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Girassol Giramundo

Buquirinha 2018

Do plano absoluto para o mar de montanhas.

Girando o mundo, vim parar na pequena cidade de Monteiro Lobato, a antiga Vila do Buquira,  localizada na encantadora Serra da Mantiqueira.

A cidade levava o nome do rio a qual ladeia, o Buquira, que na língua de “bugre” significa “ribeirão dos pássaros”. Surgiu à beira dos caminhos de tropeiros, fundada por eles e por imigrantes italianos na segunda metade do século 19.

 

Uma das tais “cidades mortas” com o fim do ciclo do café, como escreveu o próprio Monteiro, em 1919. Hoje não mais tão morta ou esquecida. Hoje aquecida pelo acesso fácil das estradas asfaltadas, pela mobilidade dos carros…

Percebe-se a chegada do turismo, com seu disfarce de prosperidade e oportunidades, que tira casas dos moradores, que encarece os aluguéis, que atrapalha a sossego tanto dos homens, quanto da mata e dos animais. A casa fechada de temporada não soma, subtraí.

Há tempos percebe-se também a chegada de novos habitantes, distantes do resto da população “original”. São os “hippies”, como são chamados pelos próprios moradores, povo simples, muitos “brutos” da lida diária, crentes, tementes a Deus e ao Estado.

As tribos se separam. Serão como óleo e água? Quando pergunto das cachoeiras, ouço: “tem aquela tal, mas lá é barra pesada, só vão os maconheiros!” Os malucos tatuados, descabelados, com seu jeito de vestir, de comer… Ouço meu pai: “teve um casamento aqui no salão de festa, nunca vi tanta gente esquisita, com umas roupas estranhas, credo!”

São eternas e infinitas estas migrações “hippies”, na minha geração foi Visconde de Mauá, São Tomé das Letras… Quantos outros povoados receberam os “hippies” na sua fuga? Muitos, muitos.

E eu aqui me encontro numa linha indefinida entre os “hippies” e os “normais”. Longe de me identificar com um ou com outro. Aprendendo a me calar, aprendendo a segurar meu riso sardônico ao ouvir as tribos falarem. Sei que eles não seriam diferente se me ouvissem falar! Sei que não soaria diferente, se começasse a falar…

faltam-me agora os “roques” rurais…” 

Gratidão” é a palavra da vez, não mais “obrigada/o”. Já o outro lado, acrescenta  a este último um “agradecida/o”.

Yoga, massagem, curas naturais, visões esotéricas, pães feito em casa, comida orgânica… O que eles fazem por aqui? Como este povo usa o espaço oferecido, a natureza e o sossego, como constroem, no dia a dia, o alternativo que vieram buscar? Enfim um mundo a descobrir na Vila do Buquira. Mais precisamente no Bairro do Souza. É logo que vai haver o Festival da Mandioca, estou curiosa!

O tradicional, também oferece bastante para descobrir,  festas de santo, os doces caseiros, os queijos, a rosquinhas fritas com canela e açúcar. Cadê as toadas e cantorias, e as cantigas e caatiras, os fogueados, as folias, a moda caipira, as tradições?

No bar que fica no meu caminho vez e outra, ouço uma música caipira de raiz fantástica. Cadê os violeiros? Ja sei que eles existem.

Percebi aqui no Brasil, um movimento cada vez maior de valorização da cultura regional paulista. Como a “redescoberta” do bolinho caipira. Presente até na festa hippie. Gostar de Inezita e pop agora, e tem cantores paulistas resgatando sua origem caipira. Você conhecem a dupla Pereira e Pereirinha? E de lambuja neste link a fantástica Rádio Caos.

https://www.youtube.com/watch?v=Sy_DxFjugR8

Aí aqui com meus pensamentos dou aquela escorregada e teorizo: Quem sabe vivemos uma reciclagem, um movimento para o regional como forma de afirmação de identidade, num mundo cada vez mais conectado e sem fronteiras. Onde a moda, a música, os gostos acabam sendo importados/exportados e ameaçando a nós (dentro desta cultura “ocidental”) todos de perdermos nossas diferenças… Será?

E o pica-pau-amarelo, de amarelo só tem a cabeça!

 

 

 

 

 

 

Berlim, você é maravilhosa!

“Berlim, du bist so wunderbar!”

Um jargão de um comercial de cerveja, define de maneira deliciosa a cidade. Sim, Berlim, você é maravilhosa!

Estou de volta ao Brasil por uns meses e desde que deixei a cidade, ainda não parei para pensar nela, esta é a primeira oportunidade.

Berlim é uma cidade em metamorfose, isso fez parte da sua história como de nenhuma outra. Na Idade média eram duas pequenas vilas – Berlin e Coln – separadas por um rio, e foi este rio que trouxe a riqueza do comércio para elas,  então já fundidas em uma. No século XVIII foi sede da monarquia prussiana, no XIX começou se industrializar e se expandir, no início do século XX era uma metrópole moderna, “avangard”, que nos anos da ditadura nacional socialista foi reprimida e “postas nos eixos da rigorosa moral alemã”. Com o fim da guerra voltou a ser duas, separada então por um muro e duas ideologias. Fundidas novamente em uma, a cidade vai perdendo a cada dia as suas diferenças.

Mostro aqui um pouco do que foi marcante para mim, enquanto estrangeira, moradora desta metrópole.

Dos símbolos nas ruas da cidade, a estética típica comunista do monumento (entre outros) homenageando o presidente do Partidão Ernst Thälmann. Na calcada, gravada uma alusão  à cultura rave, Berlim sem thecno é impensável!

 

Parque Ernst Thälmann, Greifwalder Str.

 

A cidade é rave! Körsorer Str,

 

Seguindo uma espécie de herança do rebelde e artístico, característico da Berlim capitalista, a cidade tem como política incentivar em jovens talentos e faz, entre outros tipos de manifestações, da Arte de Rua (diferente da “arte na rua”, leia http://revistacontemporartes.com.br/wp-admin/post.php?post=1952&action=edit) parte de seu potencial turístico. Um dos cartões postais é o pedaço do muro chamado “east Side Galery”. Aqui uma ideia genial, um muro onde o grafite é permitido e livre, podemos ver – finalmente! – como se faz estas obras.

Work in progress, Mauer Park

 

Turistas interferindo na arte… Talvez rabiscar com spray já seja arte também! Mauer Park

 

Este lado rebelde da Arte de Rua, está por todo lado da cidade, formando movimentos como o de pintar os trens. Artistas de rua se organizam em grupo para grafitarem rapidamente e de assalto um trem parado no pátio… Sempre procurando a provocação, não se limitaram destas vez aos trens da metro…

 

Grafitar trens é um movimento internacional na Arte de Rua.

 

A provocação não tem fim…

 

E por falar em arte na rua, mostro meu grupo preferido de música de rua, o Ruprecht Kitschen Orchestra. Aproveito este espaço para fazer uma homenagem à eles e seu trabalho – música Dancing de melhor qualidade com letras bem humoradas. Se por for para Berlim e pro acaso encontrar na ruas este pessoal, pare, ouça e dance!

Ruprecht Kitschen Orchestra, vai ver no Utube! : -)

 

Por fim algo típico de Berlim, o “viva e deixe viver”. Ou como uma fuga do conservadorismo e rigidez – no caso da Berlim ocidental, ou como busca de mais liberdade e oportunidades – no caso de Berlim oriental, guardada as devidas diferenças e proporções, nos dois lados a cidade oferecia a possibilidade de viver a “sua vida”. Herança dos tempos modernos dos início do século, quiça!? A cidade parece que nunca será domada e olha que tem muitos novos moradores – alemães ocidentais – que tentam! (leia http://revistacontemporartes.com.br/wp-admin/post.php?post=1072&action=edit) terá sempre seus lado anárquico, questionador, alternativo. Sim, como em todas as grandes cidades! Claro! Mas lá é um tiquinho diferente…

Aceite o conselho no poste:

“Trabalhe como se você não precisasse de dinheiro.

Dance, com se ninguém estivesse olhando.

Ame, como se nunca ninguém tivesse lhe magoado.

Viva, como se o paraíso fosse aqui na terra.”

 

Placa de metal, gravada em várias línguas. Körsore Str.

“Quem não tem cão, caça com gato…”

Por conta de um amigo de infância, comecei a prestar atenção num tipo específico de moto, a scooter/motoneta. Vespa e Lambreta são as marcas mais conhecidas. Para mim, todas as motonetas eram “lambretas”, até ser esclarecida pelo amigo que “não era bem assim”. Ele é dono de uma vespa…

Jornais já estão noticiando o boom deste tipo de veículo também no Brasil. Já sabiam os italianos, uma ótima opção para a locomoção na cidade. Berlim segue a tendência, a frota de motonetas vem crescendo cada vez mais com modelos novos, variados em preços, cilindradas e qualidade. Existe até a possibilidade de alugar uma destas para passear e também o sistema de sharing com as scooters.

Schwalbe costumizada, o boom das scooters

Bom, como falei, o amigo que me apresentou a este mundo me falou também das Schwalbe, a versão alemã das motonetas fabricadas pela Simson, fábrica que depois da divisão do país passou a ser a marca da antiga Alemanha Oriental. Mais um prova da eficiência e vantagem deste tipo de veículo, os comunistas fizeram a sua própria versão. Hoje, com o aumentou do número de vespas e scooters de todas as sortes, aumentou também o número de Schwalbe, que reapareceram completando o cenário da cidade.

Fotografando uma destas belezas para o amigo, conversei com seu dono que me contou que a polícia alemã patrulhava a cidade com estas motonetas. Ele, orgulhoso, me explica que a sua schwalbe foi uma desta.

 

Schwalbe, a motoneta alemã

Schwalbe, motoneta versão alemã.

Este dias dei de cara com uma, que me fez lembrar de um dos paralelos entre brasileiros e alemães orientais. Se tem algo interessante é observar os dois jeitos de ser dos alemães. Entre outras coisas a pessoinha socializada no lado comunista é mais relaxada, espontânea, direta e com menos trava (atenção generalização!!!!) Já a socializada no lado capitalista… bom, é diferente.
Uma das diferenças que aproxima o antigo comunista do brasileiro é a veia criativa. Filha da necessidade a criatividade em dar um jeitinho para concertar as coisas, a famosa “gambiarra”, também faz parte da cultura destes alemães. Devido à escassez de “coisas”, eles eram obrigados improvisar na hora da precisão. Um jogo de cintura bem conhecido nosso, que o alemão do outro lado nem sonha em ter! Estes vão simplesmente  à loja comprar a peça que falta ou que está quebrada e substituí-la.
Há meses testo a paciência do meu caríssimo Túlio enviando fotos de vespas e schwalben que encontro nas ruas da cidade. Tinha decidido fazer uma pausa, mas eis que me deparo na rua com esta pérola. O camarada não deve ter tido tanta grana para um retrovisor chique, como o dono da outra…

É uma ideia, quem sabe vira moda…