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Entre rios e fronteiras

Inclusão na universidade: relatos de servidores técnico-administrativos sobre as suas participações em um projeto de pesquisa na perspectiva inclusiva

Airton dos Reis Pereira /UEPA

Mírian Rosa Pereira /UEPA -CAPS

Shirlei Dias Ribeiro /UEPA -PIBIC

Claudiane Serafim de Sousa /UEPA -Bolsista

Em 2016, um grupo formado por professores e técnicos-administrativos da Universidade do Estado do Pará (UEPA), Campus de Marabá, conseguiu aprovar junto à Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (FAPESPA) uma proposta de pesquisa sob o título “Saberes e Práticas da Formação Docente: da avaliação da educação inclusiva à produção de materiais didáticos destinados às pessoas com deficiência” a qual tinha como objetivo analisar as práticas dos professores de ciências naturais, da educação básica da rede pública de Marabá (PA), na perspectiva da educação inclusiva, e, ao mesmo tempo, contribuir na produção de materiais didáticos acessíveis na área do ensino de ciências naturais destinados à inclusão de alunos com deficiências (baixa visão e cegos).

Depois de contatos com a Secretaria Municipal de Educação e com diversas escolas estaduais, vinte professores de ciências naturais e pedagogas lotadas no Atendimento Educacional Especializado (AEE) em Marabá foram envolvidos no projeto. Com o decorrer do tempo dez pedagogas do município de Itupiranga, 40 quilômetros de Marabá, também foram integradas ao projeto.

Foi adotado como procedimentos metodológicos a Pesquisa-ação e a História Oral. Ou seja, foi decidido que seria importante que a pesquisa fosse realizada ao mesmo tempo em que os sujeitos envolvidos no projeto pudessem aprimorar a sua prática (TRIPP, 2005; FRANCO, 2005). Diversas foram as reuniões e encontros de formação. Diversos foram também os encontros destinados à confecção de materiais didáticos inclusivos. Estes momentos foram destinados à reflexão sobre a realidade educacional, a prática docente em sala de aula, mas também sobre as decisões a respeito dos tipos de materiais didáticos a serem produzidos, além de encontros específicos dedicados à confecção dos referidos materiais.

Foto: Produção de materiais didáticos. Fonte: Acervo do projeto de pesquisa. 

Mas essas atividades foram também espaços importantes de integração, troca de experiências, intercâmbio e solidariedade entre os professores da educação básica e os membros da universidade responsáveis pelo projeto. Algumas das atividades foram filmadas e algumas entrevistas coletivas foram gravadas e transcritas. Mas foram também realizadas entrevistas individuais com pessoas chaves que vinham participando ativamente de todo o processo de execução do projeto. Entendia-se que por meio dos relatos orais se pudesse captar, mais facilmente, os posicionamentos políticos dos sujeitos na pesquisa, além de possibilitar apreender, com maior clareza, os motivos que levavam esses professores tomarem algumas decisões (ALBERTI, 2005).

Durante o processo de execução do projeto, algumas bolsistas de iniciação científica foram integradas ao grupo de professores e técnicos-administrativos os quais participaram ativamente das tomadas de decisões e das atividades desenvolvidas.

Uma das coisas que foram possíveis constatar ao se trabalhar com a pesquisa-ação e com a história oral é que o grupo formado por estes professores, técnicos-administrativos e bolsistas da universidade foi também capacitado à medida que coordenava os encontros de formação e de produção de materiais didáticos impactando diretamente na forma como esses servidores passaram a ver a educação inclusiva dentro da própria universidade.

Ao entrevistar essas servidoras, foi muito interessante compreender não só o processo de formação que elas tiveram sobre a educação inclusiva durante os seus cursos de graduação, mas a contribuição que o projeto de pesquisa deu sobre a educação inclusiva no âmbito da universidade. As entrevistas revelam como os servidores estão preparados para atuarem em conformidade com o processo de inclusão educacional, que envolve a sua formação inicial e continuada. A esse aspecto, foi possível verificar que das sete servidoras entrevistadas, apenas uma teve na sua formação inicial algumas disciplinas voltadas sobre a educação inclusiva e duas participaram de processos de formação continuada sobre essa temática antes de ingressarem no projeto de pesquisa.

O questionamento sobre a formação dessas profissionais demonstrou que elas se sentem preocupadas com lacuna proveniente desses processos formativos e que a participação no referido projeto de pesquisa se revelou como um desafio dada a realidade dos cursos de graduação de uma forma geral, mas por outro lado, foi visto não só como debate sobre a inclusão de pessoas com deficiência, mas a sua própria inclusão nas discussões sobre a temática estudada:

eu costumo afirmar que realmente houve inclusão nesse projeto. Porque é o primeiro projeto no Campus de Marabá que houve a inclusão de nós técnicos. Eu sou funcionaria da UEPA, mas eu sou técnica administrativa, então todos os projetos que já aconteceram no Campus são para docentes e discentes, mas esse projeto realmente trabalha a inclusão, pois foram incluídos os técnicos administrativos. Essa inclusão enriqueceu a nossa vida profissional. É imensurável o aprendizado que tivemos, o quanto ele nos valorizou. No momento que fomos convidadas, tanto eu como as minhas colegas, no primeiro momento a ideia era dizer não, até porque era tudo novo para nós, tínhamos medo de não dar conta de participar (S1. Entrevista concedida em 13/02/19).

Compreender como essas profissionais atuam e se sentem sobre o seu trabalho frente a inclusão social e educacional, é um fator muito importante para o movimento de inclusão de uma forma ampla, pois parte da necessidade de conhecer, aprender e mudar suas ações diárias, na busca da qualidade do serviço que será ofertado, neste caso, o atendimento na universidade. Nesse sentido, na formação e para a atuação dessas profissionais é necessário discutir a inclusão social e “refletir sobre certos conceitos […], concepção de homem, educação e sociedade como seus determinantes econômicos, sociais e políticos” (FERREIRA; FERREIRA; FERREIRA, 2010, p. 6149).

Sobre o município de Marabá (PA), no qual encontra-se também a UEPA, as profissionais entrevistadas argumentaram sobre as suas percepções acerca do processo de inclusão e acessibilidade, evidenciados tanto na cidade de forma geral, como também na própria instituição de ensino superior em que atuam. Cabe ressaltar que foi unânime ao afirmarem que a cidade caminha a passos lentos para se alcançar de fato uma cidade mais inclusiva e acessível, mas que segundo a Servidora 2, “teve uma evolução muito satisfatória, mas em relação a qualidade da inclusão… nós precisamos caminhar muito” (S2. Entrevista concedida em 15/02/19).

Na questão da acessibilidade e inclusão na própria instituição em que atuam, as profissionais ressaltam que as mudanças estruturais e atitudinais surgiram, de forma mais expressiva, a partir do ingresso do primeiro aluno deficiente visual no campus universitário em 2009 e esse fato foi bastante citado nas entrevistas, como ressalta a Servidora 2, sobre as mudanças que ocorreram. Afirma ela: “começamos a pensar na estrutura física e depois que nós partimos para a estrutura acadêmica, que foi muito difícil, pois era uma experiência nova para nós enquanto Campus da UEPA” (S2. Entrevista concedida em 15/02/19).

Recentemente, o campus recebeu matrículas de cinco alunos surdos na turma de graduação em Letras, com habilitação em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), demandando também a reformulação de aspectos da comunicação institucional e acadêmica com esses alunos surdos. A esse aspecto, os relatos das profissionais revelam que elas têm tido contatos limitados com esses alunos devido o horário de aulas ser no período noturno. Mas segundo elas, a presença desses alunos na universidade tem levando-as a refletir sobre a forma de comunicar, demonstrando que precisam se capacitar para que possam se comunicar de forma mais efetiva com esses alunos e com a comunidade surda de forma geral como bem destaca a Servidora 6:

As vezes a gente precisa passar alguma informação acadêmica para eles, para que eles possam ter acesso. Os outros alunos da turma às vezes que fazem essa intermediação conosco, para que haja um entendimento. Para melhorar isso, a gente tem que fazer alguma formação, ao menos o básico, para poder ocorrer a comunicação (S6. Entrevista concedida em 18/02/19).

A participação dessas servidoras no projeto de pesquisa, sobretudo na interação com os professores da educação básica e do AEE, consolida-se como um processo de aprendizado, de capacitação:

quando nós fomos convidadas para participar desse projeto, foi uma oportunidade maravilhosa, excelente, porque é sempre gratificante e enriquece nosso conhecimento em relação a inclusão porque quando você, quando a gente passa a pensar no aluno deficiente, você imagina como que ele  vai estar na sala de aula, como esse aluno vai ser atendido e quando a gente passa a ver que a  adaptação do material para este aluno é possível, é um outro mundo, um outro conhecimento que é acrescentado à nossa vida profissional. O projeto nos possibilitou isso (S3. Entrevista concedida em 13/02/19).

Assumir que a inclusão perpassa todos os aspectos da vida em sociedade é também compreender que esta “se fundamenta numa filosofia que reconhece e aceita a diversidade na vida em sociedade. Isto significa garantia de acesso de todos a todas as oportunidades” (MENDES, 2002, p. 28). E isto fortalece a necessidade de discutir inclusão em todos os setores das instituições de ensino, quer seja na educação básica, quer seja no ensino superior.

A proposta revolucionária de participação dos servidores da UEPA em um projeto de pesquisa sobre a temática de inclusão educacional pode, talvez, influenciar outras instituições de ensino superior a repensarem as dinâmicas acadêmico-administrativas que as mesmas têm desenvolvido em seus campi.

As perspectivas de ações futuras, segundo essas servidoras, demonstram que houve uma melhor compreensão do papel do servidor na instituição, da preocupação da qualidade do sistema de comunicação entre os servidores e pessoas com deficiência, como também a preocupação com relação a acessibilidade da infraestrutura do campus e da cidade Marabá como um todo.

As relações estabelecidas no âmbito do projeto de pesquisa “Saberes e práticas da formação docente” proporcionaram uma maior aproximação entre a realidade da educação básica com a universidade. Os questionamentos dos professores da educação básica envolvidos no projeto, com relação às dificuldades, aos desafios, mas também aos anseios por uma educação de qualidade e, de fato, inclusiva, foram fundamentais, segundo as servidoras, para se pensar a sua atuação enquanto profissionais da universidade. Ou seja, para essas servidoras a universidade deve dialogar com a comunidade de uma forma geral, sobretudo possibilitar reflexões sobre as garantias de direitos da pessoa com deficiência.

Foto: Material didático. Livro sensorial. Fonte: Acervo do projeto de pesquisa.

Assim, a partir da percepção de que a inclusão envolve muito mais do que a utilização da grafia Braille para atender pessoas cegas ou a LIBRAS para atender as pessoas surdas, devemos entender que a diversidade existe e que todos são capazes e devem ter condições de exercerem sua cidadania frente aos diversos setores da sociedade. A partir desse entendimento é que se construirá uma sociedade mais justa, solidária e inclusiva.

 

Referências

ALBERTI, V. Manual de história oral. Rio de Janeiro: FGV, 2005.

FRANCO, Maria Amélia Santoro. Pedagogia da Pesquisa-Ação. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 3, p. 483-502, set./dez. 2005.

FERREIRA, Lúcia Gracia; FERREIRA, Lucimar Gracia; FERREIRA, Márcia Gracia. A inclusão social e escolar: enfoque nas escolas públicas de educação infantil de Itapetinga-BA. In: Anais do XII Congresso Nacional de Educação. Paraná: PUC/PR, 26-29 de outubro de 2015. Disponível em: http://educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2015/22562_9959.pdf. Acesso: 28 mar. 2019.

MENDES, E. G. Desafios atuais na formação do professor de educação especial. Revista Integração, v. 24, Ano 14, Brasília: MEC/SEESP, 2002.

TRIPP, David. Pesquisa-ação: uma introdução metodológica. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 3, p. 443-466, set./dez. 2005.

 

 

“…E FOI UMA EPOPEIA NO SERTÃO AMAZÔNICO”: VEREDAS DA ELETRIFICAÇÃO NA ERA VARGAS

“Nossos becos eram mais escuros e nossos fantasmas corriam mais livres”

Andrey Minin Martin / Unifesspa /IETU

Os caminhos da eletrificação na região Norte compõem uma rica página de nossa história, ainda possuidora de muitos parágrafos a serem lapidados. Pelas veredas das pesquisas me deparo em cada arquivo, a cada leitura e mesmo pelos debates realizados com novas faces de uma história necessária.  Recentemente, em meio a pesquisa que realizo sobre os caminhos do desenvolvimento energético na Amazônia Oriental me deparei com algumas fontes de um tema não desconhecido, mas ainda pouco debatido a partir deste espaço geográfico.

O processo de eletrificação na primeira metade do século XX no Brasil dialoga diretamente com as profundas transformações ocorridas entre a Primeira República e o primeiro governo de Getúlio Vargas, no qual em grande parte das experiências de produção energética foi conduzida por empreendimento privados. Como demonstrado pela historiografia, de trabalhos clássicos a mais recentes (BRANCO, 1975; MAGALHÃES, 2000; SEGER, 2012) o setor energético brasileiro em suas primeiras décadas de instauração não era pensado como um projeto de desenvolvimento nacional. Seus preâmbulos tramitavam em meio a empresa e grupos privados, diretamente ligados a países europeus e da América do Norte. Estabelecendo a América Latina como uma “zona de expansão” econômica e de influência política, fato comum em várias regiões do globo ao longo do século XX, o processo de eletrificação tornou-se o catalizador de modernização estrutural-industrializadora de regiões no centro-sul do Brasil. Empresas como Light e Amforp monopolizariam este setor até a gradual transformação ocorrida a partir da década de 1930.

Conjuntamente, este período também seria marcado pelo surgimento das primeiras centrais hidrelétricas do país, as chamadas PCHs, que gravitando em torno destes mesmos espaços produziriam os primeiros quilowatts por meio de nosso potencial hídrico, chamados a época de Hulha Branca. Assim, grande parte destes empreendimentos estariam localizados em regiões como Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Esta centralidade acaba, por um lado, sendo evidenciada no mote historiográfico existente que se debruça em analisar os caminhos e descaminhos do setor nestas localidades, mas que, ao mesmo tempo, acabam desconsiderando especificidades gestadas em outras regiões, fora deste eixo de desenvolvimento industrial. Regiões como o Norte e Nordeste possuem significativas experiências no que tangem ao desenvolvimento energético nacional, para além dos debates que se centram nos períodos pós década de 1940, momento do surgimento dos grandes projetos hidrelétricos e companhias energéticas nacionais.  E dentre tais experiências destaca-se a primeira hidrelétrica da região Norte: Itapecuruzinho.

A história deste empreendimento se mistura com a história de Newton Carvalho, seu idealizador e executor. Ainda pouco explorada e analisada em produções acadêmicas o mote de publicações existentes decorre de obras memorialistas e biografias, que muito contribuem para seu entendimento, mas estão longe de esgotar as potencialidades e mesmo tecer uma profunda relação do empreendimento com a história do setor energético. A hidrelétrica foi planejada entre os anos de 1937 e 1938, tendo sua execução realizada nos três anos seguintes. O projeto previa a construção da hidrelétrica no rio Itapecuru, situado no estado do Maranhão, à margem direita do rio Tocantins. Sua proposta era produzir e fornecer energia para a cidade de Carolina, situada a 28 Km da obra e cidade natal de seu idealizador.

“Nossos becos eram mais escuros e nossos fantasmas corriam mais livres”. Assim era narrada Carolina, uma pequena cidade no interior da Amazônia Oriental, no estado do Maranhão. Cidade histórica que carrega em seu nome o da imperatriz Carolina Leopoldina, esposa de D. Pedro I, foi fundada em meados do século XIX e compunha um cenário bucólico que não destoava das outras poucas cidades existentes, em uma região de baixa densidade urbana ao longo do século XX. Região de poucas estradas, os rios eram os rincões de entrada e saída de pessoas e mercadorias, elemento historicamente central em grande parte das cidades do norte do país.

Em um contexto de grandes transformações no país, as primeiras décadas do século XX também eram efervescentes em Carolina: o samba e a era dos carnavais de rua, o crescimento comercial marcado pelas vindas de hidroaviões, como o da empresa Pan American Airways, a Coluna Prestes que passara pela cidade, os liceus e a formação de intelectuais que marcariam a história da cidade. Tal importância desta cidade pode ser evidenciada pelo tombamento nacional de seu centro histórico, em 1933. Porém, de todas as transformações, a criação da primeira hidrelétrica da Amazônia deixaria importantes marcas na história da região.

 

Imagem 01: Localização do Município de Carolina-MA

A Usina Hidrelétrica de Itapecuru buscou aproveitar o potencial hídrico existente em uma das quedas d’água do rio Itapecuru, queda esta de onze metros, a partir da construção de canais visando conter uma vazão, a época, de 2,44 metros cúbicos. Para tal empreita foi escolhido o uso de uma turbina do tipo Francis de 110 kW e um gerador de 120 kVA, possuindo uma única subestação com transformador trifásico de 11.000 volts, conduzida diretamente para cidade de Carolina por meio de postes de aroeira até uma estação que regulava a tensão da rede para 110 e 220 volts. Porém, mesmo com o projeto já definido, a instalação da mesma necessitava de todos os trâmites legais para ter autorização de funcionamento e venda da energia elétrica. E isto não seria simples, visto que parte dos políticos locais eram oposição ao nomeado interventor do estado do Maranhão, Paulo Ramos, que assumira o governo entre 1936 e 1945, indicado por Getúlio Vargas e eleito pela Assembleia Legislativa deste estado.

Cabe ressaltar que as políticas nacionais de aproveitamento hídricos passaram por importantes mudanças nesta década. Em 1934 é promulgado o “Código das Águas”, por meio do Decreto nº 24.643, de 10 de julho de 1934, em que Getúlio Vargas centralizou para o governo federal a regulamentação, utilização e controle dos cursos fluviais e quedas d’água. Desde a primeira década do século XX tramitava no congresso projeto para sua efetivação, porém, os interesses de grupos privados sempre retardaram a sua possível criação (MARTIN, 2016). Outra mudança foi a instalação do Conselho Nacional de Águas e Energia Elétrica (CNAEE), em 1939, que ampliou as possibilidades de estabelecimento público no setor, até então centralizado na iniciativa privada. Logo, observa-se que a realização de tal empreita gravitada em um campo de disputas entre o setor público e privado.

Assim, conjuntamente com a participação inicial de oito sócios, Newton Carvalho buscou adquirir tal autorização.  Segundo Erton Carvalho (2011), depois de inúmeras visitas à capital, São Luiz, sem sucesso, somente veio a conseguir autorização por intervenção do arcebispo do Maranhão, Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. Nasceria assim em 11 de julho de 1939 a Empresa Hidroelétrica Itapecuru Ltda, a primeira em toda região Norte e segunda do Nordeste. Possuidora de um capital inicial de 350 contos de reis e agora com um total de quatorze sócios o empreendimento seguiu os trâmites para sua construção, conectando-se com o Rio de Janeiro para compra dos equipamentos. O contato com a capital nacional já vinha ocorrendo desde 1938, quando Newton buscou junto a empresa Siemens a compra dos equipamentos.

Mas os caminhos da história, por vezes, são tortuosos. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial os acordos firmados com a empresa alemã não puderam ser realizados, tendo que grande parte de seu maquinário ser montado no Brasil. Por isso, após o fatídico encarecimento dos custos e realizada a compra deu início a uma “epopeia” para chegar até o local do empreendimento: saindo do Rio de Janeiro, os equipamentos foram até a cidade de Belém por via marítima, desembocando pelo rio Tocantins até a cidade de Carolina. Neste entremeio a pluralidade de obstáculos, com as quedas de Itaboca, atualmente na hidrelétrica de Tucuruí, mereceriam um capítulo a parte que, somadas ao trajeto entre o rio Tocantins e o local do empreendimento, narram todas as adversidades que marcam o ineditismo de tal empreita na porção norte de nosso país.

Autorizada ao funcionamento e sendo inaugurada oficialmente em novembro de 1941, a usina acabou tendo um curto destino em atividade. Com a ajuda do montante arrecadado por Newton Carvalho e seus sócios, ele mesmo elaborou a planta de distribuição e implementou a rede de iluminação pública e residencial. Porém, em 1944, o descontentamento pela alta inadimplência da população e do poder municipal somado aos meandros da política energética nacional fizeram com que seu idealizador abandonasse o projeto em atividade, dirigindo-se para o estado vizinho, Goiás. Nesta nova empreita buscou dar continuidade aos projetos pela eletrificação, agora nas cidades de Anicuns e Santa Cruz de Goiás. Mas este compõe um capítulo à parte desta história…

Imagem 02: Placa comemorativa da usina e casa de forma de Itapecuruzinho Fonte: CARVALHO, 2011.

Imagem 02: Placa comemorativa da usina e casa de forma de Itapecuruzinho Fonte: CARVALHO, 2011

Conhecida atualmente como “Paraíso das águas” por seu rico complexo de rios e quedas d’água, a cidade de Carolina ainda possui as “ruínas” deste empreendimento, que contrastam diretamente com o cenário turístico produzido na região, uma das principais receitas deste município. Com o desenvolvimento de grandes projetos hidrelétricos, como a UHE Estreito, no rio Tocantins, a antiga e histórica usina ainda procura seu lugar, em meio as transformações da paisagem que os grandes projetos tendem a produzir.

Para quem procura memórias desta importante, mas pouca explorada história, o Museu Histórico de Carolina proporciona a seus visitante uma rica e acolhida experiência, traduzida como epopeia, mas que, como em muitos lugares do Brasil, ainda procura sua identidade, seu pertencimento nos labirintos de nossa história presente…

Imagem 03: Exposição sobre a Usina Hidrelétrica do Itapecuru Fonte: Museu Histórico de Carolina.

Referências:

BRANCO, Catullo. Energia elétrica e capital estrangeiro no Brasil. São Paulo: Alfa-Ômega, 1975.

MAGALHÃES, Gildo. Força e Luz: eletricidade e modernização na República Velha. São Paulo: UNESP/FAPESP, 2000.

MARANHÃO, Rossini Gonçalves. Carolina, meu mundo perdido. Rio de Janeiro, 1971.

MARTIN, Andrey. M. Produzir energia, (pro) mover o progresso: o Complexo Hidrelétrico Urubupungá e os caminhos do setor energético. (Tese de doutorado em História) — Unesp, 2016, 351 p.

MELLO, Flavio M. (Coord.) A história das barragens no Brasil: Séculos XIX, XX e XXI. cinquenta anos do Comitê Brasileiro de Barragens. Rio de Janeiro: CBDB, 2011.

MEMÓRIA Técnica da Usina de Itapecuruzinho. Relatório técnico, 1939.

PINHEIRO, Raimundo Nonato. A Coluna Prestes no Maranhão. São Luís: UEMA, 2005.

SEGER, Sônia. Marcos constitutivos do setor elétrico brasileiro. In: MAGALHÃES, Gildo (Org). História e Energia: Memória, informação e sociedade. São Paulo: Alameda, 2012.

 

Uma análise da historiografia urbana brasileira

ANDRIUS ESTEVAM NORONHA

Esse artigo pretende compreender alguns apontamentos teóricos abordados em pesquisas, voltadas para o campo historiográfico e focado no debate do espaço urbano brasileiro. Essa discussão nos remete a refletir sobre a dinâmica das transformações, crescimentos, sentidos e funções que as cidades brasileiras  passaram com as intervenções feitas, tanto pelo Estado quanto pelas distintas classes sociais em seus respectivos espaços de sociabilidade. O resultado foi avaliar as várias manifestações que contribuiram para explicar o processo socio-espacial e o projeto político de cada grupo de interesse dentro e fora do Estado.

O crescimento e a proliferação das cidades marcaram profundamente a história europeia no século XIX o que instigou a nova historiografia refletir sobre a dinâmica desse processo. Há uma relação estreita entre a história da cidade latino-americana e da cidade europeia, pois parte importante da elite que foi treinada para exercer a gestão pública tem conexão com as correntes difundidas num contexto de ascensão política da burguesia. Deve-se destacar que a Engenharia e a Medicina passaram a integrar o escopo estratégico de formulação e execução de planos pilotos que visavam a melhoria da circulação dos espaços urbanos da Europa e posteriormente a América Latina.

De acordo com Ronald Raminelle (1997), a historiografia que aborda o caso brasileiro apresenta como problemática a dimensão social do planejamento urbanístico das cidades em duas perspectivas: a primeira, pautada na ocupação desordenada do espaço urbano sem consultoria especializada e legislação. Além disso, aproxima a realidade social herdada do sistema colonial escravista uma vez que o saneamento era de responsabilidade dos negros escravizados o que tornou tardio o planejamento urbano; a segunda, marcada pelo processo de modernização no final do século XIX, inspirada nas reformas urbanas levada a cabo por Georges Eugène Haussmann em cidades como Paris e posteriormente Londres, Viena, Amsterdã, Nova Iorque, Boston, entre outras.

De acordo com José D’ Assunção Barros (2007), a Revolução Industrial contribuiu para inserir a organização do espaço urbano como pauta estratégica de políticas públicas do Estado Nacional gerenciado pela burguesia. A decadência da nobreza (voltada para o espaço rural) e a ascensão da burguesia (voltada para o espaço urbano) inseriu uma nova agenda programática a luz do novo centro de poder social e político da sociedade ocidental. Isso levou a reordenação do espaço e a configuração do que se desejava como a “cidade ideal”, cabendo aos governos, viabilizar propostas higienizadoras e soluções para a vida urbana apoiados na Engenharia e Medicina.

Esse processo ganha dimensão no século XX, no qual vivenciou um acelerado processo de urbanização, sobretudo, nos países emergentes como Brasil, Argentina, Chile, África do Sul, Índia, China entre outros. Surgiram as megalópoles que interligavam várias cidades que foram infladas com o acelerado processo de industrialização. Em virtude dessa dinâmica, às antigas funções administrativas, políticas econômicas e culturais da cidade foram incorporadas a outras mais recentes como redes mundiais de trafego de informações, de capitais e de pessoas.

Em virtude dessa mudança, a cidade colonial tornou-se um entrave à modernidade forçando a elite política brasileira da I República a aderir aos novos padrões de planificação urbana. Desse modo, houve a necessidade de por abaixo seus cortiços e ruas estreitas para que fosse reconstruída e alargada, despejando assim, sem qualquer política de integração, os pobres para regiões periféricas.

Para Raminelle (1997), a historiografia brasileira, por um longo tempo, definia os estudos sobre a cidade dentro do padrão de análise vinculada ao âmbito econômico com forte influência da Geografia e Sociologia. Alguns historiadores brasileiros do início deste século se dedicaram aos estudos de Werner Sombart (1902), Max Weber (1905) e Henri Pirenne (1962) com o objetivo de procurar um modelo teórico que permitisse caracterizar a cidade como um espaço econômico e autônomo em relação ao campo.

Para Roberto Luis Monte-Mor (1981), a cidade é o maior espaço de comando e articulação da economia capitalista em dimensão global e compreende como centro de poder socio-cultural, econômico e político que produz e faz o espaço urbano regional. O autor aborda vários elementos que permite a reflexão sobre a evolução do pensamento historiográfico brasileiro relacionado ao espaço urbano. Reforça os elementos da influência europeia na formulação de políticas públicas específicas para a gestão do espaço urbano centrando na análise segregacionista de evolução.

Para Capistrano de Abreu (1907), a cidade colonial foi um mero aparelho administrativo ou um meio caminho entre os engenhos e os centros europeus de comercialização do açúcar. Todo o processo de saneamento era atribuída ao escravo, fator que teria impacto no processo de urbanização acelerada no século XX. Assim, como na Europa aristocrática, o espaço urbano brasileiro do período colonial foi deixado de lado. Somente com o advento da I República e a formação da burguesia brasileira é que o espaço urbano foi revitalizado, mas ainda predominava o seu caráter aristocrático e segregacionista.

Sérgio Buarque de Holanda (1984) defendia uma posição semelhante, quando ressaltava a presença avassaladora do campo sobre a cidade. Os centros urbanos brasileiros, “nunca deixaram de se ressentir fortemente da ditadura dos domínios rurais” (HOLANDA, 1984: 58). Os processos de independência, iniciado com a vinda família real portuguesa, em 1808, e a inserção do país ao mercado internacional, promoveram uma série de mudanças nas cidades brasileiras. Ao longo do século XIX, sofreram transformações profundas na economia como as Leis de Terra de 1850, a abolição da escravidão de 1888 e diversas reformas variadas de cunho liberal que consolidariam a República.

Em relação a Lei de Terras, o impacto dela foi determinante para a consolidação da desigualdade social no país e consequentemente do espaço urbano. Até a existência dessa lei, as terras devolutas eram de quem trabalhasse nela, assim, a elite brasileira, se preparando para o inevitável processo de abolição da escravidão, estrategicamente, impediu o acesso da população pobre a terra. Com a abolição, a maioria dos negros são jogados para os cortiços urbanos que seriam demolidos nas reformas urbanas da I República, forçando a buscarem os morros para a ocupação em favelas em zonas periféricas.

Para Romero as modificações foram consideradas em duas perspectivas: a primeira ditada pelo modelo europeu, denominada “desenvolvimento heterogêneo”; a segunda, foi o resultado de alterações da estrutura interna, do funcionamento da cidade e, sobretudo, da relação entre os diversos grupos sociais. Nas últimas décadas do século XIX, o “desenvolvimento heterogêneo” foi explicado a partir das principais alterações no perfil urbano das cidades latino-americanas. A segunda fase da Revolução Industrial, iniciada a partir de 1840, forçou a inclusão destas sociedades no mundo capitalista. Não é a toa que foi a partir desse processo que a pressão sobre a escravidão caiu com mais força no Brasil e no sul dos EUA. As burguesias aceitaram, então, a ideologia do progresso, realizando o “desenvolvimento heterogêneo” da cidade em detrimento do “desenvolvimento autônomo”.

Por fim, a historiografia brasileira também salientou as reformas urbanas e a politização do espaço público que sofreu processo de segregação social onde é possível observar a ocupação da população rica, da classe média e da população pobre.

 

Referências

 

ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial, 1907.

BARROS, José D’Assunção. Cidade e história. Petrópolis: Vozes, 2007

Monte-Mór, R. L. (1981). Do Urbanismo à Política Urbana: notas sobre o caso brasileiro.Unpublished manuscript, Belo Horizonte.

PIRENNE, Henri. As cidades na idade média. Lisboa: Europa-América, 1962.Original: Les villes au moyen Age.Bruxelas: 1925].

RAMINELLI, Ronald. História Urbana. IN Domínios da História. Ensaios de teoria e metodologia. 5ª Edição. Editora Campus. Rio de Janeiro. RJ. Brasil.1997

Romero, José Luís. Latinoamérica: las ciudades y las ideas. México: Siglo XXI, 1976.

Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, Rio de Janeiro, 1984, pp. 41-58

SOMBART, Werner. Ursprung undWeses der Modernen Stadt. In:SOMBART, Werner. Der ModerneKapitalismus. Leipzig: Duncker und Humblot, 1902.

WEBER, Max. The City. New York: Free Press, 1958. [Original: 1905].

 

HISTÓRIA E MEMÓRIA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Andrius Estevam Noronha

 

Um tema recorrente no campo historiográfico é a permanente discussão sobre história e memória, que originou inúmeros eventos de história, textos, palestras e outras atividades que buscam analisar esse tema. Meu objetivo com esse texto é apresentar contribuições de diversos autores, em especial Jacques Le Goff (1990), que vem sendo utilizando em aulas sobre teoria e metodologia da história. A pedido de alguns amigos, alunos e colegas resolvi colocar em forma de texto uma palestra que realizei na Universidade Federal do Amapá no III Encontro de Discentes ocorrido em 2017.

Le Goff (1990) inicia seu texto circunscrevendo um esboço da evolução da ciência históriográfica contemporânea e analisando seu papel na sociedade com seus desdobramentos políticos, econômicos e culturais. A tendência de transformação da ciência histórica, de acordo com o autor, teve grande peso na França, mas também teve manifestação em outros lugares como na Grã-Bretanha e na Itália. A história econômica e social foi uma das mais antigas manifestações, na qual destacamos o papel da ciência histórica alemã, tendo influência nos campos da Sociologia e a Antropologia no início do século XX. Os estudos de Max Weber (1999) sobre os conceitos de modernidade e burocracia, juntamente com outros sociólogos e antropólogos dos países anglo-saxônicos foram notórias para esse processo.

A história oral e a história quantitativa tiveram peso significativo nas abordagens que estavam emergindo nesse contexto, apesar do último não ter se consolidado com força nos países mediterrâneos. Ruggiero Romano (1989) destaca que os historiadores dos paises Latinos e Latinos-americanos são muito engajados na vida social e política de seus países, coisa que não se verifica nos países anglo-saxônicos, russos e germânicos. Destacamos também as criticas em torno da ideologia do progresso, mais recente, de repúdio pelo marxismo vulgarizado. Le Goff destaca que se criou uma produção pseudo-histórica anti-marxista que parece ter tomado o tema gasto do irracional. Ele cita Michel Foucault (2013) que aponta alguns problemas capitais para o historiador que ainda não podem ser postos, senão a partir do marxismo e exprimem o desejo de que a renovação passasse por certo regresso às fontes.

Le Goff (1990) destaca que no Ocidente conhece-se mal a produção historiografica dos países do Leste europeu. À exceção da Polônia e da Hungria, o que se conhece não seria tão pertinente, considera também alguns grandes historiadores do passado como antepassados da história nova, pelo seu gosto e pela investigação das causas, ressalta a sua curiosidade pelas civilizações, o seu interesse pelo material, o cotidiano e a psicologia. Se avaliarmos todas as correntes historiográficas desde o século XVI de La Popelinière a Michelet, passando por Fénelon e os intelectuais do iluminismo, constatamos uma importante linhagem de diversidades teóricas.

A fundação da Revista “Annales” foi como um divisor de águas no debate teórico e metodológico na historiografia moderna, isso possibilitou um aprofundamento mais complexo no campo da produção da ciência historiográfica nas décadas que seguiram. Autores como Marc Bloch e Lucien Febre foram, sem dúvida, grandes expoentes desse processo em que poderíamos contextualizá-los numa conjuntura marcada pelas seguintes transformações das décadas de crise, entre 1914 e 1945: guerras mundiais, revoluções e contra-revoluções e crise do sistema capitalista. Essa conjuntura fez emergir um novo paradigma não só na historiografia, mas também na geografia, sociologia, antropologia e nas outras ciências sociais e humanas.

O artigo “Método histórico e ciências sociais” do economista François Simiand (2003) destaca a importância de haver uma colaboração de outras ciências sociais como suporte teórico e metodológico das pesquisas em história além de denunciar a história de ídolos políticos, individuais e cronológicos da historiografia tradicional. Fernand Braudel (1987) destaca três planos que a história estava sobreposta: o tempo geográfico, o tempo social e o tempo individual ao publicar um artigo nos Analles sobre longa duração, o que iria inspirar uma parte importante da investigação histórica subseqüente.

Foi nos anos setenta, um pouco e em toda parte, nos colóquios e obras, principalmente coletivas que fizeram um balanço das novas orientações da história. Destaca-se entre as novas abordagens, o quantitativo em história, a história conceitualizante, a história antes da escrita, a história dos povos sem história, a aculturação, a história ideológica, a história marxista. O diálogo da história com outras ciências prosseguia, aprofundava-se, concentrava-se e alargava-se simultaneamente. A história e a economia, a sociologia, a antropologia, a biologia são exemplos desse processo.

Merece destaque o encontro entre história e antropologia que o próprio Le Goff se incluí entre os historiadores que aprofundaram suas pesquisas nessa área. O destaque do encontro da etnologia e história foi o grande motor desse casamento, principalmente nos estudos do multi-culturalismo na atualidade e das teorias raciais no século XIX. As tradições narrativas também entram no eixo de deslocamento das pesquisas históricas que deram base para o provincianismo e para a construção dos Estados-Nações.

André Burguière (1993) possui autoridade no campo da antropologia histórica, fazendo referências aos trabalhos de Norbert Elias sobre a evolução da disciplina do corpo na Europa. Burguière ilustra quatro exemplos da antropologia histórica:

1) a história da alimentação

2) a história da sexualidade e da família

3) a história da infância

4) a história da morte

A referência feita por Le Goff na antropologia leva a uma reflexão sobre o encontro entre a historiografia e a biologia, e nesse ponto, François Jacob defende que podemos ver na história da ciência a sucessão das idéias juntamente com a sua genealogia, o que permite inferir os objetos deste campo ao tornar acessível à análise e a abertura de novos domínios de investigação. O que está em questão nesses elementos é a refutação de uma história idealista, uma vez que Jacob propõe que a história da ciência deva dar conta das condições materiais, sociais e mentais da sua produção e complexidade das etapas do saber.

Ruggiero Romano (1989) nos levanta uma série de questões sobre a história demográfica, baseando-se em trabalhos de Jacques Ruffié. Nas décadas de setenta com o advento da informática leva a associação mais rápida dos estudos quantitativos na história que estava associada principalmente com a história econômica. O olhar do historiador sobre a história da sua disciplina desenvolveu recentemente um novo setor especialmente rico da historiografia: a história da história. A história da historiografia toma como divisa a palavra de Croce: toda a história é história contemporânea e o historiador, de sábio que julgava ser, tornou-se um forjador de mitos, um político inconsciente.

As manifestações de etnocentrismo entram no período da formação das teorias evolucionistas do final do século XIX, quando a história estava institucionalizada como instrumento pedagógico dos Estados Nacionais modernos. As manifestações de etnocentrismo histórico foram registradas por Roy Preiswerk e Dominique Perrot, que apontam as formas de colonização da história pelos ocidentais: a ambigüidade da idéia de civilização, o evolucionismo social, a escolarização como medida de superioridade de um povo sobre outro, a idéia de superioridade, os valores, a legitimação das ações do Ocidente, a transferência intercultural das estruturas, o uso de estereótipos para classificar ou desqualificar determinado povo. Esses elementos estiveram presentes no casamento entre história e antropologia no final do século XIX.

O resultado desse processo foi trágico: esses elementos levaram as guerras mundiais que foram alimentadas ideologicamente pelas teorias étnico-nacionalistas, aos conflitos centro-periferia do processo de descolonização e imigração das décadas de 50,60 e 70. Esses aos acontecimentos tiveram ainda um grande motor de transformação, em função da chamada grande revolta estudantil de 1968, que criou bases para as mudanças no campo teórico e metodológico da historiografia. Esses acontecimentos levaram vários intelectuais criarem novas linhas de pesquisa nas universidades européias guiadas por uma nova concepção de olhar o passado.

Vale destacar os estudos sobre o estruturalismo de Claude Lévi-Straus que aproximou como poucos a antropologia da história. Há um estruturalismo extremamente caro aos historiadores: o estruturalismo genético do epstemólogo e psicólogo suíço Jean Piaget, segundo o qual as estruturas são intrinsecamente evolutivas.

Eric Hobsbawm assinala que a nova história tem, em primeiro lugar, objetivos de expandir e aprofundar a história científica, apesar dela ter encontrado problemas, limites e talvez impasses. No ensaio The Revival of Narrative, Lawrence Stone verifica a existência de um regresso ao conto em história, baseado na falência do modelo determinista de explicação histórica, na decepção causada pelos magros resultados obtidos pela história quantitativa.

Le Goff finaliza sua análise destacando a crise do mundo dos historiadores e das incertezas da nova história, refletindo sobre o desencanto dos homens face às durezas da história vivida. Todo o esforço para racionalizar a história, oferecer-lhe melhores pontos de vista sobre o seu desenvolvimento, se choca, segundo ele, com a incoerência e a tragicidade dos fatos, das situações e das evoluções aparentes.

A critica que podemos lançar no texto é a referencia que Lê Goff faz ao abordar a história quantitativa e não faz nenhuma referencia a prosopografia, que se desenvolveu nos anos setenta, mesmo fazendo referencia a Lorence Stone, que foi umas das principais autoridades a retomar os estudos dessa metodologia.

 

REFERÊNCIAS

BURGUIÈRE, André. Dicionário das Ciências Históricas. Trad. Henrique de Araujo Mesquita. Rio de Janeiro: Imago, 1993.

BRAUDEL, Fernand. A dinâmica do capitalismo. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1987.

LE GOFF, Jacques. “História hoje”. In: ____. História e memória. Campinas, SP: Edit. Unicamp, 1990, p. 127-146.

ROMANO, Ruggiero. Mecanismos de conquista colonial. São Paulo: Perspectiva, 1989.

SIMIAND, François. Método Histórico e Ciência Social. Tradução de José Leonardo do. Nascimento. Bauru/SP: Edusc, 2003.

WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: Editora da UnB, 1999. (Vol.I e II).

“Não imaginávamos que existia mais fascistas do que gays dentro do armário”: o Brasil à beira do abismo.

Eri Cavalcanti

Doutor em História pela UFPE e professor da Unifesspa

 

Este texto, como qualquer outro, carrega as marcas do tempo de sua gestação. Outubro de 2018. Começo esta escrita com um profundo sentimento de angústia, de aflição e de indagação sobre os muitos “porquês” que podem explicar o cenário catastrófico que se aproxima de forma tão violenta para o País.

Durante muito tempo, usava-se a expressão “sair do armário” para se referir às atitudes em que um homossexual se revelava gay perante a sociedade. Permanecer no armário, portanto, era resultante de um conjunto de práticas por meio das quais a sociedade reprimia toda forma de expressão dos sentimentos homoafetivos. O ato de sair do armário representava romper com o silêncio. Significava tornar presente um sentimento. Era sinônimo de fazer ver; de fazer-se presente; de sair da invisibilidade; de mostra-se e marcar uma presença. Entretanto, no cenário das eleições de 2018, outras “coisas” estão saindo do armário. A cada dia, deparamo-nos com inúmeras cenas em que as pessoas se colocam como representantes de ideias antidemocráticas.

Cresce o número de pessoas que externaliza e se identifica com ideias literalmente fascistas. Elas se orgulham, até, de se autodenominarem machistas, homofóbicas, misóginas, racistas; e publicam isso. Falam abertamente que negros devem voltar à senzala. Que as mulheres devem ficar submissas aos homens. Que os gays devem ser espancados para se consertarem. Que os indígenas são preguiçosos e não devem ter direitos a terra, cultura, liberdade e vida. Nessa dimensão, poderíamos dizer que o fascismo está saindo do armário e, com ele, estamos percebendo que existia muito mais fascistas enrustidos do que imaginávamos.

Em 2005, iniciavam as minhas pesquisas sobre ditadura militar no Brasil. Há exatos 13 anos começavam os estudos sobre o período ditatorial de 1964. Quase todas as vezes que ia aos arquivos do DOPS-PE, um sentimento me fazia companhia. Certo “ar de surpresa” misturado com algumas pitadas de “indignação”. Esses sentimentos eram constantes quando me deparava com as delações publicadas nos jornais ou nos órgãos de segurança. Diversos cidadãos civis eram estimulados a delatar as pessoas do seu convívio social que poderiam ser consideradas uma ameaça à segurança do País porque discordavam politicamente dos ditadores. Também me causava surpresa perceber, nos jornais, diversas publicações narrando que inúmeras mulheres católicas estavam indo às ruas para pedir que os militares invadissem o Brasil e derrubassem os governos eleitos para impedir que o comunismo triunfasse no País.

Ao olhar aquelas reportagens e as delações feitas nos órgãos de segurança — que contribuíram significativamente para a instauração e consolidação da ditadura, e que depois foram usadas para justificar as mais horrendas torturas — eu me perguntava “como era possível?” Como alguém poderia ir até a polícia e delatar seu vizinho porque ele pensava politicamente diferente? Como poderiam entregar aos militares pessoas que apenas discordavam e defendiam projetos políticos distintos? Confesso que, em alguns momentos da pesquisa, até imaginava que essas ações ocorriam porque a sociedade naquela época era atrasada ou desinformada. Imaginava que, atualmente, jamais iria ocorrer algo parecido. Que nos tempos atuais, as pessoas eram mais tolerantes, mais bem informadas, mais respeitosas com as diferenças. Lamentavelmente, eu estava muito enganado.

Desde a reeleição de Dilma Rousseff para presidente do Brasil, em 2014, temos assistido a inúmeras demonstrações de atitudes violentas. São pessoas que desferem agressão verbal ou física como forma de lidar com atitudes e/ou pensamentos contrários aos seus. O cenário das eleições de 2018 se tornou ambiente de guerra. Uma simples acessada às redes sociais pode nos servir de termômetro para visualizar e ter uma dimensão parcial do clima de enfretamento extremo que estamos vivendo. A violência não está limitada aos espaços virtuais. Estendem-se às ruas. Está na esquina. Está na padaria. Na farmácia. Na escola.

Cada vez mais, inúmeras pessoas se sentem autorizadas a verbalizar seus preconceitos. A externar seu ódio. Colocam para fora sua ira, seu rancor. Multiplicam-se os exemplos de atos violentos contra as mulheres, contra os negros, contra os gays, contra os indígenas. Essas pessoas estão saindo do armário e demonstrando uma face de perversidade e violência que deve nos deixar em estado de alerta. Na disputa pela presidência, no cenário atual, o candidato Jair Bolsonaro (PSL) apresenta um longo histórico de demonstração de desrespeito aos principais fundamentos do estado democrático de direito. Já expressou ser contrários às políticas públicas em defesa dos indígenas. Já demonstrou não concordar com que a mulher tenha salário igual ao do homem. Ele incita a violência, cotidianamente, e defende a liberalização e o uso de arma de fogo. Já demonstrou, expressamente, atitudes de preconceito a homossexuais, a negros e a migrantes. Já foi desrespeitoso com jornalistas quando discordaram dele. Os exemplos são muitos.

Por meio de seus discursos, o candidato do PSL parece demonstrar uma representação típica de um candidato fascista. Um candidato que coloca a democracia em perigo. Seus discursos, posturas e atitudes corroboram com essa interpretação. Inúmeros jornais, sobretudo da imprensa estrangeira, têm sinalizado o perigo e a ameaça que ele representa para a jovem democracia do Brasil. Em contrapartida, os principais órgãos da imprensa, no Brasil, têm feito vista grossa a essa ameaça. Alguns, como a evangélica TV Record, fechou alianças com esse candidato.

É oportuno ressaltar que não existe lugar para a neutralidade. Todos os órgãos de imprensa que se omitem estão contribuindo com o cenário de conflito e ajudam a fortalecer o crescimento das ideias fascistas no Brasil. Optar em não fazer a crítica e mostrar o perigo é ser também responsável pelas consequências dos atos de violência que crescem em solo adubado pelo ódio no Brasil nesse momento.

Os dados da votação do primeiro turno sinalizam um conjunto de questões que merece ser colocado à discussão. Como podem tantas pessoas se identificarem com as ideias expostas pelo candidato do PSL? Como é possível tamanha adesão às ideias antidemocráticas que estimulam a violência e o desrespeito? Não se tratam de grupos isolados, mas de quase 48 milhões de pessoas que, de alguma forma, identificaram-se com as ideias desse candidato.

Talvez não caiba o sentimento de surpresa. Se formos tomados pelo pesar e lamento, não podemos continuar apenas com a indignação. Talvez tenhamos que rasgar a cortina para despir alguns “elementos” da sociedade brasileira. Por que será que a imprensa internacional já sinalizou a gravidade da situação e nossa imprensa permanece quase que muda e surda? Não acredito que seja questão de cegueira. Talvez seja questão de conivência, às vezes velada, às vezes explícita. Por isso, acredito que é necessário expor a carne podre e o pus que também formam parte da cultura brasileira, sobretudo de uma parte da população que se identifica com os valores antidemocráticos do candidato do PSL.

Por que tantas pessoas estão expressando seu ódio aos gays, por exemplo? Será porque, simplesmente, o inominável candidato também destila seu ódio a esse segmento social? Não acredito. Há bastantes indícios para acreditar que, na sociedade brasileira, existiam mais fascistas dentro do armário do que gays. Há muitas razões para o “coiso” — como ficou conhecido — ter obtido tantos votos. Uma delas, certamente, é a identificação entre o que as pessoas acreditam/pensam/desejam e o que ele representa. Nesse sentido, a adesão e o voto a esse candidato expressam muitos signos e significados dos seus eleitores.

Por esse ângulo de percepção, todos aqueles que se identificam com um projeto de sociedade progressista, menos desigual e mais justa falharam em alguma dimensão. Todos nós, em certo sentido, falhamos. Não podemos negar o caráter violento da nossa cultura. Não podemos esconder o pus vivo que pulsa nas veias dos sentimentos racistas de milhares de brasileiros e brasileiras. Não podemos esconder que corre o sangue machista nas posturas de milhares de homens que ainda acreditam que o lugar da mulher é na cozinha e que estão empenhados em fazer isso acontecer. Não há como esconder que temos uma larga parcela da população que é homofóbica, que deseja o extermínio do gay e da lésbica ou de qualquer um que não se enquadre em seu modelo heteronormativo. Não podemos negar que uma grande maioria de brasileiros destila um virulento ódio às minorias socialmente discriminadas.

Pulsam nas veias de uma larga maioria de brasileiros e brasileiras o ódio, a ignorância, o racismo, o machismo, a misoginia e a homofobia. Como podemos ter ignorado por tanto tempo esses elementos que agora saltam aos montes como serpentes famintas? É muito difícil pensar na construção — e talvez na reconstrução — de uma sociedade com tamanha adesão ao fascismo. Mas é urgente. Falhamos enquanto sociedade. Falhamos enquanto cientistas, pesquisadores/professores, formados em uma ciência que ignorou demasiadamente suas relações com a sociedade para além dos seus interesses meramente técnicos e metodológicos. Mas não há tempo para choro ou lamento. Resta-nos o combate com os nossos instrumentos dentro dos nossos espaços de atuação e condições de luta. Nossa sobrevivência não está garantida. Poderemos ser destruídos como pessoas, como sujeitos. É destruição que se projeta, e não é no sentido metafórico, lamentavelmente. Destruição simbólica. Destruição sentimental. Destruição física. Destruição existencial.

Finalizo essas palavras com dor, pesar, lamento, indignação, revolta, angústia e decepção. Mas, também, com a certeza de que TUDO é movimento, que TUDO é construção e reconstrução permanente. Finalizo com a certeza de que, se abandonarmos a luta em defesa dos nossos princípios, estaremos desistindo da vida, dando de bandeja a vitória ao fascismo. Já sobrevivemos a uma ditadura militar que vigiou, controlou, puniu, perseguiu, prendeu, processou e matou seus opositores. Espero que nunca mais isso volte a acontecer, mesmo já aparecendo sinais que indicam a real possibilidade da violência tomar conta da nossa sociedade, como ocorreu com o mestre Moa do Catendê, morto à facada por ter expressado que votou no PT ontem nas eleições presidenciais.

 

Imagem publicada no Jornal Extra, edição de 08 de outubro de 2018.

Todos aqueles que estimularam o ódio e promoveram o discurso de violência tem sua parcela de responsabilidade. Todos os órgãos da imprensa que, da mesma forma, estimularam o ódio ou se calaram diante do crescimento das ideias extremistas — que pregam a violência e a intolerância — têm igualmente sua parcela de responsabilidade nesse crime e em todos outros que estão ocorrendo ou que podem vir a ocorrer.