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Author: Geovanni Geovanni Cabral

Calçadas sem Exclusão. Caminhar faz bem, Marabá!

Sergio Moreno Redón

Professor  Unifesspa (IEDAR) 

Marabá é uma cidade sem calçadas?! Uma pergunta que parece retórica, e cuja resposta parece simples, e pode parecer até evidente, especialmente para quem caminha nesta cidade. Tão evidente, que no dia 01/06/2018 a Prefeitura anunciou a construção de 4.400 metros de calçadas para melhorar a acessibilidade, além dos 5 quilômetros que já foram contratados. Esta realidade merece uma reflexão porque afeta à vida cotidiana de todos os marabaenses. A reflexão pretendida aqui é acerca da funcionalidade urbana das calçadas, que requer não apenas da sua existência, mas da sua qualidade e conexão, o que permite a criação de espaços não excludentes, harmonizando os elementos do mobiliário urbano e o ir e vir dos cidadãos, além de gerar benefícios sobre a vida social da cidade.

Fundamentais, as ruas e as calçadas são o espaço público basilar de uma cidade. Básicos porque eles permitem a união entre as residências privadas e o espaço público. Função que é cumprida especialmente pelos fragmentos de calçadas. Neste sentido, pode-se pensar que Marabá, sim, tem bastante fragmentos (calçadas que não se conectam). Porém, falar da existência das calçadas não é só nos referir a sua presença física, e sim a sua outra função de circulação. Porque as calçadas servem, primeiro de tudo, para à circulação de pedestres. E para que sejam úteis nesta tarefa, e maximizar os benefícios de uso individual e coletivo, devem apresentar duas qualidades fundamentais, ‘continuidade” e ‘separação de circulação’. De um lado, a continuidade do conjunto de fragmentos em boas condições, isto é, sem obstáculos (buracos, árvores ou postes, etc.), e sem diferenças consideráveis entre as alturas, inclinações e os materiais utilizados. E de outro lado, a separação de tipos de circulação protege os pedestres dos caminhões, carros, motos e bicicletas, separando os espaços onde cada um circula e minimizando desta forma as invasões de uns no espaço dos outros. Característica tão importante quanto a primeira.

Foto 1. Dificuldade de acesso e continuidade da calçada da Av. Antônio Maia, no centro da Marabá Pioneira. Fonte: Acervo Sérgio Redón.

A existência de boas calçadas tem, além da circulação e da proteção, outros benefícios derivados da combinação dos seus usos e das atividades urbanas. Por exemplo, em áreas comercias intensifica o número de consumidores que circularia. Exemplo disso é a Orla de Marabá. Nos bairros e nas grandes avenidas incita ao uso esportivo e a uma vida menos sedentária, tão necessária hoje. As calçadas, ou calçadões, transformam-se em pistas para caminhadas, pedaladas, lazer, descontração, descanso e atividades recreativas. Tornam-se, portanto, um espaço de socialização e convivência. Também melhores calçadas é a forma principal de oferecer maior autonomia às crianças e às pessoas com algum tipo de deficiência. Além disso, como argumentava a jornalista e ativista norte-americana Jane Jacobs, calçadas mais transitadas geram maior segurança, na acepção de mais olhos vigilantes e mais possibilidades de ser ajudado. É neste sentido, que a mesma autora argumentava que uma cidade se mede pelas suas ruas, quando se fala de uma cidade segura significa que as suas ruas são seguras.

Foto 2. Pista de corrida reformada na Av. Vp-Três, sem faixa de pedestre desde a Praça da Criança na Nova Marabá. Fonte: Acervo Sérgio Redón.

Foto 3. Falta de continuidade e acessibilidade entre a calçada do Hotel Vale Tocantins e a reforma da Av. Vp-Três, na Nova Marabá. Fonte: Acervo Sérgio Redón.

Os exemplos de calçadas ou espaço público com este tipo de benefícios em Marabá são raros. Contudo, destaca outro lugar, a praça de São Felix de Valois, na Marabá Pioneira. Uma praça feita para patinadores e que por este motivo, poder patinar, ela reúne um piso de qualidade, redução e separação clara da circulação de carros e continuidade com as ruas ao redor. Ademais, sua localização, na área central da Velha, entre bairros residenciais, ruas comerciais e área turísticos, faz que os usos sejam diversos, por usuários diferentes e em tempos distintos. Ao contrario desta praça, as calçadas perdem estas funções quando contem ‘barreiras arquitetônicas’ ou estão cheias de obstáculos e inconexões.

Foto 4. Cidadãos curtindo na Praça de São Felix de Valois, Marabá Pioneira. Fonte: Acervo Sérgio Redón.

A insuficiência geral das calçadas expõe cotidianamente a todos nós, marabaenses ou não, ao perigo, à exclusão e a uma cidade mais insegura. Perigo quando tem que compartilhar o mesmo espaço cidadãos e caminhões. As crianças quando vão à escola, os pais quando vão recolhê-los, e qualquer um quando vai trabalhar, comprar ou simplesmente sair na rua. Sendo ainda pior para as camadas mais pobres, que carecem de veículos, ou para as pessoas com algum tipo de deficiência. Exclusão, porque qualquer espaço público que não inclua a todos é, por definição, excludente. O que explica a pouca atenção que é dada ao tema. E se não participamos do espaço público, como vamos reivindicar um melhor espaço público? E mais insegura, porque as ruas sem pessoas expulsam as pessoas, mais do que atraí-las.

Esta grave situação, acredito eu, intensifica a inversão de valores na mobilidade urbana, e uma falta de debate deste fenômeno. Nesta hierarquia de importâncias, a realidade é que tem mais direito quem tem o carro maior. Por tanto, é imprescindível restabelecer a ordem lógica em benefício de uma cidade que proteja e integre os cidadãos em situação desvantajosa. Em primeiro lugar, dando prioridade aos que caminham, seguido daqueles que se deslocam em veículos sem motor, como patins, skate ou bicicleta, e só depois, a aqueles que se deslocam em moto, carro, camionete, ônibus e caminhão.

E esta mudança deve começa pela intervenção em locais estratégicos, perto dos espaços coletivos, públicos e privados, como por exemplo, hospitais, áreas comerciais e de serviços, universidades e escolas. Principalmente nas escolas, onde está o futuro da cidade. Perto de uma escola não deveria estar permitido circular à mesma velocidade que na BR, realizar paradas temporárias nas faixas de pedestre e, sobretudo, a entrada de caminhões. Perto de uma escola, as calçadas deveriam oferecer as melhores condições.

Foto 5. Sem acesso para pedestre desde a Av. Vp-Três no Hospital Municipal, na Nova Marabá. Fonte: Acervo Sérgio Redón

Poucas cidades brasileiras estão completamente servidas de boas calçadas ou espaços públicos, mas esta realidade, produto também de carências históricas do planejamento urbano, não deveria justificar que Marabá, com quase 270.000 habitantes e aspirações de “capitalidade”, não tenha calçadas. Deve-se pensar uma Marabá com calçadas funcionais e integradoras das necessidades dos cidadãos, incluindo as de lazer e recreação. Uma Marabá que seja mais como a praça São Felix de Valois. Uma Marabá para viver e não só para trabalhar. Uma Marabá com qualidade do espaço público, onde os bebês possam engatinhar e todos os citadinos em geral sintam-se seguros e a vontade para socializar. A receita para se chegar a esta Marabá é um planejamento e uma organização urbana que agregue as calçadas na sua execução.

Referências

Jacobs, Jane. Morte e Vida de Grandes Cidades. São Paulo: Saraiva. 2000. [Primeira edição 1961]

Prefeitura de Marabá. Obras: Prefeitura já construiu mais de 4.400 metros de calçadas para melhorar a acessibilidade. http://maraba.pa.gov.br/obras-prefeitura-ja-construiu-mais-de-4-400-metros-de-calcadas-para-melhorar-a-acessibilidade/

 

Palavras e Momentos

Geovanni Cabral/ Unifesspa

É um Tempo de Guerra. É um tempo sem Sol… (Edu Lobo)

Fotografia da placa do Acampamento Hugo Chaves. Fonte: Acervo do autor.

A primeira vez que escutei o nome Marabá foi na aula do professor Jorge Siqueira, na disciplina “Seminário de Tese”, quando um amigo do doutorado, o professor Airton Pereira, ao expor sua pesquisa nos relatou os embates da luta pela terra no sul e sudeste do Pará. Lembro que projetou um mapa da região Norte, focando o estado do Pará, precisamente o município de Marabá, com vários círculos de tonalidade vermelha, representando os locais de conflitos, marcados por extrema violência, violação aos direitos humanos e assassinatos de trabalhadores rurais. A princípio, tecemos comentários, elogiamos seu percurso metodológico, as fontes documentais e a relevância da pesquisa em curso. Não tinha a ideia da dimensão do que tudo isso representava para a região Norte do País. Mesmo trabalhando com turmas do Ensino Fundamental e Médio, em disciplinas de História ou Geografia, os livros didáticos silenciam esses conflitos. Muitos põem uma pequena nota de forma superficial. Passaram-se alguns anos. Em dezembro de 2016, aporto na cidade de Marabá para poder participar da seleção no curso de História da Unifesspa. Estava na cidade dos “círculos” vermelhos, aquela de que, anos atrás, ouvi falar, permeada de histórias violentas e marcada pelos conflitos no campo.

Meses depois, estou tomando posse na universidade e migrando para a região. Olhos fitos e atentos aos sinais, estava diante do novo, de uma outra temporalidade. Ao mesmo tempo, um estrangeiro, como bem descreve Caetano Veloso em uma de suas letras. Perdido em suas folhas. Estava na Folha 31? Não. Na folha 28? Não sei. Uma cartografia que não conhecia e uma Transamazônica para desbravar. Era um retrato de uma Brasil que não conhecia. Foi nesse contexto que comecei a entender um pouco essas dinâmicas territoriais na Amazônia Oriental brasileira, percorrendo suas ruas, alguns municípios, aldeias indígenas e assentamentos. Assim como o cheiro da fumaça provenientes das queimadas, em pleno verão amazônico, o calor escaldante que nos impele às margens dos rios Tocantins e Itacaiúnas. Mas, também da luta dos trabalhadores rurais, das inúmeras famílias que sonham com um pedaço de terra para poder viver, plantar, morar e criar seus filhos.

Comecei a perceber o poder voraz e dilacerante das motosserras, ceifando as árvores para dar lugar ao agronegócio. Das injustiças cometidas por latifundiários, fazendeiros e pistoleiros se apossando de terras públicas, marginalizando e retirando à força famílias, crianças e idosos, destruindo suas casas e plantações. Em uma dessas minhas andanças, escutei grupos de jovens cantando com sorrisos e determinação a letra Eu vivo num tempo de Guerra. O espaço era um acampamento da juventude do MST, na curva do “S”, lugar de memória, lágrimas e dor. Relembravam o massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996. Aquilo foi como a passagem de um cometa em meus neurônios; lembrava de minha coleção.  Uma canção forte, precisa, letra de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri , cantada por Maria Bethânia no seu show  Opinião de estreia no Rio de Janeiro, em 1965, e gravado em vinil, em 1967. O Brasil vivia um Tempo de Guerra, os militares ditavam as regras, a ordem e a desordem.

E esse Tempo sem sol, esse tempo de guerra permanece vivo, presente e atuante, nos gritos das famílias que são expulsas de suas casas, nos choros das crianças que seguram as mãos de seus pais e percorrem os caminhos escuros dentro do mato, dos idosos que nem sempre conseguem alcançar seus filhos. São sombras do fogo que consomem suas memórias e suas histórias, que queimam a vida e o alimento, aos olhos da negligência dos poderes públicos. Esse Tempo de Guerra não passou; a letra volta em outros contextos, em outros “regimes de historicidades”, utilizando a expressão de François Hartog.

Antes de ser sem-terra, eu sou gente, sou um ser humano (Poliana Barbosa, novembro 2017, assentamento Hugo Chaves) 

Foi assim na madrugada de sábado, dia 28 de julho de 2018. O Tempo de Guerra mostrou sua face outra vez. Famílias do assentamento Hugo Chaves retornaram à Fazenda Santa Tereza e foram surpreendidos por “pistoleiros” e policiais militares armados que, furiosamente, saíram tacando fogo nas casas, destruindo plantações e expulsando mais de 450 famílias da localidade, conforme relatam alguns sites de notícias, como o G1 – Pará e o Rede Brasil Atual. “Sem lenço e sem documento” essas famílias estão acampadas no Assentamento 26 de Março, sobrevivendo da solidariedade de doações e de grupos que estão se mobilizando para ajudar.  A violência se fez presente no ímpeto de homens armados que não pouparam objetos, casas, móveis, documentos e, muito menos, crianças; defendendo os interesses do latifundiário Rafael Saldanha, que em dezembro de 2017 teve o direito reconhecido pela justiça local de reintegrar as terras de sua fazenda.

Fotografia do MST. Casas e objetos queimados.

O conflito, nesse espaço geográfico, estende-se desde o dia em que famílias sem terras, vindas de várias localidades, como Marabá, São Domingos, São João e Itupiranga chegaram às terras da Fazenda Santa Tereza e as ocuparam. Era 8 de junho de 2014. Segundo o MST, essas terras foram griladas e deveria entrar na lista da Reforma Agrária um gargalo que se perpetua no sul e sudeste do Pará, desde a década de 1970, tornando a região uma das mais violentas do País em termos de conflitos agrários.

De 2014 a 2017, essas famílias vêm sendo perseguidas e ameaçadas, e tiveram casas e roças incendiadas, mas sempre resistindo e buscando, junto às autoridades locais e nacionais, meios legais de permanecerem na localidade tomando conta da terra. Na entrevista de Polliane Soares, em 12 de novembro de 2017, publicada no canal Youtube, essa se mostrava preocupada com a ordem de despejo para dezembro do mesmo ano e relatava que o assentamento dispõe de escola municipal, inclusive mantida com recursos municipais, área de produção de farinha, arroz, abóbora, lavouras de subsistência, importantes para o sustento das famílias — produtos e frutos da terra, que eram negociados na Vila Sororó e na cidade de Marabá. Apreensiva com o despejo anunciado, indagava como deixar tantas crianças sem escola, idosos ao relento, lavouras e plantações para trás? Para onde ir? O que dizer para sua filha?

Polliane relata na entrevista que “[…] as pessoas perguntam porque estão no acampamento? Estamos no acampamento porque não temos condições de morar na cidade, porque não temos condições de comprar um pedaço de terra.” E continua: […] a gente está no acampamento porque a gente sabe do caso de Santa Tereza, nós sabemos que a Santa Tereza é uma terra pública e foi grilada pela família Saldanha e nós não  estamos aqui reivindicando área particular, estamos aqui reivindicando área pública, área do estado, área que deveria ter sido destinado para a Reforma Agrária, para assentar  essas famílias que não têm condições de comprar essa terra, nós estamos aqui porque nós somos despossuídos, não estamos aqui porque não temos condições de criar nossos filhos na cidade. (Entrevista publicada por Luana Almeida no Yuotube).

As palavras de Polliane têm várias implicações e desdobramentos. Sinaliza o porquê dessa migração em busca de um pedaço de terra, dos enfrentamentos políticos, do sonho pela terra e por uma moradia digna para seus filhos e para a comunidade Hugo Chaves. O que se configura nesse campo de batalha não é apenas o uso e ocupação da terra. Não podemos esquecer as inúmeras famílias que lutam por seus direitos e por dignidade frente aos poderes, mandos e desmandos, de latifundiários, fazendeiros ou pistoleiros.

Poucos dias após a entrevista, a família Saldanha conseguiu na justiça o direito de reintegração de posse de suas terras. Famílias, sem teto, sem casa, em pleno mês de dezembro de 2017 foram obrigadas a pegar seus pertences, deslocar-se e montar o Acampamento no 26 de Março. O lamentável de tudo isso é ver os órgãos como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a Delegacia de Conflitos Agrários (Deca), a Polícia Militar e o Judiciário compartilharem o silêncio diante do despejo e de suas consequências. Daí a frase que abre essa sessão “Antes de ser sem-terra, eu sou gente, sou um ser humano”, trecho da última parte da entrevista de Polliane Soares, chorando e emocionada diante do descaso governamental, da marginalização, da negligência dos poderes locais. Durante o despejo que se concretizou, eles deixaram para trás, casas, sonhos, memórias de alegrias eafetividades.

Sendo obrigados a saírem por ordem judicial, seguiram em retirada para o Assentamento 26 de Março. Diante da falta de resposta para essas famílias por parte dos poderes públicos, eles retornaram na última quinta-feira, dia 26 de julho. Não tardou para a violência bater à porta outra vez e mostrar sua cara. Obrigados a saírem da fazenda Santa Tereza, na madrugada do dia 28, homens armados proporcionaram medo e revolta. Foi um cenário de Tempo de Guerra, de fato sem sol — era noite de lua cheia. A professora Idelma Santiago da Unifesspa foi até o Assentamento 26 de Março no sábado à tarde e saiu revoltada com os relatos da barbárie cometida.

Em suas palavras, descreve o horror relatado pelos moradores : […] pessoas de todas as idades. Muitos rostos gastos pelo tempo e pelo sol. Muitas crianças! Todas contavam. Os tiros, o fogo queimando tudo – os barracos, os documentos pessoais, os carros, as motos, os celulares e, os cachorros, atirados vivos para queimar no fogo na frente de todos/as indiscriminadamente. O que não foi queimado foi roubado (celular, dinheiro, dentre outros objetos). Um estudante da Unifesspa teve sua mochila queimada, com o livro que estava de empréstimo da biblioteca da Universidade. Depois, vêm os relatos da fuga para salvar a vida, incluindo o cuidado com aqueles que estão na mira da bala. A madrugada de famílias, crianças separadas, perdidas, salvas pelo         instinto e a coragem, onde os/as filhos/as são de todos. (Texto publicado em sua página do Facebook).

Para a professora, “[…] foi um ato criminoso de atentado contra a vida de pessoas indefesas, incluindo crianças, num conluio de agentes que na minha memória remonta à década de 1980, ainda na ditadura militar.” Lendo o relato da professora Idelma Santiago e sua indignação frente à retirada dessas famílias, perguntamo-nos até quando vamos presenciar tamanha violência nessas terras do estado do Pará? Quantas pessoas perderam suas vidas e outras continuam ameaçadas diante da ação de latifundiários, do agronegócio exportador que dilacera direitos e dignidade? Pessoas pobres, sem-terra, trabalhadores rurais não tem vida, dignidade, não merecem respeito em seus direitos enquanto cidadãos? Lamentável que o Tempo de guerra, o tempo sem sol volte percorrendo veias, sangrando, derramando lágrimas e aniquilando vidas.

Fotografia do MST. Carros queimados, casas destruídas. Violência no campo.

O acontecimento descrito nesse texto possibilita pensar nesse tempo histórico que, como um trem deslizando sobre os trilhos, carrega em seus vagões mudanças e permanências. Essas últimas pautadas na violência agrária que persiste nessas terras da Amazônia e em suas fronteiras. Um tempo que registra a “guerra” do agronegócio, das queimadas, das plantações de soja e milho, dos castanhais que cederam lugares para o gado bovino. Nesses vagões, segue a luta pela reforma agrária, a luta por dignidade e respeito em terras “sem lei”. Até quando vamos viver esse “tempo de guerra, esse tempo sem sol?

Referências

 

G1- Pará. Disponível em:  <https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2018/07/28/policia-investiga-suposto-ataque-em-fazenda-reocupada-por-trabalhadores-rurais-em-maraba.ghtml>. Acesso em: 29 jul. 2018.

Rede Brasil Atual. Disponível em: <https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2018/07/familias-de-acampamento-em-maraba-sao-ameacadas-e-atacadas-por-pistoleiros>. Acesso em: 29 jul. 2018.

SOARES, Polliane. Acampamento Hugo Chaves. 2017. (3:46 mim). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Sjws4AfY2VM>. Acesso em: 29 jul. 2018.

SILVA, Idelma Santiago de. O lado certo da História: solidariedade às famílias acampadas do Hugo Chaves. Disponível na página do Facebook. Acesso em: 30 jul. 2018.

 

Agradeço a leitura carinhosa e atenta de Erinaldo Cavalcanti e Idelma Santiago da Silva.

Registros de violação à dignidade humana: algumas considerações.

No dia 14 de abril de 2018, recebi o convite do professor Airton Pereira para participar das homenagens que seriam prestadas ao Frei Henri Burin Des Roziers (18/2/1930 –26/11/2017) no município de Xinguara-PA, distante de Marabá cerca de 245 km. Falou-me que seria um momento importante, por dois motivos. O primeiro seria o lançamento do livro Apaixonado por Justiça (2018) sobre Frei Henri, o qual é composto de entrevistas do frei acerca de sua trajetória e sua luta pelos direitos humanos no tocante ao uso e à ocupação da terra no Sul e Sudeste do Pará.

Fotografia e História: a participação das mulheres nos movimentos sociais

Fotografia e História: a participação das mulheres nos movimentos sociais

Geovanni Cabral

A fotografia em preto e branco sempre me chamou a atenção. Essa combinação que permite imaginar suas cores, formas, texturas — algo que vai além do campo visual na relação que se estabelece entre a imagem e o olhar do observador. Estar diante de uma fotografia, de algum álbum ou de uma exposição é algo que logo nos remete a um tempo, a uma história, a um instante de produção. Percebemos os ângulos, os posicionamentos, as estratégias de enquadramento, os silêncios e as leituras que fluem diante de nossa percepção. Muitas vezes, perguntamos com que intenções elas foram tiradas? Para quê? A pedido de quem? Por que este e não aquele foco? E muitas são as indagações (nem sempre com respostas); na maioria das vezes, o silêncio dita a regra.

Nas pesquisas que venho desenvolvendo com fotografias no campo do ensino de História, me chamam a atenção aquelas que direcionam para um engajamento político, as que os fotógrafos denominam fotografia documental. Aquelas que carregam em sua luz uma historicidade, um instante que traz possibilidades de leituras e conexões na sua apreensão e no seu congelamento. Cabe ressaltar que essas leituras não partem do princípio de que a fotografia é o testemunho da realidade, a “visão histórica” como tal e qual. Muito pelo contrário. Pensamos a fotografia nesse conjunto de intenções, memória, documento, multiplicidade temporal, técnica, criações, montagem e desmontagem. Como afirma Boris Kossoy (2016, p. 24 e 25): “[…] assim como as demais fontes históricas, as fotografias não podem ser aceitas imediatamente como espelhos fiéis dos fatos. Assim como os demais documentos, elas são plenas de ambiguidades, portadoras de significados, não explícitos, e de omissões pesadas, calculadas, que aguardam pela competente decifração.”

Com isso, utilizar fotografias na sala de aula, por exemplo, requer certos cuidados no que diz respeito a essas relações passado/presente e tempo/espaço; devemos ter um olhar mais que decifrador, percebendo, em sua fixação imagética, técnica de produção e uso, tendo em vista que as “aparências enganam”. Dependendo de sua criação, a fotografia pode muito bem apresentar distorções, evidenciando olhares, gestos, comportamentos, divergências e determinadas montagens para efeito de credibilidade e representação. Por isso, Carlos Drummond de Andrade (1984, p. 4) em um poema chamado A câmara viajante, traz uma reflexão acerca dessa máquina, que registra, fixa, mas chama a atenção para o ser que produz, que visualiza, que capta a imagem:

Que pode a câmara fotográfica?

Não pode nada.

Conta só o que viu.

Não pode mudar o que viu.

Não tem responsabilidade no que viu.

A câmara, entretanto,

Ajuda a ver e rever, a multi-ver.

O real nu, cru, triste, sujo.

Desvenda, espalha, universaliza.

A imagem que ela captou e distribui

Obriga a sentir,

A, criticamente, julgar,

A querer bem ou a protestar,

A desejar mudança. […]

Nesse debate entre realidades, tramas, produções e técnicas, as fotografias documentais carregam consigo uma narrativa visual que, diante de suas representações, possibilitam-nos caminhar e pensar em suas perspectivas históricas. Dentre essas imagens — e me reportando ao título desse ensaio, Fotografia e História: a participação das mulheres nos movimentos sociais — algumas fotografias do acervo da Comissão Pastoral da Terra (CPT) têm em seus registros a presença de mulheres em diferentes momentos de atuação e engajamento político. Essas fotografias, que apresentam essa função pública, segundo Ana Maria Mauad (2013, p. 13) “[…] indicam que se torna pública para cumprir uma função política, que garante a transmissão de uma mensagem para dar visibilidade às estratégias de poder, ou ainda, às disputas de poder.”Representam uma memória pública captada pelas lentes do fotógrafo que busca denunciar ou documentar os instantes históricos vivenciados por agentes sociais diversos.

As fotografias que captam a atuação das mulheres nos movimentos sociais, no sul e sudeste do Pará, permitem perceber que elas não estão de braços cruzados esperando o tempo passar. Muito pelo contrário, as mulheres têm um papel importante nesse processo de luta pela terra. O historiador Airton Pereira (2017, p. 34) relata que “[…] em muitas ocupações de terra, diversas mulheres participaram ativamente nas frentes dos confrontos e foram, em diversos momentos, submetidas à suma série de violências.”.

Podemos mencionar uma fotografia de João Roberto Ripper, localizada na pasta “Vários momentos da História da região e da luta do trabalhador rural pela posse da terra”, do acervo da CPT (Figura 1). Uma trabalhadora rural despejada, no município de Marabá, em 1979. Um ano em que foram registrados intensos conflitos de terras e violência na Amazônia oriental, conforme levantamento de Airton Pereira (2015).

Figura 1. Trabalhadora rural despejada. Pedra Lisa, Eldorado dos Carajás. Fonte: Acervo da CPT- Marabá. Foto de João Roberto Ripper, 1979.

Essa mesma fotografia faz parte do livro Imagens Humanas, de João Ripper, editado em 2009 (página 42); uma seleção de 195 imagens envolvendo esse “olhar de denúncia e defesa”. Observando essa fotografia, encontramos não apenas o trabalho de um conceituado fotógrafo, que vem atuando há 35 anos em registros da luta pela terra, da vida do camponês e dos movimentos operários. Mas também uma mulher que amamenta seu filho em pleno despejo de sua terra. Um semblante que pode exprimir dor, sofrimento, angústia e tantos outros sentimentos que emanam dessa leitura. Para Ripper, “[…] a técnica e a sensibilidade têm de andar juntas, porque a fotografia é uma extensão da personalidade de quem fotografa.”  Nesse contexto, ele aproxima sua máquina e foca, nesse instante, uma mulher que protege seu filho. Uma mulher que, como tantas outras, nas horas de desespero, violência e determinações judiciais, procura meios de proteção.

Em outra fotografia (Figura 2), da qual não localizei o autor, a participação da mulher fica mais evidente no que se refere ao cotidiano de sua atuação nos acampamentos. É ela quem cuida dos filhos, quem prepara a comida, toma conta dos mais velhos, ajuda o marido na construção e organização da casa e, ainda, encontra espaço e tempo para enfrentar a violência de fazendeiros e pistoleiros. Airton Pereira (2017, p.42) chama a atenção para o fato de que […] em outros momentos, estando na cidade, enviavam recados para os grupos de posseiros, avisando-os sobre diligência da polícia ou de um suposto ataque de pistoleiros. Em certas situações, eram elas que levavam munições para os homens entrincheirados, passando por barreiras policiais […].

Figura 2. Acampamento na Eletronorte – Tucuruí. Fonte: Acervo da CPT – Marabá. Autor desconhecido.

Percebemos, na análise anterior, que não estamos falando de uma mulher dona de casa e agricultora, apenas. Mas, de uma mulher dinâmica, que resiste e defende sua família e sua história, sendo, inclusive, capaz de se arriscar junto aos policiais, fazendeiros ou pistoleiros. A fotografia é composta por cinco mulheres adultas, três crianças e um rapaz; dessas, duas seguram uma faixa com os dizeres “Queremos terra para morar”. A disposição das pessoas na foto nos possibilita pensar no engajamento político dessas mulheres protegendo seus filhos, mas, ao mesmo tempo, denunciando sua indignação pela construção e ocupação de suas terras pela Usina Hidrelétrica de Tucuruí. A violência se estendia por todos os lados, diante do consentimento do aparelho estatal que, a serviço de fazendeiros e empresas estrangeiras, viravam as costas às diversas famílias que se viam expropriadas de suas terras.

As fotografias da CPT não são apenas registros vinculados ao movimento de ocupações e desapropriações, mas de enfrentamento contínuo, em que homens e mulheres “vítimas da ausência das políticas públicas” lutam por seus direitos. Quantos agricultores foram brutalmente assassinados diante de suas famílias? Quantas mulheres foram violentadas na frente de seus filhos, abusadas, exterminadas? Quantas vidas se perderam nessas terras da Amazônia a mando de fazendeiros, em razão de sua sede por terra e poder”? Muitos foram os casos registrados, pela CPT. Só para ter uma ideia, Airton Pereira (2017, p. 30) contabiliza que, só em 1985, foram registrados 108 assassinatos. Entre janeiro de 1985 e novembro de 1986, no estado do Pará, tivemos 11 mulheres assassinadas em conflitos agrários (BEZERRA; ALVES, 2017, p. 59 e 60)

Esses dados remetem a uma fotografia (Figura 3) de autor desconhecido, de parentes de posseiros assassinados na Fazenda Ubá, localizados em São João do Araguaia. Uma chacina com requintes de crueldade. Entre 13 e 18 de junho de 1985, oito pessoas foram assassinadas por pistoleiros a mando do fazendeiro José Edmundo Ortiz Vergolino, por invadirem as terras de seu castanhal. Inclusive, foram mortas uma adolescente e uma mulher grávida. Esse massacre ficou conhecido como “chacina de Ubá”. Um caso de grande repercussão nacional e internacional. O julgamento ocorreu em 2006 com o fazendeiro condenado a 152 anos de prisão junto com um dos pistoleiros, o Sebastião Terezona; outros ficaram foragidos. Algo que chamou a atenção da imprensa foi o fato de a condenação do fazendeiro; até então, apenas os pistoleiros eram condenados (MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS, 2006).

Figura 3. Parentes de posseiros assassinados na Fazenda Ubá, 1985. Fonte: Acervo da CPT – Marabá. Autor desconhecido.

Podemos refletir a partir dessa imagem que, além da dor marcada pela ausência do ente querido, é possível pensar em uma mulher viúva que terá que enfrentar as dificuldades para criar seus quatro filhos. Não se pode precisar se essa senhora que inclina o olhar para a criança é sua avó ou a mãe do marido assassinado; geralmente, essas avós integravam e faziam parte da mesma casa no assentamento. Com olhos curiosos diante do fotógrafo, a imagem revela crianças e adultos atentos aos sinais da câmara que, por instantes, fixará seus movimentos em determinado tempo e espaço.

Esse texto buscou, em poucas palavras, ressaltar o papel das mulheres nos movimentos sociais e da luta pela terra. Tendo como eixo investigativo as fotografias, elas apontam e sinalizam o quanto sua atuação é determinante para a organização dos assentamentos e dos conflitos. Nas fotos, essas mulheres — que em muitos momentos são vistas apenas como acompanhantes do marido ou donas de casa — são visualizadas como pessoas atuantes em várias esferas de sua trajetória social e política. Tão vítimas quanto o homem, sua força enfrenta preconceitos, posicionamentos políticos, violência que procuram neutralizar sua participação e suas ações. Apesar de serem produzidas em momentos distintos, as imagens abarcam, em seu conteúdo, temáticas que se conectam, interligam-se diante de suas representações femininas e dos diversos papeis assumidos por mulheres em contextos múltiplos.

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. A câmara viajante. In: MARIGO, Luíz Claudio et al. Mata Atlântica. Rio de Janeiro: Chase, 1984.

BEZERRA, Rosemayre; ALVES, Ailce Margarida Negreiro. In: SILVA, Idelma Santiago de. [et al]. Mulheres em perspectiva: trajetória e resistência na Amazônia. 1ª ed. Belém, Pará, Paka-Tatu, 2017.

KOSSOY, Boris. Realidades e Ficções na Trama Fotográfica. 5ª ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2006.

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