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A poesia está na rua

“Quando o amor recupera a visão”

A relação entre cidade e literatura é muito debatida contemporaneamente. No ensaio A cidade, a literatura e os estudos culturais: do tema ao problema, Renato Cordeiro Gomes (1999) ressaltou que a relação entre Literatura e experiência urbana intensificou-se na modernidade, pois a cidade tornou-se uma paisagem inevitável, e mesmo quando não incorporada nos textos, faz-se presente pela sua ausência que deixa marcas como a violência, a solidão, entre outros.
Depois dos anos 90, a referência ao espaço urbano na poesia aparece, quase sempre, de forma pessimista, impactante e violenta. Parece, até mesmo, que algumas considerações mais suaves, a respeito das diferenças sociais mencionadas pelos poetas modernos se concretizam e se agravam na poesia contemporânea. Até os sentimentos considerados mais “puros”, como amor, solidariedade e benevolência, aparecem de forma interesseira:
Quando o amor recupera a visão

Tão logo alguém se aproxima
joga-se no chão
finge ter sido espancado
roubado até o último vintém

Se o ajudam a erguer-se
abraça a alma caridosa
esvaziando-lhe a bolsa

O maligno o arrasta
através do fogo
através do vau e do redemunho
do lamaçal e do charco
põe facas em seu travesseiro
ratoeiras em sua sopa

Ele também
não faz por menos:

bebe pinga com o cachorro
joga dados viciados
cede o corpo a proxenetas

É fustigado nos albergues
nos hospitais públicos
e posto na rua a pontapés
quando o amor recupera a visão

No poema “tão logo alguém se aproxima”, publicado no livro Baque, encontramos uma cena de disfarce, engano. O eu-lírico, neste poema, faz referência a pessoas que simulam uma situação de abandono, dor ou desespero, com intuito de receber ajuda de alguém. Nesse poema, encontramos uma situação específica, que tem como finalidade conseguir dinheiro.
Um sujeito, inserido em um espaço não identificado, mas, com certeza, público, espera alguém se aproximar e joga-se ao chão, fingindo ter sido espancado e roubado. Caso receba ajuda, ele aproveitará da situação para conseguir o que almeja: o dinheiro. Para consegui-lo, o sujeito farsante pensa em várias trapaças: desde a utilização de objetos cortantes até armadilhas que seriam utilizadas contra uma pessoa qualquer.
A vítima da artimanha, ao descobrir a farsa na qual caíra, tenta desfazer a cilada e expulsa, a pontapés, o ser que a enganou. Esse momento é identificado pelo eu-lírico por meio do verso “quando o amor recupera a visão”, ou seja, ao voltar para suas condições normais, ao ver novamente, o sujeito percebe que estava sendo enganado, relacionando-se com uma pessoa que tinha, apenas, interesses econômicos e por isso forjava um relacionamento mentiroso.
Além disso, o último verso do poema nos faz refletir sobre várias situações contemporâneas. Uma delas é a respeito do clichê: “não existe amor verdadeiro”, “as pessoas só se relacionam por interesse”, etc. A outra é a possibilidade de pensarmos em uma justificativa para as diversas vezes que presenciamos, ou negamos, ajuda a pessoas desconhecidas, pois existe grande chances de estarmos sendo enganados.
Ao andarmos pelas ruas das grandes cidades, ao frequentarmos os espaços públicos das cidades, encontramos moradores de rua, deficientes físicos e crianças pedindo dinheiro. Geralmente, existe uma ideia generalizada que tais pessoas fazem esse pedido com a finalidade de conseguir dinheiro para comprar drogas e bebidas e, por isso, muitas pessoas negam ajudá-las.
É importante ressaltar, também, a relevância do título do poema: “Quando o amor recupera a visão”. Essa frase pode soar como uma ironia a uma das possibilidades de identificar o amor, como “a princípio não era amor, mas…” passou a ser à medida que houve o reconhecimento de um “amor que vale a pena”.
Essa noção de amor como recompensa, distancia, ou, até mesmo, distorce o conceito de amor por aproximá-los de conceitos capitalistas. Por essa concepção, é possível identificar o eu-lírico como alguém que se coloca junto aos outros, não assumindo uma posição externa de controle, mas criticando modos de vida, como o capitalismo.
Há, assim, uma denúncia de práticas de violência aceitáveis. Isso possibilita ao leitor questionar se a violência é apenas a física ou se a violência acontece, também, em situações consideradas normais, como casamentos por interesse e, para ser mais contemporâneo, relacionamentos mantidos por “valerem a pena”.
Provocações como essas, acontecem ao longo da leitura dos poemas de Baque, nos quais encontramos críticas com intuito de “resensibilizar” as pessoas, fazê-las diferenciar o amor e a violência habitual.
Logo, por meio desse poema de Fábio Weintraub, pensamos nos questionamentos acerca da existência do amor e da existência da verdade nas ruas das cidades.

Referências Bibliográficas
GOMES, Renato Cordeiro. A cidade, a literatura e os estudos culturais: do tema ao problema. Ipotesi – Revista de Estudos Literários. Juiz de Fora, v.3 – n.2, p.17-30, jul./dez. 1999.

WEINTRAUB, F. Baque. São Paulo: Editora 34, 2007.

Medo, violência e poesia

O poeta Fabio Weintraub, paulistano nascido em 1967, publicou alguns livros de poesia cuja temática principal é a cidade. Em Novo endereço, livro publicado em 2002, o eu-lírico descreve habitantes que se encontram perdidos, arruinados e à margem da sociedade, tentando encontrar um espaço e motivo para viver. Cinco anos depois (2007), o autor, Fabio Weintraub, publicou o livro Baque, no qual há uma intensificação na descrição desses habitantes que se encontravam arrasados e, agora, encontram-se à beira da morte, vivendo em condições sub-humanas.

A intensificação e a forma como o eu-lírico se refere à cidade, nos poemas dessa obra, são impactantes. Ao iniciar pelo título, Baque, já encontramos uma definição radical, uma vez que o vocábulo tem como significado “desastre ou ruina súbita”, “ruído produzido por um corpo que cai”. Além disso, antes de o leitor se deparar com o primeiro poema, encontra duas epígrafes:

“Não me sentia bem, mas disseram que eu estava bastante bem. Não disseram expressamente que eu jamais ficaria melhor, mas estava subentendido” (Samuel Beckett), e “A pior parte é a maior” (Provérbio grego).

A primeira frase, de Samuel Beckett, dramaturgo e escritor irlandês, parece-nos familiar. Provavelmente, habitantes das grandes metrópoles, já ouviram frases semelhantes a essa, devido a problemas econômicos, sociais e, principalmente, por motivos de saúde.

Ademais, podemos inferir que frases como essas têm grandes chances de serem proferidas por um sujeito habituado com uma situação específica e recorrente. Frequentemente, a maioria dos habitantes das grandes metrópoles está acostumada a presenciar cenas que Fabio Weintraub descreve em seus poemas, como roubos, violência física, doenças, e preconceito. Apesar de serem cenas que causam piedade e compaixão, para o eu-lírico, muitas vezes, essas atrocidades humanas passam despercebida, como podemos observar no seguinte poema:

 

Tardo

Foi quando notei que a linha

da implantação dos cabelos

nela havia recuado

até o alto do crânio

o que marcava ainda mais

as feições masculinas

o avantajado nariz

Os dedos ali na fronte

numa  pressão insistente

contra o que parecia

sinal de dor ou cansaço

as unhas muito polidas

sobre a testa oleosa

a distrair nosso olhar

Tudo questão de segundos

o tempo só de pensar

que algo não ia bem

átimo em que se capta

um som de osso quebrado

cheiro de fruta vencida

até que outro passageiro

mais atento e comovido

tocou-lhe o braço e indagou

se ela estava bem

se precisava de ajuda

 

Um título bastante sugestivo, “Tardo”, estabelece novas relações de sentido, além de um tempo de reação lento, incapaz de solucionar algum acontecimento, quando inicia-se a leitura dos versos do poema. Esses nos possibilitam afirmar que a cena se passa em um espaço público, aonde se encontram mais de um sujeito, compartilhando, inicialmente, apenas o espaço.

O eu-lírico observa fisicamente a mulher que se encontra no mesmo local que ele. Descreve seu rosto, faz juízos de valor quanto as suas feições, observa a posição da mão em relação ao rosto, suas unhas e, por fim, relaciona alguns aspectos da aparência física com uma possibilidade dessa mulher estar cansada ou sentido dor.

Essa característica, que possivelmente é um sinal de necessidade de ajuda, não se mostrou relevante para o eu-lírico que se distraiu em avaliar os aspectos físicos do sujeito. Assim, o eu-lírico, distraído, não reagiu a tempo. Por sorte, havia outras pessoas no local e, uma delas, “mais atenta e convencida”, como observou o eu-lírico, ofereceu ajuda e perguntou à mulher se estava tudo bem.

Ao conjugar o verbo na primeira pessoa do singular, nomeando o poema, (eu) “Tardo”, o eu-lírico reconhece sua falha em não ter tomado nenhuma atitude diante da situação. Além disso, reconhece a presença de um sujeito com um olhar diferenciado, capaz de identificar, com maior precisão, o momento necessário para reação.

Essa situação é bastante comum nos acontecimentos que presenciamos nas metrópoles brasileiras. A individualidade, a presa, a competitividade são elementos, intensificados com a modernização das cidades, responsáveis por proporcionar a falta de convívio, afeto e solidariedade entre os habitantes de uma mesma cidade. Momentos como esses, que poderiam ser considerados como fatores causadores do “choque”, são transformados em “rotina” pelo fato de serem recorrentes. Assim, a experiência do “choque” passa a ser familiar e o sujeito, provavelmente, só será comovido com acontecimentos completamente trágicos, isto é, com o “baque” como ressaltou Fábio Weintraub.

Ao analisar os elementos da modernidade, Georg Simmel considerou que elementos como “pontualidade, calculabilidade, exatidão” (SIMMEL, 1979, p.15) existem na vida do sujeito moderno devido à complexidade da metrópole que juntamente com o dinheiro representam os principais símbolos da modernidade. O dinheiro, meio de troca universal, acentua a individualidade do sujeito e das relações humanas ao mesmo tempo que lhe oferece autonomia e independência, ou seja, seu surgimento proliferou malefícios e benefícios na vida moderna, como explicou Simmel (1998) em O dinheiro na cultura moderna. Assim, o dinheiro é o motivador do homem moderno, pois, além de ser indispensável para sua sobrevivência, possibilita realizar seus mais variados desejos, proporcionando-lhe uma gama de sentimentos como satisfação pessoal e felicidade. Por outro lado, o dinheiro é o causador das inúmeras intrigas sociais, pelo fato de ser “o mais assustador dos niveladores” (SIMMEL, 1979, p.16).

Ainda que essas considerações de George Simmel façam referência à modernidade, o dinheiro continua sendo o grande responsável pelas desigualdades e injustiças encontradas nas cidades brasileiras contemporâneas, apresentando-se como o fator determinante de inúmeros problemas sociais. Devido a ele, o qual não permite o ato de “tardar” para recebê-lo, prevalece a ausência, a falta de sensibilidade e solidariedade do sujeito que vive a “tardar” em prol da rotina capitalista.

 

Referências Bibliográficas

SIMMEL, Georg. A Metrópole e a Vida Mental. In: Velho, Otávio Guilherme (org.), O Fenômeno Urbano. 4ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979, p.11-25.

 

____. O dinheiro na cultura moderna. In: SOUZA, Jessé e ÖELZE, Berthold (orgs.) Simmel e a Modernidade. Brasília: Unb, 1998. p. 109-117.

 

WEINTRAUB, F. Baque. São Paulo: Editora 34, 2007.