INcontros

A MULHER: UMA ARTICULAÇÃO ENTRE ARTE E PSICANÁLISE…

“O destino de uma mulher é ser uma mulher”
(Clarise Lispctor, a Hora da estrela, p.86, 1995)

 

Nesta última edição de 2017 da Coluna INcontros, trazemos novamente a contribuição do leitor Guilherme Silva dos Passos*, em mais uma pesquisa sobre a feminilidade, desta vez fazendo uma conexão entre Ciência e Arte:

“O que é a Mulher para a psicanálise? É essa pergunta que acendeu o desejo pelo saber. É visto que em toda a existência do mundo a mulher sempre foi uma incógnita, uma fígura mística, uma esfinge a (não) ser decifrada. Portanto este trabalho tem a intenção de entender o que é ser uma mulher, articulando com a análise de arte.

Uma obra de Sandro Botticelli (1486), “O Nascimento de Vênus”, inspirou a construção desse trabalho. Nesta obra, o ser que representa uma mulher, é coberta, por parte, mas não toda. Há algo que escapa, algo que vela e revela o ser de uma mulher. Faço essa articulação, com base na teoria psicanalítica, a partir de Lacan (1972/73).

O nascimento de Vênus, de Botticelli

E para compreender e entendermos mais essa questão, foi indispensável percorrer como se constrói a sexualidade feminina para a psicanálise. Onde, Freud (1931) pontua que o desenvolvimento de uma mulher e sua sexualidade nasce de uma relação de exclusividade da menina com sua mãe, que se rompe após a garota frustrar-se com a mesma (mãe), frente a diferença sexual anatômica (complexo de castração), resultando em três possibilidades da menina haver-se com sua feminilidade.

Adiante, Freud (1933) descreve que uma mulher só poderá possuir o falo através da maternidade, como uma possibilidade da mulher estar inserida no gozo fálico.

Freud (1937) reforça ao descrever que o desejo de ter um filho vem para uma mulher, suprir o desejo de ter um pênis. Porém, Freud (1937) no mesmo texto descreve, como típico da condição humana, uma dualidade mental (feminino e masculino) no sujeito biológico (fêmea e macho), apontando para a construção do feminino como algo não único da mulher. O que não exclui seu trabalho, que evidenciou o modo de desenvolvimento da feminilidade, e como raiz desta, a relação pré edípica com a mãe e com a castração.

Na vida mental, encontramos apenas reflexos desta grande antítese e sua interpretação torna-se mais difícil pelo fato, há muito suspeitado, de que ninguém se limita às modalidades de reação de um único sexo […] Para distinguir entre masculino e feminino na vida mental, usamos o que é, sem dúvida alguma, uma equação empírica, convencional e inadequada: chamamos de masculino tudo o que é forte e ativo, e de feminino tudo o que é fraco e passivo. Este fato da bissexualidade psicológica dificulta também todas as nossas investigações sobre o assunto e torna-as mais difíceis de descrever. (FREUD, 1937, p.121).

Freud (1937) ao pontuar o feminino como condição mental, presente em homens e mulheres, faz pensar que não é o pênis que se apresenta como falta, mas o modo que o sujeito vive a castração. Pois se a menina, por vezes, questiona ao se ver castrada, buscando na mãe e sequentemente no pai o objeto faltante (o pênis), logo, a menina não abandona de todo, a relação primária do objeto de amor (mãe), como o menino, que teme ser castrado.

É então, a relação pré-edípica com a mãe como pontua Freud (1931), a raiz da feminilidade. Não há algo que barre (castre) inteiramente, essa relação com a figura materna, que se mostra mais marcante no ser de uma mulher, e que se encontra para além do falo.

Zalcberg (2003) descreve que há um “resto” que fica dessa relação da menina com a mãe, Freud (1895) descreve o termo das Ding como um resto que escapa da lei. Lacan (1959/60) entende esse resto como algo do impossível de se inscrever que se apresenta de modo recorrente e permanece para sempre fora do sentido.

Nas  palavras de Lacan,  “O mundo freudiano, ou seja, o da nossa experiência, comporta que é esse objeto, das Ding, enquanto Outro absoluto do sujeito, que se trata de reencontrar.” (LACAN 1959/60, p.69). Sendo assim, há algo dessa relação da menina com a mãe que fica, um resto que escapa à significação ao tentar reencontrar o objeto perdido (pré-edipico), é também por isso que Miller descreve que “as mulheres parecem, às vezes e na medida do possível, mais amigas do real…De qualquer forma, isso se explica pelo fato de elas não terem necessariamente a mesma relação com a castração que os homens.” ( 2010, p.2)

É então a partir de Lacan (1972-1973) que pontuo que na maternidade, a mulher se identifica como mãe e não como mulher, algo lhe falta para ser mulher, que não o falo. Trazendo à luz o que apresenta como feminino na mulher, que Lacan (1972-1973) nomeou de não todo, como o gozo da mulher, que se referencia ao gozo fálico, mas não todo, algo que escapa deste, o que coloca o feminino no lugar ilimitado,  mantendo a mulher para além do gozo fálico.

Que tudo gira ao redor do gozo fálico, é precisamente o que dá testemunho a experiência analítica, e testemunho de que a mulher se define por uma posição que apontei com o não todo no que se refere ao gozo fálico […] Vou um pouco mais longe – o gozo fálico é o obstáculo pelo qual o homem não chega, eu diria, a gozar do corpo da mulher, precisamente porque o de que ele goza é do gozo do órgão. (LACAN, 1972/73, p. 15).

Ao descrever que “A mulher não existe” (1972/73, p.78) Lacan diz da inexistência do feminino como falta de um significante que represente e que lhe dê o lugar de mulher. Adiante na teoria lacaniana é possível entender que uma mulher que busca identificar-se a um significante como mulher (significante esse que não existe) pode se deparar com a devastação.

Então, por não existir um significante para se basear, é que mulher deve se tornar Outra, ou Outras a partir dela mesma. O que faz com que a mulher não possa ser dita como artigo definido, mas sim, ser dita uma a uma, na sua singularidade. Assim, podemos de algum modo articular a teoria com a obra “Demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso (1907), onde cada mulher é única, a seu modo.

Les demoiselles d’Avignon, de Picasso.

O que me levou a concluir, que ser mulher, é um vir a ser, uma construção singular de cada mulher. E que se quisermos saber mais sobre a feminilidade, devemos retornar às orientações de Freud (1933): “Se desejarem saber mais a respeito da feminilidade, indaguem da própria experiência de vida dos senhores, ou consultem os poetas” (Freud, 1933, p.92), onde se reconhece na arte e na feminilidade uma relação de intimidade com o real, do impossível de ser dito.”

*Guilherme Silva dos Passos é Psicólogo, graduado pelo Centro Universitário Autônomo do Brasil – UniBrasil. Interessado sobre a feminilidade, Guilherme vem estudando a temática, através da psicanálise, desde o ínicio da graduação. Frequentou programas de iniciação científica, monitoria e grupos de estudos todos voltados a diversidade de gênero; sexualidade e loucura feminina. Atualmente, segue sua formação em Psicanálise.

REFERÊNCIAS:
BOTTICELLI S. (1486), O nascimento de Venus. Localização: Galeria degli Uffizi, Florença.
FREUD, S. (1895), “Projeto para uma Psicologia Científica”. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago; (1950).
FREUD, S. (1931), Sexualidade feminina. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago; (1996).
FREUD, S. (1933) Feminilidade. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
FREUD, S. (1937). Análise terminável e interminável (Obras Completas, Vol. 23). Rio de Janeiro: Imago.
LACAN, J. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise, Jacques Lacan; texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; [versão brasileira Antonio Quinet]’ – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1959-60.
LACAN, J. (1972-1973/1982). O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
LISPECTOR, C. (1998). A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco
MILLER, J.-A. Mulheres e semblantes. Opção Lacaniana online nova série Ano 1 • Número 1 • Março 2010 • ISSN 2177-2673. 2010. Disponível em: http://opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_1/Mulheres_e_semblantes_I.pdf
PICASSO, P. (1907). Les demoiselles d’Avignon. Localização: Museu de Arte Moderna, Nova York.
ZALCBERG, M. (2003) A relação mãe e filha. Rio de Janeiro/São Paulo: Campus.

THEORIA, POIESIS e PRAXIS: A UNIVERSIDADE de AVEIRO COMEMORA 44 ANOS….

A Universidade de Aveiro (UA), em Portugal, está completando 44 anos de existência. Criada no ano de 1973, em um contexto de expansão e renovação do ensino superior em Portugal, a UA rapidamente se transformou em uma universidade de referência devido à alta qualidade da sua investigação, do seu corpo docente e das suas infraestruturas.

Além dos diversos cursos de licenciatura a UA possui um vasto leque de cursos de formação especializada (CFEs), cursos de especialização tecnológica (CETs), de mestrado e doutorado. Em 2011, a UA foi considerada uma das melhores universidades da Europa e a melhor de Portugal, segundo o ranking da revista britânica Times Higher Education.

A UA concentra-se quase integralmente em Aveiro no Campus Universitário de Santiago, uma vasta área situada entre a zona lagunar das salinas e o centro da cidade. As exceções são a Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Águeda, a Escola Superior de Design, Gestão e Tecnologias da Produção Aveiro Norte, com sede em Oliveira de Azeméis, e algumas residências dispersas pelo distrito.

Chegada à linda cidade de Aveiro por trem, ou comboio como se diz em Portugal.

O campus se constitui como uma “pequena cidade”, com os seus espaços naturais e os cerca de 40 edifícios que o compõem: edifícios de ensino, de pesquisas, de apoio administrativo e técnico, residências, cantinas, bares, farmácia, banco, agência de viagens (Top Atlântico), correios, bibliotecas, livraria, papelaria, reprografia, centro de saúde universitário, loja do Cidadão Universitário, loja da Universidade, complexo desportivo (com pista de atletismo), salas para espetáculos e conferências, galerias para exposições, jardim infantil e creche. Além disso, o hospital fica muito próximo, ao lado da universidade.

Vista panorâmica do campus principal da Universidade

Os edifícios foram projetados por alguns dos melhores arquitetos portugueses, e portanto, o Campus Universitário de Santiago pode ser considerado uma sala de exposições da moderna arquitetura portuguesa, visitada todos os anos por arquitetos e estudantes de arquitetura de todo o mundo. Todas as infraestruturas de estudo, pesquisa, de apoio, culturais, desportivas e lazer encontram-se reunidas num único espaço, oferecendo excelentes condições de vida aos estudantes e todos os que fazem parte da comunidade acadêmica, sem necessidade de deslocamentos.

Vista parcial do Campus de Santiago.

Em fevereiro deste ano em visita à Universidade, eu conversei com a professora Graça Magalhães*, diretora do 2º ciclo de Estudos de Arte do Mestrado em Criação Artística Contemporânea do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, que gentilmente me mostrou seu departamento e outros locais da universidade, e a quem posteriormente enviei questões para saber mais a respeito do setor que ela dirige e como está se desenvolvendo a pesquisa em artes e poéticas visuais, em uma das mais conceituadas universidades da Europa.

Como está situado o Mestrado em Criação Artística Contemporânea, em relação ao conjunto dos cursos que a UA oferece aos seus estudantes?

A UA é uma instituição pública que produz, difunde e transfere conhecimento e cultura centrado no desenvolvimento nacional e internacional, reforçando a ligação com os países de língua oficial portuguesa. Dispõe de uma oferta formativa diversificada, transversal aos seus departamentos, adotando perspetivas multidisciplinares e eticamente orientadas.

O Mestrado em Criação Artística Contemporânea (MCAC) instalado no Departamento de Comunicação e Arte (DeCA), enquadra-se nos princípios gerais do projeto educativo, científico e cultural da Universidade de Aveiro (UA), na medida em que procura ir ao encontro do tecido sociocultural que a UA procura servir, através de um plano curricular centrado no potencial artístico e criativo dos mestrandos, alicerçando a aprendizagem na experimentação de diversos meios e tecnologias numa inter-atuação com outras áreas científicas e recursos humanos e técnicos, potencializando a transdisciplinaridade e interatuando com a oferta cultural da região.

Apresentação CreART 2017.

O curso está inserido num campus que integra diversificadas áreas do saber facilitador da experimentação artística em variados formatos e meios e assim providenciando diversificados recursos técnicos e aprendizagens práticas, individuais e coletivas, que desenvolvem competências de investigação especializada e transdisciplinar que sustentem o trabalho de concepção e debate artístico. Do ponto de vista da praxis artística poder interagir com outros departamentos com especificidades muito variadas, científicas e humanísticas que se revelam um uma fonte de estímulo e desenvolvimento artístico.

Workshop de Fotografia Analógica.

A política intrainstitucional da UA têm-se refletido em M CAC nas colaborações com outros ciclos de estudos e iniciativas da UA, na partilha de unidades curriculares e docentes. Outras colaborações têm surgido ao nível da expansão e dinamização das competências dos alunos de M CAC, que com os docentes, colaboram ativamente em atividades extracurriculares/produções criativas no/do DeCA.

Quais as metas e objetivos do curso?

A construção do perfil do criador, pela sua amplitude, compreensão e profundidade, é desenvolvida de forma holística, integrando metodologias e práticas de investigação em arte, basilares na formação em Estudos de Arte. O curso está alicerçado numa formação transversal resultado do cruzamento de várias áreas científicas instaladas formal e conceptualmente no DeCA.

Trabalho resultante de Residência Artística.

Pretende-se fortalecer a experimentação artística em variados formatos e meios, providenciando diversificados recursos técnicos e aprendizagens práticas; questionar o significado da criação na contemporaneidade, estimulando a reflexão critica dos processos sociais e culturais em arte; desenvolver competências, aptidões e métodos de investigação especializada e transdisciplinar que sustentem o trabalho necessário à conceção, desenvolvimento e debate de projetos artísticos; formar artistas/mediadores culturais no âmbito da Criação Artística Contemporânea capazes de operar individual e coletivamente.

Quais as perscpectivas no mercado de trabalho para os estudantes que obtém essa formação?

Na UA existem vários mecanismos de aconselhamento, em particular, o Gabinete de Estágios e Saídas Profissionais (GESP), que promove ações de preparação para entrada no mercado de trabalho. Todos os estudantes da UA podem participar em experiências de mobilidade. Estas podem ser concretizadas através de um período de estudos, um estágio curricular ou um estágio profissionalizante, numa instituição parceira, no âmbito de projetos europeus de cooperação e mobilidade, ou no âmbito do conjunto alargado de redes e grupos de cooperação internacional com universidades de todos os continentes.

Atividade em Aula.

Com o objectivo da integração dos estudantes de MCAC no mercado de trabalho é promovida a participação interdisciplinar em projetos e atividades artísticas em parceria com fundações e associações culturais bem como a organização de exposições em museus e galerias locais e regionais. Essas atividades de desenvolvimento tecnológico e artístico, tem expressão através de projetos e ações de criação artística nacionais e internacionais de especificidade variada tais como: participação em workshops e residências artísticas desenvolvidos com as instituições locais; participação em conferências nacionais e internacionais abertas à comunidade; exposições a partir da colaboração com museus e instituições locais; criação e montagem de projetos artísticos.

O contributo real destas atividades possibilita a valorização da prática individual e coletiva artística que serve de instrumento para a consolidação e sucesso no âmbito económico e cultural de organizações, instituições e empresas com as quais os estudante individual ou colectivamente virão a estar ligados.

Exposição no Museu de Aveiro.

Quais as disciplinas que os estudantes têm ao longo do curso?

Os estudantes têm ao longo do ciclo de estudos uma formação alicerçada num conhecimento transdisciplinar abarcando diferentes competências. Ao nível das competências transversais salientam-se a capacidade de reflexão crítica sobre os processos sociais e culturais em arte, manualidade e proficiência técnica nos diferentes media, assim como em várias tipologias de apoio computacional.

As primeiras deduzem-se do facto de as Unidades de Crédito (UCs) de maior índole teórica requererem, normalmente a realização de trabalhos de síntese; já em relação ao segundo grupo, de competências mais práticas, são abordados diversos sistemas computacionais e novas tecnologias, com aplicações que vão desde as instalações audiovisuais aos sistemas interativos, passando pela realidade virtual (arduíno, Processing, M axmsp), com o objectivo de fortalecer a experimentação artística.

Instalação na Residência Artística.

Estas valências são trabalhadas quer no âmbito das unidades curriculares de projecto (LECA I e II, PIA e UCs opcionais: Vídeo Arte, Estudos de Fotografia, Expressão Gráfica e Plástica), quer através de workshops não curriculares e atividades complementares de formação, com especial destaque para a participação numa residência artística anual em parceria com uma associação cultural da região (Associação Binaural/Nodar).

As competências de investigação especializada, são igualmente desenvolvidas na exposição final de trabalhos (projectos artísticos) que tem lugar no Museu de Aveiro | Santa Joana Princesa e ainda, pontualmente, nas galerias locais. As competências interpessoais como o trabalho em grupo e capacidade de relacionamento interpessoal, necessárias ao trabalho de equipa pluridisciplinar são desenvolvidas em várias UCs, e consolidadas no grande projecto conjunto da exposição anual no Museu de Aveiro.

Exposição dos trabalhos de estudantes no Museu de Aveiro.

Que avaliação faz dos trabalhos resultantes do curso?

O Mestrado em Criação Artística Contemporânea (MCAC) conta com mais de uma década de existência tornando-se já uma referência no panorama cultural da cidade de Aveiro à qual a UA pertence. Valorizando as questões inerentes à investigação no domínio da arte contemporânea, o trabalho dos estudantes de MCAC procura instaurar uma reflexão sobre o discurso e sobre a materialidade da produção artística, integrando metodologias e práticas de investigação basilares na formação em Estudos de Arte.

Estudantes realizando um projeto na Residência Artística.

Os projectos artísticos individuais e colectivos realizadas pelos alunos no âmbito da sua formação académica permitem-lhes questionar o significado da criação na contemporaneidade e consequentemente promove a diversidade de abordagens no contexto artístico em que estarão inseridos como poderá ser verificado pelos projectos aqui divulgados.

*Graça Magalhães nasceu na cidade do Porto, em Portugal, 1960. Atualmente é diretora do 2º ciclo de Estudos de Arte do Mestrado em Criação Artística Contemporânea do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro e membro integrado do Instituto de Investigação em Design, Media e Cultura (ID+). No âmbito da sua formação académica foi bolseira do Ministério dos Negócios Estrangeiros Português e da Fundação Calouste Gulbenkian em Roma e Florença onde estudou conservação e restauro (1987-90), do Ministério da Educação Japonês (Monbusho) durante o mestrado em Técnicas de Impressão, na Tama Bijutsu Daigaku, Tóquio, (1990-1993) e da Fundação para a Ciência e Tecnologia durante o doutoramento com a Tese  A frágil totalidade. O significado do desenho no projecto de design. Poética e técnica: estudo de desenhos portugueses realizados a partir da 2ª metade do séc. XX, 2012.  Publicou em diversas revistas nacionais e internacionais bem como participou em vários congressos nacionais e internacionais sobre desenho e imagem. Trabalhou como artista plástica em Portugal e em países estrangeiros. Entre 1977-79 estudou e colaborou com a companhia de Teatro Seiva Trupe, Porto.

Profa. Graça Magalhães e eu, em fevereiro de 2017.

Fotos: Acervo da UA (MCAC) e Izabel Liviski.

Fonte: https://www.ua.pt/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

‘FLANANDO’ EM LISBOA…

O tema desta edição é bastante polêmico, e suas origens são proveniente de  tradições tão antigas que se perdem na noite da História. Seu costume está ligado a civilizações bem remotas, e encontra-se associado a sacrifícios e a mitos religiosos. Desenvolveu-se principalmente na Península Ibérica, mas não somente, enquanto em Portugal e Espanha vem perdendo espaço está se desenvolvendo em outros países, impensáveis, como a China. O foco do relato que trago aqui, se estabelece mais no encontro de um local inusitado e no conhecimento que proporcionou, do que no aprofundamento do  tema em si, o que demandaria muito mais pesquisas e discussões.

No início deste ano, minha amiga Vanisse Corrêa e eu estivemos participando de um encontro no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, o AFIRSE, um dos mais destacados Congressos de Educação da Europa. Certo dia, em um intervalo das apresentações enquanto passeávamos a esmo por aquela encantadora cidade, nos deparamos com um enorme edifício em estilo árabe no centro da cidade. Sem saber bem do que se tratava, entramos e nos deparamos com a  Praça de Touros do Campo Pequeno, e mergulhando um pouco perplexas nesse universo, observando as peças e fotografias do Museu de Tauromaquia que lá se encontra.

Arquitetura do prédio que abriga a Praça de Touros, em Lisboa.

Ficamos sabendo que na origem da relação entre o homem e o touro, mais concretamente o seu antepassado Auroque, existe até mesmo uma questão metafísica, pois esse animal sempre foi visto como um animal místico, portanto objeto de cultos religiosos, como símbolo de fertilidade e de virilidade.  O enfrentamento do touro pelo homem era uma forma deste se apoderar das qualidades do animal e essa prática manifestou-se nas mais diversas sociedades mediterrâneas e do Oriente Médio, como narrado na Epopéia de Gilgamesh (Mesopotâmia, IIº milênio A.C.), e nos  afrescos do Palácio de Knossos  em Creta na Grécia, durante a civilização Minóica. Também nos mitos da antiguidade grega como o do Minotauro e o Rapto de Europa, que deu nome ao continente, e esta influência mantém-se até aos dias de hoje, na arte e cultura da civilização ocidental.

São Lucas, padroeiro dos médicos e dos pintores, e o Touro que aparece em suas representações, tem um significado místico.

Uma das surpresas desse local foi encontrar uma toureira entre os homenageados, Conchita Cintrón (1922-2009), também conhecida como a “Deusa Loira da Arena”. Ela foi uma toureira peruano-portuguesa, considerada ainda hoje como a mais famosa em Portugal e no mundo todo. Nascida no Chile, cresceu no Peru,  mas viveu  a maior parte da sua vida e faleceu aos 86 anos em Lisboa. Aos 16 anos já era uma “rejoneadora” profissional, isto é, toureava a cavalo. A partir de 1939, ela iniciou uma carreira internacional que a levou ao México, Portugal e França. Aposentou-se em 1951 após seu casamento, e em 1968 publicou um livro de memórias, com o prefácio escrito por Orson Welles que era um de seus admiradores.

Imagem que se encontra no Museu de Tauromaquia

 

Conchita Cintrón, fotografada por Robert Capa, em 1940.

 

A Praça de Touros, foi fundada em 1892, está localizada na Avenida da República em Lisboa, e é considerada a primeira Praça de Touros de Portugal. Esteve fechada por anos e após algumas reformas e restauros foi reaberta em 2006. Nesse local além das corridas de touros, acontecem concertos musicais, feiras, exposições e outros eventos, tem uma capacidade para cerca de dez mil pessoas, e o calendário de corridas acontece principalmente na primavera e no verão. Há uma galeria comercial no subsolo, conhecida como Centro Comercial do Campo Pequeno, e alguns outros espaços comerciais no piso térreo, principalmente bares e restaurantes.

Vista geral da Praça de Touros de Campo Pequeno

 

Detalhe de vitral do museu

Algumas lojas e restaurantes do Centro Comercial:

 

 

 

 

 

 

 

 

Retomando a questão das touradas, ela é tão polêmica que envolveu até mesmo a Igreja Católica, inicialmente com uma atitude positiva e benevolente: o Touro era o animal que se identificava tanto com São Lucas como com o Arcanjo Gabriel e São Miguel. A partir do século XIV a situação muda, quando a igreja começou a incluir nas orações aos seus santos padroeiros, oferendas de Novilhos ou Touros, que tinham como finalidade pedir ao santo da devoção de cada um, que intercedesse junto a Deus para pôr fim às muitas calamidades que assolavam as cidades. A situação chegou a um ponto em que o Papa Pio V (1504-1572) escreveu a bula “De salute gregis dominici”, condenando a prática das touradas, e que se encontra em vigor até os dias de hoje:
https://moimunanblog.com/2011/12/02/bula-salutis-gregis-dominici-de-san-pio-v/

Vista de uma das entradas da arena

Enfim, a tauromaquia divide opiniões apaixonadas, é considerada como patrimônio imaterial por alguns e espetáculo violento e degradante por outros, “não é de hoje que as touradas são condenadas por grupos que protegem e zelam pelos direitos dos animais. E atualmente, como a economia dos países europeus não apresentam um crescimento, e os movimentos contra esse tipo de esporte só crescem, já foram cogitadas, muitas vezes, pelo encerramento das touradas. Há locais na Espanha em que esse tipo de torneio já não ocorrem mais, por determinações judiciais.

Lateral do edifício da Praça dos Touros.

A primeira região a acatar a ordem foram as Ilhas Canárias, no começo da década de 90. As redes de televisão do país também já não exibem mais os torneios, por determinação da justiça de que eventos violentos envolvendo animais não possam ser transmitidos antes das 10 da noite. Há outros tipos de touradas, mas que não envolvem a morte do animal. Entretanto, os ativistas querem banir até mesmo esses eventos, argumentando que, embora o animal não sofra danos físicos, ele fica bastante atemorizado, o que pode prejudicá-lo”, segundo as entidades de defesa dos animais.

Para saber mais: http://www.falabicho.org.br/PDF/16.pdf

“Além de ser um triste espetáculo, o que torna difícil a abolição da tauromaquia é o dinheiro envolvido nessa indústria” (José Ignácio Giménez – ativista pelos direitos animais.)

Fotos: Izabel Liviski

Fonte: http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/a-verdadeira-origem-da-tauromaquia-710197

 

Eu e Vanisse Corrêa em um dia ensolarado e muito frio, ‘flanando’ em Lisboa.

 

FOTOGRAFIA E LITERATURA: REVELANDO PAISAGENS ÍNTIMAS….

A disciplina Literatura e Outas Linguagens: Landscapes Stories, ministrada pelo professor Rodrigo Vasconcelos Machado na Universidade Federal do Paraná neste semestre, teve como proposta a imersão produtiva no fazer fotográfico a partir da interface entre a literatura e a paisagem urbana, com um  caráter inteiramente experimental.

O curso, oferecido a alunos de diversas áreas e à comunidade em geral, possibilitou aos participantes vivenciar o processo de criação fotográfica através da literatura, trabalhando individualmente ou em equipe, o que rendeu trabalhos extraordinários, reunidos em uma exposição na Sala Arte, Design & Cia. da UFPR, e publicação em e-book.  Destacamos aquí, o ensaio fotográfico de Luiz Gustavo Singeski* e Isabela Fiori.

“Paisagens íntimas

A paisagem é o lugar dos que não têm lugar. O contrário do que é ligado à destinação, à domesticidade. Do que é habitável, morada. Privilégio de cidades estrangeiras visitadas pela primeira vez, dos desertos, das ruínas, dos céus pitorescos: serem desorientadores. Não acolhem, desolam o espírito. Interrompem o tempo e o espaço, impõem uma pausa ao pensamento.

“Curva”

Mas quando é que se tem paisagem? Kant diz que é toda vez que o espírito se desprende de uma matéria sensível para outra, conservando nesta a organização sensorial conveniente para aquela, ou pelo menos sua lembrança – o campo para o citadino, a cidade para o camponês. 

“Dobra”

O paisagista é aquele que vê as coisas de um outro ponto de vista; há a paisagem sempre que o olhar se desloca, o desenraizamento é sua condição. Neste ensaio, o corpo coisificado é transmutado em paisagem e os elementos da paisagem, corporizados. Sugere-se a criação de uma fisionomia da paisagem – aproximação da paisagem ao corpo: uma paisagem íntima.

“Estrutura”

As imagens deste ensaio partem da negação da perspectiva numa imagem superficial que permite a assimilação do plano geral ou médio ao close, a equiparação de um espaço com o corpo. Surge assim um olhar tátil. 

“Veio”

Sobreposição de camadas e superfícies que enrugam, fendem e descascam. Constituição de um espaço único de conjunções, de articulações de fragmentos.

“Forma”

Um espaço tátil. O mundo – a paisagem – num close. O retrato de corpo não produz um objeto parcial; ele o retira do seu lugar e tempo para tomá-lo em si mesmo.”

“Fenda”

 

*Luiz Gustavo Singeski é Arquiteto e Urbanista.

www.oficinaurbana.com.br

SERVIÇO:

Sala Arte, Design & Cia.

UFPR/REITORIA – Endereço: Rua General Carneiro, 460 – Hall do Edifício D. Pedro I – horário comercial.

DE 16 DE OUTUBRO A 2 DE NOVEMBRO.

 

MUITO ALÉM DA SELFIE…

“Um retrato! O que poderia ser mais simples e mais complexo, mais óbvio e mais profundo?” (Charles Baudelaire)

Na História da Arte, o Autorretrato é definido como uma imagem ou representação que o artista faz de si mesmo, independente do suporte escolhido. Esse tipo de auto-representação passou a ser cada vez mais frequente a partir da renascença italiana, e muitos artistas recorreram a essa forma de expressão, até mesmo chegando a uma espécie de obsessão como Rembrandt (1606-1669) que realizou quase uma centena de autorretratos, ou a pintora francesa Élisabeth Vigée Le Brun (1755-1842) também adepta dessa modalidade, ou ainda Frida Kahlo (1907-1954) autora de mais de cinquenta autorretratos, constituindo uma verdadeira autobiografia pictórica.

Autorretrato de Lebrun.

 

Também na fotografia o self-portrait se desenvolveu como um sistema de representação, fotógrafos de todas as tendências produziram fascinantes autorretratos cheios de significados, como o dadaísta e depois surrealista Man Ray (1890-1976) Vivian Maier (1926-2009) entre tantos outros. Cindy Sherman (1954-) fotógrafa norte-americana, é protagonista de todos os seus trabalhos em que discute os papéis impostos às mulheres pela sociedade, pela mídia, e pela arte, interpretando estereótipos femininos inspirados em filmes hollywoodianos, por exemplo.

 

Man Ray, self-portrait.

 

Cindy Sherman

 

É preciso, porém, diferenciar o autorretrato da “selfie”, tão popularizada atualmente nas redes sociais. Por curiosidade consta que a primeira selfie da história foi registrada pelo químico amador e fotógrafo Robert Cornelius, em 1839 (nos inícios da fotografia) em um daguerreótipo. Se isso de fato ocorreu, ele deve ter preparado o equipamento na parte de trás da loja da sua família na Filadélfia, removido a tampa da lente, em seguida correu e se sentou por um minuto antes de cobrir as lentes de sua câmera novamente.

Daguerreótipo de Robert Cornelius, 1839.

 

Para se estabelecer as principais diferenças entre um e outro não basta citar apenas a tecnologia: como se sabe, selfies em geral são feitas com smarthphones enquanto o autorretrato requer equipamento mais especializado. E se analisarmos questões de contexto e interpretação, percebemos que muitos autorretratos são criados para serem lidos como arte, sendo exibidos em museus e galerias, enquanto as selfies são compartilhadas como parte de uma interação, estando ligadas à pessoa retratada de forma íntima. Mas as diferenças não param por aí.

Para conhecer e colocar em prática, as diferenças profundas entre as duas modalidades, é que Charly Techio* realizou recentemente a “Oficina de Autorretrato – Além da selfie!” no Curso de Fotografia do Centro Europeu, em Curitiba.** “Abordei o conceito de autorretrato na história da arte, em relação a utilização da selfie; a percepção de seu corpo e o conceito que os alunos gostariam de passar através da imagem”, conta Charly, acrescentando que “o Autorretrato foi realizado não para falar de si (mesmo que todas as imagens que um fotógrafo produza, falem algo de si), mas usando o próprio corpo como um veículo para passar ideias.”

Assim, esta oficina que teve um enfoque na fotografia contemporânea, abordou o corpo como representação de ideias, a performance para a câmera, as técnicas de auto-representação e exercícios de reflexão sobre si mesmo para a construção de conceitos, desconectando o autorretrato como expressão artística da já tradicional selfie. Veja abaixo, alguns dos resultados obtidos pelos alunos na realização do curso:

Foto: Amanda Lavorato

 

Foto: Carol Leardini Picolo‎

 

Foto: Fernanda Camacho

 

Foto: Sandra Hiromoto

 

Foto: Thiago Zanotti‎

 

Foto: William Hara‎

 

 

Autorretrato de Charly Techio.

*Charly Techio, é formada em publicidade (UTP, 1998), pós-graduada em Fotografia (UniCuritiba, 2003) e em História da Arte Moderna e Contemporânea (Embap, 2010). É Supervisora do Curso de Fotografia do Centro Europeu de Curitiba (desde 2005) e do Curso de Artes Visuais (desde 2015); onde ministra aulas de Foto Arte.

Participou de diversas mostras coletivas e salões de arte, como o 15º MAM Bahia (2008), 63º SalãoParanaense (2009), 6º Salão dos Artistas Sem Galeria (SP e BH, 2015), e o 3º Salon d’Automne França-Brasil (SP, 2015); mostra “Diversidade e Afinidades: Universo x Reverso” acervo do Espaço Cultural Contemporâneo (Brasilia, 2010), “Momento Criativo da Arte Contemporânea Brasileira”, AVA Galleria (Helsinque, 2015) e no Consulado do Brasil nos Eua (NY, 2015).

Em 2009 recebeu Menção Honrosa, pelo ensaio apresentado para o Foto Arte Brasília, em 2010 foi 1º lugar no Salão de Arte de Atibaia SP e em 2013, recebeu Menção Especial pelo Conjunto da Obra, no Salão de Arte Contemporânea de Ponta Grossa – PR.
Individualmente expôs seu trabalho na Secretaria de Estado da Cultura do Paraná (Curitiba, 2005), no Museu de Arte Contemporânea de Cascavel (PR, 2007) na Galeria Lunara, (Porto Alegre, 2008), no Palacete dos Leões, (Curitiba, 2011); na Fnac (Curitiba, 2013); na Galeria Ponto de Fuga (Curitiba, 2013), no Museu da Fotografia de Curitiba, 2016.

Participou da residência artística Berlin_im_Fokus durante o mês de junho de 2013, na Alemanha, e expôs seu trabalho realizado neste período no Bethaniem Haus, em Berlim.

 

** A Oficina de Autorretrato – Além da Selfie! foi realizada dentro da programação do Subtropical 2017 – Festival de Criatividade Urbana: http://www.fundacaoculturaldecuritiba.com.br/agenda/subtropikal-2017/

 

Para informações sobre os Cursos de Fotografia, Artes Visuais e tantos outros, do Centro Europeu:

 

 

41 3233 6669
Rua Benjamin Lins, 999
Curitiba – PR

http://centroeuropeu.com.br