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Ciência em Revista

Projeto Educação para a Morte. Reflexões sobre a morte no cotidiano escolar e o preparo do professor para lidar com a realidade da morte do outro e de si, espelhada na morte do outro.

André Luiz Reis Mattos

Bacharel em Administração pela UFRural/RJ, Mestre em História Cultural pela Universidade de Vassouras/RJ (Orientadora: Profª Doutora Ana Maria Dietrich); servidor da justiça estadual, ex-professor das disciplinas História da Educação, História da Arte, Arte e Educação e Teoria do Currículo no curso de Pedagogia da Faeterj – Três Rios/RJ;

 

Resumo:

Como professor de Arte e Educação da Faeterj – Três Rios/RJ (também das disciplinas de História da Educação e História da Arte) propus este projeto no 2ª semestre de 2017, para os alunos da disciplina Arte e Educação – 4º e 5º Períodos (repeti o projeto com os alunos do 4º e 5º períodos no primeiro semestre de 2018), com o objetivo de apresentar, discutir, analisar as questões da morte no cotidiano escolar de educação e a importância do professor aprender a lidar com a morte do outro e de si, espelhada na morte do outro (aluno, professores, funcionários, entre outros); bem como, com as experiências da morte vivenciadas por crianças e adolescentes de seu convívio educacional. O projeto Educação para a Morte tem seu nascedouro na minha pesquisa de mestrado onde as imagens fotográficas movimentaram a imaginação quanto à realidade imposta pelas fotografias de outros tempos, testemunhos da realidade de pós-morte das pessoas nelas retratadas; bem como, por perceber o quanto está questão encontra-se “fora” do campo de formação do pedagogo, apesar das experiências de violência e morte vividas pelos sujeitos comuns a atuação escolar. Enquanto educador constato que uma série de questões relacionadas à morte também permeiam o imaginário dos professores que experimentam o confronto desta realidade nas suas atividades educacionais.

Palavras-chaves: Educação, Morte, Pedagogo.

 

Project Education for Death. Reflections about death in the school routine and the preparation of the teacher to deal with the reality of the death of the other and of himself, mirrored in the death of the othe.

 

Abstract:

As a teacher of Art and Education at Faeterj – Três Rios / RJ (also in the subjects of History of Education and Art History) I proposed this project in the 2nd semester of 2017, for the students of Art and Education – 4th and 5th Periods the project with the students of the 4th and 5th periods in the first semester of 2018), with the objective of presenting, discussing, analyzing the issues of death in the school everyday of education and the importance of the teacher learning to deal with the death of the other and of yes, mirrored in the death of the other (student, teachers, employees, among others); as well as with the experiences of death experienced by children and adolescents of their educational life. The project Education for Death has its origin in my masters research where the photographic images moved the imagination about the reality imposed by the photographs of other times, testimonies of the postmortem reality of the people portrayed in them; as well as to perceive how much this question is “outside” the pedagogical training field, despite the experiences of violence and death experienced by the common subjects the school performance. As an educator I note that a number of issues related to death also permeate the imaginary of teachers who experience confrontation of this reality in their educational activities.

Key-words: Education, Death, Pedagogue.

 

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Sabe, nós nunca tínhamos pensado nisso! A alfabetização científica presente em nosso cotidiano: Reflexões em torno de rodas de conversa com alunos da educação de jovens e adultos

Sheila Moura Skolaude

Mestranda do Programa de Ensino e História das Ciências e Matemática da Universidade Federal do ABC – UFABC. Licenciada em Letras pelo Centro Universitário Ibero-Americano e em Pedagogia pela Universidade Cruzeiro do Sul.

 

Adriana Pugliese

Professora Doutora da Universidade Federal do ABC, Centro de Ciências Naturais e Humanas.

 

Maria Inês Ribas Rodrigues

Professora Doutora da Universidade Federal do ABC, Centro de Ciências Naturais e Humanas

 

Resumo

Este artigo originou-se de um ensaio acadêmico realizado a partir do entrelaçamento da reflexão de três textos e palestras realizadas na disciplina de Seminários I ofertada pela Universidade Federal do ABC – UFABC e ministrada pela Professora Doutora Adriana Pugliese Netto Lamas durante o 1º quadrimestre de 2018 e de um relato de experiência sobre indagações de alunos da Educação de Jovens e Adultos – EJA, em atividades de rodas de conversas para a elaboração de redações de vestibular com temas que envolvessem Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente – CTSA. Esses alunos fizeram parte do Programa da Secretaria do Estado de São Paulo, Escola da Juventude, no ano de 2005.

Palavras Chave: Alfabetização Científica. CTSA. Capital Cultural. EJA.

You know, we had never thought about it before! Scientific literacy present in our daily life: Reflections around yarnig circles with students of youth and adult education

 

Abstract

The academic essay was carried out through the interweaving of the reflection of three texts and lectures held in the discipline of Seminars I offered by the Universidade Federal do ABC – UFABC and taught by Professor Adriana Pugliese Netto Lamas during February to May 2018 and an experience report about inquiries of students of the Young and Adults Education in activities of yarning circles to write college application essays involving science-technology-society-environment – STSE. These students were part of the Program of São Paulo Secretary of Education named Escola da Juventude, Brazil, 2005.

Keywords: Scientific Literacy. Youth and Adult Education. Cultural Capital. STSE.

 

Introdução

 

Sabe, nós nunca tínhamos pensado nisso! Foi a exclamação escolhida para enfatizar o sentimento dos alunos nas rodas de conversas numa turma de Ensino Médio da Educação de Jovens e Adultos – EJA, chamada de Escola da Juventude no ano de 2005. Esse trabalho me incentivou, posteriormente, a atuar como voluntária no Programa Escola da Família em 2006. O Programa abria os espaços da escola para a comunidade durante os finais de semana e oferecia diversas atividades para a comunidade. Atuei como professora de português trabalhando com os alunos da EJA, tendo como objetivo prepará-los para as redações de vestibular. Todavia, não foi bem isso o que aconteceu.

Ao longo das aulas, durante o Programa, percebemos que o tempo era insuficiente para estudarmos o que precisávamos e os finais de semana não eram dias viáveis para muitos alunos. Decidimos, então, nos encontrar na casa de um aluno, uma vez por semana, para fazer rodas de conversas, as quais foram realizadas no decorrer de dois anos e tinham como objetivo a leitura e discussão de assuntos diversos de Ciências, Tecnologia, Sociedade e Ambiente – CTSA com o levantamento de ideias e produção de textos para o vestibular. Essas rodas de conversas aconteciam todas as quartas-feiras das 19h30 às 22h00.

Fizeram parte desse trabalho 10 alunos que pertenciam a uma turma de, aproximadamente, 30 alunos do Programa Escola da Juventude e que sentiram a necessidade de buscar ajuda em seus estudos. Esses alunos vieram de um histórico que apresentava significativos índices de reprovação, incompatibilidade do horário das aulas com o horário de trabalho ou das tarefas domésticas, dificuldade de acompanhar o curso, baixa autoestima etc.

Apesar das dificuldades, construímos, em pequenos e lentos passos, diversos debates que transformaram ideias em metas, metas em superação, superação em novos desafios, desafios em novos significados.

Essa experiência do passado, aliada a um novo contexto de estudo da primeira autora no curso de mestrado do Programa de Pós-graduação em Ensino e História das Ciências e da Matemática, da Universidade Federal do ABC – UFABC, fizeram repensar acerca do trabalho docente, sua relevância para a Alfabetização Científica – AC, assim como sobre as contribuições de Pierre Bourdieu para a Educação e o enriquecimento que uma pesquisa etnográfica pode trazer para o trabalho do pesquisador.

Para que alunos como aqueles não perpetuem suas vidas à margem da escola, todos nós temos um grande desafio e compromisso com a Educação Brasileira: buscar condições de proporcionar a esses jovens e adultos, verdadeiras oportunidades de ascensão cultural e social, por meio de um ensino democrático e por meio de novas práticas docentes.

Sheila não sabia bem o que estava fazendo naquela época, mas a atual oportunidade de investir em sua formação continuada tem lhe mostrado o quanto, nós professores, trabalhamos com diferentes práticas pedagógicas e não registramos e o quanto podemos aprender e ensinar outros professores com nossas experiências ao passo em que também investimos em nossa formação.

 

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Um sonho que se torna realidade: Escola da Ponte em visita

Maria Inês Ribas Rodrigues

Professora do Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC

Quando se trata de metodologia inovadora de ensino e sua influência entre instituições do ensino básico, é quase impossível esquecer-se da Escola da Ponte.

Uma proposta diferenciada que deveria fazer parte de muitas formações. Assim foi durante a minha própria. Havia outros exemplos na disciplina Didática, mas este foi um que marcaria minha carreira como professora profundamente.

Falar da Escola da Ponte é mostrar a possibilidade da mudança, quando se acredita em algo melhor envolvendo a coletividade. A Esperança é fundamental para todos, mas principalmente para aqueles que lidam com o contexto do ensino e aprendizagem.

Mas antes de adentrarmos sobre o contexto da visita a essa instituição de ensino portuguesa, gostaria de ressaltar alguns pontos, trazidos na leitura do livro do José Pacheco (2010), muito interessantes.

A Escola da Ponte surgiu em 1970, sob a proposta de ser um ensino diferenciado. Mas foi seis anos mais tarde, após um processo que poderia ser encarado como negativo para qualquer outra instituição de ensino, que surgiu um novo projeto.

Liderado por José Pacheco e motivado por uma série de questionamentos internos, que serviram de incentivo para a construção de algo completamente diferente, o projeto inicial fora transformado, tornando a formação voltada para um contexto centrado no estudante.

Segundo Pacheco (2010), a Escola da Ponte era um arquipélago de solidões, quando se refere ao trabalho isolado, tanto física quanto psicologicamente, dos professores. Um ensino dito tradicional, pautado em manuais e centrado nos professores. A diversidade sociocultural das crianças que chegavam à escola, ao invés de ser uma oportunidade enriquecedora, era motivo de desfavorecimento no contexto do ensino e aprendizagem, já que muitas eram originadas de bairros pobres da região.

Para o autor, não passa de um grave equívoco a ideia de que se poderá construir uma sociedade de indivíduos personalizados, participantes e democráticos enquanto a escolaridade for concebida como um mero adestramento cognitivo(PACHECO, 2010, p.13).

O tempo passou. Estando na cidade de Coimbra, para acompanhamento do Programa de Licenciaturas Internacionais (PLI), que coordenava na época, pela instituição de ensino superior na qual atuo na formação de professores, tive duas oportunidades de conhecer escolas portuguesas. Uma no centro da cidade de Coimbra e outra na cidade do Porto.

Tratava-se de uma época dourada para os cursos de formação de professores. Digo dourada, pois um novo panorama se fazia presente para o processo de formação de professores no Brasil. Época inicial do PIBID (Programa de Incentivo de Bolsa de Iniciação à Docência), outro programa que incentivava veementemente a formação de professores, inicial e continuada.

Aqui cabe um parêntesis, pois essa é a política que se deve empreender num país que pretende que seus professores sejam valorizados, bem formados e tenham possibilidades de estudarem e de se formarem continuamente, pesquisando a própria prática. A educação engajada com a construção de um mundo melhor, tendo a universidade integrada às escolas, crescendo juntas. Esses projetos trouxeram resultados que valem a pena serem revisitados (SILVA et al. 2014; MIRANDA et al. 2017)

Mas vamos à Ponte!

Primeiro entrei em contato com a secretaria dessa escola e agendei uma visita. Esse é o ponto de partida para os que pretendem conhece-la de perto.

Como já havia dito Ruben Alves, é uma Escola com que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir. E ela existe!

 

Foto 1- Fachada da Escola da Ponte
Fonte: autor

Ao chegar à escola, dirigi-me à secretaria para anunciar minha chegada, no horário previsto
para a visitação. Estava bem curiosa e eufórica por estar ali!
Sem muitas cerimônias, a secretária pediu que eu aguardasse do lado de fora.

Enquanto aguardava, coloquei atenção ao entorno. A escola era composta por um prédio
simples, onde o jardim era de terra batida, com algumas árvores distribuídas pelo espaço.

Foi então que uma criança de uns onze anos aproximou-se e me disse que me acompanharia
durante a visita à Escola da Ponte. Um tanto quanto perplexa, naturalmente, levantei-me e
segui-a pela entrada da escola, lembrando-me da experiência contada pelo Ruben Alves.

Era como um devaneio…

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O Brasil em risco: O alarme está soando!

Rodolfo Fiorucci

Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná – IFPR/Jacarezinho e Pesquisador do Grupo Integralismo e Outros Movimentos Nacionalistas

 

“Talvez sejam os públicos fascistas, e não seus líderes, que precisem ser psicanalisados” (Robert Paxton em A Anatomia do Fascismo).

Em A Revolução dos Bichos, Orwell nos ensinou, num desfecho glorioso, que seres que até ontem compartilhavam das mesmas mazelas que seus pares, podem se tornar algozes piores que os antigos inimigos. Foi assim que os porcos da fazenda, representando esta transformação, passaram a caminhar em duas patas na casa grande; antropomorfizando-se.
Publicada em 1945, esta obra é um dos maiores ícones de resistência aos Totalitarismos (Seja de Direita ou de Esquerda), aos sectarismos, às reverências a violência, às manipulações e a qualquer tipo de intolerância. Mas todos estes terrores são consequências de momentos anteriores, e estes é que devem ser percebidos a tempo. O alarme sempre soa, mas precisamos estar atentos para ouvi-lo.
Os terrores de ditaduras, totalitarismos e fascismos não surgem repentinamente. São construções sociais, políticas, econômicas e discursivas que se valem de momentos de crises para desenterrar os mais profundos sentimentos de ódio e medo. Grupos assumem protagonismos sociais ancorados em discursos moralistas, religiosos, nacionalistas e anticorrupção em tons extremados, construindo sempre… SEMPRE, um inimigo comum (judeus, negros, índios, homossexuais, testemunhas de Jeová, comunistas, imigrantes, mulheres, líderes sociais, petistas etc) que justifique toda e qualquer delinquência e violência. Pelo “bem comum”, alguns precisam ser sacrificados e a democracia despedaçada… e a partir daí, os seguidores deste fenômeno sócio-político se sentem livres para agir, com carta branca, como se protegidos por um excludente de ilicitude.
Nunca antes na História do mundo a escalada fascista assumiu contornos muito diversos dos supracitados. Não seria diferente em terras tupiniquins. Um espectro ronda o Brasil, e este é o espectro de um autoritarismo com pitadas fascistas. Como em A Revolução dos Bichos, tornamo-nos lobos (ou porcos) de nós mesmos. Hipnotizados sob a égide de um moralismo torpe, que se vale dos mesmos motes nazistas (“Alemanha [Brasil] acima de tudo, Deus acima de todos”) e integralista/fascista (“Deus, Pátria e Família), legiões de pessoas comuns revelam seus lados mais sombrios, crentes de que exista um inimigo comum e/ou uma grande conspiração para destruir as bases da sociedade cristã.
Cegos e apaixonados seguem o líder (já chamado noutros tempos de Fuhrer, Duce, Chefe… hoje Mito), consubstanciando palavras de ordem de essência violenta e intolerante, em práticas sociais e virtuais que erigem, pouco a pouco, o inferno coletivo. Defendem projetos de destruição de seus próprios direitos, de sua estabilidade social, de suas garantias democraticamente cidadãs, de suas liberdades individuais, em nome de uma fantasiosa segurança que se resume em armar a todos, numa sociedade de extrema desigualdade. Esta é a receita da hecatombe!
Bailamos a beira do precipício, vendados e sem paraquedas. Contaminados pela patologia do antipetismo, diuturnamente produzido por uma mídia antissocial e antinacional (dominada por 5 famílias no Brasil – e muitos acham que isso é democracia [?!]…), que se vale de todos os recursos disponíveis para aflorar ódio e medo, entregamo-nos a projetos megalomaníacos, atacamo-nos, ofendemo-nos, tornamo-nos assassinos, agressores, violentos!
A isto a psicologia chamaria de histeria coletiva, que é um fenômeno psíquico de tendência a repetir qualquer ato e crença quando em grupos que os praticam. Deixamos de ser racionais para nos converter em autômatos passionais, misseis teleguiados, cujos alvos somos nós mesmos. Aceitamos perder tudo, entregar as riquezas nacionais, vender nossa água, floresta, recursos minerais, trabalho formal, tudo! Depois disso, o que nos restará? Até mesmo passamos a defender quem nos explora dia-a-dia, lutamos para que enriqueçam mais e mais, ludibriados por uma lógica nada empírica de que sem eles nada seremos. Quando, sem nós, eles também nada são. A sociedade é um jogo de equilíbrio de forças, que só funcionará quando princípios de justiça social mínimos fizerem parte da cultura popular.
O inimigo não é o seu irmão da cruel labuta diária. Não é a carne negra, não é a cultura indígena, tampouco o/a homossexual, ou a mulher que, empoderando-se, mitiga seu primitivo e frágil machismo. Muito menos é aquele/a progressista que luta em prol da diminuição de desigualdades, de justiça social, de acesso a bens mínimos para todos! Os inimigos meu/minha irmão/irmã, são outros. Exatamente aqueles que te fazem acreditar que seus pares são seus horrores. Que os que compartilham de uma vida medíocre (até mesmo você que ganha 5 ou 10 mil reais por mês) como a sua, seriam os adversários, devido a singelas diferenças que cada um pode apresentar em relação a ti. Você ainda não percebeu que tudo que sustenta ainda alguma garantia e direito a você está sendo demolido sob a verborragia de uma moral nebulosa.
Ingmar Bergman, o talentoso cineasta sueco que produziu O ovo da Serpente (1977) – uma obra prima sobre a sociedade que produziria o nazismo -, foi um ardoroso admirador de Hitler na juventude, sentimento alimentado após assistir um discurso do Fuhrer, em 1936. Dizia ele que se sentiu eletrizado com aquelas ideias! Bergman, em uma entrevista a escritora Maria-Pia Boethius, rememorou: “O nazismo que eu via parecia divertido e juvenil. A grande ameaça eram os bolcheviques [comunistas], que eram odiados”. No mesmo livro revela que o irmão e amigos atacaram a casa de um judeu e picharam a suástica em suas paredes. Eles acreditavam estar fazendo o correto para defender a nação, a pátria e a família, tudo em nome de Deus. Bergman lamenta o que descobriu mais tarde: “Quando as portas dos campos de concentração foram abertas, a princípio não quis acreditar em meus olhos. De uma maneira brutal e violenta, de repente fui arrancado de minha inocência”.
O alarme está soando, berrando na verdade! Precisamos, com urgência, escutar. Do contrário, que sociedade estamos erigindo neste exato momento? AINDA não é tarde demais… e por isso todos devem empunhar a única arma capaz de modificar um futuro tenebroso: o voto! Aqueles que se abstiveram de escolher, que o façam agora, pois a onda fascista engole a tudo e a todos.
Como escreveu Dante Alighieri em sua Divina Comédia: “Os piores lugares do inferno são reservados aqueles que, em tempos de crise, permanecem-se neutros”. Não sejamos mornos.

MONTEIRO LOBATO, patrono da literatura infantil brasileira?

Luciano Fortunato

Nenhum autor de livros para crianças foi tão bem sucedido em ridicularizar e inferiorizar o povo negro. O Sítio do Picapau Amarelo é quase uma catequese racista. Todos os personagem negros são caricaturas. Há até o resgate da lenda do Saci, que associa o negro ao demônio. Os livros do Sítio são lixo cultural. Seu autor, um homem que apoiava a Ku Klux Klan e lutou pelo “clareamento” do Brasil, participando ativamente de sociedades de eugenia. Abaixo, um “belo” trecho de um livro com personagens do Sítio:

“Afinal as duas velhas apareceram – Dona Benta no vestido de gorgorão, e Nastácia num que Dona Benta lhe havia emprestado. Narizinho achou conveniente fazer a apresentação de ambas por haver ali muita gente que as desconhecia. Trepou em uma cadeira e disse:
– Respeitável público, tenho a honra de apresentar vovó, Dona Benta de Oliveira, sobrinha do famoso Cônego Agapito Encerrabodes de Oliveira, que já morreu. Também apresento a Princesa Anastácia. Não reparem por ser preta. É preta só por fora, e não de nascença. Foi uma fada que um dia a pretejou, condenando-a a ficar assim até que encontre um certo anel
na barriga de um certo peixe. Então o encanto se quebrará e ela virará uma linda princesa loura”. (LOBATO, 1959, p. 234)

Há alguns anos fiquei chocado ao ler (em fac simile, na Revista Bravo) as cartas racistas de Monteiro Lobato, onde ele lamenta com um amigo cientista nos Estados Unidos a falta de uma Ku Klux Klan no Brasil e que a culpa do atraso do Brasil é dos negros. Esse era o pensamento não só do nosso querido escritor, mas também de parte da ciência daquela época, que defendia a eugenia. Precisamos entender as circunstâncias do dito, evitando o anacronismo, sempre que possível. Particularmente, sou contra a retirada de seus livros, por serem eles parte integrante da formação cultural brasileira. Sou contra qualquer censura de qualquer obra: mesmo da parte racista da obra de Lobato, um autor, sim, racista, o que hoje é fato notório. Acho, aliás, que é preciso entendermos como pensavam as “grandes mentes” da cultura nacional, para assim melhor compreendermos o fenômeno do racismo, que persiste.