Nina Rodrigues e o pensamento eugenista: raiz do preconceito étnico-racial no pensamento brasileiro.

Luan Reis da Silva, graduando em História pela Universidade Federal Fluminense. Bolsista do programa “Viva ciência” da prefeitura de Campos dos Goytacazes, integrante do projeto de extensão “Museu Itinerante” da UFF-Campos,ambos coordenados pela professora Marcia Carneiro. Membro do Laboratorio de Estudos da Imanencia e da Transcendencia,  “LEIT”, estuda e pesquisa acerca do patrimônio cultural (material e imaterial).

Nina Rodrigues e o pensamento eugênista: raiz do preconceito étnico-racial no pensamento brasileiro. 

Luan Reis da Silva

Resumo:

O  presente  artigo  busca  a  partir  de  reflexões  da  atualidades  identificar permanências em relação ao preconceito racial no Brasil. Propomos um debate em relação a  historiografia positiva  e  o  pensamento  eugênico,  utilizando  do  pensamento  de  Nina Rodrigues enquanto fonte deste tipo de ideia cientifica, buscando identificar o alicerce do preconceito cultural e religioso. o artigo está dividido em: “Ciência positiva e Eugênia de mãos   dadas:   instrumentos   “científicos”   de   legitimação   do   Racismo   estrutural   no pensamento brasileiro”; “Pensamento de Nina Rodrigues em relação a cultura e religião afro-brasileira”; “Complexidade da figura arquetipica de Exú”.

Palavras-chave: Eugênia, Positivismo, Mitologia Iorubá.

Introdução:

O ano de 2019 foi marcado por inúmeros ataques aos terreiros de Candomblé e Umbanda.  Não  é  de  se  estranhar  ler  esse  tipo  de  noticia,  apesar  de  ser  atitudes inadmissíveis vivemos em um país que tem enraizado inúmeros tipos de preconceito, seja de   credo,   étnico-racial,   gênero   ou   classe.   É   importante   entender   como   a   onda conservadora  neopentecostal  -que  atinge  atualmente  o  Brasil-  são  legitimados.  Não obstante,  temos  um  presidente  eleito  propagando  inúmeros  discursos  de  ódio  e preconceito, demonizando tudo e todos que não se enquadram na lógica heteronormativa, étnica, cristã e de classe. “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”1, com esse slogan já podemos identificar o projeto homogeneizador em curso em nosso país. Que Deus é esse que está acima de tudo? Os deuses dos panteões dos povos indígenas e povos negros estão nesse conceito de “Deus”? Esse Brasil que está acima de todos, é o país multiétnico? Multicultural?  Que  possuí  inúmeras  identidades?  Complexo  em  suas  relações?  Os seguidores de tais doutrinas sentem-se legitimados a atacar outras cosmogonias, seja pelo discurso político ou religioso dentro das igrejas evangélicas.

Os  ataques  ocorreram  para além  do  campo  simbólico,  acometendo  também  os corpos e instrumentos de culto dos praticantes de outra visão cultural e religiosa, um total desrespeito com as pessoas que partilham dessa cultura e crença. Segundo o Babalawo Ivanir dos Santos 2, em entrevista a Folha de São Paulo, em setembro deste ano a comissão de combate a intolerância religiosa recebeu um total de 200 casos de ataques à terreiros. Inclusive a cidade de Campos dos Goytacazes, ocorreu um grande número desses ataques; os “traficantes de Jesus” obrigaram inúmeros terreiros da região a fechar as portas, com o discurso de que essas pessoas são adoradoras do “Diabo”.  Que tipo de pensamento está norteando  esses  ataques?  Por que o racismo religioso  continua tão  presente em nossa sociedade?  Na  tentativa  de  elucidar  essas  questões,  precisamos  nos  debruçar  sobre  a história, pois a partir dos processos históricos conseguiremos refletir que tipo de memória e estigmas são deixados pela sociedade.

O presente artigo busca analisar criticamente o pensamento eugenista no Brasil, a partir da leitura do livro de Nina Rodrigues “Os Africanos no Brasil”, relacionando com a historiografia positiva, a qual pode ser entendida como um instrumento de legitimação das religiões de matriz africana, como diz na matéria da Folha de São Paulo.

do preconceito étnico-racial e religioso; afinal essa cultura tem cor e classe. Tentaremos apontar  os  perigos  que  estão  amalgamados  no  pensamento  de  uma  única  história  e cosmogonia  da  humanidade;  e  a  forma  como  a  persistência  de  preconceitos  foram desenvolvidos e legitimadas pelo progresso cientifico.

 

Ciência positiva e Eugênia de mãos dadas: instrumentos “científicos” de

legitimação do Racismo estrutural no pensamento brasileiro.

O positivismo foi uma corrente filosófica. August Comte (1798-1857), Francês, foi o fundador e um dos maiores representantes deste tipo de pensamento, no século XIX. A historiografia deste período, no intento de fazer com que a História fosse legitimada enquanto  ciência,  partilha  dos  pensamentos  da  filosofia  positiva.  Segundo  José  de D´Assunção Barros, os positivistas buscavam escrever a história a partir da objetividade; na escrita de uma “história universal” da humanidade; pautada na “imparcialidade” do sujeito   produtor   do   conhecimento.   Para   ele   três   aspectos   são   essenciais   para   o entendimento  deste  conceito  histórico:  “Objetividade”,  “padrão  metodológico”  (de acordo com o modelo das Ciências Naturais) e a neutralidade –do sujeito- na produção do  conhecimento  histórico.  Essa  linha  de  pensamento,  recebe  influência  direta  do Iluminista do século XVIII. Para Barros, o pensamento positivo acrescenta o conceito de ordem, fazendo com que tenham uma caracteristica conservadora ao movimento.

Em  meados  do  séc  XIX,  o  evolucionismo historicista  torna-se uma tendëncia importante e exemplificam-se nas obras dos historiadores Taine, Renan e Buckle, contribuem consolidação do movimento.

A História da civilização na Inglaterra,  publicada por Henry Thomas Buckle (1821  – 1862) em 1857, por exemplo, está repleta de referências à ideia de “progresso” – geralmente relacionada aos  avanços  tecnológicos  e  ao  conjunto  das  explicações  científicas  para  os  diversos fenômenos  naturais  e  sociais  –  e  também  aparecem  as  referências  aos  “estágios  da civilização”, estabelecendo-se uma hierarquia entre sociedades que situam a Europa no topo  das civilizações e situando os povos americanos e africanos em uma escala inferior, primitiva.

A partir dessa visão hierarquizada dos povos, onde os europeus estão no topo da pirâmide evolutiva, vemos como a História deste período, foi utilizada como instrumento legitimador para a colonização de povos que possuíam outras visões de mundo. Visões não ligadas a produção industrial, ao capitalismo, à burocracia do Estado moderno e a superioridade do humano a natureza. Sob o estigma do atraso dos povos não europeus, o Brasil estaria fadado à selvageria, pois grande parte da sua população era mestiça, a miscigenação vira um conceito de disputas e legitimação colonizadora. A eugenia  é o conceito  utilizado  por  médicos,  para  a  validação  da  inferioridade  das  populações  não brancas. Possuindo inúmeros adeptos  no Brasil. Analisaremos o conceito de eugenia no Brasil, fazendo a sua relação com a História positiva.

Na  introdução  do  livro  “Raça  Pura”  de  Pietra  Diwan,  a  autora  nos  convida  a entender  a  eugenia  como  uma  disciplina (pseudo) cientifica,  onde  busca  realizar  o  “método  de seleção humana baseada em premissas biológicas” (Diwan, 2007, p. 10). A autora utiliza da “metáfora da árvore” para exemplificar as disciplinas que estão na raiz do pensamento eugênico.  Pietra  Diwan  diz  “genética,  antropologia,  estatística,  genealogia,  biografia, medicina, psiquiatria, cirurgia, economia, leis e testes mentais figuram entre as disciplinas dispostas nas raízes dessa árvore eugênica” (Diwan, 2007, p. 14). A História, nesta perspectiva,  estaria  em  segundo  plano,  pois  neste  ideário  social  a  escrita  da  História estaria ligada aos grandes feitos. Proposta similar ao da historiografia positiva, dá grande História, da busca por leis gerais com base nas ciências naturais, como exposto no inicio deste artigo. O pensamento eugênico está totalmente ligado a dominação e exclusão do que na ideia cientifica estava emparelhada aos povos não evoluidos, aos não brancos, não europeus. A preocupação dos médico-cientistas estava no melhoramento da raça humana, tendo em voga questões como: “os fenômenos ligados à população, tais como epidemias, a miséria e o trabalho industrial, criarão novas estratégia de controle do corpo” (Diwan, 2007, p. 14).

A entrada do pensamento eugenico no Brasil, ocorreu a partir de viagens dos filhos da elite imperial brasileira à Europa, também a partir das expedições cientificas que  vieram  ao  país.  Segundo  essa  perspectiva,  o  Brasil  não  conseguiria  chegar  ao progresso,  pois  os  povos  daqui  eram  mestiços.  De  acordo  com  este  pensamento,  a mestiçagem era um fator anti-evolutivo, pois a mistura faria com que os genes mais fracos permanecessem  nas  raças,  gerando  defeitos  e  imperfeições,  seja  no  biológico  ou  no cultural/religioso. Apesar das raças brancas, indigena e negra serem consideradas raças puras, havia a superioridade da raça branca, identificado pelo “progresso” cientifico e tecnologico europeu. Segundo Pietra

A constatação, por parte dos europeus, da impossibilidade de progresso do Brasil dada a sua composição racial criou na intelectualidade brasileira a necessidade de formar uma concepção sobre o Brasil. O sucesso do positivismo de August Comte na Europa inspirou também muitos pensadores brasileiros. A filosofia positiva preconizava a reforma da sociedade tendo em vista seu funcionamento racional, tal qual um organismo ou máquina. (Diwan, 2007, p. 10)

Podemos identificar que essas duas correntes partilhavam inúmeros preceitos. A cultura popular com raízes africanas, pode ser  entendida a partir desse pensamento enquanto  atrasada,  pois  os  negros,  apesar  de  serem  igualmente  uma  raça  pura,  eram inferiores aos brancos. A inferioridade dessas raças está ligada a perspetiva de falta da racionalidade, e por possuirem uma organização social e cultural diferentes dos padrões europeus; os povos africanos possuíam um outro tipo de relação com o mundo. A ciência -seja  humana  ou  natural-  portanto  legitima  o  racismo  estrutural  durante  esse  período histórico.  Podemos  identificar  na  nossa  sociedade  a  permanência  deste  pensamento, principalmente no que concerne as identidades culturais não hegemônicas, legado dos Indios e Africanos, persistindo ao longo do tempo através dos mestiços. Para o grupo chamado “Escola Nina Rodrigues”, que partilhavam desta ideia, a miscigenação era a razão  para  a  criminalidade,  loucura  e  doenças.  Prosseguiremos  agora  analisando  o pensamento de Nina Rodrigues no livro “Os Africanos no Brasil”, dando foco às questões relacionadas a cultura e religião de matriz africana, tentando identificar como esse grupo étnico era enxergado pela intelectualidade e sociedade brasileira do fim do século XIX, início do XX. Identificando também as rupturas e continuidades deste tipo de pensamento no Brasil contemporâneo.

Pensamento de Nina Rodrigues em relação a cultura e religião afro- brasileira

Nina   Rodrigues   (1862-1906)   escreve   a   partir   da   lógica  eugenista.   Lógica legitimada pela Ciência que buscava o progresso e a ordem. A aplicação do conceito de Darwin   as   questões   sociais,   fizeram   com   que   não   pudéssemos   compreender   a complexidade que compõe as relações sociais. Utilizo-me do conceito de complexidade de Edgar Morin para refletir sobre a temática proposta.

Segundo Morin a ciência positiva de certa forma e questões individuais e singulares, buscando compreender apenas o todo, focando em leis gerais, analisando às questões  cientificas  a  partir  de  identidades  simples  e  generalizantes esquecendo das especificidades   dos   grupos   identitários.   Amalgamados   na   ideia   de   progresso   das sociedades, tendo como exemplo o desenvolvimento científico e tecnológico europeu. Para o autor é extremamente necessário o entendimento de questões gerais, mas para a compreensão da complexidade das relações sociais, é necessário o entendimento do micro e a relação com o macro, que em muitas vezes podem ser antagônicas.

Analisando o contexto histórico em que o autor está escrevendo, compreendemos a  partir  de  que  perspectiva  os  sujeitos  históricos  estão  produzindo  conhecimento. Sabemos que somos homens do nosso tempo, como diz Marc Bloch, por este motivo deduzimos  o  compartilhamento  de  visões  de  mundo,  pautada  na  ciência,  cultura, economia do período histórico estudado. Consequentemente, enxergamos que este tipo de pensamento pode estar ainda cristalizado em alguns extratos da sociedade.

No capítulo VI (“Sobrevivências totêmicas: festas populares e folk-lore”) do livro “Os Africanos no Brasil”, Nina Rodrigues faz uma análise etnográfica em relação as festas e cultura negra, enquadrando enquanto folclore, algo do imaginário, inferior. Apenas nesse enquadramento da cultura do outro -enquanto folclore- podemos identificar a relação de hierarquização  cultural.  A  cultura  hegemônica  europeia  não  considera  as  culturas  de classes  populares  ou  de  povos  com  outro  tipo  de  cosmogonia  enquanto  legitimas, adjetivando  essas  culturas  enquanto  atrasadas;  do  bárbaro;  da  selvageria.  Segundo  a concepção  gramsciana  é  indissociável  cultura  e  linguagem,  a  partir  disso,  podemos identificar como as palavras para expressar a cultura de outrem trazem pejorativamente ideias,  por  sua  vez,  essas  ideias  legitimam  a  inferioridade/superioridade  de  diversas culturas.

Neste  capítulo  o  autor  está  relacionando  a  sobrevivência  do  “Totemismo”  na sociedade  brasileira,  a  partir  das  festas  populares  e  do    “folk-lore”.  Para  Nina  a organização das mitologias negras estava ligado ao estado mental dos “selvagens”. Para a psicologia deste período, os selvagens são os homens que

“Estendendo inconscientemente a todo o Universo a consciência obscura que tem da própria personalidade, considera todos os objetos naturais como  seres  inteligentes  e  animados;  que,  sem  tirar  uma  linha  de demarcação bem nítida entre ele e todas as coisas que existem neste mundo,    facilmente    se    convence    que    os    homens    podem    ser transformados em plantas, em animais ou em estrelas, que os ventos e as nuvens, o sol e aurora são pessoas dotadas das paixões e qualidades humanas   e   sobretudo   que   os   animais   podem  ser   criaturas   mais poderosas do que ele próprio e, em certo sentido, divinas e criadoras.”(Rodrigues, 2010, p. 197.)

A  mitologia  Ioruba  propõe  uma  outra  relação  entre  “humano  x  natureza”, compreende que somos parte da natureza, da mesma forma que as árvores, mares, rios e tudo que está no universo. A ideia hegemônica desse período é dicotomica, pois o humano é  posto  exterior  a  natureza  que  lhe  certa.  Segundo  a  mitologia  cristã,  “Deus”  criou  o “homem” a sua imagem e semelhança, dando-lhe “autoridade” de “reinar” sobre o meio natural. Segundo Gêneses Capítulo 1, versiculo 26:

 “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra.

27 E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou.

28 E Deus os abençoou e Deus lhes disse: Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.”

A partir deste versiculo podemos identificar como a visão cristã ocidental em relação  a  natureza foi adaptada ao evolucionismo do seculo XIX.  Uma  relação  baseada  na  dominação  do  humano  sobre  o  natural; associada  a  ciência  e  ao  progresso.  Os  Iorubas  possuíam  uma  visão  antagônica, enxergavam o humano enquanto parte do meio natural, não exterior. Nina relaciona esse tipo de visão a não evolução dos povos e ao “ser” selvagem, sendo eles totemicos. No ponto de vista social, o selvagem é o homem que faz repousar suas leis sobre as regras bem definidas do totemismo, isto é, do parentesco do  homem  com  os  objetos  naturais,  e  que  se  apóia  sobre  o  caráter sagrado  desses  objetos  para  motivar  as  interdições  em  matéria  de casamento  e  as  vinganças  obrigatórias  (blood-feuds),  que  faz  da habilidade na magia um título a uma posição elevada. (Rodrigues, 2010, p. 197.)

Podemos detectar como a antropologia do fim do século XIX, início do XX estava imersa  também  no  pensamento  positivo,  pois  a  etnografia  empreendida  por  Nina Rodrigues está envolta em uma descrição carregada de preconceitos em relação a cultura do outro. Segundo Clifford Gueertz para uma interpretação densa da cultura, é necessário entender  as  relações  culturais  enquanto  uma  teia  de  significados,  lendo  as  relações enquanto um texto. Por sua vez o etnógrafo em campo procura entender as significações de determinados pensamentos culturais em que estão estudando. Muito diferentemente do que é empreendido por Nina Rodrigues, em que hierarquiza a diversidade cultural, rebaixando a cultura negra ao atraso. Analisaremos na próxima parte do artigo o discurso de Nina Rodrigues, ressaltando as questões referentes às religiões de matriz africana, o olhar  do  autor  sobre  essas  religiões,  contrapondo  está  visão  com  a  mitologia  Ioruba. Utilizaremos a fala do autor acerca do Orixá Exú, sendo considerado -até nos dias atuais- pela cristandade como o “Diabo”.

Complexidade da figura arquetípica de Exu

Nina   Rodrigues   inicia   o   capitulo   VII  (“Sobrevivências   religiosas   religião, mitologia e culto”) dividindo a questão religiosa brasileira em três conjuntos, por sua vez esses conjuntos estão relacionados a uma hierarquia evolutiva. O primeiro conjunto está relacionado ao monoteísmo católico, para ele é a forma religiosa mais elevada e praticada por uma pequena parcela da população brasileira. O segundo conjunto está relacionado a idolatria dos Santos Católicos, abrange a massa popular (Brancos, Mestiços e Negros), de acordo  com o  autor mais  inteligentes  do que os  praticantes  do terceiro  conjunto, mas inferior ao modelo monoteísta do primeiro. O terceiro conjunto está ligado ao “animismo Negro”, nas crenças da mitologia Ioruba do homem enquanto parte da natureza. Segundo Rodrigues:

“Vem finalmente o fetichismo estreito e inconvertido dos africanos das tribos mais atrasadas, dos índios, dos Negros crioulos e dos Mestiços do mesmo nível intelectual. Naturalmente estas camadas espirituais não têm senão os limites que lhes impõem a abstração e a análise e por toda parte se fundem e se penetram.” (Rodrigues, 2010, p. 241.)

Podemos  fazer  um  paralelo  em  relação  ao  preconceito  ainda  existente  na contemporaneidade em relação as religiões de matriz africana, esse tipo de pensamento aceito  e  muito  difundido  no  período  histórico  em  questão  podem  ser  evidenciados enquanto raizes do racismo religioso. Falaremos de uma personagem muito complexa do panteão Iorubá, Exú. Figura complexa, pois carrega em si inúmeros antagonismos, sendo relacionado inclusive pelos não praticantes da religião enquanto o “Diabo”.

Segundo a concepção de Nina Rodrigues, Elegbará está associado aos “prazeres da sensuais” e da “luxúria”. Está concepção não é de todo incorreta, mas essa personagem carrega  muitos  outros  significados. Existe  uma  complexidade  na  identidade  de  Exú, diferentemente desta visão superficial e pejorativa. Para entendermos intrisecamente está figura, precisamos decifrar o arquétipo envolto a ela. Segundo Verger, o arquétipo dos Orixás  nos  povos  iorubanos  estava  ligada  a  ancestralidade,  a  familia  e  aos  laços sanguinios. Com a vinda desses povos para a América ocorre uma resignificação, por conta  da  intercessão  de  diversos  povos  africanos.  Para  os  mestiços  praticantes  das religiões   de   matriz   africana,   esses   laços   ocorrem   a   partir   de   “afinidades   de temperamento”,  personalidade  individual  que  corresponde  ao  arquétipo  do  Orixá. Segundo Verger

“Podemos  chamar  essas  tendências  de  arquetipos  da  personalidade escondidas das pessoas. Dizemos escondidas porque, não há nenhuma dúvida, certas tendências inatas não podem desenvolver-se livremente dentro de cada um, no decorrer de sua existência, se elas entrarem em conflito com as regras de conduta, admitidas nos meios em que vivem. A educação  recebida  e  as  experiências  vividas,  muitas  vezes,  são  as fontes  seguras  de  sentimentos  de  frustração  e  de  complexos,  e  seus consequentes bloqueios e dificuldades.” (VERGER, 1990, p. 34)

Entendendo basicamente a relação arquetipica entre os Orixás e os adeptos das religiões, falaremos especificamente do arquétipo de Exú (Elegbará). Exú é considerado um  deus  Trikster,  mensageiro  do  mundo  dos  deuses  ao  mundo  humano.  É  associado, segundo   Ford,  enquanto   o   “guia   interior”,   levando   a   percepções   e   revelações transformadoras de hábitos limitantes. Por este motivo é o Orixá dos caminhos –abrindo ou  fechando  eles-,  o  senhor  das  encruzilhadas.  Para  pensar  a  encruzilhada  podemos entender enquanto um local que possuí quatro entradas e saídas, que podem levar para outros espectros de vida. Exú tem em si a conotação da travessura, do pregador de peças, que em muitas vezes pode ser entendidas enquanto maliciosas, mas são carregadas de aprendizados e questões morais; possuí também a conotação sexual, como Nina relaciona em seu livro. Segundo Ford “A sexualidade é, evidentemente, o grande fator de motivação oculto dos homens  e  mulheres,  e  a  intenção  de  Exu  é  desvelar  e  expor  nosso relacionamento a essa dinâmica energia vital.”(FORD, 1999, p. 225)

Dessa  forma,  podemos  identificar  que  esse  Orixá  trabalha  sendo  “a  própria personificação  da  energia  vital  sexual”  (FORD,  1999,  p.  225).  Ligado  aos  ciclos  de ruptura e continuidade do sujeito em vida. Equilibrio entre as antagonias da personalidade humana. Ford concluí sua análise em relação ao arquétipo de Exú da seguinte maneira:

Exu é o  grande  mediador das forças contrárias da vida.  Ao negociar com os deuses, como faz com frequência nos mitos iorubanos, ele reafirma um equilíbrio, por exemplo, entre a compaixão de obatalá e o espírito guerreiro agressivo de Ogum. E, se esses deuses estão dentro de nós, então Exu representa o caminho interno que contrabalança todas as  tendências  opostas  da  nossa  personalidade  e,  talvez,  exija  um empenho tão obstinado e capaz de abalar uma situação quanto o velho que passou entre os pretensos grandes amigos. (FORD, 1999, p. 225)

A partir  de  uma  compreensão  mais  profunda  em  relação  aos  mitos  iorubanos, identificamos  como  o  pensamento  de  Rodrigues  é  inconsistente  em  relação  a  complexidade  de significações  dos  mitos  das  religiões  de  matriz  africana.  Mas  em  um  tempo  onde  o progresso e a hierarquização dos povos era hegemonica, compreendemos a partir de que lugar o autor fala e, podemos identificar permanências neste tipo de pensamento.

Considerações finais:

Tentamos ao longo do artigo pensar em como os preconceitos estruturados em nossa  sociedade  foram  legitimados,  a  partir  da  ciência  e  do  pensamento  colonizador. Existem inúmeros pontos que necessitam de um aprofundamento, visto que é um tema extremamente complexo. Podemos identificar que existem inúmeras continuidades em relação ao pensamento eugenista no Brasil,pensamento esse que precisa ser questionado e refutado a partir da reflexão entre teoria e prática. O conhecimento é libertação, sem conhecer a cultura do outro caímos em uma armadilha, pois acreditamos em uma única forma  de  existência,  a  humanidade  é  muito  mais  complexa  em  suas  relações  e  não podemos acreditar em verdades absolutas, totalizantes.

Notas:

1  Slogan utilizado pelo presidente eleito em campanha.

2  Históriador e provavelmente umas das maiores referências acadêmica sobre a história de perseguição.

3  Orixá do pateão Iorubano. Podem ser associados a Exú o nome: Elegbará.

 

Referências:

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RODRIGUES, RN. Os africanos no Brasil [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas  Sociais,  2010.  pp.  239-286.  Sobrevivências  religiosas  religião,  mitologia  e culto.      ISBN:      978-85-7982-      010-6.      Available      from      SciELO      Books

<http://books.scielo.org>.

Ano Novo – Calendário e Sentimento

Sentimos a passagem do tempo de duas maneiras: a que compreende as datas inscritas no calendário, as efemérides; e a natural, na qual o tempo é fluido, está ligado ao movimento da Terra em torno do Sol, que nosso planeta completa a cada trezentos e sessenta e cinco dias e seis horas, aproximadamente. O fato de a órbita ser elíptica e a inclinação do eixo da Terra são responsáveis, numa visão simplificada, pelas estações do ano e sua mudança; o chamado solstício ocorre quando a incidência dos raios solares é máxima num hemisfério da Terra, o início do verão, e mínima no outro, o início do inverno.

Tais eventos não dependem de convenção, ocorrem em datas e horários que atualmente são determinados com grande precisão; outras efemérides marcam datas em que determinados acontecimentos significativos ocorreram, sem tantas minúcias, a menos que se seja autor de “mapa astrológico”.

O início de um novo ano poderia ser marcado para qualquer dia, considerando o movimento circular da Terra que é, conforme se sabe há uns dois mil anos, redonda. O dia primeiro de janeiro foi convencionado como início do ano em 1564, pelo rei Carlos IX da França ao adotar o calendário gregoriano, até então o ano novo era comemorado no equinócio da primavera, entre os dias 25 de março e 1 de abril. O primeiro de abril passou a ser o “dia da mentira” quando muitas pessoas não se conformaram com a mudança e passaram a ser vítimas de brincadeiras de amigos, que as convidavam para festividades inexistentes de ano novo nesse dia.

Chineses, embora atualmente adotem o calendário ocidental por pragmatismo, mantém o seu calendário lunar para festividades, o ano novo chinês será no dia 25 de janeiro de 2020. O ano judaico 5781 terá início no dia 18 de setembro de 2020, segundo a tradição será comemorado de modo introspectivo e espiritualizado.

Os primeiros relógios fabricados não tinham ponteiros de minutos, pois além das prováveis dificuldades técnicas, praticamente ninguém tinha necessidade de saber que eram exatamente três horas e quarenta e sete minutos, por exemplo. Bastavam os sinais da Natureza quanto ao tempo de plantar e de colher, de alimentar os animais e ordenhar vacas e cabras, quando o sol se punha era hora de dormir, quando começava a clarear hora de levantar e trabalhar. A vida cultural e espiritual era regrada pelos sinos das igrejas chamando para a missa e conclamando as orações. Uma vida mais simples? Talvez, mas a expectativa média de vida era de trinta e cinco anos, se a pessoa tivesse muita sorte.

Hoje, comemoramos o Réveillon como se não houvesse amanhã, e segundo alguns pode não haver mesmo mas estes são exagerados. Ruy Castro, em seu livro “Metrópole à beira-mar” lembra a excelência e a loucura do Carnaval de 1919 no Rio de Janeiro, “quem sobreviveu não perderia por nada aquele carnaval”. A sobrevivência citada é à Gripe Espanhola que, entre 1917 e 1918, matou no mundo entre 20 e 50 milhões de pessoas. Não é coincidência, a períodos de grandes catástrofes seguem-se tempos de expiação sucedidos por grandes festas.

Rituais são importantes, nos conectam com o tempo e a vida, e com a passagem do tempo e da vida: vestir branco ou outra cor, pular ondas, comer ou não certos alimentos, abraçar entes queridos; isso provavelmente não terá influência em nossa saúde, e vida financeira ou afetiva, mas fará muita diferença na maneira de vermos a vida.

Carl Jung, o pouco convencional criador da psicologia analítica e cujos estudos ainda influenciam também a antropologia, filosofia e teologia, conta do xamã de um povo “primitivo” que teria como principal atribuição conjurar o nascer do sol toda madrugada. E teria dito: “talvez o sol precise mesmo ser ajudado a nascer todos os dias”.
Vamos trazer o sol para nossa vida. Feliz Ano Novo!

O “pé no coco” nasceu aqui!

FELIPE ROCHA CORVINO

Nascido em Niterói, criado em Araruama na região dos lagos e versado nas gramaticas das ruas e dos bares – da Tijuca ao Morrinho, em Campos dos Goytacazes. Historiador vascaino e mambembe que vive de samba, ama cerveja, apaixonado por futebol e craque na arte de flanar.

 

O “pé no coco” nasceu aqui!

Outro dia li um artigo sobre Araribóia, o temiminó que fica imóvel em Niterói e olha com cara de enfezado para o outro lado da baía de Guanabara, como se estivesse encarando o horizonte. Um indiozão com aquele corpanzil todo intimida mesmo paradão na dele. No mesmo dia, por um acaso do destino, encontrei meu amigo Alexandre, um historiador mambembe como este que vos escreve, e comentei do texto supracitado.

De imediato, ele abriu um sorriso de orelha a orelha e me indicou ler um livro do Jean de Léry, chamado “Viagem a terra do Brasil”, que conta detalhadamente sua aventureira estadia por quase um ano entre os tupinambás, depois que Villegagnon foi enxotado daqui e a sua tentativa de estabelecer a França Antártica pelas bandas de cá em meados dos anos 1550 foi para as cúcuias.

Para não criar um fuzuê, vamos dar nomes aos “bois” antes de retomarmos a anedota. Nicolas Villegagnon foi um capitão enviado para o nosso litoral por Henrique II e Catarina de Médici, com o intuito de estabelecer uma colônia e controlar o comércio, passando a perna nos portugas que haviam chegado por aqui tempos antes. Os temiminós eram índios grandalhões, fortões, bons caçadores, bons agricultores e inimigos dos tupinambás desde tempos imemoriais e eram sediados na atual Ilha do Governador. Uma outra parte de sua tribo se encontrava no litoral sul do atual estado do Espírito Santo, perto de Campos dos Goytacazes, que por sua vez, era onde habitavam os índios Goitacá que, segundo boatos, nadavam melhor que o Michael Phelps e o Cézar Cielo juntos e caçavam tubarões  na praia de Atafona na base do sopapo, desciam o sarrafo nos peixões e nocauteavam os bichos sem dó. Coisa pra deixar o Hulk verde… de medo! Os tupinambás, índios não tão maiores que a estatura média dos europeus, fortes pra caramba, habilidosos para caça e cuidados da terra, chegados numa pancadaria e pinguços de primeiríssima categoria – sim, eles entortavam a caveira de pinga feita da fermentação de frutas tropicais como caju, abacaxi ou milho, e a gringalhada ainda acha que inventou o uísque (inocentes)- e se encontravam no centro do Rio, entre a Carioca e o Flamengo.

Reza a lenda que, antes de patrocinarem a ida de Villegagnon ao Rio, rolou uma apresentação aos reis de França com tudo que teve direito-  araras, bichos exóticos, um monte de plantas e flores nativas e uma indiarada danada pra interpretar um combate entre os tupinambás e uma tribo inimiga. Esses, depois que venceram a batalha balançavam seus portentosos cacetes pornográficos – de dar inveja ao Kid Bengala e vergonha a nós, pobres mortais desprivilegiados. A boca miúda, diz-se que Catarina ficou impressionadíssima e depois desse forrobodó todo, não deixou os índios irem embora de jeito nenhum. Ela gostou tanto da coisa que começou a usar cocar e fazer “glú glú” em tudo quanto era canto do palácio.

Depois desse breve panorama dos nossos atores, retornemos a nossa história e aos devaneios desse maltrapilho escriba que não dispensa uma gelada. Como foi anteriormente dito, diferentemente dos índios alegóricos de hoje em dia que ficam com aquele papo de cachimbo da paz e o escambau, na raíz da coisa o pau cantava e a porrada estancava, principalmente entre os temiminós e os tupinambás. Os temiminós foram expulsos da Ilha do Governador pelos tupinambás que se “aliaram” a francesada que, por sua vez, encontraram “apoio” nos portugas e lhes foi prometido terras do outro lado da baía (atual Niterói) para se reagruparem e tomarem conta de invasões por aqueles cantos.

Entretanto, ao invés de resolverem esse quiproquó todo na mão, por intervenção divina ou pelo diabo que o parta, um coco verde caiu no chão e ambos os lados tiveram uma ideia brilhantemente maluca: disputarem o território num jogo. Como assim? Pois é senhores, um jogo. Mas que tipo de jogo? Por quantas pessoas? Com quais regras? Vamos para as respostas desse delírio que tive depois de secar umas garrafas de vinho. O jogo se assemelha muito ao nosso esporte preferido, o futebol. Mas obviamente não se chamava “football” e sim “pé no coco”. O campo de jogo era o dobro do tamanho (o que não faltava era mato e tinta pra fazer as marcações e madeira para fazer as traves) e o números de jogadores era o dobro em cada equipe, vinte e dois de cada lado. Não tinha goleiro, só podia fazer gol se entrasse com bola e tudo, só rolava substituição quando alguém saía lesionado por conta de alguma entrada escandalosamente forte, que deixaria o Arnaldo de cabelo em pé. O juiz do jogo era escolhido da seguinte forma: o chefe da tribo escolhia alguém da outra tribo pra apitar uma parte e assim era feito pelo adversário na segunda metade da partida, não tinha impedimento, e a porfia duraria do raiar do sol até o seu desaparecimento para dar lugar a lua, com intervalo ao meio dia para recuperar as forças e tomar um cauim (esse era o nome da birita que os tupinambás faziam das frutas tropicais).

Agora imaginemos aquela “indiarada” toda peladona, com cara de enfezada numa peleja que definiria quem seria, de fato, o dono do pedaço. Tenho a impressão que ali se deu início o primeiro Vasco e Flamengo. De um lado os temiminós e os portugueses (Vasco) e do outro os tupinambás e franceses (Flamengo). E nas “tribunas de honra” um lusitano pra lá de barrigudo, baforando uns charutões, fazendo um fumacê danado, com cara de poucos amigos e de conchavo com o cacique da tribo aliada e do outro um francesinho metido a besta cheio de não me toques e ar de superioridade. Pois foi assim mesmo que aconteceu. O certame foi narrado pelo Galvão Bueno da época com direito a inúmeros: “isso é teste pra cardíaco” e “haja coração, amigo”. Torcidas em êxtase, com os nervos à flor da pele, quase saindo no sopapo e deixando o jogo em segundo plano. Felizmente isso tudo foi contornado e a pelada dos peladões teve o “apito inicial”

Jogo tenso, nervoso e com muita gente saindo contundida e tendo que dar lugar ao companheiro, afinal, valia muito e ninguém queria dormir de cabeça inchada. Rolam boatos que haviam alguns cracaços envolvidos, relatos denotam que do lado dos temiminós e portugas haviam gente do calibre de Eusébio, Mário Coluna, Figo, Cristiano Ronaldo, Rui Costa, Romário, Ricardo Gomes, Juninho Pernambucano (que estava na dúvida entre qual lado escolheria, mas na hora o coração falou mais alto e ficou do lado lusitano) e Denner. O outro lado não deixava por menos e dizem que muito lembravam Zidane, Platini, um que era um fio desencapado danado era igualzinho ao Cantona, Zico, Aldair e um que gostava tanto de um goró que já naquela época ficou conhecido como “Adriano imperador do cauim”.

Só sei que o jogo foi quente pra chuchu e levou a rapaziada ao delírio. Por fim, a vitória dos lusos e temiminós aconteceu por um apertado 10 a 8, a francesada foi enxotada pra fora da França Antártica e Mem de Sá fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no ano de 1565. Por muito pouco a gente não tem que falar fazendo biquinho. Só que uma coisa ainda me deixa com a pulga atrás da orelha: assim como os estadunidenses acham que inventaram o “uísque” ou “bourbon” (aquele feito com xis por cento de álcool de milho) a gente viu que por aqui isso já rolava fazia tempo. Quem me garante que o escoceses que faziam a guarda de Villegagnon não ficaram encantados com o jogo praticado por aqui, voltaram pra sua ilha britânica, deram uns retoques nas regras e por fim, na mão grande, falaram que inventaram o “football”? Sei não…sempre achei estranho esse negócio da rapaziada da Grã-Bretanha ter inventado um esporte que só é o que é pelo nosso improviso, gingado, malemolência e malandragem. Vou até ficar caiunado (bêbado) de novo pra não perder o costume.

LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. São paulo: Primavera, 1998

ABREU, Maurício de Almeida. Geografia histórica do Rio de Janeiro (1502 – 1700) parte 1. Rio de Janeiro: Andréia Jakobsson Estúdio editorial e Prefeitura do Estado do Rio de Janeiro, 2010.

 

O Ensino de Estatística nas Escolas Técnicas de São Paulo – ETC através de projetos interdisciplinares

Mestranda Jaqueline de Oliveira Costa

Profa. Dra. Vivili Maria Silva Gomes

Profa. Dra. Ana Maria Dietrich

 

RESUMO

O presente estudo tem como objetivo estimular a reflexão de práticas pedagógicas interdisciplinares aos docentes, por meio de destacar o ensino de estatística na prática educativa, focalizando essa modalidade no Ensino Profissionalizante através de utilização de metodologias ativas e o desenvolvimento de habilidades cognitivas a partir de projetos interdisciplinares. A fundamentação teórica está centrada nos aspectos socioculturais que consideram a estatística como disciplina de mesmo valor que as demais já institucionalizadas. Desse modo, dialogaremos com autores e documentos que direcionam o processo de ensino e aprendizagem de estatística em sua abrangência de significações para o aprimoramento do indivíduo como pessoa humana e sua inserção na sociedade e mercado de trabalho. Nessa proposta, iremos também analisar os currículos escolares dos cursos técnicos profissionalizantes modulares e integrado ao Ensino Médio, compreendendo a constituição do ensino profissional, dos fundamentos do currículo integrado e as possibilidades de integração curricular, a partir do ensino de estatística, destacando a importância nesta modalidade de educação.

 

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