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Espaço do Leitor

TRABALHO E JUVENTUDE RURAL

Letícia Costa Silva

Kezia Vieira de Sousa Farias

Kelly Carolyne Cirqueira Alves

 

A partir das históricas formas de organização social acontecem também avanços nas formas de produção, principalmente a partir do século XVIII com a revolução industrial e o desenvolvimento do sistema capitalista e suas constantes reestruturações produtivas pautadas pelo liberalismo e neoliberalismo. Todas essas dinâmicas do capital influenciando nas questões econômicas, sociais e culturais em relação às condições de trabalho, bem como à situação juvenil, principalmente aos jovens agricultores que estão sendo levados a abandonar a terra para adentrar à condição de exército de força de trabalho nas cidades nesse sistema exploratório desencadeado pelo modo de produção capitalista.

Imagem 1: Revolução Industrial. Imagem 2: Trabalho e desemprego. Imagem 3: Jovem agricultor

 

No mercado de trabalho os jovens são marginalizados, pois são considerados sem experiência para atuar em empregos de grande responsabilidade e quando conseguem emprego são em atividades fragmentadas, cansativas e repetitivas, de legislação flexível, com grande carga horária e baixa remuneração.

Dentro dessa problemática da condição juvenil e trabalho, há a questão também do jovem situado no espaço rural, em que é simultaneamente herdeiro e trabalhador da propriedade. Na realidade agrícola o que possibilita o reconhecimento social como agricultor adulto não é a idade, mas sim o domínio “sobre o saber fazer da agricultura”, ou seja, as técnicas de produção necessárias, oportunizando o reconhecimento desses jovens, como agricultores. (WEISHEIMER, 2009).

De acordo com Weisheimer (2009), para que aconteça esse processo geracional, da transição de jovem para adulto no contexto rural, é importante que haja as condições econômicas, sociais e culturais adequadas. No entanto, muitas vezes devido às difíceis condições que se encontra a situação agrária em decorrência das consequências dos processos promovidos pelo sistema capitalista nas relações de trabalho no campo, muitos jovens acabam por abandonar a agricultura para fugir das precárias ou inexistentes condições de trabalho, se dirigindo para as superlotadas periferias das cidades em trabalhos exploratórios de baixa remuneração, marginalizados das oportunidades de alcançarem empregos decentes.

Por isso, a importância da criação de políticas públicas por parte do poder público que visem manter o jovem na terra, assim como mais incentivos às atividades agrícolas. Para que os trabalhadores do campo tenham condições de desenvolver e aumentar seus cultivos, a vida no campo esteja bem estruturada economicamente, apresentando condições para desenvolver os cultivos ou aumentar a produção e investimentos na propriedade e assim garantir aos jovens que querem trabalhar no campo, a sua permanência.

FONTES DAS IMAGENS:

Imagem 1: https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/historia/primeira-revolucao-industrial

Imagem 2: https://diariodocomercio.com.br/sitenovo/metodologia-utilizada-para-medir-o-desemprego/

Imagem 3: https://www.cresol.com.br/site/noticias/interna?id=1126

 

REFERÊNCIAS

WEISHEIMER, N. A situação juvenil na agricultura familiar. Tese doutorado. Porto Alegue, UFRGS, 2009.

Disponível em : http://pct.capes.gov.br/teses/2009/42001013012P7/TES.PDF

Acessado em: 05/04/2018.

 

Leticia Costa Silva, discente do programa de pós-graduação em dinâmicas territoriais na Amazônia, UNIFESSPA/Campus Universitário de Marabá, leticia_200914@hotmail.com

 

 

 

 

Kezia Vieira de Sousa Farias, discente do programa de pós-graduação em dinâmicas territoriais na Amazônia, UNIFESSPA/Campus Universitário de Marabá, vieirakezia@hotmail.com

 

 

 

Kelly Carolyne Cirqueira Alves, discente do programa de pós-graduação em dinâmicas territoriais na Amazônia, UNIFESSPA/Campus Universitário de Marabá, kellyalves@unifesspa.edu.br

EPISTEMOLOGIAS OUTRAS

Kezia Vieira de Sousa Farias

Leticia Costa Silva

Kelly Carolyne Cirqueira Alves

 

Preocupado em analisar a constituição jurídica do poder, uma genealogia das formas jurídicas no interior dos saberes no contexto da modernidade, Foucault (2005), em diálogo com as obras de Nietzsche discorre sobre a invenção do conhecimento. Desse modo, ele elabora como o saber se institui e molda os sujeitos através dos discursos que são aceitos como verdade. A invenção do conhecimento, segundo Foucault (1995), deriva das relações de poder para regular os corpos através de mecanismos de controle com práticas disciplinares.

Imagem 1: Iba Mendes: Ciência e Poder.  Imagem 2: Chefia e liderança. Imagem 3: Mística de encerramento no acampamento pedagógico / Gisele Brito.

 

A disciplina é, segundo o autor, uma técnica em que são organizadas formas para os corpos se adequarem, mas a condição das relações de poder é, sobretudo, a resistência. Quer dizer, para Foucault (2005), que a verdade não é um estado que se alcança, mas sim uma construção demarcada nas relações entre poder e saber.

No campo dos estudos de etnologia indígena, podemos destacar as formulações de Viveiros de Castro. Para esse autor o perspectivismo ameríndio também tem apresentado críticas à colonialidade epistêmica na busca pela verdade através do conhecimento.  Segundo Viveiros de Castro (2015), no campo do pensamento indígena, o outro é tratado no processo de devoração, ou seja, na medida em que se devora o outro assimila-se a sua cultura.  A compreensão do outro se dá no esforço de não o ver como estranho, ela rompe com as barreiras e faz o esforço de assumir e assimilar a perspectiva do outro. Nas suas palavras, “o perspectivismo indígena é uma doutrina do equívoco, isto é, da alteridade referencial entre conceitos homônimos” (VIVEIROS DE CASTRO, 2015, 53). Nessa epistemologia corre-se o risco de ser dominado pelo outro, mas ela não reforça a padronização dos conhecimentos.

É importante ressaltar o fenômeno do devir, ser outro é o que movimenta o perspectivismo indígena. Dessa maneira, as epistemologias não se constroem sozinhas, ela sempre se dá na relação e na mediação. Kopenawa em “A queda do céu” (2015) expõe que o pensamento indígena pode e tem contribuído para que o Ocidente reflita sobre seus problemas. Ele aponta outras formas de conhecimento científico, que é o contato com os vários mundos. A ciência ocidental é uma das formas de explicar o mundo, mas não é a única.  O discurso produzido pela lógica da verdade científica como homogênea tem produzido dicotomias. Os subalternizados não são passivos, uma vez que, reclamam os sentidos nas práticas do cotidiano, sendo capaz de criar e recriar um movimento dialético na práxis de resistência.           

As concepções e manifestações dos conhecimentos dos subalternos se contrapõem à lógica linear da produção de sentidos. Outras epistemologias se apresentam como fundamentais no processo de criação de novos sentidos para os sujeitos que foram e, que continuam sendo marginalizados.  

FONTES DAS IMAGENS:

Imagem 1: https://www.google.com/search?q=fotos+ciencia+e+poder&client=firefox-b-d&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjm6bi9__XhAhXSCtQKHceTBQMQ_AUIDygC&biw=1366&bih=654#imgrc=WBTpAVKr3-U9WM

Imagem 2: https://www.google.com/search?q=fotos+ciencia+e+poder&client=firefox-b-d&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjm6bi9__XhAhXSCtQKHceTBQMQ_AUIDygC&biw=1366&bih=654#imgdii=qhxMninrHIzS5M:&imgrc=WBTpAVKr3-U9WM:

Imagem 3: https://www.brasildefato.com.br/2016/04/17/acampamento-em-eldorado-dos-carajas-homenageia-mortos-e-debate-as-novas-lutas/

REFERENCIAS

FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: editora Nau, 2005.

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami; trad. Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Lugones, Maria.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas canibais: Elementos para uma antropologia pós-estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

 

Kezia Vieira de Sousa Farias, discente do programa de pós-graduação em dinâmicas territoriais na Amazônia, UNIFESSPA/Campus Universitário de Marabá, vieirakezia@hotmail.com

 

 

 

Leticia Costa Silva, discente do programa de pós-graduação em dinâmicas territoriais na Amazônia, UNIFESSPA/Campus Universitário de Marabá, leticia_200914@hotmail.com

 

 

 

 

Kelly Carolyne Cirqueira Alves, discente do programa de pós-graduação em dinâmicas territoriais na Amazônia, UNIFESSPA/Campus Universitário de Marabá, kellyalves@unifesspa.edu.br

“O sangue jorra”: um acontecimento discursivo da memória traumática

Kelly Carolyne Cirqueira Alves

Kezia Vieira de Sousa Farias

Leticia Costa Silva

 

Ato na Curva do S faz memória dos 20 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás

“O Sangue jorra”, é o título de um poema encontrado em uma coletânea intitulada “Versando rebeldia” (2016) organizado pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra). A coletânea possui poemas de vários poetas do movimento ou militantes engajados. O poema em questão nos interessa pelo fato do autor buscar inspiração na memória do trauma de dois massacres, o massacre de Eldorado do Carajás e o massacre no acampamento São Tomás Balduíno, o primeiro ao qual destacaremos ocorreu na cidade de Eldorado do Carajás em 1996, já o segundo ocorreu no estado do Paraná.

Do ponto de vista do contexto histórico, o massacre de Eldorado do Carajás foi um evento que marcou a história de luta do MST na região Sul e Sudeste do Pará, por essa razão se transformou em um símbolo de resistência para o movimento convidando-os a dizer não ao esquecimento da história.

Nesse sentido vamos considerar uma passagem do poema para a compreensão da prática discursiva da resistência que recupera fatos traumáticos, cuja a memória estabelece uma relação entre a enunciação e a produção de sentidos.

Assim como os troncos das castanheiras,

Postos de pé para que sustentem a lembrança

E persistam dia a dia, como se insistindo para que não esqueçamos,

Eu vos peço: Não esqueçam!

 

Monumento das castanheiras em homenagem às vítimas assassinadas no massacre, localizado na cidade de Eldorado do Carajás – PA

Percebe-se que a escrita cada vez mais se mostra como espaço em que os sujeitos legitimam a importância de o acontecimento ser lembrado. A lembrança deve ser mantida viva para que a luta no movimento continue, há sempre interesses em torno da memória para que esta seja lembrada, apagada ou silenciada. O monumento das castanheiras está presente em um ato de resistência, o MST assume então uma narrativa com vistas a produção de um sujeito coletivo que abrace a causa do movimento a partir do contexto de lutas passadas e presentes, onde o discurso é retomado agora enquanto um acontecimento discursivo no poema, por se configurar enquanto uma nova maneira de dizer.

 

Ao ser enfatizado o monumento das castanheiras no poema, nota-se que o poeta ilustra o acontecimento como um exemplo de luta para construção histórica dos sujeitos do MST, na tentativa de fixar os sentidos da luta no movimento, possibilitando a criação de novos enunciados, a esse respeito, interessou-nos a posição de Foucault (2008) que nos mostra como a partir dos enunciados/corpo de enunciados, se desenvolvem regras que permitem construir outros enunciados diferentes.

Massacre de Eldorado dos Carajás: relatos e resistência de um povo.

O monumento ao ser fixado no poema como uma lembrança aponta para um funcionamento discursivo da memória em que os sujeitos fazem seu uso para trabalhar o imaginário e as subjetividades do movimento, produzindo sentidos que destacam a necessidade de uma lembrança sempre viva e presente do massacre.

 

Caracterizar o discurso do MST, nos leva a fazer uma reflexão sobre o tipo de escrita que esses sujeitos vêm construindo. Uma escrita que é baseada nas experiências dos sujeitos, as experiências que enfatizamos são as que foram de algum modo dolorosas para os trabalhadores e que afetam todos do movimento, uma vez que se trata de uma memória coletiva.

Observamos os seguintes fatos, no poema o autor recorta um acontecimento da história de luta do MST, que é realocado para um espaço poético capaz de sensibilizar os sujeitos – julgamos que a poesia se apropria dos testemunhos que emergem e se apresenta como algo autêntico, sendo uma representação da realidade – ao fazer esse recorte, ele possibilita a criação de enunciados novos que geram novos sentidos. A insistência do “lembrar’ também pode ser verificada em um campo de interesses em volta da memória. Ao lutar contra esse esquecimento o MST, estabelece formas de resistência e de luta em que os sujeitos são sempre convidados a lutar pelos que já morreram.

Fontes das imagens

Imagem 1: https://www.cptnacional.org.br/multimidia/12-noticias/conflitos/3186-ato-na-curva-do-s-faz-memoria-dos-20-anos-do-massacre-de-eldorado-dos-carajas.

Imagem 2: http://caritas.org.br/massacre-de-eldorado-dos-carajas-relatos-resistencia-de-um-povo/9952 .

Imagem 3: http://www.forumpatrimonio.com.br/view_full.php?articleID=108&modo=1

Referencias: MST. Movimento sem-terra. Versando a rebeldia. 2016. FOUCAULT, M. O enunciado e o arquivo. In: A Arqueologia do saber. 5 eds. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997, p. 87-150.

 

 

Kelly Carolyne Cirqueira Alves, discente do programa de pós-graduação em dinâmicas territoriais na Amazônia, UNIFESSPA/Campus Universitário de Marabá, kellyalves@unifesspa.edu.br

 

 

 

 

 

 

Kezia Vieira de Sousa Farias, discente do programa de pós-graduação em dinâmicas territoriais na Amazônia, UNIFESSPA/Campus Universitário de Marabá, vieirakezia@hotmail.com

 

 

 

Leticia Costa Silva, discente do programa de pós-graduação em dinâmicas territoriais na Amazônia, UNIFESSPA/Campus Universitário de Marabá, leticia_200914@hotmail.com

Arte Metrópole

Felipe Eduardo Lázaro Braga

Tem muito adjetivo por aí tentando definir o que é grafite, o que é pichação. É uma arte exasperada arruinando o espaço urbano? É o traço original da periferia que ousa reclamar protagonismo nos centros de legitimidade? É entretenimento de juventude, colorido sob medida para estampar camisetas e assinar coleções, uma arte transgressivamente bem paga? A verdade é que arte urbana não admite artigo definido, ela nasce de um rosnado plural, se reinventa em cada esquina de rebelião e, ao longo do caminho, acaricia imagens na autorização metropolitana, uma arte que ofende e sorri urbanidade.

O grafiteiro, no entanto, não é autor do seu grafite, porque a obra de arte grafite não é uma imagem, não é uma mensagem, não é um rabisco. O grafite no espaço urbano é um processo, é uma criação continuada, é uma constante e delicada negociação entre a ambição do desacato, a expectativa sempre frustrada de sobrevivência, e o julgamento intransigente do efêmero. O traçado do artista de rua inaugura uma biografia visual que se cria enquanto existe, que é atropelada, ofendida, retocada, poluída: as cores derretem a intenção do artista na primeira chuva de granizo; o morador de rua, ao acender sua fogueira de solidão, pinta a intervenção de penúria; o pichador homenageia a autorização grafiteira com a delicadeza do atropelo. O quadro resultante é uma cacofonia de intenções e indiferenças que o tempo cumpre de descolorir, a verdadeira artista metrópole desenhando camadas e camadas de existência naquela pintura urbanamente coletiva. Nesse sentido, o desgaste não compromete a intenção original do autor, o desgaste, a soma, a sobreposição, o vandalismo, tudo isso é obra viva, uma linguagem dinâmica construída de duração e rebeldia.

Essa diluição da autoria artística nos rancores da cidade dinamiza uma linguagem que, antes de ser imagem, é local, é território, e é performance: a provocação pichadora no alto do edifício não pretende ser conteúdo, não pretende ser inteligível, sua máxima ambição é ser ato, ato em si, um testemunho de desassombro juvenil que, de ponta cabeça e pendurado pelos tornozelos, imprime virilidade na poluição urbana. A pichação não diz nada, a não ser a própria presença. Esse ato aparentemente gratuito de violência visual só transborda ousadia porque escala os locais inacessíveis da cidade, sua potência se constrói na dificuldade, seu discurso vangloria a conquista indecifrável dos espaços.

O picho exibicionista e colossal, lá no alto do edifício central, consegue impressionar até o mais respeitável cidadão de bem, ainda que, para tanto, ele também ofenda, destrua, provoque indignação. O picho impressiona porque é absolutamente impossível chegar naquele ponto riscado do prédio; o impressionante, na verdade, não é a inscrição em si que, para todos os efeitos, é ininteligível, mas a inscrição como testemunho inequívoco do ato de ousadia, de insanidade, de vaidoso vandalismo, que escalou a verticalidade sem arestas do edifício apenas para rejeitar, com spray e atrevimento, uma invisibilidade condenada a ser multidão. Quando o pichador trapaceia o impossível e cicatriza sua marca no prédio, o conjunto confuso de rabiscos diz claramente: “eu estive aqui”, um ato que é, ao mesmo tempo, celebridade e anonimato. O diálogo entre intervenção e local de disposição estabelece as chaves interpretativas que condicionam sua leitura, sua recepção, seu alcance comunicativo.

E o mesmo vale para a figuração que, a despeito de ser um texto imagético, uma unidade inteligível de significado, paga igualmente seu débito com o espaço. Olhe rápido: estêncil e spray. Tinta vermelha, ainda escorrendo. No retrato, dois caras se beijando. Fachada de ONG LGBT. De novo: estêncil e spray. Tinta vermelha, ainda escorrendo. Retratados ali, dois caras se beijando. Fachada neopentecostal. Numa parede, orgulho e autoestima. Na outra, afronta e provocação. Imagens gêmeas completamente diferentes entre si, cada qual transbordando o significado que roubam do entorno.

Mas se é verdade que o espaço de disposição altera as possibilidades de leitura da obra, também é verdade que a intervenção artística, ela própria, protagoniza transformações na percepção e vivência da cidade. A poesia lambe-lambe debochando das nossas certezas absolutas de ocasião, logo ali embaixo da pilastra ordinária, conduz a desatenção transeunte para aquele ponto específico de inexistência, e que, antes da intervenção, nada era senão invisibilidade. O gesto estético direciona o olhar para os sinais de ação sobre a cidade, transforma um não-lugar em holofote de entusiasmo, requalifica o banal em literatura, esse pequeno gesto de criatividade que, apagando pouco a pouco, transpira generosidade ilegal. A pilastra ordinária do túnel não existe no horizonte de percepção urbana, embora seja concreto e tonelada. Ela está, antes, condenada a ser paisagem habitual, completamente camuflada de familiaridade. A intervenção artística, cinicamente desautorizada, obriga os espaços a serem visibilidade, na esteira da viela abandonada que, grafitada, se transforma em espaço de convivência, ocupação e insubordinação. Se a cidade produz grafite, também o grafite produz cidade, num pacto mútuo de requalificação e insurgência.

Mesmo assim, toda intervenção está condenada, desde o nascimento, a perecer diante da sentença cinza, ainda que algumas delas, premiadas pelo bom comportamento, conquistem invejável longevidade urbana, em especial aquelas sorridentemente coloridas. Quando uma intervenção é anulada da guerrilha visual, ela cede espaço para a hostilidade seguinte, de sorte que a inexistência de uma fecunda o discurso debochado da próxima: faz parte do jogo. A visualidade urbana vai se modificando gradualmente, abrindo espaço para novas intenções e outros afetos. Cada apagamento individual é, assim, um convite à revitalização coletiva: se o cinza emudece uma sílaba de contestação para impor o silêncio monocromático, a ausência repentina de uma inscrição provoca uma gritaria grafiteira que, engrandecida e aglomerada, inunda os muros de desacato, absolutamente agradecida diante da nova moldura pronta para o restauro ilegal. Nesse sentido, os apagamentos trabalham para a arte de rua, e não contra ela, porque produzem uma linguagem que só se conserva quando destruída, só permanece quando eliminada.

Toda essa intensidade transformadora, caprichosa, provocativa, às vezes colorida, às vezes hedionda (não raro ambas), produz uma crônica urbana que, diariamente reinventada, narra a cidade em páginas de cimento e agressão. Interpretar esse excesso metropolitano nas camadas reveladoras de tinta indica a qualidade contemporânea, imediata, urgente do grafite, uma sucessão de discursos mais ou menos inteligíveis, mais ou menos indispensáveis, que faz escorrer, nos muros e esquinas, as aflições de uma geração.

A estética urbana, contudo, permanece sendo a prima pobre do clã artístico. Se é verdade que alguns espaços incontestes de legitimidade albergaram mostras e exposições de grafite, arrastando atrás de si filas e filas de popularidade, é igualmente evidente que as intervenções metropolitanas não escalaram o mesmo prestígio e reconhecimento que as suas congêneres de estética contemporânea (a já centenária estética contemporânea). O gesto spray vai infiltrando a metragem do cubo branco na condição de linguagem jovem, um tanto pitoresca, sem dúvida despojada, aquele convidado que, embora interessante e bom de papo, ainda não aprendeu totalmente os macetes do novo espaço de convivência. Esse olhar nem tão sutil de superioridade que o paradigma de arte contemporânea lança sobre a arte urbana é, contudo, um olhar de miopia: as intervenções do espaço público conseguem potencializar o projeto estético vanguardista ao seu mais destacado termo, atacando, no caminho, as concepções fundamentais de autoria, artista e ato criador, não só porque enraíza o gesto artístico no cotidiano das aflições urbanas, mas porque desautoriza a tutela da conservação, protagonizando uma arte de deliberada efemeridade. O gesto estético-urbano não está separado do transeunte por uma muralha de apreciação desinteressada, ao contrário: é a agência do grafite, da pichação, da intervenção em alterar constantemente a cidade, construí-la visualmente, provocá-la em spray, que estabelece a união fundamental entre arte e vida, arte e passionalidade, arte e revolta. Nenhuma outra linguagem conseguiu submeter o excesso metropolitano com tamanho desassombro ilegal, o pequeno ato de pintar uma parede que se transforma em quilômetros e quilômetros de insistência, teimosia e saturação. Cada pequeno gesto de spray, nesse sentido, carrega em si a escala indomesticável da cidade.

Intervenção de lambe em Lisboa. Fonte: https://ephemerajpp.com/2018/07/16/ruas-e-paredes-de-lisboa-julho-de-2018-2/20180716_085312-1/ (Acesso em: 06/04/2019)

 

Pichações no centro de São Paulo. Fonte: https://br.pinterest.com/pin/362610207470371078/ (Acesso em: 06/04/2019)

 

AUTOR

 

Felipe Eduardo Lázaro Braga é graduado em Ciências Sociais, e mestre em Sociologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Estudante de Filosofia na mesma instituição. Escrevo sobre arte contemporânea, e trabalho com pesquisa de mercado e opinião.

E-mail: braga.felipe@aol.com

A trajetória de vida de Beatriz Nascimento

Lidiane Soares

Lia Keller Ferreira

Resumo: A historiografia brasileira, bem como a produção acadêmica como um todo, escamotea a produção teórica de mulheres negras, delegando suas escritas ao esquecimento e invisibilidade nas bibliografias base das disciplinas universitárias. Nesse sentido, nos propomos a analisar a trajetória da historiadora Beatriz Nascimento como uma forma de evidenciar a importância da sua contribuição para o conhecimento sobre a História do Brasil, assim como trazer sua narrativa à luz de tantas outras teóricas negras que não tem seus estudos visibilizados e, para além de produzirem conhecimento, denunciam a sistemática racista que perpassa suas escritas.

Palavras-chave: mulher negra, história do Brasil, racismo acadêmico, diáspora africana.

 

The life trajectory of Beatriz Nascimento

Abstract: Brazilian historiography, as well as academic production as a whole, eschews the theoretical production of black women, delegating his writings to oblivion and invisibility in the bibliographies base of university disciplines. In this sense, we propose to analyze the trajectory of the historian Beatriz Nascimento as a way of highlighting the importance of her contribution to the knowledge about the History of Brazil, as well as to bring its narrative in the light of so many other black theorists who do not have their studies visible and in addition to producing knowledge, denounce the racist system that runs through their writings.

Key-words: black woman; history of Brazil; academic racism; african diaspora.

 

de todas as identidades políticas que eu encontrei ao longo da minha trajetória, a diáspora foi a mais frutífera; ser uma sujeita da diáspora negra me localiza, me preenche, me dá uma sensação de pertencimento histórico, cultural, geográfico, temporal.

 

Tatiana Nascimento, Diálogos Ausentes

 

Introdução

Ao nos dedicarmos  à análise da trajetória de vida de Beatriz Nascimento, não deixamos de elucidar que estas envolvem muitas questões, especificamente por ser a historiadora uma mulher negra. Apesar de acadêmica, nunca foi reconhecida como tal, sendo devido aos movimentos sociais dos quais participava o reconhecimento de sua grandeza. As pesquisas de Beatriz Nascimento trazem à tona uma realidade brasileira que não é  evidenciada nos estudos sobre o Brasil, que é a participação das pessoas pretas em todos os aspectos do movimento da História. Extremamente incomodada com os insistentes estudos da população negra restritos à história da escravidão na trajetória nacional, a historiadora direciona sua atenção à uma nova construção do que é a História do Brasil que, segundo a mesma, até então tem sido a história do homem branco no Brasil.

Definimos Beatriz Nascimento enquanto historiadora como forma de continuar o caminho de reivindicação de seus trabalhos enquanto mais que necessários a adentrarem o espaço da produção de conhecimento acadêmico; entretanto, ser historiadora não define por completo quem ela foi. Migrante, nordestina, poetisa, pesquisadora, ativista, deixou um legado muito amplo de reflexões sobre a própria realidade em que vivia, sendo a mesma luz para as suas produções e para a compreensão de muitas mulheres que compartilham de suas experiências que, como mostraremos, não são apenas pessoais, mas participantes de um emaranhado de experiências coletivas.

Tendo como prática de vida seu posicionamento contra toda a lógica do sistema social, da sociedade, do projeto de civilização que temos em curso no Brasil, Beatriz Nascimento é uma de tantas mulheres pretas que ousaram falar. Neste estudo, portanto, centralizamos as vozes de Sueli Carneiro, Bell Hooks, Lélia Gonzalez para conhecermos suas escritas, suas falas, suas percepções de mundo e como elas se entrelaçam à própria trajetória de vida de Beatriz Nascimento, que por si só informa sobre as sociedades a qual essas teóricas debruçam suas reflexões.

Migrante, nordestina. Nascida em 1942 na cidade de Aracaju, veio de Salvador para o Rio de Janeiro com a família através de viagem de barco. Com apenas 7 anos já iniciava sua ligação com o mar.

Poetisa da partida e da conquista, como ela mesmo se definia, “eu sou atlântica”. Beatriz Nascimento, pesquisadora e pensadora, refletiu sobre a realidade da população na América e na África, estabelecendo profundas relações que explicassem a diáspora negra. Para ela, pensar sobre o mar era fazer elos de ligação numa história fragmentada. Uma história cheia de conflitos, angústias, ódios, mágoas, essa seria a História do Brasil. Isso seria expressado na experiência de troca do “soul”, experiência da perda da imagem, experiência do exílio.

Historiadora, definia as sociedades americanas e africanas como civilizações transatlânticas, berços da contemporaneidade. Essas sociedades eram caracterizadas por uma transmigração de cultura, que apenas a reflexão sobre esse continuum entre os dois continentes poderia explicar o que somos hoje enquanto Brasil, enquanto nação.     

Professora, foi pioneira, no Brasil, a questionar a produção de conhecimento que se desenvolvia na universidade, produzindo narrativas historiográficas que visavam construir o que é de fato a História do Brasil; para ela, um amálgama das trajetórias indígenas e negras, mas que insistem reduzir à história do homem branco na nação.

Ativista, construiu na década de 1970 o que hoje reconhecemos enquanto Movimento Negro Contemporâneo. Seu maior incômodo era a insistente associação negro-escravidão, defendendo que a grande questão na luta antirracista consistia no reconhecimento da população preta enquanto humanidade, o que até então não seria feito.

Sua obra mais reconhecida é Orí, um documentário que investiga historicamente o significado de quilombo como uma forma de reconstituir a identidade negra, a qual foi negada em todo o processo de colonização e pós-abolição. Sendo assim, quilombo exprime a trajetória diaspórica da população preta, evidenciando as iniciativas organizativas desta e seu protagonismo na construção da sociedade brasileira. É deste documentário que tiramos a maior parte das narrativas sobre sua trajetória, já que a mesma usa sua história de vida para  refletir sobre a trajetória da população preta no país.

Tantas qualidades e características tentam definir quem é Beatriz Nascimento. O que é principal, para nós, é  o que todas essas definições nos informam.

 

Migrante e nordestina

Moradora de Cordovil, zona da Leopoldina, Beatriz Nascimento chegou ao Rio de Janeiro em 1949. Filha de pedreiro e dona de casa, seus pais vieram com ela e mais dez irmãos tentar a sorte na cidade, num contexto de intensa  migração nordestina para o Sudeste, devido ao processo de industrialização do país. Para Nascimento, mesmo que tenham vindo de tão longe, toda a sua experiência na nova cidade, nessa cidade grande, era uma recriação de sua vida em Sergipe. Essa recriação, para ela, teria a ver com a recuperação do passado, através da relação que se constituía com aquele novo território. Essa relação com esse novo território, portanto, recuperava a identidade daquela família, daquelas pessoas. Ou seja, a relação com o território reconstituía a sua própria identidade enquanto mulher transmigrada (Orí, 1989).

Para a intelectual, antropóloga e “amefricana” – como a mesma se definia – Lélia Gonzalez, as mulheres negras são as grandes enunciadoras de uma memória cultural capacitada de construir relações outras de saberes sobre a América, sobre o Brasil. Por exemplo, com a interpretação de Beatriz Nascimento de como foi o processo migratório para a mesma e para a sua família, temos um aprofundamento do que significou esse movimento histórico tão marcante na trajetória nacional. Sua narrativa, portanto, na medida em que insiste na centralização da perspectiva do migrante, aponta para a interferência que os migrantes tinham no cotidiano, já que, movidos pela reconstituição de sua antiga localidade, interferem na construção desse novo espaço social, dessa nova cidade. De forma muito natural, portanto, Beatriz Nascimento narra a importância nordestina para a construção da cidade do Rio de Janeiro em meados do século XX, contribuindo para que seja compreendida não só a dimensão do impacto da migração para a dinâmica da cidade, mas a percepção dessas  pessoas enquanto agentes históricos de transformação daquela realidade.

 

Fotografia 1 – Beatriz Nascimento, disponibilizada pelo Arquivo Nacional

 

Nesse mesmo sentido, de aprofundamento da experiência de migração, a identificação de Beatriz Nascimento enquanto migrante, nordestina, em terras tão distantes da sua, possibilitou, para nós, a construção de um pensamento guiado pela procura de um elo entre localidades, aparentemente, tão distintas. Por isso, sua própria experiência de vida centraliza a necessidade que se centralize as memórias africanas presentes nos pretos brasileiros para que seja compreendida não só a dimensão do impacto da vinda das pessoas africanas para o Brasil, mas a percepção dessas pessoas enquanto agentes históricos de transformação dessa realidade.

Lélia Gonzalez é pioneira, no Brasil, à propor a descolonização do saber.  Segundo a mesma afirma: “O fato é que, enquanto mulher negra, sentimos a necessidade de aprofundar a reflexão, ao invés de continuarmos na repetição e reprodução dos modelos que nos eram oferecidos” (1983, p. 225). Ou seja, o que se conhecia sobre a presença da população preta no Brasil era resumido à escravidão, como se estas pessoas não existissem para além da perspectiva sócio-econômica. Sendo assim, a narrativa de pessoas como Beatriz, segundo o pensamento de Lélia Gonzalez, reafirmam a necessidade de autodefinição negra. De que estas pessoas construam o que é, para elas, a trajetória nacional, para além dos recorrentes métodos explicativos que insistem na nossa condição objetificada, de não-sujeitos, de passivos ao  movimento da História.

 

Poetisa da partida

“Eu me identifico muito mais com os navegadores. Todo o meu pai, meu povo é marinheiro. Minha irmã casou com marinheiro, outro dia”, essa fala de Beatriz Nascimento, presente no documentário Orí, marca o significado da sua construção poética, marca o lugar do qual ela olha para o mundo. Essa partida para o desconhecido, essa tentativa de compreender o lugar para o qual se vai, experiência pela qual passou a poetisa ainda na infância, é o que guia sua necessidade de compreender a própria constituição do que é o Brasil. Compreender esse país da América, de histórias tão controversas, no qual chegaram homens que também partiram para o desconhecido. A poesia de Beatriz Nascimento, portanto, perpassa reflexões sobre as partidas para alcançar os significados dos encontros. A diáspora negra é a partida, mas uma partida que produziu encontros, encontros esses que gerariam o que hoje, pretos brasileiros, somos.

 

Fotografia 2 – Beatriz Nascimento

 

A poetisa Beatriz Nascimento situa esse momento de partida enquanto um momento, também, de estabelecimento de uma relação hemisférica entre o Oriente e Ocidente. O Brasil, a América seria fruto desse encontro, na verdade um reencontro, de áreas do Ocidente e do Oriente. Encontro estabelecido a partir do Oceano Atlântico, em que a África seria o vasto território centralizado em todo o processo de construção dessa relação. Nesse sentido, a pensadora questiona o que seria, então, as civilizações americanas e as africanas. Seriam, para ela, um grande transatlântico. Seriam civilizações transatlânticas, já que seus encontros com o “outro”, com o europeu mudam, definitivamente, todas as suas dinâmicas. Com isso, Beatriz Nascimento afirma: eu sou atlântica! É com essa percepção de mundo, de migrante, de navegante, de atlântica, de mulher em diáspora que ela se situa no processo histórico do qual a mesma é participante.

Lélia Gonzalez, a partir do conceito de amefricanidade, se aproxima da perspectiva de Beatriz Nascimento sobre o mundo. A amefricanidade busca centralizar a experiência de pessoas pretas na constituição do mundo, na constituição de Brasil, no sentido de romper com as produções de conhecimento sobre o que somos a partir do olhar e da trajetória do europeu. A narrativa de Beatriz, definindo o Brasil enquanto civilização transatlântica, e o conceito de amefricanidade, proposto por Lélia Gonzalez, dialogam no sentido de promover uma explicação outra para a História do Brasil, em que as pessoas africanas são fundamentais nesse processo. São fundamentais pois, segundo Gonzalez e Nascimento, foi o continente africano que possibilitou esse reencontro, essa articulação entre mundos tão distintos; cuja dinâmica foi transportada para essa nação, gerando o que hoje concebemos como Brasil. Um encontro, de fato, forçado. Uma construção nacional baseada em sofrimento, em violência. Entretanto, uma história que não podemos voltar atrás e refazer, mas compreender do que, agora, ela se trata. Determina, para isso, o Atlântico como elo histórico dessa história tão fragmentada que é a diáspora negra.

A pesquisadora Beatriz Nascimento encontra na percepção do que é o quilombo o continuum que possibilita essa construção do que é o Brasil. A presença de quilombo no Brasil, para ela, é a expressão de como foi constituída a nossa sociedade já que, segundo identificou a partir de viagens para países africanos como Angola, foi transportado um tipo de vida para a América que era Africana. Como a pesquisadora Beatriz Nascimento afirma

A transmigração de uma cultura e de uma atitude no mundo de um continente pro outro. Da África para a América. […] Na medida em que havia um intercâmbio entre mercadores e africanos chefe, mercadores chefes também, havia na relação entre escravos um intercâmbio também. E essa troca tá no nível do soul, da alma do homem escravo. Ele troca com o outro a experiência do sofrer, a experiência da perda da imagem, a experiência do exílio” (Documentário Orí, 1989).  

O conceito de amefricanidade, para Lélia Gonzalez (1998, p. 79), significaria a centralização das pessoas pretas enquanto produtoras de conhecimento, na qual suas próprias trajetórias e interpretações de mundo devem ser o centro de investigação. Isso pode ser constatado quando a pesquisa de Beatriz Nascimento sobre a compreensão do que hoje somos enquanto nação, parte de sua própria experiência de mundo enquanto migrante, enquanto mulher negra em diáspora. Para Lélia Gonzalez (1998, p. 71), a importância de pesquisas e produções de conhecimento com a metodologia que usa Beatriz Nascimento, ou seja, a partir de sua própria trajetória, reside em pensar “desde dentro” as civilizações americanas e africanas, irrompendo com as interpretações centradas no pensamento europeu sobre o mundo. Gonzalez é contemporânea de Beatriz Nascimento, e no que seus pensamentos mais se conectam é o refletir sobre a diáspora, entender-se negra em diáspora. Nisso constitui suas identidades, definição em que se encontram a partir de toda uma trajetória de vida que, também, as negaram enquanto sujeitos históricos. Essa negação ficaria evidente com o incômodo que as duas encontraram ao se depararem com o meio universitário, com a produção de conhecimento acadêmica, tornando central uma problemática que acompanhou suas vidas. Uma problemática própria da memória do exílio africano, de que são herdeiras.

Historiadora

Segundo narra Beatriz Nascimento

Esta foto é interessante porque é uma foto da carteira de identidade. É um momento muito estranho porque a foto é para a identidade e neste momento eu não sei, pela foto, quem sou eu. […] Eu tinha nove anos quando fiz minha primeira comunhão. Toda minha vida foi me separar desta concepção… foi um momento de grande depressão, um momento de fuga. E, ao mesmo tempo, um encontro com Cristo na primeira comunhão. Deus pra mim foi sempre uma busca. […]  Orí significa a iniciação a um novo estágio da vida, a uma nova vida, a um novo encontro. Ele se estabelece enquanto rito e só por aqueles que sabem fazer com que uma cabeça se articule consigo mesma e se complete com seu passado, com seu presente e com seu futuro. Com a sua origem e com seu momento ali. Entre luzes e sons só encontro o meu corpo antigo, velho companheiro de ilusões de caçar a fera. Corpo de repente aprisionado pelo destino dos homens de fora. Corpo-mapa de um país longínquo que busca outras fronteiras que limitem a conquista de mim. Quilombo-mítico que me faça conteúdo das sombras das palmeiras. Contornos irrecuperáveis que minhas mãos tentam alcançar (Beatriz Nascimento, Documentário Orí, 1989).

Para a historiadora, sua experiência de busca de autoconhecimento esbarrou em um processo de fuga do que até então concebia de si, concebia do mundo. Seu relato de que não se reconhecia na sua foto de “identidade” marca os conflitos internos que a mesma passou, metamorfoseado na própria busca por Deus. A comunhão para ela com o divino, foi justamente um momento de grande depressão, já muito nova, aos nove anos. Ela mesma em sua narrativa interconecta esses incômodos, essa busca por se conhecer, ao fato de ser negra. Um corpo, por ser negro, aprisionado por fronteiras que impediam o seu próprio conhecimento. A distância de se autoconhecer, de conhecer o mundo que a cercava, residia na própria distância dos significados de seu corpo.

 

Fotografia 3 – Beatriz Nascimento

 

A filósofa Sueli Carneiro, atrelada ao pensamento de Lélia Gonzalez, reafirma que a tomada de consciência da opressão, na trajetória das mulheres negras, acontece especificamente a partir da experiência de racismo. A partir de uma foto de sua irmã mais velha, a Carmem, Beatriz Nascimento afirma que ela a remete aos “mitos” que ela viveu ao ter como referência, por exemplo Marilyn Monroe. Entretanto, sua referência real “de sucesso” era sua irmã, já formada como normalista no Rio de Janeiro. Mas o que a imagem de sucesso remetia à mesma, era a imagem de uma mulher branca. Isso exprime a própria internalização do racismo, na medida em que as figuras veiculadas enquanto mulheres que mereciam reconhecimento, que mereciam esse lugar na memória, esse lugar de admiração, não eram mulheres como Carmem. Na memória de Beatriz Nascimento, a figura de sua irmã não se esgota nela mesma. Está, necessariamente, atribuída à um tipo de vida branco, à qual associa para que a importância de sua irmã Carmem, para ela, faça sentido. Se dar conta dessa questão, da associação que a mesma fazia de sua irmã à Marilyn Monroe, rompe com esses “mitos vividos” pela historiadora Beatriz Nascimento. Coloca em evidência essa “fuga” de sua realidade, e o que causava essa fuga era justamente a negação do reconhecimento do que ela mesma era. Mulher, negra.

Bell Hooks (2015, p. 203), teórica estadunidense afirma que as mulheres brancas agem como se mulheres negras não tivessem consciência das opressões que sofrem até terem contato com as análises que estas mulheres brancas constroem. Entretanto, Hooks afirma que não são a partir de programas políticos que apontem para a realidade dos dilemas pessoais, das condições inferiorizantes em que são colocadas as mulheres que estas mulheres negras se dão conta em que vivem em uma realidade que as oprimem. Em sua própria experiência de vida estas mulheres negras percebem seus incômodos. Na sua própria história de vida Beatriz Nascimento experienciou como o fato de ser negra gerou os conflitos no processo de busca por sua identidade, de busca pela compreensão de quem ela era, compreensão de seu lugar no mundo. Dessa forma, Sueli Carneiro (2003) e Bell Hooks (2015) dialogam na percepção  de que é necessário que essas experiências das mulheres negras sejam evidenciadas, para que seja centralizado o processo de percepção do racismo e os instrumentos que as mulheres negras utilizam para resistir ao mesmo.

O processo de resistir à experiência do racismo, para Beatriz Nascimento, esteve associado, a partir de sua narrativa, à atingir um novo estágio da vida. A vivenciar o significado de Orí, ou seja, um novo encontro. Esse novo encontro, para a historiadora, tinha a ver com a articulação entre passado, presente e futuro. Em suas palavras, já citadas anteriormente, “com a sua origem e com seu momento ali”. Esse caminho reflexivo é experienciado na sua própria formação enquanto historiadora. Ela se formou em História na UFRJ, e seu grande incômodo com sua experiência neste curso era o constante estudo das pessoas pretas resumido à suas existências enquanto mão-de-obra. Por isso, ela afirmava “Somos a história viva dos pretos, não números” (Documentário Orí, 1989).

Estudando em uma universidade essencialmente branca, de pesquisadores e historiadores brancos, defendia que quem tinha que contar a história das pessoas negras eram as pessoas negras, e não  pessoas brancas. Seria dentro de nós, pessoas pretas, que a História das pessoas negras viveria, assim como as experiências do passado, pois em nossa vivência que construímos memórias que é compartilhada de geração em geração. Nesse sentido, Beatriz Nascimento expressa um reconhecimento de seu lugar no movimento da História. Expressa seu reconhecimento enquanto mulher, enquanto negra, assim como expressa um reconhecimento sobre a estrutura de opressão que, no caso, era o racismo presente na construção dos saberes, saberes que estigmatizavam quem a mesma era, assim como o seu próprio passado. Passado tão necessário, segundo a historiadora, para se articular ao presente e, portanto, capacitar a  si mesma de compreender quem ela é. Beatriz Nascimento, nesse processo, começa a iniciação ao seu novo estágio, um novo encontro. Se coloca, enquanto historiadora, na busca de “outras fronteiras que limitem a conquista de mim”; ou seja, buscar o seu passado, que para a historiadora é a busca da África.

O caminho de conhecimento desse passado, para Beatriz Nascimento, está associado  à própria ligação entre África e América, Europa e África, ligação com Angola, Jagas, com os povos de Benin que, segundo sua narrativa, é de onde veio sua mãe. Portanto, o processo de conhecer seu passado, que ela busca para que reconheça quem ela mesma é, é o próprio processo de conhecer o passado da construção do Brasil, de conhecer todas as ligações que construíram o que é Brasil. Lélia Gonzalez, em sua própria produção, usava de texto autobiográfico para exprimir sua construção teórica sobre as sociedades. Segundo a intelectual, isso é fundamental, pois

o discurso da consciência, o discurso do poder dominante, quer fazer a gente acreditar que a gente é tudo brasileiro, e de ascendência européia, muito civilizado, etc e tal. […]. E culminando pinta este orgulho besta de dizer que a gente é uma democracia racial. Só que quando a negrada diz que não é, caem de pau em cima da gente, xingando a gente de racista. Contraditório, né? Na verdade, para além de outras razões, reagem dessa forma porque a gente põe o dedo na ferida deles, a gente diz que o rei tá pelado. E o corpo do rei é preto e o rei é escravo (GONZALEZ, 1983, p. 238).

Ou seja, o processo de Beatriz Nascimento de busca de si, de seu passado familiar, atrelado ao processo de busca do passado do que é Brasil, na verdade, especificamente do passado da população negra que constrói o que é Brasil, para Gonzalez faz parte de questionar o racismo existente na concepção que se tem da sociedade brasileira, de que é fruto europeu, de que é democracia racial. Para Lélia Gonzalez (1988, p. 71), o processo de Beatriz Nascimento se constituiria em uma prática política, ou seja, uma forma de resistir ao racismo, independente da mesma estar organizada numa entidade política ou não.

Para Gonzalez, portanto, evidenciar autobiografias de mulheres negras é reconhecer as diferentes estratégias das mesmas contra a violência da colonialidade. Uma  estratégia evidente na narrativa de Beatriz Nascimento são suas pesquisas sobre os significados de quilombo. Quilombo, para ela, é o que permite interconectar esse passado ao presente, é a expressão do encontro que a mesma tanto buscou. Como ela afirma

Durante os quatro séculos de escravidão nós vamos ver o negro brasileiro como homem participante de uma sociedade,  embora negando às vezes sua origem racial. […] nesse momento, a utilização do termo quilombo passa a ter uma conotação basicamente ideológica, basicamente doutrinária no sentido de agregação, no sentido de comunidade, no sentido de luta de homens como se reconhecendo homens, como se reconhecendo pessoas que realmente devem lutar por melhores condições de vida porque merecerem essas melhores condições de vida na medida em que fazem parte dessa sociedade. […] A questão econômica não é o grande drama, percebe, apesar de ser um grande drama, não é o grande drama. O grande drama é justamente o reconhecimento da pessoa do homem negro que nunca foi reconhecido no Brasil. […] Então é importante levantar a África como a verdadeira Atlântida do nosso mito. Pra nós do Ocidente a África ainda é um continente enterrado, um continente que a gente ainda não conhece muito. É um saber congelado, é um povo que está congelado nas nossas relações, nas nossas comunicações, no nosso inconsciente, no quem eles são. Daí a pergunta do negro nesse processo relacionado com o quilombo; quem é quilombo? (Beatriz Nascimento, Documentário Orí, 1989)       

Nesse sentido, Beatriz Nascimento explicita o caminho reflexivo e de pesquisa que possa ajudar a comprendermos do que de fato se trata a nossa história nacional. Reconhecer pessoas pretas enquanto pessoas, e toda sua iniciativa, para Beatriz Nascimento, explicitada e evidenciada pelo significado de quilombo. Quilombo surge, portanto, como chave teórica para a compreensão das dinâmicas da sociedade brasileira. Uma possibilidade outra do que a abordagem negro-escravidão, entretanto, invisibilizada pela produção acadêmica que insiste na objetificação dessa população que, conforme quilombo informe, produz sua autodefinição e interfere a todo momento na lógica social.

 

Professora e Ativista

Em sua vida como ativista, Beatriz Nascimento nos mostra que a militância não deve ficar apenas nas palavras, mas que deve estar presente nas nossas atitudes. Através da sua docência, ela nos dá exemplo de como levar o ativismo para a sala de aula, praticando a “pedagogia engajada” mencionada por Bell Hooks. Porém, uma vida de ativismo acarreta consequências boas e/ou ruins.

 

Fotografia 4 – Beatriz Nascimento

 

Na década de 1970 Beatriz construiu o Movimento Negro Contemporâneo, conhecido por esse nome hoje. Já formada, participou da criação do grupo de trabalho André Rebouças em 1974 na Universidade Federal Fluminense. Neste grupo, articulava com os estudantes negros a vivência de um negro acadêmico e na educação em um todo, mas também instruía os alunos sobre assuntos relacionados à cultura negra. Abordando temas ligados à história e à cultura negra, percebemos aqui uma militância intelectual, que engajava os alunos através de uma educação libertadora. Três anos depois, participou da Quinzena do Negro como conferencista, neste evento, foram reunidos grandes pesquisadores negros.

Como nos atenta Bell Hooks, autora influenciada e influenciadora de Paulo Freire, a educação deve ser libertadora.  Segundo a autora, tratando a educação como uma prática para a libertação, tudo ficaria mais simples para os alunos, todos aprenderiam. Esse método de ensino faria todos aprenderem porque não trataria os alunos apenas como futuras mão-de-obra, respeitando a singularidade de cada um, a identidade de cada um.

A educação como prática da liberdade é um jeito de ensinar que qualquer um pode aprender. (…) Ensinar de um jeito que respeite e proteja as almas de nossos alunos é essencial para criar as condições necessárias para que o aprendizado possa começar de modo mais profundo e íntimo (HOOKS, 2013, p.25).

Com essa “pedagogia engajada” se atentando às questões de cultura negra para alunos negros, Beatriz praticou exatamente isso. Ela tratou a educação como um dos meios para libertação porque sabia a importância da identidade, como já foi falado anteriormente. Quando um aluno se identifica com o que está aprendendo, tudo fica mais simples porque fica mais interessante para ele.

Também podemos afirmar que ao fazer isso, Beatriz era consciente do multiculturalismo que existe no Brasil. Ela percebia e se incomodava que esse multiculturalismo fosse tratado apenas como uma miscigenação e colonização, onde o negro era passivo na história. Com esse constante incômodo, ela fez a diferença sendo uma educadora que respeitou o multiculturalismo criando maiores possibilidades para alunos negros conhecerem sua história, história esta que estava e ainda está fragmentada, mas Beatriz se dedica a fazer elos de ligação nesta história. Em seu filme “Orí” ela menciona: “Oh paz infinita poder fazer elos de ligação numa história fragmentada. África e América, e novamente Europa e África”. É importante salientar que Beatriz trabalhou com outros pesquisadores como Eduardo Cardoso e Lélia Gonzalez para que a temática étnico racial fosse mais trabalhada na Academia e para que o discurso do Movimento Negro se fortalecesse.

Esse multiculturalismo também é mencionado na obra de Bell Hooks. A autora faz uma crítica à educação que não respeita esse multiculturalismo, deixando de lado toda uma história e, consequentemente, todo o grupo de alunos não brancos, afirma que o estilo de ensino dos professores deve mudar, justamente o que Beatriz estava se dedicando em fazer:

[…] não há nem de longe, discussões práticas suficientes, acerca de como o contexto de sala de aula pode ser transformado de modo a fazer do aprendizado uma experiência de inclusão. Para que o esforço de respeitar e honrar a realidade social e a experiência de grupos não brancos possa refletir num processo pedagógico, nós, como professores- (…) – temos de reconhecer que nosso estilo de ensino tem que mudar (HOOKS, 2013, p. 51).

Durante o seu mestrado, Beatriz defendeu a amiga de seu companheiro agressivo, o que ocasionou na sua morte. O companheiro de sua amiga usou o argumento de que Beatriz estava interferindo muito na vida do casal, matando-a com vários tiros. A morte de Beatriz é uma morte simbólica. Ora, ela morreu na mão de um homem que não se sentiu satisfeito em dar um, ou dois tiros, mas sim cinco. Os cinco tiros exprimem e revelam o ódio que aquele homem carregava ao ser repreendido por uma mulher. Coberto de ideias patriarcais, essa subjugação custou uma vida.

 

Conclusão

Sendo mulheres negras acadêmicas de História, escolhemos Beatriz Nascimento por uma questão identitária e para outras pessoas terem ciência de sua existência. Sua trajetória remete à nossa própria trajetória.

Migrante nordestina, poetisa, historiadora, professora e ativista; os feitos de Beatriz Nascimento e sua trajetória nos fazem refletir sobre o potencial que uma mulher negra tem, potencial que é inviabilizado pelo racismo acadêmico. Seus feitos refletem hoje no Movimento Negro, refletem nos coletivos negros que existem e resistem dentro das universidades, refletem na vida de cada professor que se propõe em tomar para si a pedagogia engajada. Suas atitudes movimentaram toda a estrutura. Assim como afirma Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se a base do capitalismo”.

No entanto, os ambientes que reconhecem Beatriz como uma intelectual são ambientes pretos. Sendo uma historiadora que possui uma produção importante, deveria ser reconhecida também no ambiente acadêmico, local que ela sempre foi ativista. Com isso, Beatriz lutou contra esse fenômeno social mas continua vítima do que mais lhe trazia descontentamento: o racismo acadêmico.

 

Fontes das imagens:

1 – http://www.arquivonacional.gov.br/br/component/tags/tag/maria-beatriz-nascimento.html

2 – https://cebi.org.br/2017/09/29/poesia-sonho-beatriz-nascimento/

3 – https://asminanahistoria.wordpress.com/2016/12/23/beatriz-nascimento/

4 – https://www.geledes.org.br/a-trajetoria-intelectual-ativista-de-beatriz-nascimento/

 

Referências Bibliográficas:

 

CARNEIRO, Sueli.  Mulheres em Movimento. Estudos Avançados, n 17. 2003.

HOOKS, Bell. Mulheres negras moldando a teoria feminista. Revista Brasileira de Ciência Política Brasília, n. 16, 2015.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: A educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla.1ª edição. São Paulo: wmf Martins Fontes, 2013.

NASCIMENTO, Beatriz; GERBER, Raquel. Orí. 1989. Documentário.

CARDOSO, Cláudia Pons. Amefricanizando o feminismo: o pensamento de Lélia Gonzalez. Estudos Feministas, n. 22. Florianópolis, 2014.

 

 

AUTORAS

 

 

Lia Keller Ferreira da Costa. Historiadora pela Universidade Federal Fluminense – UFF e Mestranda em Políticas Sociais na Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF.

 

 

 

 

Lidiane dos Santos Soares.
Graduanda em Licenciatura em História pela Universidade Federal Fluminense- UFF.