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Author: Wanda Camargo

MELANCOLIA….

“Todos os dias que depois vieram, eram tempo de doer. Miguilim tinha sido arrancado de uma porção de coisas, e ainda assim, estava no mesmo lugar! Quando chegava o poder de chorar, era até bom – enquanto estava chorando, parecia que a alma toda se sacudia, misturando ao vivo todas as lembranças, as mais novas e as muito antigas, aquelas coisas bonitas que o tempo havia de sempre teimar em tirar.”

Guimarães Rosa conta genialmente, como sempre, a melancolia do menino Miguilim, e nisso descreve uma condição humana, um mal que atinge ricos e pobres. Situado entre o passado e o presente, difícil de classificar entre o somático e o espiritual, dele padecem muitos brasileiros, e, em particular, muitos jovens estudantes em nossas escolas.

Apesar de frequentemente idealizarmos um passado em que não havia poluição ambiental e estávamos mais próximos da natureza, o fato é que, na média, grande parte da humanidade vive hoje em condições materiais melhores das que jamais existiram para tantos, ainda longe da verdadeira justiça social, o acesso a alimentos, a tempo livre e algum nível de informação é uma realidade quase geral. Além das evidentes vantagens para a sobrevivência, isto resulta na fragilidade potencial para a “melancolia”.

Moços demais para serem responsáveis pelo sustento familiar, mas já sofrendo as consequências dos descalabros econômico-financeiros provocados, em grande parte, pelos equívocos políticos de nossos governantes, são os alunos das escolas públicas as principais vítimas deste mal.

Ilustração de Rafal Olbinski

Este fenômeno parece ter origem em alguns mecanismos simultâneos, manifestos em um percurso escolar mais longo e cheio de percalços, de desistências do estudo para auxiliar a família ou pelo sentimento de inutilidade dos seus esforços, repleto de avanços e recuos, ao final dos quais o estudante – quando chega a concluir seu curso, já que a evasão é imensa – descobre-se em idade social defasada em relação aos demais, quase sem poder obter alguma recompensa material ou mesmo simbólica pelo esforço de manter-se na escola.

Quando não fracassam totalmente, obterão um diploma relativamente desvalorizado, e o mais cruel é que, aparentemente, terão tido todas as chances; ou seja, seu fracasso será pessoal, e não creditado a um processo perverso que os carimba como preguiçosos ou incapazes.

É preciso considerar que desde os anos 1950 até a década de 1990, o sistema de ensino praticamente no mundo inteiro passou por uma mudança que teoricamente democratizou a instituição escolar. Se antes estudantes eram eliminados, pura e simplesmente, ao início do processo de escolarização, o que quer dizer reprovações em massa ao início do primeiro ciclo do ensino básico, em nome da crença no valor dos títulos e conhecimentos escolares passíveis de verificação pelas avaliações, hoje tal eliminação fica diluída no tempo, de certa forma provocando sua postergação para os níveis superiores da escolaridade.

Um dos exemplos, no caso brasileiro, foi a instituição da continuidade dos estudos pela não reprovação, agenda bem-intencionada porem efetivamente incapaz de sanar as causas do mau aproveitamento escolar. Sem solução para a necessidade de acréscimo de qualidade no ensino, o resultado foi apenas o de “empurrar” os alunos para os níveis seguintes, onde dificultavam ainda mais o trabalho docente, que somado à infraestrutura deficiente e uma contingência social de frequência às aulas muitas vezes exclusivamente pela merenda – quando esta não era desviada – provocou o caos em que nos encontramos hoje.

Quando observamos estes alunos em profunda melancolia, lamentamos pensar que muitos são inteligentes, criativos, poderiam aspirar melhores condições de vida e contribuir no desenvolvimento do país. Mas parecem ter desistido, em grande parte devido ao círculo vicioso infernal que deixamos ser criado na educação que lhes é proporcionada: há pouca qualidade no ensino, então pouco desempenho é cobrado, portanto a qualidade diminui mais ainda, daí a cobrança idem, etc. Até quando?

PENSAMENTO MÁGICO

No país temos muitos problemas: violência, corrupção, incompetência, impunidade, tráfico de drogas e armas; a lista é longa e parece aumentar sempre. E no horizonte surge uma solução mágica, que não é tocar um tango argentino, no entanto parecida: intervenção militar.

Como todas as mágicas, trata-se de um embuste e de um equívoco, os que sabem do que se trata e ainda assim defendem a panaceia pretendem enganar o distinto público com sabe-se lá que propósitos, os que não tem a menor ideia do que seja uma ditadura, e a pedem mesmo assim, possivelmente são jovens demais, ou adultos totalmente carentes de conhecimento da história brasileira e de outros países que passaram por esta tragédia.

As Forças Armadas têm sua missão e seus deveres, nem uma nem outros incluem governar ou salvar o país de si mesmo, comandar uma tropa, uma divisão ou exército, é processo que se realiza dentro de uma hierarquia bem definida com disciplina rígida; fatores necessários para fins militares, um campo de batalha não é o lugar mais adequado para debates.

Dirigir um país, um estado ou uma cidade é bem diferente. Os cidadãos, as instituições, as empresas, as famílias, os grupos mais diversos, todos têm suas necessidades, suas ambições, suas opiniões, e todos devem ser ouvidos, diretamente ou através de seus canais de representação. Governar é, ou deveria ser, conciliar as demandas da sociedade dentro de princípios legais, morais e orçamentários e realizar o máximo possível do bem comum seguindo diretrizes políticas e ideológicas. Em uma nação de mais de duzentos milhões de habitantes, isto é extremamente complicado.

É inegável o direito que militares reformados têm de apresentar suas candidaturas aos cargos que desejarem, dentro das regras eleitorais; se eleitos, acredita-se que a maioria deles honrará seus mandatos com dignidade e patriotismo. É impensável que após o sacrifício de gerações para chegarmos a uma democracia “não relativa” ainda existam grupos que proponham a solução do atalho castrense.

Ilustração de Jakub Rozalski

A proposta da intervenção supõe a instalação de um “governo forte”, aparentemente tudo se resolveria com algumas ordens peremptórias. Os corruptos seriam presos e nenhum ministro do STF os libertaria através de habeas corpus afrontosos à Justiça e à opinião pública; pensando bem, não existiria mais habeas corpus, talvez nem STF. Todo obstáculo às intenções dos salvadores seria removido de imediato, a “mídia” se submeteria voluntariamente a um “controle social”. A paz dos cemitérios cairia sobre a nação.

Não temos um governo forte, talvez atualmente sequer tenhamos o que se possa chamar de governo, mas ainda temos um Estado constituído dentro de princípios republicanos, com três poderes definidos. Se o Executivo é uma lástima, o Legislativo nos cobre de vergonha e o Judiciário é uma esfinge em câmara lenta, ainda assim existem e são fundamentais. Soluções radicais podem ser tentadoras à vista dos descalabros a que assistimos, mas são apenas radicais e não soluções.

Prisões sem processo legal, linchamentos, violência legalizada, todo encurtamento de caminho para obter justiça nada mais é do que vingança e barbárie, e determinado pelo pior que há no ser humano: ódio e medo. Cabendo ainda a questão mais importante: saber quem escolherá inocentes e culpados se não pudemos contar com um sistema judiciário, com uma Constituição e com, vá lá, deputados e senadores.

Se nossos políticos são péssimos, não esqueçamos quem lhes deu mandato, nós. Se nossa educação é lamentável, demos um crédito de confiança a estas pessoas para que procedessem de forma a nos manter na ignorância e escuridão.

O sistema educacional brasileiro tem, entre suas metas, auxiliar família e organizações sociais a promover cidadania e melhorar nossa convivência, não apenas no mundo do trabalho, porém em todas as esferas comunitárias, compreensão política – no seu sentido mais amplo – é essencial.

EDUCAÇÃO PRISIONAL, META COMPLEXA…

No presente momento, um ex-presidente da República, vários políticos importantes, muitos empresários destacados, estão cumprindo penas em prisão fechada ou domiciliar. Sem entrar na questão complexa e controversa da justiça ou da injustiça de suas condenações, o fato suscita reflexão sobre a validade mesma da privação de liberdade para pessoas que não oferecem risco de violência física à sociedade. Evidente que o desvio de verbas públicas, o uso abusivo do poder, todo o imenso repertório dos “crimes sem vítimas”, têm um custo material muitíssimo maior do que aquele que um ladrão comum pode produzir.

A população carcerária brasileira é a terceira do mundo com quase 750 mil presos, “perdemos” apenas para EUA e China. Segundo o Departamento Penitenciário Nacional – Depen, do Ministério da Justiça, mais da metade deste contingente tem entre 18 e 30 anos, e mais de 60% são negros. Cerca de 75% não chegaram ao ensino médio e menos de 1% tem formação superior. Há quase 46 mil mulheres presas, 5% do total, a maioria por crimes relacionados ao tráfico de drogas, entre os presos homens um quarto responde por esse tipo de crime.

O sistema prisional brasileiro consegue ofertar apenas a metade das vagas que seriam necessárias para abrigar toda a população apenada em condições minimamente dignas, o que explica a superlotação na maioria dos estabelecimentos com a péssima salubridade física e mental imposta aos reclusos. O governo federal tem procurado tratar desta questão através da oferta de penas alternativas e uso de tornozeleiras eletrônicas, e também pela construção de novas unidades, mas o crescimento das condenações supera o benefício obtido por essas medidas, criando o proverbial “enxugamento de gelo”.

 

Ilustração de Estevão Ribeiro

 

Além das afrontas a direitos humanos universais e despesas cada vez maiores, os resultados positivos obtidos pelo nosso sistema penal são pífios. A ideia de privação de liberdade surgiu como alternativa, até humanitária, aos castigos selvagens que eram impostos aos criminosos, geralmente tortura seguida de morte, algo muito mais próximo da vingança do que da justiça. A prisão cumpriria quatro objetivos: isolar elementos perigosos impedindo-os de tornar a cometer crime; dar uma satisfação às vítimas pela punição aplicada; servir de exemplo para os demais; recuperar o condenado para a sociedade pela reflexão e pelos bons conselhos que receberia enquanto preso.

Infelizmente, praticamente nada disto acontece através de nossos presídios. Pelo contrário, parte dos apenados em primeira condenação termina por se unir a alguma facção das que controlam as penitenciárias, por questão de sobrevivência visto que o Estado não consegue garantir sua segurança. Adicionalmente, a maior parte que adentra estas instituições não consegue um programa de ensino que efetivamente a requalifique para o mercado de trabalho e a vida em sociedade, melhorando sua convivência social e potencialidade de sobrevivência.

O auxílio para sair deste ciclo vicioso tem sido muito pequeno, apesar da ampliação do atendimento escolar nas prisões paranaenses, que tem ofertado EJA – Educação de Jovens e Adultos – desde a alfabetização ao ensino médio, instalado por convênio entre Secretarias de Educação e de Justiça, Tribunal de Justiça e Ministério Público. No entanto, este programa atinge pouco mais de três mil pessoas, número muito aquém da necessidade, além da limitação de ofertas de outros tipos de atividades: profissionalizantes para capacitação ao próprio sustento, ou culturais para melhor compreensão do mundo e patrimônio humano.

Assim, a reincidência tem sido a norma, e precisaremos construir mais e mais unidades de detenção, em lugar de mais escolas. A violência aumenta, e o problema da segurança se torna cada vez mais urgente em nossas comunidades.

Crédito da Imagem: (https://www.ceert.org.br/noticias/direitos-humanos/15615/como-um-pai-de-familia-assalariado-foi-parar-em-uma-cela-do-pcc)

RAZÃO E SENSIBILIDADE….

O processo educativo caracterizou-se, durante a maior parte da civilização, pela ênfase na aprendizagem do pensamento racional, desenvolvimento da capacidade do autogoverno segundo as leis da razão, resistência às emoções e desejos.

Ao longo dos anos, por um excesso de preocupação com a questão, parecemos nos ter afastado de qualquer expressão emocional, deixando então de acreditar que pudéssemos aprender pela sensibilidade; e a escola foi se caracterizando apenas pela apologia da racionalidade, algumas vezes se mantido apartada inclusive das artes plásticas, da música e demais formas consideradas mais sensíveis de expressão.

No entanto hoje parecemos estar sofrendo o efeito contrário, e estamos, como comunidade, vivendo o que parece ser um excesso de suscetibilidade, nos afastando do império da razão, agindo como seres imaturos que não toleram a menor crítica, não podem ouvir que cometeram algum erro, por menor que este seja – passamos a considerar que somos perfeitos, e não admitimos descensos em nossa autoestima.

Nas redes sociais apenas mantemos pessoas que pensam exatamente como nós e têm as mesmas opiniões políticas e iguais gostos, e relacionamentos amorosos são desfeitos com celeridade ao menor sinal de “imperfeição” – leia-se diferença de ponto de vista – do outro.

Nas atividades profissionais, onde problemas reais podem existir, e muitas vezes são sérios, nem sempre estamos efetivamente analisando fatos com isenção, constituindo verdadeiras equipes, trabalhando em prol da comunidade. Às vezes preocupados em destruir a realização alheia, dificilmente somos inovadores e autônomos.

Ilustração de Pawel Kuczynski.

 

Nas escolas torna-se cada vez mais complexo um professor repreender alunos por comportamentos indevidos ou mau aproveitamento, a culpa será obviamente debitada a ele, que não ensinou adequadamente. Estudar, dedicar-se às leituras complementares, esforçar-se para aprender são ações penosas ou de difícil realização.

Preservar o amor próprio do estudante, reconhecer sua ausência de orientação, mesmo quando este não tem o menor interesse em superar suas próprias dificuldades parece mais relevante do que estabelecer como meta a sua aprendizagem, já que ninguém aprende sem acrescentar às aulas um tanto de esforço pessoal. O modelo desejado para o futuro do estudante parece centrar-se, às vezes, num máximo de vantagens pessoais, com um mínimo de ações comunitárias.

Para melhorar, é indispensável um objetivo a atingir, comprometendo-se com ele, com o reconhecimento de sermos imperfeitos e carentes de conhecimento. Conhecer o périplo humano, nosso percurso em relação à eliminação da ignorância, nossas dificuldades e defeitos ao lado de nossas qualidades e potencialidades é fundamental para a melhoria da ciência, da tecnologia e também de nossa convivência com os demais.

Estamos, no entanto, em um momento no qual docentes têm sido censurados por abordarem em sala obras de autores reconhecidos, porem escritas em outras épocas, e que hoje, descontextualizadas, são consideradas ofensivas a minorias ou difíceis demais para o conhecimento precário de muitos.

Bonito ou feio, este é o percurso que realizamos, e estas obras poderão ser utilizadas exatamente para frisar a evolução que tivemos em muitas áreas, desde aquela em que utilizávamos teias de aranha para cicatrizar ferimentos ou considerávamos que a escravidão era “natural”. Afinal, se sempre fomos corretos, inclusivos, bondosos e solidários, porque estaríamos como estamos?

Relatar com o máximo possível de fidelidade nosso passado, analisando ganhos e perdas ao longo do processo, facilitar a percepção do muito conquistado e os avanços ainda realizáveis, refletindo a verdade de nossa natureza humana, é essencial para melhorar nossos procedimentos, este é o papel da escola.