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Veredas Literárias

As Veredas de Dom Casmurro

Capitu está morta. Esta talvez seja a única certeza que narrador e leitor compartilham ao término da leitura do romance Dom Casmurro de Machado de Assis. Esta certeza de morte é o leitimotiv da narrativa, isto é, o ato de narrar nasce desta necessidade de tornar à vida aquela que está morta: as Veredas Altas[1] de Dom Casmurro. Nas palavras do narrador: o meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência (p. 41). Em seu projeto memorialista, Bento Santiago tem como foco principal Capitolina, sua vizinha, amiga de infância, namorada e esposa. Ao final do romance, já não é mais a adolescência o seu objetivo narrativo, mas, nas palavras do narrador: O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente (p. 276). Portanto, o “enigma de Capitu” é a ênfase memorialística que o narrador estabelece como espinhal dorsal de sua narrativa. Não à toa, a crítica literária, durante mais de cinquenta anos transformou este enigma em foco principal de suas análises.

Alfredo Pujol, em 1917, afirma que Capitu traz o engano e a perfídia nos olhos e, por isso, soube ocultar aos olhos do marido sua relação com escobar (PUJOL, 2011, p. 45). Já Lúcia Miguel Pereira em 1937, apesar de condicionar a culpa à traição, quer perscrutar as motivações psíquicas que levaram a personagem ao adultério para saber se Capitu pode ser responsabilizada por isso (PEREIRA, 1980, p. 67). Somente, em 1960, com a publicação do livro “O Otelo Brasileiro de Machado de Assis”, a crítica estadunidense Helen Caldwell muda a abordagem temática para aquilo que o crítico português Abel Barros Baptista chamou de “o enigma do pé atrás”, isto é, ao chamar a atenção do leitor para a narrativa em primeira pessoa, Caldwell coloca o próprio narrador em evidência, secundarizando sua acusação e o colocando em questionamento. Sem dúvida – e acredito não ser preciso mostrar – esta inovação mudou os modos de recepção do romance pondo sobre ele aquilo que  Baptista chamou de um “manto de ambiguidade”.

O que me leva a abordar este romance tem que ver com o modo de produção do Outro que se opera no discurso de Dom Casmurro. Em um determinado momento da narrativa, ao falar das curiosidades de Capitu no capítulo 31, o narrador afirma: Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. O jogo de imagens que faz funcionar no romance a relação entre o eu que narra e o outro narrado constitui os mecanismos de identificação e de produção da verdade que sutilmente determina a perspectiva do leitor. Como afirma Homi Bhabha em O Local da Cultura: o que se interroga não é simplesmente a imagem da pessoa, mas o lugar discursivo e disciplinar de onde as questões de identidade são estratégica e institucionalmente colocadas. (BHABHA, 2014, p. 89) A identidade de Capitu se constitui neste trecho e em todo o romance por meio do jogo da diferença entre o Eu que narra e o Outro que é narrado. Essa constituição se dá por meio da simulação da escrita, isto é, ao produzir o livro, Bentinho reconstitui não apenas as duas pontas da sua vida, mas principalmente Capitu. Ao reconstituí-la por meio da simulação da escrita, Bentinho pode deformá-la o quanto lhe for interessante para servir a seus propósitos narrativos de produção da verdade. E o faz a partir do jogo retórico que leva o leitor a acreditar que aquela e apenas aquela é Capitu. É neste sentido que a identidade é estratégica e institucionalmente colocada como produtora de imagem e de verdade.

No capítulo 62 – Uma ponta de Iago – ao conversar com José Dias sobre Capitu e ter sido tocado pelo ciúme, a mente do jovem Bentinho voa em uma visualização terrível no qual diz: “Separados um do outro pelo espaço e pelo destino, o mal aparecia-me agora, não só possível mas certo. E a alegria de Capitu confirmava a suspeita; se ela vivia alegre é que já namorava a outro, acompanhá-lo-ia com os olhos na rua, falar-lhe-ia à janela, às ave-marias, trocariam flores e…” (ASSIS, 2008, p. 221) A reticência que encerra este trecho torna-se o signo/símbolo dessa simulação de escrita, pois cria o que Bhabha, citando Barthes, chama de o efeito do real, isto é, a bilateralidade do signo/símbolo passa a privilegiar a semelhança, na medida que estabelece uma analogia entre significante e significado, fazendo com que este predetermina aquele e produza o efeito do real. A medida que Dom Casmurro conta ao leitor os devaneios ciumentos do menino, produz um ritmo nas sequências das ações até o momento de se perder o fôlego simbolizado pelas reticências. Na medida em que incidimos nos elementos formais de construção da narrativa, duas questões nos surpreendem: quem perde o fôlego: o menino ou o adulto? E a segunda é: a narrativa é fruto do devaneio do menino ou jogo retórico do adulto? Essas duas questões possibilitam perceber como o signo/símbolo funciona como constituinte da identidade do Outro, pois “ela lança luz sobre os conceitos linguísticos concretos com os quais podemos apreender como a linguagem da pessoalidade vem a ser investida com uma visualidade ou visibilidade da profundidade (BHABHA, 2014, p. 91). Ao lermos a continuidade do trecho citado, vemos que ao obscurecer os modos de constituição da identidade de Capitu, Dom Casmurro, por meio das reticências, faz com que o leitor não perceba a passagem do imaginado para o dialogado e essa não percepção possibilita o enquadramento do leitor como leitor ideal deste narrador ciumento.

As Veredas de Dom Casmurro tornam-se o mecanismo pelo qual o lugar da fala disciplina o Outro e pode constituir sua identidade de forma estratégica e institucional para servir suas vontades. Talvez seja um tanto repetir o que a crítica machadiana tenha se debruçado tanto, porém, a repetição do óbvio nos possibilita os constantes questionamentos não apenas dos efeitos discursivos, mas principalmente, as motivações, os lugares e as identidades que se escondem no discurso do Outro como forma de produção da verdade.

[1] O termo Veredas Altas, tomado de empréstimo do romance “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa é interpretado como ato narrativo motivado pela necessidade de ressuscitar a pessoa amada e pela terrível certeza da impossibilidade desse ato. Para melhor compreensão, sugiro a leitor do texto anterior publicado nesta revista.

VEREDAS LITERÁRIAS

Veredas Mortas e Veredas Altas: o papel da Literatura.

 

Como é tradição de qualquer coluna, o autor apresenta-se dizendo quem é e o que pretende oferecer com seu escrito. Farei um caminho diferente: vou apresentar o título desta coluna – Veredas Literárias. Os leitores mais familiarizados com a Literatura Brasileira rapidamente associam o título ao grande escritor mineiro Guimarães Rosa e sua obra Grande Sertão: Veredas. Essa associação não é gratuita: quem já leu este romance sabe da beleza em acompanhar as veredas narrativas de Riobaldo que, atravessando suas memórias, nos leva aos caminhos da alma.

Talvez, numa próxima oportunidade, eu possa tratar desse delicioso romance, mas não o farei aqui, não o farei agora. Me empresto dele para enveredar nos sentidos das duas veredas que sustentam as memórias de Riobaldo e, com elas, oferecer minha compreensão da Literatura. Quem o leu, sabe da tentativa do narrador, quando líder dos jagunços, de fazer um pacto com o Diabo.  Para tanto, percorreu mata noturna até chegar no lugar chamado de “Veredas Mortas”. Aconteceu o pacto? Nem Riobaldo poderia nos dar esta resposta. O certo é que na encruzilhada para o Lugar não onde dão nenhum aviso todas as estradas vão para as Veredas tortas – veredas mortas. Ele sai de lá com seus íntimos esvaziados sem saber ao certo o que ocorrera, mas se dando conta de sua coragem mudada em valentia de jagunço. Veredas Mortas é o lugar de encontro com o demo; é o ponto das memórias em que Riobaldo experimenta a mudança de seu destino. Os jagunços liderados pelo narrador e acompanhado por Diadorim buscam vingar a morte de seu líder Joca Ramiro assassinado traiçoeiramente por Hermógenes. A vingança é desejo de grupo, mas também é desejo de Diadorim – filho de Joca Ramiro – a quem a alma apaixonada de Riobaldo quer satisfazer. E dá-se a grande batalha na qual Diadorim mata o assassino de seu pai, mas acaba por ser assassinado. Diadorim era minha neblina – a dor da morte de seu amado, faz com que o jagunço abandone tudo rumo a um único destino: às Veredas Mortas. Quer lá repor Diadorim em vida, mas no percurso que cobra suas memórias lançando-o no esquecimento de si mesmo, Riobaldo descobre, por meio de um sitiante, que o lugar se chamava “Veredas Altas”. Veredas Mortas como pacto com o diabo em busca da valentia e Veredas Altas como o lugar da palavra, cuja função é a de restituir o seu amor por meio das memórias. Lugar de poder e lugar de palavra me parecem ser as melhores alegorias da Literatura.

Já é lugar comum afirmar que a literatura trabalha com o imaginário e – por tal labor – explora nossos sonhos, medos, alegrias, tristezas, desejos, angústias, enfim, aquilo que comumente chamamos de alma, nosso sopro de vida. Riobaldo menino na fantasia de se fazer homem-jagunço para liderar os demais jagunços vai em busca das Veredas Mortas fazer pacto com o diabo, mas se depara com a dúvida: houve o pacto? Eu mudei porque o pacto se concretizou ou porque a minha fantasia de um possível pacto me deu a coragem que eu não tinha? A Literatura é este lugar da dúvida. Ao percorrermos um romance, um conto, uma poesia que nos causa um grande impacto, ficamos na dúvida em relação ao que podemos ter nos transformados e se de fato houve alguma transformação. O encontro entre o horizonte de expectativa do leitor com o efeito estético da obra literária provoca um deslocamento no leitor chamado pelo formalismo russo de efeitos de estranhamento. As convenções sociais que definem nossa visão de mundo fazem com que tenhamos um horizonte de expectativa muitas vezes simplificado e um tanto quanto fantasiado das coisas e dos acontecimentos. Por ser convenção social, essas visões tendem a corresponder à visão de mundo de grupos dominantes e suas respectivas instituições, chamado de ideologia pela teoria marxista. O horizonte de expectativa de Riobaldo é de que todo grande líder de jagunço fez pacto com o diabo. Ao se ver impelido pelos colegas, e sobretudo por Diadorim, a assumir a liderança, ele segue em direção às Veredas Mortas com o intuito de experimentar o pacto. Da relação entre expectativa e experiência nasce a dúvida como lugar de estranhamento. Portanto, o efeito estético da obra literária é o lugar privilegiado da experiência que coloca em questionamento as verdades das convenções sociais. Sendo o preconceito – alimento da intolerância, do ódio e da violência – produto das convenções sociais, a literatura, ao questionar essas verdades sedimentadas, provoca no leitor o estranhamento, fazendo-o refletir sobre as verdades do mundo e repensar seu lugar no mundo.

Mas nem sempre esse estranhamento nos demove de nossas verdades fincadas pelas convenções sociais. Com seu íntimo esvaziado, Riobaldo volta para a tropa homem corajoso e lidera o grupo em busca de vingança da morte de seu líder Joca Ramiro. O jagunço agora experimenta nas suas verdades as incertezas provocadas pela experiência e a dúvida daquilo que possa ter se tornado.  É na batalha final que ele se depara com a verdade para além de qualquer convenção ou fantasia: se o seu corpo está fechado pelo pacto, isto não impede a ferida mortal que coloca em definitivo um fim em sua vida de jagunço: a morte de Diadorim. No desespero, Riobaldo retorna aos caminhos das Veredas Mortas para repor Diadorim em vida. O lugar já não tem o mesmo nome. O narrador descobre que seu nome certo é Veredas Altas. Já não é mais a dúvida com a qual se depara, mas a impossibilidade de retorno. Morre o jagunço, nasce o narrador. A travessia nega o pacto: o diabo não há; o que existe é o homem humano com suas dores, experiências, memórias, narrativas, palavras. Meu coração rebateu, estava dizendo que o velho é sempre novo. Riobaldo quer restituir a vida a Diadorim e o faz por meio do contar suas memórias – o Sertão. Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. As Veredas Altas é o lugar de restituição do pensamento, o lugar da palavra. Como alegoria da arte literária, as Veredas Altas é o lugar no qual o narrador pode restituir suas memórias e dar vida a quem está morto. Refúgio das palavras.

Se pareceu convincente ao leitor, pago-me da tarefa desta apresentação. Como professor e apaixonado por Literatura, agrada-me entende-la como o lugar que, ao mesmo tempo que potencializa nossas fantasias, também as perturba, provocando em nós questionamentos sobre o mundo e sobre nós mesmos. Para lembrar o ensinamento do grande mestre e crítico literário Antonio Candido, a literatura tem como função o prazer (que ele chama de função psicológica), pois nos permite caminhar pelas veredas dos nossos sonhos e fantasias, mas, ao mesmo tempo, essa função traduz-se em função educativa, pois, ao nos colocar em contato com o universo particular do autor, nos coloca em contato com suas experiências e visões de mundo que nos ajuda a reavaliar o mundo e nós mesmos. Essa reavaliação tem o efeito humanizador, pois, por meio da troca entre o nosso horizonte de expectativa e a experiência estética do autor, ampliamos os nossos horizontes e passamos a ver o mundo com outros olhos. Para fechar, deixo ao leitor uma das lições mais bonita do jagunço-narrador Riobaldo:

(…) podemos afirmar que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior.”