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Caderno de Notas

As 7 condições do crítico ideal

Na manhã de terça-feira, dia 16, o Le Monde anunciou “La mort d’Antonio Candido, figure de la gauche brésilienne”, texto assinado pelo jornalista franco-brasileiro Paulo A. Paranaguá. Dentre os vários trechos dignos de destaque, chamo a atenção para a seguinte passagem: “L’essayiste et universitaire, qui avait réinventé l’histoire des lettres brésiliennes, est mort vendredi 12 mai à Sao Paulo”. Há, como bem se vê, dois pontos a serem considerados: o primeiro, foco da construção, é a morte, ocorrida na última sexta-feira, dia 12 – prematura, ainda que aos 98 anos – do crítico e professor brasileiro Antonio Candido; a segunda, relativamente acessória, de que o ensaísta e universitário “reinventou a história das letras brasileiras”.

Antonio Candido (esquerda)

Formado dentro de uma linha bastante uspiana, para não dizer “candidiana”, serei sempre suspeito para falar sobre o “Grão Mestre dessa ordem iniciática” e tendo a concordar com o Paulo A. Paranaguá. Guardadas as devidas distâncias, sou – como uma antiga conhecida disse há alguns dias – um “candidete” por filiação. As distâncias que prefiro manter – é preciso explicar – são aquelas ligadas a um “papel fundacional” e nuclear atribuído à Semana de 22 e, de uma maneira geral, ao Modernismo de São Paulo – “artifício” que nasceu com os próprios modernistas e seguiu dentro da corrente que, na atual conjuntura, é a linha principal da crítica no Brasil. Não é caso de sair de um absoluto e cair no outro, mas de refletir e considerar as complexas formações da literatura e da(s) crítica(s) brasileira(s). Aos interessados, no que diz respeito a nossa “história modernista do Modernismo”, recomendo o livro A palavra modernista, do professor Pedro Duarte, um dos títulos da coleção Modernismo +90 – essencial para os que desejam compreender melhor os “aspectos conceituais do movimento”, seus desdobramentos e implicações.

Ainda que a morte e o morto mereçam um texto todo seu, ainda que a influência do pensamento de Candido requeira um apontamento mais cuidado, a nota dessa semana vai buscar suas bases nos ensinamentos daquele que foi o Precursor dos precursores, o Mestre dos mestres, o Bruxo-mor do velho cosmos, Machado de Assis.

Em 08 de outubro de 1865, quando grandes nomes da geração de 1870, como Sílvio Romero, José Veríssimo e Araripe Junior, estavam ainda na infância ou na adolescência – tinham, respectivamente, 14, 8 e 17 anos – Machado publica, pelo Diário do Rio de Janeiro, “O ideal do crítico”.  No artigo, o prosador e poeta carioca apresentaria o que, para ele, seriam “as condições, as virtudes e os deveres dos que se destinam à análise literária”. Numerando cada uma das “indicações” feitas durante o escrito, buscaremos estabelecer, de maneira minimamente didática, a checklist do que M. A. “exigiria no crítico do futuro”.

 

1. A CIÊNCIA

“O crítico atualmente aceito não prima pela ciência literária.”

Hoje, há sempre aquele que, ao ouvir ou ler a palavra “ciência” muito achegada de qualquer variação do Literário, de qualquer vocábulo que remeta à literatura ou, de maneira mais geral, à arte da escrita, trata logo de pregar os olhos no teto, entortar a boca, torcer o nariz e, num ataque violento dos nervos, seguido de salivação espumosa, grunhidos e enrijecimento do corpo, fica profundamente revoltado, ofendido, injuriado, ultrajado, tomado de ira profunda e de profunda irritação. Se você se reconheceu, se notou qualquer sinal de contração, algum espasmo nas pálpebras, uma coceira nos fundilhos, acalme-se, respire, sente-se confortavelmente e prossiga com a leitura. Segundo Machado, a “marcha do crítico” deve ser criteriosa, “cumpre-lhe meditar profundamente sobre” a obra, “procurar-lhe o sentido íntimo, aplicar-lhe as leis poéticas, ver enfim até que ponto a imaginação e a verdade conferenciaram para aquela produção”. Para o autor, “crítica é análise — a crítica que não analisa é a mais cômoda, mas não pode pretender a ser fecunda”. Então, para os aflitos, creio que, simplificando, possamos compreender a palavra “ciência” como um sistema que visa adquirir conhecimento através de um método específico, ou seja, por meio de critérios e passos previamente estabelecidos. Claro, senhoras e senhoras, ciências exatas, ciências humanas, Maquiavel, Montesquieu, tradição empirista inglesa, Bacon, Hume, depois Comte, depois Durkheim, depois Dilthey, a explicação e a compreensão, Weber… não vamos seguir com isso agora, né? Vamos voltar às “dicas” do homem! Afinal, como já dizia Passos Dias, meu amigo e camarada, “se quiser derrubar uma árvore na metade do tempo, passe o dobro do tempo amolando o Machado”.

 

2. A CONSCIÊNCIA

“Não compreendo o crítico sem consciência. A ciência e a consciência, eis as duas condições principais para exercer a crítica.”

Alexei Bueno

Para além do critério – e junto a ele – deve estar a consciência. A crítica só será “fecunda”, para utilizar o termo machadiano, só será rica, se for sincera, se a “política literária” não “modelar” as sentenças do crítico por “um interesse, quer seja o interesse do ódio, quer o da adulação ou da simpatia”. Ofereço, para os interessados em ruminar e ponderar um pouco sobre o assunto e os “interesses”, dois casos – ou duas pontas de longos enrolos: 1) a “Carta aberta aos poetas brasileiros”, de Alexei Bueno, publicada – se não me engano – em 2000, e os textos que “rondaram” (e rondam) a mesma, como o de Ruy Espinheira Filho, ou o “Email para um jovem poeta”, do Soares Feitosa; 2) a recepção crítica do livro Elefante (2000), de Francisco Alvim, dando especial foco aos textos de Roberto Schwarz. Voltando ao que disse Machado, “pouco deve importar”, para o crítico, “as simpatias ou antipatias dos outros; um sorriso complacente, se pode ser recebido e retribuído com outro, não deve determinar, como a espada de Breno, o peso da balança; acima de tudo, dos sorrisos e das desatenções, está o dever de dizer a verdade, e em caso de dúvida, antes calá-la, que negá-la”. O Mestre sabia das dificuldades que a “falta de favores” acarreta e acarretaria – em tempos de agora, com o Brasil embrazado como está, com “favores” despontando aqui e ali, a consideração deixada ganha um brilho a mais: “Com tais princípios, eu compreendo que é difícil viver; mas a crítica não é uma profissão de rosas, e se o é, é-o somente no que respeita à satisfação íntima de dizer a verdade”. A crítica não é uma profissão de rosas. A crítica não é uma profissão de rosas. A crítica não é uma profissão de rosas.

 

3. A COERÊNCIA

“Das duas condições indicadas acima decorrem naturalmente outras, tão necessárias como elas, ao exercício da crítica. A coerência é uma dessas condições, e só pode praticá-la o crítico verdadeiramente consciencioso.”

O crítico deve levar em consideração a sua ciência, os critérios e os métodos envolvidos, ser consciente e não perder a coerência. Parece-me, no entanto, que, mantendo as duas primeiras “dicas”, dificilmente o sujeito perderá em coerência. De qualquer forma, vale salientar que ser coerente – acho que Machado concordaria – não significa persistir no erro. Não significa – não deveria significar – perceber um problema metodológico, uma falha nos critérios, um desvio das escolhas feitas no momento da análise tendo em vista a obra analisada e, para manter a “falsa unidade”, bater o pé, negar o tropeço e contornar com adornos e florações. Ser coerente é estar consciente das suas atividades e escolhas metodológicas, compreendendo que elas não são perfeitas, mas, pelo contrário, são ferramentas de trabalho que podem, a depender da obra, não servir para a análise. Como exemplo, cito o caso de José Veríssimo, estudioso de alto nível, com o simbolismo e, mais especificamente, no que se refere à recepção da obra de Cruz e Souza. Em um primeiro momento, o crítico chegou a dizer que o poeta era apenas um “parnasiano que leu Verlaine” e classificou Missal, obra de poemas em prosa, como “um amontoado de palavras, que dir-se-iam tiradas ao acaso, como papelinhos de sorte, e colocadas umas após outras na ordem em que vão saindo, com raro desdém da língua, da gramática e superabundante uso de maiúsculas”. Algum tempo depois, já na sexta série de seus Estudos de Literatura Brasileira, Veríssimo reconhecera, dando suas próprias justificativas, que a poesia de Cruz e Souza era “uma flor singular, de rara distinção e colorido, de perfume extravagante mas delicioso, no jardim da nossa poesia”. Assim, com essa “amende honorable” – como bem apontou Nestor Vítor – Veríssimo faz uma espécie de “ajustamento crítico”, alterando sua posição inicial sobre o estética simbolista e mantendo a coerência.

 

4. A INDEPENDÊNCIA

“O crítico deve ser independente — independente em tudo e de tudo — independente da vaidade dos autores e da vaidade própria.”

Entregando-se a um exercício cotidiano, travando uma batalha diária, o crítico deve estar sempre atento às “cegas adorações”, às “sugestões do orgulho” e às “imposições do amor próprio”. Deve tratar de não cair nas armadilhas do ego e ver o seu ofício como “uma luta constante contra todas” as “dependências pessoais, que desautoram os seus juízos, sem deixar de perverter a opinião”. Recapitulando, sabemos, até o momento, que o crítico, para Machado, tem de estar consciente da sua atividade, dos seus métodos e critérios, buscando ser coerente em suas análises e mantendo, sempre que possível, o que – talvez – possamos chamar de “autonomia intelectual”. Não é mesmo um “profissão de rosas”.

 

5. A TOLERÂNCIA

“A tolerância é ainda uma virtude do crítico. A intolerância é cega, e a cegueira é um elemento do erro; o conselho e a moderação podem corrigir e encaminhar as inteligências; mas a intolerância nada produz que tenha as condições de fecundo e duradouro.”

Nesse quesito, torna-se quase uma obrigação lembrarmo-nos de Antonio Candido – para mim, o mais cortês de todos os críticos brasileiros. De acordo com Machado, é “preciso que o crítico seja tolerante, mesmo no terreno das diferenças de escola: se as preferências do crítico são pela escola romântica, cumpre não condenar, só por isso, as obras-primas que a tradição clássica nos legou, nem as obras meditadas que a musa moderna inspira; do mesmo modo devem os clássicos fazer justiça às boas obras dos românticos e dos realistas, tão inteira justiça, como estes devem fazer às boas obras daqueles”. Para dar um exemplo pessoal, tenho predileção pelo que ficou conhecida – nos manuais de literatura – como a terceira fase do romantismo, “condorismo” ou “condoreirismo”, pela poesia de Tobias Barreto e Castro Alves, principalmente; mas também me tocam os poemas de Gregório de Matos, Auta de Souza, Álvares de Azevedo, e dos contemporâneos, Ana Martins Marques, Eucanaã Ferraz, Marília Garcia, entre outros. Isso, é claro, para me manter na literatura brasileira. Se falar sobre “escolas” te parece “fora de moda”, um impulso mais ou menos anacrônico, recomendo que procure, só para experimentar a fagulha, o texto de Carlos Graieb sobre as “tribos invisíveis”. Coisa pequena, um petisco. Machado afirma, dando um exemplo próprio, “a minha admiração pelo Cid não me fez obscurecer as belezas de Ruy Blas. A crítica que, para não ter o trabalho de meditar e aprofundar, se limitasse a uma proscrição em massa, seria a crítica da destruição e do aniquilamento”, uma crítica estéril, sem propósito.

 

6. A MODERAÇÃO

“Será necessário dizer que uma das condições da crítica deve ser a urbanidade?”

Chegamos a um ponto que pode gerar confusão. Descompliquemos um pouco. “Urbanidade”, como todos podem constatar ao ler o texto machadiano, contrapõe-se à rusticidade, ou à “expressão rústica”, grosseira. Dessa forma, aponta para um “modo cortês”, para a gentileza, a “civilidade”, a educação. Para o bruxo-mor, “uma crítica que, para a expressão das suas ideias, só encontra fórmulas ásperas, pode perder as esperanças de influir e dirigir. Para muita gente será esse o meio de provar independência; mas os olhos experimentados farão muito pouco caso de uma independência que precisa sair da sala para mostrar que existe”. Voltando à “Carta” de Alexei:

Como é impossível que um crítico de cinema que não conheça exaustivamente Griffith, Eisenstein, Murnau, Pudovkin, Dreyer, Lang, Gance, Seastrom, Clair, Keaton, Chaplin, Fellini, Pasolini, Godard, etc. etc. seja um crítico de cinema, o crítico de poesia que só conhece “vanguardeiros” e “marginais” não pode criticar poesia nenhuma. Vá ler Camões, vagabundo! Essa gente pode ter gostos ou opiniões, como todos temos, mas o gosto é para a estética o que a opinião é para a filosofia, nada. Como nada disso é crítica.

Sem dúvida, um desabafo. Não deixe de ler a carta na íntegra por conta desse fragmento. Lembre-se, não se trata de escolher seu time e eleger seus inimigos. Trago esse trecho apenas para considerar mais uma observação do Grande dos grandes:

Moderação e urbanidade na expressão, eis o melhor meio de convencer; não há outro que seja tão eficaz. Se a delicadeza das maneiras é um dever de todo homem que vive entre homens, com mais razão é um dever do crítico, e o crítico deve ser delicado por excelência. Como a sua obrigação é dizer a verdade, e dizê-la ao que há de mais suscetível neste mundo, que é a vaidade dos poetas, cumpre-lhe, a ele sobretudo, não esquecer nunca esse dever. De outro modo, o crítico passará o limite da discussão literária, para cair no terreno das questões pessoais; mudará o campo das ideias, em campo de palavras, de doestos, de recriminações, — se acaso uma boa dose de sangue frio, da parte do adversário, não tornar impossível esse espetáculo indecente.

Há, na carta de Alexei, pontos que merecem – e precisam – ser pensados, problematizados e levados a sério, mas, devido a uma certa “aspereza”, responsável por “muito choro, descabelamento e ranger de dentes”, como disse Ruy Espinheira Filho, pouco – ou quase nada – foi tomado como digno de atenção. Os que concordavam, seguiram concordando; o que descordavam, seguiram descordando; o limite da “discussão literária”, fronteira móvel e movediça, foi ultrapassada e tudo caiu – inclusive o que não deveria cair – no “terreno das questões pessoas”, dos clubes, das tribos e das filiações. Nesse caso, vale lembrar que nem todos os “adversários” souberam administrar a sua “dose de sangue frio”.

 

7. A PERSEVERÂNÇA

“[…] se a tudo isto juntarmos uma última virtude, a virtude da perseverança, teremos completado o ideal do crítico.”

Visando manter de pé o cultivo desses valores, será preciso – acima de tudo – constância e paciência. Não é do dia para a noite que todas essas qualidade aparecerão. O caminho é longo e, muitas vezes, sequioso. Para desenvolver um método, para testar os já disponíveis, para conhecê-los e estudá-los, para fazer-se consciente, para garantir a coerência a longo prazo e manter a autonomia, sendo tolerante para com os outros e moderado no trato, na escolha das palavras, enfim, para produzir uma crítica fecunda, é preciso teimar, perseverar e manter a calma. Machado conclui dando-nos, em um curto parágrafo, o resumo das suas colocações: “Saber a matéria em que fala, procurar o espírito de um livro, descarná-lo, aprofundá-lo, até encontrar-lhe a alma, indagar constantemente as leis do belo, tudo isso com a mão na consciência e a convicção nos lábios, adotar uma regra definida, a fim de não cair na contradição, ser franco sem aspereza, independente sem injustiça, tarefa nobre é essa que mais de um talento podia desempenhar, se se quisesse aplicar exclusivamente a ela. No meu entender é mesmo uma obrigação de todo aquele que se sentir com força de tentar a grande obra da análise conscienciosa, solícita e verdadeira”.

***

Antes de retornarmos ao Le Monde e ao nosso ponto de partida, recorro, uma última vez, à voz do Sr. Joaquim Maria: “Se esta reforma, que eu sonho, sem esperanças de uma realização próxima, viesse mudar a situação atual das coisas, que talentos novos! que novos escritos! que estímulos! que ambições!”

Acredito que, analisando a extensa e fecunda obra do professor Antonio Candido, encontraremos, se não todas, boa parte das características que descreviam o “crítico do futuro”, do sonho, o crítico ideal de Machado: conhecia o(s) método(s) – aliás, a título de curiosidade, sua tese de livre-docência era uma Introdução ao Método Crítico de Sílvio Romero; era consciente da sua responsabilidade; construiu um corpo intelectual coerente durantes mais de meio século de atividade; manteve autonomia intelectual, apresentando importantes e inovadores conceitos para se compreender a história e a Formação da literatura brasileira; foi tolerante, resenhando, por exemplo, os primeiros livros de Clarice Lispector e João Cabral, desafios para qualquer “aparelho estético”; e mostrou-se imensamente cortês, moderado e respeitoso. Quanto à perseverança, começou suas atividades como crítico na década de 40 e não é preciso dizer muito mais do que isso.

A literatura brasileira contou, depois de 1986 – ano da publicação d’O ideal do crítico – com críticos de peso, dentre eles, além da já citada “geração de 1870”, Agrippino Grieco, Alceu Amoroso Lima, Afrânio Coutinho, Álvaro Lins, o próprio Cândido, Alfredo Bosi e – infelizmente, o pouco “considerado” – Wilson Martins (aos interessados em conhecer mais sobre o crítico, procurar pelo livro A crítica literária no Brasil, 2 volumes). O

Wilson Martins (1921-2010)

legado de Candido segue no trabalho de críticos como Davi Arrigucci Jr., do já falecido João Luiz Lafetá e do anteriormente mencionado Roberto Schwarz, autor de importantes trabalhos sobre Machado de Assis, como Ao vencedor as batatas e Um mestre na periferia do capitalismo. De orientador para orientando, continua “legado”.

 

De mão em mão, segue o bastão.

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