Polonaises

MEMÓRIAS DA GUERRA E DO HOLOCAUSTO NA POLÔNIA…

“Sim, é verdade, que na cidade de Varsóvia a cada dia pisamos na terra banhada em sangue – em cada esquina da capital – morreram dezenas, centenas, ou até milhares de pessoas.” (R.S.A.)

No dia 1º de Agosto, comemorou-se os setenta e três anos do Levante de Varsóvia, também denominado A Revolta ou Insurreição de Varsóvia (em polonês Powstanie Warszawskie), uma luta armada durante a Segunda Guerra Mundial na qual o Armia Krajowa (Exército Clandestino Polaco) tentou libertar Varsóvia do controle da Alemanha Nazista. A Coluna Polonaises também presta sua homenagem à data, trazendo o texto da profa. Renata Siuda-Ambroziak* e algumas fotos feitas em junho do ano passado, quando viajamos à Polônia e tivemos a oportunidade de visitar o Museu do Levante de Varsóvia**:

“As lutas foram travadas também no campus da Universidade de Varsóvia, a minha Alma Mater, aonde o grupo militar “Krybar” defendia, com a participação dos professores, estudantes e escoteiros, cada um dos edifícios universitários. Pensando das memórias, é sempre bom começar com os fatos – a II Guerra Mundial eclodiu com a agressão da Alemanha nazista na Polônia (1.09.1939). Ainda em setembro, segundo o Tratado de Ribbentrop-Mołotow, também as tropas soviéticas invadiram a Polônia, colaborando na destruição do país com os nazistas.

Durante a guerra o Holocausto foi planejado, institucionalmente organizado, preparado e sistemáticamente levado a cabo pela Alemanha nazista, antes de tudo na Polônia, que possuía a maior concentração de judeus na Europa e a segunda maior do mundo, depois dos Estados Unidos. Ainda em 1939 os nazistas começaram a criar no território polonês ocupado as grandes concentrações de judeus nos guetos urbanos (o maior em Varsóvia) e, logo depois, estabeleceram os primeiros campos nazistas de concentração (em 1940 uma verdadeira “fábrica” da morte de Auschwitz).

Em 1941 foi emitido um decreto sobre a aplicação da pena de morte àqueles que ajudavam aos judeus sobreviver, por exemplo escondendo-os nas suas casas – em nenhum outro país ocupado pelos nazistas estava em vigor uma lei tão rigorosa como na Polônia. Logo depois, em 1942, apareceu o plano para a “solução final da questão judaica” – extermínio em massa dos judeus de toda a Europa nos campos da concentração.

Os alemães nazistas começaram a liquidar os guetos e deportar os seus habitantes aos campos de concentração. A revolta armada no gueto de Varsóvia em abril de 1943 foi um gesto de desespero contra a sua liquidação – depois de apagá-la brutalmente, os nazistas proclamaram oficialmente o Terceiro Reich “limpo de judeus”.

Mas os judeus não foram as únicas vítimas da guerra e da barbárie nazista, especialmente no território polonês. Em 1º de agosto de 1944 o exército subterrâneo lançou um levante em Varsóvia. Intensos combates duraram dois meses, resultando na matança de mais que 200 mil habitantes. A capital ficou quase completamente aniquilada. Cada ano, no dia 1º de agosto, a cidade literalmente pára na Hora Zero – às 17 hrs. Para preservar a memória das vítimas, de todas as vítimas.

Depois de 1945 a Polônia ficou atrás da “cortina de ferro”, traída pelos aliados, que a deixaram à mercê de Stalin e a proclamada “democracia popular” pela União Soviética, vista pela maioria esmagadora da população como uma outra ocupação.

Assim, o debate público sobre a guerra e o Holocausto recomeçou a partir de 1989, na Polônia independente e os últimos anos os poloneses estão vivendo o “tempo de retorno”, um boom da memória, com as suas manifestações incluindo criação de novos museus nacionais que descrevem a história da guerra, os levantes heróicos, a experiência da ocupação (por exemplo o Museu do Levante de Varsóvia). Outra manifestação é o florescimento da pesquisa histórica e popularidade das reconstruções dos acontecimentos históricos, também aqueles mais dolorosos.

O peso da história é evidente no espaço público, onde foi erguida uma série de novos monumentos comemorativos das vítimas da Segunda Guerra Mundial, os heróis não reconhecidos depois da guerra pelo regime comunista e das vítimas do Holocausto. São renovados os bairros e cemitérios judeus e a história judaica é muitas vezes apresentada em locais expostos, como por exemplo, o novo Museu dos Judeus Poloneses em Varsóvia.

As manifestações da cultura judaica incluem festivais, a popularidade da música e uma variedade de produções artísticas. As universidades também lidam com essa demanda, abrindo programas dedicados aos centros de pesquisa sobre a história dos judeus na Polônia.

Assim, deixo em aberto a pergunta se vale a pena fazer divisões entre os poloneses e os judeus, as vítimas da II Guerra Mundial – a guerra resultou na morte de milhões de cidadãos poloneses, dos quais muitos eram judeus. Somente aos olhos de Hitler, os judeus constituíam uma “categoria especial” de vítimas e pensar deste modo equivaleria a aceitar a lógica dos assassinos nazistas.

A vida humana tem sempre o mesmo valor, independentemente da nacionalidade, religião, gênero, raça, nível de educação… Nenhuma vítima do nazismo, sendo judeu, polonês, russo, homossexual, deficiente, doente mental, mereceu morrer naquela carnificina e nunca se pode jogar na memória coletiva um papel secundário.

Podemos, sim, colocar perguntas difíceis. O debate sobre a II Guerra Mundial e o Holocausto é, e sempre será doloroso. Mas o maior desafio para o mundo é não deixar esquecer as memórias, deixando uma mensagem clara e unívoca – nem a guerra, nem o Holocausto podem se repetir mais. Tudo isso fica ainda mais claro depois de visitar a Polônia – por isso convido-os para virem, para sentirem sozinhos o peso dessa história, ao mesmo tempo terrível e heróica. Porque em poucos lugares do mundo a memória da Guerra e do Holocausto fica ainda tão visível, tão viva e tão comovente…”

*A Dra. Renata SIUDA-AMBROZIAK  é  Professora do CESLA,  Centro dos Estudos Latino-Americanos, Instituto das Américas e Europa na Universidade de Varsóvia, e atualmente vice-diretora do Instituto. Doutora em Ciências Humanas em Filosofia Social, com Estudos Pós-Doutorais em Direito da Propriedade Intelectual e em Administração Universitária.

** A experiência em visitar o Museu do Levante de Varsóvia (Muzeum Powstania Waeszawskiego) é realmente extraordinária e imperdível para quem visita a cidade. Ele não é um museu comum, logo na entrada em uma das paredes pode-se ouvir sons ritmados, é como se alí estivessem ainda batendo os corações daqueles que viveram e lutaram durante este período terrível da história da Polônia. Sua concepção é interativa, e um muito bem montado memorial retraça a história, os momentos-chave e os personagens – famosos e desconhecidos – do ato final da resistência polonesa à ocupação nazista.

A ideia é a de trazer o visitante para dentro daquela realidade, e é impossível não se emocionar. Inclusive de sentir uma certa claustrofobia ao atravessar uma reprodução dos “esgotos”, forma de locomoção pela cidade que os revolucionários utilizaram na época do levante. 

As exposições permanentes trazem inteligentes soluções multimídia, relatos emocionantes, armas, meios de transporte, muitas fotografias, uniformes e também uma área dedicada às crianças e jovens que colaboraram nas linhas de combate. Na parte exterior do edifício está uma longa parede-memorial, com o nome daqueles que combateram pela liberdade na Polônia.

Tivemos o privilégio de conhecer o Sr. Henryk Wasilewski, nascido em 1924 e que permanece no museu trabalhando em máquinas impressoras da época. Ele fazia parte de um escritório de impressão subterrânea (na rua Żelazna) durante a ocupação alemã. Foi preso pelos alemães e permaneceu na prisão Pawiak em Varsóvia, sendo interrogado por agentes da Gestapo, que segundo ele, falavam o polonês perfeitamente. Através da intervenção de um oficial, conhecido de seu pai, o Sr. Wasilewski encontrou a liberdade. Uma entrevista atualizada com ele, em polonês, encontra-se no link abaixo: 

http://www.1944.pl/archiwum-historii-mowionej/henryk-wasilewski,2290.html

Site Oficial do Museu: http://www.1944.pl/

Créditos:

Texto principal: Profa. Dra. Renata Siuda-Ambroziak.

Fotos e texto adicional: Izabel Liviski.

Fonte: http://viagemeturismo.abril.com.br/atracao/museu-do-levante-de-varsovia/

Agradecimentos especiais: Consulado da República da Polônia em Curitiba, que possibilitou nossa viagem à Polônia em junho de 2016, ao Cônsul Geral Sr. Marek Makowski e Vice-Cônsules Dorota Ortynska e Dorota Bogutyn. À Aleksandra Duda por sua gentileza e preciosas informações como guia através do Museu do Levante de Varsóvia, e posteriores correspondências.