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Caderno de Notas

O BRASIL EM QUE A COBRA FUMOU (1937-1943): DA NEUTRALIDADE NO CONFLITO À CRIAÇÃO DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

Danilo Mota – 22 anos, aluno do curso de História da Universidade Federal Fluminense – Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional, estuda o envolvimento do Brasil na Segunda Guerra Mundial, especificamente a Força Expedicionária Brasileira. É um dos autores da HQ “Smoking Snakes – Você sabe de onde eu venho?” e fundador da produtora Em Guerra que visa produzir artigos sobre o tema, além de documentários com entrevistas com veteranos de guerra.

 

O BRASIL EM QUE A COBRA FUMOU (1937-1943): DA NEUTRALIDADE NO CONFLITO À CRIAÇÃO DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

Danilo Mota – UFF

Resumo:  Sem o objetivo de esgotar o assunto, este artigo busca entender em que momento político-social foi criada a Força Expedicionária enviada à Itália. Serão abordados os contextos e a condições políticas e econômicas no âmbito nacional e internacional, tendo em vista a posição estratégica do território brasileiro, e em nome de quais interesses o governo autoritário de Vargas entra no cenário da Segunda Guerra Mundial.

Palavras – chave: Brasil. Segunda Guerra Mundial. FEB.

Introdução

Quando o assunto é Segunda Guerra Mundial, são inúmeros os acontecimentos a serem lembrados. São muitas produções que têm como objeto de estudo este conflito. Minha proposta aqui é, de modo justo, dimensionar o envolvimento do Brasil neste conflito tão presente ainda na memória e no dia a dia da sociedade mundial, quer através de filmes, jogos de videogame, programas de televisão etc. Além disto, entender o que precedeu o posicionamento brasileiro, formalizado em 22 de agosto de 1942, decisão esta que culmina na sua entrada em combate, também contextualizando com o que se passou na década de 1930 no Brasil e na Europa, após a crise do liberalismo ao final da década de 20.

O Brasil, após negociações bilaterais fechou seu apoio com os aliados. E, em 1942, declarou guerra ao Eixo (aliança bélica entre Itália, Alemanha e Japão na Segunda Guerra Mundial) em reunião no Rio de Janeiro, então capital federal. Em 1943 é criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB) que enviou cerca de 25.000 soldados para lutarem em um território hostil e distante, a FEB após indefinição de onde atuaria, desembarca no teatro de operações da Itália, disposta em 5 escalões entre 1944 – 1945.  A tropa brasileira foi incorporada ao 4º.  corpo do 5º exército americano, sendo um contingente miscigenado composto por brancos, mulatos, nipo-brasileiros, ambos lado a lado…o que não era comum por exemplo nos EUA.  Diferente do que muitos pensam, os soldados brasileiros não foram a passeio para a Itália, e pelo contrário travaram diversas batalhas complexas, deixando seu recado com relevância e bravura.

Agora, alguns questionamentos ficam após a exposição dos argumentos: De fato, havia necessidade de o Brasil enviar tropas para a Europa? Em nome de quem e por qual ideal o Brasil foi a guerra? Como lutar por democracia em um país que se tem um governo autoritário? Qual o interesse dos países no território brasileiro na Guerra?

O Brasil e suas Relações Comerciais na Década de 30 (EUA-ALEMANHA)

Em 10 de novembro de 1937 após um golpe de estado, Getúlio Vargas estabelece o Estado Novo, que teria função estratégica na continuação de projetos que vinham desde 1930 quando o mesmo rompeu com as oligarquias que comandavam durante a República Velha. Após afirmar que a constituição de 1934 estaria “antedatada” com o momento do país, apresenta uma Carta Constitucional, calcada em uma visão centralizadora no âmbito político, além de se apresentar antiliberal e anticomunista, com forte intervenção do estado. O que faz sentido ao olhar no âmbito internacional, onde experiências semelhantes estavam em curso na Alemanha, Itália e Portugal.

O Brasil era um país agrário neste momento e tinha como parceiro comercial, desde sua independência, a Grã-Bretanha, que tinha importante papel na economia brasileira. Porém no período entre guerras acontece um distanciamento da mesma, entretanto ainda se faziam importante, sobretudo para o comércio do café brasileiro no exterior. O governo passa a enfrentar uma questão complexa referente ao mercado, a aproximação aos EUA, trazem mais dependência, para Ferraz (2005) “Este movimento voltado à economia dos Estados Unidos não reduziu a dependência econômica brasileira na medida em que o novo parceiro era ele próprio produtor de alimentos e matérias-primas industriais.’’. Em contrapartida a relação com a Alemanha trazia equilíbrio, segundo Ferraz (2005) “Os avanços da Alemanha na América Latina durante os anos trinta aliviaram a situação, já que o país buscava fontes de alimentos e matérias- -primas industriais.”.

As tratativas comerciais fomentavam fortes debates na cúpula do governo, bem como nos grupos de interesses que eram influenciados por questões políticas e ideológicas. O governo Vargas, porém, se isentaria desta tomada de lado e passaria a negociar tanto com o livre comércio americano, bem como ao regime de trocas oferecidas pelo governo alemão. O comércio com a Alemanha crescia constantemente ao decorrer da década de 1930, sob o olhar norte americano, olhar esse com certo interesse em um futuro não tão longínquo para estabelecer uma aliança entre Brasil e EUA, tirando a Alemanha da concorrência. Com o estabelecimento do estado novo em 1937, dois pontos problemáticos se apresentam ao governo de Vargas, são eles: Uma renovação nas forças armadas brasileiras e a largada na produção do aço, com a construção de uma siderúrgica nacional de grande porte. Os anos finais da década de 30 foram marcados pela forte influência do exército nas decisões, principalmente para a compra de materiais bélicos, a negociação acontecia ao mesmo tempo com americanos e alemãs, sobre a compra de equipamentos.

Eixo ou Aliado?

O governo brasileiro tinha como objetivo extrair o máximo possível das relações com americanos e alemães para conseguir os 2 objetivos principais: Criação de uma Siderúrgica Nacional e a Renovação das Forças Armadas. Essa postura foi sustentada até o último instante possível, é inegável a capacidade de negociação e como Getúlio soube aproveitar deste interesse de ambos no Brasil, para conseguir suprir suas demandas.

A Alemanha acenava com a proposta de construção de duas usinas siderúrgicas, além de negociar o envio de materiais bélicos, inclusive é realizada uma compra junto a Alemanha especificamente a companhia Krupp. Em contrapartida o Brasil ampliaria o comércio de mercadorias a Alemanha. Já pelo lado americano, o governo ficava dependente de capital privado para a construção da siderúrgica, não demonstravam tanto interesse a participação junto ao governo, e o exército não demonstrava interesse em fornecer materiais bélicos.

O governo Vargas era centralizado, porém sofria influência de figuras presentes no seu corpo político. Dois nomes notáveis do governo eram pró- Eixo, ou seja, acreditavam que o Brasil devia se alinhar comercialmente e militarmente aos alemães, no momento a Alemanha poderia ser considerada o lado vencedor da guerra. Eram eles o General Eurico Gaspar Dutra, então Ministro da Guerra e o também General Pedro Aurélio de Goes Monteiro. Do outro lado estava posicionado o Ministro das Relações Exteriores Oswaldo Aranha, que era favorável ao alinhamento brasileiro com o liberalismo e a unidade do continente americano, além do não crescimento das forças que tendiam ao Eixo.

Durante o período de neutralidade, Getúlio tenta se manter distante dessa dicotomia política e ideológica, mesmo dando declarações que podem ser julgadas e vistas como um namoro ao nazi fascismo, o governo mantem as alianças e comércio visando sempre extrair o que lhe era de interesse, até que se fosse insustentável a neutralidade.

1942: Sangue no Mar e a Perda da Neutralidade

A Segunda Guerra Mundial se inicia em 1939 no continente europeu, tendo como marco a invasão da Polônia pela Alemanha Nazista, porém paulatinamente foi tomando proporções mundiais, e até 1942 a guerra parecia distante ao Brasil e a América do Sul. Podemos considerar segundo Ferraz (2005): “É mais correto dizer que não foram os brasileiros que foram a guerra, mas sim a guerra que chegou aos brasileiros”. Faz muito sentido ao pensar na neutralidade até então estabelecida do governo brasileiro, ao que seria conhecido como o maior conflito bélico da história.

Com o desenrolar da guerra na Europa, o avanço da Alemanha causou preocupações e trouxe ares de incertezas aos EUA e as forças aliadas, após 1940 alemães e italianos inauguram uma nova frente de combate no mar mediterrâneo, após avançaram no norte da África, Grécia e os Bálcãs. A guerra chega a América do Sul após a Alemanha ter acesso as instalações de Dakar (Senegal) colônia francesa que se localiza no ponto mais ocidental do continente africano, o que os deixavam a 8 horas de avião até o continente americano para uma possível invasão, que era considerada pelos americanos A ilha de Fernando de Noronha serviria para aeródromos e recebimento de submarinos.

Após o ataque Japonês a Pearl Harbor em dezembro 1941 aos EUA, começa uma corrida diplomática visando estabelecer alianças com seus vizinhos americanos, e uma campanha de rompimento de relações com Eixo, abrindo mão da neutralidade. Em janeiro de 1942 acontece no Rio de Janeiro, a reunião de Chanceleres onde a maioria dos países latino-americanos rompem relações diplomáticas com as forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). O Brasil estava entre esses que aderiram a causa, e os EUA projetavam a utilização do Norte e Nordeste brasileiro, especificamente as suas bases para a acomodação das Forças Armadas americanas. Assim fomos nos tornando mais próximo dos Aliados, vislumbrando nas negociações com os EUA o inicio da política de industrialização pesada do país.

O Brasil, como vimos a cima, mantinha relações com ambos os lados e, no estourar da Guerra, permaneceria neutro, o que se tornaria insustentável após os trágicos bombardeios aos navios da marinha mercante e de guerra, em 1942 resultando na morte de milhares de brasileiros. Ao todo foram 38 navios entre 1942-1943 atacados pela campanha marítima alemã e italiana na conhecida “Batalha do Atlântico” resultando em milhares de mortes, segue abaixo um documento que traz informações desses ataques aos navios brasileiros, informações como o nome e o comandante do submarino agressor, que nos dão a possibilidade de descobrir a origem dos mesmos. E que vem a elucidar possíveis conflitos de informações, que geram dúvida aos ataques da Alemanha e Itália ao Brasil.

Durante anos foram alimentados boatos de pessoas que eram favoráveis a aliança do Brasil com o Eixo, de que teriam sidos os americanos que praticaram os ataques aos navios brasileiros, assim forçando um posicionamento contrário ao eixo do Brasil. Mas a consulta aos arquivos americanos, britânicos e até alemãs demonstram o contrário.

“Em julho de 1943, quase um ano depois da declaração de guerra brasileira, um avião PBY-5 Catalina afundou um submarino alemão U-199, no litoral do Rio de Janeiro.” (BARONE, 2018).

Aliança Brasil – EUA

Após a declaração de guerra a Alemanha e a Itália, o Brasil ficaria posicionado ao lado dos países aliados, e passaria a se estabelecer então a união entre brasileiros e americanos. Importante lembrar os dois interesses centrais do governo brasileiro: Construção de uma Siderúrgica Nacional, e a renovação de equipamentos para as Forças Armadas.

Em contrapartida, o governo americano tinha interesses claros na posição do território brasileiro, sobretudo as regiões Norte e Nordeste, que nesse momento era conhecida como “Trampolim da Vitória” pois era de suma importância do ponto de vista militar estratégico. Importante ressaltar que o movimento de adesão do Brasil a causa americana, se deu através de negociações longas para dar contorno aos acordos que seriam firmados. O debate sobre a utilização do Nordeste brasileiro começou a ser negociado em 1940 com a criação da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, que tinha como motivação missões de caráter naval e aviação.

Já em 1941 se inicia a intervenção e ocupação do Norte e Nordeste:

De outro lado, Vargas tinha autorizado a construção de bases militares financiadas pelo governo americano: a Panair do Brasil, subsidiária da Pan-American, teve permissão de “construir, ampliar, equipar ou reequipar alguns aeroportos na área vital, situada entre Belém e São Salvador, embora se tenham adquirido as áreas e iniciado a construção muito antes da publicação do decreto (julho de 1941), mediante sua permissão oral (de Vargas) e em caráter privado”. A concessão foi importante, tendo em vista que esses aeroportos eram essenciais ao transporte de aviões e de suprimento para a campanha inglesa no Norte da África, de junho de 1941 em diante.” (MOURA, Gerson pág. 11, 1991)

O próximo passo seria negociar o repasse de armamentos americanos as Forças Armadas, em 1942 após a reunião de chanceleres no Rio de Janeiro, mais precisamente no dia 03 de março. O Brasil entra em um programa americano denominado Lend & Lease para a compra de armamentos, porém o acordo assinado entre as partes “…os Estados Unidos enviariam ao Brasil armas e munições no valor de 200 milhões de dólares” Moura (1991). O pagamento seria arcado em sua maioria pelo governo americano, o Brasil pagaria 35% em 6 parcelas entre 1943-1948. Com esse acordo, o Brasil vê um dos seus objetivos alcançados e suas forças armadas se fortalecem.

Em resposta ao acordo, o governo Vargas responde de modo a facilitar o envio de mais pessoal americano ao Nordeste, além de desburocratizar a atuação dos mesmos, uma certa autonomia.

“Os militares americanos obtiveram permissão para construir quartéis, barracas e outras acomodações; de voar sem obter a aprovação de praxe para o uso de determinado corredor aéreo; de construir armazéns subterrâneos para alimentos; e de ampliar o campo de pouso de Fernando de Noronha” (MOURA, Gerson. página 13.1991)

Ambas as situações acima são acordos que começam a traçar a aliança entre Brasil-EUA, cada vez mais o Brasil estava sendo parte do esforço de guerra americano, e após a declaração de guerra em 22 de setembro de 1942 o Brasil ainda não sabia em qual medida seria seu envolvimento, ressaltando que o Brasil já atendia as demandas americanas, no âmbito comercial, político e militar.

Então no mesmo ano, surge da parte do Brasil, especificamente de lideranças militares e políticas a decisão de que o Brasil deveria se envolver de modo a participar no conflito militarmente, tendo em vista o interesse em posicionar o Brasil nas negociações do pós-guerra principalmente, além de trazer experiencia as forças armadas, tendo em vista a disparidade em que se encontravam. Então se decide a criação de uma Força Expedicionária a ser enviada a guerra, o que se conhece como FEB (Força Expedicionária Brasileira).

O acordo de construção da siderúrgica é fechado em 1941, e é construída a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) em Volta Redonda-RJ com um empréstimo no valor de 20 milhões de dólares junto ao banco Export Import Bank (Eximbank) financiado pelo governo americano.

Considerações Finais

Assim ficam expostas as relações de cunho político e comercial que o Brasil mantinha no decorrer da década de 1930 e até a primeira metade da década seguinte. O governo brasileiro projetava o país como uma futura potência, se almejava a construção de um novo Brasil. Com a necessidade de se posicionar frente aos ataques sofridos na sua costa entre 1942-1943, de autoria de submarinos alemães e italianos, além do movimento interno de interesses a serem extraídos através do envolvimento brasileiro na guerra, o Brasil se posiciona a favor dos Aliados.

Vimos, durante o desenvolvimento deste presente artigo, a política de caráter pendular na negociação com Alemães e Americanos, onde o governo postergou ao máximo a tomada de lado, visando sempre defender os seus interesses. Também é possível perceber que o governo e seu corpo político era divergente no que se refere ao posicionamento brasileiro, forças pró-eixo e pró-EUA estavam lado a lado dentro do governo, que era liderado por um ditador, Getúlio Vargas. Desde o advento do Estado Novo o país vivia sobre um regime autoritário em consonância com os movimentos europeus principalmente após a crise de 1929, e ao chegar o momento de se posicionar perante pressões distintas, o Brasil entra no lado que luta e defende a liberdade e democracia, no embate contra regimes fascistas e autoritários.

Como lutar por democracia e não viver em uma? O envio de tropas brasileiras ao conflito e a participação em geral do Brasil na guerra, pode ser considerado a grande motivação para a queda do Estado Novo que durou de 1937 até 1945, exatamente no ano em que a guerra acaba. Cresce a pressão de grupos políticos conservadores, em um movimento contra o Estado Novo após o término do conflito. A FEB volta vitoriosa da Itália onde ajudou a libertar a mesma do exercito alemão, esses grupos utilizam esse evento para forçar a queda e deposição de Getúlio e seu regime autoritário, o que se concretiza em 29 de outubro de 1945.

A motivação de enviar uma Força Expedicionária como uma maneira de colocar o Brasil nas negociações do pós-guerra não foi a frente, a FEB foi desmobilizada ainda em território europeu e no âmbito mundial o governo recusou o uso da tropa para ocupação na Europa e isso foi um passo atrás significativo na nova organização que estaria por se formar. As expectativas de ser um parceiro preferencial dos Estados Unidos também não se aprofundou, ocorreram mudanças nos cargos referentes a relações exteriores de ambos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARONE, João. 1942: o Brasil e sua guerra quase desconhecida / 2 ed.- Rio de Janeiro: HarperCollins, 2018. 352 p.: il.

FERRAZ, Francisco C. A.. Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. 92p.

FONTES, Ângela Maria Mesquita e LAMARÃO, Sérgio Tadeu Niemeyer. “Volta Redonda: história de uma cidade ou de uma usina”. Revista Rio de Janeiro, Niterói, n. 18-9, jan. – dez  2006, pp. 241 – 53.

MOURA, Gerson.  Relações exteriores do Brasil: 1939-1950: mudanças na natureza das relações Brasil-Estados Unidos durante e após a Segunda Guerra Mundial / Gerson Moura; apresentação de Letícia Pinheiro; prefácio à nova edição de Leslie Bethell. ─ Brasília: FUNAG, 2012.  277 p.; 23 cm.

MOURA, Gerson. Sucessos e Ilusões: relações internacionais do Brasil durante e após a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1991.

MORAES, M. Marechal Mascarenhas de Moraes: Memórias; volume 2; Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército;1969.

PANDOLFI, D. C. . Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getulio Vargas, 1999.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desenvolvimento do setor energético e nacionalização da política estatal no segundo governo Vargas

Maria Fernanda Dias Sucupira

mf_dias@id.uff.br

Universidade Federal Fluminense

Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional

Bacharel em História pela Universidade Federal Fluminense e  graduanda de licenciatura em História pela mesma instituição.

Pesquisa a História das Mulheres e a teoria política feminista, compõe o Grupo de Estudos sobre a História das Mulheres e as Relações de Gênero da UFF Campos, integrava o Laboratório de História do Poder e das Ideologias (LAHISPI) pesquisando sobre a ditadura militar no Brasil e Brasil contemporâneo.

 

Desenvolvimento do setor energético e nacionalização da política estatal no segundo governo Vargas

RESUMO

O presente artigo faz uma breve dissertação sobre a formação e estruturação do setor elétrico no Brasil perpassando pela “estatização” dos setores elétricos nacionais, até a criação dos projetos do Plano Nacional de Eletrificação e da empresa mista Eletrobrás no segundo governo Vargas bem como as disputas políticas na época da reestruturação institucional e deste setor.

Palavras chave: Getúlio Vargas; Eletrobrás; setor energético;

SUMMARY

This article is a brief dissertation on the formation and structure of the electricity sector in Brazil permeating the ” nationalization ” of the national electrical sector to the creation of projects of the National Electrification Plan and the mixed company Eletrobrás in the second Vargas government  and political disputes at the time of the institutional restructuring and this sector .

Keywords: Getulio Vargas ; Eletrobrás; energy sector ;

RESUMENEste artículo es una breve disertación sobre la formación y la estructura del sector eléctrico en Brasil que impregna la “nacionalización ” del sector eléctrico nacional para la creación de proyectos del Plan Nacional de Electrificación y la empresa mixta Eletrobrás en el segundo gobierno de Vargas y las disputas políticas en el momento de la reestructuración institucional y este sector .Palabras clave : Getulio Vargas ; Eletrobrás ; sector de la energía ;

 

  1. Um breve histórico sobre setor elétrico brasileiro

O papel exercido pela energia elétrica desenvolve-se, desde o século XIX, no processo de modernização brasileira, atendendo as demandas de projetos estatais de industrialização, a princípio de setores industriais de bens de consumo não-duráveis, condição que Sônia Regina Mendonça considerou como de “industrialização restringida” (MENDONÇA, 2006). A historiadora aponta que a industrialização neste período, voltava-se para a manutenção do mercado interno, utilizando compra de equipamentos de segunda mão.

Diferentes atores contribuíram para a formação deste setor desde os primórdios do uso da energia elétrica no país, em 1880, paralelamente ao início do seu uso nos países em que a Revolução Industrial foi pioneira. Ainda no período monárquico, a utilização da energia elétrica no Brasil, inicialmente, estava restrita a alguns serviços públicos e atividades fabris, fornecidas por empresas locais e independentes.

Em 1889, com a queda do Império e ascensão da República, fora estabelecida a nova Constituição Federal (1891) que delimitava novas leis quanto à administração nacional. A nova Constituição determinava que os Estados e municípios brasileiros tivessem ampla autonomia administrativa, resultando em amplos poderes para que gerissem os recursos naturais e as concessionárias que prestariam os serviços locais.

Ao final da República Velha já havia duas grandes empresas estrangeiras atuando na prestação de serviços no ramo elétrico no Brasil: os grupos Light, no eixo RJ-SP, e AMFORP, a American & Foreign Power, com atuação no interior do Estado de São Paulo, em Estados do Nordeste e do Sul do país. O grupo Light adquiriu rapidamente outras empresas nacionais do ramo que não tinham capital suficiente para investir em suas expansões, o que acabou provocando um intenso processo de fusão de empresas. Nesta etapa pode-se observar a relação entre municípios/Estados, com o poder de consentir a prestação deste serviço a determinadas empresas, e as organizações empresariais.

Com a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque e a crise do liberalismo clássico, o papel do Estado na economia fora rediscutido e Vargas, em seu primeiro governo, realocou a função do Estado a partir dos interesses nacionalistas em seu projeto de um país mais desenvolvido. A partir de 1930, com a instalação de Getúlio Vargas no poder, com a chamada “Revolução de 30”, Mendonça considera que o processo de industrialização seria ampliado.

No setor elétrico, determinou-se que todas as operações com quedas d’águas fossem suspensas e foram embargadas todas as outras que utilizassem de patrimônios e recursos naturais. Vargas retirou a competência dos Estados e municípios na exploração de recursos hídricos a transferiu para a União, bem como promulgou o Código de Águas[1], o primeiro marco regulatório do setor de energia elétrica do país. O Código de Águas determinava ao poder público algum controle sobre as concessionárias de energia elétrica estipulando o regime de concessões e autorizações, ambas concedidas pelo Estado. Determinava a fiscalização técnica, financeira e contábil das empresas do setor. Reforçando a questão da regulamentação dos serviços de energia, em 1939, foi criado o Conselho Nacional de Águas e Energia Elétrica (CNAEE), o principal órgão da União de controle setorial até a criação do Ministério das Minas e Energia em 1960 e a Eletrobrás (1961).

  1. Projetos nacionais desenvolvimentistas e economia em Vargas

A análise da “Era Vargas” divide muitos historiadores e outros pesquisadores acerca da sua abordagem. Neste artigo, considera-se a perspectiva historiográfica que aponta Vargas como o construtor do Estado Moderno brasileiro, assim como principal político a provocar as primeiras modernizações que visavam mudanças estruturais da economia brasileira, da agro exportação para um projeto de industrialização voltado para a indústria de base. Segundo Mendonça, até meados da década de 1950 proceder-se-ia a industrialização voltada para a “substituição de importações”. A indústria brasileira ganharia maior importância econômica frente à produção agrícola no projeto Varguista.

Os discursos de Vargas sempre procuravam relacionar o desenvolvimento econômico com a superação da miséria e a consolidação de um Estado Nacional forte e unido. Essa unidade só poderia vir do Estado através de uma política integradora e não mais uma política centrada nos municípios dos quais colocavam seus interesses acima dos nacionais, como ocorria na República Velha. É interessante observar estes discursos como “preventivos” à revolução. Vargas não era um revolucionário, quanto à negação do papel burguês do Estado. Seu projeto acompanhava as perspectivas das “modernizações conservadoras” que pretenderam provocar a industrialização em países europeus “atrasados” em relação ao processo de Revolução Industrial desencadeado desde o século XIX, através de intervenções políticas e econômicas estatais (um Estado “burguês” , mas não liberal). O projeto de Vargas voltava-se para a organização e estruturação de um capitalismo brasileiro, nacionalista,  com suporte legal, em que a “proteção social” se anteciparia preventivamente ao radicalismo político das massas, no intuito de evitar manifestações reivindicatórias e mesmo a revolução, que o período logo posterior à Revolução bolchevique tinha acenado como possibilidade e diante da organização do Partido Comunista no Brasil, desde 1922.  Mas com poucos investimentos do capital externo, a solução seria financiar o desenvolvimento nacional através do próprio capital nacional estimulando o crédito pelo Banco do Brasil. É importante destacar aqui que Getúlio não era “xenófobo” com relação a investimentos estrangeiros tampouco “entreguista”, era apenas flexível, pragmático e muitas vezes oportunista, em sua política econômica. Como afirma Bastos (2012, p. 362) “(…) o objetivo de Vargas não era rejeitar a associação externa, mas lutar por termos de associação que atendessem a finalidades nacional-desenvolvimentistas, em barganhas que maximizassem interesses nacionais”.

Para alguns historiadores e pesquisadores como Fernando Henrique Cardoso e Carlos Lessa, os investimentos realizados nos ramos da energia elétrica e os demais eram apenas planejamentos realizados sobre pontos de estrangulamento setorial que surgiram a partir do processo de industrialização. Esta análise se apresenta insuficiente quando percebemos que esses projetos que visavam o desenvolvimento em grande escala não poderiam ser apresentados de forma isolada, pois exigiam um planejamento de forma integrada nos setores como explica Bastos (2012, p. 363):

“[…]nos quais deveria estimar-se uma ampliação da oferta além do ritmo de crescimento da demanda prévia, para acomodar as novas demandas geradas pela própria criação dos novos empreendimentos. Isso exigia criar novas instituições de controle e assessorias para formulação e acompanhamento de projetos, novos fundos fiscais e financeiros, e mesmo novas empresas estatais em ramos tradicionalmente explorados por concessionárias estrangeiras.”

No momento posterior ao final da Segunda Guerra, surgiram inúmeros posicionamentos que marcariam os confrontos entre os segmentos dominantes brasileiros, o que revela claramente a ideologia das classes envolvidas. O papel e participação do Estado na economia e no desenvolvimento industrial era o principal debate que percorria este contexto histórico na economia brasileira como explica melhor Hildete Araújo (1979, p.104):

“(…) o diagnóstico que a Assessoria Econômica [segundo governo do] Presidente Vargas havia feito do setor apontava para intervenção maciça do setor como solução para o impasse. O maior impasse que sofria a indústria de energia elétrica era o problema do seu financiamento. Desde a 2ª Guerra Mundial a maioria dos países tinha apelado para capitais públicos como forma de expandir essa indústria. O impasse ocorria porque os capitais investidos no setor não obtinham taxas de lucros compatíveis com a sua magnitude e as pequenas sociedades não tinham acesso ao mercado financeiro. Diante desta tendência mundial só restava ao Estado brasileiro escolher entre: ajudar as empresas privadas a obter capitais necessários à sua expansão, mobilizar ele mesmo os recursos em favor das empresas ou investir diretamente criando as empresas públicas para realizar estes projetos.”

Os liberais defendiam a “vocação natural brasileira”, que a economia se baseasse na agricultura, nas leis de mercado e assim, a participação do capital estrangeiro. Já os desenvolvimentistas defendiam a indústria como pilar no desenvolvimento do país e que o Estado deveria planejar e investir diretamente em setores onde o capital privado não era insuficiente. No entanto, no que diz respeito aos investimentos na industrialização, ambos os campos apresentavam nenhum interesse pelo investimento estatal: o Estado devia intervir exclusivamente nos espaços em que o capital privado (um lado estrangeiro e para o outro, nacional) fosse insuficiente. Fica claro assim, o papel que o Estado devia exercer no desenvolvimento nacional para ambas as correntes: estimulador da atividade privada. O que não havia consenso era sobre a possibilidade e o tamanho da intervenção estatal, regular ou impedir a concorrência entre capital nacional e estrangeiro.

O projeto nacional-desenvolvimentista varguista fora baseado na conciliação de classe como explica Bastos (2012, p.376):

“[…] cabe frisar que a ideologia trabalhista do ex-presidente sempre procurou enfatizar (a) a existência de interesses convergentes entre trabalhadores e empresários, em uma espécie de neutralização dos comunistas; e (b) que essa convergência se faria garantindo direitos trabalhistas regulados por lei, mas tendo como condição a expansão dos frutos do progresso econômico a serem divididos entre as classes.”

Para Vargas, o desenvolvimento econômico era sinônimo de garantia da coesão social interna. Somente uma estrutura econômica que não fosse decadente poderia evitar o radicalismo político das massas, pois manteria os trabalhadores dentro do mercado de trabalho e permitiria aumento real do valor do salário.

  1. O Plano Nacional de Eletrificação (PNE) e a Eletrobrás

Após o primeiro governo de Vargas, no governo de Dutra, não foram encontrados registros significativos acerca da regulamentação do campo elétrico, mas logo no primeiro ano do segundo governo varguista, em 1951, temos a criação da Comissão Mista Brasil-EUA (CMBEU) onde eram analisadas as possibilidades de investimentos e quais seriam os recursos a serem utilizados através de bancos estrangeiros (Bird e Eximbank) associados a recursos do capital nacional.

A CMBEU abriu bastante espaço para as discussões acerca dos investimentos nos setores elétricos e a possibilidade de futura escassez energética no país, porém teve seus trabalhos encerrados por causa da pressão externa. Setores dos Estados Unidos e o governo norte americano discordavam veementemente da legislação brasileira do segundo governo varguista e decidiram não mais apoiar os financiamentos de projetos governamentais; Vargas restringiu as remessas de lucro ao exterior em 1952[2].

Sem caminhos alternativos para obter os recursos financeiros que seriam direcionados ao setor elétrico brasileiro, Getúlio seguiu um viés mais autônomo para a crise que rondava o campo da energia elétrica no país. Reorganizando institucionalmente as estruturas produtivas, criou o projeto do Plano Nacional de Eletrificação (PNE) e como conseqüência surgiu o projeto de criação das Centrais Elétricas Brasileiras S.A, a ELETROBRAS. É evidente que estes projetos foram resultado dos interesses da burguesia brasileira com o apoio de Vargas contrariando o imperialismo norte americano, despertando a raiva da oposição e das concessionárias internacionais que atuavam no ramo assim como outras forças imperialistas que atuavam no país.

A atuação estatal no caso da energia elétrica foi bastante expressiva no segundo governo Vargas. Foram elaborados e enviados para aprovação – e aprovados em diferentes períodos – do Congresso Nacional quatro projetos importantes no que diz respeito à reorganização do modelo de fornecimento de energia e a exploração de recursos naturais: em 1953 fora criado o Imposto Único sobre Energia Elétrica que destinava 40% da sua arrecadação para o Fundo Federal de Eletrificação (FFE) criado no ano seguinte, 1954. O objetivo era administrar os recursos obtidos através do Imposto Único, reunir capital para as empresas do setor, também previu mudanças para o imposto de consumo fazendo com que este também contribuísse para o FFE. Os recursos seriam geridos pelo BNDE e a quantia destinada aos estados e municípios seria distribuída por uma empresa pública criada para esta finalidade. É importante ressaltar este fundo como a primeira iniciativa de constituir uma fonte de recursos de caráter fiscal, de alcance nacional, direcionado ao setor. Cabe neste momento destacar a importância da criação do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico) em 1952, pois foi a instituição que veio a assumir dentre tantas outras responsabilidades, a atribuição de captar e canalizar recursos financeiros para a expansão da indústria da energia. Em 1953, o governo apresentou um projeto que regulava a distribuição e a aplicação do capital obtido pelo Imposto Único que iriam para os municípios, Estados e o Distrito Federal. Este projeto só veio a ser aprovado já no governo de JK em face aos conflitos de interesses envolvidos nesta distribuição.

Em 1954, fora apresentado o já mencionado Plano Nacional de Eletrificação, o mais ousado projeto que dentre outros objetivos, reorganizaria principalmente a distribuição do capital a ser investido. Entretanto, anteriormente a apresentação do PNE frente ao Congresso, fora encaminhada a Memória Justificativa do Plano Nacional de Eletrificação. Em seu conteúdo eram apontadas problemáticas que envolviam o cenário energético do país como a inexistência de reservas de carvão mineral de boa qualidade e a inibida produção de petróleo apontando a necessidade de organizar a produção e o

suprimento maciço de eletricidade de origem hidráulica, reservando os demais

recursos energéticos, oriundos do próprio país ou importados para aplicações onde as

necessidades não possam ser atendidas por aquela fonte4[3]. A Memória Justificativa, em outras palavras, ressaltou a necessidade de planejamento no que diz respeito tanto ao desenvolvimento e organização da indústria de material elétrico pesado, necessidade latente para desenvolver as bases modernas do país, quanto à geração e conexão entre o sistema distribuidor como explica a pesquisadora Maria Corrêa (2003, p.262):

“[…] relacionava-se às medidas ligadas diretamente à produção de energia, através das quais o Estado, em especial o governo federal, viria a se transformar em grande produtor de energia. O plano de eletrificação era estruturado segundo a área correspondente às grandes centrais elétricas, servidas até então pelas concessionárias mais importantes, abarcando a quase totalidade das obras previstas, com previsões sobre expansão, instalações preferenciais previstas e estimativas de despesas.”

A Memória Justificativa foi apresentada ao Congresso Nacional em abril de 1954, dando origem ao projeto de lei 4.277 do mesmo ano. Na mesma data, foi encaminhado o projeto de lei número 4.280 criando a empresa de capital misto Eletrobrás sendo este, o outro projeto importante apresentado e que ficou praticamente parado no Congresso. O longo intervalo de tempo entre o envio do projeto da Eletrobrás e sua aprovação no Congresso é explicado pelo acirramento político e ideológico entre os segmentos envolvidos.

É interessante observar que se torna atraente a criação de empresas de capital misto, pois mesmo o Estado sendo o controlador, é possível associá-las a inúmeras possibilidades de negócios para o empresariado privado, na qualidade de sócios. As empresas de capital misto assim gerariam lucros a serem distribuídos entre os sócios, acabando por sanar a deficiência do investimento privado. Desta forma, a constituição das empresas de capital misto supre a ineficácia da iniciativa privada ao invés da iniciativa privada assistir ao Estado na resolução das demandas sociais. Sendo assim, a estrutura monopolista da produção energética foi rompida, ao passo que as concessionárias ficariam com os lucros da distribuição, fortalecendo o monopólio da distribuição enquanto o Estado arcaria com os custos pesados da instalação de capacidade geradora.

A atribuição principal da empresa seria executar as iniciativas federais do Plano Nacional de Eletrificação sob a supervisão do governo federal diretamente ou através de intermediárias. A ELETROBRAS funcionaria como holding das empresas prestadoras de serviços. De acordo com o projeto de lei, a empresa poderia também se associar a outras empresas públicas e privadas, neste caso com autorização do presidente da república, e atuar na fabricação de material elétrico ou criar subsidiárias com essa finalidade. A criação da Eletrobrás nos moldes propostos inicialmente representa a tentativa do governo varguista de centralizar as políticas públicas que estavam sendo montadas e colocadas em prática desde 1940. É evidente que este projeto enfrentaria grande oposição no Congresso protagonizada por representantes das concessionárias estrangeiras e outros segmentos da burguesia nacional. Assim, os projetos tanto do PNE e da ELETROBRAS tramitaram lentamente no Congresso apesar da apresentação de ementas votadas na Câmara dos Deputados ainda em 1954, sendo aprovada a criação da ELETROBRAS somente no governo de Jânio Quadros em 1961 com o projeto original bastante modificado.

  1. Conclusão

Com a instituição do Código de Águas em 1934, as principais iniciativas do governo federal no que diz respeito às matrizes energéticas surgiram no Conselho Nacional de Águas e Energia Elétrica (CNAEE), órgão criado no Estado Novo no momento de centralização do governo federal.

A partir de 1946, com o restabelecimento das atividades do Congresso Nacional, o CNAEE não tinha mais funcionalidade legislativa. Podemos observar neste período que existe nenhum registro de iniciativas relevantes no setor de energia, mesmo com o Congresso funcionando, até meados 1950.

No segundo governo Vargas, podemos demarcar limites quanto ao seu projeto nacionalista, pois naquele momento tratava-se de articular os diversos interesses apresentados pelas empresas privadas e públicas nas atividades de regulamentação da administração pública. Neste momento de fato destaca-se um interesse na reorganização institucional do setor energético brasileiro onde podemos verificar uma intervenção factual do governo federal na geração do pólo energético. Trata-se da nacionalização da política estatal para o setor, acima dos poderes regionais, fixando a política do Estado Nacional frente às empresas estrangeiras, o que nos mostra certa prioridade frente este quadro de conflitos de interesses neste cenário que foi marcado pelo forte desenvolvimento da estrutura institucional nacional.

Referências Bibliográficas:

ARAÚJO, Hildete Pereira. O setor de energia elétrica e a evolução recente do capitalismo no Brasil. Rio de Janeiro: COPPE/UFRJ, 1979

BASTOS, Pedro Paulo. Ascensão e crise do projeto nacional-desenvolvimentista de Getulio Vargas. In: BASTOS, Pedro Paulo;

FONSECA, Pedro Cezar (org). Era Vargas: desenvolvimentismo, economia e sociedade. São Paulo: Editora Unesp, 2012

CORRÊA, Maria Letícia. O setor da energia elétrica e a constituição do Estado no Brasil: o conselho nacional de águas e a energia elétrica. História Social,Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2003, 324 f.

LESSA, Carlos; FIORI, José Luis: E houve uma política econômica nacional-populista? Anpec. XII encontro nacional de economia, 5 a 7 dez/1984. Anais, vol. 1, pp. 572-598.

MENDONÇA, Sônia Regina. Estado  e Economia no Brasil: Opções de Desenvolvimento. Niterói: EDUFF, 2006.

SILVA, Marcelo Squinca. A Estatização da energia elétrica: embates entre entreguistas e tupiniquins no centro diretivo do segundo governo Vargas IN Mediações – Revista de Ciências Sociais, v. 10, n. 1, p. 157-164, 2005, Londrina, ISSN 1414-0543

[1] Disponível no endereço eletrônico: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d24643.htm

[2] Em 1952, Vargas instituiu um limite de repatriação de 10% sobre os lucros do capital estrangeiro.

[3] Presidência da República. Plano Nacional de Eletrificação e Centrais Elétricas Brasileiras S.A.. Rio de Janeiro: DIP, 1954. p. 46

 

 

 

Para saberes o meu lugar

Descobri, já tarde, com os pés aninhados, com os dedos plantados na areia fria e a barra da calça enrolada, feito uma boia, um flutuador ao redor dos tornozelos, impedindo as juntas e os pelos de descobrirem o mundo, que a voz, o som que vinha de dentro, era o eco transformado pelo cunhal, o movimento refletido de outras línguas sobre o espelho turvo, sobre o fundo cavernoso de voltas e voltas a perder, de corredores como galhos a suster o pendão sempre desconhecido de um cômodo novo, o pendão no talo ainda frágil de uma maçaneta por girar, de uma tramela posta a prego na folha cerrada de uma porta escura, de madeira viva e nodosa, aguardando, sem pressa, um visitante, um forasteiro sem nome. Descobri, depois do tempo, que o destino é a história de um marinheiro valente contada aos meninos de primeira viagem, que o barco, mesmo no porto, está à deriva, que toda âncora é um embuste, que todo caminho é mais um ramalhete, mais um arranjo com as flores de sempre, adornado com fitas e laços de variada cor e largura diversa.

As mãos folgavam,

de nó em nó,

a corda;

naquela manhã, o mundo crescia, murava de terra e sombra o sítio polido que, depois da superfície cuidada, escondia o meu desamparo, a última chance de saber, com a ponta descoberta dos dedos, com os lábios trêmulos, a verdade da sua presença, da parede, sempre terna, que guardava a sua morada, dizendo, num repente sem murmúrio: aqui, criatura. Eu larguei um bocado daquele chão sobre a tampa e não deixei que nada escorresse e cada grão chegou como se batesse à porta e, com os olhos firmes, eu esperei. À beira daquele rasgão que o solo erguido formara, eu esperei a sua resposta:

aqui, criatura.

Eu esperei você, do outro lado, dizer: estrupício. Eu esperei a sua risada de tarde amena, a gargalhada miúda, mas estridente, a luz já cansada do seu sorriso amainado. Eu esperei a sua reprimenda doce sobre o meu feitio, a sua lição zelosa de mãe adiada, de cuidadora solícita.

E foi ali,

no grito quase oco do silêncio,

que a ausência, num berro cavado, anunciou a sua partida e, no vão que se abriu por dentro, sussurrou que nunca mais você – que nunca mais a sua maneira descuidada de andar pela casa, de dar com as quinas dos móveis enquanto caminhava sem rumo, que nunca mais a sua fala ligeira atravessando por cima das páginas dos livros, abrindo lugar, a cortes baixos, pela vegetação assombrada, convocando, no interior da minha escuta, as aves noturnas e os arbustos rasteiros para um motim; nunca mais o cheiro duro do café antecipando a sua chegada, o aroma suave de macadâmia; nunca mais você no jardim, tomando nota, você, à beira de mim, fazendo crer, por amor ou piedade, que era eu o sustentáculo, o alicerce, o esteio. Nunca mais.

E bastou aquele vago,

aquele recado surdo e feroz,

para que as montanhas todas, num clarão, como numa fotografia que, retomando o movimento, regressasse à corrente do mundo, despencassem, avançando violentas umas contra as outras, ondas indômitas, juvenis, coléricas. Bastou aquele soluço, um espasmo breve, para que eu, ao pé da cruz, plantasse o meu tamanho vergado,

um rebento,

muda, de raiz ao tempo, arqueada sob o próprio peso, um menino inaugurado na forma reduzida de um homem que desce, em desespero, com os joelhos ao piso, de um homem indeciso que implora, confuso e descrente, por uma resposta, por uma palavra que desvele a pergunta sem rosto, esse vulto que caminha por detrás das convenções, das fábulas costumeiras, das cantigas que vestem de ouro a nudez da pedra, da formas escura e úmida que segura, a golpes sucessivos, a fúria do mar em luta.

A falta fez morada no meu desespero.

Nenhum anjo se compadeceu, nenhum deus se apiedou e o nada somou abandono à vastidão desabitada, quando, no campo agreste do desalento, um deserto ganhava corpo, inundando de angústia e medo cada fresta nova que o abalo estreava no monumento já gasto da minha força, do meu empenho rareando, da minha vontade em mingua.

Assim nascem os demônios,

do minério escuro depois de talhar o chão, do fosso que o tropeço desata, que o deslize, repentino, cava, destampando a matéria flexível, o ferro coralino, encarnado, o torrão inflamado pelo fogo da consciência, aberto pelo martelo dos dias sobre a bigorna do corpo. Assim, eles ganham forma, feitio, gesto. Criaturas faceiras, elegantes, versadas – tão traiçoeiras e escorregadias, tão atraentes e, de tantas maneiras, especulares, assombradas, velando de perto, com as patas em prontidão e os ouvidos colados à ombreira, o momento exato da concepção.

Eu, que com tanto zelo conservava o torso branco, o tronco, não raro, de um amarelado sutil, breve, tímido, quase outonal, não sabia que, ao negar a rasura, negava o ânimo, a vida, como um pai cheio de esmero e devoção que atrofiasse as pernas dos filhos por sempre carregá-los no colo, feito um pastor estremado, guardando as ovelhas no reduto limitado da própria habitação, para que não incitassem, nos lobos, a vontade. Assim eu recolhia, sob as penas do meu esforço, a juventude dos tomos, a maneira juvenil e o perfume característico do primeiro nascimento. Foi por isso que escolhi, sem sobressaltos, aquele canto e

deitei fogo na estante inteira e comecei de lá,

da biblioteca,

o parto luminoso, o nascimento da estrela que era a nossa casa florindo, a nossa casa incendiada, acesa na noite imensa, um astro sem par, sem constelação, clareando, na distância, o toldo negro das horas mais longínquas, das horas postas em sossego. Depois, tomado por uma estranha alegria, por uma euforia quase infantil, selvagem, assisti às últimas pétalas que desabrochavam. Nos estalos, a estação seguinte, alardeando a calmaria, assegurava uma paisagem diferente e aquele sol, cansado de arder, começou, de pouco, a desabar, desabrigando a luz e tudo o que circundava, tudo o que, tendo gravidade própria, orbitava em torno das nossas coisas. Aquele dia feito à mão, num suspiro prolongado, foi encolhendo até se tornar um lume tímido entre os restos atulhados dum negrume denso e portentoso.

Vão dizer que fiquei louco,

Vão dizer, quando passarem pelos escombros, que fiquei louco e que, alucinado, ateei fogo ao que sobrou de nós. Ele ficou louco e meteu fogo em tudo! Vão dizer.

Talvez,

não estejam errados,

mas qualquer bicho de casa diria, pouco antes de ser abandonado, que a liberdade é uma doença e só quem passou a madrugada sem medir, mordiscando a penumbra, o abismo derramado sobre a pele da terra, sabe o peso de carregar, gestando, depois da violação,

um relâmpago no útero.

Só quem ouviu, depois do crepúsculo consumado, a melopeia silente do desarrimo saberá reconhecer, na brutalidade quase convulsiva dos movimentos, os passos orquestrados de uma dança viva.

 

Agora, fico aqui

com os filhos que nunca tivemos e os netos que nunca terei

com os gatos que não sobreviveram à largura dos nossos anos e as roupas

que ainda são as mesmas de antes

as mesmas que cobriram, sem enfeites, a minha vontade cega, o meu desvio, e o ponto final pendulando acima da sua despedida, tencionando, em cada passagem, a infinitude da queda, o estrondo ininterrupto da separação.

 

Escrevo, agora,

com a mesma caneta que você trazia no bolso,

nas costas da certidão que assegura o seu desaparecimento, como quem inaugura animais obscuros numa planície amanhecida, numa paisagem iluminada, para desenhar o vazio que, posto em evidência, vira fundo, para mostrar o que só aparece à margem dos olhos, o que, às vezes, com afinco e sorte, fica encadeado entre a mancha gráfica e a intensão.

Estou quase sem espaço,

economizo, diminuo a letra, o intervalo entre os riscos, a prolongamento das hastes, adiando a borda, porque sei – agora sei, porque, já tarde, descobri – que, onde a folha termina, o mundo começa e você não está mais lá. Você nunca mais vai estar lá e mesmo a sua lembrança, a sua voz recriada, os seus trejeitos encarnados numa figura armada de sonho e saudade, é uma evidência daquele sumiço irrevogável, da curva sem dobra que a sua marcha fez num tapa, de repente. Despois do tempo, compreendi, mesclando tristeza e alívio no retumbar sonoro da pancada, que o marinheiro valente da história jamais zarpou de porto algum, que os barcos todos, mesmo no mar, mesmo cortando, a navalhadas, o rosto bravio do azul, estão atracados, estão presos ao ardil das âncoras, como as crianças, cheias de coragem, imaginando aventuras na segurança das vagas imóveis num fotograma, num recorte de revista ou num outdoor. Compreendi, bebendo, feito um naufrago, da privação, que quase tudo é conversa, quase tudo é invenção e boato, que as explicações e motivos, razões e desculpas, causas e lamentos são, quase sempre, bandagens estampadas sobre o talho, faixas floridas, feitas de linho, com mais ou menos qualidade, ou de um trapo qualquer, sobre a carne dilacerada; tatuagens que ilustram, na superfície da cicatriz, um desenho alentador e revigorante, um consolo infame para o que não tem recurso.

Agora, já na orla,

na ponta mais extrema,

com uma das mãos cerradas – os dedos cravados na palma, torcidos, de nó em nó, para dentro – e a outra sufocando as sílabas até o limite, digo adeus como se te ouvisse mais uma vez, como se, mais uma vez, você, na zanga meiga de sempre, ameaçando uma ofensa que nunca vinga, muito garbosa e cheia de contento, dissesse:

Acorda, criatura!

 

O menino morto

Que dentro daquela caixa de esponjas, dentro daquela caixa trazida por um estranho, fechada com fita adesiva, o corpo miúdo, desabitado, carregava duas infâncias – a primeira, interrompida, desmanchada do choro, do lamento fresco tantas vezes ensaiado pelos ouvidos da mãe; a segunda, prolongada, como um lençol antigo, desbotado, um sudário revestido de retalhos e quadrados coloridos, de remendos bem feitos sobre furos e rasgões.