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‘FLANANDO’ EM LISBOA…

O tema desta edição é bastante polêmico, e suas origens são proveniente de  tradições tão antigas que se perdem na noite da História. Seu costume está ligado a civilizações bem remotas, e encontra-se associado a sacrifícios e a mitos religiosos. Desenvolveu-se principalmente na Península Ibérica, mas não somente, enquanto em Portugal e Espanha vem perdendo espaço está se desenvolvendo em outros países, impensáveis, como a China. O foco do relato que trago aqui, se estabelece mais no encontro de um local inusitado e no conhecimento que proporcionou, do que no aprofundamento do  tema em si, o que demandaria muito mais pesquisas e discussões.

No início deste ano, minha amiga Vanisse Corrêa e eu estivemos participando de um encontro no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, o AFIRSE, um dos mais destacados Congressos de Educação da Europa. Certo dia, em um intervalo das apresentações enquanto passeávamos a esmo por aquela encantadora cidade, nos deparamos com um enorme edifício em estilo árabe no centro da cidade. Sem saber bem do que se tratava, entramos e nos deparamos com a  Praça de Touros do Campo Pequeno, e mergulhando um pouco perplexas nesse universo, observando as peças e fotografias do Museu de Tauromaquia que lá se encontra.

Arquitetura do prédio que abriga a Praça de Touros, em Lisboa.

Ficamos sabendo que na origem da relação entre o homem e o touro, mais concretamente o seu antepassado Auroque, existe até mesmo uma questão metafísica, pois esse animal sempre foi visto como um animal místico, portanto objeto de cultos religiosos, como símbolo de fertilidade e de virilidade.  O enfrentamento do touro pelo homem era uma forma deste se apoderar das qualidades do animal e essa prática manifestou-se nas mais diversas sociedades mediterrâneas e do Oriente Médio, como narrado na Epopéia de Gilgamesh (Mesopotâmia, IIº milênio A.C.), e nos  afrescos do Palácio de Knossos  em Creta na Grécia, durante a civilização Minóica. Também nos mitos da antiguidade grega como o do Minotauro e o Rapto de Europa, que deu nome ao continente, e esta influência mantém-se até aos dias de hoje, na arte e cultura da civilização ocidental.

São Lucas, padroeiro dos médicos e dos pintores, e o Touro que aparece em suas representações, tem um significado místico.

Uma das surpresas desse local foi encontrar uma toureira entre os homenageados, Conchita Cintrón (1922-2009), também conhecida como a “Deusa Loira da Arena”. Ela foi uma toureira peruano-portuguesa, considerada ainda hoje como a mais famosa em Portugal e no mundo todo. Nascida no Chile, cresceu no Peru,  mas viveu  a maior parte da sua vida e faleceu aos 86 anos em Lisboa. Aos 16 anos já era uma “rejoneadora” profissional, isto é, toureava a cavalo. A partir de 1939, ela iniciou uma carreira internacional que a levou ao México, Portugal e França. Aposentou-se em 1951 após seu casamento, e em 1968 publicou um livro de memórias, com o prefácio escrito por Orson Welles que era um de seus admiradores.

Imagem que se encontra no Museu de Tauromaquia

 

Conchita Cintrón, fotografada por Robert Capa, em 1940.

 

A Praça de Touros, foi fundada em 1892, está localizada na Avenida da República em Lisboa, e é considerada a primeira Praça de Touros de Portugal. Esteve fechada por anos e após algumas reformas e restauros foi reaberta em 2006. Nesse local além das corridas de touros, acontecem concertos musicais, feiras, exposições e outros eventos, tem uma capacidade para cerca de dez mil pessoas, e o calendário de corridas acontece principalmente na primavera e no verão. Há uma galeria comercial no subsolo, conhecida como Centro Comercial do Campo Pequeno, e alguns outros espaços comerciais no piso térreo, principalmente bares e restaurantes.

Vista geral da Praça de Touros de Campo Pequeno

 

Detalhe de vitral do museu

Algumas lojas e restaurantes do Centro Comercial:

 

 

 

 

 

 

 

 

Retomando a questão das touradas, ela é tão polêmica que envolveu até mesmo a Igreja Católica, inicialmente com uma atitude positiva e benevolente: o Touro era o animal que se identificava tanto com São Lucas como com o Arcanjo Gabriel e São Miguel. A partir do século XIV a situação muda, quando a igreja começou a incluir nas orações aos seus santos padroeiros, oferendas de Novilhos ou Touros, que tinham como finalidade pedir ao santo da devoção de cada um, que intercedesse junto a Deus para pôr fim às muitas calamidades que assolavam as cidades. A situação chegou a um ponto em que o Papa Pio V (1504-1572) escreveu a bula “De salute gregis dominici”, condenando a prática das touradas, e que se encontra em vigor até os dias de hoje:
https://moimunanblog.com/2011/12/02/bula-salutis-gregis-dominici-de-san-pio-v/

Vista de uma das entradas da arena

Enfim, a tauromaquia divide opiniões apaixonadas, é considerada como patrimônio imaterial por alguns e espetáculo violento e degradante por outros, “não é de hoje que as touradas são condenadas por grupos que protegem e zelam pelos direitos dos animais. E atualmente, como a economia dos países europeus não apresentam um crescimento, e os movimentos contra esse tipo de esporte só crescem, já foram cogitadas, muitas vezes, pelo encerramento das touradas. Há locais na Espanha em que esse tipo de torneio já não ocorrem mais, por determinações judiciais.

Lateral do edifício da Praça dos Touros.

A primeira região a acatar a ordem foram as Ilhas Canárias, no começo da década de 90. As redes de televisão do país também já não exibem mais os torneios, por determinação da justiça de que eventos violentos envolvendo animais não possam ser transmitidos antes das 10 da noite. Há outros tipos de touradas, mas que não envolvem a morte do animal. Entretanto, os ativistas querem banir até mesmo esses eventos, argumentando que, embora o animal não sofra danos físicos, ele fica bastante atemorizado, o que pode prejudicá-lo”, segundo as entidades de defesa dos animais.

Para saber mais: http://www.falabicho.org.br/PDF/16.pdf

“Além de ser um triste espetáculo, o que torna difícil a abolição da tauromaquia é o dinheiro envolvido nessa indústria” (José Ignácio Giménez – ativista pelos direitos animais.)

Fotos: Izabel Liviski

Fonte: http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/a-verdadeira-origem-da-tauromaquia-710197

 

Eu e Vanisse Corrêa em um dia ensolarado e muito frio, ‘flanando’ em Lisboa.

 

FOTOGRAFIA E LITERATURA: REVELANDO PAISAGENS ÍNTIMAS….

A disciplina Literatura e Outas Linguagens: Landscapes Stories, ministrada pelo professor Rodrigo Vasconcelos Machado na Universidade Federal do Paraná neste semestre, teve como proposta a imersão produtiva no fazer fotográfico a partir da interface entre a literatura e a paisagem urbana, com um  caráter inteiramente experimental.

O curso, oferecido a alunos de diversas áreas e à comunidade em geral, possibilitou aos participantes vivenciar o processo de criação fotográfica através da literatura, trabalhando individualmente ou em equipe, o que rendeu trabalhos extraordinários, reunidos em uma exposição na Sala Arte, Design & Cia. da UFPR, e publicação em e-book.  Destacamos aquí, o ensaio fotográfico de Luiz Gustavo Singeski* e Isabela Fiori.

“Paisagens íntimas

A paisagem é o lugar dos que não têm lugar. O contrário do que é ligado à destinação, à domesticidade. Do que é habitável, morada. Privilégio de cidades estrangeiras visitadas pela primeira vez, dos desertos, das ruínas, dos céus pitorescos: serem desorientadores. Não acolhem, desolam o espírito. Interrompem o tempo e o espaço, impõem uma pausa ao pensamento.

“Curva”

Mas quando é que se tem paisagem? Kant diz que é toda vez que o espírito se desprende de uma matéria sensível para outra, conservando nesta a organização sensorial conveniente para aquela, ou pelo menos sua lembrança – o campo para o citadino, a cidade para o camponês. 

“Dobra”

O paisagista é aquele que vê as coisas de um outro ponto de vista; há a paisagem sempre que o olhar se desloca, o desenraizamento é sua condição. Neste ensaio, o corpo coisificado é transmutado em paisagem e os elementos da paisagem, corporizados. Sugere-se a criação de uma fisionomia da paisagem – aproximação da paisagem ao corpo: uma paisagem íntima.

“Estrutura”

As imagens deste ensaio partem da negação da perspectiva numa imagem superficial que permite a assimilação do plano geral ou médio ao close, a equiparação de um espaço com o corpo. Surge assim um olhar tátil. 

“Veio”

Sobreposição de camadas e superfícies que enrugam, fendem e descascam. Constituição de um espaço único de conjunções, de articulações de fragmentos.

“Forma”

Um espaço tátil. O mundo – a paisagem – num close. O retrato de corpo não produz um objeto parcial; ele o retira do seu lugar e tempo para tomá-lo em si mesmo.”

“Fenda”

 

*Luiz Gustavo Singeski é Arquiteto e Urbanista.

www.oficinaurbana.com.br

SERVIÇO:

Sala Arte, Design & Cia.

UFPR/REITORIA – Endereço: Rua General Carneiro, 460 – Hall do Edifício D. Pedro I – horário comercial.

DE 16 DE OUTUBRO A 2 DE NOVEMBRO.

 

MUITO ALÉM DA SELFIE…

Na História da Arte, o Autorretrato é definido como uma imagem ou representação que o artista faz de si mesmo, independente do suporte escolhido. Esse tipo de auto-representação passou a ser cada vez mais frequente a partir da renascença italiana, e muitos artistas recorreram a essa forma de expressão, até mesmo chegando a uma espécie de obsessão como Rembrandt (1606-1669) que realizou quase uma centena de autorretratos, ou a pintora francesa Élisabeth Vigée Le Brun (1755-1842) também adepta dessa modalidade, ou ainda Frida Kahlo (1907-1954) autora de mais de cinquenta autorretratos, constituindo uma verdadeira autobiografia pictórica.