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A poesia está na rua

O sonho de Gaetaninho

Em 1927, foi publicado o livro Brás, Bexiga e Barra Funda, de Antônio de Alcântara Machado, composto por onze contos que retratam a adaptação do imigrante italiano, a urbanização de São Paulo e o comportamento dos personagens modernos da obra. Nessa narrativa, o imigrante é a figura de destaque que ressalta o processo de adaptação econômica e cultural desse grupo, que por sinal foi um processo repleto de esforços e dificuldades. Em poucos contos o imigrante italiano apresenta a ascensão econômica, enquanto o paulista aristocrata simboliza a falência e a vontade de reascender socialmente, e para melhor exemplificar essa situação o autor utiliza o “automóvel” como símbolo dessa ascensão, devido ao fato do veículo ser um objeto de alto valor aquisitivo, representado o luxo e o poder na sociedade paulista de 1920.

O conto Gaetaninho retrata a história de um menino, representante dos imigrantes de condição humilde, que ficava perambulando pela Rua do Oriente admirado com os Fords que ali passavam. O sonho do garoto, de andar de carro pelas ruas, era de difícil concretização pois as pessoas de classe média e baixa só andavam de bonde,  e caso andassem de carro era por motivo de enterros ou casamentos. Embora inacessível às pessoas pobres o fascínio pela vontade de andar em um automóvel era tão intensa que fez Gaetaninho sonhar com essa possibilidade:

Gaetaninho enfiou a cabeça embaixo do travesseiro.

Que beleza, rapaz! Na frente quatro cavalos pretos empenachados levavam a tia Filomena para o cemitério. Depois o padre. Depois o Savério noivo dela de lenço nos olhos. Depois ele. Na boléia do carro. Ao lado do cocheiro. Com a roupa marinheira e o gorro branco onde se lia: Encouraçado São Paulo. Não. Ficava mais bonito de roupa marinheira mas com a palhetinha nova que o irmão lhe trouxera da fábrica. E ligas pretas segurando as meias. Que beleza rapaz! Dentro do carro o pai os dois irmãos mais velhos (um de gravata vermelha outro de gravata verde) e o padrinho Seu Salomone. Muita gente nas calçadas, nas portas e nas janelas dos palacetes, vendo o enterro. Sobretudo admirando o Caetaninho. (MACHADO, 2002, p.21)

 

Nesse sonho o personagem realizava a vontade de andar de carro, mas por intermédio da morte da sua tia Filomena. Mas o desejo de Gaetaninho não é concretizado na vida real, e sua morte é destituída pelo seu sonho, mas que assume um tom cômico no conto:

Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.

No bonde vinha o pai do Gaetaninho.

A gurizada assustada espalhou a noticia na noite.

– Sabe o Gaetaninho?

– Que é que tem?

– Amassou o bonde!

A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.

Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boléia de nenhum dos carros do acompanhamento. Ia no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha.

Quem na boléia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino” (MACHADO, 2002, p.23)

 

O final do conto é surpreendente, não só pela rapidez de como se dá a morte de Gaetaninho, mas também pela troca de valores que o automóvel assume, passando de objeto admirado (representante do status econômicos) à motivo de dor e tristeza (a morte) que no conto é abordada com um caráter  humorístico através de uma construção irônica presente no diálogo (amassou o bonde). Sendo assim, Antônio de Alcântara Machado consegue criar uma inversão dos sentimentos para provocar o riso diante de um acontecimento trágico, isto é, a morte de um garoto que brincava na rua e foi atropelado por um objeto representante do “culto da velocidade”, da vida frenética urbana, da máquina. E o que era “tragédia” passa a ser “motivo de riso”.

Exceto no conto Gaetaninho, Alcântara Machado aborda o automóvel nos demais contos como um encanto, símbolo de poder e riqueza. Para melhor explicar, temos o conto A Sociedade, que narra a história de um rapaz, filhos de imigrantes italianos, o autor utiliza o automóvel para representar a ascensão econômica do jovem:

O Lancia passou como quem não quer nada. Quase parando. A mão enluvada cumprimentou com o chapéu Borsalino. Uiiiiia – Uiiiiia! Adriano Melli calcou o acelerador. Na primeira esquina fez a curva. Veio voltando. Passeou de novo. Continuou. Mais duzentos metros. Outra curva. Sempre na mesma rua. Gostava dela. Era a Rua da Liberdade. Pouco antes do número 259-C já sabe: uiiiiia-uiiiiia! (MACHADO, 1982, p.41)

 

Como podemos perceber o elemento de destaque no conto é o automóvel (Lancia) de Adriano, que passava na rua da sua namorada para vê-la, com isso os pais de Teresa Rita ao verem o automóvel do imigrante italiano começavam a rever seus preconceitos. E através disso, ou seja, com a conquista de bens materiais representantes do luxo e poder, os imigrantes que chegavam em São Paulo começavam a conquistar espaço na sociedade.

Dessa forma, Alcântara Machado no conto Gaetaninho apresenta-nos esse objeto que causa fascínio, mas com um desfecho desencantador, no sentido de que o objeto de encanto foi a causa da morte de um garotinho que brincava de bola na rua. Por isso não podemos considerar que o culto pela velocidade trouxe somente agilidade para o sujeito que vive na cidade moderna, que precisa de praticidade, uma vez que o mesmo traz consigo sérios riscos: como o de deixar o homem “na mão” ou de causar acidentes graves, e até mesmo a morte. Como disse Marshall Berman, isso quer dizer que o automóvel tem um papel duplo no tráfego da cidade

para aqueles que têm autoconfiança ou confiança de classe, os veículos são fortalezas protegidas de onde se domina a massa de pedestres; para aqueles que carecem e confianças, os veículos são armadilhas, gaiolas, cujos ocupantes se tornam extremamente vulneráveis ao relance fatal de qualquer assassino. (BERMAN, 2000, p.247)

 

 

Referências Bibliográficas:

BERMAN, Marshall. Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. Trad. Caros Felipe Moisés, Ana Maria Iovialti e Marcelo Macca. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Salões paulistanos: a eclosão dos movimentos de vanguarda

Os salões paulistanos, uma espécie de ponto de encontro onde políticos, escritores, artistas e membros da oligarquia paulistana se reuniam, foram locais imprescindíveis para a culminação do Modernismo em São Paulo. Criados na Belle Époque, pela elite paulistana, os salões, inspirados nos salões franceses, representavam espaços propícios para a divulgação de textos inéditos, conferências sobre a arte moderna, recitais e exposições. A respeito da constituição desses espaços, Márcia Regina Jaschke Machado salienta que

Esses eventos, que começaram a ser promovidos no Brasil no período do Império, consagraram-se na Belle Époque e foram aos poucos se extinguindo no final da década de 20. Os salões, em seu apogeu, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, eram promovidos por membros da alta burguesia, que disponibilizavam a própria residência para a recepção de um seleto grupo de convidados formado por nomes influentes da alta sociedade, políticos e intelectuais. Era uma oportunidade para ostentar luxo e poder, por parte daquele que recebia, e uma maneira de confirmação de status para os escolhidos para freqüentar essas reuniões. (MACHADO, 2012, p.22).

Um salão que se enquadra perfeitamente nessa descrição é o Villa Kyrial, consolidado durante a Belle Époque no Brasil e que perdurou até o ano de 1924. Propriedade de José de Freitas Vale[1] localizava-se na Rua Domingos de Moraes, nº 10, no final da Avenida Paulista. O primeiro Ciclo de Conferências desse salão aconteceu no ano de 1914 e foi subitamente interrompido pela primeira Guerra Mundial, porém nos anos de 1921 a 1924 foi dada continuidade a outras conferências. Dessa forma, esse ambiente engajado com a arte moderna auxiliava sua concretização, pois como ressaltou Márcia Camargos

Funcionando como centro de convívio e tomada de decisões – verdadeiro sistema de poder informal gerido por uma elite restrita e entrelaçada –, esse salão contribuiu para configurar o campo intelectual do período. E, num movimento dialético, também abrigou tensões que não se fecharam no horizonte do seu espaço, dando ensejo à eclosão de movimentos de vanguarda, como a Semana de 22. (CAMARGOS, 2001, p.16).

Além do Villa Kyrial, havia também o salão da avenida Higienópolis, propriedade de Paulo Prado; o salão da rua Duque de Caxias, sob os cuidados de Dona Olívia Guedes Penteado; e o salão na alameda Barão de Piracicaba, promovido por Tarsila do Amaral. Foi com a “proteção desses salões que se alastrou pelo Brasil o espírito destruidor do movimento modernista. Isto é, o seu sentido verdadeiro específico” (ANDRADE, 1974, p.263) de romper com as regras impostas pelas escolas literárias do passado e construir um movimento capaz de representar a cultura brasileira.

Além das reuniões realizadas nesses salões, é importante destacar também as reuniões que aconteciam em outros lugares que não eram exatamente espécies de salões, mas que apresentavam similar importância para a efetivação do modernismo no Brasil. Na casa do Mário de Andrade, situada na Rua Lopes Chaves, aconteciam reuniões semanais, onde agrupavam-se um seleto número de artistas que discutiam, exclusivamente, assuntos relacionados à arte moderna. Ainda nesse espaço reservado, os artistas sentiam-se mais à vontade para expor ideias, além de dedicarem-se aos assuntos de cunho literários, não se dispersando, portanto, para outras abordagens e atividades corriqueiras ou até mesmo banais[2].

Diante desse contexto de encontros assíduos entre artistas e intelectuais, na maioria das vezes financiados pela aristocracia paulistana, os jovens modernistas viveram durante “uns oito anos, até perto de 1930, na maior orgia intelectual que a história artística do país registra” (ANDRADE, 1974, p.238).

Vale ressaltar também que além dos salões havia o Pensionato Artístico que investia na formação intelectual dos jovens artistas, oferecendo-lhes bolsas de estudos no exterior; e o espaço da imprensa, um meio de propagação primordial para dar voz aos modernistas. Alguns jornais como O Pirralho, o Jornal do Commércio, Correio Paulistano, A Gazeta, foram significativos para o acontecimento da Semana, tendo em vista que em algumas colunas desses jornais, que circulavam antes de 1922, continham artigos que propagavam o movimento modernista. Isso era mais um privilégio dos artistas de 22, que tinham, além dos salões da alta burguesia, voz no Correio Paulistano e apoio do Governo de São Paulo.

No meio deste ambiente de excitação de ideias modernistas, surgia nas reuniões, almoços e encontros, a iniciativa de expor em São Paulo a nova arte que se firmava no Brasil. Consequentemente, encontramos na história da literatura brasileira múltiplas informações que intercalam fatos pessoais da vida de alguns artistas empenhados com a arte moderna e o surgimento da ideia de realizar uma Semana de Arte Moderna na cidade de São Paulo. Dessa forma, destacamos que, de acordo com Menotti Del Picchia (1992), tudo se tornou possível graças às conspirações feitas por Oswald e Mário; já Raul Bopp afirma o seguinte:

…reuniam-se, num salão do Automóvel Clube, Paulo Prado que ficou sendo o personagem central dessa iniciativa, Oswald de Andrade, Menotti, Di Cavalcanti e Brecheret, para planejarem, concretamente, a Semana de Arte Moderna em São Paulo. Em vez da campanha modernista ficar centralizada numa livraria, decidiu-se conduzi-la em ambiente de maior amplitude, para alcançar uma repercussão adequada. (BOPP, 2012, p.31)

Ainda sobre esse mesmo assunto, Mário de Andrade afirmou que não se sabe de quem partiu a ideia de realizar o evento, afirmou que dele não foi, mas certifica que Paulo Prado foi o grande financiador, desembolsando 847 mil-réis pelo aluguel de três diárias no Teatro Municipal. Mas ainda,

… há quem diga que a semana de 22 só aconteceu devido a um simples acaso do destino, a um feliz encontro entre dois opostos que se atraem e se completam. Sem guardar o menor parentesco, os dois Andrades, Mário e Oswald, numa fusão química de impacto, teriam funcionado como catalisadores de uma tendência que se esboçava no cenário do pós-guerra. Dotados de estilo, personalidade, extração social e atitude em tudo inversos, os Andrades conheceram-se em 1917, quando Oswald foi a um recital no Conservatório Dramático e Musical, na avenida São João, 269, do qual Mário era professor. Juntos dinamizaram e deram vida à constelação que se formou em redor deles (CAMARGOS, 2002, p.68).

Por fim, chegou-se o ano de 1922. No mês de fevereiro, entre os dias 13 a 17, aconteceu a Semana de Arte Moderna, com manifestações inovadoras que tinham como propósito renovar o campo artístico e literário. A programação da Semana contava com exposições (por volta de 100 obras) e sessões literário-musicais que aconteciam à noite, frutos de projetos, conversas, planos e idealizações dos “sonhadores” jovens modernistas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Mario de. Aspectos da Literatura Brasileira. 5ª ed. São Paulo: Martins, 1974.

BOPP, Raul. Movimentos modernistas no Brasil: 1922-1928. Apresentação de Gilberto Mendonça Telles. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012.

CAMARGOS, Marcia. Villa Kyrial: crônica da Belle Époque paulistana. São Paulo: SENAC, 2001.

DEL PICCHIA, Menotti. A “Semana” revolucionária. Campinas, SP: Pontes, 1922.

MACHADO, Marcia Regina Jaschke. O Modernismo dá as cartas: circulação de manuscritos e produção de consensos na correspondência de intelectuais nos anos de 1920. Tese de Doutorado. São Paulo: USP, 2012. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8149/tde-22102012-122149/pt-br.php.

[1] De acordo com Márcia Camargos (2001), José de Freitas Vale foi poeta simbolista, professor de francês e auxiliava alguns jovens talentosos, como Anita Malfati e Victor Brecheret, por meio de bolsas patrocinadas pelo governo. Na política assumiu cargos como deputado estadual e senador estadual.

[2] Estas informações foram retiradas do depoimento do próprio Mário de Andrade em “O Movimento Modernista”.

“Quando o amor recupera a visão”

A relação entre cidade e literatura é muito debatida contemporaneamente. No ensaio A cidade, a literatura e os estudos culturais: do tema ao problema, Renato Cordeiro Gomes (1999) ressaltou que a relação entre Literatura e experiência urbana intensificou-se na modernidade, pois a cidade tornou-se uma paisagem inevitável, e mesmo quando não incorporada nos textos, faz-se presente pela sua ausência que deixa marcas como a violência, a solidão, entre outros.

Medo, violência e poesia

O poeta Fabio Weintraub, paulistano nascido em 1967, publicou alguns livros de poesia cuja temática principal é a cidade. Em Novo endereço, livro publicado em 2002, o eu-lírico descreve habitantes que se encontram perdidos, arruinados e à margem da sociedade, tentando encontrar um espaço e motivo para viver.