• Home
  • Author: Erinaldo Cavalcanti

Author: Erinaldo Cavalcanti

“Não imaginávamos que existia mais fascistas do que gays dentro do armário”: o Brasil à beira do abismo.

Eri Cavalcanti

Doutor em História pela UFPE e professor da Unifesspa

 

Este texto, como qualquer outro, carrega as marcas do tempo de sua gestação. Outubro de 2018. Começo esta escrita com um profundo sentimento de angústia, de aflição e de indagação sobre os muitos “porquês” que podem explicar o cenário catastrófico que se aproxima de forma tão violenta para o País.

Durante muito tempo, usava-se a expressão “sair do armário” para se referir às atitudes em que um homossexual se revelava gay perante a sociedade. Permanecer no armário, portanto, era resultante de um conjunto de práticas por meio das quais a sociedade reprimia toda forma de expressão dos sentimentos homoafetivos. O ato de sair do armário representava romper com o silêncio. Significava tornar presente um sentimento. Era sinônimo de fazer ver; de fazer-se presente; de sair da invisibilidade; de mostra-se e marcar uma presença. Entretanto, no cenário das eleições de 2018, outras “coisas” estão saindo do armário. A cada dia, deparamo-nos com inúmeras cenas em que as pessoas se colocam como representantes de ideias antidemocráticas.

Cresce o número de pessoas que externaliza e se identifica com ideias literalmente fascistas. Elas se orgulham, até, de se autodenominarem machistas, homofóbicas, misóginas, racistas; e publicam isso. Falam abertamente que negros devem voltar à senzala. Que as mulheres devem ficar submissas aos homens. Que os gays devem ser espancados para se consertarem. Que os indígenas são preguiçosos e não devem ter direitos a terra, cultura, liberdade e vida. Nessa dimensão, poderíamos dizer que o fascismo está saindo do armário e, com ele, estamos percebendo que existia muito mais fascistas enrustidos do que imaginávamos.

Em 2005, iniciavam as minhas pesquisas sobre ditadura militar no Brasil. Há exatos 13 anos começavam os estudos sobre o período ditatorial de 1964. Quase todas as vezes que ia aos arquivos do DOPS-PE, um sentimento me fazia companhia. Certo “ar de surpresa” misturado com algumas pitadas de “indignação”. Esses sentimentos eram constantes quando me deparava com as delações publicadas nos jornais ou nos órgãos de segurança. Diversos cidadãos civis eram estimulados a delatar as pessoas do seu convívio social que poderiam ser consideradas uma ameaça à segurança do País porque discordavam politicamente dos ditadores. Também me causava surpresa perceber, nos jornais, diversas publicações narrando que inúmeras mulheres católicas estavam indo às ruas para pedir que os militares invadissem o Brasil e derrubassem os governos eleitos para impedir que o comunismo triunfasse no País.

Ao olhar aquelas reportagens e as delações feitas nos órgãos de segurança — que contribuíram significativamente para a instauração e consolidação da ditadura, e que depois foram usadas para justificar as mais horrendas torturas — eu me perguntava “como era possível?” Como alguém poderia ir até a polícia e delatar seu vizinho porque ele pensava politicamente diferente? Como poderiam entregar aos militares pessoas que apenas discordavam e defendiam projetos políticos distintos? Confesso que, em alguns momentos da pesquisa, até imaginava que essas ações ocorriam porque a sociedade naquela época era atrasada ou desinformada. Imaginava que, atualmente, jamais iria ocorrer algo parecido. Que nos tempos atuais, as pessoas eram mais tolerantes, mais bem informadas, mais respeitosas com as diferenças. Lamentavelmente, eu estava muito enganado.

Desde a reeleição de Dilma Rousseff para presidente do Brasil, em 2014, temos assistido a inúmeras demonstrações de atitudes violentas. São pessoas que desferem agressão verbal ou física como forma de lidar com atitudes e/ou pensamentos contrários aos seus. O cenário das eleições de 2018 se tornou ambiente de guerra. Uma simples acessada às redes sociais pode nos servir de termômetro para visualizar e ter uma dimensão parcial do clima de enfretamento extremo que estamos vivendo. A violência não está limitada aos espaços virtuais. Estendem-se às ruas. Está na esquina. Está na padaria. Na farmácia. Na escola.

Cada vez mais, inúmeras pessoas se sentem autorizadas a verbalizar seus preconceitos. A externar seu ódio. Colocam para fora sua ira, seu rancor. Multiplicam-se os exemplos de atos violentos contra as mulheres, contra os negros, contra os gays, contra os indígenas. Essas pessoas estão saindo do armário e demonstrando uma face de perversidade e violência que deve nos deixar em estado de alerta. Na disputa pela presidência, no cenário atual, o candidato Jair Bolsonaro (PSL) apresenta um longo histórico de demonstração de desrespeito aos principais fundamentos do estado democrático de direito. Já expressou ser contrários às políticas públicas em defesa dos indígenas. Já demonstrou não concordar com que a mulher tenha salário igual ao do homem. Ele incita a violência, cotidianamente, e defende a liberalização e o uso de arma de fogo. Já demonstrou, expressamente, atitudes de preconceito a homossexuais, a negros e a migrantes. Já foi desrespeitoso com jornalistas quando discordaram dele. Os exemplos são muitos.

Por meio de seus discursos, o candidato do PSL parece demonstrar uma representação típica de um candidato fascista. Um candidato que coloca a democracia em perigo. Seus discursos, posturas e atitudes corroboram com essa interpretação. Inúmeros jornais, sobretudo da imprensa estrangeira, têm sinalizado o perigo e a ameaça que ele representa para a jovem democracia do Brasil. Em contrapartida, os principais órgãos da imprensa, no Brasil, têm feito vista grossa a essa ameaça. Alguns, como a evangélica TV Record, fechou alianças com esse candidato.

É oportuno ressaltar que não existe lugar para a neutralidade. Todos os órgãos de imprensa que se omitem estão contribuindo com o cenário de conflito e ajudam a fortalecer o crescimento das ideias fascistas no Brasil. Optar em não fazer a crítica e mostrar o perigo é ser também responsável pelas consequências dos atos de violência que crescem em solo adubado pelo ódio no Brasil nesse momento.

Os dados da votação do primeiro turno sinalizam um conjunto de questões que merece ser colocado à discussão. Como podem tantas pessoas se identificarem com as ideias expostas pelo candidato do PSL? Como é possível tamanha adesão às ideias antidemocráticas que estimulam a violência e o desrespeito? Não se tratam de grupos isolados, mas de quase 48 milhões de pessoas que, de alguma forma, identificaram-se com as ideias desse candidato.

Talvez não caiba o sentimento de surpresa. Se formos tomados pelo pesar e lamento, não podemos continuar apenas com a indignação. Talvez tenhamos que rasgar a cortina para despir alguns “elementos” da sociedade brasileira. Por que será que a imprensa internacional já sinalizou a gravidade da situação e nossa imprensa permanece quase que muda e surda? Não acredito que seja questão de cegueira. Talvez seja questão de conivência, às vezes velada, às vezes explícita. Por isso, acredito que é necessário expor a carne podre e o pus que também formam parte da cultura brasileira, sobretudo de uma parte da população que se identifica com os valores antidemocráticos do candidato do PSL.

Por que tantas pessoas estão expressando seu ódio aos gays, por exemplo? Será porque, simplesmente, o inominável candidato também destila seu ódio a esse segmento social? Não acredito. Há bastantes indícios para acreditar que, na sociedade brasileira, existiam mais fascistas dentro do armário do que gays. Há muitas razões para o “coiso” — como ficou conhecido — ter obtido tantos votos. Uma delas, certamente, é a identificação entre o que as pessoas acreditam/pensam/desejam e o que ele representa. Nesse sentido, a adesão e o voto a esse candidato expressam muitos signos e significados dos seus eleitores.

Por esse ângulo de percepção, todos aqueles que se identificam com um projeto de sociedade progressista, menos desigual e mais justa falharam em alguma dimensão. Todos nós, em certo sentido, falhamos. Não podemos negar o caráter violento da nossa cultura. Não podemos esconder o pus vivo que pulsa nas veias dos sentimentos racistas de milhares de brasileiros e brasileiras. Não podemos esconder que corre o sangue machista nas posturas de milhares de homens que ainda acreditam que o lugar da mulher é na cozinha e que estão empenhados em fazer isso acontecer. Não há como esconder que temos uma larga parcela da população que é homofóbica, que deseja o extermínio do gay e da lésbica ou de qualquer um que não se enquadre em seu modelo heteronormativo. Não podemos negar que uma grande maioria de brasileiros destila um virulento ódio às minorias socialmente discriminadas.

Pulsam nas veias de uma larga maioria de brasileiros e brasileiras o ódio, a ignorância, o racismo, o machismo, a misoginia e a homofobia. Como podemos ter ignorado por tanto tempo esses elementos que agora saltam aos montes como serpentes famintas? É muito difícil pensar na construção — e talvez na reconstrução — de uma sociedade com tamanha adesão ao fascismo. Mas é urgente. Falhamos enquanto sociedade. Falhamos enquanto cientistas, pesquisadores/professores, formados em uma ciência que ignorou demasiadamente suas relações com a sociedade para além dos seus interesses meramente técnicos e metodológicos. Mas não há tempo para choro ou lamento. Resta-nos o combate com os nossos instrumentos dentro dos nossos espaços de atuação e condições de luta. Nossa sobrevivência não está garantida. Poderemos ser destruídos como pessoas, como sujeitos. É destruição que se projeta, e não é no sentido metafórico, lamentavelmente. Destruição simbólica. Destruição sentimental. Destruição física. Destruição existencial.

Finalizo essas palavras com dor, pesar, lamento, indignação, revolta, angústia e decepção. Mas, também, com a certeza de que TUDO é movimento, que TUDO é construção e reconstrução permanente. Finalizo com a certeza de que, se abandonarmos a luta em defesa dos nossos princípios, estaremos desistindo da vida, dando de bandeja a vitória ao fascismo. Já sobrevivemos a uma ditadura militar que vigiou, controlou, puniu, perseguiu, prendeu, processou e matou seus opositores. Espero que nunca mais isso volte a acontecer, mesmo já aparecendo sinais que indicam a real possibilidade da violência tomar conta da nossa sociedade, como ocorreu com o mestre Moa do Catendê, morto à facada por ter expressado que votou no PT ontem nas eleições presidenciais.

 

Imagem publicada no Jornal Extra, edição de 08 de outubro de 2018.

Todos aqueles que estimularam o ódio e promoveram o discurso de violência tem sua parcela de responsabilidade. Todos os órgãos da imprensa que, da mesma forma, estimularam o ódio ou se calaram diante do crescimento das ideias extremistas — que pregam a violência e a intolerância — têm igualmente sua parcela de responsabilidade nesse crime e em todos outros que estão ocorrendo ou que podem vir a ocorrer.

DRUMMOND ESTAVA ERRADO OU VIVEMOS TEMPOS DE PUPILAS DILATADAS?

Algumas reflexões sobre o mal-estar provocado pela exposição “Para ver e ser visto” na Unifesspa

Eri Cavalcanti /Doutor em História pela UFPE

Prof. da FAHIST e do PDTSA – Unifesspa

Considerações iniciais

Parafraseando o poeta mineiro, a porta da verdade foi aberta. Mas só era permitido passar meia pessoa por cada vez. Assim, segundo ele, não era possível atingir toda a verdade, “porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade”. Da mesma forma, a outra segunda metade ao voltar só trazia meia verdade e as duas metades não coincidiam. O que fazer?

Derrubaram a porta. Chegaram a um lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em duas metades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. As duas eram totalmente belas. Mas carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia (2002).

Recentemente, a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) comemorou cinco anos de existência. A Reitoria realizou uma programação festiva e solicitou à Faculdade de Artes Visuais que elaborasse uma exposição artística para celebrar o aniversário. Como desdobramentos dos trabalhos já em andamento naquela faculdade — avaliada com nota máxima pelo MEC — um conjunto de obras foi exposto no recém inaugurado prédio de multiuso da universidade, compondo a exposição “Para ver e ser visto”.

Um trabalho inspirador. Um trabalho que irradia movimento; um trabalho que expressa vida; um trabalho do qual pulsam os traços das ações humanas desse espaço chamado Unifesspa, que luta por sua consolidação frente ao desmonte proporcionado e posto em cena com o golpe de 2016. Um trabalho que expõe os signos da presença dos discentes e docentes do curso de Artes Visuais; que está mostrando que veio para ficar; que chegou para provocar o olhar, para mexer com o senso comum; que instiga e provoca a sair do lugar simplista que pulula a mediocridade do cotidiano; que desafia a olhar por outros ângulos de percepção.

Sim. Os trabalhos já estão provocando reações. A exposição “Para ver e ser visto” provocou um mal-estar. As obras de arte expostas foram classificadas como poluição visual, depredação do patrimônio público, e pornografia, até. Vejamos algumas imagens que suponho terem motivado o desconforto.

 

                

 

Que bom que os trabalhos do curso de Artes Visuais já estão provocando os deslocamentos que incomodam a miopia de muitas pessoas. Eu suponho que quem se sentiu desconfortável seja um grande especialista em artes; que tem grande experiência em curadoria em diversos museus, com reconhecidas exposições compondo seu currículo. Partindo desse entendimento, seria muito bom se o referido mal-estar contribuísse para provocar o debate público. Gostaria imensamente de ouvir os argumentos para entender com base em quais fundamentos teóricos se enxergaram as obras de arte como “poluição visual”. Gostaria imensamente de ouvir quais os princípios epistemológicos a partir dos quais se pôde dizer que as obras expostas caracterizam depredação ao patrimônio público. Gostaria, da mesma forma, que colocassem às claras os critérios artísticos e científicos pelos quais se classificaram as obras como pornografia. Sim. Estamos na academia e devemos fazer uso da ciência para respaldar nossas ações. Aqui não é espaço de senso comum. A universidade não é o lugar do achismo barato, do simplismo raso. Ou pelo menos não deve ser. Seria muito bom para o debate, para o crescimento intelectual e para o fortalecimento da democracia que pudéssemos ouvir as justificativas devidamente sustentadas nos princípios que regem os fundamentos da ciência, mesmo sendo essa incompleta, parcial, limitada.

É oportuno levantar a questão: quem mais teria cabedal de conhecimento e autoridade legitimada para dizer (e classificar) que as obras expostas são poluição visual? Ou que as obras expostas estão deteriorando o patrimônio? Ou que a referida exposição tem um caráter pornográfico? Parece-me que, se temos pessoas com respaldo sustentado na ciência — que é o lugar da universidade — essas são as que fazem o curso de Artes Visuais. Isso não significa dizer que tal interpretação é inquestionável. Mas, seria enriquecedor que se apresentassem os argumentos contrários. Teria sido esse mal-estar mais um sintoma que caracteriza os tempos que atravessamos?

Tempos de pupilas dilatadas

Quem já fez exame oftalmológico sabe do incômodo que é dilatar as pupilas. Durante a realização do exame, ficamos, temporariamente, com a capacidade da percepção visual reduzida. Com as pupilas dilatadas, passamos a enxergar o mundo de maneira turva, embaçada. Perdemos a capacidade de identificar objetos pequenos. Nossas sensibilidades para perceber os detalhes são afetadas momentaneamente.

Parece-me que estamos presenciando uma época em que inúmeras pessoas se encontram realizando um exame oftalmológico em tempo permanente. Crescem diariamente exemplos de comportamentos em que diversas pessoas se sentem capazes e no direito de dizer o que e como os outros devem enxergar a vida. Para algumas pessoas, pouco importa se sofrem de alguma miopia aguda ou se estão com as pupilas dilatadas. Inúmeros cidadãos, cada vez mais, sentem-se autoridades para querer dizer o que os outros precisam ser, o que os outros devem enxergar, o que os outros devem sentir.

Enxergamos o mundo, sim, por nossas lentes míopes. Enxergamos as coisas e as obras de artes pelas lentes de nossos valores, de nossos preconceitos, de nossas crenças. Vemos a vida pelas lentes arranhadas e com as pupilas dilatadas pelo preconceito que carregamos. Enxergamos o mundo com areia em nossos olhos. O problema não reside em vermos o mundo através das lentes de nossa miopia. O problema reside em querermos que todo mundo passe a ver o mundo com as mesmas lentes míopes e foscas com as quais enxergamos ou deixamos de enxergar a vida e o mundo. A verdade, assim como disse o poeta, nunca será completa. Portanto, que não venham meias verdades querendo ser verdades absolutas. Que não venham as miopias querendo determinar o que os outros precisam ver.

A professora Berenice Bento (2017), do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, recentemente escreveu um belo e inspirador texto que, do meu ponto de vista, contribui para entendermos algumas práticas desses tempos de “pupilas dilatadas”. O enfrentamento das relações — ou o crescimento da miopia escancarada que deseja impor o que deve ser visto — é resultante, também, do reordenamento das lutas de homens e mulheres que não mais aceitam, passivamente, ocuparem o lugar que as “cataratas da dominação” política de alguns definiam. As formas de ver se ampliaram. As lutas se intensificaram. Nas palavras da professora:

A luta de raças, de classe, de sexualidades, a luta pela liberdade de ensino, liberdade da autonomia do professor, liberdade de expressão, a luta de gêneros dissidentes virou manchete. Acabou aquela história de democracia racial, homofobia cordial, relações sociais pautadas na imagem de que aqui vivemos em paz. Acabou. (Revista Cult, 30/10/2017).

 

As relações se esgarçaram. Entretanto, não impera mais o silêncio frente aos berros e socos daqueles que desejam impor sua forma de pensar o mundo pela lógica de dominação e explicação simplista e causal. Não há aceitação sem questionamentos de que as relações sempre foram assim e assim devem continuar. As miopias das lentes arranhadas de alguns indivíduos não são mais aceitas de forma passiva. Há enfrentamentos. Há questionamentos. Coloca-se o dedo no olho do preconceito que deseja impor e controlar quem não se enquadra. Os enquadramentos são questionados.

Um mundo de dominação cristalizada desmorona. Os gritos para proibir as discussões acerca das relações de gênero relevam que aqueles que se opõem ao debate precisam agora disputar esses espaços e tentar fazer calar. Precisam fazer com que as relações sejam vistas pelas lentes de suas miopias. Precisam convencer e fazer enxergar por meio de suas pupilas cheias de areia. Necessitam, publicamente, expressar que não toleram o direito ser estendido a todos conforme está prescrito na Constituição.

Precisam verbalizar que não toleram ao seu lado pessoas de crenças diferentes. Que não admitem pessoas com tonalidade de cor de pele diferente da sua. Estão tendo que expressar que seus preconceitos não suportam a diversidade de ideias, de percepção; que são intransigentes com a pluralidade étnica, religiosa, sexual, cultural. São obrigados a assinar seus atestados de intolerantes.

Os debates, as disputas e os questionamentos povoam os espaços, configuram o tempo, constituem-se em disputas que tencionam as rugas, remelas e cataratas que querem continuar determinando o que e como o mundo deve ser visto. São estratégias de enfrentamento que passaram a se constituir em ações corriqueiras. Tornaram-se parte das relações cotidianas. Isso incomoda. E a História e seu ensino — bem como as outras ciências, sobretudo as humanas — têm também contribuído para criar essas fendas no tempo, outras formas de olhar pelas quais se abrem espaços de questionamentos, pelas quais as práticas de silenciamentos são quebradas. Nossas ações tencionaram e tencionam o pêndulo para o lado da reflexão, para o ângulo de percepção que não entende e não aceita o mundo como modelo dicotômico, como modelo único de crença, de família, de pessoa.   Nossas reflexões impelem o discurso do senso comum a ser questionado. Contribuímos para que sejam repensadas as explicações simplistas e duais que estabeleciam um ângulo único para ver o mundo. Não aceitamos discursos medíocres que se escondem no manto da miopia religiosa como forma única de perceber e ver o mundo, de ver as artes, de ver as pessoas e os sentimentos. Se ainda são por essas lentes que muitas pessoas enxergam o mundo — ou dele conseguem olhar apenas o que permite a penumbra das pupilas dilatadas pelo preconceito — não venham querer que com essas lentes arranhadas os outros enxerguem e vislumbrem o universo ao seu redor.

Nossas ações estimulam a criticidade e contribuem para apreender o mundo e as pessoas como construções abertas e plurais. Como sujeitos de múltiplas cores, de múltiplos sons, desejos, olhares, sensações e formas de enxergar, sentir, dizer e ser. Somos responsáveis porque incitamos nossos jovens a buscarem outras formas de ver, outras maneiras “Para ver e ser visto”, outras interpretações, outros ângulos de leituras, outras lentes de percepções.

À guisa de (in)conclusão

Se os tempos são de pupilas dilatadas, acreditamos que nossas ações de pesquisa, reflexão e escrita contribuirão para construir outros ângulos de percepção. Paradoxalmente, quando estão dilatadas as pupilas, o médico especialista pode perceber sinais das áreas que necessitam de tratamento, que precisam de um cuidado maior. Assim, também acreditamos que os questionamentos que estimulamos frente aos discursos preconceituosos, que desejam determinar o que os outros precisam ver, sejam colírios para tantas miopias que abundam nosso tempo, que tornam nebulosas algumas formas de ver e tentam impedir outras formas de ver e ser visto, de ver e sentir o cotidiano. Nessa perspectiva, nossas ações poderão se constituir em antídotos contra certas cataratas sociais que povoam e ofuscam o cotidiano.

Mas não nos enganemos que as batalhas para enxergamos o mundo por outras lentes sejam fáceis. Enfrentaremos muita resistência. Haverá parlamentares, representantes da sociedade civil e das instituições religiosas que irão continuar enxergando o mundo com suas miopias e querendo que os outros também assim enxerguem. Haverá muitas lentes que irão continuar defendendo que mulheres, negros, refugiados, gays, lésbicas, travestis, praticantes de credos africanos, ateus (e todos aqueles que não se enquadram nos modelos socialmente aceitos como padrões) não tenham seus direitos garantidos, não tenham direito a enxergar o mundo por outros ângulos de percepção.

Os berros e socos continuarão. Tentarão nos cegar. Tentarão impor suas cegueiras. Para controlar, irão tentar impor suas miopias como já estão fazendo por meio da censura à exposição Quuermuseu do Santander, ou ao show que Caetano Veloso iria realizar no acampamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto em São Paulo. Tentarão impor suas lentes tortas como única forma de ver o mundo e, para isso, irão expressar o incômodo provocado por outras lentes livres das “cataratas dos preconceitos sociais”.

Entretanto, as lentes e leituras que não se enquadram nas miopias crescem e operam mudanças nas relações de poder. Mudanças que estão interferindo nas relações de lugares que antes eram apenas assentos sagrados da elite branca, cristã e heteronormativa desse País, como a universidade pública. A universidade pública que antes ficava localizada nos grandes centros econômicos e políticos, exatamente onde moram as elites. Há uma nova cartografia política com o crescimento das universidades no Brasil. Isso desloca as relações de poder. Tenciona as relações de força. Incomoda. Cria outras maneiras de olhar, outras formas “Para ver e ser visto”. Não é por acaso que o curso de Direito da Terra — ofertado na Unifesspa — foi e ainda é atacado. Não foi por acaso que a exposição de “Para ver e ser visto” causou um mal-estar. Não foi por acaso que a peça teatral com uma travesti interpretando Jesus continua despertando a fúria dos olhares míopes e das pupilas dilatadas.

Quais os desafios, portanto, da História e das demais ciências humanas, nesses tempos de pupilas dilatadas? Para que serve pesquisar, ensinar e escrever em tempos de lentes que pretendem determinar as formas de ver e ser visto? Quais seus desafios nos tempos de miopias em ascensão? Sou um incansável defensor de que a História, mais do que nunca, tem um papel crucial nesses tempos. A História tem poder de combater a intolerância. A História tem o poder de curar as miopias, de criar outras lentes para olhar, sentir e viver o mundo. A História tem o poder de contribuir para fazer entender que somos distintos. Que somos múltiplos. Que somos diversos. A História tem o poder de nos fazer entender que existem formas distintas de sujeitos. Que não existem verdades absolutas. Que existem muitos ângulos de percepção e formas de ver o mundo. Que podemos viver e conviver com diferentes leituras e ângulos de percepção. Que podemos dialogar e conviver com a alteridade. A História é uma arma potente contra a cegueira, contra a catarata política e social, contra a miopia que dilata, dilacera e impede de se olhar a vida por diferentes e coloridos ângulos de percepção.

 

REFERÊNCIAS

 

ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

BENTO, Berenice. Afeto, Butler e os neoTFPistas. Revista Cult, 30/10/2017.

 

 

A História nos “entretempos” de incertezas: uma breve reflexão

 

Eri Cavalcanti

Gostaria de iniciar este breve texto mencionando rapidamente a expressão que dá nome a esta coluna e, de maneira bem pontual, a primeira palavra: “entre”. Se concordarmos que o mundo é uma invenção gestada inexoravelmente pela linguagem, a prática da nomeação é, talvez, a primeira relação que concorre para atribuir existência ao próprio mundo e a suas representações. Ou em um diálogo próximo a Pierre Bourdieu, poderíamos dizer que não existem experiências, relações, fatos ou acontecimentos se esses não forem nomeados. Tentemos fazer um esforço para pensar em uma situação — ou acontecimento — para a qual não tenhamos um nome. Impossível. Tudo, absolutamente tudo, para existir, necessita ser nomeado e, portanto, para se constituir, precisa transitar pelo universo da linguagem em sua polifonia e multiplicidade de formas, representações e significados.

Entre as condições de possibilidade de existência da coluna Entre Rios e Fronteiras, uma delas diz respeito aos encontros tecidos entre os professores da Faculdade de História da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e a professora Ana Dietrich da Universidade Federal do ABC (UFABC). Por esse ângulo de perspectiva, é oportuno nos avizinharmos das reflexões do filósofo francês, Gilles Deleuze (1992), quando defende que, para analisar e entender as relações, o importante é compreender o que se passa entre. A análise bastante erudita desse intelectual nos remete para outros lugares de questionamentos e nos impele a pensar em outras maneiras de discutir e entender certas questões-problema.

Deleuze nos desafia a sair de uma lógica explicativa bastante cristalizada que institui o mundo por meio de uma narrativa com origem e fim. Por conseguinte, essa mesma lógica parte do pressuposto de que todas as questões, problemas e relações estariam de alguma maneira com seu percurso traçado e definido e que, assim, as condições já teriam sido estabelecidas quando de sua criação. Ou seja, as experiências e seus desdobramentos já estariam definidos. Essa é a mesma lógica simplista que apreende o mundo pelas lentes da causalidade, que o entende como uma consequência das “leis” de causa e efeito e de ações e reações, e que atribui existência essencialista às relações humanas. Mas, como defende o filósofo, o humano, o agir e o agir humano são marcados pelo paradoxo, pelo dissenso, pela imprevisibilidade, pela indeterminabilidade.

A aproximação com as análises de Deleuze nos ajuda a pensar em outros deslocamentos, de tal modo que, mais importante do que buscar um “começo” (como se lá estivesse uma suposta origem explicativa para os fenômenos) e um “fim” para os acontecimentos (o encerramento) é perceber o que se passa entre. Acredito que as experiências se encontram em um fluxo do movimento dos acontecimentos, por isso, concordo com Deleuze quando afirma que o mais importante — por essa perspectiva de análise — é o entre.

Nessa dimensão, a coluna Entre Rios e Fronteiras é um espaço por excelência do entre, do possível, das experiências cujas explicações não cabem em narrativas que as limitam a pensar a partir de uma suposta origem. É nessa perspectiva que apresentarei breves reflexões sobre certas singularidades de nosso tempo, no que tange a algumas experiências da História do tempo presente.

As fissuras dos “entretempos” na Amazônia

O objetivo deste artigo não é fazer uma reflexão sobre o conceito de “tempo presente”. Basta dizer que esse conceito é plural e não desfruta de consenso nem mesmo no que se refere a sua terminologia. Há quem prefira, por exemplo, usar a denominação “história recente”.

Recentes ou do tempo presente, temos presenciado cenas nos dias atuais que provocam, preocupam e desafiam muitos que lidam com a História como área de atuação na pesquisa e no ensino. O amigo e historiador Airton dos Reis (que também escreve para essa coluna), a quem agradeço pela imagem, registrou em fotografias alguns indícios que representam cenas de um “tempo com fissuras”.

 

Fotografia: Airton dos Reis

 

Na recente greve dos caminhoneiros, diversas narrativas perfilaram redes sociais, sites de informação e grupos de whatsapp. Essa imagem foi produzida no dia 25 de maio de 2018 no bloqueio que os caminhoneiros fizeram na cidade de Eldorado dos Carajás, PA. Os pedidos de intervenção militar durante a paralisação — cabe destacar — não foram enunciados apenas pelas experiências praticadas na Amazônia.

Essa imagem emite muitos significados. É importante fazermos um esforço para evitar qualquer generalização. Certamente, nem todos os caminhoneiros desejaram e pediram a intervenção militar. Nem todos os caminhoneiros estão sendo manipulados por seus patrões. Nem todos os caminhoneiros fizeram parte dos protestos que ajudaram a consolidar o golpe de 2016 que derrubou a presidenta, eleita democraticamente, Dilma Roussef.

Expressado isso, avancemos na reflexão e questionemos: como é possível pedir o retorno da intervenção militar? Tal regime se caracterizou pela falta de expressão; proibiu greves; fez fortes arrochos salariais; passou a realizar prisões arbitrárias; perseguiu cidadãos civis que se posicionavam contrários aos ideais dos golpistas ditadores; instalou o medo nas relações cotidianas ao estimular a delação (em muitos casos, sem fundamentos); decretou a censura aos órgãos de imprensa e de cultura. Além disso, decretou que qualquer cidadão aprovado em concurso público só seria empossado se os órgãos de segurança emitissem um parecer atestando que não havia nenhum registro sobre o aprovado (lembrando que, muitas vezes, bastava uma crítica pública ao governo para ser fichado nos órgãos de segurança). Enfim, um regime caracterizado por falta de liberdade, perseguição, tortura, prisão e assassinatos de quem se opunha àquela forma de governo. Contudo, é possível que alguns queiram o retorno da intervenção militar, e os exemplos dariam para encher rios em tempos de estiagens e povoar as mais densas fronteiras.

Poderíamos tecer muitas reflexões sobre as possíveis razões que motivam essas manifestações de apoio e pedido do retorno dos militares à condução política do País. Entre outras, o discurso simplista que apresenta a ditadura militar de 1964 como um período marcado pelo combate à corrupção e cumprimento da ordem. As pesquisas já provaram que esse discurso é mentiroso, conforme demonstrou Gaspari (2014), além perigoso.

Acredito que as reflexões do filósofo francês, citado no início desse artigo, podem ajudar a tecer outras análises. Sabemos que existem motivos políticos, interesses partidários e objetivos particulares dos sujeitos que pedem o retorno da intervenção militar. Para além dessas questões, talvez a maneira como predominantemente a história é compreendida, analisada e narrada em diversos espaços tenha sua parcela de responsabilidade. A história não é pensada, entendida e explicada como processo contínuo. A história não é “apreendida pelo entre”, mas pelas lentes que buscam explicações de causa e efeito em uma origem e que projetam, para um fim teleológico, os desdobramentos de todo o processo.

Qual o problema em compreender a história dessa maneira? Se as causas explicativas estão na origem, os homens, no transcorrer do tempo, não têm poder de alterar sua construção e de interferir no processo. Quando se compreende a história pelo que se passa “entre”, ou seja, como “processos permanentes” interconectados a outros tempos, se ampliam as condições de entender os fios e as redes de influências, ressonâncias e interferências entre as experiências. O que sabemos acerca do que se passou entre o fim da ditatura militar e os dias atuais? Provavelmente, muitos cidadãos civis desconhecem até mesmo o que se passou na ditadura militar. Esse desconhecimento é um problema, cujas implicações sociais e culturais são bastante sérias.

Refletir sobre essas questões não significa buscar uma explicação determinista para compreender nosso tempo presente. Temos hoje um Congresso, cujos parlamentares —– com raras exceções — se comportam como se a lei fosse feita para beneficiá-los. Mas, as leis também foram pensadas para atender aos interesses gestados nesse campo de força. Por que hoje temos um judiciário (ou uma parte dele) que se comporta acima da lei? As explicações também são muitas e distintas. Uma delas pode residir no entendimento dos fatos que se passaram entre a ditadura e a nossa experiência democrática.

No pós-ditadura, quando a Constituição de 1988 foi redigida e aprovada, existia uma tensão no sentido de construir um conjunto de leis que em seguida não fosse facilmente manipulado por tribunais, como o Tribunal Militar ou o próprio Supremo Tribunal Federal (STF), que agiu em estreita consonância com o regime militar (RECONDO, 2008). Inclusive, quando o judiciário se reconfigurou para ganhar autonomia, no pós-ditadura, a partir da lei também se armou de mecanismos para não ficar refém de golpistas e ditadores.

Entretanto, os desdobramentos de um sistema judiciário mais forte e, talvez, a falta de conhecimento de como ele funciona por parte da população civil e o desconhecimento do que se passa entre podem, ter contribuído para a criação e manutenção de privilégios que também encheriam rios e lagos e povoariam fronteiras e florestas. Todavia, é oportuno ressaltar que o judiciário também não pode ser visto de forma homogênea, nem entendido por leitura generalizadora, nem a ele ser atribuída a responsabilidade exclusiva pelos problemas com os quais nos deparamos no momento. Ao mesmo tempo, não faltam exemplos de atitudes de representantes do judiciário agindo nitidamente em estreita sintonia com os interesses político/partidários de certos grupos. Não faltam exemplos de casos que provocam perplexidade e indignação.

Nessa dimensão, é oportuno lembrar o caso da agente de trânsito que recebeu ordem de prisão ao multar um juiz, no Rio de Janeiro, quando esse estava dirigindo um carro sem placas e sem a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Segundo o portal de notícias G1, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) iria analisar “a conduta do juiz João Carlos de Souza Correa, no episódio em que o magistrado deu voz de prisão a uma agente de trânsito, após ser multado em uma blitz da Lei Seca no Rio de Janeiro, desde o dia 14 de outubro deste ano” (06/11/2014). Ao que tudo indica, o caso analisado pelos pares do magistrado em nada resultou para o juiz. O mesmo não ocorreu com a agente que foi condenada a pagar multa de cinco mil reais por desacato a autoridade, conforme noticiado pelo site de informação Uol (03/11/2014).

À guisa de (in)conclusão

 Não buscar explicações deterministas em uma suposta origem, acredito, talvez possa contribuir para a ampliação do nosso entendimento sobre os tempos que vivemos. Procurar entender o que se passa “entre” pode ajudar a perceber que nada está definido; que o presente e o futuro não estão determinados.

A história está sendo construída, nesse momento, nos e pelos entres desse tempo — ou seja, pelos “entretempos” do agora — e costurada por muitas forças. A história (ou as histórias) está sendo fabricada neste instante, grafada pela pluralidade das práticas, pela polifonia das relações, pelo caleidoscópico das emoções e dos desejos, sentidos, projetos e interesses de homens e mulheres que tecem — entre muitos fios, cores, linhas e agulhas — suas histórias na tapeçaria do tempo.

A história se torna, portanto, arma fundamental para esses tempos de enfrentamento. Como defende o professor Durval Muniz de Albuquerque Júnior, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN):

A História nos permite, pois, a relativização de tudo aquilo que define nosso tempo, permite o aprendizado de que aquilo que somos é apenas uma forma de ser entre muitas, nos permite saber como chegamos a ser o que somos e que esta forma ou estas formas não são as únicas possíveis. […] Portanto, uma das tarefas contemporâneas da História %C