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Author: Éverton Siqueira

Novas colunas na Revista ContemporArtes

Querido leitor, 2019 é um ano mais do que especial para a Revista ContemporArtes.
Comemoramos 10 de anos levando conhecimento sobre Artes, História, Cultura, Literatura e muito mais, todos os dias, incansavelmente.
Para um ano mais do que importante, iniciamos novas colunas para reforçar ainda mais nosso grande time de colaboradores, que vai de Norte a Sul do país e rompe as barreiras geográficas mundo afora.
Vivemos um momento delicado socialmente, não só no Brasil, mas também no mundo, com a ascensão de regimes que não têm os Direitos Humanos como cláusula pétrea da vida em sociedade.
Para resguardar os direitos de todos e jogar luz sobre violações, lançamos a coluna Grupo de Pesquisa Educação em Direitos Humanos – UFABC, que terá organização da Profa. Dra. Silmar Leila dos Santos e contará com a Profa. Dra. Cacília Prado, Profa. Dra. Cristina Miyuki, Profa. Dra. Irene Franciscato e o Prof. Dr. Dimitri Sales, com o objetivo de trazer a visão destes grandes defensores da pluralidade, da vida e da Democracia.
No mesmo caminho, contamos agora com a grande participação da Profa. Dra. Vanessa Cavalcanti e do Núcleo de Estudos Sobre Direitos Humanos da Universidade Católica de Salvador, com vistas a ampliar a perspectiva de Direitos Humanos em nossa publicação e dar voz a autores que compõem este importante centro de pesquisa e debate sobre o tema, para que seja possível passar aos leitores um conteúdo que gere reflexão e que os emancipe da tutela do Estado.
Além destas duas novas iniciativas, um dos nossos editores, o querido Lucca Tartaglia, será o responsável pela coluna Escritos Contemporâneos, que contará com a participação de autores brasileiros e portugueses, num grande intercâmbio em favor das artes e do conhecimento, com foco na intermedialidade e estudos “inter-artes”, abarcando, como grande área, os estudos literários.
Nosso time se completa com a chegada de Cognitio Sensitiva, sob os cuidados de Marcos H. Camargo, com a proposta de abordar o conhecimento estético, que, segundo o autor, “é uma fronteira ainda um tanto desconhecida, que recentemente vem se intrometendo no debate acadêmico e intelectual, em função de novos avanços das ciências cognitivas e das neurociências”.
Confira um pouco mais sobre nossos novos parceiros, a quem desejamos muito boa sorte e sucesso nesta nova jornada:
Núcleo de Estudos Sobre Direitos Humanos – UCSAL
 
Vanessa Ribeiro Simon Cavalcanti:
Pós-doutorado pela Universidade de Salamanca (CNPq e CAPES, Brasil), Doutora em Direitos Humanos pela Universidade de Leon (Espanha). Investigadora associada ao Instituto de Sociologia da Universidade do Porto e integrante do Núcleo de Estudos sobre Gênero e Direitos Humanos (NEDH/UCSAL)
 
Grupo de Pesquisa Educação em Direitos Humanos – UFABC
Silmar Leila dos Santos:
Atualmente ocupa o cargo de Coordenadora Pedagógica na rede municipal de educação de São Paulo e é Professora no curso de Especialização em Educação em Direitos Humanos da UFABC (Universidade Federal do ABC).
Cecília Prado: 
Docente da Pós Graduação Lato Sensu Educação em Direitos Humanos/ UFABC. Mestre em Educação, História e Filosofia da Educação pela PUC/SP.
Cristina Miyuki Hashizume:
É professora do Programa Strictu Sensu (M/D) em Educação – UMESP e do Programa de Pós Graduação em Psicologia Educacional do UNIFEO. Mestre (2003) e Doutora (2010) em Psicologia Escolar (USP). Desenvolve pesquisas focando educação, saúde e precarização das condições de trabalho e Direitos Humanos.
 
Dimitri Sales:
Mestre e Doutor em Direito do Estado (PUC/SP). Presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana do Estado de São Paulo (CONDEPE). Foi Coordenador de Políticas para a Diversidade Sexual do Estado de São Paulo.
 
Irene Franciscato:
Graduada em Psicologia e Pedagogia, com Doutorado em Educação: Psicologia da Educação, pela PUCSP. Especializada na temática de Direitos Humanos pela USP (SP). Tem experiência na formação continuada de professores promovida pelo MEC. Atualmente exerce função de Coordenadora Pedagógica na Educação Básica.
 
Cognitio Sensitiva
 
Marcos H. Camargo:
É especialista em História do Pensamento Contemporâneo (PUC-PR, 1987). Pesquisador nas áreas de Filosofia, Estética e Semiótica. Autor do livro: Cognição estética: o complexo de Dante. São Paulo: Annablume, 2013; e do livro: Formas diabólicas: ensaios sobre cognição estética. Londrina: Syntagma, 2017.
 
Escritos Contemporâneos
 
Lucca Tartaglia:
É doutorando em Letras Vernáculas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui mestrado em Letras (Estudos Literários) pelo programa de pós-graduação da Universidade Federal de Viçosa (2014) e graduação em Letras (Língua Portuguesa / Literaturas de Língua Portuguesa) pela mesma instituição (2013). É editor da Revista ContemporArtes.

Abstração do acaso

René Machado desenvolve pintura cada vez mais gestual

A exposição LabUTA é composta por um conjunto de obras recentes de René Machado e abre para o público a partir do dia 16 de Abril na Casa de Cultura Laura Alvim.
O artista revisita suas origens profissionais como publicitário, incorporando-as à imagética variada e viva da arte urbana e às possibilidades artísticas que circundam a ideia de “pintura abstrata” na atualidade. Apresenta de forma imponderável a força estética das ruas, do grafite, da street art, da pop art com o impulso de pinceladas neo-expressionistas. Explora a idéia do efêmero a partir das inúmeras sobreposições de camadas de elementos.

 

O artista lança mão da serigrafia como marca da era industrial, da reprodutibilidade, do desgaste da imagem, ora ampliada trazendo apenas os pontos, ora imagens repetidas que lembram anúncios nos muros da cidade, sobrepostos com traços de spray, e inúmeras camadas de tintas. “Parte do processo envolve: fotografia, digitalização, impressão, serigrafia, ampliação e tratamento de imagens para impressões pictóricas em grandes suportes e inclusão de uma série de camadas. O trabalho sofre interferências de diferentes técnicas: óleo, acrílica, esmalte sintético, carvão e spray”, cita o artista.

 

O resultado despretensioso do trabalho de René também advém da “action painting”, seu traço descompromissado, as pinceladas livres, o gesto solto – oriundos de seu estilo que dispensa afetação.

 

As cores fazem parte de estudos do artista e seguem a mesma linha de liberdade do processo. Nesta exposição, algumas explorações mais sóbrias do verde, do azul, outras mais radicais trazem o rosa e laranja neon da década de 90, sempre entrepostas pela radicalidade dos pretos, explorados pelo carvão, spray, e esmalte sintético.

 

De acordo com a curadora Vanda Klabin o deslizamento de gestos é um processo de articular diferentes modos de ver, derivado da perda da imagem representativa da realidade, um contínuo fazer e refazer, obliterar e construir novos acessos.“Os campos picturais permeados por vibrantes contrastes, harmonias dissonantes, grumos espessos e alta voltagem cromática, têm uma conotação ambígua. A cor é o seu veículo expressivo e compatibiliza elementos díspares e dissonantes na estruturação da tela.” Diz Vanda.

 

Uma parte das obras se inspira no que René chama de “Frequência Morelenbaum”, as últimas inspirações vieram da sonoridade composições do álbum Central do Brasil de Jaques Morelenbaum – Toada, Alma e Central do Brasil, “Sempre que ouvia esse álbum, tinha vontade de decifrar as composições através de gestos, então escolhi estas músicas para produzir as obras no ritmo de cada uma delas”, revela o artista.

 

Nesta exposição René traz novidades como a fotografia, a colagem e a instalação revelando novas dimensões do processo criativo. A fotografia, ora como um desmembramento e ora como inspiração para as telas, contém paisagens urbanas, muros, painéis capturados em centros de cidades como Paris, Berlin e Barcelona. O olhar sempre atento à estética do efêmero, restos de cartazes, grafite, fixações, pinturas descascadas, são paisagens capturadas pelo artista que influenciam suas telas e agora fazem parte da exposição.

 

A colagem surge como um índice correlato da pintura, a partir de um material mais popular que é o papelão. Oriundo de caixas de produtos de marcas populares o material foi trabalhado com cores preponderantes nas telas durante o processo criativo, recortes, rasgos livres e colagem, revelam ainda novas dimensões para o conceito de descomposição e acaso. “Desconstrução, fazer e refazer fazem parte do processo, sobreposições, apagamentos, sinais de erros e acertos e desta forma as camadas vão se compondo, criando de forma aleatória o abstrato”, diz René.

 

 

TEXTO DE ANA MARIA CARVALHO

Ana Maria Lima de Carvalho é jornalista especialista em comunicação, psicanalista e fotógrafa.
Sócia da Crio.Art assessoria especializada em arte contemporânea

 

 

 

 

 

 

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Direitos Humanos na América Latina: em defesa de políticas públicas setoriais à integração latino-americana

Nelson Soutero Coutinho Neto 

Pós-graduando (Lato Sensu) em Direitos Humanos na América Latina e mestrando no Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos Latino-Americanos

Luiz Fernando Ribeiro de Sales

Bacharel em Direito pelo UniAGES Centro Universitário. Mestrando em Estudos Latino-Americanos pelo Universidade Federal da Integração Latino-Americana

Resumo

O presente artigo tem como proposta trazer à luz do debate questões julgadas, pelo autor, como importantes para a reflexão e a ação em políticas públicas setoriais que tenham como foco as temáticas que cercam os direitos fundamentais da pessoa humana. Portanto, o eixo posto como sul neste trabalho será o tensionamento de alguns conceitos-chaves como Direitos Humanos, América Latina e Políticas Públicas de tal modo que as/os leitoras/es possíveis desse texto possam debruçar-se criticamente sobre diferentes possibilidades para a contribuição ao campo das políticas públicas setoriais, sobretudo, em Direitos Humanos na América Latina.

Palavras-chave: Direitos Humanos, América Latina, Políticas Públicas Setoriais, Novo Constitucionalismo Latino-americano

 

Human Rights in Latin America: in defense of sectoral public policies to Latin American integration

Abstract

This article aims to bring to the light of the debate issues considered by the author as important for reflection and action in sectoral public policies that focus on the themes that surround the fundamental rights of the human person. Therefore, the southern axis in this work will be the tensioning of some key concepts such as Human Rights, Latin America and Public Policy in such a way that the possible readers of this text can critically examine different possibilities for the contribution to the field of sectoral public policies, above all, in Human Rights in Latin America.

Keywords: Human Rights, Latin America, Sectoral Public Policies, New Latin American Constitutionalism

 

Introdução

É evidente que nos últimos anos os mais diversos movimentos sociais e organizações não governamentais conquistaram, dentro do espaço político, um amplo terreno para a constituição de políticas públicas setoriais desenvolvidas dentro do campo dos Direitos Humanos nos Estados-nações. Seja por meio de ministérios ou secretarias presidenciais, no Executivo; por meio de comissões no Legislativo; por meio dos debates jurídicos no Judiciário, principalmente em sede de controle concentrado de constitucionalidade no âmbitos de Supremas Cortes, a exemplo do STF no Brasil; até mesmo por secretarias estaduais e municipais; ou por intermédio de coordenações/coordenadorias específicas extraordinárias ou não; o discurso de políticas públicas voltadas para os Direitos Humanos está, cada vez mais, se emancipando como uma posição importante para a construção de planos de Estado e/ou governo.

Não é tarefa fácil debruçar sobre políticas públicas setoriais em direitos humanos na América Latina. Para tanto, o árduo labor deve estar acompanhado de uma ante sala, ou melhor, de um preâmbulo de conceitos-chaves para que as/os leitoras/es deste trabalho possam refletir sobre as possibilidades para a contribuição na construção de políticas públicas setoriais dentro do campo da promoção e proteção dos direitos fundamentais da pessoa humana.

Neste sentido, é interessante observar a quê e a quem serve uma política pública voltada aos direitos fundamentais da pessoa humana, ou seja, o Estado e o Governo não deveriam estar pautados, qualquer que seja suas decisões, de modo que garanta a proteção e a promoção dos direitos humanos de seus cidadãos e suas cidadãs? Talvez, será que estas instituições do Estado tornaram-se a máxima da instrumentalização do diálogo entre a população e ao Estado quando visibilidade e representatividade tanto das pautas quanto dos sujeitos políticos eleitos contrastam com a realidade de cada país?

É muito provável que essas questões não sejam respondidas no presente trabalho. Todavia, a pretensão em respondê-las seria de certa injustiça intelectual. Entretanto, perguntas como as expostas acima podem colaborar como gatilhos àquelas/es que estão na linha de frente das inúmeras instâncias da administração pública, criando não só políticas públicas públicas setoriais e fechadas, mas que, como no caso da temática central em Direitos Humanos, necessariamente, é um tema que precisa perpassar transversalmente por diversas outros lugares dentro do espaço da gestão pública.

Portanto, se há uma possível identidade latino-americana, a pretensão desse trabalho que se apresenta é, em sua miudeza, refletir desde aquí o que significa o fazer políticas públicas setoriais em direitos humanos que possa, em hipótese, fundamentar estas políticas em uma perspectiva à integração regional garantindo a promoção e a proteção de direitos básicos a grupos vulnerabilizados e precarizados pelos mais diversos extratos das relações de poderes.

1. Retrato de uma Muxe. Cidadã de terceiro gênero reconhecido nos Estados Unidos Mexicanos. Foto: Nicolas Ókin Frioli

 

Leia o artigo completo clicando aqui.

 

Autor: Nelson Soutero Coutinho Neto (Nelson Neto)

Mini-currículo
Mestrando no Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos Latino-Americanos e pós-graduando lato sensu em Direitos Humanos na América Latina pela Universidade Federal da Integração Latino-americana. Graduado em Jornalismo pela Universidade Paulista (UNIP – São Paulo, SP). Foi coordenador de comunicação na Coordenação de Políticas para LGBT (CPLGBT) da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) na Prefeitura Municipal de São Paulo entre 2015 e 2016. Trabalhou como repórter da Editora Mix Brasil nas revistas Junior e H Magazine, e do portal Mix Brasil entre os anos de 2012 e 2015. Ainda atuou como consultor e participou de eventos nas temáticas de Gênero, Sexualidade, Direitos Humanos e Cidadania para as Organizações Globo, SSEX BBOX, e outras empresas e organizações não governamentais.

Coautor: Luiz Fernando Ribeiro de Sales

Mini-currículo
Mestrando em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana, UNILA, na linha de pesquisa Prática e Saberes, instituição em que pretende desenvolver pesquisas sobre o Novo Constitucionalismo Latino-Americano. É Graduado em Direito pelo Centro Universitário Ages – UniAGES, durante a graduação desenvolveu atividades de monitoria acadêmica nas disciplinas de Introdução ao Estudo do Direito e Direito Constitucional Legislativo, foi membro do Comitê dos Estudantes, como representante do curso de Direito e do Conselho Universitário como representante do corpo discente, participou de grupos de estudos e pesquisa, tais como Direito e Literatura; foi premiado por ter sido o melhor acadêmico do 8º período de Direito em 2016.2 no Exame Institucional de Desempenho Estudantil – EXIDE, promovido pela IES. Atualmente, é membro da Rede para o Constitucionalismo Democrático Latino-Americano.

 

 

 

Para saberes o meu lugar

Descobri, já tarde, com os pés aninhados, com os dedos plantados na areia fria e a barra da calça enrolada, feito uma boia, um flutuador ao redor dos tornozelos, impedindo as juntas e os pelos de descobrirem o mundo, que a voz, o som que vinha de dentro, era o eco transformado pelo cunhal, o movimento refletido de outras línguas sobre o espelho turvo, sobre o fundo cavernoso de voltas e voltas a perder, de corredores como galhos a suster o pendão sempre desconhecido de um cômodo novo, o pendão no talo ainda frágil de uma maçaneta por girar, de uma tramela posta a prego na folha cerrada de uma porta escura, de madeira viva e nodosa, aguardando, sem pressa, um visitante, um forasteiro sem nome. Descobri, depois do tempo, que o destino é a história de um marinheiro valente contada aos meninos de primeira viagem, que o barco, mesmo no porto, está à deriva, que toda âncora é um embuste, que todo caminho é mais um ramalhete, mais um arranjo com as flores de sempre, adornado com fitas e laços de variada cor e largura diversa.

As mãos folgavam,

de nó em nó,

a corda;

naquela manhã, o mundo crescia, murava de terra e sombra o sítio polido que, depois da superfície cuidada, escondia o meu desamparo, a última chance de saber, com a ponta descoberta dos dedos, com os lábios trêmulos, a verdade da sua presença, da parede, sempre terna, que guardava a sua morada, dizendo, num repente sem murmúrio: aqui, criatura. Eu larguei um bocado daquele chão sobre a tampa e não deixei que nada escorresse e cada grão chegou como se batesse à porta e, com os olhos firmes, eu esperei. À beira daquele rasgão que o solo erguido formara, eu esperei a sua resposta:

aqui, criatura.

Eu esperei você, do outro lado, dizer: estrupício. Eu esperei a sua risada de tarde amena, a gargalhada miúda, mas estridente, a luz já cansada do seu sorriso amainado. Eu esperei a sua reprimenda doce sobre o meu feitio, a sua lição zelosa de mãe adiada, de cuidadora solícita.

E foi ali,

no grito quase oco do silêncio,

que a ausência, num berro cavado, anunciou a sua partida e, no vão que se abriu por dentro, sussurrou que nunca mais você – que nunca mais a sua maneira descuidada de andar pela casa, de dar com as quinas dos móveis enquanto caminhava sem rumo, que nunca mais a sua fala ligeira atravessando por cima das páginas dos livros, abrindo lugar, a cortes baixos, pela vegetação assombrada, convocando, no interior da minha escuta, as aves noturnas e os arbustos rasteiros para um motim; nunca mais o cheiro duro do café antecipando a sua chegada, o aroma suave de macadâmia; nunca mais você no jardim, tomando nota, você, à beira de mim, fazendo crer, por amor ou piedade, que era eu o sustentáculo, o alicerce, o esteio. Nunca mais.

E bastou aquele vago,

aquele recado surdo e feroz,

para que as montanhas todas, num clarão, como numa fotografia que, retomando o movimento, regressasse à corrente do mundo, despencassem, avançando violentas umas contra as outras, ondas indômitas, juvenis, coléricas. Bastou aquele soluço, um espasmo breve, para que eu, ao pé da cruz, plantasse o meu tamanho vergado,

um rebento,

muda, de raiz ao tempo, arqueada sob o próprio peso, um menino inaugurado na forma reduzida de um homem que desce, em desespero, com os joelhos ao piso, de um homem indeciso que implora, confuso e descrente, por uma resposta, por uma palavra que desvele a pergunta sem rosto, esse vulto que caminha por detrás das convenções, das fábulas costumeiras, das cantigas que vestem de ouro a nudez da pedra, da formas escura e úmida que segura, a golpes sucessivos, a fúria do mar em luta.

A falta fez morada no meu desespero.

Nenhum anjo se compadeceu, nenhum deus se apiedou e o nada somou abandono à vastidão desabitada, quando, no campo agreste do desalento, um deserto ganhava corpo, inundando de angústia e medo cada fresta nova que o abalo estreava no monumento já gasto da minha força, do meu empenho rareando, da minha vontade em mingua.

Assim nascem os demônios,

do minério escuro depois de talhar o chão, do fosso que o tropeço desata, que o deslize, repentino, cava, destampando a matéria flexível, o ferro coralino, encarnado, o torrão inflamado pelo fogo da consciência, aberto pelo martelo dos dias sobre a bigorna do corpo. Assim, eles ganham forma, feitio, gesto. Criaturas faceiras, elegantes, versadas – tão traiçoeiras e escorregadias, tão atraentes e, de tantas maneiras, especulares, assombradas, velando de perto, com as patas em prontidão e os ouvidos colados à ombreira, o momento exato da concepção.

Eu, que com tanto zelo conservava o torso branco, o tronco, não raro, de um amarelado sutil, breve, tímido, quase outonal, não sabia que, ao negar a rasura, negava o ânimo, a vida, como um pai cheio de esmero e devoção que atrofiasse as pernas dos filhos por sempre carregá-los no colo, feito um pastor estremado, guardando as ovelhas no reduto limitado da própria habitação, para que não incitassem, nos lobos, a vontade. Assim eu recolhia, sob as penas do meu esforço, a juventude dos tomos, a maneira juvenil e o perfume característico do primeiro nascimento. Foi por isso que escolhi, sem sobressaltos, aquele canto e

deitei fogo na estante inteira e comecei de lá,

da biblioteca,

o parto luminoso, o nascimento da estrela que era a nossa casa florindo, a nossa casa incendiada, acesa na noite imensa, um astro sem par, sem constelação, clareando, na distância, o toldo negro das horas mais longínquas, das horas postas em sossego. Depois, tomado por uma estranha alegria, por uma euforia quase infantil, selvagem, assisti às últimas pétalas que desabrochavam. Nos estalos, a estação seguinte, alardeando a calmaria, assegurava uma paisagem diferente e aquele sol, cansado de arder, começou, de pouco, a desabar, desabrigando a luz e tudo o que circundava, tudo o que, tendo gravidade própria, orbitava em torno das nossas coisas. Aquele dia feito à mão, num suspiro prolongado, foi encolhendo até se tornar um lume tímido entre os restos atulhados dum negrume denso e portentoso.

Vão dizer que fiquei louco,

Vão dizer, quando passarem pelos escombros, que fiquei louco e que, alucinado, ateei fogo ao que sobrou de nós. Ele ficou louco e meteu fogo em tudo! Vão dizer.

Talvez,

não estejam errados,

mas qualquer bicho de casa diria, pouco antes de ser abandonado, que a liberdade é uma doença e só quem passou a madrugada sem medir, mordiscando a penumbra, o abismo derramado sobre a pele da terra, sabe o peso de carregar, gestando, depois da violação,

um relâmpago no útero.

Só quem ouviu, depois do crepúsculo consumado, a melopeia silente do desarrimo saberá reconhecer, na brutalidade quase convulsiva dos movimentos, os passos orquestrados de uma dança viva.

 

Agora, fico aqui

com os filhos que nunca tivemos e os netos que nunca terei

com os gatos que não sobreviveram à largura dos nossos anos e as roupas

que ainda são as mesmas de antes

as mesmas que cobriram, sem enfeites, a minha vontade cega, o meu desvio, e o ponto final pendulando acima da sua despedida, tencionando, em cada passagem, a infinitude da queda, o estrondo ininterrupto da separação.

 

Escrevo, agora,

com a mesma caneta que você trazia no bolso,

nas costas da certidão que assegura o seu desaparecimento, como quem inaugura animais obscuros numa planície amanhecida, numa paisagem iluminada, para desenhar o vazio que, posto em evidência, vira fundo, para mostrar o que só aparece à margem dos olhos, o que, às vezes, com afinco e sorte, fica encadeado entre a mancha gráfica e a intensão.

Estou quase sem espaço,

economizo, diminuo a letra, o intervalo entre os riscos, a prolongamento das hastes, adiando a borda, porque sei – agora sei, porque, já tarde, descobri – que, onde a folha termina, o mundo começa e você não está mais lá. Você nunca mais vai estar lá e mesmo a sua lembrança, a sua voz recriada, os seus trejeitos encarnados numa figura armada de sonho e saudade, é uma evidência daquele sumiço irrevogável, da curva sem dobra que a sua marcha fez num tapa, de repente. Despois do tempo, compreendi, mesclando tristeza e alívio no retumbar sonoro da pancada, que o marinheiro valente da história jamais zarpou de porto algum, que os barcos todos, mesmo no mar, mesmo cortando, a navalhadas, o rosto bravio do azul, estão atracados, estão presos ao ardil das âncoras, como as crianças, cheias de coragem, imaginando aventuras na segurança das vagas imóveis num fotograma, num recorte de revista ou num outdoor. Compreendi, bebendo, feito um naufrago, da privação, que quase tudo é conversa, quase tudo é invenção e boato, que as explicações e motivos, razões e desculpas, causas e lamentos são, quase sempre, bandagens estampadas sobre o talho, faixas floridas, feitas de linho, com mais ou menos qualidade, ou de um trapo qualquer, sobre a carne dilacerada; tatuagens que ilustram, na superfície da cicatriz, um desenho alentador e revigorante, um consolo infame para o que não tem recurso.

Agora, já na orla,

na ponta mais extrema,

com uma das mãos cerradas – os dedos cravados na palma, torcidos, de nó em nó, para dentro – e a outra sufocando as sílabas até o limite, digo adeus como se te ouvisse mais uma vez, como se, mais uma vez, você, na zanga meiga de sempre, ameaçando uma ofensa que nunca vinga, muito garbosa e cheia de contento, dissesse:

Acorda, criatura!

 

O menino morto

Que dentro daquela caixa de esponjas, dentro daquela caixa trazida por um estranho, fechada com fita adesiva, o corpo miúdo, desabitado, carregava duas infâncias – a primeira, interrompida, desmanchada do choro, do lamento fresco tantas vezes ensaiado pelos ouvidos da mãe; a segunda, prolongada, como um lençol antigo, desbotado, um sudário revestido de retalhos e quadrados coloridos, de remendos bem feitos sobre furos e rasgões.

Pinacoteca de São Paulo troca peças de instalação com visitantes

A exposição Matheus Rocha Pitta: Primeira Pedra e Acordo é composta por peças doadas pelo artista ao museu. A instalação promove interatividade com cubos de concreto Primeira Pedra.

O objetivo da exposição é criar uma relação entre os visitantes e o museu, uma vez que as pedras ficam espalhadas no chão sobre jornais do dia anterior. Quem está no espaço pode pegar uma pedra para si, mas para isso deve sair do museu, pegar a primeira pedra que ver pela frente e colocá-la no lugar da que deseja retirar.

Além disso, serão exibidas quatro obras da série Acordo, composta por lajes que trazem arquivos fotográficos de fotos recortadas de jornais e que retratam pessoas fazendo acordos (aperto de mãos, abraços).

SERVIÇO

Matheus Rocha Pitta: Primeira Pedra e Acordo
Curadoria de Fernanda Pitta
2º andar – Sala D
Visitação: 16 de fevereiro a 17 de junho de 2019
Período: quarta a segunda, das 10h às 17h30 (permanência até as 18h)
Pinacoteca: Praça da Luz 2, São Paulo, SP –
Ingressos: R$ 10,00 (entrada); R$ 6,00 (meia-entrada para estudantes com carteirinha)
Menores de 10 anos e maiores de 60 são isentos de pagamento *.
Aos sábados, a entrada da Pina é gratuita para todos.
Pina Estação é gratuita todos os dias.

*Informações retiradas do site http://pinacoteca.org.br/programacao/matheus-rocha-pitta/