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Author: Izabel Liviski

TAUÁ – ARTE INDÍGENA NAS ESCOLAS

“A habilidade das mãos e a ocupação com o artesanato preparam no homem a vontade de se dedicar ao seu intelecto. Aquele que desenvolve habilidades nas mãos também
desenvolve ideias e pensamentos flexíveis.” (Rudolf Steiner)

 

No mês em que se comemora o Dia do Índio, alunos do Ensino Fundamental (1ª a 4ª série), de cerca de 10 escolas municipais de Curitiba, serão beneficiados com uma atividade pouco convencional: oficinas de cerâmica indígena. O projeto chama-se Tauá – A Arte Indígena da Cerâmica e irá atingir com 60 oficinas mais de 2 mil crianças até julho deste ano. Tauá significa argila em Tupi Guarani e a iniciativa, além de promover o exercício e a valorização do trabalho artesanal, visa também à preservação da cultura ancestral indígena.

O entusiasta desta ideia e criador do projeto é o artesão, arte educador e músico Fabio Mazzon, que desde 2004 produz peças de cerâmica a partir de pesquisas de técnicas ancestrais de modelagem e decoração utilizadas por povos originais e indígenas brasileiros. “O objetivo é oferecer uma vivência criativa, educativa e produtiva. O contato com a argila, com os trabalhos manuais, artesanais, trazem inúmeros benefícios ao desenvolvimento humano e em especial às crianças”, explica.

Fabio também ressalta que o projeto cria oportunidade para que as crianças tornem-se criadores de seus próprios meios de expressão. “Estamos em uma época em que o fazer está distante da realidade das crianças, hoje elas encontram tudo pronto, basta consumir. A possibilidade de confeccionar algo com as próprias mãos é extremamente saudável e fundamental para seu desenvolvimento humano”, pontua.

Além de Mazzon, outro ministrante da oficina é o artesão e pedagogo Pietro Rosa que há anos desenvolve trabalhos com crianças, inclusive com necessidades especiais. Na opinião de Rosa: “Esse tipo de atividade não só estimula a valorização das artes manuais, mas também a criatividade, a socialização, além do desenvolvimento do conhecimento cognitivo e da psicomotricidade”, declara.  As oficinas acontecerão nas escolas, a técnica utilizada será o acordelado e a peça produzida será levada para casa pelo próprio aluno.

O formato da oficina será sempre o mesmo em todas as escolas: primeiro os alunos serão recepcionados ao som de tambores de cerâmica e de outros instrumentos artesanais de referências ancestrais, feitos de madeira, semente e de fibra natural. Após, serão introduzidos ao tema a partir de histórias e mitos sobre o barro e a argila. Na sequência está programado um bate papo sobre a utilização da cerâmica em nossas vidas desde tempos remotos até hoje. A ação inclui também uma exposição de peças de cerâmica indígenas. Cada oficina terá a duração de 1 hora e 40 minutos.

Os educadores também serão beneficiados com duas oficinas onde terão atividades práticas de manipulação da argila a fim de desenvolver sensibilidade, concentração, paciência, imaginação, criatividade e psicomotricidade e atividades teóricas focadas no conhecimento histórico e cultural do trabalho artesanal, bem como a utilização e importância da argila.

A Cerâmica no Brasil

No Brasil, a cerâmica tem seus primórdios registrados na Ilha de Marajó, no Pará. A cerâmica marajoara tem sua origem na avançada cultura indígena que floresceu na Ilha. Estudos arqueológicos, contudo, indicam a presença de uma cerâmica mais simples, que ocorreu ainda na região amazônica por volta de 5.000 anos atrás.

A confecção de artefatos em argila é um aspecto presente na maioria das comunidades indígenas brasileiras. Em algumas comunidades a cerâmica é lisa, exclusivamente utilitária, em outras, além de utilitárias, encontram-se peças decorativas nas quais sobressaltam a beleza e variedade das formas, grafismos e pinturas, como é o caso das cerâmicas Marajoara, Tapajônica, Kadiwéu e Asurini. Onde for, a cerâmica mostra-se imbuída de cultura e extremo valor, acompanhando a história e o desenvolvimento da raça humana.

Este projeto foi viabilizado por meio da LEI MUNICIPAL DE INCENTIVO À CULTURA e FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA e conta com o incentivo do Shopping Muller.

FOTOS: Guilherme Pupo e Vinícius Mazzon.

CONTATOS:

Produção
Vinícius Mazzon
41 99622 2829
viniciusmazzon@gmail.com

Assessoria de Imprensa
Glaucia Domingos
41 99909 7837
glauciadomingos@hotmail.com

 

 

JEAN GENET E A PESQUISA SOCIAL…

O texto que publico nesta semana é uma adaptação para a Revista ContemporArtes da introdução à tese de doutorado em Sociologia que defendí em abril de 2016 na UFPR, e que tem o título de “Retratos de Detentas na Etnografia do Espaço Prisional: Trajetórias, Imagens e Representações”.

RETROSPECTIVA DE EVERLY GILLER NO RESTAURANTE MIKADO…

“O Restaurante Mikado foi fundado no dia 4 de fevereiro de 1991, e a proposta era oferecer uma alimentação saudável, sem carne vermelha e com alguns pratos da culinária japonesa, como o missoshiru (sopa de missô, a pasta de soja fermentada), yakisoba, tofu (queijo de soja), sushi (enrolado de algas marinhas), tempura (fritura de legumes), moyashi (broto de feijão) e outros. Funcionando sempre no horário de almoço, de segunda a sábado, reuniu uma legião de adeptos: os ‘mikadianos’, como ficaram conhecidos os habituées do restaurante”, escreveu a jornalista e escritora Marília Kubota.

No final de 2015 os antigos proprietários, o casal Kenji e Michiko Fukui, responsáveis pela elaboração do tradicional cardápio do Mikado, o ‘Mika’ para os íntimos, decidiram aposentar-se e inicialmente, fechar o restaurante. Isto causou uma grande comoção em todos os clientes. Entre eles estava Hélio Coutinho, antigo frequentador e admirador do conceito de comida saudável praticado pelo restaurante. Ele convenceu os ex-proprietários a cederem a casa para dar continuidade a esse pedaço da história curitibana.

Os novos proprietários do Restaurante Mikado. Foto: Andrea Torrente (Gazeta do Povo)

 

Juntamente com os sócios Carolina Jaime e Alfredo Coelho, ambos cozinheiros, reabriram o restaurante em abril de 2016. Com a proposta de manter a mesma qualidade e os tradicionais pratos servidos há mais de duas décadas os novos proprietários introduziram a sua personalidade no restaurante, quer seja na elaboração de um cardápio exclusivamente vegetariano, com algumas opções veganas, às quartas feiras, quer seja com novas preparações.

Mas talvez o grande incremento do restaurante seja a criação de um espaço cultural para exposição das obras de seus clientes. Além da venda de livros e CDs de escritores e músicos locais, o Mikado oferece espaço para que artistas exponham suas obras tais como quadros e fotografias. No mês de março e abril, está em cartaz a exposição retrospectiva de Everly Giller, e para acompanhá-la estão também os trabalhos da estreante e talentosa Eva Giller Parisi.

“Duas Cadeiras” (Everly Giller)

 

As obras de Everly Giller são permeadas de simbologia e de elementos poéticos, sonhos, imagens oníricas. Por meio de suas figuras e paisagens delicadas, que incluem árvores, água, chuva, ela traduz uma Natureza sensível, alegre, de cores fortes, traços sutis e precisos. Cria quando está feliz, acredita que esse bem-estar é importante em seu processo artístico.

Quadros da exposição no andar superior do restaurante.

 

Lembra de imagens marcantes de sua infância, como a de quando surpreendeu sua mãe pintando um quadro – cena que acompanhou para sempre e que acredita ter sido decisiva para a escolha de sua carreira artística. Seus avós nasceram na Polônia e por isto a artista tem uma estreita ligação com a cultura polonesa, que a influenciou em seu processo criativo.

“Tinha cinco anos quando vi minha mãe pintando um quadro. Aquela paisagem na tela, as cores e o cheiro bom da tinta penetraram em minha alma, e me levaram ao curso de pintura da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, que concluí em 1983. Nos dois anos seguintes, busquei nas técnicas da gravura um complemento à formação acadêmica, frequentando os ateliês do Solar do Barão”, conta Everly.

“Mas as impressões da infância me conduziriam mais longe…. em agosto de 1985, com o apoio do Consulado da Polônia em Curitiba, embarquei em um navio polonês rumo à terra de meus antepassados, para aprender gravura em metal na Universidade de Belas Artes em Cracóvia.

“Mamãos e Maçãs” (Everly Giller)

 

Além do aperfeiçoamento em gravura, os dois anos na Polônia foram decisivos para o desenvolvimento de minha linguagem atual, proporcionando também o meu reencontro com a pintura, dessa vez de maneira mais pessoal, onde ousei incursionar pelo meu mundo particular. Faço arte para reencontrar meus sentimentos mais autênticos e profundos, sempre vinculados às recordações e impressões da infância. Trabalho com imagens do meu inconsciente, simbólicas, cheias de segredos…” conclui a artista.

Everly GILLER nasceu em Caçador (SC) em 1961. Em 1983 formou-se em Pintura e Licenciatura em Desenho na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP). Estudou com mestres como Fernando Calderari, Leonor Botteri, Luís Carlos de Andrade Lima, João Osório Brzezinski, Ivens Fontoura, entre outros. Mais tarde com o apoio do Consulado Geral da República da Polônia em Curitiba, cursou por dois anos o ateliê de Gravura em Metal da Academia de Belas Artes em Cracóvia com os professores Jacek Sroka e Stanislaw Wejman.

A artista e amigos, no dia da abertura da mostra

 

Atuando desde 1980 com produção em pintura e gravura, a artista já participou de mais de 110 mostras individuais e coletivas, e suas obras encontram-se em mais de 10 acervos, de museus a colecionadores. Em 2015 concluiu o Curso Superior de Letras – Polonês na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atualmente é professora do idioma polonês na Casa da Cultura Polônia-Brasil e professora no atelier de linoleogravura no Museu da Gravura no Solar do Barão em Curitiba/PR.

CONTATO: (41) 99647-8488
https://www.facebook.com/everlygiller/

Everly e Eva, dois talentos em famíia.

 

Eva Giller PARISI nasceu em Curitiba (PR) em 1991. Filha de pai e mãe artistas, Eva está familiarizada com o mundo das artes desde a infância e constantemente explora técnicas e materiais diversos. Em 2016 concluiu o curso superior em Design Gráfico na Faculdade UniCuritiba/PR. Artista autodidata, frequenta vários cursos e ateliers de artes. Sempre estimulada pela atmosfera artística em casa, possui ampla produção na área da gravura, mas elegeu a pintura como sua técnica preferida. Atua profissionalmente como tatuadora e ilustradora.

CONTATO: (41) 99845-2117

 

“Vegetarianismo Selvagem” (Eva Giller Parisi)

 

“Cozinha Rural” (Eva Giller Parisi)

 

TEXTOS: Alfredo Coelho, Marilia Kubota, Everly Giller.

Veja também matéria publicada na ContemporArtes em 30 de Dezembro de 2015, “Adeus, Mikado”:
https://revistacontemporartes.blogspot.com.br/2015/12/adeus-mikado.html

 

Restaurante Mikado
R. São Francisco, 126 – Centro.
Telefone: (41) 3323-6709
Curitiba – PR.
80020-190

QUEM É O CULPADO PELO HOLOCAUSTO?

Por Renata SIUDA-AMBROZIAK*

Durante a II Guerra Mundial, a minha terra tornou-se o palco da maior carnificina que se pode imaginar. Em cada esquina morreram dezenas, centenas, ou milhares de pessoas. Essa situação de praticamente cada um de nós, poloneses, ter perdido os familiares tem a ver muito com a memória da Guerra e do Holocausto na Polônia e com as controvérsias recentes ligadas às mudanças na narrativa e no discurso internacional sobre a II Guerra Mundial em geral e o Holocausto em particular.

Parece que por razões ideológicas, econômicas e políticas, as interpretações do crime contra a humanidade que aconteceu nos tempos da guerra estão começando a ser desenvolvidas de maneiras novas, surpreendentes e, ao mesmo tempo, bem perturbadoras. Especialmente quando aparecem as tentativas para explicar o Holocausto pela “coautoria” dos poloneses e aparece no discurso diplomático a expressão “campos de concentração poloneses”.

Vejamos simplesmente os fatos – o Holocausto foi planejado e preparado pela Alemanha nazista, mas executado na Polônia ocupada. Antes da guerra a Polônia gozava da maior concentração de judeus na Europa e da segunda maior do mundo, depois dos Estados Unidos. Foi decerto precisamente por causa da numerosa população judaica na Polônia que os locais de extermínio foram estabelecidos pelos nazistas no território polonês. Mas o Holocausto foi institucionalmente organizado e sistematicamente levado a cabo pelos alemães nazistas.

A II Guerra Mundial eclodiu com a agressão da Alemanha nazista na Polônia, em 1 de setembro de 1939. Em 17 de setembro de 1939, segundo o Tratado de Ribbentrop-Molotov, também as tropas soviéticas invadiram a Polônia, colaborando perfeitamente na destruição do país com os nazistas. Nas terras polonesas sob ocupação soviética, os judeus, junto com os poloneses, foram enviados aos campos de trabalho penais ou brutalmente executados com tiros covardes na cabeça dos prisoneiros desarmados (Katyn, Miednoye).

Ainda em 1939 os nazistas começaram a criar no território polonês ocupado as grandes concentrações de judeus nos guetos urbanos (o maior – de Varsóvia com 400 mil pessoas) e a estabelecer os primeiros campos de concentração (primeiro Stutthof, e em 1940 Auschwitz – uma verdadeira fábrica de morte com câmaras de gás e crematórios, onde se matavam até 20 mil pessoas diariamente, usando Zyklon-B e monóxido de carbono).

Naquele tempo os poloneses já tentaram fazer o alarme sobre o que estava acontecendo, passando informações precisas sobre o Holocausto para os aliados. Infelizmente, sem resultados. Havia voluntários poloneses que entravam nos campos de concentração nazistas para descrever a realidade, mas naquele tempo ninguém ouvia. Mais até − alguns governos europeus colaboravam tranquilamente com o III Reich do Hitler…

Ilustração de Jacek Yerka (Toruń – Polônia)

 

Em 1941 foi emitido pelos nazistas um decreto sobre a aplicação da pena de morte aos poloneses que ajudavam aos judeus a sobreviver, por exemplo escondendo-os nas suas casas − em nenhum outro país ocupado pelos alemães estava em vigor uma lei tão rigorosa como na Polônia. Logo depois, em 1942, apareceu o plano para a “solução final da questão judaica na Europa” − o extermínio em massa da população judaica nos campos de concentração na Polônia.

Ao mesmo tempo o Dr. Josef Mengele começou os seus experimentos médicos criminosos no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, e os alemães nazistas começaram a liquidar os guetos e a deportar os seus habitantes aos campos de concentração. Em 19 de abril de 1943, começou a revolta armada dos judeus no gueto de Varsóvia − um gesto de desespero contra a sua liquidação. O levante durou até 8 de maio de 1943. Depois de sufocar brutalmente a revolta, os nazistas proclamaram oficialmente o Terceiro Reich “limpo de judeus”.

No dia 24 de julho de 1944, no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, num só dia foram mortos cerca de 40.000 seres humanos. Foi um recorde na história da indústria nazista de morte. Em 1 de agosto de 1944 o exército subterrâneo polonês promoveu um levante em Varsóvia. Intensos combates com a Alemanha duraram até 2 de outubro de 1944, resultando na matança de quase 200 mil varsovienses. A cidade ficou quase completamente destruída.

Em 25 de novembro de 1944, Himmler ordenou explodir as câmaras de gás e os crematórios de Auschwitz-Birkenau e apagar os vestígios do assassinato em massa. Em 18 de janeiro de 1945 as tropas SS alemãs começaram a evacuar o campo − 66 mil prisioneiros foram levados para o Ocidente na “marcha da morte”, que matou mais de 15 mil seres humanos. Em 26 de janeiro de 1945 − tropas soviéticas, agora aliadas, libertaram o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, onde ainda havia 7.000 esqueletos-prisioneiros. Em 30 de abril de 1945 − Adolf Hitler cometeu suicídio no bunker em Berlim.

A guerra resultou na morte de mais de 6 milhões de cidadãos poloneses, dos quais 3 milhões eram judeus poloneses. Muitos deles sobreviveram graças à ajuda dos poloneses. Atualmente, o título de “Justo entre as Nações do Mundo”, outorgado àqueles que arriscaram conscientemente as suas vidas para salvar aos judeus, foi dado a mais de 6 mil cidadãos poloneses – o maior número entre todas as nações do mundo.

No entanto, o agressor que invadiu a Polônia em setembro de 1939, organizando o Holocausto de uma maneira fria, bem pensada e sistêmica, depois de 1945 teve uma chance do desenvolvimento democrático e econômico sem precedentes graças à situação da Guerra Fria. A Polônia ficou atrás da Cortina de Ferro, destruída, saqueada pelos alemães e soviéticos e traída pelos aliados, que a deixaram, depois de se ter aproveitado dos cientistas poloneses quebrando o famoso código de Enigma e dos milhares dos soldados poloneses lutando no Ocidente.

Entre eles os famosíssimos pilotos poloneses que defenderam Londres dos bombardeios dos nazistas, à  mercê de Stalin e da “democracia popular” proclamada pela União Soviética, vista pela maioria esmagadora da população como uma outra ocupação. As tropas polonesas, incluídas no exército aliado, nem foram convidadas para comemorar o final da II Guerra Mundial…

Mais ainda − a divisão entre “perpetradores e agressores” e “vítimas”, tão claramente visível durante e logo depois da guerra, cedeu agora lugar às discussões já não tão unilaterais. Por isso os poloneses reagem muitas vezes emocionalmente. No nosso olhar, a maneira como a II Guerra Mundial e o discurso do Holocausto estão sendo ultimamente apresentados parece absurda, concentrando-se nos poucos casos de colaboradores poloneses e omitindo a generalizada fraternidade dos poloneses e judeus na luta e a ajuda dos poloneses aos judeus durante o Holocausto, confirmada por pesquisas detalhadas.

As narrativas históricas comprovadas estão dolorosamente colidindo com os pontos de vista dos que frequentemente nem passaram pela ocupação alemã, mas acham que possuem o direito de colocar a culpa naqueles que em razão dela passaram pelo maior sofrimento…

Em tal situação torna-se cada vez mais difícil manter indiscutível a verdade sobre a Guerra e o Holocausto. Parece que agora a cada dia aumenta a tensão, provocando terremotos nas relações internacionais pela atitude estranha da “divisão da culpa pelo Holocausto” entre os agressores e as vítimas.

A Polônia perdeu na guerra quase 40% dos seus cidadãos, entre eles judeus. O destino dos judeus poloneses durante o Holocausto não foi algo único ou separável do destino da etnia polonesa em geral.  Mas agora fala-se antes de tudo sobre o antissemitismo na Polônia durante a guerra ou a indiferença dos poloneses em relação aos judeus fechados nos guetos ou nos campos de  concentração. Infelizmente, não mostrando os fatos acima expostos, por exemplo as punições com a morte aplicadas àqueles que aparentemente não sabiam mostrar essa indiferença, assim como a todos os membros das suas famílias… Ou a indiferença cruel dos aliados frente aos relatórios sobre o Holocausto providenciados pelos poloneses nos primeiros anos da Guerra.

Sim, com certeza houve aqueles poloneses que foram pagos pelos judeus pela ajuda. Houve outros que chantageavam e ameaçavam denunciá-los. Pessoas sem honra e sem vergonha. E os historiadores têm que se deparar com isso. E se deparam. Assim deveria ser. Porque em cada grupo há pessoas diferentes, decentes e indecentes. Nunca somos todos santos. Mas é difícil dizer, preservando a verdade histórica, que foram, na sua maioria, os poloneses que ajudaram no Holocausto ou que os campos de concentração eram “campos poloneses”, como se ouve hoje pelo mundo.

Os poloneses, na sua esmagadora maioria, nunca se renderam durante a guerra, nunca colaboraram com os nazis, contruindo o maior movimento de resistência aos ocupantes, jamais visto no mundo na forma de todo o Estado Polonês Subterrâneo e arriscando a vida dos seus familiares para salvar as vidas dos judeus, apesar de conhecerem bem demais as consequências das suas ações − são eles os mais numerosos entre os “Justos do Mundo”.

Por isso, as perguntas e as dúvidas estranhas que se ouvem agora sobre os poloneses, que, estando numa situação quase que igualmente precária, deveriam ter-se arriscado ainda mais para ajudar os judeus, mostram uma lógica bem perversa – em frases como “os nazistas não teriam aniquilado tantos judeus se os poloneses se tivessem oposto mais àquela matança”, uma vítima judia torna-se mais inocente e mais importante do que as outras, polonesas…. Mas somente aos olhos de Hitler os judeus constituíam uma categoria especial, e pensar desse modo equivale a aceitar a lógica dos assassinos nazistas.

A vida humana tem sempre o mesmo valor, independentemente da nacionalidade, religião, gênero, raça, nível de educação… Dizer que alguns valem mais e outros menos, que é preciso sacrificar uns para salvar os outros é mais uma barbaridade. “Não matarás!”. E ponto final. Assim nunca precisarás te justificar. E procurar “bodes expiatórios”.

Mas as tensões continuam voltando e reaparecendo, causando uma grande indignação na Polônia com a política histórica consciente, que quer livrar da responsabilidade pelo Holocausto os seus autores, criando uma imagem antissemita dos poloneses e repercutindo no mundo dos meios de comunicação de massa, com o aparecimento de expressões como “campos de concentração poloneses”. A ignorância histórica prejudica tanto a verdade como a sagrada memória das vítimas, tanto judeus como poloneses, conduzindo à relativização do crime hediondo da guerra e do Holocausto, inextricavalmente entrelaçados.

Por isso é um grande desafio para nós − não deixar esquecer as recordações e memórias, não deixar manipular os fatos históricos, não permitir que a verdade histórica se torne uma “verdade aplicada”, na qual foram os poloneses antissemitas que começaram a II Guerra Mundial, atacando a Alemanha, construíram sozinhos os campos de concentração para se aniquilarem a si mesmos, mataram-se a si mesmos nos levantes e tiroteios nas ruas.

Ainda mais, exterminaram a maioria da sua própria população de origem judia, que precisamente na Polônia, por muitos séculos, encontrou a paz, a estabilidade e as possibilidades de se desenvolver econômica e culturalmente, sem as perseguições ocorridas no resto da Europa. Não parece isso um absurdo total? Infelizmente, é assim a nossa “politicamente correta”, a nova “verdade histórica” sobre a Guerra e o Holocausto…

*Renata Siuda-Ambroziak, PhD
Vice-Diretora do Instituto das Américas e Europa na Universidade de Varsóvia
Professora de Estudos Latino-Americanos no Centro de Estudos Americanos, Grupo de Pesquisa sobre América Latina e Caribe
Editora-chefe da Revista del CESLA – Revista Internacional de Estudos Latino-Americanos (www.revistadelcesla.com)
Editora da Revista Brasileira de História das Religiões (http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/RbhrAnpuh/index)
Professora Visitante e Pesquisadora Sênior da CAPES / Brasil, na
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

https://uw.academia.edu/RenataSiudaAmbroziak
https://www.researchgate.net/profile/Renata_Siuda-Ambroziak

“KAZA”, O DRAMA DOS REFUGIADOS…

E se, de repente, você fosse obrigado a fugir do seu país, deixando para trás sua casa, sua família, levando apenas os pertences que consegue carregar? E se você não tivesse para onde ir? E se chegasse a um lugar onde ninguém consegue entender o que você fala e sente?

 

Infelizmente, essa é a realidade de milhões de pessoas no mundo. A cada três segundos uma pessoa passa por situações similares, por causa de conflitos econômicos, políticos e sociais. Vivemos atualmente a mais grave crise de refugiados desde o fim da II Guerra Mundial, em 1945. De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas) são 75,6 milhões de pessoas fugindo de guerras, violência ou perseguição. Desse número de imigrantes 22,5 milhões são refugiados.

Pessoas em situações de extrema adversidade como essas que perdem tudo, mas que, mesmo em meio ao caos, seguem lutando para manter a esperança e a dignidade inspiraram a criação do mais novo espetáculo da Tecer Teatro de Curitiba. “KAZA não trata apenas de situações de guerra ou de exílio. É sobre ter que partir, sobre perdas e suas consequências, em como sobreviver a essas experiências. Perder a família, um filho, a terra, a cultura. Ser obrigado a deixar seu país, sua cidade, a língua natal, o emprego, a casa.

Foto de cena 1

Sua história, seu passado e tudo o que nos representa. Os planos para o futuro, o sonho e a esperança. Perder o chão, perder o norte. Sobre morrer e renascer. Ou morrer em vida”, conta a diretora Cristine Conde.  O solo interpretado pela atriz Fabiana Ferreira, estreia dia 17 de março (sábado), às 20h, no Espaço Excêntrico (Mauro Zanatta). A temporada segue até dia 08 de abril, sempre aos sábados e domingos, às 20h. Além das apresentações abertas, o projeto prevê 12 apresentações gratuitas, desde que agendadas previamente, voltadas para público de escolas da rede pública, entidades assistenciais, pessoas com necessidades especiais, imigrantes, alunos de artes, entre outros.

Kaza aborda também a questão da incomunicabilidade. “A língua materna é a substância de que é feita a nossa alma”, diz Paulo Leminski, no posfácio de “O Inominável”, de S. Beckett, obra e autor que, entre outros, serviram como referências ao trabalho. A personagem, em uma situação de desespero, movida pelo medo e pelo instinto de sobrevivência, tenta se comunicar, mas não é compreendida, apesar de falar em 11 línguas diferentes, entre elas: português, árabe, corso, alemão, irlandês, holandês, francês, espanhol e até galês.

O texto é curto, não apresenta uma narrativa, é composto por palavras soltas, de significado universal e de familiaridade sonora. O som e a palavra ora se manifestam quase como um grito impossível de conter ora como um lamento. Quem assina o trabalho vocal é Edith de Camargo.

A trilha, a cargo de Tiago Constante, é executada ao vivo e é companhia no caminho da personagem desde o primeiro dia de ensaio. A forte fisicalidade é uma característica da Tecer e neste trabalho Airton Rodrigues é o responsável pela preparação corporal da atriz.

Foto de cena 2

Assim como os que passam pela experiência de tornar-se de alguma forma refugiado ou exilado, a personagem alimenta o desejo de voltar para casa, sem saber que, na verdade, a ruptura com o passado é permanente. “O nome escolhido para o espetáculo aponta este desejo ampliando seu significado, do micro ao macro universo, KAZA tem relação com a origem, a alma, a essência, o planeta”, conta Fabiana que também é a idealizadora e produtora do projeto.

“Minha personagem é uma sobrevivente, luta pela vida em meio aos mortos, as peças de roupas que compõem o cenário, assinado também pela diretora, representam essas pessoas e suas histórias. São como peles com as quais a personagem tenta se reconstruir. Nossa intenção com este projeto é dar visibilidade para essas pessoas traumatizadas pelo sofrimento e desespero. Afinal, o que sobra, quando perdemos tudo o que amamos? Kaza aponta para o caminho da luta e da transcendência”, finaliza.

Foto de cena 3

Fotos: Elenize Dezgeniski

Este projeto é uma realização da Tecer Teatro – Arte, Educação e Cultura e foi incentivado pelo Banco do Brasil por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

Acompanhe: https://kazapartedetudo.blogspot.com.br/
Visite: https://www.tecerteatro.com/

SERVIÇO:
O quê: Espetáculo Teatral Kaza
Quando: 17 de março a 08 de abril (sábados e domingos)
Que horas: 20h
Onde: Espaço Excêntrico (Mauro Zanatta)
Endereço: Rua Lamenha Lins, 1429 – Rebouças
Telefone: (41) 4127 4702

Quanto: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Classificação: 14 anos
Duração: 50 minutos
Realização: Tecer Teatro – Arte, Educação e Cultura
Contatos:

Assessoria de Imprensa
Glaucia Domingos
41 99909 7837
glauciadomingos@hotmail.com

Produção
Fabiana Ferreira
41 99243 0322
tecerteatro@gmail.com