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Caderno de Notas

Primeiro evento do InterDH&A acontece em maio de 2019

O evento 1ST INTERNATIONAL RESEARCH GROUPS MEETING ON HUMAN RIGHTS AND LEGAL ANTHROPOLOGY (InterDH&A), realizado pelo Mestrado em Direitos Humanos da UNIT e pelo Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP), acontecerá nos dias 20 e 21 de maio deste ano, na Universidade Tiradentes, em Aracaju, Sergipe.

Imagem de divulgação/ InterDH&A

Resultado do diálogo entre pesquisadores do Instituto de Tecnologia e Pesquisa, do Programa de Pós-graduação em Direitos Humanos da Universidade Tiradentes (PPGD/UNIT), do Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (PPGA/UFF) e do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos – Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT/InEAC), o InterDH&A foi criado para atender a comunidade científica internacional, principalmente os pesquisadores que discutam processos que visam construir e reconstruir os Direitos Humanos.

Com a atual crise político-institucional pela qual o Brasil e o mundo todo estão passando, é de grande importância que exista um evento como esse, que, além de contribuir cientificamente, propõe também um olhar reflexivo e crítico sobre o senso de cidadania e responsabilidade social.

O evento é totalmente gratuito e abrirá espaço para a apresentação de trabalhos inscritos até dia 26/04/2019 através do formulário que está disponível para download aqui. 

As inscrições de ouvintes poderão ser feitas na abertura do evento.

Para mais informações sobre o InterDH&A acesse: https://eventos.unit.br/interdha

Inclusão na universidade: relatos de servidores técnico-administrativos sobre as suas participações em um projeto de pesquisa na perspectiva inclusiva

Airton dos Reis Pereira /UEPA

Mírian Rosa Pereira /UEPA -CAPS

Shirlei Dias Ribeiro /UEPA -PIBIC

Claudiane Serafim de Sousa /UEPA -Bolsista

Em 2016, um grupo formado por professores e técnicos-administrativos da Universidade do Estado do Pará (UEPA), Campus de Marabá, conseguiu aprovar junto à Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (FAPESPA) uma proposta de pesquisa sob o título “Saberes e Práticas da Formação Docente: da avaliação da educação inclusiva à produção de materiais didáticos destinados às pessoas com deficiência” a qual tinha como objetivo analisar as práticas dos professores de ciências naturais, da educação básica da rede pública de Marabá (PA), na perspectiva da educação inclusiva, e, ao mesmo tempo, contribuir na produção de materiais didáticos acessíveis na área do ensino de ciências naturais destinados à inclusão de alunos com deficiências (baixa visão e cegos).

Depois de contatos com a Secretaria Municipal de Educação e com diversas escolas estaduais, vinte professores de ciências naturais e pedagogas lotadas no Atendimento Educacional Especializado (AEE) em Marabá foram envolvidos no projeto. Com o decorrer do tempo dez pedagogas do município de Itupiranga, 40 quilômetros de Marabá, também foram integradas ao projeto.

Foi adotado como procedimentos metodológicos a Pesquisa-ação e a História Oral. Ou seja, foi decidido que seria importante que a pesquisa fosse realizada ao mesmo tempo em que os sujeitos envolvidos no projeto pudessem aprimorar a sua prática (TRIPP, 2005; FRANCO, 2005). Diversas foram as reuniões e encontros de formação. Diversos foram também os encontros destinados à confecção de materiais didáticos inclusivos. Estes momentos foram destinados à reflexão sobre a realidade educacional, a prática docente em sala de aula, mas também sobre as decisões a respeito dos tipos de materiais didáticos a serem produzidos, além de encontros específicos dedicados à confecção dos referidos materiais.

Foto: Produção de materiais didáticos. Fonte: Acervo do projeto de pesquisa. 

Mas essas atividades foram também espaços importantes de integração, troca de experiências, intercâmbio e solidariedade entre os professores da educação básica e os membros da universidade responsáveis pelo projeto. Algumas das atividades foram filmadas e algumas entrevistas coletivas foram gravadas e transcritas. Mas foram também realizadas entrevistas individuais com pessoas chaves que vinham participando ativamente de todo o processo de execução do projeto. Entendia-se que por meio dos relatos orais se pudesse captar, mais facilmente, os posicionamentos políticos dos sujeitos na pesquisa, além de possibilitar apreender, com maior clareza, os motivos que levavam esses professores tomarem algumas decisões (ALBERTI, 2005).

Durante o processo de execução do projeto, algumas bolsistas de iniciação científica foram integradas ao grupo de professores e técnicos-administrativos os quais participaram ativamente das tomadas de decisões e das atividades desenvolvidas.

Uma das coisas que foram possíveis constatar ao se trabalhar com a pesquisa-ação e com a história oral é que o grupo formado por estes professores, técnicos-administrativos e bolsistas da universidade foi também capacitado à medida que coordenava os encontros de formação e de produção de materiais didáticos impactando diretamente na forma como esses servidores passaram a ver a educação inclusiva dentro da própria universidade.

Ao entrevistar essas servidoras, foi muito interessante compreender não só o processo de formação que elas tiveram sobre a educação inclusiva durante os seus cursos de graduação, mas a contribuição que o projeto de pesquisa deu sobre a educação inclusiva no âmbito da universidade. As entrevistas revelam como os servidores estão preparados para atuarem em conformidade com o processo de inclusão educacional, que envolve a sua formação inicial e continuada. A esse aspecto, foi possível verificar que das sete servidoras entrevistadas, apenas uma teve na sua formação inicial algumas disciplinas voltadas sobre a educação inclusiva e duas participaram de processos de formação continuada sobre essa temática antes de ingressarem no projeto de pesquisa.

O questionamento sobre a formação dessas profissionais demonstrou que elas se sentem preocupadas com lacuna proveniente desses processos formativos e que a participação no referido projeto de pesquisa se revelou como um desafio dada a realidade dos cursos de graduação de uma forma geral, mas por outro lado, foi visto não só como debate sobre a inclusão de pessoas com deficiência, mas a sua própria inclusão nas discussões sobre a temática estudada:

eu costumo afirmar que realmente houve inclusão nesse projeto. Porque é o primeiro projeto no Campus de Marabá que houve a inclusão de nós técnicos. Eu sou funcionaria da UEPA, mas eu sou técnica administrativa, então todos os projetos que já aconteceram no Campus são para docentes e discentes, mas esse projeto realmente trabalha a inclusão, pois foram incluídos os técnicos administrativos. Essa inclusão enriqueceu a nossa vida profissional. É imensurável o aprendizado que tivemos, o quanto ele nos valorizou. No momento que fomos convidadas, tanto eu como as minhas colegas, no primeiro momento a ideia era dizer não, até porque era tudo novo para nós, tínhamos medo de não dar conta de participar (S1. Entrevista concedida em 13/02/19).

Compreender como essas profissionais atuam e se sentem sobre o seu trabalho frente a inclusão social e educacional, é um fator muito importante para o movimento de inclusão de uma forma ampla, pois parte da necessidade de conhecer, aprender e mudar suas ações diárias, na busca da qualidade do serviço que será ofertado, neste caso, o atendimento na universidade. Nesse sentido, na formação e para a atuação dessas profissionais é necessário discutir a inclusão social e “refletir sobre certos conceitos […], concepção de homem, educação e sociedade como seus determinantes econômicos, sociais e políticos” (FERREIRA; FERREIRA; FERREIRA, 2010, p. 6149).

Sobre o município de Marabá (PA), no qual encontra-se também a UEPA, as profissionais entrevistadas argumentaram sobre as suas percepções acerca do processo de inclusão e acessibilidade, evidenciados tanto na cidade de forma geral, como também na própria instituição de ensino superior em que atuam. Cabe ressaltar que foi unânime ao afirmarem que a cidade caminha a passos lentos para se alcançar de fato uma cidade mais inclusiva e acessível, mas que segundo a Servidora 2, “teve uma evolução muito satisfatória, mas em relação a qualidade da inclusão… nós precisamos caminhar muito” (S2. Entrevista concedida em 15/02/19).

Na questão da acessibilidade e inclusão na própria instituição em que atuam, as profissionais ressaltam que as mudanças estruturais e atitudinais surgiram, de forma mais expressiva, a partir do ingresso do primeiro aluno deficiente visual no campus universitário em 2009 e esse fato foi bastante citado nas entrevistas, como ressalta a Servidora 2, sobre as mudanças que ocorreram. Afirma ela: “começamos a pensar na estrutura física e depois que nós partimos para a estrutura acadêmica, que foi muito difícil, pois era uma experiência nova para nós enquanto Campus da UEPA” (S2. Entrevista concedida em 15/02/19).

Recentemente, o campus recebeu matrículas de cinco alunos surdos na turma de graduação em Letras, com habilitação em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), demandando também a reformulação de aspectos da comunicação institucional e acadêmica com esses alunos surdos. A esse aspecto, os relatos das profissionais revelam que elas têm tido contatos limitados com esses alunos devido o horário de aulas ser no período noturno. Mas segundo elas, a presença desses alunos na universidade tem levando-as a refletir sobre a forma de comunicar, demonstrando que precisam se capacitar para que possam se comunicar de forma mais efetiva com esses alunos e com a comunidade surda de forma geral como bem destaca a Servidora 6:

As vezes a gente precisa passar alguma informação acadêmica para eles, para que eles possam ter acesso. Os outros alunos da turma às vezes que fazem essa intermediação conosco, para que haja um entendimento. Para melhorar isso, a gente tem que fazer alguma formação, ao menos o básico, para poder ocorrer a comunicação (S6. Entrevista concedida em 18/02/19).

A participação dessas servidoras no projeto de pesquisa, sobretudo na interação com os professores da educação básica e do AEE, consolida-se como um processo de aprendizado, de capacitação:

quando nós fomos convidadas para participar desse projeto, foi uma oportunidade maravilhosa, excelente, porque é sempre gratificante e enriquece nosso conhecimento em relação a inclusão porque quando você, quando a gente passa a pensar no aluno deficiente, você imagina como que ele  vai estar na sala de aula, como esse aluno vai ser atendido e quando a gente passa a ver que a  adaptação do material para este aluno é possível, é um outro mundo, um outro conhecimento que é acrescentado à nossa vida profissional. O projeto nos possibilitou isso (S3. Entrevista concedida em 13/02/19).

Assumir que a inclusão perpassa todos os aspectos da vida em sociedade é também compreender que esta “se fundamenta numa filosofia que reconhece e aceita a diversidade na vida em sociedade. Isto significa garantia de acesso de todos a todas as oportunidades” (MENDES, 2002, p. 28). E isto fortalece a necessidade de discutir inclusão em todos os setores das instituições de ensino, quer seja na educação básica, quer seja no ensino superior.

A proposta revolucionária de participação dos servidores da UEPA em um projeto de pesquisa sobre a temática de inclusão educacional pode, talvez, influenciar outras instituições de ensino superior a repensarem as dinâmicas acadêmico-administrativas que as mesmas têm desenvolvido em seus campi.

As perspectivas de ações futuras, segundo essas servidoras, demonstram que houve uma melhor compreensão do papel do servidor na instituição, da preocupação da qualidade do sistema de comunicação entre os servidores e pessoas com deficiência, como também a preocupação com relação a acessibilidade da infraestrutura do campus e da cidade Marabá como um todo.

As relações estabelecidas no âmbito do projeto de pesquisa “Saberes e práticas da formação docente” proporcionaram uma maior aproximação entre a realidade da educação básica com a universidade. Os questionamentos dos professores da educação básica envolvidos no projeto, com relação às dificuldades, aos desafios, mas também aos anseios por uma educação de qualidade e, de fato, inclusiva, foram fundamentais, segundo as servidoras, para se pensar a sua atuação enquanto profissionais da universidade. Ou seja, para essas servidoras a universidade deve dialogar com a comunidade de uma forma geral, sobretudo possibilitar reflexões sobre as garantias de direitos da pessoa com deficiência.

Foto: Material didático. Livro sensorial. Fonte: Acervo do projeto de pesquisa.

Assim, a partir da percepção de que a inclusão envolve muito mais do que a utilização da grafia Braille para atender pessoas cegas ou a LIBRAS para atender as pessoas surdas, devemos entender que a diversidade existe e que todos são capazes e devem ter condições de exercerem sua cidadania frente aos diversos setores da sociedade. A partir desse entendimento é que se construirá uma sociedade mais justa, solidária e inclusiva.

 

Referências

ALBERTI, V. Manual de história oral. Rio de Janeiro: FGV, 2005.

FRANCO, Maria Amélia Santoro. Pedagogia da Pesquisa-Ação. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 3, p. 483-502, set./dez. 2005.

FERREIRA, Lúcia Gracia; FERREIRA, Lucimar Gracia; FERREIRA, Márcia Gracia. A inclusão social e escolar: enfoque nas escolas públicas de educação infantil de Itapetinga-BA. In: Anais do XII Congresso Nacional de Educação. Paraná: PUC/PR, 26-29 de outubro de 2015. Disponível em: http://educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2015/22562_9959.pdf. Acesso: 28 mar. 2019.

MENDES, E. G. Desafios atuais na formação do professor de educação especial. Revista Integração, v. 24, Ano 14, Brasília: MEC/SEESP, 2002.

TRIPP, David. Pesquisa-ação: uma introdução metodológica. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 3, p. 443-466, set./dez. 2005.

 

 

Para saberes o meu lugar

Descobri, já tarde, com os pés aninhados, com os dedos plantados na areia fria e a barra da calça enrolada, feito uma boia, um flutuador ao redor dos tornozelos, impedindo as juntas e os pelos de descobrirem o mundo, que a voz, o som que vinha de dentro, era o eco transformado pelo cunhal, o movimento refletido de outras línguas sobre o espelho turvo, sobre o fundo cavernoso de voltas e voltas a perder, de corredores como galhos a suster o pendão sempre desconhecido de um cômodo novo, o pendão no talo ainda frágil de uma maçaneta por girar, de uma tramela posta a prego na folha cerrada de uma porta escura, de madeira viva e nodosa, aguardando, sem pressa, um visitante, um forasteiro sem nome. Descobri, depois do tempo, que o destino é a história de um marinheiro valente contada aos meninos de primeira viagem, que o barco, mesmo no porto, está à deriva, que toda âncora é um embuste, que todo caminho é mais um ramalhete, mais um arranjo com as flores de sempre, adornado com fitas e laços de variada cor e largura diversa.

As mãos folgavam,

de nó em nó,

a corda;

naquela manhã, o mundo crescia, murava de terra e sombra o sítio polido que, depois da superfície cuidada, escondia o meu desamparo, a última chance de saber, com a ponta descoberta dos dedos, com os lábios trêmulos, a verdade da sua presença, da parede, sempre terna, que guardava a sua morada, dizendo, num repente sem murmúrio: aqui, criatura. Eu larguei um bocado daquele chão sobre a tampa e não deixei que nada escorresse e cada grão chegou como se batesse à porta e, com os olhos firmes, eu esperei. À beira daquele rasgão que o solo erguido formara, eu esperei a sua resposta:

aqui, criatura.

Eu esperei você, do outro lado, dizer: estrupício. Eu esperei a sua risada de tarde amena, a gargalhada miúda, mas estridente, a luz já cansada do seu sorriso amainado. Eu esperei a sua reprimenda doce sobre o meu feitio, a sua lição zelosa de mãe adiada, de cuidadora solícita.

E foi ali,

no grito quase oco do silêncio,

que a ausência, num berro cavado, anunciou a sua partida e, no vão que se abriu por dentro, sussurrou que nunca mais você – que nunca mais a sua maneira descuidada de andar pela casa, de dar com as quinas dos móveis enquanto caminhava sem rumo, que nunca mais a sua fala ligeira atravessando por cima das páginas dos livros, abrindo lugar, a cortes baixos, pela vegetação assombrada, convocando, no interior da minha escuta, as aves noturnas e os arbustos rasteiros para um motim; nunca mais o cheiro duro do café antecipando a sua chegada, o aroma suave de macadâmia; nunca mais você no jardim, tomando nota, você, à beira de mim, fazendo crer, por amor ou piedade, que era eu o sustentáculo, o alicerce, o esteio. Nunca mais.

E bastou aquele vago,

aquele recado surdo e feroz,

para que as montanhas todas, num clarão, como numa fotografia que, retomando o movimento, regressasse à corrente do mundo, despencassem, avançando violentas umas contra as outras, ondas indômitas, juvenis, coléricas. Bastou aquele soluço, um espasmo breve, para que eu, ao pé da cruz, plantasse o meu tamanho vergado,

um rebento,

muda, de raiz ao tempo, arqueada sob o próprio peso, um menino inaugurado na forma reduzida de um homem que desce, em desespero, com os joelhos ao piso, de um homem indeciso que implora, confuso e descrente, por uma resposta, por uma palavra que desvele a pergunta sem rosto, esse vulto que caminha por detrás das convenções, das fábulas costumeiras, das cantigas que vestem de ouro a nudez da pedra, da formas escura e úmida que segura, a golpes sucessivos, a fúria do mar em luta.

A falta fez morada no meu desespero.

Nenhum anjo se compadeceu, nenhum deus se apiedou e o nada somou abandono à vastidão desabitada, quando, no campo agreste do desalento, um deserto ganhava corpo, inundando de angústia e medo cada fresta nova que o abalo estreava no monumento já gasto da minha força, do meu empenho rareando, da minha vontade em mingua.

Assim nascem os demônios,

do minério escuro depois de talhar o chão, do fosso que o tropeço desata, que o deslize, repentino, cava, destampando a matéria flexível, o ferro coralino, encarnado, o torrão inflamado pelo fogo da consciência, aberto pelo martelo dos dias sobre a bigorna do corpo. Assim, eles ganham forma, feitio, gesto. Criaturas faceiras, elegantes, versadas – tão traiçoeiras e escorregadias, tão atraentes e, de tantas maneiras, especulares, assombradas, velando de perto, com as patas em prontidão e os ouvidos colados à ombreira, o momento exato da concepção.

Eu, que com tanto zelo conservava o torso branco, o tronco, não raro, de um amarelado sutil, breve, tímido, quase outonal, não sabia que, ao negar a rasura, negava o ânimo, a vida, como um pai cheio de esmero e devoção que atrofiasse as pernas dos filhos por sempre carregá-los no colo, feito um pastor estremado, guardando as ovelhas no reduto limitado da própria habitação, para que não incitassem, nos lobos, a vontade. Assim eu recolhia, sob as penas do meu esforço, a juventude dos tomos, a maneira juvenil e o perfume característico do primeiro nascimento. Foi por isso que escolhi, sem sobressaltos, aquele canto e

deitei fogo na estante inteira e comecei de lá,

da biblioteca,

o parto luminoso, o nascimento da estrela que era a nossa casa florindo, a nossa casa incendiada, acesa na noite imensa, um astro sem par, sem constelação, clareando, na distância, o toldo negro das horas mais longínquas, das horas postas em sossego. Depois, tomado por uma estranha alegria, por uma euforia quase infantil, selvagem, assisti às últimas pétalas que desabrochavam. Nos estalos, a estação seguinte, alardeando a calmaria, assegurava uma paisagem diferente e aquele sol, cansado de arder, começou, de pouco, a desabar, desabrigando a luz e tudo o que circundava, tudo o que, tendo gravidade própria, orbitava em torno das nossas coisas. Aquele dia feito à mão, num suspiro prolongado, foi encolhendo até se tornar um lume tímido entre os restos atulhados dum negrume denso e portentoso.

Vão dizer que fiquei louco,

Vão dizer, quando passarem pelos escombros, que fiquei louco e que, alucinado, ateei fogo ao que sobrou de nós. Ele ficou louco e meteu fogo em tudo! Vão dizer.

Talvez,

não estejam errados,

mas qualquer bicho de casa diria, pouco antes de ser abandonado, que a liberdade é uma doença e só quem passou a madrugada sem medir, mordiscando a penumbra, o abismo derramado sobre a pele da terra, sabe o peso de carregar, gestando, depois da violação,

um relâmpago no útero.

Só quem ouviu, depois do crepúsculo consumado, a melopeia silente do desarrimo saberá reconhecer, na brutalidade quase convulsiva dos movimentos, os passos orquestrados de uma dança viva.

 

Agora, fico aqui

com os filhos que nunca tivemos e os netos que nunca terei

com os gatos que não sobreviveram à largura dos nossos anos e as roupas

que ainda são as mesmas de antes

as mesmas que cobriram, sem enfeites, a minha vontade cega, o meu desvio, e o ponto final pendulando acima da sua despedida, tencionando, em cada passagem, a infinitude da queda, o estrondo ininterrupto da separação.

 

Escrevo, agora,

com a mesma caneta que você trazia no bolso,

nas costas da certidão que assegura o seu desaparecimento, como quem inaugura animais obscuros numa planície amanhecida, numa paisagem iluminada, para desenhar o vazio que, posto em evidência, vira fundo, para mostrar o que só aparece à margem dos olhos, o que, às vezes, com afinco e sorte, fica encadeado entre a mancha gráfica e a intensão.

Estou quase sem espaço,

economizo, diminuo a letra, o intervalo entre os riscos, a prolongamento das hastes, adiando a borda, porque sei – agora sei, porque, já tarde, descobri – que, onde a folha termina, o mundo começa e você não está mais lá. Você nunca mais vai estar lá e mesmo a sua lembrança, a sua voz recriada, os seus trejeitos encarnados numa figura armada de sonho e saudade, é uma evidência daquele sumiço irrevogável, da curva sem dobra que a sua marcha fez num tapa, de repente. Despois do tempo, compreendi, mesclando tristeza e alívio no retumbar sonoro da pancada, que o marinheiro valente da história jamais zarpou de porto algum, que os barcos todos, mesmo no mar, mesmo cortando, a navalhadas, o rosto bravio do azul, estão atracados, estão presos ao ardil das âncoras, como as crianças, cheias de coragem, imaginando aventuras na segurança das vagas imóveis num fotograma, num recorte de revista ou num outdoor. Compreendi, bebendo, feito um naufrago, da privação, que quase tudo é conversa, quase tudo é invenção e boato, que as explicações e motivos, razões e desculpas, causas e lamentos são, quase sempre, bandagens estampadas sobre o talho, faixas floridas, feitas de linho, com mais ou menos qualidade, ou de um trapo qualquer, sobre a carne dilacerada; tatuagens que ilustram, na superfície da cicatriz, um desenho alentador e revigorante, um consolo infame para o que não tem recurso.

Agora, já na orla,

na ponta mais extrema,

com uma das mãos cerradas – os dedos cravados na palma, torcidos, de nó em nó, para dentro – e a outra sufocando as sílabas até o limite, digo adeus como se te ouvisse mais uma vez, como se, mais uma vez, você, na zanga meiga de sempre, ameaçando uma ofensa que nunca vinga, muito garbosa e cheia de contento, dissesse:

Acorda, criatura!

 

O menino morto

Que dentro daquela caixa de esponjas, dentro daquela caixa trazida por um estranho, fechada com fita adesiva, o corpo miúdo, desabitado, carregava duas infâncias – a primeira, interrompida, desmanchada do choro, do lamento fresco tantas vezes ensaiado pelos ouvidos da mãe; a segunda, prolongada, como um lençol antigo, desbotado, um sudário revestido de retalhos e quadrados coloridos, de remendos bem feitos sobre furos e rasgões.