INcontros

JEAN GENET E A PESQUISA SOCIAL…

O texto que publico nesta semana é uma adaptação para a Revista ContemporArtes da introdução à tese de doutorado em Sociologia que defendí em abril de 2016 na UFPR, e que tem o título de “Retratos de Detentas na Etnografia do Espaço Prisional: Trajetórias, Imagens e Representações”.

RETROSPECTIVA DE EVERLY GILLER NO RESTAURANTE MIKADO…

“O Restaurante Mikado foi fundado no dia 4 de fevereiro de 1991, e a proposta era oferecer uma alimentação saudável, sem carne vermelha e com alguns pratos da culinária japonesa, como o missoshiru (sopa de missô, a pasta de soja fermentada), yakisoba, tofu (queijo de soja), sushi (enrolado de algas marinhas), tempura (fritura de legumes), moyashi (broto de feijão) e outros. Funcionando sempre no horário de almoço, de segunda a sábado, reuniu uma legião de adeptos: os ‘mikadianos’, como ficaram conhecidos os habituées do restaurante”, escreveu a jornalista e escritora Marília Kubota.

No final de 2015 os antigos proprietários, o casal Kenji e Michiko Fukui, responsáveis pela elaboração do tradicional cardápio do Mikado, o ‘Mika’ para os íntimos, decidiram aposentar-se e inicialmente, fechar o restaurante. Isto causou uma grande comoção em todos os clientes. Entre eles estava Hélio Coutinho, antigo frequentador e admirador do conceito de comida saudável praticado pelo restaurante. Ele convenceu os ex-proprietários a cederem a casa para dar continuidade a esse pedaço da história curitibana.

Os novos proprietários do Restaurante Mikado. Foto: Andrea Torrente (Gazeta do Povo)

 

Juntamente com os sócios Carolina Jaime e Alfredo Coelho, ambos cozinheiros, reabriram o restaurante em abril de 2016. Com a proposta de manter a mesma qualidade e os tradicionais pratos servidos há mais de duas décadas os novos proprietários introduziram a sua personalidade no restaurante, quer seja na elaboração de um cardápio exclusivamente vegetariano, com algumas opções veganas, às quartas feiras, quer seja com novas preparações.

Mas talvez o grande incremento do restaurante seja a criação de um espaço cultural para exposição das obras de seus clientes. Além da venda de livros e CDs de escritores e músicos locais, o Mikado oferece espaço para que artistas exponham suas obras tais como quadros e fotografias. No mês de março e abril, está em cartaz a exposição retrospectiva de Everly Giller, e para acompanhá-la estão também os trabalhos da estreante e talentosa Eva Giller Parisi.

“Duas Cadeiras” (Everly Giller)

 

As obras de Everly Giller são permeadas de simbologia e de elementos poéticos, sonhos, imagens oníricas. Por meio de suas figuras e paisagens delicadas, que incluem árvores, água, chuva, ela traduz uma Natureza sensível, alegre, de cores fortes, traços sutis e precisos. Cria quando está feliz, acredita que esse bem-estar é importante em seu processo artístico.

Quadros da exposição no andar superior do restaurante.

 

Lembra de imagens marcantes de sua infância, como a de quando surpreendeu sua mãe pintando um quadro – cena que acompanhou para sempre e que acredita ter sido decisiva para a escolha de sua carreira artística. Seus avós nasceram na Polônia e por isto a artista tem uma estreita ligação com a cultura polonesa, que a influenciou em seu processo criativo.

“Tinha cinco anos quando vi minha mãe pintando um quadro. Aquela paisagem na tela, as cores e o cheiro bom da tinta penetraram em minha alma, e me levaram ao curso de pintura da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, que concluí em 1983. Nos dois anos seguintes, busquei nas técnicas da gravura um complemento à formação acadêmica, frequentando os ateliês do Solar do Barão”, conta Everly.

“Mas as impressões da infância me conduziriam mais longe…. em agosto de 1985, com o apoio do Consulado da Polônia em Curitiba, embarquei em um navio polonês rumo à terra de meus antepassados, para aprender gravura em metal na Universidade de Belas Artes em Cracóvia.

“Mamãos e Maçãs” (Everly Giller)

 

Além do aperfeiçoamento em gravura, os dois anos na Polônia foram decisivos para o desenvolvimento de minha linguagem atual, proporcionando também o meu reencontro com a pintura, dessa vez de maneira mais pessoal, onde ousei incursionar pelo meu mundo particular. Faço arte para reencontrar meus sentimentos mais autênticos e profundos, sempre vinculados às recordações e impressões da infância. Trabalho com imagens do meu inconsciente, simbólicas, cheias de segredos…” conclui a artista.

Everly GILLER nasceu em Caçador (SC) em 1961. Em 1983 formou-se em Pintura e Licenciatura em Desenho na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP). Estudou com mestres como Fernando Calderari, Leonor Botteri, Luís Carlos de Andrade Lima, João Osório Brzezinski, Ivens Fontoura, entre outros. Mais tarde com o apoio do Consulado Geral da República da Polônia em Curitiba, cursou por dois anos o ateliê de Gravura em Metal da Academia de Belas Artes em Cracóvia com os professores Jacek Sroka e Stanislaw Wejman.

A artista e amigos, no dia da abertura da mostra

 

Atuando desde 1980 com produção em pintura e gravura, a artista já participou de mais de 110 mostras individuais e coletivas, e suas obras encontram-se em mais de 10 acervos, de museus a colecionadores. Em 2015 concluiu o Curso Superior de Letras – Polonês na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atualmente é professora do idioma polonês na Casa da Cultura Polônia-Brasil e professora no atelier de linoleogravura no Museu da Gravura no Solar do Barão em Curitiba/PR.

CONTATO: (41) 99647-8488
https://www.facebook.com/everlygiller/

Everly e Eva, dois talentos em famíia.

 

Eva Giller PARISI nasceu em Curitiba (PR) em 1991. Filha de pai e mãe artistas, Eva está familiarizada com o mundo das artes desde a infância e constantemente explora técnicas e materiais diversos. Em 2016 concluiu o curso superior em Design Gráfico na Faculdade UniCuritiba/PR. Artista autodidata, frequenta vários cursos e ateliers de artes. Sempre estimulada pela atmosfera artística em casa, possui ampla produção na área da gravura, mas elegeu a pintura como sua técnica preferida. Atua profissionalmente como tatuadora e ilustradora.

CONTATO: (41) 99845-2117

 

“Vegetarianismo Selvagem” (Eva Giller Parisi)

 

“Cozinha Rural” (Eva Giller Parisi)

 

TEXTOS: Alfredo Coelho, Marilia Kubota, Everly Giller.

Veja também matéria publicada na ContemporArtes em 30 de Dezembro de 2015, “Adeus, Mikado”:
https://revistacontemporartes.blogspot.com.br/2015/12/adeus-mikado.html

 

Restaurante Mikado
R. São Francisco, 126 – Centro.
Telefone: (41) 3323-6709
Curitiba – PR.
80020-190

A MULHER: UMA ARTICULAÇÃO ENTRE ARTE E PSICANÁLISE…

“O destino de uma mulher é ser uma mulher”
(Clarise Lispctor, a Hora da estrela, p.86, 1995)

 

Nesta última edição de 2017 da Coluna INcontros, trazemos novamente a contribuição do leitor Guilherme Silva dos Passos*, em mais uma pesquisa sobre a feminilidade, desta vez fazendo uma conexão entre Ciência e Arte:

“O que é a Mulher para a psicanálise? É essa pergunta que acendeu o desejo pelo saber. É visto que em toda a existência do mundo a mulher sempre foi uma incógnita, uma fígura mística, uma esfinge a (não) ser decifrada. Portanto este trabalho tem a intenção de entender o que é ser uma mulher, articulando com a análise de arte.

Uma obra de Sandro Botticelli (1486), “O Nascimento de Vênus”, inspirou a construção desse trabalho. Nesta obra, o ser que representa uma mulher, é coberta, por parte, mas não toda. Há algo que escapa, algo que vela e revela o ser de uma mulher. Faço essa articulação, com base na teoria psicanalítica, a partir de Lacan (1972/73).

O nascimento de Vênus, de Botticelli

E para compreender e entendermos mais essa questão, foi indispensável percorrer como se constrói a sexualidade feminina para a psicanálise. Onde, Freud (1931) pontua que o desenvolvimento de uma mulher e sua sexualidade nasce de uma relação de exclusividade da menina com sua mãe, que se rompe após a garota frustrar-se com a mesma (mãe), frente a diferença sexual anatômica (complexo de castração), resultando em três possibilidades da menina haver-se com sua feminilidade.

Adiante, Freud (1933) descreve que uma mulher só poderá possuir o falo através da maternidade, como uma possibilidade da mulher estar inserida no gozo fálico.

Freud (1937) reforça ao descrever que o desejo de ter um filho vem para uma mulher, suprir o desejo de ter um pênis. Porém, Freud (1937) no mesmo texto descreve, como típico da condição humana, uma dualidade mental (feminino e masculino) no sujeito biológico (fêmea e macho), apontando para a construção do feminino como algo não único da mulher. O que não exclui seu trabalho, que evidenciou o modo de desenvolvimento da feminilidade, e como raiz desta, a relação pré edípica com a mãe e com a castração.

Na vida mental, encontramos apenas reflexos desta grande antítese e sua interpretação torna-se mais difícil pelo fato, há muito suspeitado, de que ninguém se limita às modalidades de reação de um único sexo […] Para distinguir entre masculino e feminino na vida mental, usamos o que é, sem dúvida alguma, uma equação empírica, convencional e inadequada: chamamos de masculino tudo o que é forte e ativo, e de feminino tudo o que é fraco e passivo. Este fato da bissexualidade psicológica dificulta também todas as nossas investigações sobre o assunto e torna-as mais difíceis de descrever. (FREUD, 1937, p.121).

Freud (1937) ao pontuar o feminino como condição mental, presente em homens e mulheres, faz pensar que não é o pênis que se apresenta como falta, mas o modo que o sujeito vive a castração. Pois se a menina, por vezes, questiona ao se ver castrada, buscando na mãe e sequentemente no pai o objeto faltante (o pênis), logo, a menina não abandona de todo, a relação primária do objeto de amor (mãe), como o menino, que teme ser castrado.

É então, a relação pré-edípica com a mãe como pontua Freud (1931), a raiz da feminilidade. Não há algo que barre (castre) inteiramente, essa relação com a figura materna, que se mostra mais marcante no ser de uma mulher, e que se encontra para além do falo.

Zalcberg (2003) descreve que há um “resto” que fica dessa relação da menina com a mãe, Freud (1895) descreve o termo das Ding como um resto que escapa da lei. Lacan (1959/60) entende esse resto como algo do impossível de se inscrever que se apresenta de modo recorrente e permanece para sempre fora do sentido.

Nas  palavras de Lacan,  “O mundo freudiano, ou seja, o da nossa experiência, comporta que é esse objeto, das Ding, enquanto Outro absoluto do sujeito, que se trata de reencontrar.” (LACAN 1959/60, p.69). Sendo assim, há algo dessa relação da menina com a mãe que fica, um resto que escapa à significação ao tentar reencontrar o objeto perdido (pré-edipico), é também por isso que Miller descreve que “as mulheres parecem, às vezes e na medida do possível, mais amigas do real…De qualquer forma, isso se explica pelo fato de elas não terem necessariamente a mesma relação com a castração que os homens.” ( 2010, p.2)

É então a partir de Lacan (1972-1973) que pontuo que na maternidade, a mulher se identifica como mãe e não como mulher, algo lhe falta para ser mulher, que não o falo. Trazendo à luz o que apresenta como feminino na mulher, que Lacan (1972-1973) nomeou de não todo, como o gozo da mulher, que se referencia ao gozo fálico, mas não todo, algo que escapa deste, o que coloca o feminino no lugar ilimitado,  mantendo a mulher para além do gozo fálico.

Que tudo gira ao redor do gozo fálico, é precisamente o que dá testemunho a experiência analítica, e testemunho de que a mulher se define por uma posição que apontei com o não todo no que se refere ao gozo fálico […] Vou um pouco mais longe – o gozo fálico é o obstáculo pelo qual o homem não chega, eu diria, a gozar do corpo da mulher, precisamente porque o de que ele goza é do gozo do órgão. (LACAN, 1972/73, p. 15).

Ao descrever que “A mulher não existe” (1972/73, p.78) Lacan diz da inexistência do feminino como falta de um significante que represente e que lhe dê o lugar de mulher. Adiante na teoria lacaniana é possível entender que uma mulher que busca identificar-se a um significante como mulher (significante esse que não existe) pode se deparar com a devastação.

Então, por não existir um significante para se basear, é que mulher deve se tornar Outra, ou Outras a partir dela mesma. O que faz com que a mulher não possa ser dita como artigo definido, mas sim, ser dita uma a uma, na sua singularidade. Assim, podemos de algum modo articular a teoria com a obra “Demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso (1907), onde cada mulher é única, a seu modo.

Les demoiselles d’Avignon, de Picasso.

O que me levou a concluir, que ser mulher, é um vir a ser, uma construção singular de cada mulher. E que se quisermos saber mais sobre a feminilidade, devemos retornar às orientações de Freud (1933): “Se desejarem saber mais a respeito da feminilidade, indaguem da própria experiência de vida dos senhores, ou consultem os poetas” (Freud, 1933, p.92), onde se reconhece na arte e na feminilidade uma relação de intimidade com o real, do impossível de ser dito.”

*Guilherme Silva dos Passos é Psicólogo, graduado pelo Centro Universitário Autônomo do Brasil – UniBrasil. Interessado sobre a feminilidade, Guilherme vem estudando a temática, através da psicanálise, desde o ínicio da graduação. Frequentou programas de iniciação científica, monitoria e grupos de estudos todos voltados a diversidade de gênero; sexualidade e loucura feminina. Atualmente, segue sua formação em Psicanálise.

REFERÊNCIAS:
BOTTICELLI S. (1486), O nascimento de Venus. Localização: Galeria degli Uffizi, Florença.
FREUD, S. (1895), “Projeto para uma Psicologia Científica”. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago; (1950).
FREUD, S. (1931), Sexualidade feminina. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago; (1996).
FREUD, S. (1933) Feminilidade. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
FREUD, S. (1937). Análise terminável e interminável (Obras Completas, Vol. 23). Rio de Janeiro: Imago.
LACAN, J. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise, Jacques Lacan; texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; [versão brasileira Antonio Quinet]’ – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1959-60.
LACAN, J. (1972-1973/1982). O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
LISPECTOR, C. (1998). A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco
MILLER, J.-A. Mulheres e semblantes. Opção Lacaniana online nova série Ano 1 • Número 1 • Março 2010 • ISSN 2177-2673. 2010. Disponível em: http://opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_1/Mulheres_e_semblantes_I.pdf
PICASSO, P. (1907). Les demoiselles d’Avignon. Localização: Museu de Arte Moderna, Nova York.
ZALCBERG, M. (2003) A relação mãe e filha. Rio de Janeiro/São Paulo: Campus.

THEORIA, POIESIS e PRAXIS: A UNIVERSIDADE de AVEIRO COMEMORA 44 ANOS….

A Universidade de Aveiro (UA), em Portugal, está completando 44 anos de existência. Criada no ano de 1973, em um contexto de expansão e renovação do ensino superior em Portugal, a UA rapidamente se transformou em uma universidade de referência devido à alta qualidade da sua investigação, do seu corpo docente e das suas infraestruturas.

Além dos diversos cursos de licenciatura a UA possui um vasto leque de cursos de formação especializada (CFEs), cursos de especialização tecnológica (CETs), de mestrado e doutorado. Em 2011, a UA foi considerada uma das melhores universidades da Europa e a melhor de Portugal, segundo o ranking da revista britânica Times Higher Education.

A UA concentra-se quase integralmente em Aveiro no Campus Universitário de Santiago, uma vasta área situada entre a zona lagunar das salinas e o centro da cidade. As exceções são a Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Águeda, a Escola Superior de Design, Gestão e Tecnologias da Produção Aveiro Norte, com sede em Oliveira de Azeméis, e algumas residências dispersas pelo distrito.

Chegada à linda cidade de Aveiro por trem, ou comboio como se diz em Portugal.

O campus se constitui como uma “pequena cidade”, com os seus espaços naturais e os cerca de 40 edifícios que o compõem: edifícios de ensino, de pesquisas, de apoio administrativo e técnico, residências, cantinas, bares, farmácia, banco, agência de viagens (Top Atlântico), correios, bibliotecas, livraria, papelaria, reprografia, centro de saúde universitário, loja do Cidadão Universitário, loja da Universidade, complexo desportivo (com pista de atletismo), salas para espetáculos e conferências, galerias para exposições, jardim infantil e creche. Além disso, o hospital fica muito próximo, ao lado da universidade.

Vista panorâmica do campus principal da Universidade

Os edifícios foram projetados por alguns dos melhores arquitetos portugueses, e portanto, o Campus Universitário de Santiago pode ser considerado uma sala de exposições da moderna arquitetura portuguesa, visitada todos os anos por arquitetos e estudantes de arquitetura de todo o mundo. Todas as infraestruturas de estudo, pesquisa, de apoio, culturais, desportivas e lazer encontram-se reunidas num único espaço, oferecendo excelentes condições de vida aos estudantes e todos os que fazem parte da comunidade acadêmica, sem necessidade de deslocamentos.

Vista parcial do Campus de Santiago.

Em fevereiro deste ano em visita à Universidade, eu conversei com a professora Graça Magalhães*, diretora do 2º ciclo de Estudos de Arte do Mestrado em Criação Artística Contemporânea do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, que gentilmente me mostrou seu departamento e outros locais da universidade, e a quem posteriormente enviei questões para saber mais a respeito do setor que ela dirige e como está se desenvolvendo a pesquisa em artes e poéticas visuais, em uma das mais conceituadas universidades da Europa.

Como está situado o Mestrado em Criação Artística Contemporânea, em relação ao conjunto dos cursos que a UA oferece aos seus estudantes?

A UA é uma instituição pública que produz, difunde e transfere conhecimento e cultura centrado no desenvolvimento nacional e internacional, reforçando a ligação com os países de língua oficial portuguesa. Dispõe de uma oferta formativa diversificada, transversal aos seus departamentos, adotando perspetivas multidisciplinares e eticamente orientadas.

O Mestrado em Criação Artística Contemporânea (MCAC) instalado no Departamento de Comunicação e Arte (DeCA), enquadra-se nos princípios gerais do projeto educativo, científico e cultural da Universidade de Aveiro (UA), na medida em que procura ir ao encontro do tecido sociocultural que a UA procura servir, através de um plano curricular centrado no potencial artístico e criativo dos mestrandos, alicerçando a aprendizagem na experimentação de diversos meios e tecnologias numa inter-atuação com outras áreas científicas e recursos humanos e técnicos, potencializando a transdisciplinaridade e interatuando com a oferta cultural da região.

Apresentação CreART 2017.

O curso está inserido num campus que integra diversificadas áreas do saber facilitador da experimentação artística em variados formatos e meios e assim providenciando diversificados recursos técnicos e aprendizagens práticas, individuais e coletivas, que desenvolvem competências de investigação especializada e transdisciplinar que sustentem o trabalho de concepção e debate artístico. Do ponto de vista da praxis artística poder interagir com outros departamentos com especificidades muito variadas, científicas e humanísticas que se revelam um uma fonte de estímulo e desenvolvimento artístico.

Workshop de Fotografia Analógica.

A política intrainstitucional da UA têm-se refletido em M CAC nas colaborações com outros ciclos de estudos e iniciativas da UA, na partilha de unidades curriculares e docentes. Outras colaborações têm surgido ao nível da expansão e dinamização das competências dos alunos de M CAC, que com os docentes, colaboram ativamente em atividades extracurriculares/produções criativas no/do DeCA.

Quais as metas e objetivos do curso?

A construção do perfil do criador, pela sua amplitude, compreensão e profundidade, é desenvolvida de forma holística, integrando metodologias e práticas de investigação em arte, basilares na formação em Estudos de Arte. O curso está alicerçado numa formação transversal resultado do cruzamento de várias áreas científicas instaladas formal e conceptualmente no DeCA.

Trabalho resultante de Residência Artística.

Pretende-se fortalecer a experimentação artística em variados formatos e meios, providenciando diversificados recursos técnicos e aprendizagens práticas; questionar o significado da criação na contemporaneidade, estimulando a reflexão critica dos processos sociais e culturais em arte; desenvolver competências, aptidões e métodos de investigação especializada e transdisciplinar que sustentem o trabalho necessário à conceção, desenvolvimento e debate de projetos artísticos; formar artistas/mediadores culturais no âmbito da Criação Artística Contemporânea capazes de operar individual e coletivamente.

Quais as perscpectivas no mercado de trabalho para os estudantes que obtém essa formação?

Na UA existem vários mecanismos de aconselhamento, em particular, o Gabinete de Estágios e Saídas Profissionais (GESP), que promove ações de preparação para entrada no mercado de trabalho. Todos os estudantes da UA podem participar em experiências de mobilidade. Estas podem ser concretizadas através de um período de estudos, um estágio curricular ou um estágio profissionalizante, numa instituição parceira, no âmbito de projetos europeus de cooperação e mobilidade, ou no âmbito do conjunto alargado de redes e grupos de cooperação internacional com universidades de todos os continentes.

Atividade em Aula.

Com o objectivo da integração dos estudantes de MCAC no mercado de trabalho é promovida a participação interdisciplinar em projetos e atividades artísticas em parceria com fundações e associações culturais bem como a organização de exposições em museus e galerias locais e regionais. Essas atividades de desenvolvimento tecnológico e artístico, tem expressão através de projetos e ações de criação artística nacionais e internacionais de especificidade variada tais como: participação em workshops e residências artísticas desenvolvidos com as instituições locais; participação em conferências nacionais e internacionais abertas à comunidade; exposições a partir da colaboração com museus e instituições locais; criação e montagem de projetos artísticos.

O contributo real destas atividades possibilita a valorização da prática individual e coletiva artística que serve de instrumento para a consolidação e sucesso no âmbito económico e cultural de organizações, instituições e empresas com as quais os estudante individual ou colectivamente virão a estar ligados.

Exposição no Museu de Aveiro.

Quais as disciplinas que os estudantes têm ao longo do curso?

Os estudantes têm ao longo do ciclo de estudos uma formação alicerçada num conhecimento transdisciplinar abarcando diferentes competências. Ao nível das competências transversais salientam-se a capacidade de reflexão crítica sobre os processos sociais e culturais em arte, manualidade e proficiência técnica nos diferentes media, assim como em várias tipologias de apoio computacional.

As primeiras deduzem-se do facto de as Unidades de Crédito (UCs) de maior índole teórica requererem, normalmente a realização de trabalhos de síntese; já em relação ao segundo grupo, de competências mais práticas, são abordados diversos sistemas computacionais e novas tecnologias, com aplicações que vão desde as instalações audiovisuais aos sistemas interativos, passando pela realidade virtual (arduíno, Processing, M axmsp), com o objectivo de fortalecer a experimentação artística.

Instalação na Residência Artística.

Estas valências são trabalhadas quer no âmbito das unidades curriculares de projecto (LECA I e II, PIA e UCs opcionais: Vídeo Arte, Estudos de Fotografia, Expressão Gráfica e Plástica), quer através de workshops não curriculares e atividades complementares de formação, com especial destaque para a participação numa residência artística anual em parceria com uma associação cultural da região (Associação Binaural/Nodar).

As competências de investigação especializada, são igualmente desenvolvidas na exposição final de trabalhos (projectos artísticos) que tem lugar no Museu de Aveiro | Santa Joana Princesa e ainda, pontualmente, nas galerias locais. As competências interpessoais como o trabalho em grupo e capacidade de relacionamento interpessoal, necessárias ao trabalho de equipa pluridisciplinar são desenvolvidas em várias UCs, e consolidadas no grande projecto conjunto da exposição anual no Museu de Aveiro.

Exposição dos trabalhos de estudantes no Museu de Aveiro.

Que avaliação faz dos trabalhos resultantes do curso?

O Mestrado em Criação Artística Contemporânea (MCAC) conta com mais de uma década de existência tornando-se já uma referência no panorama cultural da cidade de Aveiro à qual a UA pertence. Valorizando as questões inerentes à investigação no domínio da arte contemporânea, o trabalho dos estudantes de MCAC procura instaurar uma reflexão sobre o discurso e sobre a materialidade da produção artística, integrando metodologias e práticas de investigação basilares na formação em Estudos de Arte.

Estudantes realizando um projeto na Residência Artística.

Os projectos artísticos individuais e colectivos realizadas pelos alunos no âmbito da sua formação académica permitem-lhes questionar o significado da criação na contemporaneidade e consequentemente promove a diversidade de abordagens no contexto artístico em que estarão inseridos como poderá ser verificado pelos projectos aqui divulgados.

*Graça Magalhães nasceu na cidade do Porto, em Portugal, 1960. Atualmente é diretora do 2º ciclo de Estudos de Arte do Mestrado em Criação Artística Contemporânea do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro e membro integrado do Instituto de Investigação em Design, Media e Cultura (ID+). No âmbito da sua formação académica foi bolseira do Ministério dos Negócios Estrangeiros Português e da Fundação Calouste Gulbenkian em Roma e Florença onde estudou conservação e restauro (1987-90), do Ministério da Educação Japonês (Monbusho) durante o mestrado em Técnicas de Impressão, na Tama Bijutsu Daigaku, Tóquio, (1990-1993) e da Fundação para a Ciência e Tecnologia durante o doutoramento com a Tese  A frágil totalidade. O significado do desenho no projecto de design. Poética e técnica: estudo de desenhos portugueses realizados a partir da 2ª metade do séc. XX, 2012.  Publicou em diversas revistas nacionais e internacionais bem como participou em vários congressos nacionais e internacionais sobre desenho e imagem. Trabalhou como artista plástica em Portugal e em países estrangeiros. Entre 1977-79 estudou e colaborou com a companhia de Teatro Seiva Trupe, Porto.

Profa. Graça Magalhães e eu, em fevereiro de 2017.

Fotos: Acervo da UA (MCAC) e Izabel Liviski.

Fonte: https://www.ua.pt/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

‘FLANANDO’ EM LISBOA…

O tema desta edição é bastante polêmico, e suas origens são proveniente de  tradições tão antigas que se perdem na noite da História. Seu costume está ligado a civilizações bem remotas, e encontra-se associado a sacrifícios e a mitos religiosos. Desenvolveu-se principalmente na Península Ibérica, mas não somente, enquanto em Portugal e Espanha vem perdendo espaço está se desenvolvendo em outros países, impensáveis, como a China. O foco do relato que trago aqui, se estabelece mais no encontro de um local inusitado e no conhecimento que proporcionou, do que no aprofundamento do  tema em si, o que demandaria muito mais pesquisas e discussões.

No início deste ano, minha amiga Vanisse Corrêa e eu estivemos participando de um encontro no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, o AFIRSE, um dos mais destacados Congressos de Educação da Europa. Certo dia, em um intervalo das apresentações enquanto passeávamos a esmo por aquela encantadora cidade, nos deparamos com um enorme edifício em estilo árabe no centro da cidade. Sem saber bem do que se tratava, entramos e nos deparamos com a  Praça de Touros do Campo Pequeno, e mergulhando um pouco perplexas nesse universo, observando as peças e fotografias do Museu de Tauromaquia que lá se encontra.

Arquitetura do prédio que abriga a Praça de Touros, em Lisboa.

Ficamos sabendo que na origem da relação entre o homem e o touro, mais concretamente o seu antepassado Auroque, existe até mesmo uma questão metafísica, pois esse animal sempre foi visto como um animal místico, portanto objeto de cultos religiosos, como símbolo de fertilidade e de virilidade.  O enfrentamento do touro pelo homem era uma forma deste se apoderar das qualidades do animal e essa prática manifestou-se nas mais diversas sociedades mediterrâneas e do Oriente Médio, como narrado na Epopéia de Gilgamesh (Mesopotâmia, IIº milênio A.C.), e nos  afrescos do Palácio de Knossos  em Creta na Grécia, durante a civilização Minóica. Também nos mitos da antiguidade grega como o do Minotauro e o Rapto de Europa, que deu nome ao continente, e esta influência mantém-se até aos dias de hoje, na arte e cultura da civilização ocidental.

São Lucas, padroeiro dos médicos e dos pintores, e o Touro que aparece em suas representações, tem um significado místico.

Uma das surpresas desse local foi encontrar uma toureira entre os homenageados, Conchita Cintrón (1922-2009), também conhecida como a “Deusa Loira da Arena”. Ela foi uma toureira peruano-portuguesa, considerada ainda hoje como a mais famosa em Portugal e no mundo todo. Nascida no Chile, cresceu no Peru,  mas viveu  a maior parte da sua vida e faleceu aos 86 anos em Lisboa. Aos 16 anos já era uma “rejoneadora” profissional, isto é, toureava a cavalo. A partir de 1939, ela iniciou uma carreira internacional que a levou ao México, Portugal e França. Aposentou-se em 1951 após seu casamento, e em 1968 publicou um livro de memórias, com o prefácio escrito por Orson Welles que era um de seus admiradores.

Imagem que se encontra no Museu de Tauromaquia

 

Conchita Cintrón, fotografada por Robert Capa, em 1940.

 

A Praça de Touros, foi fundada em 1892, está localizada na Avenida da República em Lisboa, e é considerada a primeira Praça de Touros de Portugal. Esteve fechada por anos e após algumas reformas e restauros foi reaberta em 2006. Nesse local além das corridas de touros, acontecem concertos musicais, feiras, exposições e outros eventos, tem uma capacidade para cerca de dez mil pessoas, e o calendário de corridas acontece principalmente na primavera e no verão. Há uma galeria comercial no subsolo, conhecida como Centro Comercial do Campo Pequeno, e alguns outros espaços comerciais no piso térreo, principalmente bares e restaurantes.

Vista geral da Praça de Touros de Campo Pequeno

 

Detalhe de vitral do museu

Algumas lojas e restaurantes do Centro Comercial:

 

 

 

 

 

 

 

 

Retomando a questão das touradas, ela é tão polêmica que envolveu até mesmo a Igreja Católica, inicialmente com uma atitude positiva e benevolente: o Touro era o animal que se identificava tanto com São Lucas como com o Arcanjo Gabriel e São Miguel. A partir do século XIV a situação muda, quando a igreja começou a incluir nas orações aos seus santos padroeiros, oferendas de Novilhos ou Touros, que tinham como finalidade pedir ao santo da devoção de cada um, que intercedesse junto a Deus para pôr fim às muitas calamidades que assolavam as cidades. A situação chegou a um ponto em que o Papa Pio V (1504-1572) escreveu a bula “De salute gregis dominici”, condenando a prática das touradas, e que se encontra em vigor até os dias de hoje:
https://moimunanblog.com/2011/12/02/bula-salutis-gregis-dominici-de-san-pio-v/

Vista de uma das entradas da arena

Enfim, a tauromaquia divide opiniões apaixonadas, é considerada como patrimônio imaterial por alguns e espetáculo violento e degradante por outros, “não é de hoje que as touradas são condenadas por grupos que protegem e zelam pelos direitos dos animais. E atualmente, como a economia dos países europeus não apresentam um crescimento, e os movimentos contra esse tipo de esporte só crescem, já foram cogitadas, muitas vezes, pelo encerramento das touradas. Há locais na Espanha em que esse tipo de torneio já não ocorrem mais, por determinações judiciais.

Lateral do edifício da Praça dos Touros.

A primeira região a acatar a ordem foram as Ilhas Canárias, no começo da década de 90. As redes de televisão do país também já não exibem mais os torneios, por determinação da justiça de que eventos violentos envolvendo animais não possam ser transmitidos antes das 10 da noite. Há outros tipos de touradas, mas que não envolvem a morte do animal. Entretanto, os ativistas querem banir até mesmo esses eventos, argumentando que, embora o animal não sofra danos físicos, ele fica bastante atemorizado, o que pode prejudicá-lo”, segundo as entidades de defesa dos animais.

Para saber mais: http://www.falabicho.org.br/PDF/16.pdf

“Além de ser um triste espetáculo, o que torna difícil a abolição da tauromaquia é o dinheiro envolvido nessa indústria” (José Ignácio Giménez – ativista pelos direitos animais.)

Fotos: Izabel Liviski

Fonte: http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/a-verdadeira-origem-da-tauromaquia-710197

 

Eu e Vanisse Corrêa em um dia ensolarado e muito frio, ‘flanando’ em Lisboa.