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Author: Geovanni Geovanni Cabral

Fotografia e História: a participação das mulheres nos movimentos sociais

Fotografia e História: a participação das mulheres nos movimentos sociais

Geovanni Cabral

A fotografia em preto e branco sempre me chamou a atenção. Essa combinação que permite imaginar suas cores, formas, texturas — algo que vai além do campo visual na relação que se estabelece entre a imagem e o olhar do observador. Estar diante de uma fotografia, de algum álbum ou de uma exposição é algo que logo nos remete a um tempo, a uma história, a um instante de produção. Percebemos os ângulos, os posicionamentos, as estratégias de enquadramento, os silêncios e as leituras que fluem diante de nossa percepção. Muitas vezes, perguntamos com que intenções elas foram tiradas? Para quê? A pedido de quem? Por que este e não aquele foco? E muitas são as indagações (nem sempre com respostas); na maioria das vezes, o silêncio dita a regra.

Nas pesquisas que venho desenvolvendo com fotografias no campo do ensino de História, me chamam a atenção aquelas que direcionam para um engajamento político, as que os fotógrafos denominam fotografia documental. Aquelas que carregam em sua luz uma historicidade, um instante que traz possibilidades de leituras e conexões na sua apreensão e no seu congelamento. Cabe ressaltar que essas leituras não partem do princípio de que a fotografia é o testemunho da realidade, a “visão histórica” como tal e qual. Muito pelo contrário. Pensamos a fotografia nesse conjunto de intenções, memória, documento, multiplicidade temporal, técnica, criações, montagem e desmontagem. Como afirma Boris Kossoy (2016, p. 24 e 25): “[…] assim como as demais fontes históricas, as fotografias não podem ser aceitas imediatamente como espelhos fiéis dos fatos. Assim como os demais documentos, elas são plenas de ambiguidades, portadoras de significados, não explícitos, e de omissões pesadas, calculadas, que aguardam pela competente decifração.”

Com isso, utilizar fotografias na sala de aula, por exemplo, requer certos cuidados no que diz respeito a essas relações passado/presente e tempo/espaço; devemos ter um olhar mais que decifrador, percebendo, em sua fixação imagética, técnica de produção e uso, tendo em vista que as “aparências enganam”. Dependendo de sua criação, a fotografia pode muito bem apresentar distorções, evidenciando olhares, gestos, comportamentos, divergências e determinadas montagens para efeito de credibilidade e representação. Por isso, Carlos Drummond de Andrade (1984, p. 4) em um poema chamado A câmara viajante, traz uma reflexão acerca dessa máquina, que registra, fixa, mas chama a atenção para o ser que produz, que visualiza, que capta a imagem:

Que pode a câmara fotográfica?

Não pode nada.

Conta só o que viu.

Não pode mudar o que viu.

Não tem responsabilidade no que viu.

A câmara, entretanto,

Ajuda a ver e rever, a multi-ver.

O real nu, cru, triste, sujo.

Desvenda, espalha, universaliza.

A imagem que ela captou e distribui

Obriga a sentir,

A, criticamente, julgar,

A querer bem ou a protestar,

A desejar mudança. […]

Nesse debate entre realidades, tramas, produções e técnicas, as fotografias documentais carregam consigo uma narrativa visual que, diante de suas representações, possibilitam-nos caminhar e pensar em suas perspectivas históricas. Dentre essas imagens — e me reportando ao título desse ensaio, Fotografia e História: a participação das mulheres nos movimentos sociais — algumas fotografias do acervo da Comissão Pastoral da Terra (CPT) têm em seus registros a presença de mulheres em diferentes momentos de atuação e engajamento político. Essas fotografias, que apresentam essa função pública, segundo Ana Maria Mauad (2013, p. 13) “[…] indicam que se torna pública para cumprir uma função política, que garante a transmissão de uma mensagem para dar visibilidade às estratégias de poder, ou ainda, às disputas de poder.”Representam uma memória pública captada pelas lentes do fotógrafo que busca denunciar ou documentar os instantes históricos vivenciados por agentes sociais diversos.

As fotografias que captam a atuação das mulheres nos movimentos sociais, no sul e sudeste do Pará, permitem perceber que elas não estão de braços cruzados esperando o tempo passar. Muito pelo contrário, as mulheres têm um papel importante nesse processo de luta pela terra. O historiador Airton Pereira (2017, p. 34) relata que “[…] em muitas ocupações de terra, diversas mulheres participaram ativamente nas frentes dos confrontos e foram, em diversos momentos, submetidas à suma série de violências.”.

Podemos mencionar uma fotografia de João Roberto Ripper, localizada na pasta “Vários momentos da História da região e da luta do trabalhador rural pela posse da terra”, do acervo da CPT (Figura 1). Uma trabalhadora rural despejada, no município de Marabá, em 1979. Um ano em que foram registrados intensos conflitos de terras e violência na Amazônia oriental, conforme levantamento de Airton Pereira (2015).

Figura 1. Trabalhadora rural despejada. Pedra Lisa, Eldorado dos Carajás. Fonte: Acervo da CPT- Marabá. Foto de João Roberto Ripper, 1979.

Essa mesma fotografia faz parte do livro Imagens Humanas, de João Ripper, editado em 2009 (página 42); uma seleção de 195 imagens envolvendo esse “olhar de denúncia e defesa”. Observando essa fotografia, encontramos não apenas o trabalho de um conceituado fotógrafo, que vem atuando há 35 anos em registros da luta pela terra, da vida do camponês e dos movimentos operários. Mas também uma mulher que amamenta seu filho em pleno despejo de sua terra. Um semblante que pode exprimir dor, sofrimento, angústia e tantos outros sentimentos que emanam dessa leitura. Para Ripper, “[…] a técnica e a sensibilidade têm de andar juntas, porque a fotografia é uma extensão da personalidade de quem fotografa.”  Nesse contexto, ele aproxima sua máquina e foca, nesse instante, uma mulher que protege seu filho. Uma mulher que, como tantas outras, nas horas de desespero, violência e determinações judiciais, procura meios de proteção.

Em outra fotografia (Figura 2), da qual não localizei o autor, a participação da mulher fica mais evidente no que se refere ao cotidiano de sua atuação nos acampamentos. É ela quem cuida dos filhos, quem prepara a comida, toma conta dos mais velhos, ajuda o marido na construção e organização da casa e, ainda, encontra espaço e tempo para enfrentar a violência de fazendeiros e pistoleiros. Airton Pereira (2017, p.42) chama a atenção para o fato de que […] em outros momentos, estando na cidade, enviavam recados para os grupos de posseiros, avisando-os sobre diligência da polícia ou de um suposto ataque de pistoleiros. Em certas situações, eram elas que levavam munições para os homens entrincheirados, passando por barreiras policiais […].

Figura 2. Acampamento na Eletronorte – Tucuruí. Fonte: Acervo da CPT – Marabá. Autor desconhecido.

Percebemos, na análise anterior, que não estamos falando de uma mulher dona de casa e agricultora, apenas. Mas, de uma mulher dinâmica, que resiste e defende sua família e sua história, sendo, inclusive, capaz de se arriscar junto aos policiais, fazendeiros ou pistoleiros. A fotografia é composta por cinco mulheres adultas, três crianças e um rapaz; dessas, duas seguram uma faixa com os dizeres “Queremos terra para morar”. A disposição das pessoas na foto nos possibilita pensar no engajamento político dessas mulheres protegendo seus filhos, mas, ao mesmo tempo, denunciando sua indignação pela construção e ocupação de suas terras pela Usina Hidrelétrica de Tucuruí. A violência se estendia por todos os lados, diante do consentimento do aparelho estatal que, a serviço de fazendeiros e empresas estrangeiras, viravam as costas às diversas famílias que se viam expropriadas de suas terras.

As fotografias da CPT não são apenas registros vinculados ao movimento de ocupações e desapropriações, mas de enfrentamento contínuo, em que homens e mulheres “vítimas da ausência das políticas públicas” lutam por seus direitos. Quantos agricultores foram brutalmente assassinados diante de suas famílias? Quantas mulheres foram violentadas na frente de seus filhos, abusadas, exterminadas? Quantas vidas se perderam nessas terras da Amazônia a mando de fazendeiros, em razão de sua sede por terra e poder”? Muitos foram os casos registrados, pela CPT. Só para ter uma ideia, Airton Pereira (2017, p. 30) contabiliza que, só em 1985, foram registrados 108 assassinatos. Entre janeiro de 1985 e novembro de 1986, no estado do Pará, tivemos 11 mulheres assassinadas em conflitos agrários (BEZERRA; ALVES, 2017, p. 59 e 60)

Esses dados remetem a uma fotografia (Figura 3) de autor desconhecido, de parentes de posseiros assassinados na Fazenda Ubá, localizados em São João do Araguaia. Uma chacina com requintes de crueldade. Entre 13 e 18 de junho de 1985, oito pessoas foram assassinadas por pistoleiros a mando do fazendeiro José Edmundo Ortiz Vergolino, por invadirem as terras de seu castanhal. Inclusive, foram mortas uma adolescente e uma mulher grávida. Esse massacre ficou conhecido como “chacina de Ubá”. Um caso de grande repercussão nacional e internacional. O julgamento ocorreu em 2006 com o fazendeiro condenado a 152 anos de prisão junto com um dos pistoleiros, o Sebastião Terezona; outros ficaram foragidos. Algo que chamou a atenção da imprensa foi o fato de a condenação do fazendeiro; até então, apenas os pistoleiros eram condenados (MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS, 2006).

Figura 3. Parentes de posseiros assassinados na Fazenda Ubá, 1985. Fonte: Acervo da CPT – Marabá. Autor desconhecido.

Podemos refletir a partir dessa imagem que, além da dor marcada pela ausência do ente querido, é possível pensar em uma mulher viúva que terá que enfrentar as dificuldades para criar seus quatro filhos. Não se pode precisar se essa senhora que inclina o olhar para a criança é sua avó ou a mãe do marido assassinado; geralmente, essas avós integravam e faziam parte da mesma casa no assentamento. Com olhos curiosos diante do fotógrafo, a imagem revela crianças e adultos atentos aos sinais da câmara que, por instantes, fixará seus movimentos em determinado tempo e espaço.

Esse texto buscou, em poucas palavras, ressaltar o papel das mulheres nos movimentos sociais e da luta pela terra. Tendo como eixo investigativo as fotografias, elas apontam e sinalizam o quanto sua atuação é determinante para a organização dos assentamentos e dos conflitos. Nas fotos, essas mulheres — que em muitos momentos são vistas apenas como acompanhantes do marido ou donas de casa — são visualizadas como pessoas atuantes em várias esferas de sua trajetória social e política. Tão vítimas quanto o homem, sua força enfrenta preconceitos, posicionamentos políticos, violência que procuram neutralizar sua participação e suas ações. Apesar de serem produzidas em momentos distintos, as imagens abarcam, em seu conteúdo, temáticas que se conectam, interligam-se diante de suas representações femininas e dos diversos papeis assumidos por mulheres em contextos múltiplos.

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. A câmara viajante. In: MARIGO, Luíz Claudio et al. Mata Atlântica. Rio de Janeiro: Chase, 1984.

BEZERRA, Rosemayre; ALVES, Ailce Margarida Negreiro. In: SILVA, Idelma Santiago de. [et al]. Mulheres em perspectiva: trajetória e resistência na Amazônia. 1ª ed. Belém, Pará, Paka-Tatu, 2017.

KOSSOY, Boris. Realidades e Ficções na Trama Fotográfica. 5ª ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2006.

MAUAD, Ana Maria. Fotografia pública e cultura do visual, em perspectiva histórica. REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA DA MÍDIA. v, 2., n.2, 2013.

______. O olhar engajado: fotografia contemporânea e as dimensões políticas da cultura visual. ARTCULTURA. Uberlândia, v. 10, n.16, p.33-50, jan-jun, 2008.

MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS. Mandante da Fazenda Ubá é condenado. Disponível em http://www.mdh.gov.br/importacao/noticias/ultimas_noticias/2006/12/MySQLNoticia.2006-12-14.120

PEREIRA, Airton dos Reis. Do posseiro ao sem terra: a luta pela terra no sul e sudeste do Pará. Recife: EdUFPE, 2015.

______. A participação das mulheres trabalhadoras rurais na luta pela terra no sul e sudeste do Pará (1975-1990). In: SILVA, Idelma Santiago de. [et al]. Mulheres em perspectiva: trajetória e resistência na Amazônia. 1ª ed. Belém, Pará, Paka-Tatu, 2017.

RIPPER, João Roberto. Imagens Humanas. Textos de Carlos Walter [et.al]. Trad. James Mulholland, Rio de Janeiro, Dona Rosa Produções Artísticas, 2009.

Fragmentos de um arquivo fotográfico: trilhas de uma pesquisa na Comissão Pastoral da Terra-Marabá-PA

Fragmentos de um arquivo fotográfico: trilhas de uma pesquisa na Comissão Pastoral da Terra-Marabá-PA

Geovanni  Cabral

Arquivo Fotográfico- CPT- Marabá-PA

Nos últimos meses, venho desenvolvendo uma pesquisa na Comissão Pastoral da Terra (CPT), tendo como foco as fotografias dos movimentos sociais e dos conflitos pelo uso e ocupação da terra em Marabá-PA e cidades vizinhas. Tal imersão nesse acervo documental partiu de um projeto apresentado à Faculdade de História da Unifesspa, denominado “Ensino de História, fotografias e movimentos sociais: o arquivo da Comissão Pastoral da Terra CPT-Marabá. A pesquisa teve como um de seus objetivos reunir essas imagens mediante sua diversidade temática, possibilitando, dessa forma, seu uso e sua problematização nas aulas de História, associando ensino de História, fotografia e memória.

Percorrer os arquivos fotográficos da CPT foi algo bastante desafiador. Questionava-me sobre que registro imagético iria encontrar acerca dessa região, tendo em vista os inúmeros conflitos pela terra, assassinatos, desapropriações e desmatamentos. Como essas fotografias estariam organizadas e quem as produziu? Que “tempo congelado” estava nos álbuns fotográficos acerca da cidade, que poderia ser utilizado nas aulas de História? Aos poucos, fui me aproximando desses arquivos, como um arqueólogo diante de suas escavações.

Mobilização e campanha pela Reforma Agrária em 1987. Arquivo CPT- Marabá-PA

Chegando à CPT, fui bem recebido por Iranete e José Batista, aos quais já havia sido apresentado em uma das visitas à Pastoral. Estava ansioso para poder escrever, anotar e fotografar; registrar cada detalhe, cada vestígio que pudesse encontrar. Aos poucos, o silêncio se fez presente, uma luz branca insidia sobre a mesa, as fotografias se espalhavam sobre a mesa. Olhos fitos diante das informações, das memórias, das representações construídas em temporalidades distintas. Como historiador, comecei o trabalho sistemático, registrando e contando as fotos, verificando temáticas que se aproximavam ou distanciavam. Era o início de um longo percurso nesses arquivos; a dinâmica da cidade, a luta dos trabalhadores, as práticas sociais seguiam diante de meus olhos, fazendo-me relembrar de cenas do filme Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore de 1990, em que um garoto se divertia com os fragmentos de películas de filmes italianos.

O acervo fotográfico da CPT é composto por vários álbuns e envelopes que se distribuem por diversidade temática e ano de produção. Em muitos, serão encontradas etiquetas que direcionam o historiador, apontam o caminho para os movimentos e conflitos agrários. Em outros álbuns, não se tem o caminho, o direcionamento das imagens, o que é próprio da natureza de um arquivo que se insere na desordem de sua localização, aguçando a curiosidade em suas pastas. Mas, tal fato não foi impeditivo, muito pelo contrário, suscitou novas experiências investigativas.

Que fotografias foram encontras, a princípio, nos álbuns da CPT? Que representações da cidade de Marabá ou de seu entorno foram localizadas? Não irei, aqui, descrever todas as fotografias encontradas, pois, fugiria de meu objetivo que é relatar esse percurso de encontro, olhares e leituras. Farei isso em outro momento especificamente. A princípio, as fotografias que se apresentavam em minha frente registravam a romaria de libertação, a luta pela reforma agrária, a ocupação de terra, o movimento de trabalhadores pela posse da terra, o desmatamento, os inúmeros assassinatos e massacres, os conflitos com a polícia, o encontro de mulheres em diversas ações, os projetos em assentamentos, o registro do cotidiano de homens e mulheres em acampamentos, assentamentos e conflitos.

Posseiros de Pedra Lisa – Eldorado dos Carajás Arquivo CPT- Marabá-PA

Essa diversidade temática permite pensar, refletir e problematizar acerca da região e de suas fronteiras. Seus desafios frente ao homem do campo, à exploração do trabalho escravo, à memória de homens e mulheres, à luta entre o posseiro e o sem-terra. Nas fotografias desses arquivos, encontraram-se as memórias e os cenários de desrespeitos, a negação dos direitos humanos e a violação da vida e da terra. Nessas imagens, foram encontrados registros efêmeros das práticas cotidianas da luta pela terra no sul e sudeste do Pará, envoltos em intenções de produção, cenários, ideologias e mensagens. Contudo, encontrou-se uma fonte documental que, ao ser analisada em sua especificidade histórica de produção, possibilitou conhecer esse tempo passado e presente que se constituem nos cenários fotográficos.

Despejo de família em assentamento. Arquivo CPT- Marabá-PA

A fotografia tem uma história e, partindo desse ponto, sabe-se que sua criação é permeada por uma produção e recepção. Sendo uma realidade construída, está associada a elementos estéticos, comunicativos, políticos e intencionais. Sua análise permite caminhar entre o antes, o durante e o depois de sua produção e materialização. É o lado humano que capta e registra esse tempo, escolhe o melhor ângulo, compõe cenários e fotografa o que deseja e, também, o acaso. Analisando as fotografias da CPT, é possível deparar-se com essas questões que envolvem o universo de sua produção, da questão autoral, do registro preciso no momento do despejo e do corpo estirado no chão, mas também daquela foto que capta os anônimos, os cenários não escolhidos, os instantes silenciados.

A pesquisa continua; os desafios também, diante dessa leitura do tempo congelado, representado. A princípio, meu objetivo era mostrar na disciplina de prática continuada a importância desse acervo para problematizar os conflitos agrários na região, tendo como fonte o uso dessas fotografias e atentando para o fato de que essas imagens são representações de uma realidade e não verdades históricas, como muitos acreditam ser a fotografia, o testemunho do real, tal qual aconteceu. Analisar criticamente tal fonte permite caminhar por esse universo de produção, tecnologia e intenções. Levar essas fontes documentais para a sala de aula, inserir em atividades pedagógicas, fazer comparações entre registros diferentes de tempo, a meu ver, constituem algo de suma importância, principalmente para o ensino fundamental e médio que se veem inseridos nessa efemeridade imagética.

Desmatamento e transporte da madeira. Arquivo CPT- Marabá-PA.

Compreender a luta pela terra no sul e sudeste do Pará por meio desses registros possibilita aos estudantes uma maior compreensão da sua região, da sua história que nem sempre é contada nos livros e materiais didáticos. Muitas dessas histórias de lutas e enfrentamentos são silenciadas, esquecidas e negadas. Quantas narrativas se perderam nas águas e margens dos rios Itacaúnas e Tocantins? Contudo, quantos registros orais e imagéticos permanecem resistindo ao tempo e à memória? Sabe-se das lágrimas que ficaram congeladas na face de mulheres e homens, dos olhares tristes diante da fome, do abandono do estado e das políticas públicas, dos “gritos” das árvores ao serem ceifadas, das crianças sem esperança. Porém, encontra-se também o registro do sorriso, do trabalho honesto e da luta pela sobrevivência nas lavouras e na floresta.

Henri Burin des Roziers, padre e advogado defensor dos Direitos Humanos

Henri Burin des Roziers, padre e advogado defensor dos Direitos Humanos

Airton dos Reis Pereira

No domingo, dia 26 de novembro, recebi uma mensagem do frei Xavier Plassat, Coordenador da Campanha Nacional de Prevenção e Combate ao Trabalho Escravo, da Comissão Pastoral da (CPT) comunicando o falecimento súbito de Frei Henri Burin des Roziers, em Paris. Com o coração apertado não contive as lágrimas. Mesmo sabendo que ele estava com saúde frágil, a esperança era que ele se recuperasse e voltasse ao Brasil para continuar fazendo o seu trabalho na defesa dos camponeses e camponesas do sul do Pará.

Foto: Arquivo de Ricardo Rezende Figueira

Quem o encontrasse pela primeira vez não poderia imaginar que um padre francês de estatura média, 87 anos, cabelos brancos, sotaque carregado, andar calmo, sorrisos nos lábios e brincalhão, não fosse tão odiado por muitos fazendeiros e amado pelos camponeses no sul do Pará. Não por acaso que muitos o conhecia como o “advogado dos pobres”. Henri des Roziers era um frade dominicano (Ordem dos Frades Pregadores fundada por Domingos de Gusmão, de Caleruega, Espanha, em 1215). Residiu por 22 anos no sul do Pará (cidades de Rio Maria e Xinguara), onde, como advogado da Comissão Pastoral da Terra, se dedicou à causa dos direitos humanos. Filho da alta aristocracia francesa, nasceu em 18 de fevereiro de 1930 na cidade de Paris. Embora muito pequeno acompanhou de perto a participação de sua família no movimento de resistência ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial. Seu tio Etienne Burin des Roziers, grande amigo de Michel Foucault, foi um dos grandes ativistas do movimento de resistência, sendo mais tarde secretário de governo de Charles de Gaulle e embaixador em Varsóvia e em Roma.

Entre 1954 e 1956, Herni des Rozier foi subtenente das Forças Armadas Francesa na África. Serviu como mensageiro na Tunísia, Marrocos e Argélia, países em processo de descolonização da França. Lá viu de perto os problemas sociais, entre eles o racismo de grande parte da sociedade francesa. Em 1956 foi licenciado em Letras pela Universidade de Sorbone. No ano seguinte foi diplomado em Direito Comparado pela Universidade Cambrigde, Inglaterra. Em 1958, aos 28 anos, concluiu Doutorado em Direito pela Universidade de Paris. A sua tese foi considerada a melhor do ano, recebendo o prémio Levy Ullman, e publicada em 1959 sob o título  “A distinção entre Direito Civil e Comercial e Direito Inglês”.

Durante o tempo em que esteve em Cambrigde conheceu o padre Yves Congar, teólogo dominicano condenado ao silêncio e ao exílio pelo Papa Pio XII por defender a reforma na Igreja Católica Romana. Esse contato o despertou para a vida religiosa. Em vez de enveredar-se na esteira dos grandes diplomatas, engenheiros e economistas como muitos de sua família, optou pelos caminhos de Santo Domingos de Gusmão. Quis ser dominicano. Entre 1959 e 1964, cursou Filosofia e Teologia pela Universidade Católica de Saulchoir, dos Dominicanos. A sua profissão religiosa, na Ordem dos Dominicanos, aconteceu em 1959 e sua ordenação sacerdotal em 1963. Depois de hesitar o convite de Frei Jean Rettenbach, Provincial da Ordem, aceitou ser Diretor do Centro Saint Yves, em Paris, entre 1964 e 1969. Esse centro católico dos estudantes das Faculdades de Direito e Ciências Econômicas da Universidade de Paris, foi o único a ficar aberto durante a revolução dos estudantes de Paris, em maio de 1968, e a organizar uma série de debates públicos sobre temas polêmicos que mobilizavam os estudantes, nessa época.

Ali os estudantes puderam refletir sobre a realidade, as condições de vida das camadas mais pobres e o sistema jurídico, econômico e político em vigor naquela época. O desejo de viver experiências com as camadas mais pobres da França fora dos muros de pedras dos conventos, impulsionou o jovem Burin des Roziers a ser operário da construção civil em Besançon, no leste da França, juntamente com o também dominicano e amigo Jean Raguenés. [1] Lá viveu por dois anos (1970 e 1971). Foi motorista de caminhão e depois operário da Empresa Rhodia. Nessa região, as empresas intermediárias, através do subterfúgio às leis, possibilitavam aos industriais utilizarem mão-de-obra barata escapando da legislação sindical que regiam o trabalho operariado, na época. Henri des Roziers foi um dos primeiros a utilizar os meios jurídicos para denunciar esse sistema.

Por volta de 1972, em Annecy, no sudoeste da França, foi trabalhar na administração pública de saúde. Liberado pelo diretor da instituição, dedicou a sua vida a solucionar legalmente o problema de moradia dos trabalhadores estrangeiros árabes em território francês. Expostos às intempéries, homens, mulheres e jovens ajudavam a construir a riqueza francesa. Militante das Associações de Defesa dos Direitos dos Trabalhadores Estrangeiros, Henri des Roziers encaminhou diversas ações jurídicas contra as autoridades por abusos de poder. Fez também inúmeras denúncias sobre o funcionamento ilegal de um hospital particular, que provocou a morte de doentes internados. O seu trabalho procurou fazer cumprir as leis de moradia e outros direitos para os expatriados árabes. Essa sua dedicação em favor dos mais pobres lhe rendeu vários processos. Acusado por difamação juntamente com mais quatorze militantes foi julgado. Depois de uma longa batalha em diversas instâncias, finalmente foi absorvido. Ainda na região, defendeu juridicamente trabalhadores rurais, que lutavam contra as grandes multinacionais produtoras de alimentos artificiais para a criação de bezerros.

Mediante contatos com jovens dominicanos brasileiros exilados na França, que falavam sobre a Teologia da Libertação e de toda a problemática de perseguição política e violência das ditaduras militares na América Latina, o jovem Burin des Roziers resolveu morar e trabalhar no Brasil. Ele queria vivenciar, com maior intensidade, na América Latina, a sua experiência que teve junto aos mais pobres da França. Depois de rejeitar por dois anos consecutivos a entrada de missionários franceses em território nacional, finalmente o governo brasileiro liberou a sua entrada no país. Como o seu visto estava demorando muito, havia solicitado entrada no Peru. Contudo, a sua opção foi pelo Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro, em 15 de dezembro de 1978.

Os seus primeiros dias foram dedicados à problemática social das periferias do Rio de Janeiro. A comunidade dos dominicanos passava ainda por momentos difíceis em razão da perseguição, prisão e torturas de alguns frades pelo regime da ditadura miliar. Vários padres estavam exilados na Europa. Frei Tito de Alencar, por exemplo, esteve exilado na França com problemas graves de saúde devido as torturas sofridas pelo delegado Sérgio Fleury. Suicidou-se em agosto de 1974.

Henri acreditava que o seu visto foi possível porque se articulava na época, depois da morte de Pio XII, a eleição de um novo papa. Os militares tinham interesse pela eleição do Núncio Apostólico do Brasil, Dom Sebastião Baggio, bispo que, segundo ele, não tomou partido em favor dos presos e torturados da ditadura. Os militares queriam demonstrar abertura política com a chegada de padres estrangeiros no país.

Tão logo, quando participava de um curso para missionários estrangeiros oferecido pelo Centro de Formação Intercultural (CENFI)[2] ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília, entrou em contato pela primeira vez com a Comissão Pastoral da Terra (CPT). A sua paixão pelo trabalho da CPT, que se iniciou naqueles dias frios na capital brasileira, durou até o dia 26 novembro data de seu falecimento no convento de Saint-Jacques, em Paris.

Interessado pelo trabalho da pastoral da terra não esquivou ao convite para participar de uma assembleia dos agentes da CPT Regional Araguaia-Tocantins, em Miracema, no norte de Goiás, hoje estado do Tocantins. Henri, que pouco entendia o português, aceitou morar, conviver e trabalhar na conflituosa região do Bico do Papagaio. Os que deveriam ser apenas seis meses de trabalho, se transformaram em dez anos de dedicação aos camponeses daquela parte do território nacional, sobretudo posseiros que viviam em constante processo de marginalização e perseguição por parte de latifundiários e órgãos governamentais que defendiam os fazendeiros.

Foto: Arquivo CPT Xinguara-PA

Embora que seus diplomas e documentação profissional tenham sido reconhecidos no Brasil, somente em 1984, pode assumir a causa dos trabalhadores rurais da região como advogado. Ali foi companheiro muito próximo de Padre Josimo Tavares no apoio à luta dos trabalhadores na defesa de suas terras, contra a violência organizadas por grileiros e grandes fazendeiros. Padre Josimo foi assassinado em 10 de maio de 1986 a mando de latifundiários. Mesmo perseguido, Frei Henri continuou firme com o trabalho da pastoral da terra no Bico do Papagaio. O seu papel como assessor jurídico da CPT, principalmente, em tempo de violentos conflitos agrários naquela região durou até 1990.

Após estes dez anos no Brasil, Henri des Roziers conseguiu, então, dos superiores da Ordem Dominicana um tempo para descansar e conhecer outras experiências, denominado Ano Sabático. Na entrevista concedida em 06/12/2010 me disse: “O meu ritmo é que de cada dez anos eu deva mudar como foi o caso de quando eu estava na França trabalhando junto aos estrangeiros das ex-colônias africanas. Então eu pequei um ano sabático, não fui para as universidades como se faz normalmente para se reciclar. Eu me reciclei a partir da realidade da América Central, com pessoas de países que haviam passado pela ditadura, mas também de muita resistência como a Nicarágua”.

Após quatro meses na América Central, Peru, Chile e Bolívia decidiu se mudar para a Guatemala. Iria conviver com os camponeses daquele país, sobretudo, os indígenas. As malas estavam prontas e as passagens compradas, mas um acontecimento trágico alterou os seus planos. Expedito Ribeiro de Souza, poeta e sindicalista de Rio Maria, no sul do Pará, foi assassinado em 02 de fevereiro de 1991. No ano anterior os sindicalistas Braz Antônio de Oliveira e José e Paulo Canuto haviam sido assassinados. Outras lideranças e o padre Ricardo Rezende Figueira, na época vigário de Rio Maria, estavam ameaçadas de morte. Foi assim, que ele veio para o sul do Pará.  A decisão de ficar dois meses em Rio Maria fez com que a sua atuação na região se estendesse até 2013 quando, com saúde debilitada, voltou à França para fazer tratamento médico.

Henri des Roziers, amante dos rios, da floresta, dos pássaros e dos camponeses foi severamente odiado por diversos fazendeiros e madeireiros do Pará. O seu trabalho incomodou os grandes proprietários de terra, sobretudo os desmatadores e escravagistas. Pistoleiros, policiais torturadores e de fazendeiros foram presos, julgados e condenados como foi o caso do latifundiário Jerônimo Alves de Amorim, mandante do assassinato de Expedito Ribeiro de Souza, que foi condenado a 19 anos e seis meses de prisão em regime fechado.

Foto: Arquivo CPT Xinguara-PA

Além do trabalho no âmbito da Campanha Nacional de Prevenção e Combate ao Trabalho Escravo, coordenada pela CPT, Burin des Roziers moveu processos contra o governo brasileiro perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), em razão de sua omissão na defesa dos direitos humanos pelo caso da prática de trabalho escravo na fazendas Espírito Santo e Brasil Verde, no sul do Pará. Nos dois casos o Estado Brasileiro foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. Desde então passou a ser ameaçado de morte e, diversas vezes, foi difamado por fazendeiros e autoridades governamentais que defendem o desenvolvimento pautado na grande propriedade da terra, na exploração indiscriminada dos recursos naturais e na destruição da floresta nativa para a criação de gado bovino. Por esta razão passou a receber, desde 23 de fevereiro de 2005, proteção policial. Dois militares escolhidos pelo próprio Burin des Roziers ficavam vinte e quatro horas com ele, mesmo quando presidia as missas dominicais na catedral ou nas comunidades rurais.

Mas o seu trabalho na defesa dos direitos humanos teve reconhecimento nacional e internacional, fato que foi condecorado no Brasil e no exterior. Isso, de certa forma, fortaleceu a luta dos trabalhadores e trabalhadoras rurais da região. Em 1994, o Presidente da República Francesa, François Mitterrand, enviou o seu embaixador no Brasil a Rio Maria para concedeu-lhe o título de “Legião de Honra”, considerado a ordem máxima da nação francesa para os seus cidadãos.

 Em abril de 2002 Henri recebeu, no Rio de Janeiro, a Medalha Chico Mendes de Direitos Humanos, do Grupo Tortura Nunca Mais. Em 2003 foi congratulado com a Comenda da Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho do Tribunal Superior do Trabalho e em 2005 recebeu o Prêmio Internacional dos Direitos Humanos Ludovic-Trarieux concedido pelo Instituto dos Direitos do Homem da Ordem dos Advogados de Bordeaux e pelo Instituto dos Direitos do Homem dos Advogados Europeus (European Bar Human Rights Institute). Henri Burin des Roziers foi o 10º advogado a receber este prêmio. Em 1985, o escolhido foi Nelson Mandela, símbolo da luta contra o Apartheid na África do Sul.

Em 2009 recebeu os prêmios Alceu Amoroso de Lima de Direitos, no Rio de Janeiro e José Carlos Castro de Direitos Humanos, da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Pará. Em 9 de dezembro de 2013, às véspera do 65º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, depois de ter voltado à Paris, foi condecorado com o Prêmio João Canuto de Direitos Humanos, do Movimento de Humanos Direito com sede no Rio de Janeiro. Sem poder estar presente, foi representado pelo advogado e agende da CPT de Marabá, José Batista Gonçalves Afonso.

Foto: Arquivo de Ricardo Rezende Figueira

Henri des Roziers viveu intensamente a compaixão pelas pessoas mais pobres, sobretudo os trabalhadores e trabalhadoras rurais da Amazônia. Admirador de Bartolomeu de Las Casas dedicou a sua vida no combate ao trabalho escravo, na luta pela reforma agrária e pelos direitos humanos. Sem poder voltar ao Brasil, faleceu no seu quarto do Convento Saint-Jacques, em Paris, onde está a biblioteca dos Chorões visitada por diversos intelectuais, como Michel Foucault e tantos outros pensadores franceses.

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Estreia da coluna Entre rios e fronteiras

Entre Rios e Fronteiras

Geovanni Cabral

Essa coluna é filha de um encontro, resultante de um percurso. Encontro histórico, antes que geográfico. União humana, política, social e relacional para a conferência de abertura da aula inaugural do curso de especialização Ensino, Educação História e Direitos Humanos promovido pela Faculdade de História da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará – Unifesspa (Figura 1).

Figura 1. Encontro na Conferência da aula inaugural do curso de especialização Ensino, Educação Histórica e Direitos Humanos, 27 outubro 2017. Fonte: Acervo Pessoal.

Convidamos a professora Ana Dietrich, após excelentes debates e reflexões neste primeiro momento, nos deslocamos para outros pontos da região. Fomos conhecer o encontro das águas, dos rios Tocantins e Araguaia, que banham a parte geográfica denominada Bico do Papagaio, espaço que abarca parte do Pará, do Maranhão e do Tocantins (Figura 2). Local de junção das águas, dos peixes, de pessoas e de embarcações.

 

Figura 2. Bico do Papagaio, local do encontro das águas, lado esquerdo Rio Tocantins e lado direito Rio Araguaia Fonte: Acervo Pessoal.

Percorrendo as águas esverdeadas e volumosas do rio Araguaia, entre risos, brincadeiras, medos e palavras ao vento, recebemos o convite da professora Ana Dietrich para fazer parte da Revista Contemporartes, criando uma coluna cujo objetivo seria contar e descrever um pouco de nossas experiências e pesquisas; narrar um pouco das nossas leituras e olhares por meio dos espaços urbanos e sua constituição histórica.

A ideia da escrita e o nome da coluna surgiram numa manhã de sol radiante, em um pequeno barco a motor, diante de olhares fitos na paisagem e nos movimentos das águas. Nesse movimento se insere a coluna Entre Rios e Fronteiras. Espaço plural, poliédrico e relacional. Lugar de fronteiras que nos leva em companhia com o movimento das águas, mas também das palavras. Dessas tessituras narrativas e fluviais chega essa revista eletrônica com suas histórias, representações, deslocamentos e expressões; tecendo leituras de lugares que compõem a Amazônia Oriental (Figura 3) e sua grande diversidade socioeconômica e cultural.

Figura 3. Localização da Amazônia Oriental. Fonte: https://www.sbcs.org.br/nucleos-regionais/

Percorrer essa coluna será um convite ao encontro de outras narrativas, de outras trilhas. Caminhos sinuosos, espaços curvilíneos e movimentos ondulares. O encontro narrativo da ‘Entre Rios e Fronteiras’ será perfilado por histórias e olhares que dão a ver experiências de vida de homens e mulheres cujos relatos pintam com palavras, leituras de outros “Brasis”. Fronteiras, margens, paisagem, natureza, vida, morte, seca, silêncios, gritos, desmatamento e lágrimas percorrem seus limites, estabelecendo discursos, criando narrativas e memórias.

Sendo assim, Entre Rios e Fronteiras pretende apresentar esse cenário desafiador, instigante em sua configuração e em sua cartografia como fio condutor que vem tecendo nossas histórias na cidade de Marabá-PA e de seus arredores. Os rios Tocantins, Araguaia, Itacaiúnas e tantos outros com suas fronteiras fluviais nos possibilitam pensar e problematizar essa Amazônia, esse espaço histórico, político e cultural (Figura 4). Pensar nas migrações, na violação dos direitos humanos de índios e imigrantes e no trabalho escravo que fere a dignidade humana. Permite refletir a exploração dos recursos naturais e de seus impactos ambientais, na extração do ouro, do caucho, dos castanhais, do corte de madeira ilegal em nome do progresso, modernização e desenvolvimento.

 

Figura 4.Hidrografia paraense. Fonte: Revista Espacios, v.33, n.4, 2012.

Diante dessa diversidade temática e seus contextos históricos, os professores Geovanni Cabral, José Amilton, Maria Clara e Airton Pereira tomam como ponto de partida suas histórias, pesquisas e leituras para compor essas narrativas.  Todos eles seguem nesse chão amazônico, nesse calor humano estabelecendo laços e pontes a essas fronteiras. Quem são esses historiadores que se encontraram no Norte desse país, vindo de diferentes cidades ingressando na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará e na Universidade do Estado do Pará (UEPA).

Das terras pernambucanas, veio Geovanni Cabral, com estudos na área da literatura de cordel e no ensino de História. De São Paulo, José Amilton e Maria Clara com pesquisas na área do planejamento das cidades e teoria da história, com escravidão e questões étnico-raciais, respectivamente; ambos trabalhando na Faculdade de História da Unifesspa. E de Marabá-PA contamos com o professor Airton Pereira, o qual se destaca com suas pesquisas voltadas para a ditadura militar, movimentos sociais, conflitos e violência do campo e trabalho escravo contemporâneo na Universidade do Estado do Pará – UEPA.

Portanto, são esses pesquisadores mencionados acima, que residem atualmente na cidade de Marabá- PA, que se propõem com suas especificidades e experiências pesquisar, contar e escrever aspectos desse espaço histórico, político, humano e cultural.   Sejam bem vindos a essas leituras, a essas memórias das águas, rios e fronteiras!!!!