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Espaço do Leitor

Educação anarquista em Santos: apontamentos iniciais de uma pesquisa libertária

Flaviana Maria Goggin de Assis

Resumo: O trabalho em questão investiga, em apontamentos iniciais, as práticas pedagógicas anarquistas em algumas escolas da cidade de Santos – SP, bem como sua influência política na questão da emancipação e autogestão. A partir de pesquisas bibliográficas e de fontes primárias, em jornais anarquistas publicados na cidade na virada dos séculos XIX e XX, e fundos documentais das escolas anarquistas santistas, discute-se a trajetória da educação libertária na cidade sede do maior sindicato portuário do país.

Palavras-chave: Educação Anarquista; Santos; Anarquismo, educação libertária.

Leia o artigo completo clicando aqui.

75 Anos do Dia da Vitória – O Significado Judaico (Por Israel Blajberg)

O Dia da Vitória Aliada na Europa, 8 de maio de 1945, representou um marco relevante na longa e milenar historia do Povo de Israel. Ao comemorar os 75 anos desta data, nossos sentimentos são relativamente conflitantes. Se por um lado o triunfo sobre a Alemanha nazista representou realmente um marco relevante, por outro, o custo para os judeus foi altíssimo, 6 milhões de mártires inocentes foram sacrificados Al Kiddush HaShem* (pelo Santificado Nome), até que esse dia chegasse. Vitória para a qual lutaram bravamente 1,5 milhão de soldados judeus das 19 Nações Aliadas, inclusive brasileiros.

No dia 8 de maio de 1945, os Aliados ocidentais da Segunda Guerra Mundial celebraram o ‘’Dia da Vitória na Europa’’.  Fonte: https://forum.warthunder.com/index.php?/topic/239018-dia-da-vitoria.

O fim da 2ª. Guerra Mundial impediu que se consumasse a terrível resolução da Conferência de Wansee, aos 20 de janeiro de 1942 em Berlim, onde mentes doentias definiram um macabro protocolo para deportar e assassinar 11 milhões de judeus na Europa. Lamentavelmente perderam-se 6 milhões de vidas preciosas, inocentes, mas culpados de serem judeus.

Crime hediondo que hoje encontra negacionistas nos anti-semitas universais. Pereceram no Holocausto 1,5 milhão de crianças. Quantas poderiam ter dado ao mundo mais beleza, mais ciência, mais saúde?

O Brasil, único país latino-americano que participou da 2ª Guerra Mundial, como uma das 19 Nações Aliadas enviou tropas para a Europa. Centenas de nossos bravos soldados, marinheiros e aviadores fizeram o sacrifício supremo da própria vida na luta para ajudar a libertar o mundo do nazi-fascismo.

Jornal O Comércio, do dia 09/05/1945, Rio Grande do Sul. Fonte: https://farolblumenau.com/08-de-maio-de-1945-dia-da-vitoria/

Hitler pretendeu se vingar de uma nação pacífica e ainda rural, lançando uma blitz submarina no litoral brasileiro, com o torpedeamento de mais de 30 navios mercantes, e o sacrifício de 1 milhar de preciosas vidas de brasileiros inocentes. Quando o Brasil se viu envolvido na guerra, desde a primeira hora a comunidade judaica se uniu para defender o país da agressão, com a doação de um avião, e a participação dos israelitas na defesa nacional, amplamente documentada no livro “Soldados que Vieram de Longe” – Os 42 heróis brasileiros judeus da Segunda Guerra Mundial.

Até então a participação de combatentes brasileiros judeus durante a guerra fora pouco conhecida, muitos dos quais agraciados com medalhas de valor militar. Os mil anos do Reich não passaram de 11 dolorosos anos para a Humanidade, até ser destruído, em Stalingrado, Bir Hakim,Tobruk, no Levante do Gueto de Varsóvia, nas praias do Dia D, e na Itália onde lutou a FEB, de Montese a Monte Castello, de La Serra a Fornovo.

“O mundo quase inteiro uniu-se e combateu esses malfeitores, que agora se curvam diante de nós.” (Winston Churchill) Fonte: http://www.portalfeb.com.br/8-de-maio-dia-da-vitoria/

Hoje o mundo parece sofrer de uma amnésia coletiva e seletiva no que diz respeito a acontecimentos não tão distantes, como os aqui tratados. Faz-se mister combater toda e qualquer manifestação de intolerância, como o neonazismo, o terrorismo fundamentalista, e falácias como a negação do Holocausto.

Transcorridos 75 anos da Vitória, esta data tão significativa deve estar sempre na lembrança dos povos, como um farol da luta pela liberdade e democracia.

*Kidush Hashem (do hebraico קידוש השם Santificação do Nome [de Deus]) é um preceito do Judaísmo que deve ser cumprido por todo judeu como expresso na Torá : “Para santificar o Seu Nome” (Levítico 22:32). Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/

Por Israel BLAJBERG  < iblajberg@poli.ufrj.br>

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O amor é a nossa arma no meio da travessia!

Nínive Pinto Caetano da Silva

                                                            

No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover contra a dominação, contra a opressão. No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover em direção à liberdade, a agir de formas que libertam a nós e aos outros.

(HOOKS, 2006 p. 250)

 

Há uma citação de Guimarães Rosa que diz que o real não se dispõe na saída e tampouco na chegada. Ele se estabelece para a gente é no meio da travessia. Brava gente, não tem sido uma travessia fácil não é mesmo? Esse poder político, que invadiu os lares dos cidadãos e cidadãs brasileiros, com a promessa de armar a população com arma de fogo e pôr em prática políticas de eugenia, amordaçou os nossos sonhos. Confesso-vos que ingressei esse ano de 2019 em luto. E acredito que você também. E sabe quem me carregou no colo? Essa constelação de educadoras e educadores da nossa rede de Educação em Direitos Humanos, e do Africanidades, Literatura Infantil e Circularidade.

Figura 1: Esse coração cercado de lutadoras e lutadores, recheado de tambores sagrados, e coberto pela flecha de Oxóssi serviu para selar o nosso compromisso de amar e transbordar esse amor para além dos muros da Universidade e da escola.

Vocês têm tornado essa travessia nesse mar turbulento algo mais leve. Até aqui, podemos dizer que o amor nos uniu, nos acalentou, nos fez sorrir, e também chorar porque as lágrimas são necessárias para o desabafo da alma. Abro o meu coração para dizer que para mim é um privilégio realizar essa travessia ao lado de vocês, que decidiram fazer do amor a única arma de transformação desse mundo. Podemos dizer que o nosso amor pela educação em direitos humanos, uniu as nossas diferenças e nos permite tocar a mais bela das sinfonias. É pelo amor que lutamos para nos libertar desse sistema opressor que nos dilacera, e, também para libertar aquelas e aqueles que esse sistema dilacerou ou simplesmente enlouqueceu. É por meio do amor que alimentamos os nossos sonhos e também os sonhos de tantos outros que sonham conosco.

Figura 2: Segunda oficina de arte-educadoes. Ofertamos 20 vagas, e recebermos mais de 150 inscritos.

Figura 3: Essa foto foi retirada no segundo dia da oficina. Me sinto emocionada por pertencer a um grupo tão coeso e potente.

Concordo com a célebre citação de Guimarães Rosa. O real, não foi a vitória do fascismo esquizofrênico nas eleições brasileiras de 2018, e tampouco será a nossa alforria dessa loucura, quando esse desgoverno chegar ao fim. Real mesmo é o meio dessa travessia, em que encontramos os direitos da pessoa deficiente serem pisoteados, o aumento da pobreza, o racismo inescrupuloso, gays sendo espancados e espancadas, pessoas trans sendo desumanizadas, terreiros sendo deflorados. Somos esbofeteados por essas infrações aos direitos humanos e também por muitas outras, e se é pelo amor que lutamos, então que o amor nos faça de mãos dadas lutar para que sejamos restaurados e restauradas. Que possamos sonhar e que esse sonho também agregue o sonho de outras pessoas.

Sem uma ética do amor moldando a direção de nossa visão política e nossas aspirações radicais, muitas vezes somos seduzidas/os, de uma maneira ou de outra, para dentro de sistemas de dominação — imperialismo, sexismo, racismo, classismo. Sempre me intrigou que mulheres e homens que passam uma vida trabalhando para resistir e se opor a uma forma de dominação possam apoiar sistematicamente outras. Fiquei intrigada com poderosos líderes negros visionários que podem falar e agir apaixonadamente em resistência à dominação racial e aceitar e abraçar a dominação sexista das mulheres; com feministas brancas que trabalham diariamente para erradicar o sexismo, mas que têm grandes pontos cegos quando se trata de reconhecer e resistir ao racismo e à dominação por parte da supremacia branca do planeta. Examinando criticamente esses pontos cegos, concluo que muitas/os de nós estão motivadas/os a mover-se contra a dominação unicamente quando sentimos nossos interesses próprios diretamente ameaçados.

(HOOKS, 2006 p. 243).

Faço uso dessa estupenda declaração para dizer que, sem o amor, não há revolução! Portanto, ama-te a ti mesmo e faça esse amor transbordar. E ao fazer isso, que possamos perceber que maiores são os que estão conosco do que os que estão contra nós!

Figura 4: Agradeço a essas duas grandes personalidades por me ocasionarem uma metamorfose e me possibilitou chegar até aqui: professora doutora Ana Dietrich e meu orientador professor doutor Guilherme Brockington.

Figura 5: Essa foto foi tirada na oficina intitulada: o pensamento matemático na cultura africana. Ao meu lado direito está a professora de artes e também escritora Alcidea Miguel, grande parceira.

Figura 6: Maiores são os que estão sonhando conosco do que os que estão pelejando contra nós!

 

Referências bibliográficas

HOOKS, Bell. Love as the practice of freedom. In: Outlaw Culture. Resisting Representations. Nova Iorque: Routledge, 2006, p. 243–250. Tradução para uso didático por wanderson flor do nascimento.

 

 

 

Ninive Pinto Caetano da Silva

Possui bacharelado interdisciplinar em Ciência e Tecnologia e Licenciatura em Física, ambos cursados na Universidade Federal do ABC. Atualmente, está matriculada no curso de graduação de Neurociências e de mestrado em Ensino e História das Ciências e suas Interfaces com a Educação na instituição supracitada. É Pesquisadora no Projeto Africanidades Literatura Infantil e Circularidade na UFABC. É Afro-Brasileira, filha de angolano pertencente ao grupo étnico mbunda e de uma brasileira. Sua pesquisa é voltada para a Cosmologia Bantu no Ensino de Ciências. Realiza palestras e oficinas voltadas para a História da África em escolas particulares e públicas.

 

Exposição “FLUVIUS”, de Paula Klien,

O Centro Cultural Correios do Rio de Janeiro, apresenta, de 3 de dezembro de 2019 a 26 de janeiro de 2020 a exposição “FLUVIUS”, de Paula Klien, com curadoria de Denise Mattar. A mostra reúne mais de 50 trabalhos recentes da artista cuja produção se caracteriza pela utilização incomum do nanquim.
“FLUVIUS” exibe um conjunto das novas pesquisas de Paula Klien ao lado de algumas obras produzidas anteriormente. São pinturas, digigrafias e um vídeo performance da artista pintando telas e papéis dentro de um rio. Além disso, “Fluvius” apresenta duas exuberantes raízes que segundo a artista “servem para proteger o rio das erosões e segurar a terra, evitando que o rio seja soterrado, deixando a água fluir”. “Simbioticamente unidas, águas e raízes refletem bem esse momento do trabalho de Paula Klien, instável, sutil e delicado, mas também denso, intenso e profundo. São as águas mansas de um rio turbulento”, complementa Denise Mattar curadora da exposição.

 

 

 

 

 

 

As pinturas expressivas que brotam do mergulho de Paula Klien no seu mundo interior, mantém a espontaneidade do gesto que as criou, produzindo uma variação monocromática de extrema riqueza. Mais do que a presença material da tinta, o que está em curso é a intimidade imersiva da artista revelando a verdade universal da relação de cada homem consigo mesmo, do eu confrontado com a luta entre a constância e a impermanência, e a transcendência metafísica necessária para absorver o axioma irrefutável do “continuum” do universo, do planeta, do ser humano – e o contraste com a complexa vida que construímos baseados na ilusão da permanência.

 

 

 

 

 

Por esse substrato, o trabalho de Paula Klien, classificado em princípio, como expressionismo abstrato, na senda de artistas como Hans Hartung ou Soulages, se revela na verdade muito mais próximo de Gao Xingjian, ou Zeng Chongbin, artistas contemporâneos chineses que hoje impressionam o circuito internacional. Exatamente por atingir essa mesma essência, que hoje fascina o Ocidente, seu trabalho teve imediata aceitação na Europa, desdobrando-se num intenso período de exposições. Não por acaso foi a única artista brasileira convidada a participar da mostra Pincel Oriental, no Centro Cultural Correios-RJ, em 2018. Desde 2017 a artista vem realizando exposições no exterior. Entre elas, na AquabitArt Gallery, no Deustsche Bank e na Positions Art Fair em Berlim. Solo Booth organizado pela Saatchi Art Gallery em Londres e na ArtBA em Buenos Aires. No Brasil, além da participação em mostras e feiras, realizou a individual “Extremos Líquidos” na Casa de Cultura Laura Alvim, com curadoria de Marcus Lontra.

 

Serviço: “FLUVIUS” – exposição
Abertura dia 3 de dezembro de 2019, 18h30
Em cartaz de 4 de dezembro ate dia 26 de janeiro de 2020.  Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro, Rio de Janeiro – RJ / Telefone :  (21) 2253-1580
Horário : de terça-feira a domingo, das 12h às 19h
Entrada franca

 


 

 

 

 

 

 

Ana Maria Carvalho

A África pariu o mundo

A África pariu o mundo

Tia Mita na foto, em memória.

 

Assim como o educador Freire (2014), dedico esse texto às Mulheres Africanas que carregam o mundo nas costas.

No princípio era um verbo. E esse verbo era feminino e subversivo. O verbo se tornou carne e adquiriu a forma de um pássaro feminino. O verbo contido no discurso dessa passarinha, sussurrou-me ao ouvido uma história sobre a África que ainda não foi contada e causou-me insônia, angústia. Ainda é cedo para modificar as narrativas hegemônicas ou talvez, seja tarde demais, não sei. Apesar de entusiastas dizerem que nunca é tarde para mudanças, não gosto do entusiasmo, porque a realidade indica que não estamos preparadas e preparados para derrubar as hierarquias instituídas. O fato é que desejosos por uma mudança ou não, a revolução está a caminho e traz consigo um discurso feminino, contra opressão racial e de classes e isso promoverá a restauração de humanidades. Ao menos é isso o que se propõe.  Esse discurso tem sido narrado em nossa pesquisa realizada no contexto do Programa de Pós-Graduação de Ensino e Histórias das Ciências na UFABC, cuja defesa está programada para abril de 2021. Apesar de a multiculturalidade ser o assunto do momento, advirto-vos que essa pesquisa não trará paz consigo, trará a espada! E colocará o mundo acadêmico de cabeça para baixo, se é que algum dia esteve de cabeça para cima.

Desde a graduação, ocasião em que a minha trajetória científica engatinhava, ouvi uma História da Ciência, que trazia consigo a filosofia natural da Grécia Antiga como marco inicial. “Graças aos filósofos gregos foi possível elaborar a ciência moderna e contemporânea”. E onde fica a África e a Ásia nesse esquema? Não contribuíram com nada? Se a racionalidade começou com os gregos antigos, quem os ensinou a pensar de maneira racional? Essa inquietação foi o ponto de partida de nossa pesquisa e com base nos resultados iniciais da investigação mais dedicada, assumo a defesa de que precisamos de uma revolução na História da Ciência.

Em nossa verificação, descobrimos que Tales de Mileto, Pitágoras, Eudoxos, Aristóteles e alguns cientistas modernos, foram amamentados intelectualmente pela África, direta ou indiretamente. Macróbio, um escritor e filósofo africano disse que os egípcios foram os “pais de todas as ciências” Dreyer (1953, p. 129); Aristóteles e Platão são unânimes em dizer que a geometria foi criada pelos egípcios (BICUDO, 2002). Segundo Tzamalikos (2016) Demócritos, Pitágoras, Tales de Mileto, Eudoxus, Anaxágoras, filósofos gregos que normalmente ouvimos falar em História das Ciências e da Matemática, viajaram ao Egito a propósito de sua educação. E Erastóstenes que mediu o raio da terra era líbio e não grego. Euclides nasceu na cidade de Alexandria, sendo, portanto egípcio, assim como Ptolomeu, o astrônomo. Isso deveria ser motivo suficiente para questionarmos a ideia comumente aceita de que o marco inicial da filosofia natural foi estabelecido apenas pelos gregos.

A paleontologia, a genética e estudos linguísticos, indicam que a África pariu o mundo. A datação de diferentes fósseis de espécies do gênero Homo, assim como os fósseis de humanos modernos, indicam que a África é o berço da civilização (WEDDERBURN, 2003). Um estudo linguístico realizado em Atkinson (2011) disse que a origem da língua humana moderna é Africana, dada a variabilidade fonética encontrada no Continente.  Se na África foi o Continente em que o ser humano deu os seus primeiros passos, é de se supor que na África surgiram os primeiros modelos cosmológicos, filosóficos e religiosos. Não faz sentido pular produção de conhecimento sistematizada por pensadores africanos e dizer a racionalidade surgiu com a filosofia grega.

Segundo James (2013), a filosofia grega é um plágio da filosofia egípcia. O autor apresenta diversas evidências para subsidiar a sua perspectiva, dentre elas a perseguição do governo ateniense contra os fundamentos da filosofia grega por considera-la estrangeira. Segundo o autor, a filosofia egípcia foi o alicerce do que conhecemos como filosofia grega, por esse motivo Anaxágoras foi perseguido e exilado, Sócrates o filósofo foi executado, Platão foi vendido como escravo e Aristóteles foi denunciado e exilado (JAMES, 2013, p. 2).

Se a filosofia grega é plagiarismo da filosofia egípcia não importa. O que verdadeiramente interessa é apontar que os gregos não inauguraram a seara da racionalidade de maneira autossuficiente. Houve a colaboração de pensadores, filósofos, físicos, matemáticos egípcios, líbios, etíopes, fenícios e babilônios (TZAMALIKOS, 2016).  É sob essa pedra angular e multicultural que demos construir as narrativas de Histórias das Ciências, não sob uma perspectiva hegemônica que silencia a contribuição dos demais povos. Se sabemos que o imperialismo europeu demoliu as epistemologias não europeias, não seria nosso dever questionar a ideia de apenas ensinarmos sobre os conhecimentos produzidos por europeus num país multicultural como o Brasil?

É dado o momento de surgimento de outras epistemologias. É tempo de resgatar as epistemologias do Sul, especificamente as Africanas e Ameríndias no Brasil. Não podemos continuar em negação com a nossa brasilidade estabelecida pela identidade dos diferentes povos nativos brasileiros, das centenas de povos africanos que cá vivem e na diversidade de afro-brasileiros. Não podemos falar de surgimento sem trazer à baila discursiva Frantz Fanon, um psiquiatra e revolucionário que diz a luta do presente deve demolir o racismo e irromper um humano novo e livre do fardo da raça (FANON, 2008). Para que haja o surgimento de um sujeito social liberto da abjeção colonial, o eurocentrismo deve ser derrotado e para isso acontecer, o mundo deve ficar de cabeça para baixo. Ao fazer isso, demolimos a noção de que a Europa é o centro do mundo e nós somos periferias. Quando dizemos que há nações no Hemisfério Sul e outras no Hemisfério Norte, essa perspectiva não é geográfica e sim política e indica que as nações europeias e outras nações “desenvolvidas” estivessem acima de nós, enquanto nós estamos atrasados. A terra é esférica eurocentrismo, logo não existe norte e tampouco sul, mas já que essas notações existem, que possamos sulear o nosso mundo e não norteá-lo.

A terra dos Negros numa perspectiva em que o Sul é o centro do mundo.

Um cuidado que se deve ter ao ensinar sobre a África é descrevê-la em termos de África negra e África branca. Essa notação estabelece que ao Norte há uma África em estágio intermediário de civilização em que os moradores não são negros, em contraposição com a África negra, em que impera a miséria, a negritude e a morte. Em nome de minha africanidade os convoco para revisar essa ideia. A África é um continente africanizado que compartilha culturas riquíssimas, em que os cidadãos sejam brancos ou negros compartilham singularidades, semelhanças e diferenças. Apesar da diversidade no Continente Mãe, há encontros e desencontros entre os povos, não apenas desencontros. É preciso reescrever a História da África para proporcionar vida, que destrua as incoerências sobre o continente e que supere os estereótipos. Que por meio dessa revolução, seja possível banir a besta imunda que ainda paira entre nós e nos fez acreditar que somos hierarquizados quando a nossa origem Africana nos une. Se os homenzinhos da ciência fizeram o mundo acreditar que a “pessoa de pele negra é a mais inferior de todas as raças” Gould (2014), por meio da ciência, vamos desmascará-los. Que as verdades que serão trazidas nessa pesquisa provoquem uma revolução de valores e que nos conscientize que a África foi o nosso primeiro Baobá, em outras palavras, o Continente mãe foi o nosso primeiro berço ancestral, nem que seja num passado muito longínquo.

Quando disse que o discurso da nossa pesquisa adquiriu formato de um pássaro, o fiz em alusão a Iyami Oxorongá, um poder ancestral na cultura Iorubá que representa a energia condensada de todas as Mulheres velhas que já existiram e que existem. É sinônimo de amor e de justiça e é nesta perspectiva que a nossa pesquisa se assenta!

Com amor, Nínive

 

 

Referências bibliográficas

Atkinson, Q.D., 2011. Phonemic diversity supports a serial founder effect model of language expansion from Africa. Science332(6027), pp.346-349.

Bicudo, Irineu. “Platão e a Matemática.” Letras clássicas 2 (2002): 301-315.

DREYER, John Louis Emil. A history of astronomy from Thales to Kepler. Courier Corporation, 1953.

FREIRE, Paulo. A África ensinando a gente: angola, Guiné-Bissau, São tomé e Príncipe. Editora Paz e Terra, 2014.

GOULD, Stephen Jay. A falsa medida do homem. São Paulo: Editora WMF. 2014.

James, George GM. Stolen legacy. Simon and Schuster, 2013.

TZAMALIKOS, Panayiotis. Anaxagoras, Origen, and Neoplatonism: The Legacy of Anaxagoras to Classical and Late Antiquity. Walter de Gruyter GmbH & Co KG, 2016.

WEDDERBURN, Carlos Moore. “Novas bases para o ensino da história da África no Brasil.” Educação anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal 10.639/03 (2003): 133-166.