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Entre rios e fronteiras

Fragmentos de um arquivo fotográfico: trilhas de uma pesquisa na Comissão Pastoral da Terra-Marabá-PA

Fragmentos de um arquivo fotográfico: trilhas de uma pesquisa na Comissão Pastoral da Terra-Marabá-PA

Geovanni  Cabral

Arquivo Fotográfico- CPT- Marabá-PA

Nos últimos meses, venho desenvolvendo uma pesquisa na Comissão Pastoral da Terra (CPT), tendo como foco as fotografias dos movimentos sociais e dos conflitos pelo uso e ocupação da terra em Marabá-PA e cidades vizinhas. Tal imersão nesse acervo documental partiu de um projeto apresentado à Faculdade de História da Unifesspa, denominado “Ensino de História, fotografias e movimentos sociais: o arquivo da Comissão Pastoral da Terra CPT-Marabá. A pesquisa teve como um de seus objetivos reunir essas imagens mediante sua diversidade temática, possibilitando, dessa forma, seu uso e sua problematização nas aulas de História, associando ensino de História, fotografia e memória.

Percorrer os arquivos fotográficos da CPT foi algo bastante desafiador. Questionava-me sobre que registro imagético iria encontrar acerca dessa região, tendo em vista os inúmeros conflitos pela terra, assassinatos, desapropriações e desmatamentos. Como essas fotografias estariam organizadas e quem as produziu? Que “tempo congelado” estava nos álbuns fotográficos acerca da cidade, que poderia ser utilizado nas aulas de História? Aos poucos, fui me aproximando desses arquivos, como um arqueólogo diante de suas escavações.

Mobilização e campanha pela Reforma Agrária em 1987. Arquivo CPT- Marabá-PA

Chegando à CPT, fui bem recebido por Iranete e José Batista, aos quais já havia sido apresentado em uma das visitas à Pastoral. Estava ansioso para poder escrever, anotar e fotografar; registrar cada detalhe, cada vestígio que pudesse encontrar. Aos poucos, o silêncio se fez presente, uma luz branca insidia sobre a mesa, as fotografias se espalhavam sobre a mesa. Olhos fitos diante das informações, das memórias, das representações construídas em temporalidades distintas. Como historiador, comecei o trabalho sistemático, registrando e contando as fotos, verificando temáticas que se aproximavam ou distanciavam. Era o início de um longo percurso nesses arquivos; a dinâmica da cidade, a luta dos trabalhadores, as práticas sociais seguiam diante de meus olhos, fazendo-me relembrar de cenas do filme Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore de 1990, em que um garoto se divertia com os fragmentos de películas de filmes italianos.

O acervo fotográfico da CPT é composto por vários álbuns e envelopes que se distribuem por diversidade temática e ano de produção. Em muitos, serão encontradas etiquetas que direcionam o historiador, apontam o caminho para os movimentos e conflitos agrários. Em outros álbuns, não se tem o caminho, o direcionamento das imagens, o que é próprio da natureza de um arquivo que se insere na desordem de sua localização, aguçando a curiosidade em suas pastas. Mas, tal fato não foi impeditivo, muito pelo contrário, suscitou novas experiências investigativas.

Que fotografias foram encontras, a princípio, nos álbuns da CPT? Que representações da cidade de Marabá ou de seu entorno foram localizadas? Não irei, aqui, descrever todas as fotografias encontradas, pois, fugiria de meu objetivo que é relatar esse percurso de encontro, olhares e leituras. Farei isso em outro momento especificamente. A princípio, as fotografias que se apresentavam em minha frente registravam a romaria de libertação, a luta pela reforma agrária, a ocupação de terra, o movimento de trabalhadores pela posse da terra, o desmatamento, os inúmeros assassinatos e massacres, os conflitos com a polícia, o encontro de mulheres em diversas ações, os projetos em assentamentos, o registro do cotidiano de homens e mulheres em acampamentos, assentamentos e conflitos.

Posseiros de Pedra Lisa – Eldorado dos Carajás Arquivo CPT- Marabá-PA

Essa diversidade temática permite pensar, refletir e problematizar acerca da região e de suas fronteiras. Seus desafios frente ao homem do campo, à exploração do trabalho escravo, à memória de homens e mulheres, à luta entre o posseiro e o sem-terra. Nas fotografias desses arquivos, encontraram-se as memórias e os cenários de desrespeitos, a negação dos direitos humanos e a violação da vida e da terra. Nessas imagens, foram encontrados registros efêmeros das práticas cotidianas da luta pela terra no sul e sudeste do Pará, envoltos em intenções de produção, cenários, ideologias e mensagens. Contudo, encontrou-se uma fonte documental que, ao ser analisada em sua especificidade histórica de produção, possibilitou conhecer esse tempo passado e presente que se constituem nos cenários fotográficos.

Despejo de família em assentamento. Arquivo CPT- Marabá-PA

A fotografia tem uma história e, partindo desse ponto, sabe-se que sua criação é permeada por uma produção e recepção. Sendo uma realidade construída, está associada a elementos estéticos, comunicativos, políticos e intencionais. Sua análise permite caminhar entre o antes, o durante e o depois de sua produção e materialização. É o lado humano que capta e registra esse tempo, escolhe o melhor ângulo, compõe cenários e fotografa o que deseja e, também, o acaso. Analisando as fotografias da CPT, é possível deparar-se com essas questões que envolvem o universo de sua produção, da questão autoral, do registro preciso no momento do despejo e do corpo estirado no chão, mas também daquela foto que capta os anônimos, os cenários não escolhidos, os instantes silenciados.

A pesquisa continua; os desafios também, diante dessa leitura do tempo congelado, representado. A princípio, meu objetivo era mostrar na disciplina de prática continuada a importância desse acervo para problematizar os conflitos agrários na região, tendo como fonte o uso dessas fotografias e atentando para o fato de que essas imagens são representações de uma realidade e não verdades históricas, como muitos acreditam ser a fotografia, o testemunho do real, tal qual aconteceu. Analisar criticamente tal fonte permite caminhar por esse universo de produção, tecnologia e intenções. Levar essas fontes documentais para a sala de aula, inserir em atividades pedagógicas, fazer comparações entre registros diferentes de tempo, a meu ver, constituem algo de suma importância, principalmente para o ensino fundamental e médio que se veem inseridos nessa efemeridade imagética.

Desmatamento e transporte da madeira. Arquivo CPT- Marabá-PA.

Compreender a luta pela terra no sul e sudeste do Pará por meio desses registros possibilita aos estudantes uma maior compreensão da sua região, da sua história que nem sempre é contada nos livros e materiais didáticos. Muitas dessas histórias de lutas e enfrentamentos são silenciadas, esquecidas e negadas. Quantas narrativas se perderam nas águas e margens dos rios Itacaúnas e Tocantins? Contudo, quantos registros orais e imagéticos permanecem resistindo ao tempo e à memória? Sabe-se das lágrimas que ficaram congeladas na face de mulheres e homens, dos olhares tristes diante da fome, do abandono do estado e das políticas públicas, dos “gritos” das árvores ao serem ceifadas, das crianças sem esperança. Porém, encontra-se também o registro do sorriso, do trabalho honesto e da luta pela sobrevivência nas lavouras e na floresta.

Diversidade de Verdade

Diversidade de Verdade

Maria Clara Sampaio

Mural Unifesspa- Campus III

 

No primeiro dia do mês de fevereiro de 2018, vejo pelo facebook que uma aluna da Faculdade de Direito (Fadir) da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), comemorava o registro da Associação dos Discentes Indígenas e Quilombolas da Unifesspa (Adiqui). Nas imagens, por trás do sorriso dela e de cerca de uma centena de “curtidas”, existe uma história de solidariedade e de lutas.

Esta aluna da Fadir, proveniente de uma comunidade quilombola, havia cursado a disciplina de História do Direito, que ministrei logo que cheguei em Marabá-PA. Para além dela, tive a oportunidade de ver em minha sala de aula outros estudantes indígenas e quilombolas. Logo, muitos desses estudantes se tornaram meus amigos e me incluíram em seus processos de luta pela permanência na universidade.

Os desafios acadêmicos para estudantes quilombolas e indígenas, depois compreendi melhor, transcendiam aquelas dificuldades comuns que as novas gerações de universitários enfrentam. Os estudantes indígenas com os quais tive contato na Unifesspa nasceram e se criaram falando suas línguas e, frequentemente, dominam também outras línguas indígenas. Falar português, portanto, envolve necessariamente aprender uma segunda ou uma terceira língua. Mais que uma língua diferente, aprender o português é aprender um modo de pensar e de ver o mundo que é sempre muito diverso daquelas realidades das quais esses jovens fazem parte.

A experiência da universidade, para qualquer calouro ou caloura, prescinde sempre de um enorme esforço de adaptação a diferentes regras. A linguagem acadêmica e a configuração da transmissão – e da construção – de conhecimento requer de todos os graduandos e graduandas empenho para se aclimatarem às novas linguagens e modos de refletir. Mas, para os estudantes indígenas o aprendizado na universidade envolve, muitas vezes, negar algumas de suas formas de pensar e de interagir. Coisas muito cotidianas para a maioria dos universitários e universitárias são percebidas como contraditórias àquelas práticas culturais das quais indígenas e quilombolas vieram. Na universidade e na cultura acadêmica o que vale é a palavra escrita, enquanto em comunidades indígenas e quilombolas a palavra falada fundamenta muitas das trocas sociais. Nessas comunidades, a valorização da oralidade na transmissão de valores e conhecimentos faz parte de uma cosmovisão que é continuamente refutada pela forma como classificamos os saberes no universo acadêmico. A menor importância que se dá, portanto, à palavra falada, em detrimento da palavra escrita, seja talvez um dos desafios iniciais mais importantes que esses estudantes precisam vencer.

Para além dos desafios impostos por uma cultura acadêmica que comumente contradiz os saberes de suas comunidades de origem, os discentes quilombolas e indígenas da Unifesspa iniciam suas experiências universitárias sempre distantes de suas famílias e comunidades. O registro oficial da Adiqui, assim, representa uma história de redes de solidariedade que esses alunos e alunas vêm formando para se inserirem no mundo universitário não apenas como indivíduos, mas como parte de uma comunidade que eles sempre sentem que devem representar.

Ministrar aulas para estudantes indígenas e quilombolas, assim, envolve a necessidade de se refletir sobre uma miríade de questões. Há a questão do português não ser a primeira língua; há a atribuição de diferentes valores para a palavra falada e há a realidade da forma como muitos desses estudantes cursaram o ensino básico, dentre outros tantos fatores. Diferentes estudantes já me relataram que os professores do ensino básico, que vinham até suas comunidades o faziam sempre em processos concentrados no tempo. O professor de matemática, por exemplo, expunha todos os conteúdos de um ano letivo inteiro no mês que ele passava naquela comunidade. Assim, outros professores iam e vinham concentrando seus conteúdos em espaços curtos de tempo. Muito da apropriação do conhecimento escolar por parte de crianças e adolescentes se dá no exercício e no uso cotidiano daqueles conteúdos e saberes. Dentre os discentes indígenas e quilombolas com os quais pude conversar, muitos são advindos desse tipo de educação básica que raramente contribui para a adaptação deles ao ambiente universitário.

A Adiqui, assim, nasceu da comunhão de experiências sociais de exclusão que concorriam para que muitos dos discentes indígenas e quilombolas se sentissem pressionados a abandonar suas graduações. A luta da Adiqui contra a evasão envolveu, envolve e envolverá iniciativas que auxiliem indígenas e quilombolas a desenvolverem suas aptidões com maior facilidade.

Certa vez, perguntei à mesma aluna quilombola a qual me referi no início deste texto a razão pela qual ela havia escolhido o curso de Direito. Julguei, naquele momento, que as aptidões daquela aluna talvez fossem melhor aproveitadas em cursos como o de História ou o de Ciência Sociais. Ela me respondeu que a comunidade dela precisava de advogados e advogadas que pudessem defender seus interesses. Sua justificativa veio sem nenhum pesar, foi-me transmitida com um agudo senso de orgulho. Até a escolha dos cursos de graduação, para alunos indígenas e quilombolas, respeitam lógicas diferentes daquelas lógicas por trás da maior parte dos estudantes que buscam a universidade. As contribuições que esses jovens oferecem durante às aulas, portanto, dialogam como vivências bastante diferentes daquelas da maioria dos estudantes universitários. E apenas a verdadeira diversidade de vivências pode tornar as trocas da sala de aula libertadoras para professores, professoras, alunos e alunas.

 

Violência no campo, sul e sudeste do Pará

Fonte: MST. Data: 14/12/2017.

Violência no campo, sul e sudeste do Pará

Airton Pereira

No sul e sudeste do Pará, na Amazônia oriental brasileira, a problemática da violência tem sido uma prática recorrente no campo nos últimos quarenta anos. À medida que fazendeiros  e empresários do Centro-Sul do Brasil passaram a adquirir grandes extensões de terras, nessa parte do território amazônico, a partir do final da década de 1960, com apoio político e financeiro do Estado, povos indígenas e camponeses passaram a ser diretamente impactados.

O Governo do Pará e o Governo Federal venderam, a preços muito baixos, enormes extensões terras para a iniciativa privada e a conceder-lhes créditos subsidiados e incentivos fiscais para que fossem implantadas fazendas para a criação de gado bovino. Empresas como o Bradesco, o Bamerindus, a Nixdorf, a Volkswagem, a Andrade Gutierrez, entre outras, adquiriram terras e recursos para criar bois. Mas, famílias tradicionalmente proprietárias em Minas Gerais, em São Paulo e no Paraná também adquiriram terras nessa parte da Amazônia. Os Lanari do Val e os Quagliato, por exemplo, conseguiram enormes extensões de terras. Enquanto os Quagliato passaram a deter cerca de 160 mil hectares de terras, João Lanari do Val, se apropriou de 80 lotes de 4.356 hectares cada, totalizando 348.480 hectares, formando, assim, a Companhia Mata Geral (PEREIRA, 2015).

Só para se ter uma ideia, dos 1.199 projetos aprovados pela Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), para serem implementados nos anos que transcorreram entre 1975 e 1989, no estado do Pará, por exemplo, 638 eram destinados à criação de gado (IDESP, 1990). Em 1980, 59 áreas com projetos agropecuários destinados, prioritariamente, à criação de gado bovino, implantados com recursos da SUDAM, num valor de dois bilhões de cruzeiros, no sul do Pará, já ocupavam 4,5 milhões de hectares de terras, mais do dobro da área do estado de Sergipe (PINTO, 1982).

Como consequência desse processo desencadearam os intensos e violentos conflitos pela posse da terra. Os povos indígenas como os Kayapó, os Xikrin, os Karajá, Kýikatêjê, Parkatêjê, Akrãtikatêjê, Suruí Aikewara, Parakanã, etc. não só perderam parte de seus territórios, mas viram reduzir a sua população em razão dos assassinatos e das doenças como a gripe, o sarampo entre outras. Por outro lado, milhares de camponeses também foram expulsos de suas terras e assassinados ou submetidos à prática de trabalho escravo. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre 1970 e 2017, cerca de 990 trabalhadores rurais foram assassinados no estado do Pará em razão da problemática em torno da terra. Entre esses assassinatos estão diversos casos dos massacres, na maioria das vezes praticados com alto requinte de crueldade. Entre 1985 e 2017, segundo os dados da CPT, ocorreram 45 massacres no Brasil, sendo que 8, com 34 vítimas, aconteceram no Centro-Sul do Brasil e 37 casos, com 180 vítimas, sucederam-se na Amazônia. Só em 2017, ocorreram três grandes massacres de trabalhadores rurais na Amazônia: Pau D´Arco, no Pará (10 mortos), Colniza, no Mato Grosso (9 mortos), e Vilhena, em Rondônia (3 mortos). O Pará é o estado com o maior índice de massacres registrados pela CPT, contabilizando 26 casos, com 125 vítimas. Em 2016 ocorreram seis assassinatos no Pará. Em 2017, foram 21, com aumento de 350% em relação a 2016.

Mas o recrudescimento dos conflitos por terra e da violência no campo, na Amazônia brasileira, nos últimos anos pode estar relacionado diretamente com o recuo da política de reforma agrária pelo Governo Federal e ascendência das forças conservadoras no campo a partir de meados de 2016. Talvez, mais do que em qualquer outra época, o governo central tem procurado satisfazer os interesses dos grandes proprietários e empresários rurais como ficou latente nos acordos que a presidência da república estabeleceu com a bancada ruralista do congresso nacional quando procurou escapar das acusações de prática de corrupção. Ou seja, o que temos presenciado é uma ofensiva política no campo com a retirada de direitos dos trabalhadores rurais, de quilombolas e de povos indígenas indo da alteração na Constituição Federal ao desmonte do Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA), do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e da Ouvidoria Agrária Nacional. São órgãos que, embora existindo oficialmente, perderam a capacidade de intervir no campo e realizar uma reforma agrária efetiva e popular.

Porém a manutenção da grande propriedade da terra pode significar também a manutenção do status e do prestígio social e político do grande produtor rural no Brasil. Ou seja, a propriedade privada da terra aparece aos olhos dos grandes proprietários como direito incontestável, eterno e absoluto, sendo uma forma segura de se criar riqueza e obter reconhecimento político e prestígio social.

No sul e sudeste paraense, a emergência dos trabalhadores rurais, com as suas reivindicações, colocando-se na cena pública como iguais, como portadores de direitos, implica que os proprietários de terras tenham que aceitar outro interlocutor, isto é, os trabalhadores rurais. Significa dizer que eles têm de reconhecer um “outro”, abrir espaço para a negociação e colocar em “risco” esses privilégios e a capacidade de mando que se assenta sobre a propriedade da terra. Contrapor às ocupações e às desapropriações de seus imóveis é, de certa forma, uma das maneiras que os latifundiários têm de assegurar os seus privilégios e o status social e político na região. Nesse sentido, não têm bastado os constantes despejos de trabalhadores rurais sem-terra, anos a fio, praticados pela Polícia Militar (PM), às vezes secundados por pistoleiros e, muitas vezes, de maneira ilegal e abusiva. Em 2017, mais de 2.000 famílias de trabalhadores sem-terra (cerca de 8 mil pessoas entre homens, mulheres e crianças) foram despejadas pela PM na região. Muitas casas, escolas, depósitos de cereais e plantações foram totalmente destruídos. Com o despejo, as famílias ficaram ao relento e privadas de sua principal fonte de produção de alimentos, que é a terra, e os seus filhos, em alguns casos, acabaram perdendo o ano letivo.

Fonte: MST. Data: 14/12/2017.

O sul e o sudeste do Pará são também duas das regiões com maior incidência de trabalho escravo. Estamos em pleno século XXI e temos ainda que conviver com essa prática vergonhosa, desumana, antiética e imoral. Essa prática é uma lesão à sociedade e uma vergonha para o País. Como podemos aceitar esta prática em duas das regiões mais rica do Estado? Segundo os dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre 1995 e 2017, 52.455 trabalhadores escravizados foram libertados no Brasil. Destes, 13.175 foram no estado do Pará (25,1%). Em 2017, de acordo com a CPT, 73 trabalhadores foram libertados da escravidão no Pará.  57, destes 73 trabalhadores, estavam submetidos aos trabalhos forçados e degradantes em fazendas de criação de bois no sul e sudeste do estado.

O que se percebe é que grandes fazendeiros que negociam diariamente as suas ações nas bolsas de valores no Brasil e no exterior, que utilizam da alta tecnologia na produção e reprodução de seu rebanho e são defensores da competitividade, utilizam-se da violência e de um dos métodos mais arcaicos para aumentar o seu lucro, que é o trabalho escravo. Há uma simbiose entre o novo e o velho. As designações latifundiários e empresários são complementares, não opostas, porque ambas inscrevem-se em um mesmo espaço de referências e de significações; englobam a improdutividade, o trabalho escravo, o crime ambiental, a violência e o lucro. São práticas que se instituem onde velhas e novas formas de dominação convivem sem maiores escrúpulos. Conforme Regina Bruno (2002), podemos de certa forma afirmar que atrás do agronegócio esconde-se o latifundiário; atrás do banqueiro e da indústria organiza-se os sindicatos de produtores; atrás das sociedades anônimas decidem os clãs familiares; atrás do rei do gado flagra-se o pistoleiro. Atrás do discurso moderno dissimila o conservador.

 

Referências

COMISSÃO PASTORAL DA TERRA – CPT/CAMPANHA NACIONAL DE PREVENÇÃO E COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO. Estatística 2017. CPT: 2017.

BRUNO, Regina Ângela Landin. O ovo da serpente. Monopólio da terra e violência na Nova República. Campinas: UNICAMP, 2002. 316 p. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Universidade Estadual de Campinas, 2002.

INSTITUTO DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO-SOCIAL DO PARÁ – IDESP. Estatísticas Especiais: Produto Interno Bruto do Estado do Pará: 1975-1987. Belém: IDESP, 1990

PEREIRA, Airton dos Reis. Do posseiro ao sem-terra: a luta pela terra no sul e sudeste do Pará. Recife: Editora UFPE, 2015.

PINTO, Lúcio Flávio. Conflitos de terras no Sul do Pará. Reforma Agrária, Campinas, v. 12, nº 02, março/abril, 1982, p. 03-12.

 

Entre Judith Butler, Angela Davis e Dorothy Stang

O ambiente da Faculdade de História (FAHIST) da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) é um ambiente pequeno. Tratam-se de turmas de apenas quarenta estudantes, que entram uma vez por ano. Os primeiros alunos e alunas iniciaram seu curso em 2014, então só vão terminar as disciplinas e se formar ao longo do ano de 2018. A convivência, desta forma, entre discentes e docentes é talvez mais próxima que em outras faculdades e universidades. Não é incomum que os professores conheçam alunos e alunas pelos nomes e saibam, por vezes, os interesses de pesquisa de muitos. Diferente de outras universidades públicas – ou pelo menos da visão que se tem das mesmas – o perfil sócio-econômico de grande parte dos alunos e alunas da FAHIST não permitiria jamais que frequentassem cursos em instituições de ensino superior privadas.

Nesse ambiente, que às vezes parece quase íntimo, iniciei minha primeira experiência de docência em uma instituição pública, em 2016. Mal havia iniciado meu primeiro semestre, representantes do Centro Acadêmico Dina Teixeira me consultaram sobre a possiblidade de dar um treinamento em terminologia e questões feministas. Naquele momento eu era a única mulher do corpo docente da FAHIST. Atribuí o convite a esse fato. O encontro foi marcado para um sábado a tarde, algo que me pareceu ser um erro operacional, posto que imaginei que os estudantes iriam preferir aproveitar as praias de rios daquele início de verão (do verão amazônico, que engloba os meses de julho a setembro).

Fiquei bastante surpresa com a quantidade de alunos e alunas, que apareceram para me ouvir falar sobre feminismo num sábado de sol.  Admirei-me, ainda, quando percebi que estavam presentes quase todas as alunas que eu imaginava que não tinham obrigações familiares. Impressionei-me também com a quantidade de alunos. Enfim, foi uma tarde de surpresas agradáveis e de questões mais difíceis do que eu havia me preparado para responder. Eu já tinha iniciado as aulas há algumas semanas, mas esse “treinamento”, como chamaram, foi o que mais marcou o início da minha vida em Marabá. A partir daquela tarde, comecei a observar mais cuidadosamente aspectos do envolvimento político dos estudantes. Percebi rapidamente que um número grande deles se vinculava a diferentes movimentos sociais, como o Movimento Sem Terra, bem como outros movimentos camponeses do estado do Pará, e o Levante Popular da Juventude (ligado ao Partido Socialismo e Liberdade, PSOL). Grande parte dos alunos e alunas da FAHIST que são engajados politicamente se filiam a movimentos e idéias de esquerda.

Antes de ser professora de História das Américas no sul do Pará, quase toda a minha experiência docente tinha sido no contexto de universidades e faculdades privadas na cidade de São Paulo. Quase sempre atuando em cursos de Direito ou Comunicação. Minha trajetória, desde a primeira experiência em 2008, tinha envolvido debates acalourados sobre as questões de políticas afirmativas, por exemplo. Se, em 2008, grande parte de meus estudantes de direito eram contra qualquer tipo de cota (e muitas das alunas se sentiam desconfortáveis em se dizer feministas); em 2015, todas as minhas salas de Comunicação na FIAM-FAAM tinham alunas e alunos negros que a despeito de não participarem de qualquer programa de ação afirmativa, mostravam-me novas problemáticas sobre sua luta cotidiana contra o racismo e o machismo. Como mulher branca, em um espaço urbano privilegiado em São Paulo, aprendi especialmente com minhas alunas negras que se empoderavam, faziam suas transições capilares e desabrochavam suas lutas a cada semana de aula.

Desde 2014, o contato com muitas e numerosas turmas de estudantes me permitiram acompanhar os diferentes debates sociais. Esses debates, que iam se amplificando pelas redes sociais, culminaram nos movimentos que fez com que o ano de 2015 fosse proclamado o ano das mulheres na internet e o início da primavera feminina. Foi na companhia de muitas dessas alunas que pude fazer parte de passeatas feministas na Avenida Paulista, geograficamente muito próxima aos meus locais de trabalho e de residência.

Quando me mudei para Marabá-PA, eu vinha dessa experiência de imersão na primavera das mulheres que tomava minha vida cotidiana de assalto. Ainda não era possível saber como a primavera das mulheres tinha mudado as vidas das jovens universitárias para quem eu lecionaria no Pará, ou quais as especificidades do engajamento político nessa região do país. As questões feministas que mobilizava minhas alunas paulistas, que vinham, frequentemente de lugares sociais menos privilegiados, tinham dificuldades em acomodar sua mobilização política com os expedientes de seus empregos. A grande maioria delas precisavam de horas de deslocamento para frequentar as aulas e, obviamente, também prescindiam das mesmas horas para chegar as marchas de mulheres que pudessem por ventura participar fisicamente. Em suma, minhas alunas paulistas estavam mobilizadas politicamente e atualizadas nos últimos debates digitais de gênero. Proporcionalmente poucas, contudo, conseguiam participar dos centros acadêmicos, coletivos, ou das marchas da Avenida Paulista (ou da região do Centro de São Paulo, como foi o caso da Marcha das Mulheres Negras de 2016).

Quando cheguei ao campus da Unifesspa para oferecer o “treinamento” em questões feministas naquele sábado de sol, esperava apenas aquela minoria de alunos e alunas que se dedicam com mais afinco ao movimento estudantil nas universidades públicas. Encontrar a maior parte daqueles que frequentavam meus cursos regulares pareceu talvez algo “normal” de uma faculdade pequena. Qual não foi minha surpresa que para além de estarem atualizadas com as últimas terminologias, as alunas da Unifesspa, já tinham acumulado discussões profundas sobre ações afirmativas e queriam de mim outro tipo de contribuição. Queriam, por exemplo, explicações de apoio para ler a obra de Judith Butler. Queriam também saber o que eu tinha de traduções de Angela Davis para lhes emprestar. Estava dentre as minhas capacidades apenas ajudar na leitura da Judith Butler e, felizmente, em pouco tempo saíram as traduções de “Mulher, Raça e Classe” (2016) e “Mulheres, Cultura e Política” (2017) de Angela Davis. Mas sobre as lutas sociais do sul e sudeste do Pará eu sabia apenas o que tinha aprendido nas disciplinas de geografia agrária na Universidade de São Paulo (USP), no início dos anos 2000. Sobre as questões que marcavam as lutas das alunas da Unifesspa eu não sabia quase nada.

Até me mudar para Marabá, casos como o do massacre de Eldorado de Carajás (1996) ou o assassinato da freira estadunidense Dorothy Stang, em Anapu (2005), chegavam a mim pela cobertura da grande imprensa. A vida na mesorregião do sul do Pará, entretanto, mostrou-me que os assassinatos de camponeses acontecem cotidianamente e apenas alguns ganham cobertura nacional, como foi o caso do recente massacre de Pau D’Arco, em maio 2017. A precariedade do respeito aos direitos humanos, atinge diferentes grupos rurais e urbanos todos os dias, sem que se noticie quase nada em escala nacional. Ficamos sabendo pelos estudantes e colegas que militam e acompanham diferentes movimentos sociais. E as notícias sobre os assassinatos são mais frequentes do que eu jamais poderia antecipar.

Passados quase dois anos aqui, percebo que muito da ampla mobilização política dos estudantes da FAHIST é, por vezes, uma questão de necessidade. Nossos alunos e alunas estão sempre presentes nas passeatas (cruelmente longas, em estradas descampadas e sempre sob altas temperaturas). Estão também sempre entre os primeiros a unir suas vozes ao grito dos oprimidos, que marca o início das passeatas e alguns outros atos públicos. Um grande número deles utiliza as semanas de férias para participarem de vivências em diferentes assentamentos ligados ao Movimento Sem Terra. Outros muitos se vinculam ao Levante Popular da Juventude e frequentam seus encontros para discutir diferentes questões do atual momento político. Aqueles alunos e alunas que não se identificam com as agendas políticas de movimentos já consolidados, fundam ou participam de coletivos feministas ou ligados às questões LGBT.

Nesse breve período vivendo em Marabá, testemunhei alunos e alunas da FAHIST participarem e liderarem ocupações e greves contra o atual desmonte do estado. Percebo, atualmente, que não estão mobilizados politicamente apenas porque escolheram o curso de história, mas por que enxergam a mobilização política como uma das poucas alternativas mudança ou mesmo de manutenção de alguns dos poucos ganhos políticos recentes. Em uma região cuja presença do estado se dá frequentemente apenas pela via da violência, a vinculação aos movimentos sociais pode ser uma alternativa de sobrevivência.

 

Henri Burin des Roziers, padre e advogado defensor dos Direitos Humanos

Henri Burin des Roziers, padre e advogado defensor dos Direitos Humanos

Airton dos Reis Pereira

No domingo, dia 26 de novembro, recebi uma mensagem do frei Xavier Plassat, Coordenador da Campanha Nacional de Prevenção e Combate ao Trabalho Escravo, da Comissão Pastoral da (CPT) comunicando o falecimento súbito de Frei Henri Burin des Roziers, em Paris. Com o coração apertado não contive as lágrimas. Mesmo sabendo que ele estava com saúde frágil, a esperança era que ele se recuperasse e voltasse ao Brasil para continuar fazendo o seu trabalho na defesa dos camponeses e camponesas do sul do Pará.

Foto: Arquivo de Ricardo Rezende Figueira

Quem o encontrasse pela primeira vez não poderia imaginar que um padre francês de estatura média, 87 anos, cabelos brancos, sotaque carregado, andar calmo, sorrisos nos lábios e brincalhão, não fosse tão odiado por muitos fazendeiros e amado pelos camponeses no sul do Pará. Não por acaso que muitos o conhecia como o “advogado dos pobres”. Henri des Roziers era um frade dominicano (Ordem dos Frades Pregadores fundada por Domingos de Gusmão, de Caleruega, Espanha, em 1215). Residiu por 22 anos no sul do Pará (cidades de Rio Maria e Xinguara), onde, como advogado da Comissão Pastoral da Terra, se dedicou à causa dos direitos humanos. Filho da alta aristocracia francesa, nasceu em 18 de fevereiro de 1930 na cidade de Paris. Embora muito pequeno acompanhou de perto a participação de sua família no movimento de resistência ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial. Seu tio Etienne Burin des Roziers, grande amigo de Michel Foucault, foi um dos grandes ativistas do movimento de resistência, sendo mais tarde secretário de governo de Charles de Gaulle e embaixador em Varsóvia e em Roma.

Entre 1954 e 1956, Herni des Rozier foi subtenente das Forças Armadas Francesa na África. Serviu como mensageiro na Tunísia, Marrocos e Argélia, países em processo de descolonização da França. Lá viu de perto os problemas sociais, entre eles o racismo de grande parte da sociedade francesa. Em 1956 foi licenciado em Letras pela Universidade de Sorbone. No ano seguinte foi diplomado em Direito Comparado pela Universidade Cambrigde, Inglaterra. Em 1958, aos 28 anos, concluiu Doutorado em Direito pela Universidade de Paris. A sua tese foi considerada a melhor do ano, recebendo o prémio Levy Ullman, e publicada em 1959 sob o título  “A distinção entre Direito Civil e Comercial e Direito Inglês”.

Durante o tempo em que esteve em Cambrigde conheceu o padre Yves Congar, teólogo dominicano condenado ao silêncio e ao exílio pelo Papa Pio XII por defender a reforma na Igreja Católica Romana. Esse contato o despertou para a vida religiosa. Em vez de enveredar-se na esteira dos grandes diplomatas, engenheiros e economistas como muitos de sua família, optou pelos caminhos de Santo Domingos de Gusmão. Quis ser dominicano. Entre 1959 e 1964, cursou Filosofia e Teologia pela Universidade Católica de Saulchoir, dos Dominicanos. A sua profissão religiosa, na Ordem dos Dominicanos, aconteceu em 1959 e sua ordenação sacerdotal em 1963. Depois de hesitar o convite de Frei Jean Rettenbach, Provincial da Ordem, aceitou ser Diretor do Centro Saint Yves, em Paris, entre 1964 e 1969. Esse centro católico dos estudantes das Faculdades de Direito e Ciências Econômicas da Universidade de Paris, foi o único a ficar aberto durante a revolução dos estudantes de Paris, em maio de 1968, e a organizar uma série de debates públicos sobre temas polêmicos que mobilizavam os estudantes, nessa época.

Ali os estudantes puderam refletir sobre a realidade, as condições de vida das camadas mais pobres e o sistema jurídico, econômico e político em vigor naquela época. O desejo de viver experiências com as camadas mais pobres da França fora dos muros de pedras dos conventos, impulsionou o jovem Burin des Roziers a ser operário da construção civil em Besançon, no leste da França, juntamente com o também dominicano e amigo Jean Raguenés. [1] Lá viveu por dois anos (1970 e 1971). Foi motorista de caminhão e depois operário da Empresa Rhodia. Nessa região, as empresas intermediárias, através do subterfúgio às leis, possibilitavam aos industriais utilizarem mão-de-obra barata escapando da legislação sindical que regiam o trabalho operariado, na época. Henri des Roziers foi um dos primeiros a utilizar os meios jurídicos para denunciar esse sistema.

Por volta de 1972, em Annecy, no sudoeste da França, foi trabalhar na administração pública de saúde. Liberado pelo diretor da instituição, dedicou a sua vida a solucionar legalmente o problema de moradia dos trabalhadores estrangeiros árabes em território francês. Expostos às intempéries, homens, mulheres e jovens ajudavam a construir a riqueza francesa. Militante das Associações de Defesa dos Direitos dos Trabalhadores Estrangeiros, Henri des Roziers encaminhou diversas ações jurídicas contra as autoridades por abusos de poder. Fez também inúmeras denúncias sobre o funcionamento ilegal de um hospital particular, que provocou a morte de doentes internados. O seu trabalho procurou fazer cumprir as leis de moradia e outros direitos para os expatriados árabes. Essa sua dedicação em favor dos mais pobres lhe rendeu vários processos. Acusado por difamação juntamente com mais quatorze militantes foi julgado. Depois de uma longa batalha em diversas instâncias, finalmente foi absorvido. Ainda na região, defendeu juridicamente trabalhadores rurais, que lutavam contra as grandes multinacionais produtoras de alimentos artificiais para a criação de bezerros.

Mediante contatos com jovens dominicanos brasileiros exilados na França, que falavam sobre a Teologia da Libertação e de toda a problemática de perseguição política e violência das ditaduras militares na América Latina, o jovem Burin des Roziers resolveu morar e trabalhar no Brasil. Ele queria vivenciar, com maior intensidade, na América Latina, a sua experiência que teve junto aos mais pobres da França. Depois de rejeitar por dois anos consecutivos a entrada de missionários franceses em território nacional, finalmente o governo brasileiro liberou a sua entrada no país. Como o seu visto estava demorando muito, havia solicitado entrada no Peru. Contudo, a sua opção foi pelo Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro, em 15 de dezembro de 1978.

Os seus primeiros dias foram dedicados à problemática social das periferias do Rio de Janeiro. A comunidade dos dominicanos passava ainda por momentos difíceis em razão da perseguição, prisão e torturas de alguns frades pelo regime da ditadura miliar. Vários padres estavam exilados na Europa. Frei Tito de Alencar, por exemplo, esteve exilado na França com problemas graves de saúde devido as torturas sofridas pelo delegado Sérgio Fleury. Suicidou-se em agosto de 1974.

Henri acreditava que o seu visto foi possível porque se articulava na época, depois da morte de Pio XII, a eleição de um novo papa. Os militares tinham interesse pela eleição do Núncio Apostólico do Brasil, Dom Sebastião Baggio, bispo que, segundo ele, não tomou partido em favor dos presos e torturados da ditadura. Os militares queriam demonstrar abertura política com a chegada de padres estrangeiros no país.

Tão logo, quando participava de um curso para missionários estrangeiros oferecido pelo Centro de Formação Intercultural (CENFI)[2] ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília, entrou em contato pela primeira vez com a Comissão Pastoral da Terra (CPT). A sua paixão pelo trabalho da CPT, que se iniciou naqueles dias frios na capital brasileira, durou até o dia 26 novembro data de seu falecimento no convento de Saint-Jacques, em Paris.

Interessado pelo trabalho da pastoral da terra não esquivou ao convite para participar de uma assembleia dos agentes da CPT Regional Araguaia-Tocantins, em Miracema, no norte de Goiás, hoje estado do Tocantins. Henri, que pouco entendia o português, aceitou morar, conviver e trabalhar na conflituosa região do Bico do Papagaio. Os que deveriam ser apenas seis meses de trabalho, se transformaram em dez anos de dedicação aos camponeses daquela parte do território nacional, sobretudo posseiros que viviam em constante processo de marginalização e perseguição por parte de latifundiários e órgãos governamentais que defendiam os fazendeiros.

Foto: Arquivo CPT Xinguara-PA

Embora que seus diplomas e documentação profissional tenham sido reconhecidos no Brasil, somente em 1984, pode assumir a causa dos trabalhadores rurais da região como advogado. Ali foi companheiro muito próximo de Padre Josimo Tavares no apoio à luta dos trabalhadores na defesa de suas terras, contra a violência organizadas por grileiros e grandes fazendeiros. Padre Josimo foi assassinado em 10 de maio de 1986 a mando de latifundiários. Mesmo perseguido, Frei Henri continuou firme com o trabalho da pastoral da terra no Bico do Papagaio. O seu papel como assessor jurídico da CPT, principalmente, em tempo de violentos conflitos agrários naquela região durou até 1990.

Após estes dez anos no Brasil, Henri des Roziers conseguiu, então, dos superiores da Ordem Dominicana um tempo para descansar e conhecer outras experiências, denominado Ano Sabático. Na entrevista concedida em 06/12/2010 me disse: “O meu ritmo é que de cada dez anos eu deva mudar como foi o caso de quando eu estava na França trabalhando junto aos estrangeiros das ex-colônias africanas. Então eu pequei um ano sabático, não fui para as universidades como se faz normalmente para se reciclar. Eu me reciclei a partir da realidade da América Central, com pessoas de países que haviam passado pela ditadura, mas também de muita resistência como a Nicarágua”.

Após quatro meses na América Central, Peru, Chile e Bolívia decidiu se mudar para a Guatemala. Iria conviver com os camponeses daquele país, sobretudo, os indígenas. As malas estavam prontas e as passagens compradas, mas um acontecimento trágico alterou os seus planos. Expedito Ribeiro de Souza, poeta e sindicalista de Rio Maria, no sul do Pará, foi assassinado em 02 de fevereiro de 1991. No ano anterior os sindicalistas Braz Antônio de Oliveira e José e Paulo Canuto haviam sido assassinados. Outras lideranças e o padre Ricardo Rezende Figueira, na época vigário de Rio Maria, estavam ameaçadas de morte. Foi assim, que ele veio para o sul do Pará.  A decisão de ficar dois meses em Rio Maria fez com que a sua atuação na região se estendesse até 2013 quando, com saúde debilitada, voltou à França para fazer tratamento médico.

Henri des Roziers, amante dos rios, da floresta, dos pássaros e dos camponeses foi severamente odiado por diversos fazendeiros e madeireiros do Pará. O seu trabalho incomodou os grandes proprietários de terra, sobretudo os desmatadores e escravagistas. Pistoleiros, policiais torturadores e de fazendeiros foram presos, julgados e condenados como foi o caso do latifundiário Jerônimo Alves de Amorim, mandante do assassinato de Expedito Ribeiro de Souza, que foi condenado a 19 anos e seis meses de prisão em regime fechado.

Foto: Arquivo CPT Xinguara-PA

Além do trabalho no âmbito da Campanha Nacional de Prevenção e Combate ao Trabalho Escravo, coordenada pela CPT, Burin des Roziers moveu processos contra o governo brasileiro perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), em razão de sua omissão na defesa dos direitos humanos pelo caso da prática de trabalho escravo na fazendas Espírito Santo e Brasil Verde, no sul do Pará. Nos dois casos o Estado Brasileiro foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. Desde então passou a ser ameaçado de morte e, diversas vezes, foi difamado por fazendeiros e autoridades governamentais que defendem o desenvolvimento pautado na grande propriedade da terra, na exploração indiscriminada dos recursos naturais e na destruição da floresta nativa para a criação de gado bovino. Por esta razão passou a receber, desde 23 de fevereiro de 2005, proteção policial. Dois militares escolhidos pelo próprio Burin des Roziers ficavam vinte e quatro horas com ele, mesmo quando presidia as missas dominicais na catedral ou nas comunidades rurais.

Mas o seu trabalho na defesa dos direitos humanos teve reconhecimento nacional e internacional, fato que foi condecorado no Brasil e no exterior. Isso, de certa forma, fortaleceu a luta dos trabalhadores e trabalhadoras rurais da região. Em 1994, o Presidente da República Francesa, François Mitterrand, enviou o seu embaixador no Brasil a Rio Maria para concedeu-lhe o título de “Legião de Honra”, considerado a ordem máxima da nação francesa para os seus cidadãos.

 Em abril de 2002 Henri recebeu, no Rio de Janeiro, a Medalha Chico Mendes de Direitos Humanos, do Grupo Tortura Nunca Mais. Em 2003 foi congratulado com a Comenda da Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho do Tribunal Superior do Trabalho e em 2005 recebeu o Prêmio Internacional dos Direitos Humanos Ludovic-Trarieux concedido pelo Instituto dos Direitos do Homem da Ordem dos Advogados de Bordeaux e pelo Instituto dos Direitos do Homem dos Advogados Europeus (European Bar Human Rights Institute). Henri Burin des Roziers foi o 10º advogado a receber este prêmio. Em 1985, o escolhido foi Nelson Mandela, símbolo da luta contra o Apartheid na África do Sul.

Em 2009 recebeu os prêmios Alceu Amoroso de Lima de Direitos, no Rio de Janeiro e José Carlos Castro de Direitos Humanos, da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Pará. Em 9 de dezembro de 2013, às véspera do 65º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, depois de ter voltado à Paris, foi condecorado com o Prêmio João Canuto de Direitos Humanos, do Movimento de Humanos Direito com sede no Rio de Janeiro. Sem poder estar presente, foi representado pelo advogado e agende da CPT de Marabá, José Batista Gonçalves Afonso.

Foto: Arquivo de Ricardo Rezende Figueira

Henri des Roziers viveu intensamente a compaixão pelas pessoas mais pobres, sobretudo os trabalhadores e trabalhadoras rurais da Amazônia. Admirador de Bartolomeu de Las Casas dedicou a sua vida no combate ao trabalho escravo, na luta pela reforma agrária e pelos direitos humanos. Sem poder voltar ao Brasil, faleceu no seu quarto do Convento Saint-Jacques, em Paris, onde está a biblioteca dos Chorões visitada por diversos intelectuais, como Michel Foucault e tantos outros pensadores franceses.

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