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Author: Wanda Camargo

FAMÍLIAS & FAMÍLIAS

Há pouco mais de cem anos muitas famílias se constituíam em grupos tribais, sob a liderança de um patriarca ou matriarca e formadas por esposas ou maridos, irmãos, filhos, netos, sobrinhos, agregados, todos habitando um mesmo espaço e assumindo sem discutir seu lugar na hierarquia. Tal arranjo ainda é comum em alguns países, mas foi substituído no ocidente pela família nuclear composta por um casal e seus filhos; ainda que mantendo laços com o conjunto familiar mais próximo.

Na dinâmica que caracteriza as relações humanas estamos vivendo um momento que, de certa forma, marca retorno a algo parecido com as “tribos”. Entre os mais pobres não houve grandes mudanças, as famílias sempre se mantiveram associadas por questão de sobrevivência; quando filha ou filho se casa não falta lugar para mais um, e até mesmo para a construção de um “puxadinho” nos fundos do terreno ou na laje.

Na classe média torna-se comum que filhos continuem a morar com os pais além da idade em que, noutros tempos, sonhariam em ter sua própria casa e liberdade. Moram com namorados e namoradas no lar paterno/materno, têm filhos que são criados com a parceria encantada dos avós, até arriscam a operação doméstica de startups.

Isso deve-se à liberação de costumes, não há mais impedimento para ser livre na casa dos pais, e às demandas materiais cada vez maiores para estudos num mercado que exige especialização, para viagens num mundo que precisa ser desvendado, para todas as atividades de sociabilização que são indispensáveis na imensa aldeia global que perde fronteiras.

Isso evidentemente influencia o processo de amadurecimento, maturidade é decorrência do enfrentamento das dificuldades normais da vida, e uma vida excessivamente protegida raramente produz pessoas sensatas.

Há poucos anos um dos maiores indicadores da passagem para a idade adulta era constituído pelo conhecimento, ou seja, o preparo para o mundo do trabalho e as responsabilidades familiares. Em tempos de internet com todo o tipo de informação disponível, o retardamento da permanência na casa dos pais, ou o seu oposto, a entrada prematura na vida profissional, tem criado seres híbridos em termos de discernimento, de ponderação ou visão social.

“Cena de Família” (1891) de José Ferraz de Almeida Jr. – Pinacoteca de São Paulo.

No Brasil a própria insegurança do mercado de trabalho e as sucessivas crises políticas produzem alterações culturais já inevitáveis pelo avanço tecnológico e às quais o sistema educacional tem dificuldade de responder.

Acrescido a isto, o próprio fato de que crianças e jovens são hoje encarados como consumidores potenciais, e que com as novas tecnologias desenvolvidas depois da Segunda Guerra Mundial, uma série de produtos têm sido direcionados a eles, em diferentes segmentos – entretenimentos, jogos, vestimentas, alimentos, livros e revistas, entre muitos outros, fica mais evidente ainda a dicotomia entre mundo adulto e juvenil.

O próprio conceito de infância tem sido reelaborado pelos novos conhecimentos médicos, psicológicos, sociais e jurídicos, e é complexo definir as várias modalidades de “meninices” existente entre os diversos povos ou classes sociais.

Algumas sociedades parecem estar tratando mais igualitariamente rapazes e garotas, em outras as discrepâncias de gênero parecem aprofundar-se. Mídias locais acentuam tais discursos e os propagam e moldam formas culturais específicas de entender juventude e maturidade distintamente.

Em muitos países a saída do jovem de casa para estudar, normalmente em universidade distante, marca o início de sua vida adulta, ele sabe que poderá contar cada vez menos com o apoio material de pais que geralmente iniciaram uma poupança ou similar quando de seu nascimento para pagar a faculdade, e sentem que seu dever foi cumprido com este ato.

Nós brasileiros, para o bem e para o mal, somos menos frios com relação a isto, sentimo-nos responsáveis por nossos filhos quase até que tenham netos, mas em compensação raramente temos a previsão de economizar para seus estudos.

IDENTIDADES MUTANTES…

Embora nem todas as pessoas tenham um mesmo grau de acesso aos recursos tecnológicos, e estes possam até aumentar a desigualdade social, é evidente que sofremos alterações na forma de vida e atitudes em função da tecnologia.

A estratificação resultante das novas mídias, ou seja, as desigualdades resultantes do seu uso nas diversas classes sociais de cada região – algumas praticamente alijadas delas – produz aquilo que denominamos hoje de “lacunas de conhecimento”, pois países mais ricos, e principalmente suas classes sociais mais altas, tem acesso facilitado às modalidades mais sofisticadas de trabalho e aos novos empreendimentos.

Pessoas conectadas em rede tem mais facilidade não apenas às informações, mas a tudo que decorre destas: mais oportunidades de emprego, mais segurança, saúde, lazer, entre outros itens que trazem conforto e inovação na rotina diária.

No entanto, tudo isso se altera também na dependência da estrutura das personalidades envolvidas, e percebe-se hoje que as identidades pessoais têm sofrido alterações profundas se estamos off-line ou online: jovens e crianças estão desenvolvendo duas formas de identidade, inéditas em nossa cultura até o momento.

Seres humanos sempre apresentaram diferenças sensíveis entre seu comportamento privado e público, pois a sós temos um certo padrão de comportamento que nem sempre se repete quando acompanhados, já que as normas sociais interferem significativamente neste último caso. Comunidades e até povos podem ser mais expansivos ou introvertidos em comparação com outros, é o caso, por exemplo, da emotividade brasileira versus a contenção associada a europeus ou orientais.

Se o meio “permite” mais contato físico, como abraços ou demonstrações explícitas de afetividade, mesmo pessoas mais tímidas – no plano pessoal – tendem a soltar-se um pouco mais, socialmente falando. E é interessante verificar que muitos estrangeiros, sisudos em seus países de origem, se “contaminam” com a alegria brasileira.

Ilustração de Tomek Sętowski

Isso sempre existiu, mas vemos hoje o desabrochar de um controle bem mais difícil sobre nossas identidades sociais, já que nossas características pessoais podem ser extremamente passíveis de serem alteradas quando estamos online, e o tipo de vida que vivemos pode ser classificado como digitalmente mediada.

Claro que alterar nossos avatares pode modificar a forma como somos percebidos pelos demais, e isso certamente provoca confusão intima entre impulsos autênticos ou cultivados, até o ponto em que sejamos incapazes de discernir entre um e outro; e isso justifica inclusive o uso da internet para divulgar dados extremamente pessoais, que possivelmente trarão dissabores ou mesmo complicações judiciais.

Nestes casos estão aqueles que enviam nudes, declarações racistas, detalhes de renda ou atividades de lazer, xingamentos, machismos, homofobias, agressões de vários tipos, como se estivessem falando apenas entre amigos de estrita confiança.

Tais comportamentos, mais visíveis quanto mais jovens são os usuários das redes sociais, infelizmente é visto também entre adultos, numa época em que ninguém quer “crescer”, ou seja, amadurecer; e assim subestima-se o risco corrido em tempos de violência extremada, que muitas vezes extrapola o verbal e é explicitada no plano físico.

Observando crianças e jovens no ambiente escolar, é fácil verificar que as relações custo-benefício de alguns de seus procedimentos não estão nos universos emocionais, e que o desejo de aprovação social é preponderante a qualquer outra perspectiva em seus atos. Colocar-se com intimidade, oferecer o prazer do compartilhamento, concordar com o outro em suas mais estapafúrdias declarações, sentir-se membro daquele grupo parece cegar a autocrítica.

A instabilidade da identidade pessoal produzida pela enorme insegurança de quem pode ou não ter acesso às postagens – já que amigos compartilham com outros amigos – tem criado hoje identidades sociais assentadas em premissas falsas, e as agressões crescem.

 

NÃO É FAVOR….

Por muito tempo, até hoje incrivelmente, boa parte das pessoas consideraram que a ajuda que porventura prestassem aos “desfavorecidos” seria um gesto de grandeza e caridade, que lhes daria pontos em alguma contabilidade celeste, com a devida vênia aos verdadeiramente solidários.

O atendimento social esteve por séculos, quando existiu, a cargo da liberalidade dos ricos e poderosos. Dentre as despesas previstas para as senhoras da aristocracia contavam-se as “esmolas”; hospitais e orfanatos eram construídos e mantidos por ordens religiosas ou pelos soberanos. É evidente que isso trazia algum benefício aos necessitados, porém a questão central residia, e reside, na visão de que os pobres eram devedores eternos da bondade que recebiam.

A evolução na interpretação das obrigações do Estado, que é mantido pelos recursos cobrados direta e indiretamente de toda a população, levou à constatação de que justiça social não é de maneira nenhuma um favor prestado, é dever.

“Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas mudam o mundo” (Paulo Freire)

Mas prevalece o vício de considerar que quando um político aprova uma lei para a concessão de alguma benesse à população está distribuindo o seu próprio dinheiro, e embora muitos deles acreditem piamente que o dinheiro público lhes pertence, isto não é verdade. Servidores públicos, com algumas exceções, tendem a pensar que o atendimento que prestam aos usuários de suas repartições é uma doação pessoal, algo que depende de sua boa vontade e não de uma obrigação funcional pela qual são remunerados.

Quando as pessoas necessitam marcar procedimentos no Sistema Único de Saúde, deparam-se com uma burocracia que parece considera-las suplicantes e não cidadãos no exercício de um direito; ressalvadas as dificuldades materiais e logísticas que o SUS de fato enfrenta, é verdadeiramente absurdo que cirurgias sejam marcadas em prazos que chegam a meses e remarcadas uma ou mais vezes sem considerar que os pacientes e suas famílias se prepararam para o evento naquela data, o que é particularmente cruel e difícil no caso dos mais pobres.

Argumenta-se que algumas pessoas não têm paciência para esperar sua vez de serem atendidas, fala-se que muitos atendentes são até agredidos, reclama-se que “o povo está muito arrogante e só diz que tem direitos”. Tudo isto tem um pouco de verdade, mas, agressões à parte, é compreensível que a população esteja irritada e inquieta com a maneira com que é tratada e, apesar de alguma arrogância assumida até como defesa, o povo tem mesmo direitos que devem ser respeitados.

E um de seus maiores direitos é, indubitavelmente, o de uma educação de qualidade, que estamos longe de oferecer a todos indistintamente: a discrepância absurda nos atributos do ensino entre escolas, não apenas entre as públicas e as privadas, mas entre elas mesmas dependendo de suas localizações periféricas ou centrais, e principalmente em comparação àquelas de outros países, ofende o direito da camada mais desassistida da população.

Em 1517 Martinho Lutero pregou suas 95 teses na porta da Igreja do Palácio de Wittenberg.

A verdadeira revolução religiosa de Lutero e Calvino centrou-se na ideia de que a mediação entre o homem e a divindade deveria ser feita por cada pessoa, sem interferência de sacerdotes. Com isto, os cultos abandonaram o intransponível Latim e passaram a ser feitos em vernáculo, a língua local dos fiéis, compreendida e falada por cada povo. Passou-se a recomendar que as pessoas mesmas lessem a Bíblia traduzida em seu idioma, e dela tirassem ensinamentos e consolo; como consequência, nos países da Reforma a alfabetização foi tratada como necessidade para toda a população, o verdadeiro início do ensino público e obrigatório.

Esses países atingiram níveis razoáveis de progresso e bem-estar social antes dos demais, pois ensino público de qualidade é dever do Estado, não é favor nem concessão. Nenhuma nação supera a pobreza e a iniquidade se a maioria de sua população não tiver acesso a, pelo menos, oito anos de escolaridade gratuita de alta efetividade.

CHEGAMOS AO LIMITE?

Numa visão simplista, a escravidão no Brasil foi apenas aquela monstruosidade que se cometeu por séculos contra índios e negros, e que teria sido “abolida” em 1888; isso é uma face dolorosa e vergonhosa de parte da verdade, mas está longe de ser toda a verdade. A pessoa escravizada não é somente aquela privada de liberdade e submetida a trabalhos forçados, é todo ser humano de quem se rouba a dignidade e os direitos fundamentais.

Adultos analfabetos, crianças fora do sistema escolar, moradores de rua, violência, ausência de saneamento e inúmeras outras mazelas, aderidas ao horror diário que chega de Brasília, com negociações imundas para a manutenção da imunidade/impunidade de figurões abaixo de qualquer suspeita, deveriam ter nos habituado aos absurdos que se pode cometer no exercício do poder.

Benesses, afagos, cargos, indulgências tributárias e plenárias, fatos antigos, embora tenham chegado a um paroxismo sem qualquer pudor, não nos levariam à suposição de que se fosse ao ponto de tentar restaurar formalmente a escravidão.

Foto1: Sebastião Salgado

No entanto o Ministério do Trabalho e Emprego baixou portaria que “flexibiliza” o conceito de trabalho escravo em nosso país, segundo a qual o trabalho em condição degradante, as jornadas exageradas e o trabalho forçado podem ser tolerados em uma sociedade civilizada desde que a vítima (o trabalhador) tenha concordado com isso.

Certo que grandes áreas do Brasil não são exatamente civilizadas, e pensemos no imenso poder de pressão que empresários mal-intencionados têm frente a trabalhadores pouco esclarecidos, até mesmo analfabetos, em situação de penúria – que labutarão anos a fio apenas para pagar sua própria comida e abrigo, embora estes estejam muito abaixo do que se concederia aos animais, e que mesmo neste caso caracterizariam desumanidade contra aqueles mais vulneráveis.

Agora, aquelas condições análogas à escravidão apenas se caracterizam dessa forma se os trabalhadores forem mantidos presos no local de trabalho; como se a impossibilidade de sair dele ou procurar outro emprego, sem ressarcir passagens e alimentação a preços extorsivos, já não fossem prisão não declarada. Simplificando: não havendo senzala não é escravidão, os grilhões econômicos, financeiros e o uso da brutalidade passam a não ter a mínima importância.

Outro dado absurdo: a lista das empresas envolvidas com trabalho escravo, que deveria ser levada a público no mínimo duas vezes ao ano e por determinação da área técnica do Ministério, passará a depender da “determinação expressa do ministro”. É desafiador imaginar como o ministro conseguirá tempo e competência, dentre as suas inúmeras atribuições (supomos), para filtrar as informações incômodas e determinar “expressamente” a publicação das restantes, o que provavelmente ocorrerá apenas em anos bissextos.

Foto2: Sebastião Salgado

Num país onde proliferam favorecimentos aos amigos, onde se compram votos a peso de ouro – com verbas públicas, evidentemente -, em que flagrantes explícitos de malversação do erário são apenas perseguições da mídia golpista, é fácil ver onde usamos o nariz vermelho do palhaço. Sem ofensas ao palhaço, trabalhador honesto e dedicado.

O setor agropecuário é essencial para o país, além de produzir alimentos gera divisas importantes com a exportação, e é um dos segmentos da economia que mais cria e mantém empregos formais distantes da degradação do trabalho escravo. É lamentável que alguns de seus representantes, talvez espúrios, valham-se da fragilidade de um governo pouco legítimo e em situação de pânico para tentar impor condições de trabalho indefensáveis para brasileiros.

Em meio a tanta infâmia é um consolo que possamos nos orgulhar do Ministério Público do Trabalho, dos auditores responsáveis pela área, por muitos representantes da sociedade civil e até pela Organização Internacional do Trabalho, que não dobraram a espinha e fazem o possível para evitar uma catástrofe humanitária e legal. Tudo tem limites.