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Entre rios e fronteiras

A História nos “entretempos” de incertezas: uma breve reflexão

 

Eri Cavalcanti

Gostaria de iniciar este breve texto mencionando rapidamente a expressão que dá nome a esta coluna e, de maneira bem pontual, a primeira palavra: “entre”. Se concordarmos que o mundo é uma invenção gestada inexoravelmente pela linguagem, a prática da nomeação é, talvez, a primeira relação que concorre para atribuir existência ao próprio mundo e a suas representações. Ou em um diálogo próximo a Pierre Bourdieu, poderíamos dizer que não existem experiências, relações, fatos ou acontecimentos se esses não forem nomeados. Tentemos fazer um esforço para pensar em uma situação — ou acontecimento — para a qual não tenhamos um nome. Impossível. Tudo, absolutamente tudo, para existir, necessita ser nomeado e, portanto, para se constituir, precisa transitar pelo universo da linguagem em sua polifonia e multiplicidade de formas, representações e significados.

Entre as condições de possibilidade de existência da coluna Entre Rios e Fronteiras, uma delas diz respeito aos encontros tecidos entre os professores da Faculdade de História da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e a professora Ana Dietrich da Universidade Federal do ABC (UFABC). Por esse ângulo de perspectiva, é oportuno nos avizinharmos das reflexões do filósofo francês, Gilles Deleuze (1992), quando defende que, para analisar e entender as relações, o importante é compreender o que se passa entre. A análise bastante erudita desse intelectual nos remete para outros lugares de questionamentos e nos impele a pensar em outras maneiras de discutir e entender certas questões-problema.

Deleuze nos desafia a sair de uma lógica explicativa bastante cristalizada que institui o mundo por meio de uma narrativa com origem e fim. Por conseguinte, essa mesma lógica parte do pressuposto de que todas as questões, problemas e relações estariam de alguma maneira com seu percurso traçado e definido e que, assim, as condições já teriam sido estabelecidas quando de sua criação. Ou seja, as experiências e seus desdobramentos já estariam definidos. Essa é a mesma lógica simplista que apreende o mundo pelas lentes da causalidade, que o entende como uma consequência das “leis” de causa e efeito e de ações e reações, e que atribui existência essencialista às relações humanas. Mas, como defende o filósofo, o humano, o agir e o agir humano são marcados pelo paradoxo, pelo dissenso, pela imprevisibilidade, pela indeterminabilidade.

A aproximação com as análises de Deleuze nos ajuda a pensar em outros deslocamentos, de tal modo que, mais importante do que buscar um “começo” (como se lá estivesse uma suposta origem explicativa para os fenômenos) e um “fim” para os acontecimentos (o encerramento) é perceber o que se passa entre. Acredito que as experiências se encontram em um fluxo do movimento dos acontecimentos, por isso, concordo com Deleuze quando afirma que o mais importante — por essa perspectiva de análise — é o entre.

Nessa dimensão, a coluna Entre Rios e Fronteiras é um espaço por excelência do entre, do possível, das experiências cujas explicações não cabem em narrativas que as limitam a pensar a partir de uma suposta origem. É nessa perspectiva que apresentarei breves reflexões sobre certas singularidades de nosso tempo, no que tange a algumas experiências da História do tempo presente.

As fissuras dos “entretempos” na Amazônia

O objetivo deste artigo não é fazer uma reflexão sobre o conceito de “tempo presente”. Basta dizer que esse conceito é plural e não desfruta de consenso nem mesmo no que se refere a sua terminologia. Há quem prefira, por exemplo, usar a denominação “história recente”.

Recentes ou do tempo presente, temos presenciado cenas nos dias atuais que provocam, preocupam e desafiam muitos que lidam com a História como área de atuação na pesquisa e no ensino. O amigo e historiador Airton dos Reis (que também escreve para essa coluna), a quem agradeço pela imagem, registrou em fotografias alguns indícios que representam cenas de um “tempo com fissuras”.

 

Fotografia: Airton dos Reis

 

Na recente greve dos caminhoneiros, diversas narrativas perfilaram redes sociais, sites de informação e grupos de whatsapp. Essa imagem foi produzida no dia 25 de maio de 2018 no bloqueio que os caminhoneiros fizeram na cidade de Eldorado dos Carajás, PA. Os pedidos de intervenção militar durante a paralisação — cabe destacar — não foram enunciados apenas pelas experiências praticadas na Amazônia.

Essa imagem emite muitos significados. É importante fazermos um esforço para evitar qualquer generalização. Certamente, nem todos os caminhoneiros desejaram e pediram a intervenção militar. Nem todos os caminhoneiros estão sendo manipulados por seus patrões. Nem todos os caminhoneiros fizeram parte dos protestos que ajudaram a consolidar o golpe de 2016 que derrubou a presidenta, eleita democraticamente, Dilma Roussef.

Expressado isso, avancemos na reflexão e questionemos: como é possível pedir o retorno da intervenção militar? Tal regime se caracterizou pela falta de expressão; proibiu greves; fez fortes arrochos salariais; passou a realizar prisões arbitrárias; perseguiu cidadãos civis que se posicionavam contrários aos ideais dos golpistas ditadores; instalou o medo nas relações cotidianas ao estimular a delação (em muitos casos, sem fundamentos); decretou a censura aos órgãos de imprensa e de cultura. Além disso, decretou que qualquer cidadão aprovado em concurso público só seria empossado se os órgãos de segurança emitissem um parecer atestando que não havia nenhum registro sobre o aprovado (lembrando que, muitas vezes, bastava uma crítica pública ao governo para ser fichado nos órgãos de segurança). Enfim, um regime caracterizado por falta de liberdade, perseguição, tortura, prisão e assassinatos de quem se opunha àquela forma de governo. Contudo, é possível que alguns queiram o retorno da intervenção militar, e os exemplos dariam para encher rios em tempos de estiagens e povoar as mais densas fronteiras.

Poderíamos tecer muitas reflexões sobre as possíveis razões que motivam essas manifestações de apoio e pedido do retorno dos militares à condução política do País. Entre outras, o discurso simplista que apresenta a ditadura militar de 1964 como um período marcado pelo combate à corrupção e cumprimento da ordem. As pesquisas já provaram que esse discurso é mentiroso, conforme demonstrou Gaspari (2014), além perigoso.

Acredito que as reflexões do filósofo francês, citado no início desse artigo, podem ajudar a tecer outras análises. Sabemos que existem motivos políticos, interesses partidários e objetivos particulares dos sujeitos que pedem o retorno da intervenção militar. Para além dessas questões, talvez a maneira como predominantemente a história é compreendida, analisada e narrada em diversos espaços tenha sua parcela de responsabilidade. A história não é pensada, entendida e explicada como processo contínuo. A história não é “apreendida pelo entre”, mas pelas lentes que buscam explicações de causa e efeito em uma origem e que projetam, para um fim teleológico, os desdobramentos de todo o processo.

Qual o problema em compreender a história dessa maneira? Se as causas explicativas estão na origem, os homens, no transcorrer do tempo, não têm poder de alterar sua construção e de interferir no processo. Quando se compreende a história pelo que se passa “entre”, ou seja, como “processos permanentes” interconectados a outros tempos, se ampliam as condições de entender os fios e as redes de influências, ressonâncias e interferências entre as experiências. O que sabemos acerca do que se passou entre o fim da ditatura militar e os dias atuais? Provavelmente, muitos cidadãos civis desconhecem até mesmo o que se passou na ditadura militar. Esse desconhecimento é um problema, cujas implicações sociais e culturais são bastante sérias.

Refletir sobre essas questões não significa buscar uma explicação determinista para compreender nosso tempo presente. Temos hoje um Congresso, cujos parlamentares —– com raras exceções — se comportam como se a lei fosse feita para beneficiá-los. Mas, as leis também foram pensadas para atender aos interesses gestados nesse campo de força. Por que hoje temos um judiciário (ou uma parte dele) que se comporta acima da lei? As explicações também são muitas e distintas. Uma delas pode residir no entendimento dos fatos que se passaram entre a ditadura e a nossa experiência democrática.

No pós-ditadura, quando a Constituição de 1988 foi redigida e aprovada, existia uma tensão no sentido de construir um conjunto de leis que em seguida não fosse facilmente manipulado por tribunais, como o Tribunal Militar ou o próprio Supremo Tribunal Federal (STF), que agiu em estreita consonância com o regime militar (RECONDO, 2008). Inclusive, quando o judiciário se reconfigurou para ganhar autonomia, no pós-ditadura, a partir da lei também se armou de mecanismos para não ficar refém de golpistas e ditadores.

Entretanto, os desdobramentos de um sistema judiciário mais forte e, talvez, a falta de conhecimento de como ele funciona por parte da população civil e o desconhecimento do que se passa entre podem, ter contribuído para a criação e manutenção de privilégios que também encheriam rios e lagos e povoariam fronteiras e florestas. Todavia, é oportuno ressaltar que o judiciário também não pode ser visto de forma homogênea, nem entendido por leitura generalizadora, nem a ele ser atribuída a responsabilidade exclusiva pelos problemas com os quais nos deparamos no momento. Ao mesmo tempo, não faltam exemplos de atitudes de representantes do judiciário agindo nitidamente em estreita sintonia com os interesses político/partidários de certos grupos. Não faltam exemplos de casos que provocam perplexidade e indignação.

Nessa dimensão, é oportuno lembrar o caso da agente de trânsito que recebeu ordem de prisão ao multar um juiz, no Rio de Janeiro, quando esse estava dirigindo um carro sem placas e sem a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Segundo o portal de notícias G1, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) iria analisar “a conduta do juiz João Carlos de Souza Correa, no episódio em que o magistrado deu voz de prisão a uma agente de trânsito, após ser multado em uma blitz da Lei Seca no Rio de Janeiro, desde o dia 14 de outubro deste ano” (06/11/2014). Ao que tudo indica, o caso analisado pelos pares do magistrado em nada resultou para o juiz. O mesmo não ocorreu com a agente que foi condenada a pagar multa de cinco mil reais por desacato a autoridade, conforme noticiado pelo site de informação Uol (03/11/2014).

À guisa de (in)conclusão

 Não buscar explicações deterministas em uma suposta origem, acredito, talvez possa contribuir para a ampliação do nosso entendimento sobre os tempos que vivemos. Procurar entender o que se passa “entre” pode ajudar a perceber que nada está definido; que o presente e o futuro não estão determinados.

A história está sendo construída, nesse momento, nos e pelos entres desse tempo — ou seja, pelos “entretempos” do agora — e costurada por muitas forças. A história (ou as histórias) está sendo fabricada neste instante, grafada pela pluralidade das práticas, pela polifonia das relações, pelo caleidoscópico das emoções e dos desejos, sentidos, projetos e interesses de homens e mulheres que tecem — entre muitos fios, cores, linhas e agulhas — suas histórias na tapeçaria do tempo.

A história se torna, portanto, arma fundamental para esses tempos de enfrentamento. Como defende o professor Durval Muniz de Albuquerque Júnior, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN):

A História nos permite, pois, a relativização de tudo aquilo que define nosso tempo, permite o aprendizado de que aquilo que somos é apenas uma forma de ser entre muitas, nos permite saber como chegamos a ser o que somos e que esta forma ou estas formas não são as únicas possíveis. […] Portanto, uma das tarefas contemporâneas da História %C

Modernidade, revolução e liberdade na obra de Alexis de Tocqueville: uma breve nota biográfica para o ensino de História

José Inaldo Chaves Jr.

FAHIST/UNIFESSPA

 

Para meus alunos.

 

“A coisa é nova; é necessário então defini-la, pois não posso nomeá-la”.

Alexis de Tocqueville (1835).

 

“Na França, todos os partidos (os partidos procuram armas por toda parte) julgaram reconhecer no autor um dos seus. É, diz-se à direita, onde causava pavor o impulso democrático, a obra de um aristocrata; não denunciava ele, com inigualável vigor, os males da democracia? Oh não, diz-se à esquerda, é a obra de um democrata; com que total convicção reconhecia ele o irresistível poder da democracia, predizendo-lhe o pleno triunfo no porvir!” (CHEVALLIER, 1973, p. 245).

 

Um “coração naturalmente inquieto”. Alexis-Charles-Henri Clérel, visconde de Tocqueville, ou simplesmente Alexis de Tocqueville (1805-1859), foi assim definido por Jean-Jacques Chevallier (1973, p. 244). Filho do Conde de Tocqueville, ele era descendente, pelo lado paterno, da antiga nobreza normanda. Ingressando na magistratura ainda jovem, em 1827, ocupou o cargo de juiz auditor no tribunal de Versalhes. Poucos anos depois, estourara na França a Revolução de 1830, rescaldos clarividentes dos quarenta anos de tormentas sociais que ainda abalavam toda a Europa desde 1789. As agitações somente fizeram “aumentar a intensidade de sua precoce meditação sobre o destino das sociedades europeias”, levando Tocqueville a buscar novos campos de observação e testes para suas hipóteses acerca do chamado estado social democrático.

O grande desafio reflexivo de Tocqueville se encontrava profundamente interligado aos debates que moviam as principais mentes francesas naqueles anos. O problema das relações entre liberdade e igualdade era, assim, a razão precípua que fez o jovem pensador observar com afinco a então recente experiência democrática anglo-americana, estabelecendo, por seu turno, conexões pertinentes entre o contexto histórico europeu e a construção de governos democráticos no Velho Mundo. Em meio à tamanha ebulição política que sacudia a França naqueles anos, Tocqueville licenciou-se do cargo que ocupava por motivo de uma viagem à Nova Inglaterra. Queria ver in locum a experiência das antigas treze colônias, independentes desde 1776 e tão comentadas na Europa, e, quiçá, trazer aprendizados para o Velho Mundo que, em sua opinião, pouco avançara, depois de 1789, na solução do dilema liberdade-igualdade, assolador daquela que, segundo ele, era a marcha inelutável e providencial em direção ao estado democrático.

 

“Por toda parte se têm visto os diversos incidentes da vida dos povos resultando em proveito da democracia; todos os homens a auxiliam com seus esforços: aqueles que visavam concorrer para o seu triunfo, e aqueles que absolutamente não pensavam em servi-la, aqueles que por ela combateram e aqueles mesmos que se declararam seus inimigos; todos foram impelidos de tropel no mesmo caminho e todos trabalharam em comum, uns a seu pesar, outros sem o perceberem, cegos instrumentos nas mãos de Deus” (TOCQUEVILLE apud CHEVALLIER, 1973, p. 248-9).

 

Entre 1832 e 1834, esteve Alexis de Tocqueville entregue à tarefa de compor a primeira parte de A Democracia na América, obra-prima publicada em dois volumes no ano de 1835. A repercussão foi meteórica, sendo o livro logo traduzido para vários idiomas. Na França, o pensamento de Tocqueville ganhou destaque pela sofisticação, rigor e espírito imparcial. Esquerda e direita afirmaram suas filiações ao lado do pensador, ao passo que ele, desde logo, foi convidado a assentar-se nos principais postos da intelectualidade da época, especialmente entre seus pares aristocratas liberais (CHEVALLIER, 1973, p. 345).

Em 1840, fora publicada a segunda parte do livro, que custou mais cinco anos de trabalho árduo ao autor. Não obteve, contudo, o mesmo impacto de originalidade que a primeira parte de 1835. Esta segunda parte era mais abstrata; trazia aos olhos menos treinados poucas aplicações práticas e muitas ideias gerais, o que desagradou o público. Em 1840, ficara claro que o grande interesse de Alexis de Tocqueville não eram os Estados Unidos, mas sim a democracia. A experiência anglo-americana era apenas a moldura de uma tela muito mais complexa. Era o governo dos povos que interessava ao autor compreender seus códigos (CHEVALLIER, 1973, p. 247).

Tocqueville foi um observador atento do contexto histórico no qual viveu e, embora um aristocrata, sabia que o mundo estamental e juridicamente hierarquizado de outrora, aquele ao qual pertencia sua nobre linhagem e que presenciara apenas os últimos suspiros, estava definitivamente sepultado. Por isso mesmo, seria um simplismo horrendo considerá-lo um fidalgo nostálgico. Entretanto, não se agradava daquilo que fora posto em lugar do antigo estado social aristocrático. Perturbava-se na reflexão acerca das novas formas de governar e de exercer a jovem experiência cidadã, verdadeiras novidades emergidas da crítica à “razão de Estado” no Antigo Regime, mas obstruídas na democracia por uma igualdade feita a expensas da liberdade (KOSELLECK, 1990; RIBEIRO in WEFFORT, 2011).

 

Eugene de la Croix, A liberdade guiando o povo, 1830.

Aliás, a despeito de reconhecer o “desenvolvimento gradual da igualdade das condições” como “um fato providencial” de caráter universal e duradouro, considerava, por outro lado, que esse valor primaz da democracia havia sido erigido tendo por fundamento o assalto ao exercício da liberdade dos indivíduos. Citando Tocqueville, Jean-Jacques Chevallier afirma que a crítica tenaz do pensador francês apontava que:

 

“A realidade é que a democracia foi abandonada a seus instintos selvagens, crescendo como essas crianças órfãs, “que se educam por si mesmas nas ruas de nossas cidades e que, da sociedade, só conhecem os vícios e as misérias”. Medida alguma se adotou para lhe corrigir os vícios, para remediar os males que acarreta, para ressaltar as suas vantagens naturais, dela obtendo todo o gênero de bem que pode produzir. Por toda parte se vê estranha confusão, tanto intelectual e moral quanto material” (CHEVALLIER, 1973, p. 250).

 

Liberal heterodoxo e sofisticado, Alexis de Tocqueville reconhecia que o curso da história havia mudado radicalmente naqueles últimos tempos, e muito mais estava por acontecer. Identificava neste cenário uma realidade providencial. Desígnio divino, porém, jamais um determinismo cego, ao qual, inclusive, combatera peremptoriamente em suas críticas à historiografia democrática, que, segundo ele, reservara pouco lugar à livre ação do indivíduo, inebriada que estava pelo espetáculo das massas (JASMIN, s/d, p. 27ss). Religioso, Tocqueville via a efetiva vontade de Deus na marcha histórica que faria os homens iguais entre si, porém, apegava-se à ideia de que o livre arbítrio, igualmente um princípio divino, poderia conduzir a humanidade tanto por caminhos inesperados quanto por escolhas planejadas. Se, por um lado, Tocqueville parece admitir o providencialismo na história, “guarda-se, contudo, de cair em uma concepção fatalista ou teleológica”, reconhecendo que “o campo do possível é bem mais vasto do que imaginam os homens […]” (FLORENZANO, 1991, p. 128, 131).

Embora ressaltasse o valor das épocas aristocráticas, sobretudo no tocante à preservação da liberdade[1] e ao combate ao individualismo, mau político e social caro ao estado democrático, Tocqueville reconhecia a inevitabilidade da substituição das sociedades hierárquicas pelas de cunho igualitário. No entanto, lamentava que a sociedade democrática possuísse como grande marca o individualismo, fenômeno típico da modernidade e que decorreria das condições objetivas da existência social democrática, cuja principal consequência era a corrosão de uma experiência cívica coletiva. Analisando o pensamento tocquevilleano, Marcelo Jasmin foi preciso ao avaliar esse impasse entre o criado e o sepultado na experiência política do século XVIII:

 

“Uma vez destruídos a hierarquia e seus lugares estamentais, a unidade do corpo social se fragmenta numa pluralidade de indivíduos independentes entre si e que, em última instância, só contam consigo mesmos em todos os aspectos de sua vida […]. O abandono da ‘grande sociedade’ implica o progressivo afastamento dos homens em relações aos negócios comuns, fazendo-os voltar-se exclusivamente para seus negócios privados […]. o resultado da fragmentação social decorrente do individualismo é a privatização das relações e a progressiva indiferença cívica” (JASMIN, s/d, p. 5)

 

A respeito da emergência dos liberalismos como consequência do desencantamento geral perante as velhas concepções do Antigo Regime, é Roger Chartier quem dá-nos interessante depoimento de um coevo, Jacques-Louis Ménétra, vidraceiro de profissão mas também editor de revista à época do rejeitado Luís XV. Ménétre, que não era propriamente um antimonarquista, revelou um incômodo corrente entre seus contemporâneos: “Jamais gostei de sofrer qualquer tipo de impedimento, muito menos de perder a minha liberdade” (CHARTIER, 2009, p. 188). Era um tempo em que a ação política individual, governada pela defesa dos próprios interesses, ganhava terreno sobre as tradicionais formas de associação baseadas nos compromissos e impedimentos feudais e no espírito comunal. Ainda que olhando para o passado aristocrático e reconhecendo nele até a presença de uma experiência cidadã e mais assertiva que àquela dos grandes centros urbanos convulsionados da passagem para o Oitocentos, a concepção de história presente em Tocqueville é absolutamente moderna. Sua preocupação é encontrar uma síntese que consiga superar os vícios de uma democracia largada ao seu estado selvagem e ao individualismo, equalizando o dilema liberdade-igualdade.

 

Neste sentido, há no pensamento de Tocqueville uma ideia-força e uma convicção ética. Sua ideia-força é a noção de que a história caminha irresistivelmente para a igualdade de condições, em direitura da democracia. Por sua vez, ele expressa uma convicção ético-moral, igualmente relevante na compreensão de seu pensamento, qual seja: o entendimento de que os homens são dotados de livre-arbítrio. Essas duas chaves-explicativas da concepção tocquevilleana da história foram aplicadas quando o autor avaliou a Revolução de 1848, em Souvenirs (c.1850), indicando que seu processo teve um sentido com causas gerais, inscrevendo-se na esfera da necessidade e da inevitabilidade, mas, simultaneamente, foi marcado pelo acaso e pela imprevisão, o que revelaria a preservação da ação e liberdade humanas no curso da história (FLORENZANO, 1991, p. 130).

Observador atento e participante dos eventos grandiosos que se desenrolavam em sua época, Tocqueville deixou clara a superação de uma filosofia da história cíclica e sobrenatural. O seu horizonte temporal é moderno, progressivo e baseado na imprevisibilidade do tempo vindouro. A ação humana é o seu material de trabalho, ainda que não abandone de vez uma ideia de providência deverás laicizada. Ao lançar seu olhar para a Revolução de 1789, lembrou que, “[…] De início, eles [os soberanos] a consideram tão somente como uma dessas doenças periódicas às quais a constituição de todos os povos está sujeita […]”. Sendo assim, os príncipes e monarcas “preparam-se para quase tudo, exceto para o que vai ocorrer” (TOCQUEVILLE, [1856], 2009, p. 3-4). Endossa sua constatação dizendo,

 

“[…] O que para os príncipes da Europa e os estadistas inicialmente parecera um acidente comum da vida dos povos parece um fato tão novo e mesmo tão contrário a tudo o que acontecera anteriormente no mundo, e no entanto tão geral, tão gigantesco, tão incompreensível que ao vê-lo o espírito humano fica como que desnorteado” (TOCQUEVILLE, [1856], 2009, p. 5-6).

 

No instante em que Tocqueville escrevia essas palavras, o próprio conceito de revolução sofria mudanças dramáticas, acompanhando a emergência de um novo horizonte de expectativas, pois, como notou brilhantemente Reinhart Koselleck (2006, p. 69), “A revolução, com certeza, não mais conduz de volta a situações anteriores; a partir de 1789, ela conduz a um futuro a tal ponto desconhecido, que conhecê-lo e dominá-lo tornou-se uma contínua tarefa da política”.  A experiência histórica de 1750-1850 proporcionou a migração semântica do conceito “revolução” de seu sentido inicial, que indicava o movimento de retrocesso e/ou retorno (o movimento de “revolução” dos astros, p.e.), para outro, completamente distinto, sinalizando a mudança, o novo, a evolução (KOSELLECK, 2006, p. 64). A princípio, tratava-se de uma expressão associada à natureza, seus ritmos circulares, não obstante, o século XVIII inaugurou um sentido político para o conceito de revolução, a ser aplicado, “por meio de um processo metafórico consciente, a acontecimentos a longo prazo ou a eventos políticos especialmente repentinos, comoções” (Koselleck, 2006, p. 66).

Ainda que admitisse a constante vontade divina no decorrer dos acontecimentos de seu século, Tocqueville sabia que aquela era uma obra dos homens que perseguiam a igualdade como que a uma “paixão ardente, insaciável, eterna, invencível” (TOCQUEVILLE apud CHEVALLIER, 1973: 255). Sua decepção era que, buscada a qualquer preço, sua época desejava a igualdade na liberdade, mas, se não pudessem obtê-la, ainda a queriam na escravidão. A emergência da modernidade e a consequente desagregação do Ancié Règime foram retratadas na pena de Alexis de Tocqueville com precisão cirúrgica. Muitos dos dilemas de seu tempo, em especial a dupla igualdade-liberdade, continuam insolúveis. Ademais, em tempos de crise e de ameaça geral ao valor da liberdade, conquistado à duríssimas penas, reler clássicos como Tocqueville torna-se um exercício urgente.

 

[1] “Atribuem-me paixões e tenho somente opiniões; ou melhor, tenho uma paixão apenas, o amor da liberdade, e da dignidade humana. A meus olhos, todas as formas governamentais são exclusivamente meios, mais ou menos perfeitos, de satisfazer a esta santa e legítima paixão do homem” (TOCQUEVILLE apud CHEVALLIER, 1973: 254).

 

Bibliografia

CHARTIER, Roger. As origens culturais da Revolução Francesa. Trad. George Schlesinger. São Paulo: Editora da Unesp, 2009.

CHEVALLIER, Jean-Jacques. As grandes obras políticas: de Maquiavel a nossos dias. Tradução de Lydia Christina. 3ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1973.

FLORENZANO, Modesto. “Liberdade e Necessidade na Concepção de História de Tocqueville”. In.: BRESCIANI, Maria Stella; SAMARA, Eni de Mesquita & LEWKOWICZ, Ida (orgs.). Jogos da Política: imagens, representações e práticas. São Paulo: ANPUH/São Paulo, Marco Zero, FAPESP, 1991.

KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Trad. Luciana Villas-Boas Castelo Branco. Rio de Janeiro: EDUERJ, Contraponto, 1999.

_________, Reinhart. Futuro-passado: contribuição à semântica dos tempos modernos. Trad. Wilma Patrícia Maas e Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, Contraponto, 2006.

JASMIN, Marcelo Gantus. Despotismo e História na obra de Alexis de Tocqueville. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, s/d. Texto disponível em www.iea.usp.br/artigos

RIBEIRO, Renato Janine. Hobbes: o medo e a esperança. IN.: WEFFORT, Francisco C. Os clássicos da política. 14ª ed. São Paulo: Ática, 2011.

TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América (Fragmentos). Disponível em www.clubedolivroliberal.com.br

______________, Alexis de. Souvenirs. Paris: Gallimard, 1964.

______________, Alexis de. O Antigo Regime e a Revolução. Organizado por J. P. Mayer. Tradução Rosemay Costhek Abílio. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2007.

 

A FORMAÇÃO DA COMPANHIA DE JESUS E A TRAJETÓRIA DE INÁCIO DE LOYOLA: ANÁLISE DA BIBLIOGRAFIA INSTITUCIONAL

Os estudos que abordam a trajetória do padre espanhol Inácio de Loyola possuem uma característica memorialista e foram recuperadas a partir de fontes disponíveis nos arquivos eclesiásticos. A Autobiografia de Inácio de Loyola resume o importante legado, destacando, propositadamente, seu desempenho como um dos principais articuladores da Companhia de Jesus, em 27 de setembro de 1540[1]. O Papa Paulo III, por sua vez, também considerou através da bula Regimini Militantis Ecclesiae, a importância da organização jesuítica como plataforma estratégica que projetaria a catequização em escala global num contexto de reação do catolicismo diante da Reforma Luterana[2].

Registros de violação à dignidade humana: algumas considerações.

No dia 14 de abril de 2018, recebi o convite do professor Airton Pereira para participar das homenagens que seriam prestadas ao Frei Henri Burin Des Roziers (18/2/1930 –26/11/2017) no município de Xinguara-PA, distante de Marabá cerca de 245 km. Falou-me que seria um momento importante, por dois motivos. O primeiro seria o lançamento do livro Apaixonado por Justiça (2018) sobre Frei Henri, o qual é composto de entrevistas do frei acerca de sua trajetória e sua luta pelos direitos humanos no tocante ao uso e à ocupação da terra no Sul e Sudeste do Pará.