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Espaço do Leitor

Arte Metrópole

Felipe Eduardo Lázaro Braga

Tem muito adjetivo por aí tentando definir o que é grafite, o que é pichação. É uma arte exasperada arruinando o espaço urbano? É o traço original da periferia que ousa reclamar protagonismo nos centros de legitimidade? É entretenimento de juventude, colorido sob medida para estampar camisetas e assinar coleções, uma arte transgressivamente bem paga? A verdade é que arte urbana não admite artigo definido, ela nasce de um rosnado plural, se reinventa em cada esquina de rebelião e, ao longo do caminho, acaricia imagens na autorização metropolitana, uma arte que ofende e sorri urbanidade.

O grafiteiro, no entanto, não é autor do seu grafite, porque a obra de arte grafite não é uma imagem, não é uma mensagem, não é um rabisco. O grafite no espaço urbano é um processo, é uma criação continuada, é uma constante e delicada negociação entre a ambição do desacato, a expectativa sempre frustrada de sobrevivência, e o julgamento intransigente do efêmero. O traçado do artista de rua inaugura uma biografia visual que se cria enquanto existe, que é atropelada, ofendida, retocada, poluída: as cores derretem a intenção do artista na primeira chuva de granizo; o morador de rua, ao acender sua fogueira de solidão, pinta a intervenção de penúria; o pichador homenageia a autorização grafiteira com a delicadeza do atropelo. O quadro resultante é uma cacofonia de intenções e indiferenças que o tempo cumpre de descolorir, a verdadeira artista metrópole desenhando camadas e camadas de existência naquela pintura urbanamente coletiva. Nesse sentido, o desgaste não compromete a intenção original do autor, o desgaste, a soma, a sobreposição, o vandalismo, tudo isso é obra viva, uma linguagem dinâmica construída de duração e rebeldia.

Essa diluição da autoria artística nos rancores da cidade dinamiza uma linguagem que, antes de ser imagem, é local, é território, e é performance: a provocação pichadora no alto do edifício não pretende ser conteúdo, não pretende ser inteligível, sua máxima ambição é ser ato, ato em si, um testemunho de desassombro juvenil que, de ponta cabeça e pendurado pelos tornozelos, imprime virilidade na poluição urbana. A pichação não diz nada, a não ser a própria presença. Esse ato aparentemente gratuito de violência visual só transborda ousadia porque escala os locais inacessíveis da cidade, sua potência se constrói na dificuldade, seu discurso vangloria a conquista indecifrável dos espaços.

O picho exibicionista e colossal, lá no alto do edifício central, consegue impressionar até o mais respeitável cidadão de bem, ainda que, para tanto, ele também ofenda, destrua, provoque indignação. O picho impressiona porque é absolutamente impossível chegar naquele ponto riscado do prédio; o impressionante, na verdade, não é a inscrição em si que, para todos os efeitos, é ininteligível, mas a inscrição como testemunho inequívoco do ato de ousadia, de insanidade, de vaidoso vandalismo, que escalou a verticalidade sem arestas do edifício apenas para rejeitar, com spray e atrevimento, uma invisibilidade condenada a ser multidão. Quando o pichador trapaceia o impossível e cicatriza sua marca no prédio, o conjunto confuso de rabiscos diz claramente: “eu estive aqui”, um ato que é, ao mesmo tempo, celebridade e anonimato. O diálogo entre intervenção e local de disposição estabelece as chaves interpretativas que condicionam sua leitura, sua recepção, seu alcance comunicativo.

E o mesmo vale para a figuração que, a despeito de ser um texto imagético, uma unidade inteligível de significado, paga igualmente seu débito com o espaço. Olhe rápido: estêncil e spray. Tinta vermelha, ainda escorrendo. No retrato, dois caras se beijando. Fachada de ONG LGBT. De novo: estêncil e spray. Tinta vermelha, ainda escorrendo. Retratados ali, dois caras se beijando. Fachada neopentecostal. Numa parede, orgulho e autoestima. Na outra, afronta e provocação. Imagens gêmeas completamente diferentes entre si, cada qual transbordando o significado que roubam do entorno.

Mas se é verdade que o espaço de disposição altera as possibilidades de leitura da obra, também é verdade que a intervenção artística, ela própria, protagoniza transformações na percepção e vivência da cidade. A poesia lambe-lambe debochando das nossas certezas absolutas de ocasião, logo ali embaixo da pilastra ordinária, conduz a desatenção transeunte para aquele ponto específico de inexistência, e que, antes da intervenção, nada era senão invisibilidade. O gesto estético direciona o olhar para os sinais de ação sobre a cidade, transforma um não-lugar em holofote de entusiasmo, requalifica o banal em literatura, esse pequeno gesto de criatividade que, apagando pouco a pouco, transpira generosidade ilegal. A pilastra ordinária do túnel não existe no horizonte de percepção urbana, embora seja concreto e tonelada. Ela está, antes, condenada a ser paisagem habitual, completamente camuflada de familiaridade. A intervenção artística, cinicamente desautorizada, obriga os espaços a serem visibilidade, na esteira da viela abandonada que, grafitada, se transforma em espaço de convivência, ocupação e insubordinação. Se a cidade produz grafite, também o grafite produz cidade, num pacto mútuo de requalificação e insurgência.

Mesmo assim, toda intervenção está condenada, desde o nascimento, a perecer diante da sentença cinza, ainda que algumas delas, premiadas pelo bom comportamento, conquistem invejável longevidade urbana, em especial aquelas sorridentemente coloridas. Quando uma intervenção é anulada da guerrilha visual, ela cede espaço para a hostilidade seguinte, de sorte que a inexistência de uma fecunda o discurso debochado da próxima: faz parte do jogo. A visualidade urbana vai se modificando gradualmente, abrindo espaço para novas intenções e outros afetos. Cada apagamento individual é, assim, um convite à revitalização coletiva: se o cinza emudece uma sílaba de contestação para impor o silêncio monocromático, a ausência repentina de uma inscrição provoca uma gritaria grafiteira que, engrandecida e aglomerada, inunda os muros de desacato, absolutamente agradecida diante da nova moldura pronta para o restauro ilegal. Nesse sentido, os apagamentos trabalham para a arte de rua, e não contra ela, porque produzem uma linguagem que só se conserva quando destruída, só permanece quando eliminada.

Toda essa intensidade transformadora, caprichosa, provocativa, às vezes colorida, às vezes hedionda (não raro ambas), produz uma crônica urbana que, diariamente reinventada, narra a cidade em páginas de cimento e agressão. Interpretar esse excesso metropolitano nas camadas reveladoras de tinta indica a qualidade contemporânea, imediata, urgente do grafite, uma sucessão de discursos mais ou menos inteligíveis, mais ou menos indispensáveis, que faz escorrer, nos muros e esquinas, as aflições de uma geração.

A estética urbana, contudo, permanece sendo a prima pobre do clã artístico. Se é verdade que alguns espaços incontestes de legitimidade albergaram mostras e exposições de grafite, arrastando atrás de si filas e filas de popularidade, é igualmente evidente que as intervenções metropolitanas não escalaram o mesmo prestígio e reconhecimento que as suas congêneres de estética contemporânea (a já centenária estética contemporânea). O gesto spray vai infiltrando a metragem do cubo branco na condição de linguagem jovem, um tanto pitoresca, sem dúvida despojada, aquele convidado que, embora interessante e bom de papo, ainda não aprendeu totalmente os macetes do novo espaço de convivência. Esse olhar nem tão sutil de superioridade que o paradigma de arte contemporânea lança sobre a arte urbana é, contudo, um olhar de miopia: as intervenções do espaço público conseguem potencializar o projeto estético vanguardista ao seu mais destacado termo, atacando, no caminho, as concepções fundamentais de autoria, artista e ato criador, não só porque enraíza o gesto artístico no cotidiano das aflições urbanas, mas porque desautoriza a tutela da conservação, protagonizando uma arte de deliberada efemeridade. O gesto estético-urbano não está separado do transeunte por uma muralha de apreciação desinteressada, ao contrário: é a agência do grafite, da pichação, da intervenção em alterar constantemente a cidade, construí-la visualmente, provocá-la em spray, que estabelece a união fundamental entre arte e vida, arte e passionalidade, arte e revolta. Nenhuma outra linguagem conseguiu submeter o excesso metropolitano com tamanho desassombro ilegal, o pequeno ato de pintar uma parede que se transforma em quilômetros e quilômetros de insistência, teimosia e saturação. Cada pequeno gesto de spray, nesse sentido, carrega em si a escala indomesticável da cidade.

Intervenção de lambe em Lisboa. Fonte: https://ephemerajpp.com/2018/07/16/ruas-e-paredes-de-lisboa-julho-de-2018-2/20180716_085312-1/ (Acesso em: 06/04/2019)

 

Pichações no centro de São Paulo. Fonte: https://br.pinterest.com/pin/362610207470371078/ (Acesso em: 06/04/2019)

 

AUTOR

 

Felipe Eduardo Lázaro Braga é graduado em Ciências Sociais, e mestre em Sociologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Estudante de Filosofia na mesma instituição. Escrevo sobre arte contemporânea, e trabalho com pesquisa de mercado e opinião.

E-mail: braga.felipe@aol.com

A trajetória de vida de Beatriz Nascimento

Lidiane Soares

Lia Keller Ferreira

Resumo: A historiografia brasileira, bem como a produção acadêmica como um todo, escamotea a produção teórica de mulheres negras, delegando suas escritas ao esquecimento e invisibilidade nas bibliografias base das disciplinas universitárias. Nesse sentido, nos propomos a analisar a trajetória da historiadora Beatriz Nascimento como uma forma de evidenciar a importância da sua contribuição para o conhecimento sobre a História do Brasil, assim como trazer sua narrativa à luz de tantas outras teóricas negras que não tem seus estudos visibilizados e, para além de produzirem conhecimento, denunciam a sistemática racista que perpassa suas escritas.

Palavras-chave: mulher negra, história do Brasil, racismo acadêmico, diáspora africana.

 

The life trajectory of Beatriz Nascimento

Abstract: Brazilian historiography, as well as academic production as a whole, eschews the theoretical production of black women, delegating his writings to oblivion and invisibility in the bibliographies base of university disciplines. In this sense, we propose to analyze the trajectory of the historian Beatriz Nascimento as a way of highlighting the importance of her contribution to the knowledge about the History of Brazil, as well as to bring its narrative in the light of so many other black theorists who do not have their studies visible and in addition to producing knowledge, denounce the racist system that runs through their writings.

Key-words: black woman; history of Brazil; academic racism; african diaspora.

 

de todas as identidades políticas que eu encontrei ao longo da minha trajetória, a diáspora foi a mais frutífera; ser uma sujeita da diáspora negra me localiza, me preenche, me dá uma sensação de pertencimento histórico, cultural, geográfico, temporal.

 

Tatiana Nascimento, Diálogos Ausentes

 

Introdução

Ao nos dedicarmos  à análise da trajetória de vida de Beatriz Nascimento, não deixamos de elucidar que estas envolvem muitas questões, especificamente por ser a historiadora uma mulher negra. Apesar de acadêmica, nunca foi reconhecida como tal, sendo devido aos movimentos sociais dos quais participava o reconhecimento de sua grandeza. As pesquisas de Beatriz Nascimento trazem à tona uma realidade brasileira que não é  evidenciada nos estudos sobre o Brasil, que é a participação das pessoas pretas em todos os aspectos do movimento da História. Extremamente incomodada com os insistentes estudos da população negra restritos à história da escravidão na trajetória nacional, a historiadora direciona sua atenção à uma nova construção do que é a História do Brasil que, segundo a mesma, até então tem sido a história do homem branco no Brasil.

Definimos Beatriz Nascimento enquanto historiadora como forma de continuar o caminho de reivindicação de seus trabalhos enquanto mais que necessários a adentrarem o espaço da produção de conhecimento acadêmico; entretanto, ser historiadora não define por completo quem ela foi. Migrante, nordestina, poetisa, pesquisadora, ativista, deixou um legado muito amplo de reflexões sobre a própria realidade em que vivia, sendo a mesma luz para as suas produções e para a compreensão de muitas mulheres que compartilham de suas experiências que, como mostraremos, não são apenas pessoais, mas participantes de um emaranhado de experiências coletivas.

Tendo como prática de vida seu posicionamento contra toda a lógica do sistema social, da sociedade, do projeto de civilização que temos em curso no Brasil, Beatriz Nascimento é uma de tantas mulheres pretas que ousaram falar. Neste estudo, portanto, centralizamos as vozes de Sueli Carneiro, Bell Hooks, Lélia Gonzalez para conhecermos suas escritas, suas falas, suas percepções de mundo e como elas se entrelaçam à própria trajetória de vida de Beatriz Nascimento, que por si só informa sobre as sociedades a qual essas teóricas debruçam suas reflexões.

Migrante, nordestina. Nascida em 1942 na cidade de Aracaju, veio de Salvador para o Rio de Janeiro com a família através de viagem de barco. Com apenas 7 anos já iniciava sua ligação com o mar.

Poetisa da partida e da conquista, como ela mesmo se definia, “eu sou atlântica”. Beatriz Nascimento, pesquisadora e pensadora, refletiu sobre a realidade da população na América e na África, estabelecendo profundas relações que explicassem a diáspora negra. Para ela, pensar sobre o mar era fazer elos de ligação numa história fragmentada. Uma história cheia de conflitos, angústias, ódios, mágoas, essa seria a História do Brasil. Isso seria expressado na experiência de troca do “soul”, experiência da perda da imagem, experiência do exílio.

Historiadora, definia as sociedades americanas e africanas como civilizações transatlânticas, berços da contemporaneidade. Essas sociedades eram caracterizadas por uma transmigração de cultura, que apenas a reflexão sobre esse continuum entre os dois continentes poderia explicar o que somos hoje enquanto Brasil, enquanto nação.     

Professora, foi pioneira, no Brasil, a questionar a produção de conhecimento que se desenvolvia na universidade, produzindo narrativas historiográficas que visavam construir o que é de fato a História do Brasil; para ela, um amálgama das trajetórias indígenas e negras, mas que insistem reduzir à história do homem branco na nação.

Ativista, construiu na década de 1970 o que hoje reconhecemos enquanto Movimento Negro Contemporâneo. Seu maior incômodo era a insistente associação negro-escravidão, defendendo que a grande questão na luta antirracista consistia no reconhecimento da população preta enquanto humanidade, o que até então não seria feito.

Sua obra mais reconhecida é Orí, um documentário que investiga historicamente o significado de quilombo como uma forma de reconstituir a identidade negra, a qual foi negada em todo o processo de colonização e pós-abolição. Sendo assim, quilombo exprime a trajetória diaspórica da população preta, evidenciando as iniciativas organizativas desta e seu protagonismo na construção da sociedade brasileira. É deste documentário que tiramos a maior parte das narrativas sobre sua trajetória, já que a mesma usa sua história de vida para  refletir sobre a trajetória da população preta no país.

Tantas qualidades e características tentam definir quem é Beatriz Nascimento. O que é principal, para nós, é  o que todas essas definições nos informam.

 

Migrante e nordestina

Moradora de Cordovil, zona da Leopoldina, Beatriz Nascimento chegou ao Rio de Janeiro em 1949. Filha de pedreiro e dona de casa, seus pais vieram com ela e mais dez irmãos tentar a sorte na cidade, num contexto de intensa  migração nordestina para o Sudeste, devido ao processo de industrialização do país. Para Nascimento, mesmo que tenham vindo de tão longe, toda a sua experiência na nova cidade, nessa cidade grande, era uma recriação de sua vida em Sergipe. Essa recriação, para ela, teria a ver com a recuperação do passado, através da relação que se constituía com aquele novo território. Essa relação com esse novo território, portanto, recuperava a identidade daquela família, daquelas pessoas. Ou seja, a relação com o território reconstituía a sua própria identidade enquanto mulher transmigrada (Orí, 1989).

Para a intelectual, antropóloga e “amefricana” – como a mesma se definia – Lélia Gonzalez, as mulheres negras são as grandes enunciadoras de uma memória cultural capacitada de construir relações outras de saberes sobre a América, sobre o Brasil. Por exemplo, com a interpretação de Beatriz Nascimento de como foi o processo migratório para a mesma e para a sua família, temos um aprofundamento do que significou esse movimento histórico tão marcante na trajetória nacional. Sua narrativa, portanto, na medida em que insiste na centralização da perspectiva do migrante, aponta para a interferência que os migrantes tinham no cotidiano, já que, movidos pela reconstituição de sua antiga localidade, interferem na construção desse novo espaço social, dessa nova cidade. De forma muito natural, portanto, Beatriz Nascimento narra a importância nordestina para a construção da cidade do Rio de Janeiro em meados do século XX, contribuindo para que seja compreendida não só a dimensão do impacto da migração para a dinâmica da cidade, mas a percepção dessas  pessoas enquanto agentes históricos de transformação daquela realidade.

 

Fotografia 1 – Beatriz Nascimento, disponibilizada pelo Arquivo Nacional

 

Nesse mesmo sentido, de aprofundamento da experiência de migração, a identificação de Beatriz Nascimento enquanto migrante, nordestina, em terras tão distantes da sua, possibilitou, para nós, a construção de um pensamento guiado pela procura de um elo entre localidades, aparentemente, tão distintas. Por isso, sua própria experiência de vida centraliza a necessidade que se centralize as memórias africanas presentes nos pretos brasileiros para que seja compreendida não só a dimensão do impacto da vinda das pessoas africanas para o Brasil, mas a percepção dessas pessoas enquanto agentes históricos de transformação dessa realidade.

Lélia Gonzalez é pioneira, no Brasil, à propor a descolonização do saber.  Segundo a mesma afirma: “O fato é que, enquanto mulher negra, sentimos a necessidade de aprofundar a reflexão, ao invés de continuarmos na repetição e reprodução dos modelos que nos eram oferecidos” (1983, p. 225). Ou seja, o que se conhecia sobre a presença da população preta no Brasil era resumido à escravidão, como se estas pessoas não existissem para além da perspectiva sócio-econômica. Sendo assim, a narrativa de pessoas como Beatriz, segundo o pensamento de Lélia Gonzalez, reafirmam a necessidade de autodefinição negra. De que estas pessoas construam o que é, para elas, a trajetória nacional, para além dos recorrentes métodos explicativos que insistem na nossa condição objetificada, de não-sujeitos, de passivos ao  movimento da História.

 

Poetisa da partida

“Eu me identifico muito mais com os navegadores. Todo o meu pai, meu povo é marinheiro. Minha irmã casou com marinheiro, outro dia”, essa fala de Beatriz Nascimento, presente no documentário Orí, marca o significado da sua construção poética, marca o lugar do qual ela olha para o mundo. Essa partida para o desconhecido, essa tentativa de compreender o lugar para o qual se vai, experiência pela qual passou a poetisa ainda na infância, é o que guia sua necessidade de compreender a própria constituição do que é o Brasil. Compreender esse país da América, de histórias tão controversas, no qual chegaram homens que também partiram para o desconhecido. A poesia de Beatriz Nascimento, portanto, perpassa reflexões sobre as partidas para alcançar os significados dos encontros. A diáspora negra é a partida, mas uma partida que produziu encontros, encontros esses que gerariam o que hoje, pretos brasileiros, somos.

 

Fotografia 2 – Beatriz Nascimento

 

A poetisa Beatriz Nascimento situa esse momento de partida enquanto um momento, também, de estabelecimento de uma relação hemisférica entre o Oriente e Ocidente. O Brasil, a América seria fruto desse encontro, na verdade um reencontro, de áreas do Ocidente e do Oriente. Encontro estabelecido a partir do Oceano Atlântico, em que a África seria o vasto território centralizado em todo o processo de construção dessa relação. Nesse sentido, a pensadora questiona o que seria, então, as civilizações americanas e as africanas. Seriam, para ela, um grande transatlântico. Seriam civilizações transatlânticas, já que seus encontros com o “outro”, com o europeu mudam, definitivamente, todas as suas dinâmicas. Com isso, Beatriz Nascimento afirma: eu sou atlântica! É com essa percepção de mundo, de migrante, de navegante, de atlântica, de mulher em diáspora que ela se situa no processo histórico do qual a mesma é participante.

Lélia Gonzalez, a partir do conceito de amefricanidade, se aproxima da perspectiva de Beatriz Nascimento sobre o mundo. A amefricanidade busca centralizar a experiência de pessoas pretas na constituição do mundo, na constituição de Brasil, no sentido de romper com as produções de conhecimento sobre o que somos a partir do olhar e da trajetória do europeu. A narrativa de Beatriz, definindo o Brasil enquanto civilização transatlântica, e o conceito de amefricanidade, proposto por Lélia Gonzalez, dialogam no sentido de promover uma explicação outra para a História do Brasil, em que as pessoas africanas são fundamentais nesse processo. São fundamentais pois, segundo Gonzalez e Nascimento, foi o continente africano que possibilitou esse reencontro, essa articulação entre mundos tão distintos; cuja dinâmica foi transportada para essa nação, gerando o que hoje concebemos como Brasil. Um encontro, de fato, forçado. Uma construção nacional baseada em sofrimento, em violência. Entretanto, uma história que não podemos voltar atrás e refazer, mas compreender do que, agora, ela se trata. Determina, para isso, o Atlântico como elo histórico dessa história tão fragmentada que é a diáspora negra.

A pesquisadora Beatriz Nascimento encontra na percepção do que é o quilombo o continuum que possibilita essa construção do que é o Brasil. A presença de quilombo no Brasil, para ela, é a expressão de como foi constituída a nossa sociedade já que, segundo identificou a partir de viagens para países africanos como Angola, foi transportado um tipo de vida para a América que era Africana. Como a pesquisadora Beatriz Nascimento afirma

A transmigração de uma cultura e de uma atitude no mundo de um continente pro outro. Da África para a América. […] Na medida em que havia um intercâmbio entre mercadores e africanos chefe, mercadores chefes também, havia na relação entre escravos um intercâmbio também. E essa troca tá no nível do soul, da alma do homem escravo. Ele troca com o outro a experiência do sofrer, a experiência da perda da imagem, a experiência do exílio” (Documentário Orí, 1989).  

O conceito de amefricanidade, para Lélia Gonzalez (1998, p. 79), significaria a centralização das pessoas pretas enquanto produtoras de conhecimento, na qual suas próprias trajetórias e interpretações de mundo devem ser o centro de investigação. Isso pode ser constatado quando a pesquisa de Beatriz Nascimento sobre a compreensão do que hoje somos enquanto nação, parte de sua própria experiência de mundo enquanto migrante, enquanto mulher negra em diáspora. Para Lélia Gonzalez (1998, p. 71), a importância de pesquisas e produções de conhecimento com a metodologia que usa Beatriz Nascimento, ou seja, a partir de sua própria trajetória, reside em pensar “desde dentro” as civilizações americanas e africanas, irrompendo com as interpretações centradas no pensamento europeu sobre o mundo. Gonzalez é contemporânea de Beatriz Nascimento, e no que seus pensamentos mais se conectam é o refletir sobre a diáspora, entender-se negra em diáspora. Nisso constitui suas identidades, definição em que se encontram a partir de toda uma trajetória de vida que, também, as negaram enquanto sujeitos históricos. Essa negação ficaria evidente com o incômodo que as duas encontraram ao se depararem com o meio universitário, com a produção de conhecimento acadêmica, tornando central uma problemática que acompanhou suas vidas. Uma problemática própria da memória do exílio africano, de que são herdeiras.

Historiadora

Segundo narra Beatriz Nascimento

Esta foto é interessante porque é uma foto da carteira de identidade. É um momento muito estranho porque a foto é para a identidade e neste momento eu não sei, pela foto, quem sou eu. […] Eu tinha nove anos quando fiz minha primeira comunhão. Toda minha vida foi me separar desta concepção… foi um momento de grande depressão, um momento de fuga. E, ao mesmo tempo, um encontro com Cristo na primeira comunhão. Deus pra mim foi sempre uma busca. […]  Orí significa a iniciação a um novo estágio da vida, a uma nova vida, a um novo encontro. Ele se estabelece enquanto rito e só por aqueles que sabem fazer com que uma cabeça se articule consigo mesma e se complete com seu passado, com seu presente e com seu futuro. Com a sua origem e com seu momento ali. Entre luzes e sons só encontro o meu corpo antigo, velho companheiro de ilusões de caçar a fera. Corpo de repente aprisionado pelo destino dos homens de fora. Corpo-mapa de um país longínquo que busca outras fronteiras que limitem a conquista de mim. Quilombo-mítico que me faça conteúdo das sombras das palmeiras. Contornos irrecuperáveis que minhas mãos tentam alcançar (Beatriz Nascimento, Documentário Orí, 1989).

Para a historiadora, sua experiência de busca de autoconhecimento esbarrou em um processo de fuga do que até então concebia de si, concebia do mundo. Seu relato de que não se reconhecia na sua foto de “identidade” marca os conflitos internos que a mesma passou, metamorfoseado na própria busca por Deus. A comunhão para ela com o divino, foi justamente um momento de grande depressão, já muito nova, aos nove anos. Ela mesma em sua narrativa interconecta esses incômodos, essa busca por se conhecer, ao fato de ser negra. Um corpo, por ser negro, aprisionado por fronteiras que impediam o seu próprio conhecimento. A distância de se autoconhecer, de conhecer o mundo que a cercava, residia na própria distância dos significados de seu corpo.

 

Fotografia 3 – Beatriz Nascimento

 

A filósofa Sueli Carneiro, atrelada ao pensamento de Lélia Gonzalez, reafirma que a tomada de consciência da opressão, na trajetória das mulheres negras, acontece especificamente a partir da experiência de racismo. A partir de uma foto de sua irmã mais velha, a Carmem, Beatriz Nascimento afirma que ela a remete aos “mitos” que ela viveu ao ter como referência, por exemplo Marilyn Monroe. Entretanto, sua referência real “de sucesso” era sua irmã, já formada como normalista no Rio de Janeiro. Mas o que a imagem de sucesso remetia à mesma, era a imagem de uma mulher branca. Isso exprime a própria internalização do racismo, na medida em que as figuras veiculadas enquanto mulheres que mereciam reconhecimento, que mereciam esse lugar na memória, esse lugar de admiração, não eram mulheres como Carmem. Na memória de Beatriz Nascimento, a figura de sua irmã não se esgota nela mesma. Está, necessariamente, atribuída à um tipo de vida branco, à qual associa para que a importância de sua irmã Carmem, para ela, faça sentido. Se dar conta dessa questão, da associação que a mesma fazia de sua irmã à Marilyn Monroe, rompe com esses “mitos vividos” pela historiadora Beatriz Nascimento. Coloca em evidência essa “fuga” de sua realidade, e o que causava essa fuga era justamente a negação do reconhecimento do que ela mesma era. Mulher, negra.

Bell Hooks (2015, p. 203), teórica estadunidense afirma que as mulheres brancas agem como se mulheres negras não tivessem consciência das opressões que sofrem até terem contato com as análises que estas mulheres brancas constroem. Entretanto, Hooks afirma que não são a partir de programas políticos que apontem para a realidade dos dilemas pessoais, das condições inferiorizantes em que são colocadas as mulheres que estas mulheres negras se dão conta em que vivem em uma realidade que as oprimem. Em sua própria experiência de vida estas mulheres negras percebem seus incômodos. Na sua própria história de vida Beatriz Nascimento experienciou como o fato de ser negra gerou os conflitos no processo de busca por sua identidade, de busca pela compreensão de quem ela era, compreensão de seu lugar no mundo. Dessa forma, Sueli Carneiro (2003) e Bell Hooks (2015) dialogam na percepção  de que é necessário que essas experiências das mulheres negras sejam evidenciadas, para que seja centralizado o processo de percepção do racismo e os instrumentos que as mulheres negras utilizam para resistir ao mesmo.

O processo de resistir à experiência do racismo, para Beatriz Nascimento, esteve associado, a partir de sua narrativa, à atingir um novo estágio da vida. A vivenciar o significado de Orí, ou seja, um novo encontro. Esse novo encontro, para a historiadora, tinha a ver com a articulação entre passado, presente e futuro. Em suas palavras, já citadas anteriormente, “com a sua origem e com seu momento ali”. Esse caminho reflexivo é experienciado na sua própria formação enquanto historiadora. Ela se formou em História na UFRJ, e seu grande incômodo com sua experiência neste curso era o constante estudo das pessoas pretas resumido à suas existências enquanto mão-de-obra. Por isso, ela afirmava “Somos a história viva dos pretos, não números” (Documentário Orí, 1989).

Estudando em uma universidade essencialmente branca, de pesquisadores e historiadores brancos, defendia que quem tinha que contar a história das pessoas negras eram as pessoas negras, e não  pessoas brancas. Seria dentro de nós, pessoas pretas, que a História das pessoas negras viveria, assim como as experiências do passado, pois em nossa vivência que construímos memórias que é compartilhada de geração em geração. Nesse sentido, Beatriz Nascimento expressa um reconhecimento de seu lugar no movimento da História. Expressa seu reconhecimento enquanto mulher, enquanto negra, assim como expressa um reconhecimento sobre a estrutura de opressão que, no caso, era o racismo presente na construção dos saberes, saberes que estigmatizavam quem a mesma era, assim como o seu próprio passado. Passado tão necessário, segundo a historiadora, para se articular ao presente e, portanto, capacitar a  si mesma de compreender quem ela é. Beatriz Nascimento, nesse processo, começa a iniciação ao seu novo estágio, um novo encontro. Se coloca, enquanto historiadora, na busca de “outras fronteiras que limitem a conquista de mim”; ou seja, buscar o seu passado, que para a historiadora é a busca da África.

O caminho de conhecimento desse passado, para Beatriz Nascimento, está associado  à própria ligação entre África e América, Europa e África, ligação com Angola, Jagas, com os povos de Benin que, segundo sua narrativa, é de onde veio sua mãe. Portanto, o processo de conhecer seu passado, que ela busca para que reconheça quem ela mesma é, é o próprio processo de conhecer o passado da construção do Brasil, de conhecer todas as ligações que construíram o que é Brasil. Lélia Gonzalez, em sua própria produção, usava de texto autobiográfico para exprimir sua construção teórica sobre as sociedades. Segundo a intelectual, isso é fundamental, pois

o discurso da consciência, o discurso do poder dominante, quer fazer a gente acreditar que a gente é tudo brasileiro, e de ascendência européia, muito civilizado, etc e tal. […]. E culminando pinta este orgulho besta de dizer que a gente é uma democracia racial. Só que quando a negrada diz que não é, caem de pau em cima da gente, xingando a gente de racista. Contraditório, né? Na verdade, para além de outras razões, reagem dessa forma porque a gente põe o dedo na ferida deles, a gente diz que o rei tá pelado. E o corpo do rei é preto e o rei é escravo (GONZALEZ, 1983, p. 238).

Ou seja, o processo de Beatriz Nascimento de busca de si, de seu passado familiar, atrelado ao processo de busca do passado do que é Brasil, na verdade, especificamente do passado da população negra que constrói o que é Brasil, para Gonzalez faz parte de questionar o racismo existente na concepção que se tem da sociedade brasileira, de que é fruto europeu, de que é democracia racial. Para Lélia Gonzalez (1988, p. 71), o processo de Beatriz Nascimento se constituiria em uma prática política, ou seja, uma forma de resistir ao racismo, independente da mesma estar organizada numa entidade política ou não.

Para Gonzalez, portanto, evidenciar autobiografias de mulheres negras é reconhecer as diferentes estratégias das mesmas contra a violência da colonialidade. Uma  estratégia evidente na narrativa de Beatriz Nascimento são suas pesquisas sobre os significados de quilombo. Quilombo, para ela, é o que permite interconectar esse passado ao presente, é a expressão do encontro que a mesma tanto buscou. Como ela afirma

Durante os quatro séculos de escravidão nós vamos ver o negro brasileiro como homem participante de uma sociedade,  embora negando às vezes sua origem racial. […] nesse momento, a utilização do termo quilombo passa a ter uma conotação basicamente ideológica, basicamente doutrinária no sentido de agregação, no sentido de comunidade, no sentido de luta de homens como se reconhecendo homens, como se reconhecendo pessoas que realmente devem lutar por melhores condições de vida porque merecerem essas melhores condições de vida na medida em que fazem parte dessa sociedade. […] A questão econômica não é o grande drama, percebe, apesar de ser um grande drama, não é o grande drama. O grande drama é justamente o reconhecimento da pessoa do homem negro que nunca foi reconhecido no Brasil. […] Então é importante levantar a África como a verdadeira Atlântida do nosso mito. Pra nós do Ocidente a África ainda é um continente enterrado, um continente que a gente ainda não conhece muito. É um saber congelado, é um povo que está congelado nas nossas relações, nas nossas comunicações, no nosso inconsciente, no quem eles são. Daí a pergunta do negro nesse processo relacionado com o quilombo; quem é quilombo? (Beatriz Nascimento, Documentário Orí, 1989)       

Nesse sentido, Beatriz Nascimento explicita o caminho reflexivo e de pesquisa que possa ajudar a comprendermos do que de fato se trata a nossa história nacional. Reconhecer pessoas pretas enquanto pessoas, e toda sua iniciativa, para Beatriz Nascimento, explicitada e evidenciada pelo significado de quilombo. Quilombo surge, portanto, como chave teórica para a compreensão das dinâmicas da sociedade brasileira. Uma possibilidade outra do que a abordagem negro-escravidão, entretanto, invisibilizada pela produção acadêmica que insiste na objetificação dessa população que, conforme quilombo informe, produz sua autodefinição e interfere a todo momento na lógica social.

 

Professora e Ativista

Em sua vida como ativista, Beatriz Nascimento nos mostra que a militância não deve ficar apenas nas palavras, mas que deve estar presente nas nossas atitudes. Através da sua docência, ela nos dá exemplo de como levar o ativismo para a sala de aula, praticando a “pedagogia engajada” mencionada por Bell Hooks. Porém, uma vida de ativismo acarreta consequências boas e/ou ruins.

 

Fotografia 4 – Beatriz Nascimento

 

Na década de 1970 Beatriz construiu o Movimento Negro Contemporâneo, conhecido por esse nome hoje. Já formada, participou da criação do grupo de trabalho André Rebouças em 1974 na Universidade Federal Fluminense. Neste grupo, articulava com os estudantes negros a vivência de um negro acadêmico e na educação em um todo, mas também instruía os alunos sobre assuntos relacionados à cultura negra. Abordando temas ligados à história e à cultura negra, percebemos aqui uma militância intelectual, que engajava os alunos através de uma educação libertadora. Três anos depois, participou da Quinzena do Negro como conferencista, neste evento, foram reunidos grandes pesquisadores negros.

Como nos atenta Bell Hooks, autora influenciada e influenciadora de Paulo Freire, a educação deve ser libertadora.  Segundo a autora, tratando a educação como uma prática para a libertação, tudo ficaria mais simples para os alunos, todos aprenderiam. Esse método de ensino faria todos aprenderem porque não trataria os alunos apenas como futuras mão-de-obra, respeitando a singularidade de cada um, a identidade de cada um.

A educação como prática da liberdade é um jeito de ensinar que qualquer um pode aprender. (…) Ensinar de um jeito que respeite e proteja as almas de nossos alunos é essencial para criar as condições necessárias para que o aprendizado possa começar de modo mais profundo e íntimo (HOOKS, 2013, p.25).

Com essa “pedagogia engajada” se atentando às questões de cultura negra para alunos negros, Beatriz praticou exatamente isso. Ela tratou a educação como um dos meios para libertação porque sabia a importância da identidade, como já foi falado anteriormente. Quando um aluno se identifica com o que está aprendendo, tudo fica mais simples porque fica mais interessante para ele.

Também podemos afirmar que ao fazer isso, Beatriz era consciente do multiculturalismo que existe no Brasil. Ela percebia e se incomodava que esse multiculturalismo fosse tratado apenas como uma miscigenação e colonização, onde o negro era passivo na história. Com esse constante incômodo, ela fez a diferença sendo uma educadora que respeitou o multiculturalismo criando maiores possibilidades para alunos negros conhecerem sua história, história esta que estava e ainda está fragmentada, mas Beatriz se dedica a fazer elos de ligação nesta história. Em seu filme “Orí” ela menciona: “Oh paz infinita poder fazer elos de ligação numa história fragmentada. África e América, e novamente Europa e África”. É importante salientar que Beatriz trabalhou com outros pesquisadores como Eduardo Cardoso e Lélia Gonzalez para que a temática étnico racial fosse mais trabalhada na Academia e para que o discurso do Movimento Negro se fortalecesse.

Esse multiculturalismo também é mencionado na obra de Bell Hooks. A autora faz uma crítica à educação que não respeita esse multiculturalismo, deixando de lado toda uma história e, consequentemente, todo o grupo de alunos não brancos, afirma que o estilo de ensino dos professores deve mudar, justamente o que Beatriz estava se dedicando em fazer:

[…] não há nem de longe, discussões práticas suficientes, acerca de como o contexto de sala de aula pode ser transformado de modo a fazer do aprendizado uma experiência de inclusão. Para que o esforço de respeitar e honrar a realidade social e a experiência de grupos não brancos possa refletir num processo pedagógico, nós, como professores- (…) – temos de reconhecer que nosso estilo de ensino tem que mudar (HOOKS, 2013, p. 51).

Durante o seu mestrado, Beatriz defendeu a amiga de seu companheiro agressivo, o que ocasionou na sua morte. O companheiro de sua amiga usou o argumento de que Beatriz estava interferindo muito na vida do casal, matando-a com vários tiros. A morte de Beatriz é uma morte simbólica. Ora, ela morreu na mão de um homem que não se sentiu satisfeito em dar um, ou dois tiros, mas sim cinco. Os cinco tiros exprimem e revelam o ódio que aquele homem carregava ao ser repreendido por uma mulher. Coberto de ideias patriarcais, essa subjugação custou uma vida.

 

Conclusão

Sendo mulheres negras acadêmicas de História, escolhemos Beatriz Nascimento por uma questão identitária e para outras pessoas terem ciência de sua existência. Sua trajetória remete à nossa própria trajetória.

Migrante nordestina, poetisa, historiadora, professora e ativista; os feitos de Beatriz Nascimento e sua trajetória nos fazem refletir sobre o potencial que uma mulher negra tem, potencial que é inviabilizado pelo racismo acadêmico. Seus feitos refletem hoje no Movimento Negro, refletem nos coletivos negros que existem e resistem dentro das universidades, refletem na vida de cada professor que se propõe em tomar para si a pedagogia engajada. Suas atitudes movimentaram toda a estrutura. Assim como afirma Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se a base do capitalismo”.

No entanto, os ambientes que reconhecem Beatriz como uma intelectual são ambientes pretos. Sendo uma historiadora que possui uma produção importante, deveria ser reconhecida também no ambiente acadêmico, local que ela sempre foi ativista. Com isso, Beatriz lutou contra esse fenômeno social mas continua vítima do que mais lhe trazia descontentamento: o racismo acadêmico.

 

Fontes das imagens:

1 – http://www.arquivonacional.gov.br/br/component/tags/tag/maria-beatriz-nascimento.html

2 – https://cebi.org.br/2017/09/29/poesia-sonho-beatriz-nascimento/

3 – https://asminanahistoria.wordpress.com/2016/12/23/beatriz-nascimento/

4 – https://www.geledes.org.br/a-trajetoria-intelectual-ativista-de-beatriz-nascimento/

 

Referências Bibliográficas:

 

CARNEIRO, Sueli.  Mulheres em Movimento. Estudos Avançados, n 17. 2003.

HOOKS, Bell. Mulheres negras moldando a teoria feminista. Revista Brasileira de Ciência Política Brasília, n. 16, 2015.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: A educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla.1ª edição. São Paulo: wmf Martins Fontes, 2013.

NASCIMENTO, Beatriz; GERBER, Raquel. Orí. 1989. Documentário.

CARDOSO, Cláudia Pons. Amefricanizando o feminismo: o pensamento de Lélia Gonzalez. Estudos Feministas, n. 22. Florianópolis, 2014.

 

 

AUTORAS

 

 

Lia Keller Ferreira da Costa. Historiadora pela Universidade Federal Fluminense – UFF e Mestranda em Políticas Sociais na Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF.

 

 

 

 

Lidiane dos Santos Soares.
Graduanda em Licenciatura em História pela Universidade Federal Fluminense- UFF.

Direitos Humanos na América Latina: em defesa de políticas públicas setoriais à integração latino-americana

Nelson Soutero Coutinho Neto 

Pós-graduando (Lato Sensu) em Direitos Humanos na América Latina e mestrando no Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos Latino-Americanos

Luiz Fernando Ribeiro de Sales

Bacharel em Direito pelo UniAGES Centro Universitário. Mestrando em Estudos Latino-Americanos pelo Universidade Federal da Integração Latino-Americana

Resumo

O presente artigo tem como proposta trazer à luz do debate questões julgadas, pelo autor, como importantes para a reflexão e a ação em políticas públicas setoriais que tenham como foco as temáticas que cercam os direitos fundamentais da pessoa humana. Portanto, o eixo posto como sul neste trabalho será o tensionamento de alguns conceitos-chaves como Direitos Humanos, América Latina e Políticas Públicas de tal modo que as/os leitoras/es possíveis desse texto possam debruçar-se criticamente sobre diferentes possibilidades para a contribuição ao campo das políticas públicas setoriais, sobretudo, em Direitos Humanos na América Latina.

Palavras-chave: Direitos Humanos, América Latina, Políticas Públicas Setoriais, Novo Constitucionalismo Latino-americano

 

Human Rights in Latin America: in defense of sectoral public policies to Latin American integration

Abstract

This article aims to bring to the light of the debate issues considered by the author as important for reflection and action in sectoral public policies that focus on the themes that surround the fundamental rights of the human person. Therefore, the southern axis in this work will be the tensioning of some key concepts such as Human Rights, Latin America and Public Policy in such a way that the possible readers of this text can critically examine different possibilities for the contribution to the field of sectoral public policies, above all, in Human Rights in Latin America.

Keywords: Human Rights, Latin America, Sectoral Public Policies, New Latin American Constitutionalism

 

Introdução

É evidente que nos últimos anos os mais diversos movimentos sociais e organizações não governamentais conquistaram, dentro do espaço político, um amplo terreno para a constituição de políticas públicas setoriais desenvolvidas dentro do campo dos Direitos Humanos nos Estados-nações. Seja por meio de ministérios ou secretarias presidenciais, no Executivo; por meio de comissões no Legislativo; por meio dos debates jurídicos no Judiciário, principalmente em sede de controle concentrado de constitucionalidade no âmbitos de Supremas Cortes, a exemplo do STF no Brasil; até mesmo por secretarias estaduais e municipais; ou por intermédio de coordenações/coordenadorias específicas extraordinárias ou não; o discurso de políticas públicas voltadas para os Direitos Humanos está, cada vez mais, se emancipando como uma posição importante para a construção de planos de Estado e/ou governo.

Não é tarefa fácil debruçar sobre políticas públicas setoriais em direitos humanos na América Latina. Para tanto, o árduo labor deve estar acompanhado de uma ante sala, ou melhor, de um preâmbulo de conceitos-chaves para que as/os leitoras/es deste trabalho possam refletir sobre as possibilidades para a contribuição na construção de políticas públicas setoriais dentro do campo da promoção e proteção dos direitos fundamentais da pessoa humana.

Neste sentido, é interessante observar a quê e a quem serve uma política pública voltada aos direitos fundamentais da pessoa humana, ou seja, o Estado e o Governo não deveriam estar pautados, qualquer que seja suas decisões, de modo que garanta a proteção e a promoção dos direitos humanos de seus cidadãos e suas cidadãs? Talvez, será que estas instituições do Estado tornaram-se a máxima da instrumentalização do diálogo entre a população e ao Estado quando visibilidade e representatividade tanto das pautas quanto dos sujeitos políticos eleitos contrastam com a realidade de cada país?

É muito provável que essas questões não sejam respondidas no presente trabalho. Todavia, a pretensão em respondê-las seria de certa injustiça intelectual. Entretanto, perguntas como as expostas acima podem colaborar como gatilhos àquelas/es que estão na linha de frente das inúmeras instâncias da administração pública, criando não só políticas públicas públicas setoriais e fechadas, mas que, como no caso da temática central em Direitos Humanos, necessariamente, é um tema que precisa perpassar transversalmente por diversas outros lugares dentro do espaço da gestão pública.

Portanto, se há uma possível identidade latino-americana, a pretensão desse trabalho que se apresenta é, em sua miudeza, refletir desde aquí o que significa o fazer políticas públicas setoriais em direitos humanos que possa, em hipótese, fundamentar estas políticas em uma perspectiva à integração regional garantindo a promoção e a proteção de direitos básicos a grupos vulnerabilizados e precarizados pelos mais diversos extratos das relações de poderes.

1. Retrato de uma Muxe. Cidadã de terceiro gênero reconhecido nos Estados Unidos Mexicanos. Foto: Nicolas Ókin Frioli

 

Leia o artigo completo clicando aqui.

 

Autor: Nelson Soutero Coutinho Neto (Nelson Neto)

Mini-currículo
Mestrando no Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos Latino-Americanos e pós-graduando lato sensu em Direitos Humanos na América Latina pela Universidade Federal da Integração Latino-americana. Graduado em Jornalismo pela Universidade Paulista (UNIP – São Paulo, SP). Foi coordenador de comunicação na Coordenação de Políticas para LGBT (CPLGBT) da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) na Prefeitura Municipal de São Paulo entre 2015 e 2016. Trabalhou como repórter da Editora Mix Brasil nas revistas Junior e H Magazine, e do portal Mix Brasil entre os anos de 2012 e 2015. Ainda atuou como consultor e participou de eventos nas temáticas de Gênero, Sexualidade, Direitos Humanos e Cidadania para as Organizações Globo, SSEX BBOX, e outras empresas e organizações não governamentais.

Coautor: Luiz Fernando Ribeiro de Sales

Mini-currículo
Mestrando em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana, UNILA, na linha de pesquisa Prática e Saberes, instituição em que pretende desenvolver pesquisas sobre o Novo Constitucionalismo Latino-Americano. É Graduado em Direito pelo Centro Universitário Ages – UniAGES, durante a graduação desenvolveu atividades de monitoria acadêmica nas disciplinas de Introdução ao Estudo do Direito e Direito Constitucional Legislativo, foi membro do Comitê dos Estudantes, como representante do curso de Direito e do Conselho Universitário como representante do corpo discente, participou de grupos de estudos e pesquisa, tais como Direito e Literatura; foi premiado por ter sido o melhor acadêmico do 8º período de Direito em 2016.2 no Exame Institucional de Desempenho Estudantil – EXIDE, promovido pela IES. Atualmente, é membro da Rede para o Constitucionalismo Democrático Latino-Americano.

 

 

 

Os Jogos Digitais nos tornam mais inteligentes

Diego Marques de Carvalho

Maria Inês Ribas Rodrigues

 

Novas formas de pensar e aprender estão sendo elaboradas no mundo das telecomunicações, informática e mobilidade, contexto ainda inexpressivo em 1993 quando o filósofo Pierre Levy publicou sua obra, “As tecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na era da informática”, referência bibliográfica importante para questionar o conhecimento na sociedade da informação. Levy (1993) afirma que as relações entre os homens, o trabalho, a aprendizagem e a própria inteligência dependem, na verdade, da metamorfose incessante de dispositivos informacionais de todos os tipos.

Figura 1. Tecnologia inteligente

Fonte: https://www.ab2l.org.br/4-aplicacoes-de-inteligencia-artificial-em-servicos-comuns-de-tecnologia/

 

O computador, com seus diversos aparatos e softwares, é uma ferramenta para a educação. A área da computação deve olhar para a educação e dedicar esforços para entender suas características, teorias e desafios. O processo de desenvolvimento de um dispositivo computacional para aplicação no processo de aprendizagem deve incluir os educadores. Squirra e Fedoce (2015) afirmam que a sociedade contemporânea, do conhecimento, caracteriza-se pela expansão do acesso às informações e pela combinação das configurações e aplicações da informação com as tecnologias da comunicação em todas as suas possibilidades. Entendemos que os dispositivos móveis como os celulares se destacam como a principal ferramenta de inclusão tecnológica social desta década.

O desenvolvimento de softwares de qualidade é uma preocupação para a Ciência da Computação. O grande desafio desta área é criar sistemas disponíveis, corretos, seguros, escaláveis, persistentes e ubíquos. Quando incluímos este problema em Informática na Educação novos paradigmas complementam esta questão. Como desenvolver softwares educacionais que também atingem seus objetivos pedagógicos? Desenvolver Softwares Educacionais (SE) não é uma tarefa trivial, é necessário identificar os requisitos educacionais. Nas teorias de aprendizagem podemos encontrar estes requisitos, e devem ser usadas no desenvolvimento de SEs, mas nem sempre são consideradas. São necessárias iniciativas que considerem as teorias de aprendizagem para sistematizar o desenvolvimento de SE (SOUTO; SILVA, 2017).

Um bom jogo digital educacional deve incorporar bons princípios de aprendizagem. Aprender enquanto joga é um dos fatores de sucesso dos jogos digitais, se eles não possibilitassem a aprendizagem ninguém os compraria, os jogadores não aceitam jogos fáceis, bobos e pequenos, o desafio e a aprendizagem são em grande parte aquilo que torna os jogos digitais motivadores e divertidos (GEE, 2009).

Figura 2. Criança jogando videogame

Fonte: https://www.gamecoin.com.br/dia-das-criancas-melhores-videogames-para-os-baixinhos/

 

Alguns acreditam que o estudante ao jogar está aprendendo apenas o jogo, premissa que não é verdadeira. O ensino escolar tradicional, está inclinado para a transmissão de informações de professor para aluno, já nos jogos o estudante está envolvido em uma atividade, utilizando ferramentas, linguagem e compartilhando valores. Nos jogos, aquele que participa do processo de aprendizagem, deve explorar as regras e ao mesmo tempo descobrir como utilizá-las para alcançar seus objetivos, a aprendizagem nos jogos acontecem pela ação (GEE, 2009).

Mas para serem utilizados com este fim, os jogos precisam ter objetivos de aprendizagem bem elaborados, capazes de ensinar conteúdo das disciplinas aos usuários, ou então, promover o desenvolvimento de estratégias ou habilidades importantes para ampliar a capacidade cognitiva e intelectual dos estudantes (GROS, 2003).

O trabalho realizado por Ribeiro et al. (2015) identificou as teorias de aprendizagem aplicadas em Jogos Digitais Educacionais desenvolvidos no Brasil no período de 2004 a 2014. O resultado da pesquisa mostrou que o desenvolvimento dos Jogos Educacionais analisadas foram fundamentados no Behaviorismo em (13%) dos casos, Cognitivismo (14%), Humanismo (22%) e Construtivismo (51%). A teoria de Piaget está presente em 22% dos trabalhos, enquanto a teoria de Vigotsky aparece em 15% das publicações, o autor também identificou a falta de adoção de teorias de aprendizagem em 40,74% da amostra (RIBEIRO et al., 2015).

 

As teorias de aprendizagem de aprendizagem construtivistas identificadas são: teoria do desenvolvimento social [Vigotsky 1962], aprendizagem baseada em problemas [Escola de medicina 1960], aprendizagem cognitiva [Vigotsky 1978], aprendizagem por descoberta [Bruner 1960], aprendizagem baseada em casos [Originou da aprendizagem baseada em problemas 1990], aprendizagem situada [Leve e Wenger 1990], aprendizagem como atividade lúdica [Leont’ev 1990] e aprendizagem sob a perspectiva da teoria ator-rede [Latuor 1987] (RIBEIRO et al., 2015).

Figura 3. Aprendizagem

Fonte:http://fundacaotelefonica.org.br/noticias/como-a-neurociencia-ajuda-a-explicar-os-processos-de-aprendizagem-na-educacao/

As teorias de aprendizagem são fundamentais no desenvolvimento de jogos educacionais, e devem ser selecionada com coerência para evitar erros conceituais. O jogo estimula a experimentação, dúvida e a interação do jogador com a realidade (ambiente, objeto, pessoas). A falta de diálogo é problema enfrentado na educação dos nativos digitais, nascidos em meio a revolução das tecnologias da informação e comunicação, os jogos podem servir como ferramenta para reduzir essa distância, desde que atendam os requisitos das teorias de aprendizagem, e isso só é possível incluindo os educadores no processo de desenvolvimento.

 

REFERÊNCIAS

 

GEE, J. P. Bons video games e boa aprendizagem. Perspectiva, v. 27, n. 1, p. 167–178, 2009.

GROS, B. The impact of digital games in education. First Monday, v. 8, n. 7, p. 6–26, 2003.

LEVY, P. As tecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 1993.

RIBEIRO, R. J. et al. Teorias de aprendizagem em jogos digitais educacionais: um panorama brasileiro. RENOTE, v. 13, n. 1, 2015.

SOUTO, M.; SILVA, C. Um catálogo de requisitos pedagógicos para auxiliar o desenvolvimento de softwares educacionais. In: Brazilian Symposium on Computers in Education (Simpósio Brasileiro de Informática na Educação-SBIE). [S.l.: s.n.], 2017. v. 28, n. 1, p. 506.

SQUIRRA, S.; FEDOCE, R. A tecnologia móvel e os potenciais da comunicação na educação. e-publicacoes, 2015.

 

AUTORES

Diego Marques de Carvalho é programador e professor universitário em Tecnologia da Informação. Possui graduação em Comunicação Social pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Foi professor e assistente de coordenação da Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, Instituto Brasileiro de Tecnologia Avançada, Faculdade Diadema, Faculdade Drummond e Faculdade Paulista de Artes. Atualmente é professor do curso de Programação de Jogos Digitais do Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, na ETEC Guaracy Silveira e Faculdade Impacta de Tecnologia. Tem experiência na área de Desenvolvimento de Jogos Digitais, atuando principalmente nos seguintes temas: desenvolvimento de softwares e jogos para dispositivos móveis e internet, mídias digitais, web 2.0 e educação à distância. Desenvolveu projetos e softwares para empresas como IG Internet Group, Banco do Brasil, Aymoré Financeira, Livraria da Vila, Hotel União, Self-Realization Fellowship, Stella Barros Turismo, Cannon by Elgin, Tanrac, Mahindra, Fapcom e AQCEZ Construtora.

E-mail: diego.marques@ufabc.edu.br

 

Maria Inês Ribas Rodrigues possui Licenciatura em Física pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo (1994), mestrado em Ensino de Ciências – Modalidade Física pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo (2001), doutorado em Educação (Doutorado Sanduíche) – School of Education. University of Leeds, (2005) e doutorado em Educação – Ensino de Ciências e Matemática, pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (2006). Atualmente é professora do Centro de Ciências Naturais e Humanas, Universidade Federal do ABC. Tem experiência na área de Educação com ênfase em Ensino de Ciências, atuando principalmente nos seguintes temas: Ensino de Física; Desenvolvimento Profissional dos Formadores de Professores, Formação de Professores, Didática das Ciências, Pesquisa-ação Colaborativa.

E-mail: mariaines.ribas@ufabc.edu.br

Visita ao Museu Memorial de Direitos Humanos de Santiago (Chile)

A cursista Aureni Lima, que concluiu a Especialização em Educação em Direitos Humanos pela UFABC em 2018, fez uma visita ao Museu Memorial de Direitos Humanos de Santiago (Chile).

Ela enviou um relato de sua experiência a este simbólico local, que representa a memória da luta pelos Direitos Humanos em um país que também sofreu com graves violações de direitos básicos durante os anos de chumbo.

Confira abaixo o texto enviado por ela:

Aureni Santos Lima Silva

 

Prezados colegas e professores /formadores, em especial profa. Ana Dietrich, compartilho aqui com vocês a visita que realizei no MMDH Santigo, onde pude apreciar muitos momentos de aprendizado na prática considerando que na UFABC  tivemos debates oriundos de leituras de teóricos, vídeos, imagens, construções de novos textos, análise de questões que me possibilitaram neste espaço supracitado, promover novas leituras e aprendizagens através da visita monitorada, pesquisa em lócus via recursos disponibilizados (head fone aos visitantes), vídeos, além de visita acompanhada por pesquisador que informava cada etapa do contido (exposição) no museu.

Fiquei instigada a querer saber mais principalmente no espaço destinado à expositores de materiais coletado sobre criança: como pensavam, viviam, sofriam no momento da ditadura. Tem fotos que podemos visualizar os registros que Ninõs (crianças) faziam sobre elas. Acompanhei as discussões sobre a ditadura junto a pessoas que estavam em visita onde explicava-se todo o processo vivido pelos prisioneiros e prisioneiras, alojamento, contatos, política, sanções e o sofrimento marcando a história de luta, principalmente das mulheres para garantir seus direitos à vida, ao trabalho, ser respeitada como cidadã, garantia de direitos fundamentais, tal qual do Homem.

O fluxo de pessoas adentrando o museu seja visitante ou pesquisadores observei que era a contento, o que nos alegra saber que temos debates em “outros cantos“ do país, em prol da causa DOS DIREITOS HUMANOS. Essa possibilidade de novos elementos nos faz crescer como ser humano e nos dá possibilidade de expressarmos nossas intenções, desejos, credibilidade, enfim nos fortalece a continuar na luta por justiça social, garantia de direitos e respeito a vida de si e do outro.

Prezados, meu imenso abraço de agradecimento a toda a equipe da UFABC por me possibilitar interagir neste espaço em condições de ampliar novos olhares e saberes, sabendo do que eu lia, interpretava, admirava e conscientizava a continuar o percurso iniciado na universidade junto a essa equipe.

As fotos remetem a alguns momentos dessa visita. Muito boa a contribuição recebida e quando podemos trabalhar a teoria a partir da análise da prática. Tudo se vislumbra!!. Além disso, pude compartilhar os saberes com outras pessoas: filhas, esposo, colegas, mais esse momento que amei durante dias de férias no Chile.

Autora: Aureni Santos Lima Silva

Cursista da pós-graduação lato sensu Educação em Direitos Humanos – UFABC em 2018.

Email: aurenilima@gmail.com