósofos, artistas e alguns membros da aristocracia. Somente com a invenção da tipografia pelo alemão Johannes Gutenberg, a sociedade teve gradativo acesso aos livros. Em 1477, um tal Hieronimo Squarciafico, segundo comenta Walter ONG, além de promover a impressão de clássicos latinos, também lamentava a abundância de livros que tornavam os homens menos atentos, destruindo a memória e enfraquecendo a mente ao aliviá-la do trabalho árduo. (1998)
Desde sua invenção, a escrita foi considerada um instrumento de poder secreto e mágico. Por milênios, as letras mantiveram sobre si uma aura de magia, alimentada pela ignorância dos analfabetos, que formavam a esmagadora maioria de qualquer população. Traços dessa atitude inicial em relação à escrita ainda podem ser vistos na etimologia: a grammarye ou ‘gramática’ no inglês médio, refere-se ao aprendizado livresco, mas acabou por significar conhecimento oculto ou mágico. Por meio de uma variação dialética escocesa, segundo ONG, esta palavra emergiu no atual vocabulário inglês como glamor (poder de encantamento). Glamor girls são, literalmente, garotas da gramática. (1998)
A escrita inaugurou uma segunda etapa (posterior à oralidade original) na história humana. Com ela, mudaram-se as relações entre o indivíduo e a memória social. O sujeito pôde projetar sua visão de mundo, sua cultura, seus sentimentos e vivências, no papel. Ao fazer isso, pôde analisar o próprio conhecimento das coisas e do mundo, além de fazê-lo chegar até os homens de outras culturas e outros tempos. O saber que fora condicionado pela subjetividade se tornou objetivo e possível de se distanciar; a experiência pôde ser compartilhada sem que autor e leitor necessariamente participassem do mesmo contexto. (RAMAL, 1997)
A escrita, em seu sentido comum, foi e (continua sendo) a mais importante de todas as invenções humanas. Não é um mero apêndice da fala. Em virtude de mover a fala do mundo oral-auricular para um novo mundo sensorial, o da visão, ela transforma tanto a língua, quanto pensamento.
O fato de os estudiosos negligenciarem, por mais de dois milênios, as transformações cognitivas realizadas pela escrita, não impediu que o registro externo do pensamento verbal gerasse um novo patamar civilizatório. Com a escrita, tornou-se possível registrar os pensamentos em suportes externos à memória e retornar a eles para aperfeiçoá-los, criticá-los, refutá-los, oferecendo a oportunidade do debate de ideias. Livre da obrigação de memorizar fórmulas fixas de pensamento, como se usava fazer no período da oralidade primária, as pessoas podiam agora criar a história.
Um texto escrito no passado pode ser apreciado a partir do presente, sofre as críticas sobre sua veracidade, sobre a sua conformidade com a realidade, o que acabou por desenvolver a primeira lógica, derivada das regras gramaticais do grego clássico. Podendo ser revisitado constantemente, o texto escrito tornou possível outro tipo de memória: diferentemente da memória das fórmulas mágicas, das frases de efeito, dos versos ou dos aforismos, essa nova memória assemelha-se a um espelho, porque então podia refletir-se no texto e comparar-se com ele. Surge a reflexão e, com ela, a filosofia.
Mas ainda faltava outra conquista fundamental a ser garantida pela escrita. Apesar de auxiliar decisivamente na construção desse novo mundo, a escrita estava circunscrita a uma parcela muito pequena da sociedade. Ao final da Idade Média europeia, menos de 5% de sua população sabia ler e escrever. Além disso, a confecção de livros era muito cara e monopolizada pela Igreja, restando pouco espaço para pensadores, universidades e literatos escreverem e copiarem obras laicas.
Então, ocorreu mais um desses momentos históricos que transformam o mundo inescapavelmente. A tipografia gutenberguiana surge em meados do século XV, permitindo a impressão de livros de maneira mais rápida e a custos bem mais baixos. As casas impressoras formaram as primeiras linhas de produção de que se tem notícia. O livro impresso se espalhou pela Europa e pelas Américas. Com o surgimento da Reforma Protestante, a obrigação da leitura da Bíblia e as campanhas iconoclastas acabaram por entronizar o livro como a primeira mídia da história ocidental.
Ao escapar do controle da Igreja, a tipografia permitiu a divulgação de livros filosóficos, mas também romances de cavalaria, manuais, mapas, ilustrações etc. Auxiliados pelas qualidades lógicas do registro verbal, pela noção de causalidade linear, pela hierarquia gramatical, alguns pensadores, dentre eles René Descartes, construíram o conceito clássico de ciência. A impressão gráfica permitiu a ampliação da leitura e influência de estudiosos como Hobbes, Hume, Espinosa, Locke, Hegel, Marx, Darwin, Freud etc.
Sabemos que em culturas orais não é possível haver história, porque os mitos são atemporais. A história só foi possível quando as pessoas puderam ler os pensamentos de outras pessoas escritos no passado. Ao postarmos as antigas narrativas em linha (da mesma maneira como a escrita se apresenta aos olhos do leitor), os estudiosos puderam compilar uma noção de percurso histórico. Ao observar esse percurso transcrito nas obras históricas, alguns pensadores foram tentados a esticá-los rumo ao futuro, fazendo previsões, isto é, utopias.
Ao habituarmos ao modo linear de exposição dos pensamentos, alguns acadêmicos interpretaram a evolução da sociedade de modo progressivo, tal como se leem os livros. Charles Darwin, por exemplo, concebeu a evolução biológica como sendo lenta e gradual, da mesma maneira como se lê um livro, chegando a dizer que “a natureza não dava saltos”. Karl Marx, com sua dialética progressiva (tese, antítese, síntese), também “leu” a história desde a opressão capitalista, passando pela revolução até o socialismo proletário, como ponto final de uma cadeia linear, causal e disposta em capítulos, tal qual um livro.

A revolução de Gutenberg – desde a invenção da escrita alfabética, o registro dos textos foi produzido em vários materiais. Entalharam-se escrituras em madeira, mármore, cerâmica ou pintaram-nas em tabuletas, tecido, pergaminho e papel.
Mas o que interessa destacar, trata-se do relacionamento do livro com seu leitor. Por muitos séculos, o ato da leitura continuou sendo público, tal como se dava o discurso oral. A palavra, mesmo escrita, estava submetida à atenção do grupo social. Não era de bom tom interpretá-la de maneira silenciosa e solitária, inclusive porque o grande número de analfabetos ainda existentes clamava pela chance de ouvir as palavras proferidas por alguém que as pudesse ressuscitar da superfície estática do papel, dando-lhes vida, de modo que fecundassem o ouvido humano com as luzes de uma sabedoria longínqua.
Se os livros eram principalmente lidos em voz alta, as letras que os compunham não precisavam ser separadas em unidades fonéticas; bastava amarrá-las juntas em sintagmas intermináveis. A antiga escrita em rolos – que não separava as palavras, não distinguia maiúsculas nem usava pontuação – servia aos objetivos de alguém acostumado a ler em voz alta, alguém que permitiria ao ouvido desembaralhar o que ao olho parecia uma linha contínua de signos. A ideia de separar as letras em palavras e frases desenvolveu-se muito gradualmente. (MANGUEL, 1997)
Com a crescente demanda por livros, mesmo antes da invenção de Gutenberg, os copistas profissionais eram pressionados a enriquecer o texto escrito com sinais que facilitassem a interpretação daqueles que nunca haviam lido um determinado livro, e pudessem compreendê-lo sem tanto esforço. Para auxiliar na leitura, a semântica, gramática e sintaxe verbais começaram a ganhar isonomia formal, uniformizando e regularizando os textos.
Depois do século VII, uma combinação de pontos e traços indicava uma parada plena, um ponto elevado ou alto equivalia a nossa vírgula, e o ponto-e-vírgula era empregado como o utilizamos atualmente. Essas providências garantiram mais independência ao leitor, permitindo-lhe ler em voz alta os textos desconhecidos, como também no silêncio de seu recolhimento reflexivo.
No século IX, é provável que a leitura silenciosa já fosse suficientemente comum no scriptorium, para que os escribas começassem a separar cada palavra de suas vizinhas com vistas a simplificar a leitura. Isso também permitiu uma identificação mais clara dos elementos da frase, tais como sujeito, predicado, objetos, adjetivos, complementos.
No século X, para facilitar ainda mais a tarefa do leitor silencioso, as primeiras linhas das seções principais de um texto eram comumente escritas com tinta vermelha, assim como as rubricas (“vermelho”, em latim), que eram explicações independentes do texto propriamente dito. Mais tarde, a primeira letra do novo parágrafo passou a ser escrita um pouco maior ou em maiúscula. (MANGUEL, 1997)
Na baixa Idade Média já era comum textos impressos. Porém, tais impressões eram caracterizadas por tecnologias pouco eficientes. Esculpiam-se as letras em madeira, cobriam-na de tinta e imprimiam uma folha de papel sobre essas pranchas maciças. Entretanto, logo após um uso intenso, o material se desgastava, sofria atritos e quebraduras.
Embora não tenha sido apenas Johannes Gutenberg o único a pesquisar uma forma de imprimir textos, a sua ideia de um tipo móvel de metal, que podia juntar-se a outros para formar palavras, frases encadeadas em linhas ordenadas, foi o modelo que obteve mais sucesso, em vista de sua eficiência e economia.
Entre 1450 e 1455, Gutenberg produziu uma Bíblia com 42 linhas por página – o primeiro livro impresso com tipos móveis – e levou as páginas impressas para a Feira Comercial de Frankfurt. Os efeitos da invenção de Gutenberg foram instantâneos e de alcance extraordinário, pois quase imediatamente muitos leitores perceberam suas grandes vantagens: rapidez na produção, uniformidade e clareza da impressão e preço relativamente barato.
A cópia manuscrita de originais era muito cara e bem controlada pela corporação dos copistas, pela Igreja e o Estado, por isso disponível apenas aos mais ricos e influentes. O livro impresso representou não apenas uma opção de qualidade e comercialmente acessível, como também aumentou incrivelmente a liberdade com relação à leitura; foram afrouxadas as proibições devido à impossibilidade de controlar uma demanda crescente por livros de todos os tipos.
Poucos anos depois da impressão da primeira Bíblia, máquinas impressoras estavam instaladas em toda a Europa: em 1465 na Itália, 1470 na França, 1472 na Espanha, 1475 na Holanda e na Inglaterra, 1489 na Dinamarca. A imprensa não demorou a alcançar o Novo Mundo: os primeiros prelos chegaram em 1533 à Cidade do México e em 1638 a Cambridge, Massachusetts. (MANGUEL, 1997) Entretanto, apenas com a vinda da família real para o Brasil, em 1808, aqui desembarcou a primeira prensa tipográfica.
A rápida expansão da indústria tipográfica na Europa e no Novo Mundo deveu-se a uma conjunção de importantes fatores. A demanda pela leitura era muito maior do que as cópias manuscritas podiam suprir. Ideias novas estavam fermentando nas cabeças privilegiadas do Renascimento, ávidas por transmitir suas revolucionárias cosmovisões para quem quer que se interessasse por conhecer um mundo diferente que os artistas e intelectuais sonhavam para as artes e as ciências.
Além disso, a Reforma Protestante colocada em marcha por Martinho Lutero, a partir de 1517, tinha como um de seus pilares filosóficos a possibilidade do cristão comunicar-se diretamente com Deus, sem o concurso de intermediários. Mas onde estava Deus para participar desse diálogo com seus filhos esperançosos da salvação? Em um livro – a Bíblia. De modo que para falar com Deus, o protestante precisava saber ler a Bíblia. Pelo lado da Contra-Reforma católica, o livro também ganhou importância como veículo ideológico, em que pensadores e artistas católicos produziam suas obras em defesa de Roma.
Embora o latim continuasse a ser a língua da burocracia, dos assuntos eclesiásticos e da intelectualidade de boa parte da Europa até o século XVII, no começo do século XVI as línguas vernáculas estavam ganhando terreno. Em 1521, Martinho Lutero começou a publicar a Bíblia em alemão; em 1526, Willian Tyndale trouxe a lume em Colônia e Worms sua tradução inglesa da Bíblia, já que fora forçado a deixar a Inglaterra sob ameaça de morte; em 1530, na Suécia e na Dinamarca, um decreto governamental determinou que a Bíblia deveria ser lida nas igrejas em vernáculo. (MANGUEL, 1997)
A impressão gráfica pode ser perigosa, mas também lucrativa. Alguns editores (embora nem todos) eram mercenários, trabalhando tanto para católicos quanto para protestantes durante as guerras religiosas. Uma das consequências da invenção da nova técnica de impressão foi envolver com maior intensidade os negociantes no processo de difundir o conhecimento. A lista dos mais vendidos tem seus primórdios nos primeiros dias da impressão gráfica. A Imitação de Cristo, um trabalho religioso atribuído ao holandês Thomas Kempis, que viveu no século XIV, tinha aparecido em não menos que 99 edições por volta de 1500. A Sagrada Escritura também vendia muito na época, especialmente o Novo Testamento e os Salmos, embora a Igreja Católica tivesse proibido as Bíblias em vernáculo no fim do século XVI, sob a alegação de que estimulavam a heresia. (BRIGGS e BURKE, 2004)
Os escribas, cujo negócio era ameaçado pela nova tecnologia, deploraram desde o início a chegada da tipografia. Para os homens da Igreja, o problema básico era que os impressos permitiam aos leitores de baixa posição na hierarquia social e cultural estudar os textos religiosos por conta própria, em vez de confiar no que as autoridades explicavam. O surgimento de jornais no século XVII aumentou a ansiedade sobre os efeitos da nova tecnologia. Na Inglaterra, na década de 1660, sir Roger L’Estrange, o censor-chefe de livros, ainda questionava se mais males que vantagens eram ocasionados ao mundo cristão pela invenção da tipografia. “Ó Tipografia! Como distorcestes a paz da Humanidade!”, escreveu o poeta inglês Andrew Marvell (1621-1678). (BRIGGS e BURKE, 2004)
Assim, a tipografia já nasceu com uma produção pressionada por uma demanda, cujo fôlego consumista não iria arrefecer pelos próximos quinhentos anos. Na Inglaterra do início do século XVII, canções populares impressas eram às vezes usadas como apoio às performances orais, o equivalente ao atual karaokê. A cultura oral e a mídia impressa coexistiram e interagiram nos séculos XV e XVI na Itália, assim como nas fronteiras anglo-escocesas no século XVIII. Embora se pense que o letramento e a impressão gráfica aniquilaram a cultura de tradição oral, por outro lado, esses exemplos italianos (e ingleses) sugerem que as culturas oral e impressa foram capazes de coexistir por longo período. (BRIGGS e BURKE, 2004)

O impresso como mídia – a escrita e, com mais ênfase, a tipografia, são meios de tecnologizar a palavra e transformá-la em uma mídia – um processo de comunicação a distância e no tempo. O impresso é a primeira grande mídia da história ocidental.
Media é um termo inglês, proveniente do latim (medium), que se popularizou devido a seu emprego como sinônimo das tecnologias de comunicação eletroeletrônicas, surgidas a partir do século XIX, como o telefone, gramofone, cinema, rádio e, posteriormente, a televisão e internet. Há várias definições para a palavra ‘mídia’, mas uma aqui nos interessa de perto: mídia significa um meio físico tecnológico, que serve como veículo pelo qual se comunica uma mensagem no espaço e no tempo.
Segundo esta definição, o livro se encaixa comodamente no conceito de mídia, cuja mensagem se encontra no conteúdo abstrato interpretado dos textos verbais impressos. Embora um livro (inclusive os impressos em Braille) seja o registro de formas, isto é, de formas alfabéticas impressas sobre papel e decifradas com o auxílio do olho, o sentido de suas mensagens provém do significado contido em suas palavras. A extrema valorização do conteúdo, em detrimento da forma, já serve para indicar a proeminência da escritura verbal, como a mídia hegemônica do período moderno.
Desde a invenção da tipografia por Gutenberg, o caráter comercial da publicação de livros não podia ser mais evidente. Sempre se tratou de um negócio. Com o tempo, não se vendiam mais apenas os exemplares, mas no caso dos jornais começou a surgir um novo tipo de serviço remunerado. A publicidade impressa emergiu no século XVII. Em Londres, por volta de 1650, um jornal tinha em média seis anúncios; cem anos depois, algo em torno de cinquenta. Entre mercadorias e serviços anunciados na época, na Inglaterra, estavam peças teatrais, corridas, médicos charlatões e “Tinta em Pó de Holman”, talvez o primeiro nome de marca de um produto, patenteado em 1688. Somente na Grã-Bretanha, estima-se que 15 milhões de jornais foram vendidos durante o ano de 1792. (BRIGGS e BURKE, 2004)
A comunicação humana é intersubjetiva e suas especificidades vão além das definições conhecidas de mídia, porque, de certa forma, os interlocutores humanos precisam estar antecipadamente dentro da mente um do outro, a fim de dar início à sua mensagem. Isso ocorre normalmente nos diálogos contextualizados entre membros de uma mesma comunidade. A escrita, especialmente a impressa, já pode ser chamada de mídia porque ela não se insere num contexto. A escrita é uma via de mão única que não considera a resposta do leitor, tornando-se assim muito semelhante às modernas mídias de massa, cujos produtores não se encontram presentes no mesmo ato de comunicação em que estão os espectadores.
O termo “moderno” gera um pouco de confusão, especialmente quando o traduzimos por “novo”, enquanto percebemos que existem períodos mais recentes, como o contemporâneo ou pós-moderno. A palavra “moderno” foi criada no latim tardio com a junção dos termos modus+hodiernus, isto é, modo atual, momento presente, novo, recente. Portanto, pode-se dizer que o conceito de Era Moderna foi concebido por historiadores e filósofos do século XVIII, com o objetivo de fixar uma diferença entre seu tempo e aquele protagonizado pelos antigos regimes pré-revolucionários ainda aferrados aos valores medievais.
Todas as transformações ocorridas no período compreendido pela “Era Moderna” revolucionaram a cultura ocidental. É certo dizer também, que a tipografia influenciou decisivamente as transformações históricas, servindo de suporte para a transmissão dos conhecimentos que contribuíram para a mudança de mentalidade.
O livro impresso torna-se o veículo de muitas revoluções durante esse período.
A invenção da impressão gráfica solapou o que foi descrito, com certo exagero, como monopólio de informação da Igreja medieval, e algumas pessoas tinham consciência disso na época. O protestante inglês John Foxe, por exemplo, pregava que o papa deveria abolir o conhecimento e a impressão gráfica, ou esta, a longo prazo, acabaria com ele. (BRIGGS e BURKE, 2004)
A história do livro não tem apenas a versão revolucionária. Muito foi feito para restringir sua capacidade de excitar a imaginação. O sistema de censura mais famoso e difundido do período foi o da Igreja Católica, com seu “Index dos Livros Proibidos”. O Index era um catálogo de livros impressos que os fiéis católicos estavam proibidos de ler. Havia também vários outros index locais, dentre esses o publicado em 1544, pela Sorbonne (a Faculdade de Teologia da Universidade de Paris). Porém, os mais importantes foram aqueles editados pela autoridade papal e distribuídos por toda a Igreja, de meados do século XVI a meados do XVII. A censura protestante era menos eficaz do que a católica, não porque os protestantes fossem mais tolerantes, mas porque eram mais divididos, fragmentados em diferentes igrejas. Com estruturas administrativas diversas, como a luterana e a calvinista, os protestantes não tinham unidade suficiente para gerar uma censura eficaz. (BRIGGS e BURKE, 2004)
Os conservadores, aqueles que pretendiam manter estável o estado de coisas, muito fizeram para deter o avanço das ideias modernas, procurando encarcerar seu principal veículo de divulgação – o livro. Para tanto recorreram à censura, à exacerbação do preconceito, tanto quanto ao temor religioso da sociedade, com relação ao distanciamento intelectual e espiritual que o livro provocava naqueles que se aventuravam pelas suas páginas, deixando-se levar pela imaginação suscitada por histórias impróprias para a salvação das almas. Os perigos da leitura de ficção, especialmente para as mulheres, eram muito debatidos a partir do início do século XVI. Como no caso do teatro, os romances eram temidos por seu poder de despertar emoções perigosas, como o amor. Muitos pensavam que a mulher não deveria aprender a ler, pois poderia receber cartas de amor. Outros opinavam que as mulheres podiam ler um tanto, mas somente a Bíblia ou livros religiosos. Uns poucos bravos argumentavam que as mulheres de classe alta podiam ou deveriam ler os clássicos. (BRIGGS e BURKE, 2004)
Mesmo assim, o relacionamento com a leitura prosseguia de forma crescente em outras partes da Europa. Forma-se nos séculos XVII e XVIII o contexto religioso do letramento, principalmente na Europa protestante. Um exemplo é o da Suécia luterana, onde a igreja fazia exames anuais em toda casa para avaliar a leitura de cada membro da família, seu conhecimento do catecismo etc. Os resultados eram registrados sistematicamente, distinguindo níveis de habilidade, como “começando a ler”, “lendo um pouco” e assim por diante. O ensino da leitura, extensível às mulheres e às crianças na área rural, foi resultado de uma maciça campanha entre 1620 e 1720. (BRIGGS e BURKE, 2004)
Para os padrões da época, o livro impresso espalhou-se como fogo em palha seca, incendiando a imaginação de toda Europa, fossem comunidades protestantes ou católicas. Na metade do século XVI, um leitor poderia escolher entre mais de oito milhões de livros impressos, talvez mais do que todos os escribas da Europa haviam produzido desde que Constantino fundara sua cidade no ano de 330. (MANGUEL, 1997)
Pela primeira vez na história ocidental começa a surgir o que mais tarde ficará conhecida como “opinião pública”, forjada lentamente pela leitura de jornais e livros. O público leitor se expande consideravelmente, em vista dos antigos grupos tradicionalmente vinculados à leitura, como os autores, copistas, religiosos e aristocratas. A par com uma lenta urbanização nesse início de Revolução Industrial, uma burguesia ascendente vinha alimentando a indústria tipográfica e lendo não apenas romances ou livros religiosos, mas ciência e, principalmente, filosofia iluminista.
O papel central desse movimento (Iluminismo) foi desempenhado por pensadores franceses, os chamados philosophes, entre eles Voltaire (1694–1778), Rousseau (1712–1778), Diderot (1713–1784) e D’Alembert (1717– 1783). Designando a si mesmos como “homens de letras”, muitas vezes foram descritos como os primeiros intelectuais, independentes de patronos, no sentido de serem críticos sistemáticos do regime sob o qual viviam. Por meio de seus livros difundiram amplamente mensagens sobre um possível novo mundo. (BRIGGS e BURKE, 2004)
A indústria tipográfica praticamente pôs em marcha as revoluções sociais que iriam inflamar o cenário mundial até recentemente. Na medida em que mais e mais pessoas penetravam o mundo da leitura, entravam pelas portas de um novo tempo do qual se negavam a abandonar. Mundos utópicos, existentes apenas do imaginário de escritores e leitores contrastavam gritantemente com a realidade em que os leitores estavam imersos. Livros sobre os direitos dos homens, sobre sua igualdade fundamental e a necessidade da busca da felicidade inflamaram a consciência de milhões de pessoas. De modo que, a distância entre o que o mundo era e o que o mundo poderia ser, esgarçou a fé pública na aristocracia e plantou as sementes das revoluções burguesas, cujas mais notáveis são a Revolução Americana e a Francesa.
Por outro lado, a impressão de caracteres tipográficos alfabéticos, na qual cada letra era gravada em uma peça separada de metal, projetou uma importante ruptura psicológica. Ao transformar a escrita numa espécie de produto, foi a tipografia que introduziu pela primeira vez a ideia de fabricação de uma mercadoria. A primeira linha de montagem, uma técnica de manufatura que, em uma série de etapas fixas, produz objetos complexos, idênticos, compostos de partes substituíveis, não era do tipo que produz fogões, utensílios ou armas, mas do tipo que produzia o livro impresso. Em fins do setecentos, a revolução industrial aplicou à outras manufaturas as técnicas de substituição de partes com que os impressores haviam trabalhado durante 300 anos. (ONG, 1998)
De modo que não apenas por conta das ideias que transportam, os livros também contribuíram para revolucionar a produção econômica, inspirando as técnicas das futuras indústrias que, a partir do século XVIII, deram início ao sistema econômico ainda vigente em boa parte do planeta. A cultura do livro impresso reinou soberana durante pelo menos quatro séculos. Entretanto, a partir da Revolução Industrial oitocentista, a multiplicação crescente de outros meios de produção de linguagens veio colocar em crise a hegemonia da cultura livresca. (SANTAELLA, 2001)

Referências bibliográficas

BRIGGS, A. e BURKE, P. Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
DERRIDA, J. A farmácia de Platão. São Paulo: Iluminuras, 1991.
MANGUEL, A. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
ONG, W. Oralidade e cultura escrita: a tecnologização da palavra. Campinas: Papirus, 1998.
RAMAL. A. C. Educação na cibercultura: hipertextualidade, leitura, escrita e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2002.
SANTAELLA, L. Matrizes da linguagem e pensamento. São Paulo: Editora Iluminuras, 2001.

O BRASIL EM QUE A COBRA FUMOU (1937-1943): DA NEUTRALIDADE NO CONFLITO À CRIAÇÃO DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

Danilo Mota – 22 anos, aluno do curso de História da Universidade Federal Fluminense – Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional, estuda o envolvimento do Brasil na Segunda Guerra Mundial, especificamente a Força Expedicionária Brasileira. É um dos autores da HQ “Smoking Snakes – Você sabe de onde eu venho?” e fundador da produtora Em Guerra que visa produzir artigos sobre o tema, além de documentários com entrevistas com veteranos de guerra.

 

O BRASIL EM QUE A COBRA FUMOU (1937-1943): DA NEUTRALIDADE NO CONFLITO À CRIAÇÃO DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

Danilo Mota – UFF

Resumo:  Sem o objetivo de esgotar o assunto, este artigo busca entender em que momento político-social foi criada a Força Expedicionária enviada à Itália. Serão abordados os contextos e a condições políticas e econômicas no âmbito nacional e internacional, tendo em vista a posição estratégica do território brasileiro, e em nome de quais interesses o governo autoritário de Vargas entra no cenário da Segunda Guerra Mundial.

Palavras – chave: Brasil. Segunda Guerra Mundial. FEB.

Introdução

Quando o assunto é Segunda Guerra Mundial, são inúmeros os acontecimentos a serem lembrados. São muitas produções que têm como objeto de estudo este conflito. Minha proposta aqui é, de modo justo, dimensionar o envolvimento do Brasil neste conflito tão presente ainda na memória e no dia a dia da sociedade mundial, quer através de filmes, jogos de videogame, programas de televisão etc. Além disto, entender o que precedeu o posicionamento brasileiro, formalizado em 22 de agosto de 1942, decisão esta que culmina na sua entrada em combate, também contextualizando com o que se passou na década de 1930 no Brasil e na Europa, após a crise do liberalismo ao final da década de 20.

O Brasil, após negociações bilaterais fechou seu apoio com os aliados. E, em 1942, declarou guerra ao Eixo (aliança bélica entre Itália, Alemanha e Japão na Segunda Guerra Mundial) em reunião no Rio de Janeiro, então capital federal. Em 1943 é criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB) que enviou cerca de 25.000 soldados para lutarem em um território hostil e distante, a FEB após indefinição de onde atuaria, desembarca no teatro de operações da Itália, disposta em 5 escalões entre 1944 – 1945.  A tropa brasileira foi incorporada ao 4º.  corpo do 5º exército americano, sendo um contingente miscigenado composto por brancos, mulatos, nipo-brasileiros, ambos lado a lado…o que não era comum por exemplo nos EUA.  Diferente do que muitos pensam, os soldados brasileiros não foram a passeio para a Itália, e pelo contrário travaram diversas batalhas complexas, deixando seu recado com relevância e bravura.

Agora, alguns questionamentos ficam após a exposição dos argumentos: De fato, havia necessidade de o Brasil enviar tropas para a Europa? Em nome de quem e por qual ideal o Brasil foi a guerra? Como lutar por democracia em um país que se tem um governo autoritário? Qual o interesse dos países no território brasileiro na Guerra?

O Brasil e suas Relações Comerciais na Década de 30 (EUA-ALEMANHA)

Em 10 de novembro de 1937 após um golpe de estado, Getúlio Vargas estabelece o Estado Novo, que teria função estratégica na continuação de projetos que vinham desde 1930 quando o mesmo rompeu com as oligarquias que comandavam durante a República Velha. Após afirmar que a constituição de 1934 estaria “antedatada” com o momento do país, apresenta uma Carta Constitucional, calcada em uma visão centralizadora no âmbito político, além de se apresentar antiliberal e anticomunista, com forte intervenção do estado. O que faz sentido ao olhar no âmbito internacional, onde experiências semelhantes estavam em curso na Alemanha, Itália e Portugal.

O Brasil era um país agrário neste momento e tinha como parceiro comercial, desde sua independência, a Grã-Bretanha, que tinha importante papel na economia brasileira. Porém no período entre guerras acontece um distanciamento da mesma, entretanto ainda se faziam importante, sobretudo para o comércio do café brasileiro no exterior. O governo passa a enfrentar uma questão complexa referente ao mercado, a aproximação aos EUA, trazem mais dependência, para Ferraz (2005) “Este movimento voltado à economia dos Estados Unidos não reduziu a dependência econômica brasileira na medida em que o novo parceiro era ele próprio produtor de alimentos e matérias-primas industriais.’’. Em contrapartida a relação com a Alemanha trazia equilíbrio, segundo Ferraz (2005) “Os avanços da Alemanha na América Latina durante os anos trinta aliviaram a situação, já que o país buscava fontes de alimentos e matérias- -primas industriais.”.

As tratativas comerciais fomentavam fortes debates na cúpula do governo, bem como nos grupos de interesses que eram influenciados por questões políticas e ideológicas. O governo Vargas, porém, se isentaria desta tomada de lado e passaria a negociar tanto com o livre comércio americano, bem como ao regime de trocas oferecidas pelo governo alemão. O comércio com a Alemanha crescia constantemente ao decorrer da década de 1930, sob o olhar norte americano, olhar esse com certo interesse em um futuro não tão longínquo para estabelecer uma aliança entre Brasil e EUA, tirando a Alemanha da concorrência. Com o estabelecimento do estado novo em 1937, dois pontos problemáticos se apresentam ao governo de Vargas, são eles: Uma renovação nas forças armadas brasileiras e a largada na produção do aço, com a construção de uma siderúrgica nacional de grande porte. Os anos finais da década de 30 foram marcados pela forte influência do exército nas decisões, principalmente para a compra de materiais bélicos, a negociação acontecia ao mesmo tempo com americanos e alemãs, sobre a compra de equipamentos.

Eixo ou Aliado?

O governo brasileiro tinha como objetivo extrair o máximo possível das relações com americanos e alemães para conseguir os 2 objetivos principais: Criação de uma Siderúrgica Nacional e a Renovação das Forças Armadas. Essa postura foi sustentada até o último instante possível, é inegável a capacidade de negociação e como Getúlio soube aproveitar deste interesse de ambos no Brasil, para conseguir suprir suas demandas.

A Alemanha acenava com a proposta de construção de duas usinas siderúrgicas, além de negociar o envio de materiais bélicos, inclusive é realizada uma compra junto a Alemanha especificamente a companhia Krupp. Em contrapartida o Brasil ampliaria o comércio de mercadorias a Alemanha. Já pelo lado americano, o governo ficava dependente de capital privado para a construção da siderúrgica, não demonstravam tanto interesse a participação junto ao governo, e o exército não demonstrava interesse em fornecer materiais bélicos.

O governo Vargas era centralizado, porém sofria influência de figuras presentes no seu corpo político. Dois nomes notáveis do governo eram pró- Eixo, ou seja, acreditavam que o Brasil devia se alinhar comercialmente e militarmente aos alemães, no momento a Alemanha poderia ser considerada o lado vencedor da guerra. Eram eles o General Eurico Gaspar Dutra, então Ministro da Guerra e o também General Pedro Aurélio de Goes Monteiro. Do outro lado estava posicionado o Ministro das Relações Exteriores Oswaldo Aranha, que era favorável ao alinhamento brasileiro com o liberalismo e a unidade do continente americano, além do não crescimento das forças que tendiam ao Eixo.

Durante o período de neutralidade, Getúlio tenta se manter distante dessa dicotomia política e ideológica, mesmo dando declarações que podem ser julgadas e vistas como um namoro ao nazi fascismo, o governo mantem as alianças e comércio visando sempre extrair o que lhe era de interesse, até que se fosse insustentável a neutralidade.

1942: Sangue no Mar e a Perda da Neutralidade

A Segunda Guerra Mundial se inicia em 1939 no continente europeu, tendo como marco a invasão da Polônia pela Alemanha Nazista, porém paulatinamente foi tomando proporções mundiais, e até 1942 a guerra parecia distante ao Brasil e a América do Sul. Podemos considerar segundo Ferraz (2005): “É mais correto dizer que não foram os brasileiros que foram a guerra, mas sim a guerra que chegou aos brasileiros”. Faz muito sentido ao pensar na neutralidade até então estabelecida do governo brasileiro, ao que seria conhecido como o maior conflito bélico da história.

Com o desenrolar da guerra na Europa, o avanço da Alemanha causou preocupações e trouxe ares de incertezas aos EUA e as forças aliadas, após 1940 alemães e italianos inauguram uma nova frente de combate no mar mediterrâneo, após avançaram no norte da África, Grécia e os Bálcãs. A guerra chega a América do Sul após a Alemanha ter acesso as instalações de Dakar (Senegal) colônia francesa que se localiza no ponto mais ocidental do continente africano, o que os deixavam a 8 horas de avião até o continente americano para uma possível invasão, que era considerada pelos americanos A ilha de Fernando de Noronha serviria para aeródromos e recebimento de submarinos.

Após o ataque Japonês a Pearl Harbor em dezembro 1941 aos EUA, começa uma corrida diplomática visando estabelecer alianças com seus vizinhos americanos, e uma campanha de rompimento de relações com Eixo, abrindo mão da neutralidade. Em janeiro de 1942 acontece no Rio de Janeiro, a reunião de Chanceleres onde a maioria dos países latino-americanos rompem relações diplomáticas com as forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). O Brasil estava entre esses que aderiram a causa, e os EUA projetavam a utilização do Norte e Nordeste brasileiro, especificamente as suas bases para a acomodação das Forças Armadas americanas. Assim fomos nos tornando mais próximo dos Aliados, vislumbrando nas negociações com os EUA o inicio da política de industrialização pesada do país.

O Brasil, como vimos a cima, mantinha relações com ambos os lados e, no estourar da Guerra, permaneceria neutro, o que se tornaria insustentável após os trágicos bombardeios aos navios da marinha mercante e de guerra, em 1942 resultando na morte de milhares de brasileiros. Ao todo foram 38 navios entre 1942-1943 atacados pela campanha marítima alemã e italiana na conhecida “Batalha do Atlântico” resultando em milhares de mortes, segue abaixo um documento que traz informações desses ataques aos navios brasileiros, informações como o nome e o comandante do submarino agressor, que nos dão a possibilidade de descobrir a origem dos mesmos. E que vem a elucidar possíveis conflitos de informações, que geram dúvida aos ataques da Alemanha e Itália ao Brasil.

Durante anos foram alimentados boatos de pessoas que eram favoráveis a aliança do Brasil com o Eixo, de que teriam sidos os americanos que praticaram os ataques aos navios brasileiros, assim forçando um posicionamento contrário ao eixo do Brasil. Mas a consulta aos arquivos americanos, britânicos e até alemãs demonstram o contrário.

“Em julho de 1943, quase um ano depois da declaração de guerra brasileira, um avião PBY-5 Catalina afundou um submarino alemão U-199, no litoral do Rio de Janeiro.” (BARONE, 2018).

Aliança Brasil – EUA

Após a declaração de guerra a Alemanha e a Itália, o Brasil ficaria posicionado ao lado dos países aliados, e passaria a se estabelecer então a união entre brasileiros e americanos. Importante lembrar os dois interesses centrais do governo brasileiro: Construção de uma Siderúrgica Nacional, e a renovação de equipamentos para as Forças Armadas.

Em contrapartida, o governo americano tinha interesses claros na posição do território brasileiro, sobretudo as regiões Norte e Nordeste, que nesse momento era conhecida como “Trampolim da Vitória” pois era de suma importância do ponto de vista militar estratégico. Importante ressaltar que o movimento de adesão do Brasil a causa americana, se deu através de negociações longas para dar contorno aos acordos que seriam firmados. O debate sobre a utilização do Nordeste brasileiro começou a ser negociado em 1940 com a criação da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, que tinha como motivação missões de caráter naval e aviação.

Já em 1941 se inicia a intervenção e ocupação do Norte e Nordeste:

De outro lado, Vargas tinha autorizado a construção de bases militares financiadas pelo governo americano: a Panair do Brasil, subsidiária da Pan-American, teve permissão de “construir, ampliar, equipar ou reequipar alguns aeroportos na área vital, situada entre Belém e São Salvador, embora se tenham adquirido as áreas e iniciado a construção muito antes da publicação do decreto (julho de 1941), mediante sua permissão oral (de Vargas) e em caráter privado”. A concessão foi importante, tendo em vista que esses aeroportos eram essenciais ao transporte de aviões e de suprimento para a campanha inglesa no Norte da África, de junho de 1941 em diante.” (MOURA, Gerson pág. 11, 1991)

O próximo passo seria negociar o repasse de armamentos americanos as Forças Armadas, em 1942 após a reunião de chanceleres no Rio de Janeiro, mais precisamente no dia 03 de março. O Brasil entra em um programa americano denominado Lend & Lease para a compra de armamentos, porém o acordo assinado entre as partes “…os Estados Unidos enviariam ao Brasil armas e munições no valor de 200 milhões de dólares” Moura (1991). O pagamento seria arcado em sua maioria pelo governo americano, o Brasil pagaria 35% em 6 parcelas entre 1943-1948. Com esse acordo, o Brasil vê um dos seus objetivos alcançados e suas forças armadas se fortalecem.

Em resposta ao acordo, o governo Vargas responde de modo a facilitar o envio de mais pessoal americano ao Nordeste, além de desburocratizar a atuação dos mesmos, uma certa autonomia.

“Os militares americanos obtiveram permissão para construir quartéis, barracas e outras acomodações; de voar sem obter a aprovação de praxe para o uso de determinado corredor aéreo; de construir armazéns subterrâneos para alimentos; e de ampliar o campo de pouso de Fernando de Noronha” (MOURA, Gerson. página 13.1991)

Ambas as situações acima são acordos que começam a traçar a aliança entre Brasil-EUA, cada vez mais o Brasil estava sendo parte do esforço de guerra americano, e após a declaração de guerra em 22 de setembro de 1942 o Brasil ainda não sabia em qual medida seria seu envolvimento, ressaltando que o Brasil já atendia as demandas americanas, no âmbito comercial, político e militar.

Então no mesmo ano, surge da parte do Brasil, especificamente de lideranças militares e políticas a decisão de que o Brasil deveria se envolver de modo a participar no conflito militarmente, tendo em vista o interesse em posicionar o Brasil nas negociações do pós-guerra principalmente, além de trazer experiencia as forças armadas, tendo em vista a disparidade em que se encontravam. Então se decide a criação de uma Força Expedicionária a ser enviada a guerra, o que se conhece como FEB (Força Expedicionária Brasileira).

O acordo de construção da siderúrgica é fechado em 1941, e é construída a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) em Volta Redonda-RJ com um empréstimo no valor de 20 milhões de dólares junto ao banco Export Import Bank (Eximbank) financiado pelo governo americano.

Considerações Finais

Assim ficam expostas as relações de cunho político e comercial que o Brasil mantinha no decorrer da década de 1930 e até a primeira metade da década seguinte. O governo brasileiro projetava o país como uma futura potência, se almejava a construção de um novo Brasil. Com a necessidade de se posicionar frente aos ataques sofridos na sua costa entre 1942-1943, de autoria de submarinos alemães e italianos, além do movimento interno de interesses a serem extraídos através do envolvimento brasileiro na guerra, o Brasil se posiciona a favor dos Aliados.

Vimos, durante o desenvolvimento deste presente artigo, a política de caráter pendular na negociação com Alemães e Americanos, onde o governo postergou ao máximo a tomada de lado, visando sempre defender os seus interesses. Também é possível perceber que o governo e seu corpo político era divergente no que se refere ao posicionamento brasileiro, forças pró-eixo e pró-EUA estavam lado a lado dentro do governo, que era liderado por um ditador, Getúlio Vargas. Desde o advento do Estado Novo o país vivia sobre um regime autoritário em consonância com os movimentos europeus principalmente após a crise de 1929, e ao chegar o momento de se posicionar perante pressões distintas, o Brasil entra no lado que luta e defende a liberdade e democracia, no embate contra regimes fascistas e autoritários.

Como lutar por democracia e não viver em uma? O envio de tropas brasileiras ao conflito e a participação em geral do Brasil na guerra, pode ser considerado a grande motivação para a queda do Estado Novo que durou de 1937 até 1945, exatamente no ano em que a guerra acaba. Cresce a pressão de grupos políticos conservadores, em um movimento contra o Estado Novo após o término do conflito. A FEB volta vitoriosa da Itália onde ajudou a libertar a mesma do exercito alemão, esses grupos utilizam esse evento para forçar a queda e deposição de Getúlio e seu regime autoritário, o que se concretiza em 29 de outubro de 1945.

A motivação de enviar uma Força Expedicionária como uma maneira de colocar o Brasil nas negociações do pós-guerra não foi a frente, a FEB foi desmobilizada ainda em território europeu e no âmbito mundial o governo recusou o uso da tropa para ocupação na Europa e isso foi um passo atrás significativo na nova organização que estaria por se formar. As expectativas de ser um parceiro preferencial dos Estados Unidos também não se aprofundou, ocorreram mudanças nos cargos referentes a relações exteriores de ambos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARONE, João. 1942: o Brasil e sua guerra quase desconhecida / 2 ed.- Rio de Janeiro: HarperCollins, 2018. 352 p.: il.

FERRAZ, Francisco C. A.. Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. 92p.

FONTES, Ângela Maria Mesquita e LAMARÃO, Sérgio Tadeu Niemeyer. “Volta Redonda: história de uma cidade ou de uma usina”. Revista Rio de Janeiro, Niterói, n. 18-9, jan. – dez  2006, pp. 241 – 53.

MOURA, Gerson.  Relações exteriores do Brasil: 1939-1950: mudanças na natureza das relações Brasil-Estados Unidos durante e após a Segunda Guerra Mundial / Gerson Moura; apresentação de Letícia Pinheiro; prefácio à nova edição de Leslie Bethell. ─ Brasília: FUNAG, 2012.  277 p.; 23 cm.

MOURA, Gerson. Sucessos e Ilusões: relações internacionais do Brasil durante e após a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1991.

MORAES, M. Marechal Mascarenhas de Moraes: Memórias; volume 2; Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército;1969.

PANDOLFI, D. C. . Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getulio Vargas, 1999.