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Ecos da Urbanidade

A ciranda: uma manifestação popular protagonizada por mulheres

(Texto escrito por Lorena Galati)

Conhecem a Lia de Itamaracá? Um exemplo da cultura popular nordestina, conquistou o título de Ponto de Cultura Lia de Itamaracá e de patrimônio vivo pelo ministério da cultura em 2005.

Jornais internacionais como The New York Times e Le Parisien reconhecem o potencial artístico de Maria Madalena Correia do Nascimento, conhecida como Lia de Itamaracá. Em 2005 Lia conquistou a Medalha do Mérito Cultural Gilberto Freyre e foi eleita como patrimônio vivo em Pernambuco, contudo, poucas pessoas no Brasil sabem de sua existência.

Cantora tem objetos e figurinos expostos na mostra. Crédito: Exposição Lia – a ilha e a ciranda/Divulgação Jornal Diário de Pernambuco, 2013.

 

A ciranda: manifestação da cultura popular

Os primeiros estudos sobre a origem da ciranda se dão na década de 1960 e apontam que as origens da dança em Portugal, chegando ao Brasil no século XIII. A ciranda foi categorizada nesses estudos  como “manifestação folclórica pertencente aos populares”. Inicialmente era praticada na beira do mar, ruas e terreiros. Nos anos 1950, há relatos de que as cirandas eram praticadas para além do litoral, adentrando nos interiores  de Pernambuco. A partir da década de 1970, começa a ser apropriada por artistas de outros recortes sociais. Aos poucos a ciranda vai se metamorfoseando e se tornando um espetáculo para além das fronteiras dos vilarejos caiçaras, se tornando uma  dança “da moda”, embora tenha suas origens populares passa a ser praticada em pontos turísticos de Pernambuco.

Segundo Elvira Amorim “a ciranda era considerada uma arte espontânea: a dança, em círculo, de mãos dadas, sem preocupação com a formação de pares, ou a divisão de sexo.” A ciranda dissemina a cultura oral, manifestação popular protagonizadas também por mulheres brasileiras, como Lia de Itamaracá e as filhas do mestre de ciranda Baracho, Dulce e Severina que cresceram nas rodas e cantigas de ciranda.

Ícone cirandeira, Lia de Itamaracá

Eu Sou Lia Lia De Itamaraca Brasileira, Álbum lançado em 2000.

A cirandeira, compositora e cantora Lia de Itamaracá é um referencial da nossa cultura popular conhecida internacionalmente, esta artista é expoente das rodas de ciranda, que tem suas origens em terras portuguesas, praticada por crianças e ao chegar ao Brasil teve influência africana e indígena, passou a ser praticada no Brasil por diversas idades.

Foi lançado em 2017 uma série pelo canal Curta! intitulado Memórias do Brasil com treze programas e cada um deles apresenta um ícone da cultura brasileira, o Lia de Itamaracá – Rainha conta sua vida e obra, e mostra que artista já era conhecida aos seus 19 anos nas rodas de ciranda, que teve uma infância pobre na ilha de Itamaracá e como a ciranda entrou em sua vida. Pode-se dizer que é a cirandeira mais conhecida do Brasil, que começou a fazer participações na década de 1970 em obras musicais de Teca Calazans e de Capiba e no fim da mesma década gravou o seu disco “Lia de Itamaracá”. Em 2000 lançou o CD Eu sou Lia que foi comercializado nos Estados Unidos e na Europa. Existem diversas canções que citam seu nome, artistas renomados como o Paulinho da Viola (em Eu sou Lia [Ciranda de Lia]), Clara Nunes, Ney Matogrosso, entre outros. Dessas canções, uma parte são de autoria da própria Lia, mas também há as que são de domínio público e de outros compositores. Essas músicas estão na boca do povo, porém grande parte do público que cantam não sabem que Lia de Itamaracá não se trata apenas de uma personagem mítica e sim de uma artista real, que inclusive faz turnês internacionais.

 

Lia de Itamaracá é um referencial da cultura popular brasileira, entretanto, a falta de divulgação científica sobre a cultura popular nordestina e desvalorização das compositoras brasileiras é um dilema a ser superado no país.

Fontes bibliográficas

FRANCA, Déborah Gwendolyne Callender. Quem deu a ciranda a Lia? : a história das mil e uma Lias da ciranda (1960-1980) / Déborah Gwendolyne Callender França. Recife: O autor, 2011. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/7737/1/arquivo7662_1.pdf Acesso em: 2019.
Ibdem, QUEM DEU A CIRANDA A LIA? NARRATIVAS ORAIS EM TORNO DOS SENTIDOS DE UMA CANÇÃO. X Encontro Nacional de História, disponível em: http://encontro2010.historiaoral.org.br/resources/anais/2/1270040269_ARQUIVO_ArtigodeHistorialOral.pdf Acesso em: 2019.Hora, Juliano. Esta ciranda quem me deu foi Lia que mora na Ilha de Itamaracá, 2016. Disponível em: https://www.geledes.org.br/esta-ciranda-quem-me-deu-foi-lia-que-mora-na-ilha-de-itamaraca/Lia de Itamaracá, 2005. Portal Cultura Pernambuco, Disponível em: http://www.cultura.pe.gov.br/pagina/patrimonio-cultural/imaterial/patrimonios-vivos/lia-de-itamaraca/ Acesso em: 2019.
LIMA, Vânia. Lia de Itamaracá, Rainha. Memórias do Brasil, média metragem. Disponível em: https://canalcurta.tv.br/filme/?name=lia_de_itamaraca_rainha Acesso em: 2019.

Lorena D. Galati
Cantora, licencianda música na ECA/USP e formada em Canto Popular na EMESP Tom Jobim

Invisibilidade e o futebol

A Carta Magna concede os conjuntos de leis é a Constituição da República Federativa do Brasil (1988), conhecida também como Constituição Cidadã. Foi elaborada através da soberania popular e visa projetar o país como Estado Democrático, possue a finalidade de assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, assim como a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça, valores supremos de uma sociedade fraterna, plural e livre preconceitos. A Constituição Cidadã se funda em prol da harmonia social e comprometida com a resolução pacífica das possíveis controvérsias. Portanto, o Brasil é regido por uma Constituição Cidadã, que fez trinta anos em 2018, ano passado.

Mas, para quê (ou quem) servem as leis?

  • Quem tem direitos? Quem tem deveres?

Percebe-se que ainda existe uma lacuna entre a teoria e a prática, entre a cidadania formal e a real. Ao mesmo tempo que o Brasil é o país do futebol e da diversidade, ainda é recheado de preconceitos e violações dos direitos mais fundamentais, como o artigo 5 que orienta que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, artigo “I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”.

Contudo, o imaginário da população brasileira demonstra um pouco da disparidade entre mulheres e homens relacionado a prática esportiva profissional, a espnW Brasil fez uma reportagem que mostra um pouco do que estamos falando:

A proibição do futebol no Brasil

Por exemplo, o futebol que cresceu como uma prática masculina causou divisões sociais ao longo do século XX. Modalidade inicialmente praticada por homens brancos e ricos. Negros e pobres não era bem recebidos, e mulheres então, só na arquibancada e em companhia masculina. Ações públicas restringiam a mulher, sendo este o espaço de sociabilidade apenas do homem. Depois passou a ser uma prática popular e parte da cultura nacional, porém ainda segregava as mulheres.

Não há uma prática de futebol feminino difundida. Nas festas de aniversários, é comum um menino ganhar uma bola e ser estimulado a prática em diversos ambientes familiares, entre amigos, e na escola, meninas jogam handebol e meninos futebol. Enfim, são alguns estereótipos ainda existentes no senso comum.

Condição da mulher no século XX

O sexo feminino foi (e por vezes ainda é) privado de práticas consideradas “contra sua natureza: de ser mãe”, as mulheres já foram proibidas de praticar esportes de contato físico. A mulher como um ser reprodutor e do lar. Educadas para reproduzir um modelo de “bom comportamento social”. Na primeira metade do século XX, as aulas de Educação Física envolviam diferentes práticas para meninas e meninos. Meninos: atividades ligadas a forma física e autonomia, meninas: aula de dança.

Em 1945, Getúlio Vargas assina um documento que restringia alguns esportes ao sexo feminino:

“DECRETO-LEI Nº 3.199, de 14 de abril de 1945 em seu artigo 54 dizia: “O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, usando da atribuição que lhe confere o art. 180 da Constituição, DECRETA: (…) Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.

(Legislação Informatizada – DECRETO-LEI Nº 3.199, DE 14 DE ABRIL DE 1941 -Publicação Original).”

 

Através da Deliberação n° 7/1965 do Conselho Nacional de Desportos (CDN), oficializada pelo general Eloy de Menezes, em seu parágrafo 2°: “Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo aquático, polo, rugby, halterofilismo e baseball” (CASTELLANI FILHO, 2008, p. 63)

Desde então, o futebol feminino é cercado de preconceitos, falta de investimento e recebe pouca atenção da grande mídia. A prática do futebol masculino pode se transformar em uma fonte de renda, já para a mulher é muito raro se profissionalizar, assim no geral, somente os sonhos e a vontade de jogar que farão com que elas permaneçam na modalidade.

✘ Mas será que a maternidade era o real motivo das proibições?

Nos parece que a prática do futebol feminino causa(va) na sociedade e nos homens uma inversão de valores, pois ao sair de sua casa, a mulher deixava de cumprir seu papel de dona, esposa e mãe, causando medo no homem, que acreditava que as mulheres lhe roubariam os espaços públicos.

O futebol não é apenas um esporte, é uma reprodução social, pois desenha uma desigualdade de gênero entre os sexos que está entre nós há séculos, sendo alimentada por instituições, pela mídia e pela educação.

A mulher do século XXI

O papel social da mulher do século XXI no Brasil ainda é limitado, constituindo preconceitos em relação ao futebol e a outros esportes. Em sua grande maioria, as mulheres são encarregadas dos afazeres domésticos, ainda representadas como seres frágeis e delicados – e a prática do futebol segue constituída majoritariamente como masculina.

Contudo, em 2016 foram registradas por volta de 20 mil pessoas para assistir aos jogos femininos na Amazônia e São Paulo teve o maior público registrado nas bilheterias, mesmo em um horário comercial, porém ainda não há cobertura na grande mídia.

No Brasil, o futebol é o esporte com a maior desigualdade, maior abismo financeiro entre homens e mulheres. Segundo levantamento feito no final de 2015 pelo Portal EBC, o salário mensal do Neymar é de R$172.000.000,00 o que pagaria pagaria durante quatro anos e meio as 100 atletas dos times finalistas do Brasileirão Feminino e também é equivalente ao salário de 1693 jogadoras das sete ligas principais de futebol feminino: França, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, Suécia, Austrália e México.

No Brasil, o futebol das mulheres permanece amplamente invisível. A ginga de Marta não é percebida pelos jogadores masculinos e apoiadores do futebol. Se dentro de campo ela consegue fazer tudo que nenhum outro jogador poderia fazer, fora dos campos, o apoio da Neymar, por exemplo, poderia significar muito para uma maior exposição e apoio às mulheres. Algo que Marta, sozinha, não consegue.

Existem várias barreiras a serem superadas, listamos algumas:

  • Preconceito
  • Desinteresse dos clubes, dos patrocinadores, da mídia
  • Enorme disparidade nos salários e nos investimentos, se comparado com o futebol masculino
  • Falta de infraestrutura, apoio e incentivo (da base ao profissional)
  • Ausência de mulheres nos setores administrativos, na tomada de decisões
  • Falta de reconhecimento

Este ano terá a Copa do Mundo feminina, se possível, assistam e vejam as habilidades e competência das atletas femininas. Contribua na discussão desta temática para ampliar a valorização, bem como o estímulo das mulheres nas mais diversas modalidades esportivas.

✘Proibição http://dibradoras.com.br/por-que-o-futebol-feminino-foi-proibido-por-decadas-no-brasil/

✘Marta e as bolas de ouro x salário comparando com outros jogadores https://epocanegocios.globo.com/Informacao/Dilemas/noticia/2015/06/marta-e-neymar-desigualdade-de-salarios-e-apoio-no-futebol-brasileiro.html

✘Formiga e sua trajetória http://dibradoras.com.br/desculpa-formiga/

✘Manifesto pela visibilidade: https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2017/10/06/veteranas-da-selecao-feminina-criticam-condicoes-de-trabalho-em-carta-a-cbf.htm (recente; demissão da Emily) e velho:

✘Dibradoras: http://dibradoras.com.br/carta-aos-ceticos-do-futebol-feminino/

✘NEXO: https://www.nexojornal.com.br/reportagem/2017/05/28/No-pa%C3%ADs-do-futebol-as-mulheres-jogam-com-menos-falta-sal%C3%A1rio-p%C3%BAblico-e-estrutura

SILVA, Giovana Capucim. FUTEBOL FEMININO: PROIBIDO PARA QUEM? UMA ANÁLISE DE DUAS REPORTAGENS SOBRE O FUTEBOL PRATICADO POR MULHERES NO PERÍODO ANTERIOR A SUA REGULAMENTAÇÃO COMO ESPORTE.

Ibdem. Narrativas da Imprensa Paulista sobre o Futebol Feminino durante sua proibição (1965-1983)

Artigo feito com base em aulas realizadas em coautoria entre: Danielle Takase e Soraia OC.

Danielle Takase. Educadora. Formada em letras pela USP. Atleta integrante do coletivo Rosanegra Ação Direta e Futebol.

Um esmalte de cor arco-íris

Esta coluna, escrita pelo estudante secundarista Pedro Augusto da Costa, traz reflexões sobre psicologia, sexualidade e religiosidade ancoradas em suas vivencias e inquietações acadêmicas que, por ser sua tutora, professora e amiga o incentivei a expressar por escrito para compartilhar aqui na coluna com leitores. Pedro buscou retratar não apenas a sua realidade, mas o de muitas pessoas adeptas a religiões de matrizes africanas e homoafetivas.
Boa leitura e frutíferas reflexões! 

Adolescente líquido

A adolescência é uma fase cercada de incertezas sobre a vida, sobre como funciona esse grande organismo “sociedade”, de quem sou eu e de quem é o outro, e quando começamos a construir nossa identidade, alguns valores devem ser muito bem exercitados.

Carl Gustav Jung foi um renomado psiquiatra e psicoterapeuta, responsável pela criação de uma linha metodológica dentro da psicologia ligada à compreensão de arquétipos que constituem nossa psiquê como um todo, tais arquétipos são em sua essência um padrão de comportamento. No livro Entrevistas e Encontros, ele nos apresenta o conceito de arquétipo expondo a resposta:

“Bem, você sabe o que é um padrão de comportamento. O modo como o joão-de-barro constrói seu ninho. É uma forma herdada nele, um código inato que ele aplicará. Ou certas classes de fenômenos simbióticos entre insetos e plantas. São padrões inatos de comportamento. E o homem, é claro, também possui um esquema herdado de funcionamento. Seu fígado, seu coração, todos os seus órgãos, funcionarão sempre de uma certa maneira, cada um deles obedecendo ao seu padrão” (JUNG, p. 264, 1982)

 

Jung, 1912. Fonte: Wikipédia

Padrões, padrões e mais padrões, a vida de um adolescente atualmente é cercada de paradigmas sólidos de como devem agir, digitar, falar, vestir, gostar, ser, crer e etc, e quando um adolescente começa a criar a sua persona, construções como essas são altamente levadas em consideração, para que a psiquê do individuo possa ser conservada em aspecto social. A “persona” é um arquétipo, que possui como função a forma que o individuo se adequa ao seu meio de convivência, polindo seu comportamento mediante à esfera social em que ele está inserido.
Seu nome é inspirado pelo termo romano para designar máscara. A máscara que os atores utilizavam no antigo teatro greco-romano. Portanto, ela simboliza o rosto que usamos para o encontro com o mundo que nos cerca. Jung (1982) define persona como:

“A palavra persona é realmente uma expressão muito apropriada, porquanto designava originalmente a máscara usada pelo ator, significando o papel que ia desempenhar. Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva.”

Quando o conceito de persona é complementado pela visão de Zygmunt Bauman de uma sociedade fluída e confusa como foi apresentado em “Modernidade Líquida”, 2004, onde na sociedade contemporânea, emergem o individualismo, a fluidez e a efemeridade das relações, inferimos que tal arquétipo torna-se cada vez mais adaptável e mais raso, transformando-se então confuso, complexo e efêmero.

Máscara Veneziana. Fonte: pt.depositphotos.com

Como supracitado pela professora Soraia, sou estudante secundarista da escola pública “E. E. E. I. Papa Paulo VI”, localizada em Santo André- SP, me chamo Pedro Augusto da Costa, exemplo clássico de um adolescente que através de estudos em cima de autores como Zygmunt Bauman, Carl G. Jung, e alguns outros autores que abrangem o ramo da filosofia, sociologia e psicologia, desenvolve um olhar crítico sobre seu estado e sobre o meio social a qual pertence, e de uma forma poética, tento expor traços da minha personalidade, que abrangem desde a luta pelo respeito aos LGBTQ+ até aos “irmãos de fé”, termo utilizado por pessoas que fazem parte de religiões de matrizes africanas.

Segundo o GGB (Grupo Gay da Bahia), que monitora dados relacionados à crimes homofóbicos, um gay morria a cada 19 horas no Brasil no ano de 2017, “Tais números alarmantes são apenas a ponta de um iceberg de violência e sangue, pois não havendo estatísticas governamentais sobre crimes de ódio, tais mortes são sempre subnotificadas já que o banco de dados do GGB se baseia em notícias publicadas na mídia, internet e informações pessoais”, afirmou Luiz Mott, fundador do GGB, à Agência Brasil. Segundo a Organização esse foi o maior número registrado de crimes em 38 anos de atuação da ONG. Entre os registrados no último ano, 194 eram gays, 191 eram trans, 43 lésbicas e 5 bissexuais.

Segundo dados do Estadão, o Brasil recebe uma denúncia de intolerância religiosa a cada 15 horas, o jornal ainda expôs que o disque 100 (telefone de denúncias dos Direitos Humanos) registrou 1.988 acusações desde 2011. Em sua maioria, as queixas são feitas por umbandistas, candomblecistas e praticantes de religiões de matrizes africanas em sua totalidade.

Escrevi um texto poético intitulado como “Oxumaré” com características de um Orixá que traz como símbolo o arco-íris e com uma ligação direta à bandeira LGBTQ+. Além de divindades do panteão Yorubá, cito outras entidades mitológicas, como “Caos”, conhecido como o deus primordial do abismo: o “nada” que deu origem á “tudo”; um outro exemplo explicito em seu texto é o do deus “Antinous”, pouco popularizado pela mídia, ele é uma divindade pagã que prega a homossexualidade para seus praticantes, hoje é conhecido como “deus gay”.

Mandala em acetato tamanho 30cm em pintura vitral

Oxumaré. Mandala em acetato tamanho 30cm em pintura vitral. Fonte: Elo 7

Oxumaré, por Pedro Augusto da Costa
“O preto e branco hoje viraram um arco-íris, antes, uma bandeira que representava em si padrões binários, hoje mudou para as cores de Oxumaré, trazendo consigo a diversidade, a alegria e a leveza de finalmente poder tirar uma máscara que assombra a sociedade desde que Caos explodiu. lágrimas escorregaram no rosto de humanos, pois o lobo do homem atacou, e sua mordida arrancou o sangue e vida de milhares de pessoas por todo o mundo. Antinous se escondeu por séculos, mas hoje está abençoando seus filhos, que um dia, diante de chutes, madeiradas e pedradas chorou, olhando para o grande mar estrelado e questionou se o Deus que essas pessoas dizem seguir realmente era feito de amor, questionou até aonde o amor de seu próprio sangue vai, questionou até quando o caule dessa tão delicada rosa seria feito de espinhos, questionou até quando ele teria que ser quem não é para poder viver em paz.
Lembre-se que você não tem culpa por ter dentro de si algo tão puro, algo que grita para desabrochar e finalmente receber a luz do sol e da lua, algo que outras pessoas enxergam como um demônio, mas quem olha da maneira certa sabe que na verdade é a essência mais pura, mais preciosa do que diamante, algo que carrega com si um brilho tão forte, tão intenso que é capaz de guiar outras pessoas que se encontram perdidas dentro de si, seja o farol do mundo, lute pela sua felicidade, lute pelo amor e sua essência, e lembre-se que você irá cair, mas se erguerá mais forte, se erguerá mostrando ao mundo do que você é capaz, mostrando ao mundo quem você realmente é.”

Sofri aversões da família devido minha orientação sexual. O meu grupo de amigas na criou uma nova moda que se baseia em pintar apenas a unha do dedo mindinho de uma cor (geralmente vermelho, por uma questão de preferência em relação a nossa ideologia política), porém em uma manhã, minha irmã mais velha percebeu a pintura na unha, algo que gerou uma confusão dentro de casa. Desabafei com a tutora, professora e amiga Soraia O. Costa que me incentivou a escrever tal situação e denominei o ocorrido de Esmalte Vermelho.

Grupo de amigas. Fonte: acervo pessoal, 2018.

Esmalte Vermelho, por Pedro A. Costa
A primeira pincelada: Sempre aquela mais sutil, não demonstra sua verdadeira cor, não fica tão perceptível perto das outras unhas esmaltadas, mas mostra que está colorida, mostra que não é uma unha como as outras, e não há nada de errado nisso, na verdade, quando você entende, vira algo belo, a cor mostra sua verdadeira natureza, traz a leveza e uma gama de enormes significados, não esconde seu verdadeiro eu, na verdade o revela.
Segunda esmaltada: A unha já começa a se identificar, e sabe que não é como as outras, sabe que sua cor agora não é uma confusão, começa a entender sua estrutura, começa a entender o significado de seu pigmento, e sabe que o mundo ainda não está pronto para receber algo tão rico de si, tão belo, leve e puro. Olhos já se voltam para essa unha, e bocas já rogam pragas contra sua natureza.
Terceira aceitação: Agora que a unha se reconhece como é, ela deixa de relutar com a realidade e finalmente se aceita, mesmo sabendo que outros olhos a verão de uma forma distorcida… Quem dera esses olhos tirassem essa venda de preconceito que os deixa cegos. A unha finaliza sua transformação passando uma base de proteção, para que nada venha e retire sua cor, pois agora a unha está feliz consigo mesma, e nada poderá mudar isso, nem mesmo a mais forte acetona.”

Me considero um ativista, defensor do movimento LGBTQ+ e também das religiões de matrizes africanas. Em um trabalho escolar, escrevi um poema manifestando apoio a religião que sigo (Umbanda), utilizando as principais características dos Orixás como forma de resistência, intitulei o poema de: “Da minha terra para a minha cor”.

Da minha terra para a minha cor, por Pedro A. Costa

Na minha terra tem tambores
Onde dança Oya
As entidades que aqui habitam
Sofreram muito lá
Até os nossos ancestrais escravos
Viraram um grande alvo
Uma flecha que não veio de Oxóssi
Apagou a luz do palco
Lá no Planalto tem muita gente
Julgando tudo o que é certo
E desviando dinheiro de tudo o que está por perto
Mas nós somos filhos de Oxalá
Me de luz, conhecimento e paz, Epá Babá
Não nos deixamos aos Eguns
Não nos desgastamos por esses uns
Mas eu clamo pela força de Ogum
Agora eu só tenho força para gritar “Kao”
Me dá força e justiça papai Xângo
Sou resistente como a pedra de meu pai
Vou a gira, faço birra e danço maculelê
Tudo isso com a energia e alegria de um Erê
Isso veio da minha raiz
Nanã minha velha vó sempre me diz
“Tenha fé meu filho
Esse mundo ainda é muito infeliz”
Mas sou bravo, sou forte
Meu brado é rígido
Meu brado é como o de um Caboclo do Norte
Sou candomblé, sou umbanda sou kimbanda até a morte
Fala de amor ao próximo
Mas o próximo apedreja
O próximo é incomum
Para nós o amor é universal
Como o amor de Mamãe Oxum
Banho de boldo, guia no pescoço
Farofa pra Exu e doce pro Mirim
Arruda pro Vovô e chupeta pro Erê
Não nos julgue pelo que a gente crê
Não negue que respeitamos você.”

 

As vezes ser diferente dos padrões adolescentes não é fácil, mas sinto que quando estou cercado das pessoas certas, ser você mesmo é uma regra e que os padrões viram alvo de piadas.

A adolescência é um fenômeno estudado por diversas linhas de conhecimentos humanos e nos trazem indagações fortes sobre a nossa sociedade e como funcionam os papéis sociais que estão em função atualmente e que entrarão em exercício em um futuro distante ou não, e colocar adolescentes para participar de discussões sobre adolescência é fundamental para que possa haver um consenso entre a realidade e a teoria em si. Paradigmas e estereótipos que dizem que o jovem contemporâneo está cada vez mais desinteressado e “rebelde” são maléficos para a compreensão de culturas, de comunidades e de aspectos que rodeiam a nossa sociedade como um todo, logo discussões sobre a juventude e de papéis sociais com os jovens se torna algo cada vez mais necessário e infelizmente cada vez menos perceptível dentro de instituições.

Agradecemos a leitura e caso queira se comunicar conosco, deixe seu recado nos comentários. 

PEDRO AUGUSTO DA COSTA
ESTUDANTE DO TERCEIRO ANO DO ENSINO MÉDIO
E. E. E. I. Papa Paulo VI

União Lapa: Nossa peleja, nossa revolução

 

União Lapa Foot Ball Club

Nossa peleja, nossa revolução
Texto-relato escrito pelas mulheres da equipe de futebol (mista) de várzea

Jogadoras do União Lapa concentradas na partida. Lapa-SP, 2018.

Perguntas ecoam no ar dos campos de futebol país afora:
– Seria papel da mulher jogar futebol?
– Essa mulher poderia jogar na várzea e ainda junto com caras?

CDC Bicudão, Lapa-SP, 2018.

Só de entrar em campo com manas, o time vira “time de mina” e isso aparece como um adjetivo depreciativo vindo de uma sociedade conservadora, sexista e machista. Após algum tempo de jogo, eles percebem que não estamos de brincadeira e que vamos jogar com força e garra, de igual para igual e isto parece que afeta a masculinidade.
Muitos perdem o compasso, “Vixi, perder de time de mina não dá.”
“Nossa, a mina tá deitando nos caras.”
– dito aos risos, se torna questão de honra pro cara tirar a bola da mana a qualquer custo ou amaciar o jogo para dizer que está deixando-a passar porque é mulher e aí não dá pra entrar forte. Sem contar as frases:
“A gatinha, pode deixar que eu marco.”

Essa zaga é tipo uma muralha que não passa um, 2018.

“Mina feia, joga que nem homem.”

Camisa 8, só tapa. 2016.

– Mas não conseguimos entender o que tem a ver padrão de beleza tosco com jogar futebol.
– Será que todo mundo pode realmente jogar futebol?

União Lapa X PSU Athletic

O futebol para as mulheres sempre é uma ferramenta de resistência. Carregamos a bola como nossa arma e a várzea como um espaço de luta.

Peleja na Lapa

A revolução só acontece com mulheres no front. Em campo com a bola no pé, num drible monstro, num carrinho lindo, num domínio com classe ou numa dividida de bola.

União Lapa Foot Ball Club. CDC Bicudão, Lapa-SP, 2018.

Seja na defesa ou no ataque, resistimos.

Da tempestade ao arco-íris

Na escola em que atualmente leciono cada professor(a) acompanha a vida acadêmica de uma média de 18 estudantes. Esse processo é chamado de tutoria. É mais ou menos o seguinte, cada tutorada(o) tem cerca de 20 minutos por mês com o(a) docente tutor(a). Nestes encontros me aproximo um pouco mais do cotidiano dessas pessoas, em suma, tento ouvir e contribuir de alguma forma com o desenvolvimento delas. Em um desses encontros, o estudante Isaque Sousa de Oliveira comentava sobre suas influências musicais e relatou sobre uma artista que contribuiu para que deixasse de ter pensamentos suicidas. Pedi para que ele escrevesse esse processo para publicar aqui na revista  e ele respondeu: – Tá sacanagem, prô? No meio das férias você vem me pedir redação? haha, brincadeira, gente. Ele recebeu com muita alegria, se empenhou, compartilho com vocês:
     Você tem algo ou alguém que te inspira? Que faz com que você pouco a pouco se torne uma pessoa melhor? Que lhe ajude a driblar os momentos difíceis que a vida nos traz ? Pense… Minha essência musical fez com que eu encontrasse essa força através do caminho artístico. Cantora e compositora norte-americana de 31 anos Kesha Rose Sebert me ajudou a não cometer atos fatais e me autodestruir, artista que assim como muitas mulheres de nossa humanidade, também possui uma grande história.
      Quando tinha 17 anos largou o Ensino Médio e se mudou para Nashville, junto a sua mãe Pebe Sebert e seus irmãos Louie e Lagan. Um ano após a mudança de residência Kesha foi descoberta por um dos produtores mais requisitados da música pop no período. Com trabalhos junto a diversas artistas famosas como Britney Spears e Avril Lavigne Lukasz “Luke” Gottwald (Dr. Luke), Kesha ganha popularidade.
     O pré e o início desta década foi marcante para o surgimento da nova artista na indústria musical. Em um período de 3 anos Kesha participou vocalmente da canção “Right Round” (Dar Voltas) do rapper norte-americano Flo Rida e lançou seu single de estreia “Tik Tok”, (Tic Tac) alcançando então o topo da Billboard Hot 100. Além do grande feito com “Tik Tok” em 1 de janeiro de 2010 seu primeiro álbum foi lançado. “Animal”(Animal) alcançou o topo da tabela de álbuns da Billboard 200, vendendo 152 mil cópias na primeira semana e mais de 2 milhões de cópias vendidas mundialmente, na qual também recebeu o certificado disco de platina pela associação Recording Industry Association of America (RIAA) pelo embarque de mais de um milhão de exemplares. O sucesso foi tão grande que em 19 de novembro de 2010 foi lançado um EP como continuação de “Animal”, trabalho intitulado como “Cannibal” (Canibal).
     Depois do término de sua turnê “Get $leazy Tour” (Turnê Ficar Vulgar) no Brasil no festival Rock in Rio em 29 de setembro de 2011 Kesha passou a produzir seu novo trabalho discográfico, porém seus hits permaneciam implacando nos veículos fonográficos, incluindo composições para outros artistas como a música “Till The World Ends” (Até o Mundo Acabar) cantada por Britney Spears mas que em um período mais tarde ganhou um remix com a participação da Rapper Nicki Minaj e inclusive a participação da própria Kesha, foi sucesso na certa.
      Em 2011, estava com 10 anos de idade. Chegava da escola muito cansado, tomava um banho, me alimentava e sentava no sofá escutando músicas em meu pequeno rádio azul… “Que música é essa? Tem um ritmo da Cleópatra?”. Estava falando de “Take It Off” (Tire) da então “Ke$ha” que o locutor tanto mencionava”, foi neste momento que eu descobri uma nova artista, com um som muito bom por sinal. A partir daí essa música alcançou o número #1 no banheiro quando eu ia ao banho, claramente eu cantava com um “inglês” cheio de neologismos.

 Em 25 de setembro de 2012 a cantora lança “Die Young” (Morrer Jovem), single de seu novo álbum que estava por vir. A canção se tornou mais um grande feito para Kesha, porém por sua letra proporcionar interpretação de duplo-sentido “Die Young” foi boicotada em rádios estadunidenses devido ao massacre em uma escola primária em Connecticut, nos Estados Unidos em 14 de dezembro do mesmo ano, tragédia que resultou em 20 crianças mortas. Kesha pediu desculpas pela canção em seu Twitter, afirmando então que foi obrigada a cantar a polêmica música, publicação que fez com que os fãs reivindicassem a liberdade da artista diante sua equipe de trabalho.
     Com seu novo álbum “Warrior”(Guerreiro) lançado, a cantora iniciou a “Warrior Tour” (Turnê Guerreiro) em 3 de julho de 2013, que gira com objetivo de promover seu novo trabalho discográfico ao redor do mundo. A turnê contou com seus novos hits e rendeu comentários sobre o “magnífico” corpo de Kesha.
     Infelizmente não pude acompanhar esta nova fase da artista, não escutei seu novo álbum no período pois tinha acesso a internet restrito, em 2013 permanecia ouvindo “Take It Off” e “Tik Tok”. Porém no ano seguinte fui bombardeado com sua nova canção tocando na rádio, “Timber” (Madeira), em parceria com rapper latino Pitbull, e novamente fico excessivamente viciado em ouvir Kesha e seus hits, este novo fã só não sabia o que sua “ídola” estava passando no período.

     Em janeiro de 2014 Kesha se internou em um centro de tratamento especializado em distúrbios alimentares, onde permaneceu durante 2 meses. Durante este período a artista escreveu “Rainbow” (Arco-íris), canção motivadora composta através de um pequeno teclado de brinquedo, relato feito pela própria cantora anos depois para a revista The New York Times.
* “Kesha, Interrupted” by Taffy Brodesser-Akner, Oct, 26, 2016 : https://www.nytimes.com/interactive/2016/10/30/magazine/kesha-lawsuit-dr-luke.html
     Recuperada Kesha tirou o cifrão de seu nome (Ke$ha), influência do então Dr. Luke e seus ideias da indústria. Luke também foi processado pela cantora no mesmo ano por abuso sexual e também psicológico onde Kesha pedia o fim do contrato com sua gravadora Sony Music e trabalho com seu produtor, contrato que visa a gravação de 6 álbuns. Como forma de rebate Luke também processou a cantora por violação e difamação.
* “Kesha processa Dr. Luke por assédio sexual; produto alega difamação” por G1, São Paulo, 14.10.2014 http://g1.globo.com/musica/noticia/2014/10/kesha-processa-dr-luke-por-assedio-sexual-produtor-alega-difamacao.html
     Só soube desde ocorrido em janeiro de 2015, pois foi citado pelo canal Multishow antes da transmissão ao vivo do show da cantora no Festival de Verão Salvador, no estado da Bahia. Enquanto assistia ao show relembrei de músicas e momentos marcantes de 4 anos atrás, foi algo inexplicável. Após a apresentação fiz download de algumas de suas canções e em outubro de 2015 finalmente consegui ouvir seu último álbum completo, à partir daí comecei a acompanhar seus passos mais de perto.
     Ao acompanhá-la percebi o quão difícil estava sendo aquele momento em sua vida, ninguém poderia imaginar que escutávamos e dançávamos grandes hits produzidos por alguém capaz de abusar tantos anos de uma garota que se tornou mulher, mas que permanecia com seus sonhos e planos.
     Em fevereiro de 2016 mais uma etapa de seu processo acontecia em Nova York. Me lembro de entrar no Twitter e ver a tag “#FreeKesha” nos assuntos mais comentados. A espera de Kesha fãs se aglomeraram em frente ao tribunal, os mesmos fizeram um “caminho” com glitter para a cantora passar como forma de apoio. Infelizmente Kesha teve seu pedido de liminar rejeitado por “provas insuficientes” pelo juiz Mark Geragos, então não podendo de forma alguma romper com seu contrato. Aqui mais uma prova do quão os mais poderosos controlam, comandam e influenciam diversas áreas globais, talvez naquele dia teríamos presenciado a destruição de uma carreira.
* “Kesha perde processo movido contra  ex-produtor” por Redação Glamour, 19.02.2016 : httpevistaglamour.globo.com/Celebridades/Hot-news/noticia/2016/02/kesha-perde-processo-movido-contra-ex-produtor.html
     Com o apoio de algumas artistas como Adele, Taylor Swift e Lady Gaga Kesha não deixou de seguir seu sonho, mesmo sem poder lançar nenhuma música a cantora iniciou uma nova tour totalmente diferente das outras, intitulada “Fuck The World Tour” (Turnê Dane-se o Mundo). Kesha acompanhada da banda The Creepies mostrou um lado mais rockeira/country e principalmente sua potente voz, até então escondida por produções e performances antigas. Também foi lançada uma nova versão de “True Colors” (Verdadeiras Cores), onde o autor da canção, DJ Zedd convida Kesha para performar a música no palco do Coachella Music Festival 2016 fazendo a cantora ser alvo de diversos elogios depois de surpreender  com sua forte voz. Assim foi com sua ilustre aparição no Billboard Music Awards 2016, onde somente acompanhada do pianista cantou “It Ain’t Me, Babe” (Não Sou Eu, Baby) de seu ídolo Bob Dylan.

     Muitas das vezes só nos damos conta de como o mundo em que vivemos é quando acontecem determinadas coisas. Em julho de 2017 enfrentei o período mais difícil da minha vida, meus sonhos foram destruídos com palavras, andava por minha própria casa sentindo o peso de ser quem sou e como sou, e consequentemente o quão errado isso é visto diante da nossa sociedade. Quando sua orientação sexual é exposta e não condiz com o “tradicional” você só tem duas saídas, enfrentar todos mesmo com lágrimas nos olhos, ou ser incapaz de lutar, assim optando por não viver mais aqui, sou forte, mas não o suficiente, também precisei de ajuda.
      Esta ajuda veio no dia 06 de julho de 2017 quando o mundo se surpreendeu com o retorno pouco esperançoso de Kesha e seu mais novo single “Praying” (Rezando). Abri o vídeo um dia depois após dormir aos prantos, meu coração batia mais forte do que nunca. Em seu novo clipe Kesha se mostra morta, ao decorrer do mesmo tudo vai ganhando cor e se transformando em um lindo arco-íris. Milhões de coisas passaram por minha cabeça, e a que mais se destacou foi : “assim como ela, eu preciso vencer esta tempestade!”
     Kesha estava de volta, eu não conseguia acreditar, trouxe ao mundo uma música totalmente diferente de “Tik Tok”, trouxe uma música de superação onde canta no refrão:
 “Eu espero que você esteja em algum lugar rezando
Eu espero que sua alma esteja mudando
Eu espero que você encontre sua paz, ajoelhando-se, rezando…”
Em outro momento canta :
Eu me orgulho de quem eu sou
Sem mais monstros posso respirar novamente
Totalmente aclamada pela crítica a canção anunciava a vinda de seu novo álbum “Rainbow” (Arco-íris), junto com os singles promocionais “Woman”(Mulher), “Learn To Let Go” (Aprenda a Deixar Ir) e “Hymn”(Hino) que sucederam o lançamento de “Praying”.
     Esta grande mulher retornou no momento certo, no momento em que eu mais precisei de esperança, de ser resistente, forte para enfrentar grandes problemas e principalmente, de cores naquele período tão escuro e sem vida alguma. Pensamentos suicídas me perseguiam junto ao “você é uma vergonha para sua família”, que foi dito com todas as palavras depois pela minha própria mãe. Eu precisei reafirmar minha identidade e ficar ainda mais próximo do que eu gostava, tintas, papel, escrever o que sentia no caderno e claro, “Praying” tocando a todo momento em meus ouvidos me recordando de ser forte sempre.

     Em 11 de agosto de 2017 o tão aguardado álbum “Rainbow” é lançado, finalmente pude ouvir o que Kesha tinha preparado para os fãs em seu momento de tempestade e angústia. Com um estilo totalmente diferente dos álbuns anteriores “Rainbow” possui um conceito mais country do que pop-dance (característica dos trabalhos anteriores da artista), faixas motivadoras como aquela composta no centro de reabilitação e conceito chave do álbum, “Rainbow”, onde é cantado em um trecho:
E sei que estou ferrada 
Mas não estamos todos, meu amor? 
Querido, nossas cicatrizes fazem de nós quem somos hoje
Então quando os ventos sopram forte
E você acha que não pode seguir em frente, aguente firme.”
     Muito contrário do que muitos pensam com seu retorno Kesha não está totalmente livre de seu contrato. Com o lançamento do álbum Dr. Luke se pronunciou alegando que “Rainbow” só pôde estar disponível ao público devido a sua autorização. Como a cantora ainda deve dois álbuns a Sony/RCA com exceção deste último Luke ainda possui controle sobre a carreira da artista mesmo não participando de seus processos criativos, cabendo o mesmo a tomar decisões sobre quando e se realmente os álbuns pendentes serão lançados algum dia. O caso judicial permanece, onde em junho de 2018 Dr. Luke afirma que quer $50 milhões da cantora como forma de pagar seu prejuízo comercial durante o processo.
* “Kesha retorna em ‘Rainbow’, primeiro álbum após a briga judicial com produtor Dr. Luke” por O Globo, 11.08.17 : https://oglobo.globo.com/cultura/musica/kesha-retorna-em-rainbow-primeiro-album-apos-briga-judicial-com-produtor-dr-luke-21694530
 
     O tempo se passou e as coisas foram ficando menos piores para mim, em outubro de 2017 consegui participar do “Concurso Vozes Pela Igualdade de Gênero II 2017”, onde criei uma música com objetivo de motivar “minorias” sociais e apresentar dados verídicos sobre o tema, levando a reflexão.

Outros problemas também foram aparecendo, afinal, a vida é assim, todavia com a experiência adquirida consegui enfrenta-los com mais força, guarra e esperança de que tudo ficará bem, mesmo se demorar.
     Encerrando 2017 com a “Rainbow Tour” (Turnê Arco-íris) iniciada e lançamento de um cover da canção “This Is Me” (Este sou eu) originalmente faixa integrante da tracklist do filme “The Greatest Showman” (O Rei do Show) em 28 de janeiro de 2018 Kesha participou da 60° edição do Grammy Awards, a premiação mais requisitada do mundo musical. Com seu álbum “Rainbow” a cantora concorreu na categoria Melhor Álbum Vocal Pop e com a canção “Praying” concorreu na categoria Melhor Performance Solo Pop. Infelizmente não ganhou nenhuma das 2 categorias, todavia marcou a premiação com uma poderosa performance de “Praying” considerada um dos melhores momentos da noite, além de suas primeiras nomeações na premiação.
* “Grammy tem momento contra o assédio em apresentação de Kesha” por Da redação Veja, 29.01.18 :
 
     Após cover de “I Need A Woman To Love” (Eu Preciso de Uma Mulher Para Amar) para o EP “Universal Love” (Amor Universal) promovido pela MGM Resorts em 06 de junho Kesha iniciou “The Adventures of Kesha and Macklemore” (As Aventuras de Kesha e Macklemore), turnê conjunta com o músico e rapper Macklemore onde ambos artistas apresentam seus grandes sucessos incluindo a música em dueto “Good Old Days” (Bons Velhos Tempos) lançada em 2017.

     Quando você opta em viver esta vida cheia de surpresas você automaticamente está colocando um grande desafio em suas mãos. Não é fácil conviver com determinadas situações, pessoas, ideologias, com o diferente em si, mas também podemos ser diferentes para um outro alguém, precisamos dar e receber respeito primeiramente. Kesha não é a única que me ajuda a ser melhor a cada dia, tenho também pequeninas coisas que fazem a vida valer a pena, todavia escolhi escrever um pouco de sua história porque acredito que possa ajudar alguém que precise, me orgulho de ser fã de uma mulher extremamente talentosa, que lutou e permanece lutando para ter sua liberdade para fazer o que mais ama nesta vida, que sempre apoiou a comunidade LGBTQ+, símbolo de empoderamento feminino e alguém capaz de mudar vidas para melhor mesmo passando por momentos conflituosos.
     O que realmente importa é que precisamos de coisas que nos possa ajudar em momentos difíceis, sendo um abraço amigo, um dia de descanso, um bom livro, uma boa música ou até mesmo um Deus, independe da religião. Se apegue a estas coisas, busque se fortalecer cada vez mais para enfrentar as surpresas futuras, ajude quem precisa de ajuda, procure evoluir a cada dia, e perceba, que a vida quando bem vívida é o bem mais precioso que podemos ter. Termino este escrito com este lindo trecho:
” Eu costumava viver na escuridão
Vestida de preto, agindo de forma tão cruel
Mas agora eu vejo que as cores são tudo
Tenho caleidoscópios no meu penteado
Tenho de volta o brilho nos meus olhos
Sim, agora eu vejo a mágica dentro de mim” – Rainbow de Kesha
Isaque Sousa de Oliveira
Estudante do 3°ano do ensino médio em Programa de Ensino Integral de Santo André-SP. Apaixonado pela arte desde a infância a desejo como profissão, expressando minha identidade e ampliando horizontes.