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Educação & Cotidiano

MORAL E BONS COSTUMES

Rio de Janeiro: o prefeito manda recolher revistas na Bienal do Livro por “conteúdo ofensivo”.
Porto Alegre: a presidente da Câmara Municipal censura uma exposição de cartuns políticos.
Salvador: um vereador tenta proibir a tradicional realização de desfile de carnaval na manhã da quarta-feira de cinzas, por “ofender a religião”.
Algum lugar: um vereador licenciado do Rio de Janeiro publica post contra a democracia, e diz que foi mal interpretado pela “mídia canalha”.

Nenhuma dessas medidas teria possibilidade de prosperar por ofenderem o bom senso e afrontarem a Constituição. Seriam seus autores insanos? Talvez, mas há método na sua loucura, nenhum deles é ingênuo porém grande parte de seus eleitores e seguidores é. Divulgar sandices como a planura da Terra, atribuir a autoria das letras dos Beatles ao filósofo Theodor Adorno (que nunca praticou astrologia, a propósito), elogiar ditadores, ditaduras e torturadores, tentar impor uma visão obscurantista do mundo; tudo isso impressiona os incautos e rende votos e “likes”.

“O fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante fascinada” (Engenheiros do Hawaii).
Os novos candidatos a Savonarola, além de geralmente serem também candidatos a outras coisas, dizem-se guardiães da moral e dos bons costumes, como se estas práticas necessitassem de paladinos quando sinceras; geralmente não são. Imoral é a existência de crianças passando fome, dormindo na rua, sendo exploradas sexualmente; imoral é que os assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes, e muitos outros, permaneçam impunes; mau costume é roubar dinheiro público; mau costume é a prática de nepotismo; mau costume é destruir o meio ambiente e o futuro do país; mau costume é explorar a boa-fé do próximo.

O mais chocante nos fundamentalismos é a sua essência mais profunda, a crença de que não basta a liberdade de crer no que se queira e praticar os atos que desejar, desde que dentro da lei. O fundamentalista apenas se sentirá seguro em sua doutrina religiosa ou política se conseguir impô-la, pela violência se necessário, a todos os demais. É muito diferente do prosélito que abre mão de seu descanso nos finais de semana para tentar convencer, pacificamente, seus vizinhos da verdade em que acredita, embora muitas vezes os vizinhos não o acolham exatamente com paciência.

Uma batalha enfim vencida pela sociedade foi a aprovação da Lei que instituiu o divórcio no Brasil, em 1977. Durante as escaramuças que a antecederam, grupos conservadores bradaram aos Céus e à Terra que o país inteiro mergulharia no inferno e na licenciosidade se adotasse uma legislação praticada na maior parte do mundo, e que tratava de uma questão de foro íntimo das pessoas.

De nada adiantava o argumento de que o divórcio seria apenas permitido, não obrigatório, o importante parecia ser o ato de controlar a vida familiar dos outros; e são as mesmas pessoas que hoje preferem ignorar feminicídios e outras agressões em família, dizendo cinicamente que “em briga de marido e mulher ninguém põe a colher”.

O mesmo ocorre com diversas outras questões ainda controversas, liberação da maconha para fins medicinais, permissão de aborto em determinadas situações, casamento entre pessoas de mesmo sexo; evidentemente não ocorre a nenhum dos defensores dessas medidas obrigar sua prática a quem não o deseje, mas a tentação de controlar a vida das pessoas é muito forte.

No momento em que a cultura e a educação parecem ofender a muitos, em que se tenta cingir a educação a um gueto de onde “não incomode a ignorância”, precisamos ter o máximo empenho para preservar estes valores, não apenas no interesse de quem os reconhece, mas também pelo bem e independência presente e futura de todo o nosso país.

Consumo e Educação

Certamente na sociedade contemporânea o consumo de bens, serviços e produtos tornou raros os objetos que se oferecem isolados, sem o contexto de outras circunstâncias significativas, ou seja, consumimos isso em função daquilo; e normalmente para adquirimos mais projeção social e imagem poderosa.

Cultuamos e admiramos o novo, o que provoca o surgimento de objetos em grande velocidade, e chamamos a isso “sociedade do desperdício”, pois pelo novo dilapidamos, gastamos e jogamos fora aquilo que nem terminamos de entender e saber utilizar, como é o caso de novos celulares, substituídos bem antes de utilizarmos com eficiência os mais antigos. Outro nome para este fenômeno é Sociedade de Consumo, aquela cujo prazer está ostentação, na riqueza, no desperdício. Nossas roupas vão mudando a cada ano, e cada estação tem tendências diferentes, artifícios que persuadem o consumidor a comprar outros produtos, de certa forma moldando os próprios processos sociais, e até mesmo o consumo da cultura é atropelado pela propaganda e modismos.

Evidentemente o sistema educacional não pode escapar desta engrenagem, pois este também constitui fator de singularização de pessoas e grupos, é criação de uma certa comunidade, reflete seus valores, suas atitudes e formas de comportamento, e define os parâmetros do que é desejável ou não para esta sociedade específica, e até o que ela denomina arte. O consumo de massa determina o desejo dos jovens, e o novo, seja ele qual for, tem a predominância da sensação de que o mundo é ilimitado em seus recursos, e poderemos consumir desenfreadamente.

 

As motivações e atitudes dos mais jovens, julgadas por eles como pessoais e únicas, revelam normalmente serem consequência e expressão das respectivas vivências familiares através das gerações. A história vivida de forma geral corresponde à história genealógica, pois é ali que adquirimos hábitos alimentares, de vestuário, de diversão, de convivência social, que levaremos às escolas e mais tarde ao mundo do trabalho.

O desejo é a mola propulsora da vida, e certamente as mudanças sociais relevantes deveriam ser despertadas pela escola, dado que as grandes transformações dificilmente se originam de grandes acontecimentos – talvez com exceção dos profundamente dramáticos -, mas sim de pequenas ações cotidianas, simples e persistentes. Se a escola deve despertar no aluno a capacidade de compreender e atuar no mundo em que vive, uma das primeiras noções deve ser a capacidade de refletir sobre suas reais necessidades, a diferença entre seus desejos e seus reais direitos.

Aprender a respeitar normas escolares, as regras e leis comunitárias é repensar o mundo. O efetivo aprendizado escolar é relacionado a muitos fatores, e oscilamos entre o excesso e a total carência dentro dos ambientes escolares, dependendo da região em que se instalam. Mas é inegável que mesmo nas comunidades de baixo poder aquisitivo o consumo está preenchendo uma função acima e além daquela de satisfação de necessidades materiais e de reprodução social, tendo adquirido na sociedade contemporânea uma dimensão e um espaço que provoca exibições nas mídias sociais até de comportamentos ilícitos e perigosos, pelo desejo de fama, de demonstração de poderio econômico ou social.

Um certo despego da cultura tradicional acelera o processo, pois não mais desejamos sobressair pelo conhecimento, e sim pela posse de bens materiais e acesso a tudo o que for desejado pela maioria. A educação trabalha na transmissão de categorias tão distintas como literatura, herança cultural, música, esportes, estilos de lazer. Num país de profundas desigualdades muito raramente ela tem efetivamente diminuído as diferenças e promovido inclusão, pois apenas uma boa qualidade instrutiva poderia alcançar estes objetivos.

Segurança nas Escolas e Comunidades

É lamentável que certas escolas de ensino fundamental ou médio, instaladas em áreas distantes e de entorno com população carente, sofram muitas vezes sérias consequências da insegurança de toda a região. São instituições fechadas por grades e cadeados, em que não apenas os alunos, mas também professores e funcionários estão submetidos a um eterno receio de assaltos e violências, tornando o período escolar desagradável para uma comunidade que, como todas as outras e talvez um pouco mais que algumas, precisa do sistema educativo como chance de melhorar suas próprias condições econômicas e sociais.

Políticas com o objetivo de prevenção da violência criminal não costumam ser políticas estruturais, de longo prazo, que atuam sobre as macroestruturas socioeconômicas do país, e desmerecemos aquelas tópicas, que combatem a inercia: “enquanto não eliminarmos as grandes mazelas fundamentais da sociedade brasileira, nada se pode fazer para melhorar a segurança”, assumido por aqueles cuja crença é de que ou se faz tudo, ou nada é possível fazer; ou erradicamos as causas todas do crime, ou estaríamos condenados a enxugar gelo.

Negando a viabilidade de soluções a curto prazo, conduzimos a população à descrença e frustração, fatores de risco para que prosperem propostas descabidas e autoritárias de combater violência com mais violência, armando a população, cercando favelas, erguendo mais muros, trocando a segurança pública pela privada, incentivando a brutalidade, a pena de morte, o justiçamento.
Pesquisas bem realizadas mostram, no entanto, que estabelecer ações públicas de natureza preventiva com resultados rápidos, é eficiente mesmo não atuando sobre causas estruturais do problema.

Ou seja, agir de modo eficiente, rapidamente e mobilizando poucos recursos, sobre o fato a ser modificado pode representar um alento àqueles que necessitam soluções; incluindo aí a prevenção. Mesmo que políticas preventivas não promovam mudanças estruturais e não impeçam o retorno do problema, podem salvar vidas, reduzir danos e sofrimentos, equilibrando as pessoas e instaurando melhores padrões de comportamento.

Isso tem consequência a médio prazo, pois práticas de crimes afastam comércio, serviços e empresas da região em que se tornam frequentes, e este fator contribui para o aumento do desemprego, que por sua vez amplia as condições para o crescimento de certas formas de criminalidade, beneficiadas pela sensação de impunidade, fechando um ciclo perverso em torno deste eixo. Até porque o contrário é absolutamente verdadeiro, quando reduzimos a criminalidade atraímos mais pequenos negócios cujos donos, sentindo-se seguros, oferecem mais empregos.

Agir correta e rapidamente sobre a propagação de crimes reduz o número de vítimas, o risco, a sensação de insegurança, mesmo que não atue sobre cerne exato do problema; aumentar fiscalização, adequar áreas de lazer para a comunidade, oferecer equipamentos esportivos e palestras em centros comunitários – que podem ser feitas por instituições de ensino superior como parte de suas atividades extensionistas – versando sobre saúde, empregabilidade, empreendedorismo, segurança, Lei Maria da Penha, qualidade de vida e muitas outras, podem ser valiosos auxílios.

É preciso evitar a todo custo que o crime se torne causa do crime, e isso pode ser auxiliado pela melhoria financeira e maior preparo para as diversas esferas da vida social. Isso prepara o caminho para a perda de relevância sobre a distinção entre políticas preventivas estruturais e localizadas, pois ambas são importantes, não se justificando sacrificar uma em detrimento de outra, o que apenas contribui para o imobilismo.

 

A NATURALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA

Em todas as mídias assistimos ao crescimento da violência entre jovens, marcadamente entre os rapazes, fenômeno visível infelizmente nas escolas atualmente, pois envolve não apenas as rixas entre eles mesmos, mas também contra as garotas (aos poucos igualmente incrementando suas desavenças) e inclusive professores.

Isso abrange todas as classes sociais, e nos referimos à verdadeira banalização da violência nas várias esferas das relações comunitárias, que aparentemente subsidiam uma “naturalização”, ou seja, representações que legitimam tais comportamentos, com o individualismo, consumismo e uma verdadeira competição sobre quem é mais forte ou descolado, que promovem enfraquecimento do respeito pelo outro.

Acabamos de assistir mais um exemplo da absoluta falta de empatia no episódio do jovem perturbado que sequestrou um ônibus e manteve dezenas de pessoas presas dentro dele. Embora polícia tenha agido corretamente, negociando com a serenidade possível, infelizmente o desfecho, num cenário em que aparentemente nada mais pôde ser feito, foi concluído com autoridades, vindas depois de terminado o perigo, comemorando o evento como se fosse a obtenção de um campeonato de futebol, e não uma tragédia que traumatizou pessoas e terminou com a morte de um ser humano.

Uma vida mais virtual que real tem como consequência a alienação nas relações sociais, e os discursos supremacistas sem um mínimo de civilidade de nossos governantes, trazem cada vez mais violência na convivência entre os gêneros, estabelecida a partir de uma ordem social na qual simbolicamente a dominação masculina é preponderante.

Quando legitimamos o domínio do masculino sobre o feminino nesta ideologia de supremacia, estamos outorgando aos homens, que tendem a considerar hegemônica a dominação como pertença da masculinidade, o direito de usá-la.

Tudo se passa como se um jovem, para obter o status de homem, tenha violência como elemento da construção de identidade, entendida como o conjunto de valores, atributos e comportamentos esperados numa determinada cultura. O conceito desta identidade varia, portanto, com características de algumas classes sociais dentro de um mesmo país, e se diferencia de um país para outro, porém sempre vinculado a contradições internas na assimilação de modelos e rupturas históricas. E é ideologicamente voltado à masculinidade pela heterossexualidade, racionalidade e privilégio no uso da violência.

O envolvimento de homens em homicídios e acidentes de trânsito, tanto como vítimas quanto como autores estão certamente associados a dois símbolos masculinos: armas (poder de vida ou morte sobre o outro, subjugação de vontades); e carros (demonstrativos de poder econômico, status, velocidade e, principalmente, liberdade).

Brinquedos presentes desde cedo na vida de meninos celebram este universo e formam o contexto de sua vida futura. Na juventude, seus grupos étnico/racial, gênero, nacionalidade, trarão a base histórica nacional e regional do “ser homem” que perdurará. Brigas entre distintos grupos já demonstram a magnitude da violência vivida na esfera pública, muitos chegando à agressão física.

Desigualdades socioeconômicas, questões de ordem territorial em áreas consideradas de risco podem agravar o problema, instituindo o processo de naturalização destas características do modelo preponderante, que passam a ser vistas como manifestação biológica.

A única possibilidade de enfrentamento da questão passa efetivamente por um bom sistema educacional, envolvendo crianças e homens jovens como protagonistas da construção de um olhar a partir de outros horizontes; reconstruindo novos sentidos para que possam conceber novas formas de convivência que desnaturalizem a violência como natural do masculino, possibilitando a perspectiva do cuidar de si e dos outros, diminuindo riscos para tornar a vida e as relações mais saudáveis.

Woodstock 50 anos

Os anos 1960 foram marcados por acontecimentos dramáticos e dolorosos, assassinatos, golpes de estado, ditaduras, terrorismo, a escalada da guerra no sudeste asiático, e outros, muitos outros. E também em 1969 a nave Apollo 11 “alunissou” em nosso satélite natural; uma conquista comparável às navegações portuguesas de quinhentos anos antes.

Nesta década houve uma explosão cultural, a chamada contracultura era a sedimentação de muitas vertentes do pós-guerra, os beatniks com seu niilismo e desgosto com a “sociedade materialista” antecederam os hippies, poetas e escritores levaram o experimentalismo nos temas e na linguagem ao extremo. Mas foi na música que o movimento atingiu ares de revolução, dignos filhos do jazz, do blues e do folk, o rock e suas variações tomaram o mundo; em nosso país tivemos a “Jovem Guarda” e o Tropicalismo.

Os jovens ocupavam espaços. Na França teriam derrubado o governo De Gaulle se não tivessem sido abandonados pelos comunistas, seus aliados que se assustaram com tanta rebeldia. Nos Estados Unidos, pela primeira vez praticamente uma geração inteira se recusava a ir à guerra, os filhos dos veteranos da Normandia, de Iwo Jima e da Coreia, não viam sentido no Vietnã; e muitos se refugiavam em paraísos lisérgicos e em empreitadas “espirituais” como tentar levitar o Pentágono através da meditação coletiva.

No Brasil uma ditadura se agravava à medida que a década chegava ao fim, estudantes protestavam como podiam e muitos aderiram à luta armada, sendo dizimados pela repressão. Os adolescentes se reuniam, o instinto gregário que sempre caracterizou a juventude se manifestava onde quer que houvesse um violão, uma música, uma ideia. Então, num misto de idealismo cultural e senso de oportunidade empresarial, quatro jovens americanos decidiram promover um festival de música e arte.

Foi há cinquenta anos, entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969, e ocorreria em Woodstock no estado de Nova York, donde o nome que foi imortalizado “Festival de Woodstock”. No entanto, por excesso de público, foi transferido para uma fazenda próxima na cidade de Bethel, também em NY.

O zeitgeist, o espírito do tempo era favorável: nunca antes, desde a “conquista” do Oeste e a corrida do ouro, a América tinha convivido com tantos “nômades”, aqueles que em gerações anteriores estariam comodamente instalados em casa ou em dormitórios universitários agora “pegavam a estrada”, uma peregrinação em busca de paz e amor, e de um sentido para a vida que parecia ter se perdido.

Os organizadores venderam quase 190 mil ingressos, mas algo como meio milhão de pessoas compareceu, pressionando a entrada e derrubando barreiras, tornando o evento em grande parte gratuito. A música executada foi quase toda ela de excelente qualidade, com artistas como Janis Joplin, Jimi Hendrix, The Who, Creedence Clearwater Revival, Grateful Dead, Joan Baez, Joe Cocker e outros, dando o tom para o que se faria nas décadas seguintes.

Ali se aprendeu a comer granola, mistura de cereais e sementes que os fazendeiros das imediações forneciam gratuitamente aos jovens esfomeados e que não dispunham de meios e de estrutura para obter alimentos. Exemplo de solidariedade, ditada em parte pela prudência, mas que ficou.

O que também marcou o festival foi a plateia, parte drogada, cabeluda, colorida; toda ela contra a guerra do Vietnã, a música catalisou a expressão política e muito pouca violência foi registrada. Paz e Amor foi mais do que discurso.
O evento foi transcendido pela própria importância simbólica, definindo tempo e sociedades em mutação, mesmo onde pouco se ouvia falar em rock e “músicas de protesto” eram brutalmente censuradas, a notícia se espalhou. Os grandes festivais que vieram a seguir, em toda parte e de todas as vertentes, são tributários de algum modo a Woodstock.

Foi há cinquenta anos, e os ecos são ouvidos até hoje.