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Author: Wanda Camargo

Pequenas Tiranias

O filósofo social francês Montesquieu formulou no século XVIII o princípio da separação de poderes, base da constituição da maioria dos Estados modernos do ocidente. Tal conceito deriva da democracia ateniense, e preconiza que o Estado deve ser constituído por três poderes – legislativo, executivo e judiciário – que atuem separadamente, de forma independente e em harmonia, com o objetivo de evitar poder concentrado em uma única pessoa ou grupo. Poder absoluto e sem limites inevitavelmente gerará abuso.

Vemos com frequência as péssimas consequências de empresas públicas ou privadas agirem sem o controle da lei, e isso se aplica também a pessoas em posições ou cargos em que se sintam “empoderadas” ou inexpugnáveis.

Um caso recente é o de uma promotora do estado da Bahia, que impôs a várias escolas municipais do sertão baiano servirem apenas refeições veganas a seus alunos em pelo menos dois dias da semana. O Veganismo é uma prática de restrição de qualquer alimento de origem animal, e segundo consta, a promotora é ativista desta causa. O assunto é complexo, vegetarianos e veganos defendem sua opção alimentar com argumentos que vão desde os supostos malefícios que o consumo de carne causaria até relatos horripilantes (e muitos infelizmente verdadeiros) sobre como animais são criados e abatidos.

De outro lado, muitos nutricionistas e pediatras consideram que a retirada da proteína animal da dieta, principalmente de crianças, é preocupante, não havendo substituto em custo viável à disposição. Há também uma questão cultural, a região em tela é rural, e tem parte de sua economia advinda da criação de caprinos e ovinos. As crianças se alimentam normalmente da carne e derivados destes animais, e não aceitam facilmente uma substituição.

Poderia ser dito que são apenas dois dias da semana, porém serão dois dias em que a alimentação fornecida não atenderá nem mesmo à legislação sobre a merenda escolar, que não permite a substituição de alimentação já testada pela que pode ser considerada experimental. E fala-se que o objetivo é chegar aos 100% de oferta de alimentos sem carne e ovos.

A promotora tem uma crença legítima, e como adulta pode consumir ou não determinados alimentos, não pode, no entanto, impor sua crença no uso de seu cargo. Não há lei que impeça as pessoas de comer carne, não há lei que as obrigue a comer apenas vegetais, não há lei que as impeça de comer apenas vegetais. O cargo público tem, ou deveria ter, limitantes, as escolhas pessoais do ocupante não devem influir em seu trabalho; sua religião, seu partido político, seu time do coração, sua dieta alimentar, são questões que só a ele dizem respeito e não podem jamais interferir em suas decisões profissionais. Infelizmente não é o que acontece.

Num cúmulo de arrogância e despreparo, quando foi questionada sobre os alunos que preferem que a merenda tenha carne, a promotora declarou “que comam em casa com o seu dinheiro, porque aqui a gente está falando de recurso público”. De fato, os recursos para a merenda escolar são públicos, e é indecente que se proponha usa-los para firmar posição acerca de uma filosofia alimentar que contraria a maioria dos seus usuários.

Supõe-se que determinadas práticas impliquem necessariamente em superioridade moral, é o caso do ciclismo, do não tabagismo, do vegetarianismo, do uso de roupas de brechó, da proteção aos animais. A maioria delas é decorrente de decisão pessoal meritória, vem ao encontro da preservação da saúde física e mental dos praticantes, e representa inegável mérito social.

Entretanto, a superioridade moral automática é algo contestável: vemos com frequência ciclistas em atitudes de desrespeito com os demais que competem com as dos piores motoristas, e não esqueçamos que Hitler era vegetariano, não fumava e gostava de cachorros, mas isso não exime um sequer dos horrores que seu regime político praticou.

Entre Macunaímas e Unicórnios

Bill Gates afirmou certa vez que se precisasse de alguém para fazer um trabalho urgente contrataria uma pessoa preguiçosa, pois esta certamente descobriria o jeito mais rápido de fazê-lo. Evidentemente, ele não se referia à preguiça paralisante que até impede a ação, falava de pessoas que preferem evitar o excesso de trabalho inútil, mental ou físico, e dirigem-se expeditamente às soluções mais práticas, pulando etapas desnecessárias.

O modernista Mário de Andrade criou um personagem dito símbolo do caráter, ou da falta de caráter, brasileiro: Macunaíma, baseado em lendas indígenas, concentra as qualidades da malandragem, da picardia, da criatividade e, por fim, da preguiça que nos definiriam. Desde sua publicação em 1928 a obra tem sido incompreendida, como se fosse um veredito fatal e não uma alegoria.

Outro cultor da “preguiça” é o sociólogo italiano Domenico de Masi, autor de “O ócio criativo”, em que defende a necessidade e benefícios do lazer para a criatividade e realização pessoais, sem apologia ao “não trabalho”, e sim ao equilíbrio entre trabalho e ócio. No entanto, a moral capitalista, exacerbada pelas vertentes da Reforma protestante e magnificada pelo sucesso material inegável que obteve, parece ver o ser humano como máquina de trabalho, com a maior produtividade possível.

O amor ao trabalho, levado ao paroxismo até em detrimento da família e do lazer parece ser a grande virtude hoje, os julgamentos morais realizados pelo senso comum colocam a preguiça quase como uma deformação do caráter, embora algumas vezes, como no caso do Jeca Tatu, personagem mítico, censurado por todos, venha a ser descoberto que sofria de uma verminose causadora da falta de entusiasmo pelo trabalho.

Assim, distinguir preguiça e falta de condições de saúde é essencial, perceber quais as condições psicológicas do exercício profissional e suas consequências, já que muitas pesquisas de patologias mentais resultante do trabalho apontam para um sentimento crônico de desânimo, de apatia, de despersonalização em algumas áreas, síndrome particularmente notável nos trabalhadores encarregados de cuidar de idosos, de crianças, e principalmente daqueles que não irão sarar como muitos dos sofredores de desordem psíquica. Dentre os profissionais cuidadores, o professor tem um certo destaque, já que compõe no tecido social o futuro de milhares de crianças e jovens: esperamos dele ânimo, alegria, determinação e juventude de espírito.

No entanto, temos visto homens e mulheres desanimados, abatidos, sem mais vontade de ensinar, como se já houvessem desistido. Possivelmente não serão preguiçosos, e sim deprimidos, queixosos até de detalhes insignificantes sobre o magistério, vendo, inconformados, alunos com inquietações e rebeldias próprias da idade. Muitos deles estão doentes, sem um tempo ou recurso financeiro para lazer, pressionados por familiares e amigos a serem mais bem-sucedidos, sem espaço para autocuidado. Usufruir um tempo para si, ficar sem fazer nada, nos foi incutido em nosso processo de formação como contrário aos valores sociais, sendo fundamental estruturar atividades em acordo com certos padrões no tempo cotidiano, como se todo ele precisasse estar voltado à produtividade financeira ou obtenção de prestígio.

A percepção de utilizar tempo de maneira criativa depende do valor dado às atividades culturais como leitura, teatro, cinema, ou familiares como festas e reuniões, lazer em parques ou prática de esportes, e a necessidade de descanso emocional; porém, no tempo ocioso temos exercido um consumismo desenfreado, que deteriora e mercantiliza seu significado. Escolas preparam para a importância da profissão e uma vida adulta moldada pelo trabalho, mas muitas vezes esquecem da orientação para o equilíbrio existencial, para a inventividade e a inovação, o tempo da preguiça.

MORAL E BONS COSTUMES

Rio de Janeiro: o prefeito manda recolher revistas na Bienal do Livro por “conteúdo ofensivo”.
Porto Alegre: a presidente da Câmara Municipal censura uma exposição de cartuns políticos.
Salvador: um vereador tenta proibir a tradicional realização de desfile de carnaval na manhã da quarta-feira de cinzas, por “ofender a religião”.
Algum lugar: um vereador licenciado do Rio de Janeiro publica post contra a democracia, e diz que foi mal interpretado pela “mídia canalha”.

Nenhuma dessas medidas teria possibilidade de prosperar por ofenderem o bom senso e afrontarem a Constituição. Seriam seus autores insanos? Talvez, mas há método na sua loucura, nenhum deles é ingênuo porém grande parte de seus eleitores e seguidores é. Divulgar sandices como a planura da Terra, atribuir a autoria das letras dos Beatles ao filósofo Theodor Adorno (que nunca praticou astrologia, a propósito), elogiar ditadores, ditaduras e torturadores, tentar impor uma visão obscurantista do mundo; tudo isso impressiona os incautos e rende votos e “likes”.

“O fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante fascinada” (Engenheiros do Hawaii).
Os novos candidatos a Savonarola, além de geralmente serem também candidatos a outras coisas, dizem-se guardiães da moral e dos bons costumes, como se estas práticas necessitassem de paladinos quando sinceras; geralmente não são. Imoral é a existência de crianças passando fome, dormindo na rua, sendo exploradas sexualmente; imoral é que os assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes, e muitos outros, permaneçam impunes; mau costume é roubar dinheiro público; mau costume é a prática de nepotismo; mau costume é destruir o meio ambiente e o futuro do país; mau costume é explorar a boa-fé do próximo.

O mais chocante nos fundamentalismos é a sua essência mais profunda, a crença de que não basta a liberdade de crer no que se queira e praticar os atos que desejar, desde que dentro da lei. O fundamentalista apenas se sentirá seguro em sua doutrina religiosa ou política se conseguir impô-la, pela violência se necessário, a todos os demais. É muito diferente do prosélito que abre mão de seu descanso nos finais de semana para tentar convencer, pacificamente, seus vizinhos da verdade em que acredita, embora muitas vezes os vizinhos não o acolham exatamente com paciência.

Uma batalha enfim vencida pela sociedade foi a aprovação da Lei que instituiu o divórcio no Brasil, em 1977. Durante as escaramuças que a antecederam, grupos conservadores bradaram aos Céus e à Terra que o país inteiro mergulharia no inferno e na licenciosidade se adotasse uma legislação praticada na maior parte do mundo, e que tratava de uma questão de foro íntimo das pessoas.

De nada adiantava o argumento de que o divórcio seria apenas permitido, não obrigatório, o importante parecia ser o ato de controlar a vida familiar dos outros; e são as mesmas pessoas que hoje preferem ignorar feminicídios e outras agressões em família, dizendo cinicamente que “em briga de marido e mulher ninguém põe a colher”.

O mesmo ocorre com diversas outras questões ainda controversas, liberação da maconha para fins medicinais, permissão de aborto em determinadas situações, casamento entre pessoas de mesmo sexo; evidentemente não ocorre a nenhum dos defensores dessas medidas obrigar sua prática a quem não o deseje, mas a tentação de controlar a vida das pessoas é muito forte.

No momento em que a cultura e a educação parecem ofender a muitos, em que se tenta cingir a educação a um gueto de onde “não incomode a ignorância”, precisamos ter o máximo empenho para preservar estes valores, não apenas no interesse de quem os reconhece, mas também pelo bem e independência presente e futura de todo o nosso país.

Consumo e Educação

Certamente na sociedade contemporânea o consumo de bens, serviços e produtos tornou raros os objetos que se oferecem isolados, sem o contexto de outras circunstâncias significativas, ou seja, consumimos isso em função daquilo; e normalmente para adquirimos mais projeção social e imagem poderosa.

Cultuamos e admiramos o novo, o que provoca o surgimento de objetos em grande velocidade, e chamamos a isso “sociedade do desperdício”, pois pelo novo dilapidamos, gastamos e jogamos fora aquilo que nem terminamos de entender e saber utilizar, como é o caso de novos celulares, substituídos bem antes de utilizarmos com eficiência os mais antigos. Outro nome para este fenômeno é Sociedade de Consumo, aquela cujo prazer está ostentação, na riqueza, no desperdício. Nossas roupas vão mudando a cada ano, e cada estação tem tendências diferentes, artifícios que persuadem o consumidor a comprar outros produtos, de certa forma moldando os próprios processos sociais, e até mesmo o consumo da cultura é atropelado pela propaganda e modismos.

Evidentemente o sistema educacional não pode escapar desta engrenagem, pois este também constitui fator de singularização de pessoas e grupos, é criação de uma certa comunidade, reflete seus valores, suas atitudes e formas de comportamento, e define os parâmetros do que é desejável ou não para esta sociedade específica, e até o que ela denomina arte. O consumo de massa determina o desejo dos jovens, e o novo, seja ele qual for, tem a predominância da sensação de que o mundo é ilimitado em seus recursos, e poderemos consumir desenfreadamente.

 

As motivações e atitudes dos mais jovens, julgadas por eles como pessoais e únicas, revelam normalmente serem consequência e expressão das respectivas vivências familiares através das gerações. A história vivida de forma geral corresponde à história genealógica, pois é ali que adquirimos hábitos alimentares, de vestuário, de diversão, de convivência social, que levaremos às escolas e mais tarde ao mundo do trabalho.

O desejo é a mola propulsora da vida, e certamente as mudanças sociais relevantes deveriam ser despertadas pela escola, dado que as grandes transformações dificilmente se originam de grandes acontecimentos – talvez com exceção dos profundamente dramáticos -, mas sim de pequenas ações cotidianas, simples e persistentes. Se a escola deve despertar no aluno a capacidade de compreender e atuar no mundo em que vive, uma das primeiras noções deve ser a capacidade de refletir sobre suas reais necessidades, a diferença entre seus desejos e seus reais direitos.

Aprender a respeitar normas escolares, as regras e leis comunitárias é repensar o mundo. O efetivo aprendizado escolar é relacionado a muitos fatores, e oscilamos entre o excesso e a total carência dentro dos ambientes escolares, dependendo da região em que se instalam. Mas é inegável que mesmo nas comunidades de baixo poder aquisitivo o consumo está preenchendo uma função acima e além daquela de satisfação de necessidades materiais e de reprodução social, tendo adquirido na sociedade contemporânea uma dimensão e um espaço que provoca exibições nas mídias sociais até de comportamentos ilícitos e perigosos, pelo desejo de fama, de demonstração de poderio econômico ou social.

Um certo despego da cultura tradicional acelera o processo, pois não mais desejamos sobressair pelo conhecimento, e sim pela posse de bens materiais e acesso a tudo o que for desejado pela maioria. A educação trabalha na transmissão de categorias tão distintas como literatura, herança cultural, música, esportes, estilos de lazer. Num país de profundas desigualdades muito raramente ela tem efetivamente diminuído as diferenças e promovido inclusão, pois apenas uma boa qualidade instrutiva poderia alcançar estes objetivos.

Segurança nas Escolas e Comunidades

É lamentável que certas escolas de ensino fundamental ou médio, instaladas em áreas distantes e de entorno com população carente, sofram muitas vezes sérias consequências da insegurança de toda a região. São instituições fechadas por grades e cadeados, em que não apenas os alunos, mas também professores e funcionários estão submetidos a um eterno receio de assaltos e violências, tornando o período escolar desagradável para uma comunidade que, como todas as outras e talvez um pouco mais que algumas, precisa do sistema educativo como chance de melhorar suas próprias condições econômicas e sociais.

Políticas com o objetivo de prevenção da violência criminal não costumam ser políticas estruturais, de longo prazo, que atuam sobre as macroestruturas socioeconômicas do país, e desmerecemos aquelas tópicas, que combatem a inercia: “enquanto não eliminarmos as grandes mazelas fundamentais da sociedade brasileira, nada se pode fazer para melhorar a segurança”, assumido por aqueles cuja crença é de que ou se faz tudo, ou nada é possível fazer; ou erradicamos as causas todas do crime, ou estaríamos condenados a enxugar gelo.

Negando a viabilidade de soluções a curto prazo, conduzimos a população à descrença e frustração, fatores de risco para que prosperem propostas descabidas e autoritárias de combater violência com mais violência, armando a população, cercando favelas, erguendo mais muros, trocando a segurança pública pela privada, incentivando a brutalidade, a pena de morte, o justiçamento.
Pesquisas bem realizadas mostram, no entanto, que estabelecer ações públicas de natureza preventiva com resultados rápidos, é eficiente mesmo não atuando sobre causas estruturais do problema.

Ou seja, agir de modo eficiente, rapidamente e mobilizando poucos recursos, sobre o fato a ser modificado pode representar um alento àqueles que necessitam soluções; incluindo aí a prevenção. Mesmo que políticas preventivas não promovam mudanças estruturais e não impeçam o retorno do problema, podem salvar vidas, reduzir danos e sofrimentos, equilibrando as pessoas e instaurando melhores padrões de comportamento.

Isso tem consequência a médio prazo, pois práticas de crimes afastam comércio, serviços e empresas da região em que se tornam frequentes, e este fator contribui para o aumento do desemprego, que por sua vez amplia as condições para o crescimento de certas formas de criminalidade, beneficiadas pela sensação de impunidade, fechando um ciclo perverso em torno deste eixo. Até porque o contrário é absolutamente verdadeiro, quando reduzimos a criminalidade atraímos mais pequenos negócios cujos donos, sentindo-se seguros, oferecem mais empregos.

Agir correta e rapidamente sobre a propagação de crimes reduz o número de vítimas, o risco, a sensação de insegurança, mesmo que não atue sobre cerne exato do problema; aumentar fiscalização, adequar áreas de lazer para a comunidade, oferecer equipamentos esportivos e palestras em centros comunitários – que podem ser feitas por instituições de ensino superior como parte de suas atividades extensionistas – versando sobre saúde, empregabilidade, empreendedorismo, segurança, Lei Maria da Penha, qualidade de vida e muitas outras, podem ser valiosos auxílios.

É preciso evitar a todo custo que o crime se torne causa do crime, e isso pode ser auxiliado pela melhoria financeira e maior preparo para as diversas esferas da vida social. Isso prepara o caminho para a perda de relevância sobre a distinção entre políticas preventivas estruturais e localizadas, pois ambas são importantes, não se justificando sacrificar uma em detrimento de outra, o que apenas contribui para o imobilismo.