• Home
  • Espaço do Leitor

Espaço do Leitor

O amor é a nossa arma no meio da travessia!

Nínive Pinto Caetano da Silva

                                                            

No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover contra a dominação, contra a opressão. No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover em direção à liberdade, a agir de formas que libertam a nós e aos outros.

(HOOKS, 2006 p. 250)

 

Há uma citação de Guimarães Rosa que diz que o real não se dispõe na saída e tampouco na chegada. Ele se estabelece para a gente é no meio da travessia. Brava gente, não tem sido uma travessia fácil não é mesmo? Esse poder político, que invadiu os lares dos cidadãos e cidadãs brasileiros, com a promessa de armar a população com arma de fogo e pôr em prática políticas de eugenia, amordaçou os nossos sonhos. Confesso-vos que ingressei esse ano de 2019 em luto. E acredito que você também. E sabe quem me carregou no colo? Essa constelação de educadoras e educadores da nossa rede de Educação em Direitos Humanos, e do Africanidades, Literatura Infantil e Circularidade.

Figura 1: Esse coração cercado de lutadoras e lutadores, recheado de tambores sagrados, e coberto pela flecha de Oxóssi serviu para selar o nosso compromisso de amar e transbordar esse amor para além dos muros da Universidade e da escola.

Vocês têm tornado essa travessia nesse mar turbulento algo mais leve. Até aqui, podemos dizer que o amor nos uniu, nos acalentou, nos fez sorrir, e também chorar porque as lágrimas são necessárias para o desabafo da alma. Abro o meu coração para dizer que para mim é um privilégio realizar essa travessia ao lado de vocês, que decidiram fazer do amor a única arma de transformação desse mundo. Podemos dizer que o nosso amor pela educação em direitos humanos, uniu as nossas diferenças e nos permite tocar a mais bela das sinfonias. É pelo amor que lutamos para nos libertar desse sistema opressor que nos dilacera, e, também para libertar aquelas e aqueles que esse sistema dilacerou ou simplesmente enlouqueceu. É por meio do amor que alimentamos os nossos sonhos e também os sonhos de tantos outros que sonham conosco.

Figura 2: Segunda oficina de arte-educadoes. Ofertamos 20 vagas, e recebermos mais de 150 inscritos.

Figura 3: Essa foto foi retirada no segundo dia da oficina. Me sinto emocionada por pertencer a um grupo tão coeso e potente.

Concordo com a célebre citação de Guimarães Rosa. O real, não foi a vitória do fascismo esquizofrênico nas eleições brasileiras de 2018, e tampouco será a nossa alforria dessa loucura, quando esse desgoverno chegar ao fim. Real mesmo é o meio dessa travessia, em que encontramos os direitos da pessoa deficiente serem pisoteados, o aumento da pobreza, o racismo inescrupuloso, gays sendo espancados e espancadas, pessoas trans sendo desumanizadas, terreiros sendo deflorados. Somos esbofeteados por essas infrações aos direitos humanos e também por muitas outras, e se é pelo amor que lutamos, então que o amor nos faça de mãos dadas lutar para que sejamos restaurados e restauradas. Que possamos sonhar e que esse sonho também agregue o sonho de outras pessoas.

Sem uma ética do amor moldando a direção de nossa visão política e nossas aspirações radicais, muitas vezes somos seduzidas/os, de uma maneira ou de outra, para dentro de sistemas de dominação — imperialismo, sexismo, racismo, classismo. Sempre me intrigou que mulheres e homens que passam uma vida trabalhando para resistir e se opor a uma forma de dominação possam apoiar sistematicamente outras. Fiquei intrigada com poderosos líderes negros visionários que podem falar e agir apaixonadamente em resistência à dominação racial e aceitar e abraçar a dominação sexista das mulheres; com feministas brancas que trabalham diariamente para erradicar o sexismo, mas que têm grandes pontos cegos quando se trata de reconhecer e resistir ao racismo e à dominação por parte da supremacia branca do planeta. Examinando criticamente esses pontos cegos, concluo que muitas/os de nós estão motivadas/os a mover-se contra a dominação unicamente quando sentimos nossos interesses próprios diretamente ameaçados.

(HOOKS, 2006 p. 243).

Faço uso dessa estupenda declaração para dizer que, sem o amor, não há revolução! Portanto, ama-te a ti mesmo e faça esse amor transbordar. E ao fazer isso, que possamos perceber que maiores são os que estão conosco do que os que estão contra nós!

Figura 4: Agradeço a essas duas grandes personalidades por me ocasionarem uma metamorfose e me possibilitou chegar até aqui: professora doutora Ana Dietrich e meu orientador professor doutor Guilherme Brockington.

Figura 5: Essa foto foi tirada na oficina intitulada: o pensamento matemático na cultura africana. Ao meu lado direito está a professora de artes e também escritora Alcidea Miguel, grande parceira.

Figura 6: Maiores são os que estão sonhando conosco do que os que estão pelejando contra nós!

 

Referências bibliográficas

HOOKS, Bell. Love as the practice of freedom. In: Outlaw Culture. Resisting Representations. Nova Iorque: Routledge, 2006, p. 243–250. Tradução para uso didático por wanderson flor do nascimento.

 

 

 

Ninive Pinto Caetano da Silva

Possui bacharelado interdisciplinar em Ciência e Tecnologia e Licenciatura em Física, ambos cursados na Universidade Federal do ABC. Atualmente, está matriculada no curso de graduação de Neurociências e de mestrado em Ensino e História das Ciências e suas Interfaces com a Educação na instituição supracitada. É Pesquisadora no Projeto Africanidades Literatura Infantil e Circularidade na UFABC. É Afro-Brasileira, filha de angolano pertencente ao grupo étnico mbunda e de uma brasileira. Sua pesquisa é voltada para a Cosmologia Bantu no Ensino de Ciências. Realiza palestras e oficinas voltadas para a História da África em escolas particulares e públicas.

 

Exposição “FLUVIUS”, de Paula Klien,

O Centro Cultural Correios do Rio de Janeiro, apresenta, de 3 de dezembro de 2019 a 26 de janeiro de 2020 a exposição “FLUVIUS”, de Paula Klien, com curadoria de Denise Mattar. A mostra reúne mais de 50 trabalhos recentes da artista cuja produção se caracteriza pela utilização incomum do nanquim.
“FLUVIUS” exibe um conjunto das novas pesquisas de Paula Klien ao lado de algumas obras produzidas anteriormente. São pinturas, digigrafias e um vídeo performance da artista pintando telas e papéis dentro de um rio. Além disso, “Fluvius” apresenta duas exuberantes raízes que segundo a artista “servem para proteger o rio das erosões e segurar a terra, evitando que o rio seja soterrado, deixando a água fluir”. “Simbioticamente unidas, águas e raízes refletem bem esse momento do trabalho de Paula Klien, instável, sutil e delicado, mas também denso, intenso e profundo. São as águas mansas de um rio turbulento”, complementa Denise Mattar curadora da exposição.

 

 

 

 

 

 

As pinturas expressivas que brotam do mergulho de Paula Klien no seu mundo interior, mantém a espontaneidade do gesto que as criou, produzindo uma variação monocromática de extrema riqueza. Mais do que a presença material da tinta, o que está em curso é a intimidade imersiva da artista revelando a verdade universal da relação de cada homem consigo mesmo, do eu confrontado com a luta entre a constância e a impermanência, e a transcendência metafísica necessária para absorver o axioma irrefutável do “continuum” do universo, do planeta, do ser humano – e o contraste com a complexa vida que construímos baseados na ilusão da permanência.

 

 

 

 

 

Por esse substrato, o trabalho de Paula Klien, classificado em princípio, como expressionismo abstrato, na senda de artistas como Hans Hartung ou Soulages, se revela na verdade muito mais próximo de Gao Xingjian, ou Zeng Chongbin, artistas contemporâneos chineses que hoje impressionam o circuito internacional. Exatamente por atingir essa mesma essência, que hoje fascina o Ocidente, seu trabalho teve imediata aceitação na Europa, desdobrando-se num intenso período de exposições. Não por acaso foi a única artista brasileira convidada a participar da mostra Pincel Oriental, no Centro Cultural Correios-RJ, em 2018. Desde 2017 a artista vem realizando exposições no exterior. Entre elas, na AquabitArt Gallery, no Deustsche Bank e na Positions Art Fair em Berlim. Solo Booth organizado pela Saatchi Art Gallery em Londres e na ArtBA em Buenos Aires. No Brasil, além da participação em mostras e feiras, realizou a individual “Extremos Líquidos” na Casa de Cultura Laura Alvim, com curadoria de Marcus Lontra.

 

Serviço: “FLUVIUS” – exposição
Abertura dia 3 de dezembro de 2019, 18h30
Em cartaz de 4 de dezembro ate dia 26 de janeiro de 2020.  Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro, Rio de Janeiro – RJ / Telefone :  (21) 2253-1580
Horário : de terça-feira a domingo, das 12h às 19h
Entrada franca

 


 

 

 

 

 

 

Ana Maria Carvalho

Não trago flores, e sim, a espada!

Essa poesia é um manifesto que intenciona: 

Produzir a vida. 

Destruir as incoerências, mas compreender que as contradições fazem parte da natureza 

humana. 

Promover o silenciamento da voz do opressor e fazer uma ode ao Continente que teve a 

sua história silenciada e contada a partir de lábios imperialistas. 

Denunciar o caráter colonial, latente na sociedade brasileira, que torna as domésticas 

invisíveis enquanto pessoas, mas visíveis enquanto força de trabalho braçal. 

Alertar aos senhores e senhoras de engenho para que abandonem o conforto da casa 

grande, pois, assim como as nossas antepassadas e antepassados, 

Vamos atear fogo em sua morada!                                                                                                                       

Rogo-te, pois que salve a tua alma a tempo! 

Que a besta imunda personificada na eugenia possa ser banida, definitivamente! 

E que leve consigo a ideia de que aquilo que não presta é coisa de pessoas de pele preta. 

Sonho com o dia em que o gênero masculino não será o padrão para criação de palavras 

E o homem branco e imaculado, deixará de ser o padrão para “todas as medidas 

humanas”. 

Devemos lutar por sociedades onde as Mulheres, especialmente as Negras, não 

carreguem o mundo nas costas sozinhas. 

Vislumbro no horizonte, o momento em que diremos “Nativos Brasileiros” e não 

indígenas. 

Quando as religiões afro serão vistas como mais uma forma de atingir a espiritualidade. 

E a xenofobia, será vista como um crime a si mesmo tendo em vista que somos todas, 

todos, forasteiras e forasteiros nesta terra. 

Não podemos permanecer indiferentes à diversidade humana. A indiferença é a outra 

face da crueldade. 

Que possamos subverter a lógica de hierarquização das culturas. 

Devemos extirpar o “ismo” de homossexualismo. 

Assim como “fobia” de transfobia 

Que seja tragado para o submundo, o ódio à pessoa pobre! 

Muitas histórias poderiam ser escritas com os crimes sociais supracitados 

Mas, a nossa poesia, conseguirá realizar apenas uma narrativa: 

A da África que pariu o mundo e foi violentada pela ganância de seus filhos bastardos 

O Continente que presenciou a transição de um ser hominizado para um ser humanizado 

E que flagrou a primeira Diáspora Humana 

Viu emergir os impérios mais prósperos e vastos do planeta 

Mas que sofreu em silêncio ao ver os seus filhos e filhas sendo arrancados de si no 

tráfico negreiro. 

Toda vez que a palavra diáspora é mencionada para se referir ao rapto, ao estupro, ao 

atentado, 

Lágrimas manam do rosto de Nossa Mãe África. 

Porque a palavra diáspora está sendo usada com a conotação de sequestro de seus filhos 

e filhas! 

Como se isso não fosse desventura o suficiente, as histórias do Continente Africano 

foram atiradas aos cães. 

Mas ressurge a cada dia! 

A verdade é que a África não deu à luz apenas a mim e a você, mas também à filosofia, 

a arte, e a ciência. 

O eurocentrismo é um mentiroso! 

Fez o mundo acreditar que tudo o que provém da Europa é universal e padrão. 

E mais uma vez, isso golpeia a Mãe África! 

Que por ter dado á luz as Singularidades, entende que essa universalidade busca 

suprime e não agrega. 

Vale ressaltar que o Continente não era de todo sublime antes da chegada dos europeus 

Se a escravidão já existia lá? 

Sim. 

O conflito étnico? 

Também. 

Mas o racismo não! 

E isso muda tudo! 

Muda a forma como me veem! 

A forma como as minhas irmãs e irmãos de cor se vêem! 

Eu sei que você foi educada, educado para ter alta estima pelo homem branco europeu

Isso também é culpa do imperialismo europeu. 

Então se torna difícil para ti, reconhecer os horrores realizados pela colonização. 

Vocês dizem que os povos nativos na África e nas Américas já estavam divididos, já se 

escravizavam uns aos outros, como desculpa 

Para apagar a podridão feita pelos colonizadores brancos, 

Mas deixe-me dizer-te: Antes da expansão europeia, não havia o conceito de raça! 

E esse maldito critério coloca a minha carne negra como a mais barata

A ciência vulgar do século XIX, embriagada pelo eurocentrismo, tentou fazer o mundo 

acreditar que: 

A mulher branca não tem alma; 

O nativo americano e os mongóis se constituíam como uma raça inferior ao homem 

branco, mas nem de todo repugnante; 

O homem negro, de início, era visto como outra espécie 

Intermediária entre o homem branco e o primata 

Os homenzinhos da ciência mentiram sobre os estudos de craniometria 

Disseram que os primatas tem o crânio maior do que o das pessoas negras 

E para que? 

Para “provar” por meio de uma mentira científica que o negro era ainda inferior ao 

primata! 

Nesse banquete de desgraças, a mulher negra era servida como a mais inferior das raças 

humanas

Anos depois, os ditos homenzinhos da ciência chegaram à conclusão que os homens 

negros também são seres humanos e ficaram devastados. 

Também me corta o coração a indiferença com que a pessoa deficiente é tratada, 

A indiferença é a outra face da crueldade 

Dói falar sobre essas desventuras, 

Eu sei, 

Mas se o machucado não estiver exposto, não cicatriza. 

Saiba que toda vez que a palavra macaco é proferida para agredir uma pessoa negra, 

esse pensamento primitivo de raça, ressurge das profundezas do inferno! 

Isso não te dá asco? 

O seu silêncio cabe neste momento? 

Grite, 

Brade 

Mas por favor, desça de cima do muro! 

Certa vez ouvi uma história que dizia que o pecado original foi trazido pela Mulher 

Ou pelo diabo que enganou a Mulher tanto faz 

E desde então, 

Quer dizer, 

Muito antes disso, 

Ser Mulher nesta terra, se tornou nascer com o peso da culpa 

Numa história criada por homens 

E para Homens 

O Nosso Ser, foi retirado de Nós. 

Ao nascer, a menina pertence ao pai 

Na vida adulta, por meio do casamento, ela recebe o título de mulher mediante a benção 

do marido 

E posteriormente, com a maternidade, o desejo da mulher pertence aos paridos e não a 

ela! 

E quando há espaço para ser Mulher? 

Em verdade, em verdade vos digo que essa poesia não lhe traz flores, 

Trás a espada! 

É o que toda palavra de libertação traz consigo! 

Decidi usar a minha arte como instrumento de luta antirracista! 

Que iniciará com a narrativa da África, 

Tendo em vista, que esta deu à luz ao Mundo e consequentemente, a tudo que nele há! 

Apresento-te o mito de criação da deusa Odudua

Que percebendo a intemperança do deus Obatalá, decidiu tomar o poder para si e criou 

o mundo sozinha! 

Quando o Homem percebeu o que a Mulher lhe fez 

Ou será que foi o que ele fez consigo mesmo? 

Ficou irado! 

Foi travado um conflito violento 

Mas o Amor venceu 

E Odudua, triunfou. 

A cabaça, que representava o Mundo criado por Ela, se partiu no conflito, 

E a parte de cima se tornou o céu 

E a de baixo, a terra. 

Essa versão de criação do mundo não é contada na terra de Odudua 

Narrativas onde as mulheres constroem não são bem vistas por homenzinhos. 

É de se supor com propriedade que as primeiras histórias foram narradas pela África 

Inclusive as religiosas! 

Por que não podemos acreditar que existam divindades mais flexíveis do que nós, e que 

se manifestam de formas diferentes? 

Em diferentes culturas? 

Os pais e as mães não dizem que educam os filhos de maneira diferente? 

Se Nós que somos maus, tentamos respeitar a singularidade do Ser que amamos uma 

divindade também não o faria? 

Não trago certezas, apenas reflexões. 

Porque narrativas universais incomodam 

Sufocam 

Mutilam 

Transpassam 

Violentam 

Por isso que trago a espada comigo, e não flores. 

Para partir a cabaça dos homenzinhos que consideram-se a si mesmos como sábios. 

Romper a ordem existente é um ato revolucionário! 

Que nasce com a inconformidade, do luto, da luta. 

A revolução precisa vir de dentro para fora. 

Dentro, porque deve te ajudar a enxergar os seus pecados primeiro, e não os de outrem! 

E de fora, porque temos muitas cabaças a partir. 

E a paz? 

Está no horizonte, juntamente com a nossa utopia. 

Ao término desta poesia posso lhe assegurar que estou em luto 

Mas não temos tempo para viver o luto 

Apenas a luta, 

A luta será a verbalização de nosso luto coletivo 

Estamos contritos, quebrantadas, quebrantados, enlouquecidos, enlouquecidas por esse 

sistema dominante que nos dilacera, 

Mas temos a resiliência da Mãe África

E só essa graça, 

Nos basta! 

Com amor: Nínive. 

 

 

 

Autoria: Nínive Silva 

A vida dos mortos está na memória dos vivos – André Mattos

André Luiz Reis Mattos

 

Oliver Abel, no prefácio do livro Vivo até a Morte de Paul Ricoeur, afirma que este autor dizia “que havia duas coisas difíceis de aceitar na vida, de aceitar verdadeiramente: a primeira é que somos mortais; a segunda, que não podemos ser amados por todo o mundo.” (ABEL. 2012, prefácio p. IX)  Com relação à primeira, a dificuldade estaria na impossibilidade concreta de “figurar o que são e onde estão agora nossos próximos já mortos”, (Ibidem) e, principalmente, de nos imaginarmos mortos.

Philippe Ariès, que na obra História da Morte no Ocidente, estuda os costumes ante a morte nas culturas cristãs ocidentais, motivado pela “importância, para a sensibilidade contemporânea dos anos de 1950-1960, da visita ao cemitério, da devoção aos mortos e da veneração aos túmulos” (ARIÈS. 2012, p 19). Ariès busca na sua pesquisa, entre outros aspectos, entender a dificuldade humana de tratar com a perda do ente próximo, porque a “morte do outro” sinaliza a sua própria condição de sujeito mortal.

Fotografia 1: Jazido perpétuo com retratos de familiares enterrados no mesmo espaço. Os túmulos são lugares de lembranças e de culto aos que faleceram. Cemitério Municipal Drº Leopoldo Machado, centro de Paraíba do Sul/RJ. Registro de 11/2012, acervo André Mattos.

 

Os mortos permanecem na memória dos vivos e nos lugares de lembrança destes: os cemitérios com seus mausoléus, túmulos, as inscrições funerárias, os espaços de culto (também organizados por alguns em seus lares), as imagens sacras e os retratos dos mortos. “O imaginário procede por deslocamento e generalização: meu morto, nossos mortos, os mortos”; (RICOEUR. 2012, p. 8) eu morto (nosso destaque).  

A experiência de quem sobrevive à morte de um ente querido é na verdade o encontro com a sua própria realidade de ser finito, percebendo-se irremediavelmente mortal; é “a consciência de si e do outro, o sentido da destinação individual ou do grande destino coletivo.” (ARIÈS. 2012, p. 23)

Fotografia 2: Nesta imagem além da fotografia do ser amado, têm-se a identificação do batismo  católico (registrado na data entre o nascimento e a morte) como ação que possibilita a “conquista” de um  lugar “na grande família de Jesus” (figura incorporada a imagem), reafirmando desta forma, a crença na sobrevivência do ser além da morte. O retrato funciona aqui como um atestado da morte e da esperança na continuidade da vida. Cemitério Municipal Drº Leopoldo Machado, centro de Paraíba do Sul/RJ. Registro de 11/2012, acervo André Mattos.

 

A memória dos vivos e a lembrança dos mortos funcionam então, como a lembrança do que há de vir, “o caminho da antecipação da iminência de ser tragado por minha vez a massa perdida” (RICOEUR. 2012, p. 31) e assim, não se desejando estabilizar no lugar de esquecimento dos que permanecerão vivos após a própria morte, estabelece-se no imaginário  e em suas representações, os lugares e objetos de lembranças dos mortos.

Uma memória irredutível à passeidade do “não-mais” de certo modo exaltada em preservação do ter-si, o “ainda-presente” do passado “salvo” do não-mais, fazendo contrapeso e simetria ao “já-presente” do futuro, salvo do “ainda-não”.

 

O uso das fotografias dos mortos nos túmulos e mausoléus dos cemitérios relaciona-se a necessidade não só de possuir, de reter a imagem dos que amamos, mas de tornar eterno o que na memória garante as lembranças, evitando-se o esquecimento indesejável (do outro e de si), aparecendo neste contexto, como o objeto capaz de atender em grande parte este imperativo tão humano: o de vencer a morte e tornar as pessoas “eternas”. Sujeitos que permanecem “vivos” na expressão material da imagem registrada, para que o tempo, inexorável inimigo da vida, pois nos conduz invariavelmente a morte, seja vencido. É a relação permanente entre vida, morte, memória, religiosidade, lembrança e esquecimento, com a fotografia se tornando o próprio signo de que somos mortais e os fotógrafos, verdadeiros agentes da Morte.

Fotografia 3: No retrato, uma foto-montagem, o casal “unido” após a morte, e ao fundo a imagem do céu, lugar desejado/esperado para a vida após morte. Cemitério Municipal Drº Leopoldo Machado, centro de Paraíba do Sul/RJ. Registro de 11/2012, acervo André Mattos.

 

É esta condição de poder “ludibriar a morte” que concede a fotografia a sua aura de objeto místico, mágico, “fonte da juventude”, conservando “algo da temporalidade vivida (passado, presente, futuro),” (RICOEUR. 2012, p. 45) como um objeto de identidade; criando-se então, ao olhar a imagem impressa (como as que apresento), uma lembrança pela similaridade com as próprias memórias, mesmo que a realidade na fotografia não tenha sido vivenciada.

É possível que, no desenvolvimento cotidiano das fotos, as mil formas de interesse que elas parecem suscitar, o noema “Isso-foi” seja, não recalcado (um noema não pode sê-lo), mas vivido com indiferença, como um traço que não precisa explicação. É dessa indiferença que a Foto do Jardim de Inverno () acabava de me despertar. Seguindo uma ordem paradoxal, já que costumeiramente asseguramo-nos das coisas antes de declara-las “verdadeiras”, sob o efeito de uma experiência nova, a da intensidade, eu induziria, da verdade da imagem, a realidade de sua origem; eu confundiria verdade e realidade em uma emoção única; na qual eu colocava doravante a natureza – o gênio – da Fotografia, já que nenhum retrato pintado, supondo que ele me parecesse “verdadeiro”, podia impor-me que seu referente tivesse realmente existido.

 

É esse “Isso-foi” que conduz inicialmente todo o olhar que repousa na imagem relacionando a fotografia com a verdade e a realidade, ao ponto de ser aceito o referente sem necessidade de elucidação. Mas quando do trato do registro fotográfico enquanto fonte em pesquisas, a visão deve superar metodologicamente esta percepção comum às pessoas, para adentrar ao campo da análise e da interpretação, alcançando o máximo das informações presentes na imagem, conduzindo o pesquisador a uma interdependência de conceitos e aplicações teóricas, permitindo que a fotografia seja empregada em análises diversas por campos de ciências múltiplas.

Fotografia 4: Toda uma vida apresenta-se nos diversos momentos registrados em imagens que foram “unidas” nesta foto-montagem. A lembrança não se restringe apenas a um retrato, estende-se pela temporalidade da existência, desde o nascimento, passando pelas idades primeiras, a escola, a festa junina, a infância, a adolescência e a morte no início da maturidade. Cemitério Municipal Drº Leopoldo Machado, centro de Paraíba do Sul/RJ. Registro de 11/2012, acervo André Mattos.

 

A vida dos mortos fragmenta-se na fotografia e na memória, retomando seu ritmo, quando a percepção repousa sobre a imagem e esta desperta lembranças – saudades pousadas em retratos -, e movimenta a memória no instante que vence a distância temporal entre o corte fotográfico e a observação do referente imagético. Somente a imagem fotográfica e a imagem da memória são capazes de lidar com tempo interrompendo e retomando o seu fluxo através da lembrança, impedindo o esquecimento dos mortos que são, e do morto que sei que serei um dia.

 

Bibliografia:

ARIÈS, Philippe. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2012.

BARTHES, Roland. A Câmara Clara. Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira. 2008.

RICOEUR, Paul. Vivo até a Morte. São Paulo. WMF Martins Fontes Ltda. 1ª edição, 2012.

 

André Luiz Reis Mattos,bacharel em Administração pela UFRural/RJ, Mestre em História Cultural pela Universidade de Vassouras/RJ (Orientadora: Profa Doutora Ana Maria Dietrich); servidor da justiça estadual, ex-professor das disciplinas História da Educação, História da Arte, Arte e Educação e Teoria do Currículo no curso de Pedagogia da Faeterj – Três Rios/RJ; e-mail:alreismattos@gmail.com.