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Deusas, humanas e ciborgues

Dançar também é fazer Revolução: contribuições do Projeto “Mulheres que Conduzem”

www.mulheresqueconduzem.com.br

 

Viver em sociedade é desempenhar um papel político. A dança espelha o social e também é uma maneira de militar politicamente, quebrando paradigmas ou mantendo preconceitos e padrões arraigados. O papel do condutor na dança a dois é supervalorizado porque historicamente é ou era desempenhado por um homem. E alguns atributos e funções assumidos pela masculinidade na sociedade patriarcal foram também depositados no personagem do condutor. Ser racional, líder, agente de uma ação, dotado de voz e opinião, expressão, criatividade e ímpeto, aquele que dá suporte e proteção, eis características cartesianas esperadas de um macho na sociedade patriarcal.

Sobrou para a mulher todo o inconsciente de um mundo doido que valoriza apenas o pensar… Ficou destinado à mulher dar conta do sentir, do intuir, da fragilidade humana. Da espera infinita e submissa, do agir na surdina sem ser vista, sem ter seu nome publicado. Foi delegado à ela o silêncio contido de palavras presas e o caos do mundo e do ser humano. Sobrou para a fêmea ideal responder sim senhor ao seu macho, sem discutir, restou a loucura, a insanidade, a histeria… Deixaram-lhe ainda de presente a maçã do Éden, afinal de contas quem seria capaz de cometer um ato profano como este, o sexo? Só a mulher poderia não usar a razão e se deleitar em uivos de prazer e assim ser chamada de puta, lasciva, vaca, luxuriosa. Ele? Não, não é puto, não: é muito macho! Restou à mulher viver e significar o corpo. E quanto ao espírito? Coisa de bruxa! Intuição? Bruxaria! Tudo que a sociedade tem medo e não cabe dentro da razão é….:coisa de mulher…

A divisão cavalheiro conduz (entende-se por: manda) e dama fecha os olhos e sente (traduz-se por obedece exatamente o que o cavalheiro ordenou), advém dos papéis tradicionais de uma sociedade patriarcal, machista e binária que atribui ao homem o pensamento racional e à mulher tudo o que não é cartesiano nem mensurável pela razão. Xs outrxs gênerxs? Nunca existiram, claro, dentro da hipocrisia binária da divisão de papéis sociais. O inconsciente e a sinestesia ficam jogados ao encargo da mulheres e a dama na dança a dois assumiu estas características sem refletir o simbolismo delas. Aos homens couberam executar passos, às mulheres, seguir obstinadamente, fazendo muitos charmes sorrindo, sempre.

Passaram-se os anos e hoje o feminismo já não está mais nos tempos de Beauvoir…porém, a maioria das escolas de dança e bailes ainda trabalham com condutores e conduzidos, e pior que isso, focam suas aulas nos primeiros (quando não usam o termo cavalheiros e damas!), oferecendo mais passos que técnicas corporais para uma melhor comunicação com o par. As aulas novamente focam no que é mais racional, inteligível, identificável, classificável. Ao conduzido ainda é ensinado fechar os olhos e sentir, sem ser minimamente orientado com alguma técnica sobre esse sentir…como alcançar este tal sentir o par? Fica bem subjetiva uma aula desta forma… Com este pensamento, muitas baladeiras replicam o padrão machista e binário dizendo que não precisam de aulas de dança, afinal de contas, se elas tiverem um bom cavalheiro conduzindo, conseguem seguir e dançar bem… Também com este padrão de aula focada no condutor, para que mesmo serviria a aula ao conduzido, se é só fechar os olhos e sentir?

Muitas pessoas só pedem aula para uma professora ou valorizam seu trabalho quando a veem conduzindo bem, porém, não acontece, por exemplo, questionarem um professor do sexo masculino sobre ele saber ser conduzido, muito menos se ele é bom neste papel, menos ainda se sabe transmitir técnicas precisas para ser um bom conduzido.

Como quebrar estes paradigmas? Estudar qualquer assunto, sempre faz com que se alcance melhores resultados, portanto, quem diz que não precisa de aula, que aprende absolutamente tudo na raça e na balada, deve ter nascido gênio! E refletir sobre o dançar é fundamental para que se mudem as pistas, para que elas se tornem mais igualitárias e tenham danças de qualidade melhor, para ninguém ir machucado para casa… Primeiramente, portanto, penso que deveríamos dar atenção numa aula de dança igualmente ao condutxr e ao conduzidx, (sem gênerx! Qualquer pessoa pode experimentar ambos os lados), dividir o tempo da aula entre os papéis. Além disso, existem técnicas para ser um bom conduzido e até para trabalhar e desenvolver  a sensação, o conforto, a conexão com o par. Mas também penso que deixar a razão, a palavra, a criatividade somente para o condutor e a emoção, a resposta, a espera somente ao conduzido empobrece demais a dança.

A dança a dois é uma língua que depende de vocabulário e comunicação. Eu penso no diálogo de uma dança entre condutxr e conduzidx (sem falar em condução compartilhada ainda), lugar de uma proposta e uma contraproposta o tempo todo. O par, condutxr ou conduzidx, sempre responde com outra proposição e isto torna a dança criativa para ambos os lados e necessita de espera e conexão dos dois. Condutxr e conduzidx dispondo da razão, emoção, intuição, sensação, todos os artifícios para que a conversa seja divina e possa transcender os corpos, as mentes, ultrapassar a alma, alcançar o êxtase e invadir o universo com sua energia de encontro. A partir daí, podemos começar a imaginar um mundo menos binário e falar em condução compartilhada onde todxs conduzem ou são conduzidxs ao mesmo tempo, mas este assunto fica para o próximo texto…

O fato de se pensar em sala de aula ou nas pistas de dança e bailes numa comunicação mais horizontal e num conduzidx mais ativo e pensante e um condutxr mais sensível e ouvinte já é uma forma de militância e uma maneira também de diminuir o machismo, incluir outrxs gênerxs e de mudar os papéis binários homem/mulher dentro da sociedade. Dançar também é fazer revolução.

 

Um pouco sobre o Mulheres que Conduzem

 

iris De franco é criadora junto com Fernanda Squariz do projeto Mulheres que Conduzem. Espaço de fortalecimento da mulher, sediado em São Paulo, que tem por intuito lutar contra os preconceitos dentro da dança a dois e possibilitar a vivência, a pesquisa e sua profissionalização de forma mais igualitária. O foco do projeto é a condução livre de gênero no forró com um minucioso estudo do corpo e sua conexão com o par e com o mundo; e as rodas de conversa sobre gênero na dança. Mulheres que Conduzem não pretende excluir, mas sim possibilitar a boa convivência entre todxs xs gênerxs, de todas as idades, raças e classes sociais.

Nas aulas e bailes do Mulheres que Conduzem todos os participantes podem aprender o papel de condutxr e conduzidx, independente do gênerx e opção sexual (ninguém é obrigadx a desempenhar os dois papéis, é possível  escolher o estudo de um deles).

Usar a dança a dois como forma de militância política é produtivo, pois o espaço de aula e baile é um ambiente social favorável à integração e socialização, principalmente no forró, ritmo democrático. Nas pistas de dança de forró (fala-se aqui do forró sudestino nascido em meados da década de 90) entra gente trajada de chinelo e roupa furada, entra engravatado, negro, branco e estrangeiro. Como há muitos bailes gratuitos e acessíveis, várias classes sociais se misturam e convivem. Além disso, o forró das pistas de dança do sudeste de São Paulo é mais fácil que outras para início do aprendizado (com o tempo adquire enorme complexidade e muitos não sabem disso!), por este motivo, ela inibe menos o iniciante, quem abraça e troca o peso de um lado para outro já se sente dançando, por todas estas razões, o forró é um local favorável para a inclusão e harmonização social.

Observa-se com  a trajetória do Mulheres que Conduzem que a maioria das pessoas que começa a dançar forró e faz deste meio um estilo de vida, fica menos inibida, mais sociável e mais amável. Também chamada de meditação a dois, o forró tem trazido benefícios para a saúde de diversas pessoas no mundo e fazendo com que seus praticantes possam se reconectar ao interior de si mesmos, promovendo a melhora da autoestima, da saúde, do sono e das funções motoras. O abraço da dança a dois é terapêutico, traz aconchego, conforto e paz, podendo curar até doenças graves. Veja os estudos de Alzheimer e tango em hospitais – Veja mais em https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/ciencia/2009/08/31/pacientes-de-varias-doencas-adotam-tango-como-nova-terapia.htm?cmpid=copiaecola

A dança a dois também propicia um descobrimento e consciência da própria psique e corpo, fazendo com que o ser humano se entenda melhor e se coloque de forma saudável e produtiva no mundo, bem como proporciona a vivência da civilidade e harmonização social. Existem estudos acadêmicos sobre o “abraço do forró” e as benesses que este ritmo pode trazer à saúde, sobre forró e os papéis de gênero e outros temas que envolvem a abrangência e presença desse ritmo na cultura brasileira e no mundo (Conferir NUNES; SOUZA, 2010; COSTA, 2013; SARQUIS, 2013) . E os brasileiros estão exportando o de forró lifestyle. Veja o vídeo do forró em Sydney: https://www.facebook.com/nalivaimedia/videos/218239282082017/?hc_ref=ARRBnjuqojTr2tt-8CcJDmdNv1HLF2LkgsP1q7Pvj-sZiCMskaFRjDsYD9v_X0zHNHo&fref=nf

 

O Mulheres que Conduzem desenvolve um trabalho dentro da dança a dois, que reúne técnica, entrega e militância política, ligada à desconstrução de paradigmas de gênero, com vistas em desengessar as relações entre mentes, espíritos e corpos. Veja os vídeos com as rodas de conversa, aulas e condução alternada e conheça mais sobre o projeto: www.mulheresqueconduzem.com.br

iris De Franco

Referências:

 

COSTA, Amanda Abreu.Mulheres no forró: estilizações de gênero, discurso e ideologia. Dissertação (Mestrado em Linguística). Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, 2013.

 

NUNES, El-Buainin Vieira Machado; SOUZA, Santinho Ferreira de. O forró e suas configurações: a aliteração, a mulher, o homem, o movimento corporal e o ambiente nas canções forrozísticas. Revista Entrelinhas.V. 8, n. 1 2014.

 

SARQUIS, Joana. Forró sem fronteiras : o movimento em Portugal. Dissertação de Mestrado. Universidade de Lisboa. Faculdade de Motricidade Humana, 2013.

 

Sites:

 

www.mulheresqueconduzem.com.br. Acesso em setembro de 2018.

 

https://www.facebook.com/nalivaimedia/videos/218239282082017/?hc_ref=ARRBnjuqojTr2tt-8CcJDmdNv1HLF2LkgsP1q7Pvj-sZiCMskaFRjDsYD9v_X0zHNHo&fref=nf. Acesso em agosto de 2018.

 

https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/ciencia/2009/08/31/pacientes-de-varias-doencas-adotam-tango-como-nova-terapia.htm?cmpid=copiaecola  Acesso em agosto de 2018.

 

Aborto: refundando as consciências individuais e coletivas sobre mulheres, sexualidade, corpo e vida

Aborto: refundando as consciências individuais e coletivas sobre mulheres, sexualidade, corpo e vida

 

Clarissa De Franco

Psicóloga da UFABC, Doutora em Ciências das Religiões,

Pós-Doutorado em Estudos de Gênero.

clarissadefranco@hotmail.com

 

Em 2005, a Revista TPM trouxe o depoimento de várias mulheres conhecidas – atrizes, apresentadoras, escritoras, jornalistas… – que admitiram ter feito aborto. Graças ao avanço das consciências, não ocorreu a nenhum delegado conservador dar voz de prisão às rés confessas. Já imaginaram, Marília Gabriela, Sonia Francine, Elba Ramalho, Maitê Proença, Luiza Brunet, entre muitas outras, presas por tomarem a decisão de não terem um filho ou filha? Do que estaríamos falando, senão de criminalizar algo que não é da ordem do crime? Porque, afinal, não ocorreu a um delegado conservador prender essas mulheres? Talvez porque, no fundo, todxs saibamos que o aborto é um tema muito complexo. Que afirmar criminosas as mulheres que fazem aborto é fechar os olhos para uma porção de abandonos e negligências sociais, outros tantos crimes, de outras ordens, cometidos por várias instâncias da sociedade.

Numa dessas entrevistas para a Revista TPM, a ex VJ da MTV Penélope Nova, declarou:

“Provocar um aborto não é uma coisa natural, não é saudável e não é gostoso. Não acho que deva ser incentivado, mas também não cometi nenhum crime. Defendo a descriminalização. E não apenas em meu nome, mas em nome das mulheres que veem no aborto a única alternativa”.

 

Importante começar uma reflexão sobre aborto, lembrando que o movimento de descriminalização não é um movimento de incentivo ou defesa do aborto em si. Como afirmou Penélope, o aborto é coisa séria e toda a mulher sabe disso. Não se vê uma mulher (seja adulta ou adolescente) indo para uma clínica fazer aborto, em um estado de celebração e alegria. Não. Aborto é uma decisão forte. Tem consequências. É um procedimento invasivo e de risco. Leva um tempo para a recuperação corporal. Pode deixar sequelas emocionais. Mas é uma decisão da mulher. E por  quê? Porque nas sociedades em que as mulheres ainda têm menos oportunidades e mais vulnerabilidades que os homens, o peso corporal, moral, financeiro, educacional, psicológico, social de gestar e criar um filho ou filha recai majoritariamente sobre a mulher. E é ela, e mais ninguém, que pode avaliar se terá condições de arcar com tais pesos, pois a conta será cobrada dessa mulher.

Este é um texto com posicionamento não neutro, mas para respaldar nosso posicionamento, buscamos alguns dados que orientam a reflexão e os argumentos aqui expostos.

Um estudo do Incor, de 2007 (Conferir Aranha, 2010 e reportagem Globo, 2010) mostrou que a curetagem – procedimento para lidar com complicações pós-aborto – foi a cirurgia mais realizada pelo SUS de 1995 a 2007, com 3.1 milhões de casos. Os números do SUS seguem indicando alarmes: em 2013 foram realizadas 205.855 internações decorrentes de abortos. Em 2010, as internações no SUS registradas por decorrências de aborto são 41% superiores às internações por câncer de mama e de colo do útero – consideradas doenças que requerem atenções fundamentais à saúde feminina no âmbito de estratégias coletivas (Aranha, 2010). O aborto, que supera e muito esses outros desafios de saúde da mulher, tem sido tratado como uma questão de crime.

Aranha (2010) também cita um levantamento feito no banco virtual do Ministério de Saúde que indica que foram gastos 12,9 milhões no SUS em 2010 para internar mulheres com decorrências de abortos mal feitos.

As Pesquisas Nacionais de Aborto de 2010 e 2016 (Diniz; Medeiros; Madeiro, 2017) revelou que uma em cada cinco mulheres brasileiras entre 18 e 39 anos recorreu a um aborto. Os resultados também indicaram que mulheres de todas as classes sociais, grupos raciais, de todos os níveis educacionais e de qualquer pertença religiosa praticam aborto, mas que a frequência é maior entre as mulheres com “menor escolaridade, pretas, pardas e indígenas, vivendo nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste” (2017, p. 653).

Tais conclusões sugerem que a vulnerabilidade social leva ao aborto com maior frequência, e, portanto, podemos pensar que o amparo legal do Estado e das instituições de saúde contribuiriam para a diminuição e não aumento do aborto. Isso se refere a um quadro de políticas que vão desde acesso a métodos anticoncepcionais, campanhas preventivas, planejamento familiar, até a estrutura médica para o enfrentamento conjunto, coletivo, de um problema que é social: a gravidez em situação sem condições de ser mantida – seja por questões financeiras, psicológicas, sociais, familiares, de trabalho, em decorrência de relacionamento abusivo… Qualquer que seja o motivo da falta de estrutura e condições, cabe ao Estado amparar essa mulher.

A Organização Mundial de Saúde (2011; 2012) mostra que nos países em que as leis sobre o aborto privilegiam a descriminalização total (principalmente no hemisfério norte), as taxas de aborto são as mais baixas do mundo, consideradas proporcionalmente à população. Ou seja, descriminalizar o aborto é um caminho não para as mulheres abortarem sem consequências, mas unicamente para que estas mulheres tenham amparo legal e de saúde.

O Estado que criminaliza o aborto e se coloca como protetor da vida do feto ou do bebê é o mesmo que depois dá as costas para essa criança que provavelmente vai crescer em situações desestruturadas, já que está sob a tutela de pais que não estão em condições psicológicas e/ou financeiras para criá-la. Embora a legislação propõe a proteção e o amparo de crianças e adolescentes, na prática, em termos de Brasil, temos situações calamitosas, em que crianças saltam de abrigo a abrigo, até – quem sabe – encontrar uma família de adoção depois de muitos anos. O Estado que pune o aborto é o Estado do abandono, é o Estado que ignora a humanidade e o sofrimento da mulher, e privilegia o machismo estrutural, fazendo vistas grossas às condições das mulheres. Esse Estado que defende a vida do feto e negligencia a vida da mulher e desse mesmo feto depois que ele vem ao mundo é um Estado hipócrita, de hipócritas, para hipócritas.

A Pesquisa Nacional sobre o aborto (Diniz; Medeiros; Madeira, 2017) também revela que o perfil das mulheres que fazem aborto é em geral de alguém que usa métodos contraceptivos (e, por algum descuido, engravidou), muitas delas são religiosas, a maioria está no mercado de trabalho. Como se pode observar, tratam-se de mulheres comuns, sem o imaginado estigma de serem mulheres promíscuas e inconsequentes.

Um estudo sobre as representações sociais de enfermeiras do SUS acerca do aborto (Mortari, 2010) indica que a percepção destas profissionais está imersa em uma série de conflitos e contradições acerca da mulher que realiza o aborto. Algumas representações que aparecem na pesquisa indicam o pensamento de que o aborto seria “inseguro pelo fato de ser crime” (p. 11), ou de que seria “dever da mulher ficar com a criança ou entregá-la para adoção” (p. 11). É verificado o conflito destes profissionais que acreditam que a preservação da vida, sendo um princípio pela ética profissional, estaria em choque com a condição do aborto. Embora o estudo aponte heterogeneidade nas respostas e representações, indica, também, tentativas de algumas destas profissionais de influenciar a mulher a não interromper a gravidez. Somente algumas enfermeiras apontaram o questionamento de que vida preservar: “se a criança não é abortada, pode ser abortada em vida, a criança vivendo na miséria e a mãe no inferno” (p. 11 e p. 118).

Se tomarmos Michael Foucault 92006; 2015) como referência, percebemos o discurso de controle do Estado e da sociedade em geral sobre as mulheres, seus corpos e sua sexualidade, já que, conforme observamos no início do texto, é raro o fato de algum delegado, polícia ou juiz criminalizar de fato quem pratica o aborto. O que ocorre é um discurso majoritário que faz com que as mulheres tenham medo, sintam-se vulneráveis e sob o grande olhar punitivo do Estado. Esse controle está calcado em percepções estigmatizadas sobre a mulher, sendo aquela que necessita ser domesticada, controlada, por estar associada aos instintos, emoções, sedução, feitiço… Tais reforços cognitivos sobre a mulher ocorreram durante séculos e respaldam cognitivamente as consciências que decidem e opinam sobre o aborto. A mulher que tem seu corpo e sua sexualidade controlada pelo Estado, é uma mulher submetida.

Não se trata de ser pró ou contra o aborto. Trata-se de retirar o tema do âmbito do crime e trazer para o campo das consciências individuais, as únicas que podem avaliar os ônus e bônus de suas próprias trajetórias. Não se trata de propor aborto como método contraceptivo ou abordar o tema de modo leviano: “agora todo mundo vai transar e depois abortar”. Trata-se de não sermos levianos com as mulheres que sofrem solitárias com culpa, desespero e falta de assistência à saúde.

Não se trata de fornecer aval legal para eliminar vidas, mas de legitimar e preservar a vida da mulher que já está em curso, com uma identidade social já gravada na história de outros seres. E garantir que esta mulher, quando estiver em condições financeiras, psicológicas e sociais, possa, enfim, se ela assim escolher, trazer uma criança ao mundo e ampará-la junto com o pai ou figuras de apoio. A medicina foi feita para a vida. Mas de que vida estamos falando? Da vida da mãe, que já tem uma história construída, com laços e raízes sociais, impacto, biografia, responsabilidades… Ou a vida de um feto que ainda não tem inscrição na sociedade? Qual vida tem prioridade nesse momento, se ambas são vulneráveis e se ninguém, além da mãe, poderá assumir essa criança depois? E – vale acrescentar a pergunta – a vida desse embrião sem condições de crescer e ser bem cuidado e bem amado, será uma vida digna?

Não se trata de nada, além da busca por uma sociedade que ampara, acolhe e oferece saídas no lugar de apontar dedo na cara, deixar sangrar em clínicas clandestinas, abandonar mulheres sem condições de criar filhxs à sua própria sorte. Uma sociedade que pode escolher oferecer estrutura e amparo ao invés de punição e controle.

Marília Gabriela afirmou para uma reportagem da Revista Trip sobre o tema (Cortês, 2014): “Estamos diante de um fato: no Brasil as mulheres morrem por abortos malfeitos há décadas. Nós, como sociedade, pretendemos continuar cúmplices dessa mortandade?”. Pretendemos, Brasil? Pretendemos, mundo? Que sociedade pretendemos para nós?

Sabemos que as consequências de um aborto – mesmo os acompanhados com uma estrutura adequada de saúde – são sérias. Mas as consequências de se ter um filho ou uma filha sem condições para tê-lo/la podem ser ainda mais sérias, com impactos sociais muito profundos. Claro que somente tornar o aborto legal é insuficiente. É preciso que haja toda uma estrutura de saúde preparada para o atendimento às mulheres. O custo do aborto legal é caro, em termos médicos e burocráticos, e o Estado precisa torná-lo acessível gratuitamente, sem barreiras processuais e de saúde.

Com tudo isso, esperamos ter despertado a cognição dxs leitorxs para refundar as bases desse debate público, observando que a descriminalização do aborto não se trata de um recurso antivida, mas sim, de uma forma de manutenção e preservação da vida. Dentre as principais barreiras para a compreensão do que representa o aborto em termos coletivos está a barreira das consciências, dos conceitos fundados e demarcados e estigmatizados sobre vida como um conteúdo fechado sem abertura para debates e reflexões. Vida não é só biologia. É permanência digna em sociedade. Nós, mulheres não precisamos de controle, como se fôssemos bruxas, loucas, serpentes enfeitiçadoras e pecadoras. Precisamos de amparo.

Descriminalização do aborto. Para que, na hora do desespero, o Estado não se torne um inimigo e o desamparo não seja a única porta.

 

 

Referências:

 

Alves, Michelini. Uma em um milhão. Revista Trip. Disponível em: https://revistatrip.uol.com.br/tpm/uma-em-1-milhao. Acesso em agosto de 2018.

 

Aranha, Fernanda. (2010). Aborto supera câncer de mama em internações pelo SUS. Laboratório de Demografia e Estudos, UFJF. Disponível em: Populacionais http://www.ufjf.br/ladem/2010/10/10/aborto-supera-cancer-de-mama-em-internacoes-pelo-sus/. Acesso em agosto de 2018.

 

Cortês, Natacha. (2014). Precisamos falar de aborto. Revista Trip. Disponível em: https://revistatrip.uol.com.br/tpm/precisamos-falar-sobre-aborto. Acesso em agosto de 2018.

Diniz, Debora, Medeiros, Marcelo, & Madeiro, Alberto. (2017). Pesquisa Nacional de Aborto 2016. Ciência & Saúde Coletiva, 22(2), 653-660. https://dx.doi.org/10.1590/1413-81232017222.23812016

Foucault, Michel. (2015). História da Sexualidade – A vontade de saber. Vol. 1. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra.

 

Foucault, Michel. (2006). Sexualidade e Poder In: FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos V: Ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

 

Mortari, Carmen Luiza Hoffman. (2010). Abortamento/aborto: representações sociais de enfermeiras da atenção básica à saúde. Dissertação (mestrado). Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências da Saúde. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Florianópolis.

 

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO) (2011). Unsafe abortion: global and regional estimates of the incidence of unsafe abortion and association mortality

 

WHO.(2012). Safe abortion: technical and policy guidance for health systems.

 

www.worldabortionlaws.com. Acesso em agosto de 2018.

 

http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/07/curetagem-apos-aborto-lidera-cirurgias-no-sus-diz-incor.html. Acesso em agosto de 2018.

 

A Psicologia Junguiana entre naturalizações e reformulações cognitivas de gênero. Por uma psique andrógena.

A Psicologia Junguiana entre naturalizações e reformulações cognitivas de gênero. Por uma psique andrógena.

Clarissa De Franco

 

Obs.: E sse não é um texto acadêmico.

Se necessitar de referências bibliográficas,

pode solicitar para a autora no e-mail

clarissadefranco@hotmail.com.

 

 

A Psicologia é uma ciência que transita entre as áreas biológicas e sociais, e com isso, demonstra um potencial de aproximação das chamadas ciências duras com as humanidades. A temática de gênero é um palco frutífero para desenvolver esta importante tarefa, uma vez que os distintos campos do conhecimento exibiram durante anos discursos conflitivos que ressaltaram ao público leigo a dicotomia entre natureza e cultura e outras, tão presentes no debate de gênero.

Considerar a artificialidade deste pensamento binário, rígido e mutuamente excludente das dicotomias entre masculino e feminino e formular propostas conciliatórias tem sido um esforço de teóricxs ligados à História da Ciência recente, como o trabalho de muitas epistemólogas feministas, as quais podemos citar Londa Schienbinger, Helen Longino, Donna Haraway, entre outras.

De uma forma bastante diferente do que propõe o momento atual deste debate, o psiquiatra e psicólogo suíço Carl Gustav Jung –  cuja proposta de teoria psicológica é denominada Psicologia Analítica – traz algumas sementes que servem à reflexão para a temática de gênero e aproximação das ciências, bem como à dissolução de compartimentos rígidos do conhecimento. É importante lembrar que Jung viveu em um tempo em que as reivindicações de direitos e políticas públicas de gênero ainda se debruçavam sobre direito à voto das mulheres em muitos países, em que a patologização das sexualidades não convencionais ainda era uma realidade forte, no qual ainda não se formulava a possibilidade civil de casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a alteração oficial e pública da identidade de gênero. Teoria Queer, Judith Butler e toda essa corrente que nos tempos atuais é quente, nada disso ainda existia.

De maneira pouco convencional e quebrando paradigmas da ciência da qual era herdeiro, Jung propôs que o funcionamento da psique ocorre em uma dinâmica que equilibra elementos complementares e que por vezes ocupam funções aparentemente opostas no funcionamento psíquico e que esta dinâmica estaria ancorada em um reservatório de informações inconscientes que extrapolam o universo individual, chamado de inconsciente coletivo. Postulou que tais estruturas da dinâmica psíquica, como persona, sombra, animus, anima, self seriam arquétipos que possuem representações em todas as pessoas de todas as épocas.

Sempre que falamos de estruturas que perpassam os humanos, humanas e humanxs de todas as épocas, as antenas das ciências sociais se levantam, afinal, o acultural é um caminho fácil para naturalizar o que é construído socialmente, a partir de referenciais e vivências que reforçam e cristalizam constructos que aparentemente “sempre foram assim” ou são “naturalmente assim”.

Para abordar a questão de gênero, propomos um breve exercício nesse texto de utilizar os referenciais da Psicologia Junguiana de modo a considerar as nuances de pensamento entre naturalizações e reformulações cognitivas.

Começamos por uma perspectiva que pode ser interpretada como naturalizante de padrões e conceitos sobre masculino e feminino, quando da postulação dos arquétipos Animus e Anima, que foram definidos por Jung como princípios masculinos e femininos inconscientes presentes na psique de todo ser humano, princípios tais com potências positivas e negativas em ambos.

De um modo geral, Anima seria associada a Eros e seu aspecto de entrelaçamento, relacionamento, afetividade. Já Animus estaria relacionado com Logos, que frequentemente se traduz em racionalidade, raciocínio, discriminação (no sentido de separação). Eis um evidente mecanismo naturalizador de gênero que se repete em diversas estruturas sociais, o de associar a masculinidade à razão e a feminilidade aos domínios emocionais.

Embora não se possa negar o reforço a dicotomias de gênero naturalizados nesse ponto da teoria de Jung, se seguirmos mais profundamente seus argumentos, no entanto, reconheceremos que ele postula uma psique andrógena, híbrida em termos gênero/sexo. Tal postura acadêmica contém uma semente subversiva importante, já que “libera” a psique humana de não ser previamente determinada a um destino de gênero. Nesse sentido, Jung pressupõe uma psique livre, fluida, com potencial para arranjos múltiplos e não binários de gênero.

Destacamos que Jung definiu Anima e Animus como personificações do inconsciente, cuja função primordial é produzir uma síntese simbólica, que conecte consciente e inconsciente, de forma a criar uma relação dialética entre eles. Os arquétipos da anima e do animus, juntos, representam a união de opostos que produz uma síntese psicológica. Jung chama esta síntese de coniuctio, emprestando a metáfora da Alquimia.

Desse modo, masculino e feminino não seriam representações diretas e literais de como ser homem e como ser mulher ou ainda de como devem ser homens e mulheres, mas sim princípios energéticos com potencial de tornarem-se algo além de si, por meio do encontro com o outro pólo.

Essa ambiguidade que podemos observar em sua teoria, que ora trabalha com estruturas herdadas que se remetem a padrões disto e daquilo, e ora aponta a semente de disrupção e subversão da lógica herdada, é marca expressiva desta abordagem em Psicologia, que enxerga a psique e o processo de individuação humano como pendular, oscilando entre pólos em busca de um equilíbrio energético.

Um mérito de sua teoria está na reconciliação entre conhecimentos científicos e não científicos na busca por explicações amplas e profundas do funcionamento psíquico humano. Oxalá possamos utilizar essa sabedoria de integrar conhecimentos sagrados, profanos, esotéricos, científicos, leigos, construtivistas, biológicos, sociais, filosóficos, tecnológicos, para resgatar a semente subversiva, hibrida e andrógena que postulou Jung para a psique.

 

 

Clarissa De Franco é psicóloga, Doutora em Ciência das Religiões, em trabalho de Pós-Doutorado na área de Estudos de Gênero.

Privilégio epistêmico e lugar de fala: nós e os outros na cena pública

 

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Clarissa De Franco[1]

            Brancos falando de pretas. Pessoas cis palestrando sobre pessoas trans. Homens discutindo machismo, feminismo, sexismo como figuras de referência. A classe média criando teorias acerca das dores e sofrimentos das famílias de baixa renda. Eventos sobre intolerância religiosa presididos por lideranças de religiões majoritárias. Gente da cidade escrevendo sobre os conflitos do campo. Nativos/as/xs falando de migrantes e suas complexas trajetórias de pertencimento e estruturação da identidade… Vemos frequentemente essas situações, em cenas públicas e privadas, muitas vezes organizadas por gente com trajetória larga de estudos, em boa parte com intenções verdadeiras de promoção de igualdade, equidade de oportunidades, combate às violências, discriminações e exclusões.

Às portas da segunda década do século XXI, há um evidente mal-estar entre as pessoas sobre quem se fala em terceira pessoa, objetos de uma relação de poder/saber – como nos lembra Foucault (1979; 2010; 2013) – que acaba por dividir ao invés de somar, contribuindo para agudizar os processos de desigualdade e exclusão. “Nada sobre nós sem nós”, lema símbolo da luta de militantes com deficiência, pode ser entoado como um hino que perpassa qualquer minoria social.

Alguns/as/xs, alheixs ao núcleo caro deste debate, questionam ingenuamente: “Quer dizer, então, que ninguém mais pode estudar experiências não vividas? Ninguém mais pode se colocar no lugar do outro e se solidarizar com a dor alheia a partir dos meios que possui? Só as minorias são um objeto “problemático” e proibido, já que em qualquer estudo se aceita – e muitas vezes tem sido até reforçada essa posição –  que se pesquise realidades distantes, em nome da neutralidade que não contaminaria os estudos?”

As perguntas que podem conduzir a um debate mais profundo acerca do tema não me parecem ser essas.  Cabe nos perguntar a todxs: “Afinal, por que falar em nome do outro? O que legitima algumas pessoas que não pertencem à determinada condição autorizarem a si mesmas a este lugar? Que mecanismo prende as pessoas de boa fé à manutenção da lógica dos lugares de poder, contra os quais elas próprias se dizem combatentes?” Estas, sim, me parecem questões mais elucidativas.

Tais mecanismos que enredam as várias pontas da estrutura social, mantendo cada qual no “lugar que lhes caberia”, pertencem à lógica da colonialidade, neste caso, em sua manifestação epistêmica, mas também sustentando exclusões/inclusões identitárias como lugares de poder. Quando alguém tem a autoridade de falar por outro/a/x, está legitimando as velhas relações entre conquistadorxs e conquistadxs. Lembramos que uma forma contundente na história da dominação é o discurso que “inventa, classifica e subalterniza o outro” (BERNARDINO-CAMPOS; GROSFOGUEL, 2016).

A despeito disso tudo, não se trata de proibir, coibir ou desmerecer discursos outsiders. Para implodir a lógica binária da colonialidade é preciso um enfrentamento múltiplo, que, ao mesmo tempo, traga empoderamento, autonomia e protagonismo aos/às/axs sujeitxs invisibilizadxs historicamente, e garanta a participação ativa de pessoas de vários segmentos e visões no debate público democrático. O que, por vezes, é conflitivo e antagônico, mas está nas raízes de uma democracia real. Que bom que o outro nos interessa (já era tempo!). Diante desse interesse – e refiro-me aos interesses genuínos – façamos, então, exercícios autocríticos para que o outro não seja apenas personagens de nossos escritos, objetos de nossas pesquisas. Que este outro possa ocupar os palanques, as mesas, os parques, as linhas, ao nosso lado.

 

Referências

 

DUSSEL, Enrique. Europa, modernidade e eurocentrismo. In: LANDER, Edgardo (Org.) A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americana, Buenos Aires: Clacso, 2005, p. 55-70.

DUSSEL, Henrique. 1492: El encubrimiento del otro: hacia el origen del mito de la modernidad (conferencias de Frankford, octubre 1992). Bolivia: Plural Editores, 1994.

FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

FOUCAULT, M. A Arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013.

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Editora Loyola, 2010.

GROSFOGUEL, Ramón; BERNARDINO-COSTA, Joaze. Decolonialidade e perspectiva negra. Revista Sociedade e Estado – Volume 31 Número 1 Janeiro/Abril. 2016

 

[1] Psicóloga e Pesquisadora da UFABC, Doutora em Ciência das Religiões (PUC/SP), Pós-doutorado em Ciências Humanas e Sociais (UFABC) e Pós-Doutorado (em andamento) em Estudos de Gênero. (UCES, Argentina). Temas: Gênero e Religião (feminismo islâmico, disputas discursivas entre gênero e religião, ideologia de gênero, epistemologias de gênero e religião…). Gênero, Direitos Humanos e Políticas Afirmativas. Laicidade e Tolerância. Ateísmo e novas espiritualidades. E-mail: clarissadefranco@hotmail.com

 

Epistemologias afinadas com vivências reais e possíveis: críticas dos estudos de gênero à lógica do fazer científico

Clarissa De Franco[1]

 

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Suspiro inicial: relação da pesquisadora com o objeto

É só um parágrafo (longo) de suspiro antes de entrar no tema do artigo que provavelmente vos interessa. E o suspiro refere-se a explicitar minha relação com o objeto de estudo aqui discutido, algo que não é dispensável. Não sei quantas vezes me apresentei nessa vida. Cada vez, possivelmente, de uma maneira distinta da anterior e da próxima. Mais importante para este artigo do que saber que há muitas Clarissas e quem são cada uma delas ou elas em conjunto, é saber que a Clarissa que vos fala é a que tem sido impactada justamente por sua necessidade de infinitas e constantes novas buscas. Impactada no sentido de cansada, querendo um lugar de recolhimento, tendo delineado até então um caminho acadêmico e pessoal muito plural, que traz tensões para a constituição de uma noção de localização de si como sujeita no mundo. Não que pudesse ser muito diferente. A falácia da fixidez de quem somos já caiu desde muito antes das críticas pós-modernas às identidades. Dentro deste meu atual lócus de recolhimento, a perspectiva de gênero tem se mostrado persistente. Descobri-me feminista há alguns anos. E mesmo estando nas universidades desde a graduação (mais da metade dos meus atuais 37 anos), não foi a ciência que me ensinou sobre feminismo, universo trans, violências materiais, simbólicas e epistemológicas de gênero. Foi o cotidiano, que também passa pela academia no meu caso, mas de maneira mais prática e menos conceitual. Por isso, questionar o fazer científico aqui, no auge do recolhimento crepuscular de minha caminhada, tem como sentido a reflexão de que a produção de conhecimento científico está atrasada. Temos pouquíssimos Programas de Mestrado e Doutorado no Brasil em Estudos de Gênero. Seguimos atuando e formando profissionais, sem que elxs se dêem conta do buraco que ajudam a cavar com suas pesquisas higiênicas, neutras, céticas e dentro dos padrões. Com seus métodos e visões de sujeitxs e de mundo. É muito mais que uma perda de tempo. É um produzir e reproduzir sistemático de critérios hierarquizados e excludentes. É um aprofundar-se coletivo em perspectivas que nos engessam, nos limitam, nos ferram a todxs, em última instância. Quero olhar para meu quintal e proponho que cada um olhe para o seu, revisando suas práticas, suas falas e refletindo sobre a que “senhor” servem os seus (nossos) suores formatados.

 

Corpos em ação

As críticas epistemológicas centrais do feminismo ao fazer científico, e que, sob expressivos esforços, têm adentrado os muros da(s) ciência(s) – ainda que de maneira quase que paralela às epistemologias tradicionais, sem um diálogo de duas ou mais vias – , foram pautadas principalmente em desvelar e combater ideais de produção de conhecimento e de identidade científica ancorados em pressupostos como: neutralidade, objetividade, universalidade, distanciamento entre sujeitx e objeto e pesquisadorxs e pesquisadxs, busca pela verdade como fundamento único, palpável e último, pressupostos tais que são comumente associados a um modelo ideal de masculinidade e racionalidade. Nessa visão, o constructo acerca do ser mulher envolveria uma “contaminação” emocional, que levaria a uma subjetividade desaconselhada para a ciência “séria”.

“Começamos mal”, diria a sabedoria popular. De fato, começamos. A pesquisadora de gênero Diana Maffía (s.d, acesso em 2018, p. 2) lista as duas colunas abaixo, indicando que uma coluna está associada a características atribuídas ao feminino e outra ao masculino.

Não é preciso um exercício exaustivo para reconhecer com qual coluna feminino e masculino são associados. Há, nesse tipo de pensamento dicotômico, toda uma lógica de oposição e mútua exclusão, como se nada mais houvesse fora do binarismo apontado e como se ambas as características apresentadas como polaridades não estivessem parcialmente contidas umas nas outras. Nossa “atitude natural”[2] (Kessler; Mackenna, 1978) diante destas questões é aceitar quase que automaticamente que homens seriam mais objetivos e racionais e as mulheres em geral mais emotivas, metafóricas e menos lineares.

A ciência moderna, comumente identificada com os atributos visualizados na coluna esquerda acima, constitui-se como um pilar de autoridade do saber, que atribui poder epistêmico àquelxs que se identificam e são socialmente identificadxs com a sua lógica. Nesse sentido, o que foge a esta lógica é excluído da ciência por um atestado tácito de falta de credibilidade. As mulheres têm ocupado este lugar de invisibilidade, exclusão e desautorização epistêmica.

Fortes contribuições são oriundas dos estudos pós-coloniais e mostram como a desigualdade, marginalização e hierarquização de grupos ocorrem em diversas instâncias, inclusive na linguagem. Não é por acaso que a pesquisadora pós-colonialista Gayatri Spivak (2010) aponta a violência epistêmica sofrida pelos povos subalternos e colonizados, em especial as mulheres. “A mulher, como subalterna, não pode falar, e quando tenta fazê-lo, não encontra os meios para se fazer ouvir” (Spivak, 2010, p.15).

Quando se fala de mulheres, não nos referimos a sujeitas específicas, mas a um constructo social sobre o ser mulher, que envolve as características acima citadas como atitudes naturais de gênero. Ou seja, não se trata de pessoas do gênero feminino reais, mas de ideais que pairam coletivamente sobre o que as mulheres são.

Numa evidente e árdua tarefa de desconstrução e crítica aos princípios que sustentam esta lógica científica e epistemológica, diversxs investigadorxs têm trabalhado. A pesquisadora de filosofia Rae Langton (2000) aponta algumas formas de exclusão das mulheres no campo da produção do conhecimento. Dentre elas, está o cenário de que as mulheres seriam percebidas como um “objeto misterioso”, difícil de ser acessado, com uma complexidade atrelada ao universo emocional e subjetivo. Ela complementa indicando que “quando filósofos definem seres humanos como animais racionais, (…) assumem que as mulheres estão fora”[3] (p. 130). Esta forma de exclusão das mulheres acaba por culpabilizá-las por serem uma “terra incógnita”, e jamais responsabilizar aqueles que têm dificuldades ou que necessitariam revisar seus métodos para conhecer modos plurais de subjetividades. Além disso, Langton (2000) considera que o processo educacional cria lacunas de participação e produção cognitiva das mulheres em diversos âmbitos, como o linguístico e cientifico, retirando-lhes a autoridade subjetiva de “saber que sabem”, confiar em seu próprio repertório de conhecimento e se verem reconhecidas, com uma credibilidade social. Nesse sentido, ela aponta que tanto no lugar de sujeitas como de objetos de conhecimento, as mulheres têm sido excluídas, mesmo que parcialmente, ou, quando dentro, estão submetidas à lógica dominante do fazer científico.

A identificação social das mulheres com seus corpos, fruto de processos como a objetificação, também afetam sua relação com a ciência e com a produção de conhecimento, uma vez que dentre as dicotomias apontadas por Maffía (s.d, acesso em 2018), os corpos, em um dualismo cartesiano, seriam situados como opostos ao universo mental. E são as mentes que têm interessado à ciência por séculos, que retira dos corpos uma autoridade epistêmica, criando novos dualismos. Nesse sentido, as mulheres levariam suas opiniões para as pesquisas, enquanto os homens (como ideal de masculinidade, não homens em si) levariam seus argumentos e fundamentos, gozando de respeitabilidade.

Outra questão apontada por Langton (2000), mas também por outras pesquisadoras como Sandra Harding (1986; 1998) e Donna Haraway (1995), são as concepções ideais de conhecimento e ciência e os perigos envolvidos nos pressupostos de neutralidade, distanciamento entre sujeitx e objeto, objetividade. Nestes ideais, há escolhas e produções de sujeitxs e visões de mundo que levam a justificar as exclusões.

Haraway (1995) lembra que a distância entre sujeitoxs e objetos serve para desagenciar os objetos, aquelxs a quem se estuda, e, com isso, dar poder axs sujeitxs protegidxs em seus laboratórios, computadores e papers . Desse modo, tornam-se passivos os objetos estudados, retirando de si sua autonomia, voz, identidade e conhecimento sobre si mesmos. Quem sabe sobre o outro são xs sujeitxs investigadorxs. Uma clara violência epistêmica. A autora propõe como alternativa metodológica e epistemológica, que é preciso estabelecer relações com os objetos a partir da localização de saberes, uma forma de objetividade parcial e situada – que não recai no relativismo radical e absoluto que nega qualquer possibilidade de acesso a fatos concretos, já que qualquer realidade sob este prisma seria interpretativa, tampouco se apega ao conceito de uma objetividade empírica adaptada ao feminismo, como seria, segundo Haraway, a proposta de “empiricismo feminista” de Sandra Harding (1986; 1998).

A objetividade parcial e corporificada dos conhecimentos situados de Haraway (1995) considera tensões, contradições e ressonâncias. Tem a responsabilidade de trazer visibilidade ao lugar de onde falam xs sujeitxs, não como um lugar de fala estanque (“vim daqui”), e sim, como uma honestidade de partilhar com xs leitorxs as transformações que afetaram o processo de construção da pesquisa e das relações na produção de conhecimento, ciente das problemáticas e tensões que envolvem as escolhas de pesquisa.

Hellen Longino (2001, p. 217) complementa, afirmando compreender a ciência “mais como prática que conteúdo, mais como processo que produto”, indicando, portanto, que o fazer científico e sua lógica estão para muito além dos objetos que investiga, derramando-se expressivamente nas relações estabelecidas com estes objetos, os/as sujeitos/as produtores/as do conhecimento e a disseminação do conteúdo produzido.

Retomando Haraway (1995, p. 29), ela aponta que “a responsabilidade feminista requer um conhecimento afinado à ressonância, não a dicotomias”. E conclui: “o feminismo ama outra ciência: a ciência e a política da interpretação, (…) do gaguejar e do parcialmente compreendido. O feminismo tem a ver com as ciências dos sujeitos múltiplos(…), consequente com um posicionamento crítico num espaço social não homogêneo e marcado pelo gênero” (Haraway, 1995, p. 31). Nesse sentido, a ciência também tornou-se um espaço de reivindicação feminista visando, não apenas à equiparação de oportunidades de lugares de fala e à reparação de situações de exclusão e de invisibilidade das mulheres e de grupos minoritários de gênero como os LGBTs; mas também à reconstituição e, sobretudo, à desconstrução de lógicas internas do próprio fazer científico e de seus pressupostos.

Portanto, a produção científica feminista passa por escolhas políticas incontornáveis, das quais pesquisadorxs não podemos nos esquivar, sem o ônus da ingenuidade ou intencionalidade dirigida à manutenção destes sistemas de poder. A ciência que passa pela crivagem do gênero é uma ciência na qual o distanciamento comumente associado às perspectivas da neutralidade e objetividade torna-se uma armadilha metodológica.

Há nesse sentido, toda uma reformulação epistemológica a ser construída no cotidiano das relações sociais, privadas e públicas, e dentro do campo de produção de conhecimento. Há que se considerar que as epistemologias feministas também recebem críticas importantes. Os Estudos Trans, fortalecidos a partir das décadas de 1980 e 1990, apontam para desafios e responsabilidades ainda maiores em relação à quebra de dicotomias e binarismos, uma vez que questiona justamente a ambivalência e a permanência de gêneros, indicando uma fluidez que não comporta definições de sujeitx divididos entre os universos masculino e feminino.

Hanah Maccann (2016), pesquisadora Queer, alerta para problemas epistemológicos que surgiram de algumas perspectivas feministas, como o reforço ao binarismo, e a problemática questão dxs sujeitxs, já que no feminismo, as mulheres estão prioritariamente em destaque. De que mulheres se fala, afinal? Não haveria exclusões, universalização, reforço a binarismos e à fixidez das identidades diante da escolha feminista da defesa e exaltação do ser “mulher”?

O universo trans, que promove a quebra de fronteiras identitárias, dentre outras, situa-se na desestabilidade das linhas abissais, para citar a linguagem de Boaventura de Souza Santos (2007). As linhas abissais são aquelas que separam as realidades em inteligíveis e não inteligíveis, estabelecendo fronteiras operacionais entre epistemologias dominantes e marginalizadas. Ainda que as epistemologias feministas estejam dentre as epistemologias marginalizadas, algumas de suas posições acabam por invisibilizar identidades que não obedecem à lógica do feminino e masculino. Aqui, poderíamos citar qualquer identidade, de modo geral, uma vez que a fixidez não é um atributo da vivência humana, e sim, uma mirada conceitual externa à vivência, que pretende captura-la. Ademais das identidades múltiplas, o trans, como categoria, ou seja, aquilo e aquelxs que transitam, o que não se estabelece a priori, que é fluido por excelência, que não tem fixidez e tampouco a pretensão de fixidez, o trans aponta para novos esforços de reformulações cognitivas, para além dos já estabelecidos pelas epistemologias feministas.

 

Respiro final

Em conclusão, aponto para a grande tarefa que temos em nossas mãos em fins da década de 2010. Há pelo menos uns trinta anos, discute-se a revisão das posturas epistemológicas tradicionais e dominantes. E a verdade é que seguimos fazendo ciência como se ainda estivéssemos sob o paradigma iluminista do ser racional que evoca neutralidade atrelada à perspectiva de ética em ciência.

Assumir posições e afetos no fazer científico, assumir vozes, erros, medos, dilemas, assumir fraquezas conceituais, dificuldades metodológicas, assumir que produzimos realidades e passamos a agir de acordo com essas produções como se elas sempre estivessem estado na vida cotidiana, assumir que o trabalho científico é menos relevante para o mundo do que ele gostaria de ser, assumir que o projeto de modernidade não vigorou e que o critério científico não é superior a outras formas de acesso ao conhecimento, enfim, assumir e modificar muitas lógicas, é o começo de narrativas e conhecimentos mais afinados com vivências reais e possíveis.

 

Referências

McCann, Hannah. (2016). Epistemología del sujetx. El desafío de la teoría queer a la sociología feminista. WSQ: Women`s Studies Quaterly. 44: 3 & 4 (Fall/Winter), 224-243.

Haraway, Donna. (1995). Saberes Localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, (5), pp. 07-41.

Harding, Sandra. (1998). “Is There a Feminist Method?”In: Harding, Sandra. Feminism and Methodology. Indianapolis: Indiana University Press.

Harding, Sandra (1986). Science Question in Feminism. New York. Comell University Press.

Husserl, Edmund. (1931). Ideas. New York. Humanity Press.

Kessler, Suzanne; Mckenna, Wendy. (1978). Gender: an ethnomethodological approch. Chicago, University of Chicago Press.

Langton, Rae. (2000). Feminism in epistemology: exclusion and objectification. In Miranda Fricker & Jennifer Hornsby (eds.). The Cambridge Companion to Feminism in Philosophy. Cambridge University Press. pp. 127—145.

Longino, Helen. (2001). Can there be a feminist science? In: Wyer, Mary et al (org.). Women, Science and Technology. Nova York: Routledge.

Maffía, Diana. (s.d) Contra las dicotomias: feminismo y epistemologia crítica. Instituto Interdisciplinario de Estudios de Género. Universidad de Buenos Aries. Disponível em: http://dianamaffia.com.ar/archivos/Contra-las-dicotom%C3%ADas.-Feminismo-y-epistemolog%C3%ADa-cr%C3%ADtica.pdf. Acesso em março de 2018.

Santos, Boaventura de Sousa; Meneses, Maria Paula. (Orgs.) (2010). Epistemologias do Sul. São. Paulo. Editora Cortez.

Spivak, Gayatri Chakravorty. (2010). Pode o subalterno falar? 1. ed. Trad. Sandra Regina Goulart Almeida; Marcos Pereira Feitosa; André Pereira. Belo Horizonte: Editora da UFMG.

 

[1] Psicóloga e Pesquisadora da UFABC, Doutora em Ciência das Religiões (PUC/SP), Pós-doutorado em Ciências Humanas e Sociais (UFABC) e Pós-Doutorado (em andamento) em Estudos de Gênero. Estudos (UCES, Argentina). Temas: Gênero e Religião (feminismo islâmico, disputas discursivas entre gênero e religião, ideologia de gênero, epistemologias de gênero e religião…). Gênero, Direitos Humanos e Políticas Afirmativas. Laicidade e Tolerância. Ateísmo e novas espiritualidades. E-mail: clarissadefranco@hotmail.com

 

[2] O conceito de “atitude natural” vem da Fenomenologia e do pesquisador Edmund Husserl (1931), que descreve axiomas inquestionáveis que perpassam a vivência de um grupo sobre determinados temas, como se tais pressupostos já fossem dados universais da realidade, sem relação direta com existências particulares. As atitudes naturais de gênero foram assinaladas pelas pesquisadoras Kessler e Mckenna, 1978).

[3] Tradução nossa